28/01/2017

Leitura espiritual


Leitura espiritual


A Cidade de Deus 

Vol. 1

LIVRO V

Começa por procurar extirpar a crença no destino para que se não mantenham seguros os que a ele atribuem o poderio e o incremento romano, já que, como se demonstrou no livro precedente, não é pos­sível atribuí-lo aos falsos deuses. Daí a digressão até à questão da presciência de Deus, ficando provado que ela não nos priva do livre arbítrio da nossa vontade. Depois trata dos costumes dos antigos romanos e de como o verdadeiro Deus, que eles não adoravam, os ajudou a engrandecer o Império, quer por seus méritos quer por decisão divina. Por fim dá parecer acerca da verdadeira felicidade dos imperadores cristãos.

PREFÁCIO

É inteiramente certo que a plena satisfação de todos os nossos desejos é que constitui a felicidade — que não é uma deusa mas um dom de Deus. Consequentemente, nenhum Deus deve ser venerado pelos homens a não ser Aquele que os pode tom ar felizes (daí que, se ela fosse uma deusa, dever-se-ia declarar com toda a razão que só ela é digna de ser adorada). Já agora, vejamos por que razão é que Deus — que pode conceder aqueles bens que até mesmo os que não são bons (e por isso também infelizes) podem ter — quis que o Império Romano fosse tão extenso e tão duradouro. Porque, na verdade, não foi a multidão de falsos deuses que eles adoravam quem o fez. A este respeito já muito dissemos e, quando parecer oportuno, voltaremos a dizê-lo.

CAPÍTULO I

A origem do Império Romano bem como a de todos os reinos não foi fortuita nem resultou da posição das estrelas.

A causa da grandeza do Império Romano não é evidentemente fortuita nem fatal no sentido ou opinião dos que chamam fortuitos aos acontecimentos que não têm causa ou não provêm de uma ordem racional, e fatais aos que resultam necessariamente de certa ordem independente da vontade de Deus e dos homens. É seguramente a Providência divina que estabelece os reinos humanos. Se alguém o atribuir ao destino, chamando «destino» à própria vontade oui omnipotência de Deus, pois mantenha a sua opinião, mas corrija a linguagem. Porém, porque é que não diz logo de início o que virá a dizer quando se lhe perguntar a que é que chama «destino»? Na verdade, quando a ouvem, os homens tomam esta palavra no sentido usual e não pensam senão na força da posição dos astros tal qual como ela se apresenta quando alguém nasce ou é concebido. Alguns consideram-na, a essa força, alheia e outros, subordinada à vontade de Deus. Mas aqueles para quem os astros decidem, sem a vontade de Deus, do que fazemos ou dos bens que possuiremos ou dos males que teremos de suportar, devem ser impedidos de fazer-se ouvir não só dos que observam a verdadeira religião, mas também dos devotos de qualquer deus, mesmo falso. Na verdade, esta opinião que mais pretende senão que nenhum deus se adore nem a ele se dirija a oração? Mas, por ora, não é contra os que defendem esta opinião que se dirige a nossa discussão, mas contra os que, para defenderem os seus pretensos deuses atacam a religião cristã.

Aqueles que fazem depender da vontade de Deus a posição das estrelas que decidem de certo modo do carácter de cada um e dos acontecimentos bons ou maus da sua vida, — se julgam que essas estrelas, que receberam esse poder do poder supremo, decidem desses acontecimentos como lhes apetece — grave ofensa fazem ao Céu. Tomam o Céu por uma espécie de ilustre senado e esplêndida cúria em que se decide dos crimes que se podem cometer — crimes esses que, se fosse alguma cidade terrena a votá-los, tal cidade teria de ser destruída por decisão do género humano. Que possibilidade se deixa a Deus, senhor dos astros e dos homens, para julgar os actos humanos submetidos à fatalidade dos astros? Ou, se disserem que as estrelas, tendo recebido do Deus Supremo o seu poder, não decidem desses crimes segundo seu arbítrio mas se limitam a executar rigorosamente as suas ordens nas decisões fatais que tomam — não será isso atribuir ao próprio Deus o que pareceu indigno da vontade das estrelas?

