11/02/2014

Tratado dos vícios e pecados 08


Questão 72: Da distinção entre os pecados


Art. 2 ― Se convenientemente se distinguem os pecados espirituais, dos carnais.

(IIa-IIae, q. 118 a. 6; 1 Cor cap. VI, lect. III; II VII, lect. I; Ad Galat., cap. V, lect. V)

O segundo discute-se assim. ― Parece que inconvenientemente se distinguem os pecados espirituais, dos carnais.

1. ― Pois, diz o Apóstolo (Gl 5, 19): Mas as obras da carne estão patentes, como são a fornicação, a impureza, a desonestidade, a luxúria, a idolatria, os empeçonhamentos etc. por onde se vê que todos os géneros de pecado são obras da carne. Ora, assim se chamam os pecados carnais. Logo, não se devem distinguir tais pecados, dos espirituais.

2. Demais. ― Quem peca procede segundo a carne, conforme a Escritura (Rm 8, 13): Porque se viverdes segundo a carne, morrereis, mas se vós pelo espírito fazeis morrer as obras da carne, vivereis. Ora, viver ou proceder segundo a carne é a própria essência do pecado carnal. Logo, todos os pecados são carnais, não havendo lugar para os espirituais.

3. Demais. ― A parte superior da alma, que é a mente ou razão, chama-se espírito, conforme a Escritura (Ef 4, 23): Renovai-vos pois no espírito de vosso entendimento ― onde espírito significa razão, como diz a Glosa a esse lugar. Ora, todo pecado carnal supõe o consentimento da razão, pois pertence à razão superior consentir no acto pecaminoso, como a seguir se dirá (q. 74, a. 7). Logo, pecados carnais e espirituais são o mesmo, e portanto, não se devem distinguir uns dos outros.

4. Demais. ― Se alguns pecados são especialmente carnais, isto deve entender-se principalmente daqueles pelos quais pecamos contra o nosso corpo. Ora, como diz o Apóstolo (1 Cor 6, 18), todo o outro pecado qualquer que o homem cometer é fora do corpo, mas o que comete fornicação peca contra o seu próprio corpo. Logo, só a fornicação seria pecado carnal, e contudo, o Apóstolo (Ef 5, 3) também enumera a avareza entre os pecados carnais.

Mas, em contrário, diz Gregório: dos sete vícios capitais, cinco são espirituais e dois, carnais 1.

Como já dissemos (a. 1), os pecados especificam-se pelos seus objectos. Ora, todo pecado consiste no desejo de algum bem variável, desejado desordenadamente, e por consequência, quando já o possuímos, deleitamo-nos desordenadamente. Ora, como resulta claro do que já dissemos, há uma dupla deleitação. Uma, é a da alma que se consuma na apreensão da coisa possuída segundo os nossos desejos, e pode também chamar-se deleitação espiritual, tal é o caso de nos deleitarmos com o louvor humano ou coisa semelhante. A outra é a deleitação corpórea ou natural, que se consuma pelo contato corpóreo e que também pode chamar-se carnal. Donde, os pecados que se consumam na deleitação espiritual chamam-se espirituais, ao contrário, os que se consumam na deleitação carnal chamam-se carnais, como a gula, consumada nos prazeres da mesa e a luxúria, nos venéreos. Por isso diz o Apóstolo (2 Cor 7, 1): purifiquemo-nos de toda a imundície da carne e do espírito.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. ― Como diz a Glosa ao lugar citado, esses vícios chamam-se obras da carne, não por se consumarem no prazer da carne, mas esta palavra é aí tomada no sentido de homem, do qual dizemos que, vivendo segundo as suas tendências, vive segundo a carne, e o mesmo diz Agostinho 2. E a razão disto é que toda deficiência da razão humana tem o seu início, de certo modo, no sentido carnal.

E daqui também se deduz clara a resposta à segunda objecção.

RESPOSTA À TERCEIRA. ― Mesmo nos pecados carnais há algum acto espiritual, que é o da razão, mas o fim desses pecados, donde tiram a denominação, é o deleite da carne.

RESPOSTA À QUARTA. ― Como diz a Glosa no lugar citado, especialmente no pecado da fornicação a alma sujeita-se ao corpo, pois, no próprio momento dele, não podemos pensar em nenhuma outra coisa. Ao passo que o prazer da gula, embora carnal, não absorve a razão do mesmo modo. Ou podemos dizer, que por esse pecado fazemos também certa injúria ao corpo, desordenadamente maculado. E por isso se diz que só por tal pecado o homem peca especialmente contra o seu corpo. ― A avareza, por seu lado, enumerada entre os pecados carnais, é tomada pelo adultério, que é a posse injusta da mulher alheia. Ou podemos dizer que por as coisas com que se deleita o avarento serem algo de corporal, é enumerada entre os pecados carnais. Mas o prazer próprio dela não está na carne, mas no espírito, e por isso, segundo Gregório, é pecado espiritual.

Revisão da tradução portuguesa por ama

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Notas:
1. XXXI Moral., cap. XLV.
2. XIV De civ. Dei, cap. II.




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