18/01/2017

Leitura espiritual


Leitura espiritual


A Cidade de Deus 



Vol. 1

LIVRO IIII

CAPÍTULO XXXI

Quão impudentemente imputam a Cristo os males actuais aque­les a quem não é consentido o culto dos deuses, quando tamanhas desgraças aconteceram no tempo em que eram adorados.

Acusem os seus deuses de tão grandes males aqueles que não agradecem a Cristo tão grandes bens. Com certeza, quando aqueles males apareceram, o fogo ardia nos altares dos numes, o incenso de Sabá e as grinaldas frescas perfumavam-nos, os sacerdócios gozavam de prestígio, os santuários resplandeciam; nos templos faziam-se sacrifí­cios, organizavam-se jogos e entrava-se em transe. Era quando o sangue dos cidadãos, por cidadãos derramado, corria de todos os lados, não apenas em certos lugares, mas mesmo por entre os altares dos deuses. Não foi um templo que Túlio escolheu para seu refúgio, porque em vão o escolhera Múcio. Mas aqueles que com maior indignação amaldiçoaram os tempos cristãos, refugiaram- -se nos lugares especialmente consagrados a Cristo ou foram para aí conduzidos pelos próprios bárbaros para que vivessem.

Eu bem o sei, e comigo o reconhece facilmente qualquer que julgue sem partidarismo (aliás omitirei muitos factos já por mim citados, e outros muito mais que julgo seria longo lembrar): se o género humano tivesse recebido a doutrina cristã antes das guerras púnicas, e se tivessem surgido tantas devastações quantas as que afligiram a Europa e a Ásia durante aquelas guerras, nenhum daqueles, cujos ataques agora suportamos, deixaria de atribuir estes males à religião cristã.

Mas os seus clamores, no que respeita aos Romanos, seriam ainda muito mais insuportáveis se a religião cristã tivesse sido recebida e difundida antes da invasão dos Gauleses ou das devastações e das inundações do Tibre e do incêndio, ou, o que ainda é o pior de todos os males, das guerras civis. Houve ainda outros males tão inconcebí­veis, que eram contados como prodígios. Se tivessem acontecido em tempos cristãos — sobre quem recairia a responsabilidade, como se de crimes se tratasse, senão sobre os cristãos? Não refiro, naturalmente, aqueles acontecimentos que são mais de pasmar do que de temer: bois que falam, crianças por nascer que proferem certas palavras no ventre materno, serpentes que voam, galinhas, mulheres e homens que mudaram de sexo, e outros quejandos. Verdadeiros ou falsos, estes acontecimentos que se lêem nos seus livros não fabulosos mas históricos, causam pasmo às pessoas, mas não as prejudicam. Mas, quando chove terra, quando chove greda, quando chovem pedras (pedras de verdade e não de granizo, como também é costume chamar-se-lhes) — isto pode causar prejuízos mesmo graves. Lemos neles que a lava inflamada do Etna, correndo do cume do monte até ao litoral próximo, fez ferver de tal forma o mar, que as rochas ficaram abrasadas e o pez dos navios se derreteu. Isto é que, sendo incrivelmente espantoso, na verdade causou prejuízos, e não pequenos! Uma idêntica erupção, escrevem, sepultou a Sicília sob uma camada tão espessa de cinzas ardentes, que as casas de Catânia ficaram esmagadas e sepultadas.

Comovidos com esta calamidade, os Romanos, por compaixão, eximiram-na de impostos nesse ano. Contam ainda nos seus livros que, na África, quando já era província romana, se abateu uma praga de gafanhotos que parecia um prodígio. Dizem que depois de terem consumido os frutos e as folhas das árvores, se lançaram ao mar como uma nuvem de ingentes proporções. Conta-se que, tendo  1 eles sido devolvidos já mortos às praias, e por isso tendo corrompido os ares, surgiu uma tão grande epidemia que só no reino de Masinissa morreram oitocentos mil homens e muito mais em terras vizinhas do litoral. Asseguram que, em Útica, dos trinta mil jovens que contava, apenas dez mil teriam sobrevivido.

Uma falta de senso como a que estamos suportando e a que somos constrangidos a responder — qual destes males não teria ela atribuído à religião cristã se os tivesse presenciado nos tempos cristãos? E con­tudo não os atribuem aos seus deuses, cujo culto reclamam de novo para não suportarem males bem menores, quando os seus antepassados, pelos quais eles antes eram venerados, males bem mais pesados tiveram outrora de suportar.

LIVRO IV

Prova-se que a amplidão e a duração do Império Romano não se devem nem a Júpiter nem aos deuses dos pagãos. Os poderes destes deuses estavam restringidos a particulares e ínfimos cometimentos. É obra apenas do verdadeiro Deus, autor da felicidade, por cujo poder e decisão se constituem e se conservam os reinos da Terra.

CAPÍTULO I

O que foi discutido no livro primeiro.

No princípio desta obra sobre A Cidade de Deus, achei que devia começar por responder aos seus inimigos que andam em busca dos gozos terrenos e, ávidos de bens fugazes, acusam a religião cristã — única salutar e verdadeira religião —, das tristezas que eles têm que suportar mas que são mais uma advertência da misericórdia de Deus do que um castigo da sua severidade.

E como entre eles há uma multidão de ignorantes, acende-se mais fortemente o seu ódio contra nós. Baseados na autoridade dos seus doutores e na sua ignorância, julgam que os males insólitos dos seus tempos não teriam acontecido nos tempos passados.

Como esta opinião é ainda reforçada por esses doutores, que sabem que ela é falsa mas dissimulam o que sabem, para que pareça que há justas razões para murmurarem contra nós, — necessário se torna demonstrar, com a ajuda dos livros em que os seus autores consignaram as recordações das épocas passadas, que os aconteci­mentos foram bem diferentes do que julgam, como necessário se tomou ainda esclarecer que os falsos deuses, que publicamente adoravam ou que agora adoram às ocultas, são espíritos imundíssimos, os mais maléficos e os mais enganadores demónios que chegaram a comprazer-se com os seus crimes reais ou fictícios, e quiseram que os representassem solenemente nas suas festas para que a fraqueza humana não deixasse de cometer actos condenáveis quando uma pretensa autoridade divina os oferecia à sua imitação.

Provámo-lo, não com conjecturas nossas, mas, em parte, com recordações recentes — pois nós próprios vimos representar tais infâmias em honra de tais deuses —, e em parte com os escritos dos que deixaram à posteridade o relato dos ritos, não para ultraje dos seus deuses mas em sua honra. Tanto assim é que Varrão, um dos mais doutos e de maior autoridade entre eles, tratou, em obras distintas, as questões humanas e as questões divinas, consagrando umas às humanas outras às divinas, arrumando cada uma dessas questões conforme a sua dignidade: colocou os jogos cénicos, não entre as questões humanas, mas entre as divinas. Na realidade, porém, se na cidade só houvesse homens bons e honestos, nem entre as humanas teriam sido colocados os jogos cénicos. Isto de certo não o fez Varrão por autoridade própria, mas porque, nascido e educado em Roma, os encontrou entre as instituições divinas.

E, como no final do livro primeiro indicámos concisamente o que iríamos de imediato expor, falámos de algumas questões nos dois livros seguintes, sabemos o que falta agora expor para satisfazer a expectativa dos leitores.

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)


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