16/05/2012

Tratado dos Anjos 42

Questão 59: Da vontade dos anjos. 4

Art. 4 — Se nos anjos há o apetite irascível e o concupiscível.

(Infra, q. 8, a. 5; II Sent., dist. VII, q. 2, a. 1; ad 1; De Malo, q. 14, a. 1, ad 3)

O quarto discute-se assim. — Parece que nos anjos há o apetite irascível e o concupiscível.

1. — Pois, diz Dionísio que, nos demónios, há furor irrascível e concupiscência amente 1. Ora, os demónios têm a mesma natureza que os anjos bons, pois o pecado não lhes mudou a natureza. Logo, nos anjos há o apetite irascível e o concupiscível.

2. Demais. — O amor e a alegria pertencem ao apetite concupiscível; porém, a ira, a esperança e o temor, ao irascível. Ora, essas paixões atribuem-se, na Escritura, aos anjos bons e aos maus. Logo, nos anjos, há o apetite irascível e o concupiscível.

3. Demais. — Há certas virtudes atribuídas tanto ao apetite irascível como ao concupiscível; assim, a caridade e a temperança pertencem ao concupiscível; a esperança, porém, e a fortaleza, ao irascível. Ora, essas virtudes existem nos anjos. Logo, neles existem ambos os apetites.

Mas, em contrário, diz o Filósofo que os apetites, irascível e concupiscível, pertencem à parte sensitiva, que não existe nos anjos 2. Logo, neles não há os dois apetites.

Não o apetite intelectivo, mas só o sensitivo é que se divide em irascível e concupiscível. E disso a razão é que as potências se distinguem, não pela distinção material, mas só pela formal dos seus objectos; por isso, se a uma potência corresponde um objecto nocionalmente comum, não haverá distinção de potências pela diversidade dos objectos próprios contidos no comum. Assim, sendo a cor como tal o objecto próprio da potência visiva, não se distinguirão várias potências visivas pela diferença entre o branco e o preto. Mas, se objecto próprio de uma potência fosse o branco, como tal, distinguir-se-ia a potência visiva do branco da visiva do preto. Ora, é manifesto, pelo já dito 3, que o objecto do apetite intelectivo, chamado vontade, é o bem sob a sua noção comum; nem pode haver apetite que não busque o bem. Donde, o apetite da parte intelectiva não se divide pela distinção de quaisquer bens particulares, como acontece com o apetite sensitivo, que não visa o bem nocionalmente comum, mas um certo bem particular. Portanto, os anjos, tendo apenas o apetite intelectivo, o apetite deles se não divide em irascível e concupiscível, mas permanece indiviso e chama-se vontade.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Metaforicamente é que se atribui o furor e a concupiscência aos demónios; assim como também se atribui a Deus a ira, pela semelhança de efeito.

RESPOSTA À SEGUNDA. — O amor e a alegria, como paixões, pertencem ao apetite concupiscível; mas, como denominações de um acto simples da vontade, pertencem à parte intelectiva; sendo então amar querer um bem para si ou para outro, e o alegrar-se, é o descansar da vontade no bem possuído. E em geral nenhum afecto, como paixão, se predica dos anjos, segundo Agostinho 4.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A caridade, como virtude, não pertence ao apetite concupiscível, mas à vontade, Pois, o objecto desse apetite sendo o bem deleitável sensível, não pode atingir o bem divino, objecto da caridade. E pela mesma razão deve se dizer que a esperança não pertence ao apetite irascível; pois o objecto deste é o árduo sensível, que não é o arrastado pela virtude da esperança, que visa o árduo divino. Porém a temperança, como virtude humana, diz respeito às concupiscências dos deleitáveis sensíveis, as quais pertencem ao apetite concupiscível; e semelhantemente, a fortaleza diz respeito às audácias e aos temores do apetite irascível. Donde, a temperança, como virtude humana, pertence ao apetite concupiscível; e a fortaleza, ao irascível. Não é, porém, assim que essas virtudes existem nos anjos; pois, não há neles paixões de concupiscências, ou do temor ou da audácia, que devam ser reguladas pela temperança e pela fortaleza. Mas atribui-se-lhes a temperança enquanto manifestam moderadamente a vontade pela regra da vontade divina; e a fortaleza enquanto firmemente executam a vontade divina; o que tudo fazem pela vontade e não pelos apetites irascível e concupiscível.

S. tomás de aquino, Suma Teológica.

(Nota: Revisão da tradução para português por ama)
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Notas:
1. IV De div. nom. (lect. XIX).
2. III de anima (lect. XIV).
3. Q. 59, a. 1.
4. IX De civitate Dei (Cap. V).

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