15/11/2016

Leitura espiritual



Leitura Espiritual


Amigos de Deus



São Josemaria Escrivá

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Nossa Mãe

Os filhos, especialmente quando são ainda pequenos, costumam pen­sar no que hão-de fazer por eles os seus pais, esquecendo-se das suas obrigações de piedade filial.
Nós, os filhos, somos geralmente muito interesseiros, embora esta nossa conduta - já o fizemos notar - não pareça incomodar muito as mães, porque têm suficiente amor nos seus corações e querem com o melhor carinho: aquele que se dá sem esperar correspondência.

Assim acontece também com Santa Maria.
Mas hoje, na festa da sua Maternidade divina, temos de nos esforçar por fazer uma reflexão mais profunda.
Hão-de doer-nos, se as encontrarmos, as nossas faltas de delicadeza com esta boa Mãe.
Pergunto-vos e pergunto-me a mim mesmo: como a honramos?

Voltemos mais uma vez à experiência de cada dia, ao modo de tratar com as nossas mães na terra.
Acima de tudo, que desejam dos seus filhos, que são carne da sua carne e sangue do seu sangue?
O seu maior desejo é tê-los perto.
Quando os filhos crescem e não é possível continuarem a seu lado, aguardam com impaciência as suas notícias, emocionam-se com tudo o que lhes acontece, desde uma ligeira doença até aos acontecimentos mais importantes.

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Olhai: para a nossa Mãe, Santa Maria, jamais deixamos de ser pequenos, porque Ela nos abre o caminho até ao Reino dos Céus, que será dado aos que se tornam meninos.
De Nossa Senhora nunca nos devemos afastar.
Como a honraremos?
Tendo intimidade com Ela, falando com Ela, manifestando-lhe o nosso carinho, ponderando no nosso coração os episódios da sua vida na terra, contando-lhes as nossas lutas, os nossos êxitos e os nossos fracassos.

Descobriremos assim, como se as recitássemos pela primeira vez, o sentido das orações marianas, que sempre se rezaram na Igreja.
O que são a Ave-Maria e o Angelus, senão louvores calorosos à Mater­nidade divina?
E no Santo Rosário - essa maravilhosa devoção, que nunca me cansarei de aconselhar a todos os cristãos - passam pela nossa cabeça e pelo nosso coração os mistérios da conduta admirável de Maria, que são os próprios mistérios fundamentais da fé.

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O ano litúrgico aparece engalanado de festas em honra de Santa Maria.
O fundamento deste culto é a Maternidade divina de Nossa Senhora, origem da plenitude dos dons naturais e da graça com que a Santíssima Trindade a adornou.
Demonstraria escassa formação cristã - e muito pouco amor de filho - quem temesse que o culto da Santíssima Virgem pudesse diminuir a adoração que se deve a Deus.
A Nossa Mãe, modelo de humildade, cantou: chamar-me-ão bem-aventurada todas as gerações, porque fez em mim grandes coisas aquele que é Todo-poderoso, cujo nome é santo e cuja misericórdia se estende de geração em geração, a todos os que o temem.

Nas festas de Nossa Senhora não regateemos as demonstrações de carinho; elevemos com mais frequência o coração pedindo-lhe aquilo de que necessitamos, agradecendo-lhe a sua solicitude maternal e constante, encomendando-lhe as pessoas que estimamos.
Mas, se pretendemos comportar-nos como filhos, todos os dias serão ocasiões propícias de amor a Maria, como o são para os que se querem deveras.

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Talvez agora algum de vós possa pensar que o dia ordinário, o habitual ir e vir da nossa vida, não se presta muito a manter o coração numa criatura tão pura como Nossa Senhora.
Convidar-vos-ia a reflectir um pouco.
Que procuramos sempre, mesmo sem especial atenção, em tudo o que fazemos?
Quando nos move o amor de Deus e trabalhamos com rectidão de in­tenção, procuramos o que é bom, o que é limpo, o que dá paz à consciência e felicidade à alma.
Também cometemos muitos erros?
Sim, mas precisamente reconhecer esses erros é descobrir com maior clareza que a nossa meta é esta: uma felicidade que não passe, profunda, serena, humana e sobrenatural.

Existe uma criatura que conseguiu nesta terra essa felicidade, porque é a obra-prima de Deus: a Nossa Mãe Santíssima, Maria.
Ela vive e protege-nos; está junto do Pai e do Filho e do Espírito Santo, em corpo e alma.
É Aquela mesma que nasceu na Palestina, que se entregou ao Senhor desde menina, que recebeu a anunciação do Arcanjo Gabriel, que deu à luz o Nosso Salvador, que esteve junto d'Ele ao pé da Cruz.

