26/04/2013

Tratado das paixões da alma 8



Questão 24: Da ordem das paixões entre si.


Em seguida devemos tratar da ordem das paixões entre si.

E sobre esta questão quatro artigos se discutem:
Art. 1 ― Se as paixões do irascível tem prioridade sobre as do concupiscível.
Art. 2 ― Se o amor é a primeira das paixões do concupiscível.
Art. 3 ― Se a esperança é a primeira entre as paixões do irascível.
Art. 4 ― Se as principais paixões são as quatro seguintes: a alegria e a tristeza, a esperança e o temor.

Art. 1 ― Se as paixões do irascível tem prioridade sobre as do concupiscível.

(III Sent., dist. XXVI, q. 1, a . 3, q.2 a. 3, qª 2, De Verit,. Q. 25, a. 2).

O primeiro discute-se assim. ― Parece que as paixões do irascível têm prioridade sobre as do concupiscível.

1. ― Pois, a ordem das paixões depende da dos objectos. Ora, o objecto do irascível é o bem árduo que, parece, é o supremo entre os outros bens. Logo, as paixões do irascível têm prioridade sobre as do concupiscível.

2. Demais. ― O motor é anterior ao movido, Ora, o irascível está para o concupiscível como o motor para o movido, pois foi dado aos animais para vencerem os obstáculos que se opõem a que o concupiscível goze do seu objecto, conforme já dissemos 1, ou, na linguagem de Aristóteles, o que remove o obstáculo exerce a função de motor 2. Logo, as paixões do irascível têm anterioridade sobre as do concupiscível.

3. Demais. ― A alegria e a tristeza são paixões do concupiscível. Ora, resultam das do irascível, pois, diz o Filósofo, que a punição acalma o ímpeto da ira, produzindo a deleitação em lugar da tristeza 3. Logo, as paixões do irascível têm prioridade sobre as do concupiscível.

Mas, em contrário. ― As paixões do concupiscível visam o bem absoluto, as do irascível porém, o bem restrito, i. é, árduo. Ora, como o bem absoluto tem prioridade sobre o restrito, as paixões do concupiscível têm prioridade sobre as do irascível.

As paixões do concupiscível abrangem um domínio mais vasto que as do irascível, pois há nelas algo relativo ao movimento, como o desejo, e algo relativo ao repouso, como a alegria e a tristeza, ao passo que, as do irascível, nada têm de relativo ao repouso mas só ao movimento. E a razão é que, aquilo em que repousamos nada contém de difícil ou árduo, que é o objecto do irascível.

Ora, o repouso, sendo o termo do movimento, é anterior na intenção, mas posterior na execução. Se pois compararmos as paixões do irascível com as do concupiscível, que supõem o repouso no bem, manifestamente aquelas precedem estas, na ordem da execução, assim, a esperança precede a alegria e por isso a causa, conforme aquilo na Escritura (Rm 12, 12): na esperança alegres. A paixão concupiscível porém, que implica o repouso no mal, a saber, a tristeza, é média entre as duas paixões do concupiscível pois, sendo causada pelo ocorrer do mal que era temido, resulta do temor, mas precede o movimento da ira, causa de nos arrojarmos à vingança. E como vingar-se do mal é apreendido como bom, o irado alegra-se, após havê-lo conseguido. Donde é manifesto, que toda paixão do irascível termina numa paixão do concupiscível que implica repouso, a saber, a alegria ou a tristeza.

Se porém compararmos as paixões do irascível com as do concupiscível, que importam o movimento, estas são manifestamente primeiras, porque aquelas acrescentam-lhe algo, assim como o objecto do irascível acrescenta algo ao do concupiscível, a saber, o árduo ou a dificuldade. Assim, a esperança acrescenta ao desejo um certo esforço e uma certa elevação do ânimo para conseguir o bem árduo. Semelhantemente, o temor acrescenta à aversão ou abominação uma certa depressão do ânimo por causa da dificuldade do mal.

Donde, as paixões do irascível são médias entre as do concupiscível, que importam movimento para o bem ou para o mal, e as que importam repouso no bem ou no mal. Logo, é claro que, as do irascível, têm princípio e as do concupiscível termo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. ― A objecção procederia se da essência do objecto do concupiscível fosse algo de oposto ao árduo, como é da essência do objecto do irascível ser árduo. Ora, o concupiscível, tendo o bem absoluto, como objecto, este é naturalmente anterior ao do irascível, como o comum é anterior ao próprio.

RESPOSTA À SEGUNDA. ― O que remove o obstáculo não é motor por si mesmo, mas por acidente. Ora, no caso, trata-se da ordem em si mesma entre as paixões. E além disso, o irascível remove o obstáculo ao repouso do concupiscível no seu objecto. Donde não resulta senão que as paixões do irascível precedem as do concupiscível, que se referem ao repouso.

E é nisto que se funda a TERCEIRA OBJECÇÃO.

Nota: Revisão da tradução portuguesa por ama.
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Notas:
1. Q. 22, a. 1.
2. VIII Phys., lect. VIII.
3. IV Ethic., lect. XIII.

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