29/11/2016

Leitura espiritual


DE MAGISTRO

(DO MESTRE)

CAPÍTULO X

SE É POSSÍVEL ENSINAR ALGO SEM SINAIS.
AS COISAS NÃO SE APRENDEM PELAS PALAVRAS

AGOSTINHO

– Parece-te que podemos indicar, sem uso de sinais, tudo que podemos fazer, logo após sermos interrogados, ou algo deve ser excluído?

ADEODATO

– Na verdade, tenho pensado muito neste género de coisas, sem, todavia encontrar nada que se possa ensinar sem sinal, executando, talvez, o próprio falar e ensinar, mas este só se nos perguntarem o que é ensinar.
Parece-me que quem pergunta – qualquer coisa que eu faça após a indagação para que aprenda – não o pode aprender através da própria coisa, que deseja lhe seja mostrada.
Por exemplo: se quando estou fazendo outra coisa, alguém me perguntasse que é caminhar e eu, imediatamente, buscasse demonstrar-lhe a coisa sem usar sinais começando a caminhar, como poderia evitar que ele entendesse que caminhar é apenas o quando andei?
Ora, se ele pensar nisso, terá sido levado a engano, pois julgará que quem andar mais, ou menos, do quanto eu andei, não caminhou.
E o que vale quanto a esta palavra aplica-se também a todas aquelas que julguei se possam mostrar sem sinal, menos as duas que exclui.

AGOSTINHO

– Concordo com isso, mas não te parece que falar é uma coisa e ensinar é outra?

ADEODATO

– Certamente, pois se fossem a mesma coisa não se poderia ensinar senão falando; ora, como muitas coisas são ensinadas com outros sinais que não palavras, quem poderia negar a diferença?

AGOSTINHO

– Ensinar e significar são a mesma coisa ou diferem em algo?

ADEODATO

– Creio que a mesma.

AGOSTINHO

– Será correcto afirmar que nós usamos de sinais (que significamos) para ensinar?

ADEODATO

– Sem dúvida.

AGOSTINHO

– Se alguém afirmasse que ensinamos para usar sinais (para significar), não seria facilmente refutado pela afirmação precedente?

ADEODATO

– Seria.

AGOSTINHO

– Se usarmos, pois, os sinais para ensinar, não ensinamos para usar os sinais: uma coisa é ensinar e outra é usar os sinais (significar)

ADEODATO

– É verdade, e quando disse que eram a mesma coisa, eu não respondi correctamente.

AGOSTINHO

– Agora, responde a isto: quem ensina o que é ensinar o faz usando sinais ou outro modo?

ADEODATO

– Não vejo como o poderia fazer diversamente.

AGOSTINHO

– Não é, pois, verdade a tua afirmação anterior, isto é, que não se pode ensinar sem sinais a quem indague o que é ensinar, porque constatamos que nem mesmo isto podemos fazer sem usar sinais, pois me concedeste que uma coisa é usar sinais (significar) e outra ensinar.
Se são coisas distintas e uma se mostra pela outra, quer dizer que certamente não se mostra por si mesma, como te pareceu.
Portanto até aqui nada encontramos que se mostre por si mesmo, salvo a palavra que, entre as outras coisas, significa também a si mesma; mas como ela também é um sinal, parece nada haver que possa ensinar-se sem sinais.

ADEODATO

– Nada tenho a opor.

AGOSTINHO

– Concluímos então que nada pode ser ensinado sem sinais, e que o próprio conhecimento tem de ser, para nós, mais caro que os sinais pelos quais o obtemos, embora nem todas as coisas que eles exprimem devam ser preferidas aos seus próprios sinais.

ADEODATO

– Parece ser assim mesmo.


(Revisão de versão portuguesa por ama

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