N'Ela se tornam realidade todos os ideais, mas não devemos concluir daí que a sua sublimidade e grandeza no-la apresentem inacessível e distante.
É a cheia de graça, a suma de todas as perfeições; e é Mãe.
Com o seu poder diante de Deus conseguirá o que lhe pedirmos; como Mãe, quer conceder-no-lo.
E, também como Mãe, entende e compreende as nossas fraquezas, anima-nos, desculpa-nos, facilita o caminho, tem sempre o remédio preparado, mesmo quando parece que já nada é possível.

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Quanto cresceriam em nós as virtudes sobrenaturais se conseguíssemos verdadeira devoção a Maria, que é Nossa Mãe!
Não nos importemos de lhe repetir durante todo o dia - com o coração, sem necessidade de palavras - pequenas orações, jaculatórias.
A devoção cristã reuniu muitos desses elogios carinhosos na Ladainha que acompanha o Santo Rosário.
Mas cada um de nós tem a liberdade de os aumentar, dirigindo-lhe novos louvores, dizendo-lhe o que - por um santo pudor que Ela entende e aprova - não nos atreveríamos a pronunciar em voz alta.

Aconselho-te - para terminar - que faças, se o não fizeste ainda, a tua experiência particular do amor materno de Maria.
Não basta saber que Ela é Mãe, considerá-la deste modo, falar assim d'Ela.
É tua Mãe e tu és seu filho; quer-te como se fosses o seu único filho neste mundo.
Trata-a de acordo com isso: conta-lhe tudo o que te acontece, honra-a, ama-a.
Ninguém o fará por ti, tão bem como tu, se tu não o fizeres.

Asseguro-te que, se empreenderes este caminho, encontrarás imedia­tamente todo o amor de Cristo; e ver-te-ás metido na vida inefável de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo.
Conseguirás forças para cumprir bem a Vontade de Deus, encher-te-ás de desejos de servir todos os homens.
Serás o cristão que às vezes sonhas ser: cheio de obras de caridade e de justiça, alegre e forte, compreensivo com os outros e exigente contigo mesmo.

Este e não outro é o carácter da nossa fé.
Recorramos a Santa Maria, que Ela nos acompanhará com um passo firme e constante.

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Sentimo-nos tocados, com o coração a bater com mais força, quando ouvimos com toda a atenção este brado de S. Paulo: esta é a vontade de Deus: a vossa santificação.
Hoje, mais uma vez o repito a mim mesmo e também o recordo a cada um e à Humanidade inteira: esta é a vontade de Deus, que sejamos santos.

Para pacificar as almas com uma paz autêntica, para transformar a Terra, para procurar Deus Nosso Senhor no mundo e através das coisas do mundo, é indispensável a santidade pessoal.
Nas minhas conversas com gente de tantos países e dos ambientes sociais mais diversos, perguntam-me com frequência: - Que diz aos casados?
E aos que trabalhamos no campo?
E às viúvas?
E aos jovens?

Respondo sistematicamente que tenho uma só panela.
E costumo fazer notar que Jesus Cristo Nosso Senhor pregou a Boa Nova para todos, sem qualquer distinção.
Uma só panela e um único alimento: o meu alimento é fazer a vontade d'Aquele que me enviou e dar cumprimento à sua obra.
Chama cada um à santidade, pede amor a cada um: jovens e velhos, solteiros e casados, sãos e doentes, cultos e ignorantes, trabalhem onde quer que trabalhem, estejam onde quer que estejam.
Há um único modo de crescer na familiaridade e na confiança com Deus: a intimidade da oração, falar com Ele, manifestar-Lhe - de cora­ção a coração - o nosso afecto.

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Falar com Deus

Invocar-me-eis e Eu vos ouvirei.
E invocamo-lo conversando, dirigindo-nos a Ele. Por isso temos de pôr em prática a exortação do Apóstolo: sine intermissione orate; rezai sempre, aconteça o que acontecer. Não apenas de coração, mas com todo o coração.

Talvez pensemos que a vida nem sempre é suportável, que não faltam dissabores, nem mágoas, nem tristezas.
Responderei também com S. Paulo que nem a morte nem a vida, nem anjos, nem principados, nem virtudes; nem o presente, nem o futuro, nem a força, nem o que há de mais alto, nem de mais profundo, nem nenhuma outra criatura poderá jamais separar-nos do amor de Deus, que se fundamenta em Jesus Cristo, Nosso Senhor.
Nada nos pode afastar da caridade de Deus, do Amor, da relação constante com o nosso Pai.

Mas recomendar esta união contínua com Deus não será apresentar um ideal tão sublime, que se torna impraticável à maioria dos cristãos? Na verdade a meta é alta, mas não impraticável.
O caminho que conduz à santidade é o caminho da oração; e a oração deve enraizar-se a pouco e pouco na alma, como a pequena semente que se tornará mais tarde árvore frondosa.

(cont)


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