 Poderão ainda dizer que as estrelas indicam, mas não realizam os acontecimentos. É como se a sua posição fosse uma linguagem de pre­dizer e não de realizar o futuro (foi de facto este o parecer de homens não mediocremente doutos). Não é, porém, assim que os astrólogos costumam falar. Não dizem, por exemplo: «esta posição de Marte anuncia um homicida» mas «faz um homicida». Concedamos, porém, que eles não falam como devem e que deviam tomar dos filósofos a sua maneira de falar para anunciarem os acontecimentos que julgam descobrir na posição dos astros. Como é que acontece que nunca puderam explicar porque é que na vida dos gémeos, nos seus actos, nos seus sucessos, nas suas profissões, nas suas habilidades, nas suas honras, nos outros acontecimentos que respeitam à vida humana e na sua própria morte, há tão grande diversidade, ao ponto de muitos estranhos se parecerem mais a gémeos do que estes se parecem um ao outro, apesar do tão breve intervalo que separa o seu nascimento e da sua comum concepção produzida pelo mesmo acto e no mesmo momento?

CAPÍTULO II

A saúde dos gémeos — ora parecida, ora diferente.

Conta Cícero que Hipócrates, médico notabilíssimo, deixou escrito que suspeitava de que certos irmãos eram gémeos porque começavam a adoecer ao mesmo tempo e porque ao mesmo tempo se lhes agravava a doença e ao mesmo tempo melhoravam. Mas o estóico Posidónio, muito dado à astrologia, costumava afirmar que eles tinham nascido sob a mesma constelação e que sob a mesma constelação tinham sido concebidos. Assim o que o médico julgava que se ligava à grande semelhança de temperamentos, atribuía-o o filósofo-astrólogo à força e à disposição dos astros que se verificava no momento em que foram concebidos e no momento em que nasceram. Neste caso é, à primeira vista, muito mais aceitável e crível a hipótese do médico, porque o estado de saúde do corpo dos pais quando se unem pode afectar os primeiros tempos dos concebidos, de maneira que, tendo os seus pri­meiros desenvolvimentos no corpo da mesma mãe, nascem com igual compleição. Depois, sustentados com os mesmos alimentos e na mesma casa onde, segundo o testemunho da medicina, o ar, a disposição dos lugares e as propriedades das águas exerceram uma grande influência, boa ou má, nos seus corpos, e acostumados, enfim, aos mesmos exercícios, puderam desenvolver corpos tão semelhantes que as mesmas causas provocaram neles, no mesmo momento, a mesma doença. Mas querer ligar a posição do céu e dos astros, que se verificou quando foram concebidos ou nasceram, a essa doença idêntica e simultânea, quando tantos seres diferentes na origem, no comportamento e no destino, puderam ser concebidos e nascer no mesmo instante, no mesmo país e sob o mesmo céu,— constitui isso qualquer coisa de insólito que eu não sei qualificar. O que é certo, porém, é que nós conhecemos gémeos que não só exerceram diferentes actividades e fizeram diferentes viagens mas também padeceram de doenças diferentes. A meu ver, Hipócrates poderá dar deste caso uma explicação facílima: uma diferença de alimentação e de exercícios, que resulta não da constituição do corpo mas do poder da vontade, pode provocar diferenças de saúde. Todavia seria maravilhoso se Posidónio ou qualquer outro defensor da fatalidade astral pudesse achar para este caso uma explicação, se é que não quer troçar dos que destas questões nada sabem. Tentam pôr em relevo o exíguo intervalo de tempo entre o nascimento de um e outro gémeo e, portanto, a partícula do céu onde está marcada a hora do nascimento e a que chamam horóscopo. Mas então, ou esse intervalo não tem tanta influência para explicar nos gémeos a sua diferença de vontades, de actos, de comportamentos e de sucessos; ou então tem-na demais para a identidade, quer da humildade quer da nobreza da sua origem, já que pretendem que tão grande diferença de condição depende apenas da hora em que cada um nasce. Se nascem um depois do outro em tão curto intervalo que o seu horóscopo tem que ser o mesmo, então reclamo para eles igualdade plena, o que em nenhuns gémeos poderão jamais encontrar; se, porém, a demora do segundo a nascer muda o horóscopo, então reclamo pais diferentes, o que não podem ter os gémeos. [468] r
CAPÍTULO III Argumento da roda do oleiro utilizado pelo astrólogo Nigídio na questão dos gémeos. É pois em vão que se recorre à célebre teoria da roda do oleiro que Nigídio, embaraçado com esta questão, deu em resposta, diz-se — e daí ter sido alcunhado de Fígulo (Figulus = oleiro). Com quanta força pôde, imprimiu grande velocidade à roda do oleiro. Enquanto ela girava, marcou-a por duas vezes com tinta preta, com a maior rapidez, como se o fizesse no mesmo sítio. Depois, parada que ficou a roda, encontraram-se na borda umas marcas bas­tante distanciadas. É assim, diz ele, que acontece na rapidíssima rotação do céu. Embora os gémeos nasçam um depois do outro tão rapidamente como a marcação dos sinais da roda, isso constituirá no céu uma grande distância. Daí provêm, diz ele, todas as dissemelhanças verificadas nos comportamentos e nos sucessos dos gémeos.

