17/02/2017

Leitura espiritual

A CIDADE DE DEUS

Vol. 1

LIVRO VII


CAPÍTULO X

Justifica-se a distinção de Jano e Júpiter?

Se Jano é o mundo e Júpiter também é o mundo, e se o mundo é só um, porque é que há dois deuses— Jano e Júpiter? Porque é que têm templos distintos, altares distintos, ritos diversos e diferentes imagens? Será porque, sendo o poder dos primórdios uma coisa totalmente diferente do poder das causas, um recebe o nome de Jano e outro o de Júpiter? Mas então, se um homem tem dois poderes ou duas profissões em assuntos diferentes, poderá dizer-se que é ao mesmo tempo dois juízes ou dois artífices? Será então necessário pensar que um só deus, pelo facto de ser ao mesmo tempo senhor das origens e das causas, deverá ser desdobrado? Se se considera legítimo este desdobramento, pois que se diga: «Júpiter é em si mesmo tantos deuses quantos os nomes que lhe são dados em consequência dos seus múltiplos poderes, porque os objectos que lhe valeram estes nomes são múltiplos e distintos»! Vou citar alguns.

CAPÍTULO XI

Apelidos de Júpiter que se referem não a muitos, mas a um e mesmo deus.

Chamaram-lhe Victor, Invictus, Opitulus, Impulsor, Stator, Centumpeda, Supinalis, Tigillus, Almus, Ruminus e outros mais títulos, cuja enumeração seria longal. Aplicaram estes apelidos a um só deus, atendendo aos diversos poderes, sem o levarem a multiplicar-se em tantos deuses quantas as actividades: isto é, triunfa de tudo, por ninguém é vencido, presta auxílio (ops) aos necessitados, tem o poder de derrubar, de tomar firme, de manter, de destruir, como viga (tigillus) mantém e sustenta o mundo, alimenta todos os seres — é ruma, isto é, a mama que nutre todos os seres animados. Como vimos, algumas destas funções são importantes, outras insignificantes — e, todavia, julgou-se que um só deus cumpriria umas e outras. Na minha opinião, as causas e as origens das coisas, que os levaram de um único mundo a fazerem dois deuses— Júpiter e Jano —, estão mais aparentadas do que as operações de sustentar o mundo e de dar mama aos seres animados. E, embora estas duas operações estejam tão afastadas uma da outra pela virtude e dignidade, ninguém pensou que delas se deviam fazer dois deuses: um só Júpiter se chamou Tigillus para a primeira e Ruminus para a segunda.

Abstenho-me de dizer que, para dar mama aos seres animados, Juno estaria mais apta do que Jove, tanto mais que havia a deusa Rúmina que podia ajudá-la na prestação destes serviços. É certo que poderão responder-me, julgo eu, que a própria Juno mais não é que o próprio Jove, conforme os versos de Valério Sorano:

Júpiter omnipotente, progenitor e progenitora dos reis e das coisas e dos deuses, progenitor e progenitora dos deuses, deus único e, ele só, todos estes.

Mas para que lhe chamaram Ruminus se, com um pouco de atenção, se descobre que ele mais não é que a deusa Rúmina? Realmente, se parecia indigno da majestade dos deuses que para uma só espiga, um fosse encarregado dos nós da haste, outro dos folículos que envolvem os grãos, quanto mais indigno não será que uma só operação ínfima, ou seja a do aleitamento dos animais, exija o cuidado de duas divindades, uma das quais seria Júpiter, o próprio rei de todos os deuses, e o faria, não com sua esposa mas não sei com que obscura Rúmina — a não ser que ele seja esta mesma Rúmina; ou talvez Ruminus quando são machos os que mamam e Rúmina quando são as fêmeas. Diria que recusaram a Jove um nome feminino se ele não fosse alcunhado, nesses versos, de «pai e mãe» ou se eu não lesse entre todos os seus outros apelidos o de Pecúnia, uma dessas deusas minúsculas mencionadas no livro quarto. Mas, se homens e mulheres têm dinheiro (pecunia), porque é que a Júpiter se não chamou Pecúnia e Pecúnio como Rúmina e Rúmino? Eles lá sabem!

CAPÍTULO XII

Júpiter também se chama Pecúnia.

