08/01/2013

Tratado da bem-aventurança 33




Questão 5: Da consecução da bem-aventurança.

Art. 3 — Se a bem-aventurança pode ser obtida nesta vida.



(IV Sent., dist. XLIII, a . 1, q ª 1, dist. XLIX, q. 1, a . 1, q ª 4, Cont. Gent., cap. XLVIII, I Ethic., lect. X, XVI).

O terceiro discute-se assim. — Parece que a bem-aventurança pode ser obtida nesta vida.



1. — Pois, diz a Escritura (Sl 118,1): Bem-aventurados os que se conservam sem mácula no caminho, os que andam na lei do Senhor. Ora, isto dá-se nesta vida. Logo, nela se pode ser feliz.

2. Demais. — A participação imperfeita do sumo bem não elimina a essência da bem-aventurança, do contrário, um não seria mais feliz que outro. Ora, nesta vida, os homens podem participar do sumo bem, conhecendo e amando a Deus, embora imperfeitamente. Logo, nesta vida o homem pode ser feliz.

3. Demais. — O que é dito por muitos não pode ser totalmente falso, pois considera-se natural o que existe em muitos, porque a natureza não falha totalmente. Ora, muitos põem a bem-aventurança nesta vida, como se vê claramente na Escritura (Sl 143, 15): Bem-aventurado chamarão ao povo que tem estas coisas, i. é, os bens da vida presente. Logo, pode nesta vida ser-se feliz.

Mas, em contrário, diz a Escritura (Jó 14, 1): O homem nascido da mulher, que vive breve tempo, é cercado de muitas misérias. Ora, a bem-aventurança exclui a miséria. Logo o homem não pode ser feliz nesta vida.

Podemos alcançar nesta vida uma certa participação de bem-aventurança, bem-aventurança perfeita porém e verdadeira não pode ser obtida. E, isto, podemos prová-lo de dois modos.

Primeiro, pela essência comum da bem-aventurança. Pois, sendo ela o bem perfeito e suficiente, exclui todo mal e satisfaz todo desejo. — Ora, nesta vida não podemos excluir todo mal. Pois, a vida presente está sujeita a muitos males, que não podem ser evitados: à ignorância da inteligência, à afeição desordenada do apetite, e a muitos incómodos do corpo, que Agostinho diligentemente enumera 1. — Semelhantemente, também o desejo do bem não pode ser saciado nesta vida. Pois naturalmente o homem deseja a permanência do bem que possui. Ora, não só os bens da vida presente são transitórios, mas ainda passa a própria vida, que naturalmente desejamos e queríamos permanecesse perpetuamente, porque ao homem repugna-lhe naturalmente a morte. Donde, é impossível nesta vida obter-se a verdadeira bem-aventurança.

Segundo, se se considerar o em que especialmente consiste a bem-aventurança — a visão da essência divina, a que o homem não pode chegar nesta vida, como já se demonstrou na primeira parte 2.

Donde manifestamente resulta que ninguém nesta vida pode alcançar a verdadeira e perfeita bem-aventurança.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Alguns consideram-se felizes nesta vida, ou pela esperança da bem-aventurança a alcançar, na vida futura, conforme aquilo da Escritura (Rm 8, 24) — Na esperança é que fomos salvos, ou por uma tal ou qual participação da bem-aventurança, relativa a uma certa fruição do sumo bem.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A participação da bem-aventurança pode ser imperfeita de duplo modo. Quanto ao próprio objecto  da bem-aventurança, que não é visto na sua essência, e tal imperfeição elimina a essência da verdadeira bem-aventurança. E segundo, quanto ao próprio participante que, certo, atinge o objecto da bem-aventurança, em si mesmo, que é Deus, mas imperfeitamente, por comparação com o modo pelo qual Deus a si mesmo se goza. E tal imperfeição não elimina a verdadeira essência da bem-aventurança porque, sendo esta uma operação, como já se disse 3, a sua verdadeira essência se considera quanto ao objecto que especifica o acto, e não quanto ao sujeito.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Os homens julgam haver nesta vida alguma bem-aventurança, por uma certa semelhança com a verdadeira. E assim, não erram totalmente no seu juízo.

Nota: Revisão da tradução portuguesa por ama.
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Notas:
1. XIX De civ. Dei.
2. Q. 12 a. 2.
3. Q. 3, a. 2.

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