28/11/2016

Leitura espiritual


DE MAGISTRO

(DO MESTRE)

CAPÍTULO IX

SE DEVEMOS PREFERIR AS COISAS, OU O

CONHECIMENTO DELAS, AOS SINAIS

AGOSTINHO

– Queria, pois, que bem compreendesse que são mais importantes as coisas significadas do que seus sinais.
Tudo o que existe em função de outra coisa, necessariamente tem valor menor que a coisa pela qual existe, se concordas com isso.

ADEODATO

– Parece-me impróprio concordar com isto sem refletir.
Quando, por exemplo, se diz:
coenum” (lamaçal), parece-me que este nome seja em muito superior à coisa que significa.
De facto, o que desagrada ao ouvirmos esta palavra não é o som; “coenum”, mudando apenas uma letra, torna-se “coelum” (céu), mas é evidente a enorme diferença que há entre as coisas que estes dois nomes significam. Por isso eu não teria por essa palavra toda a repulsa que tenho ao que significa, e, portanto, eu a prefiro a isso; pois menos desagrada o seu som do que ver ou tocar a coisa que significa.

AGOSTINHO

– Falas com sabedoria. Assim, não seria correcto afirmarmos que todas as coisas têm valor superior aos sinais que as exprimem.

ADEODATO

– Assim parece.

AGOSTINHO

– Diz-me, então, qual seria a intenção dos que deram um nome a coisa tão feia e desagradável? Tu os aprovas ou desaprovas?

ADEODATO

– Na verdade, não me acho em condição nem de aprová-los nem de desaprová-los, e também não sei que intenção tiveram.

AGOSTINHO

– Poderás, ao menos, dizer-me qual a tua intenção, a finalidade de pronunciares esse nome?

ADEODATO

– Sim; ao pronunciá-lo, quero avisar ou ensinar ao meu interlocutor aquilo que julgo necessário avisá-lo ou ensiná-lo.

AGOSTINHO

– Como? O facto de ensinar e avisar, ou de receber tal ensinamento, facilmente expresso com este nome, não deveria talvez ser-te mais caro que a própria palavra?

ADEODATO

– Admito que o conhecimento obtido por este sinal seja preferível ao próprio sinal, mas não preferível à coisa em si.

AGOSTINHO

– Então, no que acima afirmamos, embora seja falso que devemos sempre preferir as coisas aos seus sinais, é verdade que tudo o que existe em função de outra coisa tenha valor menor que a coisa pela qual existe.
O conhecimento, pois, do lamaçal, para o qual foi instituído esse nome, há de ser considerado mais que a palavra que, por sua vez, vimos ser preferível ao próprio lamaçal. E é bem esse o motivo do conhecimento ser preferível ao sinal de que estamos tratando, pois este existe devido àquele e não aquele por causa deste.
Assim, aquele glutão, devotado ao ventre, conforme relata o Apóstolo, quando disse que vivia para comer, foi contestado por um homem sóbrio, que lhe ouviu as palavras e, não tolerando-as, assim o redarguiu:
“Bem melhor seria que comesses para viver”; e vemos que o sóbrio falou assim seguindo essa mesma regra (regra que estabelece que tudo o que é devido a outra coisa, como no caso de comer que é subordinado ao viver – é inferior à coisa pela qual existe).
O comilão desagradou porque avaliava tão miseravelmente sua vida, que a tinha em menor conta que os prazeres do paladar, afirmando viver para comer.
O homem sóbrio é digno de louvor porque, compreendendo qual das duas coisas (comer e viver) é feita para a outra, ou seja, qual está subordinada à outra, alertou que devíamos comer para viver e não viver para comer.
Do mesmo modo, tu e todo homem sensato que aprecie as coisas pelo seu valor e justo lado, se um charlatão afirmasse:
“Ensino para falar”, lhe responderias:
“Homem, não seria melhor falar para ensinar?”
Ora, se tais coisas são verdadeiras, como aliás reconheces, observa quanto as palavras têm menor importância, em comparação com aquilo por que as usamos; sendo que o próprio uso das palavras já é mais importante do que elas próprias.
As palavras, pois, existem para que as usemos, e as usamos para ensinar.
Por isso, ensinar é melhor que falar, e assim o discurso é melhor que a palavra.
Muito melhor que as palavras é, portanto, a doutrina.
Mas quero ouvir de ti se por acaso tenhas algo a opor.

ADEODATO

– Concordo em que a doutrina seja preferível às palavras; mas talvez se possa levantar objecção contra a regra que diz:
“tudo o que existe em função de outra coisa é inferior aquilo pelo qual existe”.

AGOSTINHO

– Trataremos disto a seu tempo e com mais detalhes: por enquanto, o que concedes já basta para que eu chegue aonde me proponho.
Concordas, pois, que o conhecimento das coisas é mais importante que os sinais que as exprimem.
Por isso, o conhecimento das coisas significadas deve ser preferido ao conhecimento dos sinais, não te parece?

ADEODATO

– Mas eu disse, por acaso, que o conhecimento das coisas não é superior ao dos sinais, ou melhor, que é superior aos próprios sinais?
Por isto hesito em concordar contigo neste ponto.
Se o nome “lamaçal” é melhor que seu significado, por que o conhecimento deste nome não haveria de ser também melhor que o da coisa, embora o nome em si seja inferior aquele conhecimento?
Lidamos aqui com quatro termos: nome, coisa, conhecimento do nome e conhecimento da coisa.
Como o primeiro é superior ao segundo, por que também o terceiro não seria superior ao quarto? E, em não lhe sendo superior, acaso lhe estaria subordinado?

(Revisão de versão portuguesa por ama)

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