O engenho que revelam na explicação deste nome! Chama-se Pecúnia, dizem, porque tudo lhe pertence. Que bela razão de um nome divino! Bem ao contrário, o que tudo possui fica aviltado e degradado ao receber este nome de Pecúnia! Porque, em comparação de tudo o que encerram o Céu e Terra, que é o dinheiro {pecúnia) no conjunto de todos os bens que os homens possuem por seu intermédio? Foi com certeza a avareza que deu este nome a Jove, para que todo aquele que ama o dinheiro pense que não ama um deus qualquer, mas o próprio rei de todos os deuses.

Seria muito diferente se lhe chamassem Divitiae (riquezas), porque uma coisa é a riqueza e outra coisa é o dinheiro. Chamamos ricos aos homens sábios, justos, virtuosos, que não têm dinheiro ou têm pouco. Eles são ricos de virtudes, graças às quais, mesmo para as necessidades materiais, basta o que há. Mas são pobres os avarentos, sempre ávidos e necessitados. Podem possuir grandes somas de dinheiro, mas, na sua opulência, não podem deixar de estar necessitados. Ao próprio Deus verdadeiro chamam com razão rico, não de dinheiro mas de omnipotência. É verdade que também se chamam ricos aos endinheirados: mas no fundo são indigentes se são dominados pela cupidez. Também se chamam pobres aqueles a quem falta dinheiro — mas no fundo eles são ricos se forem sábios!

Que poderá, pois, valer para o sábio esta teologia em que o rei dos deuses recebeu o nome de uma coisa

 que nenhum sábio desejou? [i]

Se esta doutrina pudesse trazer qualquer salutar ensino para a vida eterna, quão mais simplesmente se teria chamado a Deus Senhor do Mundo, não Dinheiro (Pecunia) mas Sabedoria (Sapientia) pois que esta limpa as imundícias da avareza, isto é, do amor ao dinheiro.

CAPÍTULO XIII

Da explicação do que é Saturno e Génio, resulta que os dois e Júpiter são um só.

Para quê mais considerações acerca de Júpiter, ao qual se devem, talvez, reduzir todos os deuses? Sendo ele todos os outros, não tem sentido conceber uma multidão de deuses, quer os concebamos como partes ou atributos de Júpiter, quer a força da alma (que julgam difundida por todas as coisas) tenha recebido os nomes de muitos deuses procedentes das partes desta massa, nas quais aparece este mundo visível, ou as tenha recebido das múltiplas opera­ ções da natureza.

De facto, quem é Saturno? Um dos principais deuses, diz Varrão, que domina sobre todas as sementeiras. Não nos diz a explicação dos versos de Valério Sorano que Júpiter é o mundo e que de si emite e em si recebe todas as sementes? Nesse caso, tem o domínio de todas as sementeiras.

E que é o Génio? É o deus, diz-nos ele, que preside e dá vigor a tudo o que se gera. Mas este vigor — a quem se julga que pertencerá senão ao mundo ao qual se referem estas palavras:

Júpiter, progenitor e progenitora?

E quando, noutra passagem, ele nos diz que Génio é a alma racional de cada um, e que, portanto, cada um tem a sua alma, e que Deus é a alma racional do mundo, conduz-nos ao mesmo ponto, isto é, a pensarmos que a própria alma do mundo é, como o Génio, universal. E é a este que se chama Júpiter. Porque, se todo o Génio é deus e se a alma de cada um é Génio, segue-se que a alma de todo e qualquer homem é deus. Se a sua absurdidade os obriga a rejeitar esta consequência, só falta chamar Génio e, evidentemente, deus ao Génio a que chamam espírito do Mundo, e, portanto, a Júpiter.

CAPÍTULO XIV

Funções de Mercúrio e de Marte.

Quanto a Mercúrio e Marte, não encontraram maneira de os relacionar com qualquer parte do mundo e as obras de Deus ínsitas nos elementos. Por isso os puseram pelo menos à frente das empresas dos homens como ministros da linguagem e da guerra. Mas, se Mercúrio estende o seu poder à linguagem dos próprios deuses, ele até o rei dos deuses comanda — se é verdade que Júpiter tem de falar como àquele apraz ou dele recebe a faculdade de falar, o que é manifestamente absurdo. Se se julga que é apenas sobre a linguagem humana que Mercúrio tem autoridade, não é de crer que Júpiter se tenha querido rebaixar ao papel de dar de mamar não só às crianças, mas mesmo aos animais (donde o seu nome de Rúmino), e tenha renunciado ao cuidado com a nossa fala, que nos torna superiores aos animais. Disto resulta que Júpiter e Mercúrio são o mesmo.

