04/01/2015

Tratado do verbo encarnado 80

Questão 11: Da ciência inata ou infusa da alma de Cristo

Art. 5 — Se em Cristo havia a ciência habitual.

O quinto discute-se assim. — Parece que a alma de Cristo não tinha a ciência habitual.

1. — Pois, como se disse, a alma de Cristo era ornada da máxima perfeição. Ora, maior é a perfeição da ciência actual que a da habitual. Logo, parece que era - conveniente que soubesse tudo em acto. Portanto, não tinha a ciência habitual.

2. Demais. — Ordenando-se o hábito para o acto, seria vã toda ciência habitual que nunca se actualizasse. Ora, como Cristo sabia tudo, conforme se disse, não poderia considerar tudo actualmente, tendo um conhecimento depois de outro, porque não é possível transpor o infinito enumerando-lhe as partes. Portanto, teria Cristo em vão a ciência habitual - o que é inadmissível. Logo, tinha a ciência actual de tudo quanto sabia e não a habitual.

3. Demais. — A ciência habitual é uma certa perfeição da ciência. Ora, a perfeição é mais nobre que o perfectível. Se, pois, a alma de Cristo tivesse algum habitual criado, de ciência, seguir-se-ia que algo de criado seria mais nobre que a alma de Cristo. Logo, na alma de Cristo não havia nenhuma ciência habitual.

Mas, em contrário. — A ciência de Cristo, de que agora falamos, era unívoca com a nossa, assim como a sua alma era da mesma espécie que a nossa. Ora, a nossa ciência é genericamente habitual. Logo, também o era a de Cristo.

Como dissemos, o modo da ciência infusa da alma de Cristo era o conveniente do sujeito que a recebeu. Pois, o recebido está no recipiente ao modo deste. Mas o modo conatural à alma humana é inteligir, ora, em acto e, ora, em potência. Ora a relação entre a potência pura e ao acto completo é o hábito. Mas, o meio-termo e os extremos são do mesmo género. Donde, é claro que o modo conatural à alma humana é receber a ciência habitualmente. Donde devemos concluir, que a ciência infusa na alma de Cristo era a habitual, pois, dela podia usar quando queria.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Na alma de Cristo havia um duplo conhecimento e, ambos, cada um a seu modo, perfeitíssimos. — Um, excedente ao modo da natureza humana, pelo qual nela contempla a essência de Deus e as mais coisas. E esta, que era perfeitíssima absolutamente falando, não era habitual, mas actual em relação a tudo o que ele desse modo conhecia. — Outro conhecimento de Cristo era do modo proporcionado à natureza humana, enquanto conhecia as coisas por meio de espécies nele infusas por Deus, conhecimento esse de que agora falamos. E esse conhecimento não era perfeitíssimo, absolutamente falando, mas só no género do conhecimento humano. Donde não tinha de ser necessariamente e sempre actual.

RESPOSTA À SEGUNDA. — O hábito se actualiza pelo império da vontade, pois, é por meio do hábito que agimos quando queremos. Ora, a vontade é indeterminada em relação a objectos infinitos. Mas nem por isso é vã, por não tender actualmente a todos eles, contanto que tenda actualmente ao que lhe convém, local e temporalmente. Logo, também o hábito não é inútil, embora nem tudo o que ele inclui se actualize, contanto que se actualize o que convém ao fim devido da vontade, segundo as exigências das situações e do tempo.

RESPOSTA À TERCEIRA. — O bem e o ser tomam-se em dupla acepção. — Numa, absoluta. E assim a substância, subsistente no seu ser e na sua bondade, é chamada uma substância. — Noutra, o ser e o bem são-no relativamente. E, nesse sentido, é considerado ser e bem o acidente, não que por si mesmo tenha o ser a bondade mas porque o seu sujeito é ser e bom. E assim, pois, a ciência habitual não é absolutamente falando, melhor ou mais digna que a alma de Cristo, mas é, relativamente considerada, porque toda a bondade habitual da ciência redunda em vantagem do sujeito.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


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