Esta ficção ainda é mais frágil do que os vasos modelados naquela roda. Efectivamente, se tanto se repercute no céu esta distância (que é impossível de medir pelas constelações) que a um dos gémeos cabe uma herança e o outro é dela privado como é que se atrevem a predizer aos que não são gémeos, depois de observadas as suas constelações, os acontecimentos envoltos em mistério que ninguém pode compreender, e a explicá-los pelos momentos do nascimento?

Mas se, em face disto, disserem que se realizam as predições dos nascimentos de outras crianças porque se referem a um intervalo de tempo mais longo — ao passo que aqueles minúsculos instantes que podem mediar entre o nascimento de um e de outro gémeo, predizem insignificantes acontecimentos acerca dos quais os astrólogos não são ordinariamente consultados (efectivamente, quem é que pergunta quando é que se deve sentar, passear ou sentar-se à mesa e o que é que há-de comer?) — será então que nos referimos a estes pormenores quando nos gémeos assinalamos numerosas e grandes diferenças no seu comportamento, nos seus actos, nos seus sucessos?

CAPÍTULO IV

Os gémeos Esaú e Jacob foram muito diferentes na qualidade do seu comportamento e das suas acções.

Nos antigos tempos dos Patriarcas nasceram dois gémeos (para citar os mais célebres), tão seguidos um ao outro que o segundo tinha agar­rado o pé do primeiro. Foram tão grandes as diferenças nas suas vidas, no seu comportamento, foi tão grande a disparidade dos seus actos e tamanha a diferença no amor dos seus pais, que a pró­ pria distância os tomaria inimigos. Acaso quererá com isto dizer-se que um passeava quando o outro se sentava, que um dormia quando o outro estava acordado, que um falava quando o outro estava calado, — pormenores respeitantes a minúcias que não podem ser compreendidas pelos que anotam a posição dos astros quando nasce alguém para de seguida consultarem os astrólogos? Um serviu a soldo, o outro não serviu; um foi amado pela mãe, o outro não; um perdeu um título honorífico que entre eles era muito apreciado, o outro adquiriu-o. E que dizer das esposas, dos filhos, dos bens? Que diferença!

Se estas disparidades dependem daquelas pequenas diferenças de tempo que separam o nascimento dos gémeos e não estão assinaladas nas constelações, porque é que dizem que as encontram marcadas quando se observam as constelações das outras crianças? Talvez respondam: é porque elas dependem, não de curtos instantes não observáveis, mas de espaços de tempo que podem ser observados e anotados. Nesse caso, que faz aqui a dita roda do oleiro senão condenar a andarem à volta homens de coração de barro com medo de serem convencidos pela tagarelice dos astrólogos?


(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)


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