Dir-se-á que é a própria linguagem que se chama Mercúrio, como o indicam as interpretações dadas deste deus. Efectivamente, a palavra Mercúrio (Mercurius) significa medius currens (o que corre no meio), porque a linguagem corre como um mediador entre os homens. Ele preside também ao comércio porque entre vendedores e compradores a linguagem serve de intermediário. As asas. que apresenta na cabeça e nos pés significam que a linguagem voa através dos ares como uma ave. Chamam-lhe nuntius mensageiro) porque é por meio da linguagem que se anunciam todos os pensamentos. Portanto, se Mercúrio, conforme a interpretação que dão ao termo, é a própria linguagem, então, como eles mesmos confessam, não é deus. Mas, como criam para si deuses que nem demónios são, ao rogarem aos espíritos imundos são possuídos por estes espíritos que não são deuses mas demónios.

Da mesma forma, não tendo podido encontrar também para Marte um elemento ou uma parte do mundo onde ele cumprisse qualquer tarefa natural, fizeram dele o deus da guerra, que é uma tarefa humana e das menos apetecíveis. Se, portanto, a Felicidade assegurasse uma paz perpétua, Marte nada teria para fazer. Mas, se Marte é a própria guerra, como Mercúrio é a linguagem, oxalá que, assim como é manifesto que este não é deus, assim também deixe de existir a guerra a que tão falsamente chamam deus!

CAPÍTULO XV
+
Astros que os pagãos designaram com o nome de deuses.

Talvez esses deuses sejam aqueles astros a que foi dado o nome deles. Realmente, há um astro chamado Mercúrio e outro chamado Marte. Mas também há um chamado Júpiter, e todavia Júpiter é o Mundo. Há ainda um chamado Saturno, ao qual atribuem uma função de não pequena importância: o poder sobre todas as sementes. Há finalmente um, o mais brilhante de todos, a que chamam Vénus, que pretendem identificar com a Lua. Existe um astro brilhante acerca do qual, como acerca do pomo de ouro, discutem Juno e Vénus: uns dizem que a estrela da manhã (Lúcifer) pertence a Vénus, outros que a Juno. Mas, como é costume, é Vénus quem ganha. São muito mais os que atribuem esta estrela a Vénus e muito poucos os de diferente opinião. Mas quem é que não rirá ao ouvir proclamar Júpiter rei de todas as coisas e ao mesmo tempo reparar que o seu astro é tão superado em esplendor pelo de Vénus? Júpiter deveria superar os outros em esplendor, tal como os supera em poder. É assim, replicam, porque o astro que parece mais obscuro está mais alto e muito mais distante da Terra. Se, pois, a uma dignidade maior corresponde uma posição mais elevada, porque é que Saturno está no Céu acima de Júpiter? A mentira da fábula, que fez de Júpiter rei, não pôde chegar aos astros? E a posição que Saturno não pôde conservar no seu reino nem no Capitó­ lio, permitiu-se-lhe que a mantivesse no Céu? Então, porque é que Jano não recebeu um astro? Será porque nele, visto ser o Mundo, todos se encontram? Mas também Júpiter é o Mundo, e todavia tem um. Será que Jano lá se arranjou como pôde e, por um astro que não tem no Céu, recebeu tantas caras na Terra? De resto, se se basearam apenas nos astros para fazerem de Mercúrio e de Marte partes do mundo e para os considerarem como deuses (porque, realmente, nem a Linguagem nem a Guerra são partes do mundo, mas actos humanos) — então porque é que o Carneiro, o Touro, o Caranguejo, o Escorpião e outros que tais (que eles contam entre os sinais celestes e que são compostos, não de uma única estrela mas cada um de várias, colocados muito acima dos referidos astros de deuses, no cume do Céu em que o movimento mais constante assegura às estrelas um curso invariável), então porque é, repito, que estes não receberam nem altar, nem sacrifícios, nem templos, e porque é que não os colocam, não digo entre os deuses escolhidos, mas, pelo menos, entre os da plebe?

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Salústio, Catilim, XI, 3.

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