03/10/2012

Tratado sobre a conservação e o governo das coisas 12


Questão 106: Da iluminação dos anjos.

Art. 4 — Se o anjo superior ilumina, em relação a tudo o que sabe, o inferior.






O quarto discute-se assim. – Parece que o anjo superior não ilumina, em relação a tudo o que sabe, o inferior.

1. – Pois, diz Dionísio, que os anjos superiores têm ciência mais universal, que a dos in­feriores, que é mais particular e dependente. Ora, maior compreensão tem a ciência univer­sal que a particular. Logo, nem tudo o que sabem os anjos superiores o sabem, por iluminação deles, os inferiores.

2. Demais. – O Mestre das sentenças diz, que os anjos superiores conheceram, desde os séculos dos séculos, o mistério da Encarnação; ao passo que os inferiores não o conheceram en­quanto ela não se consumou. E isto conclui-se de que, a uns anjos que interrogam, como quem ignora (Sl 23, 10) – Quem é este Rei da glória? – outros respondem, como quem sabe – O Senhor das virtudes, esse é o Rei da glória – segundo expõe Dionísio. Ora, tal não se daria, se os anjos su­periores iluminassem, em relação a tudo o que sabem, os inferiores; logo, não os iluminam desse modo.

3. Demais. – Se os anjos superiores anunciassem tudo o que conhecem, aos inferiores, nada do que aqueles conhecessem seria desconhe­cido destes. Portanto, sobre nada mais poderiam os superiores iluminar os inferiores, o que é inadmissível. Logo, os superiores não iluminam, sobre tudo, os inferiores.

Mas, em contrário, diz Gregório: Na pátria celeste, embora certas coisas sejam dadas, excelentemente, contudo nada é possuído singular­mente. E Dionísio: Cada essência celeste comunica à inferior a inteligência que lhe foi dada pela superior, como é claro pelo passo supra-exarado (a. 1).

Todas as criaturas participam da divina bondade, de modo a difundirem nas outras o bem que possuem; pois, é da essência do bem comunicar-se. Donde vem que os próprios agentes corpóreos transmitem, tanto quanto possível, a sua semelhança a outros. Donde, quanto mais um agente participa da divina bondade, tanto mais tende a transfundir nos outros, no máximo possível, as suas perfeições. E por isso São Pedro adverte os que participam, pela graça, da divina bondade, dizendo (1 Pd 4, 10): Cada um, segundo o dom que recebeu, comunique-o aos outros, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus. Logo, com maior razão, os santos anjos, que participam plenissimamente da divina bondade, dividem com os que lhes são inferiores tudo o que recebem de Deus. Mas o que é recebido pelos inferiores nestes não está do mes­mo modo excelente por que está nos superiores. E por isso estes permanecem sempre em ordem mais alta e têm ciência mais perfeita; assim como o mestre intelige uma mesma coisa mais plenamente que o discípulo, que dele aprende.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Considerar-se mais universal a ciência dos anjos superiores, quanto ao modo mais eminente de inteligir.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Não se devem entender as palavras do Mestre das Sentenças como significando que os anjos inferiores ignora­ram completamente o mistério da Encarnação; mas como significando que, além de não o terem conhecido, tão plenamente como os superiores, progrediram depois no conhecimento do mesmo, até que ele se cumprisse.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Até o dia do juízo, sempre novas revelações serão feitas por Deus aos anjos supremos, no tocante à disposição do mundo e sobretudo à salvação dos eleitos. Donde, sempre haverá matéria em que os anjos superiores iluminem os inferiores.

Nota: Revisão da tradução portuguesa por ama

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