05/07/2011

São João (Afonso Cabral)

Navegando pela minha cidade
No dia de São João naveguei literalmente pela minha cidade. Naveguei nesse rio de ouro que a corteja até ao mar. Esse rio único que não divide mas une. E une tanto que deu o nome a Portugal.

Convidado pela Confraria do Vinho do Porto acompanhei de perto - num barco Douro Azul - toda a regata dos barcos rabelo representantes das casas produtoras de vinho do Porto.

Esta regata nasceu há vinte e oito anos por iniciativa da referida Confraria e realiza-se no dia de São João.

A regata parte do Cabedelo junto à foz até à ponte Dom Luís. Pelas cinco da tarde o vento estava bom, soprava fresco do mar. Pouco depois de ter sido dado o sinal de partida, içadas já as grandes velas quadradas, o vento vira bruscamente a norte.

Os três rabelos mais a barlavento, mais arribados à margem direita do rio, avançam em força. Eram os da Cálem, da Croft e da Graham’s. Todos os outros quinze foram empurrados implacavelmente, numa molhada de mastros e vergas partidas para a fatal armadilha da Afurada de onde só saíram rebocados por caíques a motor.

Alguém disse que as três coisas mais maravilhosas de se ver eram: uma fragata a navegar a todo o pano; um cavalo a galope e uma mulher a dançar. A estas três eu juntava-lhe aqueles barcos rabelo a subirem o rio de oiro que naquela tarde – com o Sol a ocidente - era de mercúrio e de prata.

Lembro-me que pensei então que, tal como aquela regata, só a contra corrente é que a vida deve ser vivida; que a vida é um subir o rio tentando não perder o vento. Sim, porque a favor da corrente é muito fácil, até o lixo e os troncos de árvores mortas chegam ao mar.

Rio clepsidra que a tantos bons combates tens assistido!

Naquele dia de São João o rio Douro foi como que um relógio com sistema de temp suspendu e a minha vida parou, chapeada a oiro juntamente com todo o casario da Ribeira.Numa disputa renhida dois barcos com as velas – azul da Cálem e rosa choque da Croft (a tripulação era só de mulheres) – enfunadas e orgulhosas de vento, avançavam quase a par já com a meta à vista.

Do cais da Ribeira alguns miúdos - saídos do Aniki-Bóbó - mergulhavam luzidios para as águas do rio, junto a um bando de gaivotas (…em verde e oiro se agitam/como estas aves que gritam/em bebedeiras de azul[1]) que nadava numa corrente dentro da corrente. 

As margens do rio eram feitas de gente que assistia à pura beleza disto tudo fazendo parte dela. Porque a beleza e o amor unem e integram, sempre.

Num último arranque o rabelo da Cálem pula e avança como bola colorida/entre as mãos duma criança[2] e vence a regata.

Verdadeiramente, só contra a corrente é que a vida vale a pena ser vivida. Afinal foi o nosso santo popular que nos apontou o caminho numa outra tarde de oiro e prata junto a outro rio.

Afonso Cabral



[1] António Gedeão – Pedra Filosofal
[2] Ibid.

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