26/03/2023

Publicações em Março 26


 

DENTRO DO EVANGELHO

 

(Re Lc X)

 

O Estalajadeiro.

 

Talvez possa parecer estranho ter escolhido este “papel” que, obviamente, parece não ser “central” na parábola. Mas, eu, que nada sei nem de parábolas nem de personagens, muito menos me sinto capaz de lhes atribuir mérito ou demérito, o grau de importância que possam ter, apaixono-me por este.

Imagino-me à porta do meu estabelecimento onde recebo hóspedes, normalmente viajantes que percorrem os caminhos poeirentos e agrestes da Palestina e que procuram um lugar onde tomar uma refeição, descansar um pouco ou passar a noite com um mínimo de conforto.

Estando ali, no meu posto de trabalho, deparo-me com uma cena estranha: Um homem que se aproxima a pé, conduzindo a sua cavalgadura pela arreata e, mal se mantendo direito em cima desta, um outro homem com os vestidos em farrapos, cheio de feridas vendadas com panos embebidos em azeite e vinho num estado lastimoso.

Apresso-me a ir ao seu encontro e tenho logo uma primeira reacção de enorme dúvida: quem conduz o ferido é um Samaritano!

O que faz um Samaritano dirigir-se ao meu estabelecimento?

Sim, eu, que sou judeu, não “morro de amores” pelos samaritanos que, aliás, me pagam na mesma moeda.

Um antagonismo ancestral – que ninguém sabe exactamente quando começou e porquê – divide os filhos de Israel: Samaritanos e Judeus.

Mas, surpreendentemente, o Samaritano aproxima-se de mim e diz-me: ‘Encontrei este teu irmão estendido na vera do caminho porque «caiu nas mãos dos ladrões, que o despojaram, o espancaram e retiraram-se, deixando-o meio morto». Tentei prestar-lhe o auxílio possível ligando-lhe «as feridas, deitando nelas azeite e vinho», mas não podia deixá-lo ali naquele estado por isso pu-lo sobre o meu jumento e trouxe-o até esta estalagem para melhor cuidar dele. Ajuda-me a levá-lo para dentro e encontra uma acomodação confortável onde o possamos fazer’.

Fiquei atónito, sem palavras e levei algum tempo a reagir, mas, como que por encanto desvaneceram-se as minhas dúvidas e pruridos e ajudei a transportar o ferido para a melhor habitação de que dispunha.

Deitámos o homem numa cama, despimos-lhe os farrapos, arranjei uma túnica lavada que lhe vestimos e, enquanto o Samaritano observava de novo as feridas renovando as ligaduras e unguentos fui à cozinha buscar um caldo de sopa que a custo conseguiu engolir. Tendo caído num sono profundo, deixámo-lo a descansar e retiramo-nos; o samaritano para uma acomodação na parte superior da casa, eu para o meu posto à entrada da estalagem.

A noite ia adiantada e como não era de prever aparecessem novos hóspedes, também fui deitar-me. Mas não conseguia conciliar o sono pensando em tudo quanto acontecera e algo apreensivo quanto ao dia seguinte.

Logo pela manhã o samaritano preparou-se para seguir viagem, mas, antes que eu pudesse perguntar o que fosse, abriu a sua bolsa, «tirou dois denários, e deu-mos dizendo: Cuida dele; quanto gastares a mais, eu to pagarei quando voltar».

Ainda hoje, passado tanto tempo, me admiro com a minha reacção! Nem por um momento me ocorreu que o Samaritano não faria exactamente como me disse e que não ficaria por receber o que viesse a gastar com o pobre coitado agora a meu cargo.

Sim, eu que sou judeu e tenho um negócio, não posso dar-me ao luxo de receber hóspedes sem ter a certeza que serei ressarcido das despesas de estadia tanto mais que estas seriam bastante fora do “normal”: os tratamentos, ligaduras, unguentos e outros cuidados que seriam necessários. Volto a repetir: Ainda hoje, passado tanto tempo, me admiro com a minha atitude!

Pela noitinha, o doente estava visivelmente melhor e começou por perguntar-me como tinha ido ali parar, o que acontecera…

Contei-lhe tudo, claro, e o seu espanto foi tão grande como tinha sido o meu no dia anterior quando o estranho “cortejo” aparecera à minha porta.

Não se lembrava de nada, tão súbita e violenta tinha sido a acção dos salteadores, nem sequer quanto tempo estivera prostrado por terra. Mas achava estranho que ninguém o tivesse visto naquela situação, já que o caminho onde tudo acontecera era muito concorrido.

Eu também – pensando melhor – achei estranho, mas como estou habituado à indiferença das pessoas perante as necessidades dos outros não me custava acreditar que alguns o terão visto e ao dar-se conta da situação tivessem optado por seguir adiante livrando-se de “trabalhos” e incómodos. De facto, há tanta gente que vai pelos caminhos da vida tão cheios de si próprios, absorvidos com os seus assuntos que olhando não vêm e, se acaso vêm, ficam indiferentes ao que, pensam, não lhes diz respeito.

 

Tomei uma decisão: A partir de agora a porta da minha estalagem estará sempre aberta a quem tiver necessidade de entrar, não a fecharei a ninguém por motivos de raça, cor da pele ou religião e independentemente de possuírem meios ou recursos para cobrir as despesas que porventura façam.

Esta decisão consola-me muito porque penso que, um dia, pode acontecer-me o mesmo que ao pobre homem assaltado e espancado pelos salteadores e, então precisarei de alguém – um Samaritano… talvez – que se condoa de mim e me preste assistência.

 

25/03/2023

Publicações em Março 25

 



DENTRO DO EVANGELHO

 

(Re Lc X)

 

O Estalajadeiro.

 

Talvez possa parecer estranho ter escolhido este “papel” que, obviamente, parece não ser “central” na parábola. Mas, eu, que nada sei nem de parábolas nem de personagens, muito menos me sinto capaz de lhes atribuir mérito ou demérito, o grau de importância que possam ter, apaixono-me por este.

Imagino-me à porta do meu estabelecimento onde recebo hóspedes, normalmente viajantes que percorrem os caminhos poeirentos e agrestes da Palestina e que procuram um lugar onde tomar uma refeição, descansar um pouco ou passar a noite com um mínimo de conforto.

Estando ali, no meu posto de trabalho, deparo-me com uma cena estranha: Um homem que se aproxima a pé, conduzindo a sua cavalgadura pela arreata e, mal se mantendo direito em cima desta, um outro homem com os vestidos em farrapos, cheio de feridas vendadas com panos embebidos em azeite e vinho num estado lastimoso.

Apresso-me a ir ao seu encontro e tenho logo uma primeira reacção de enorme dúvida: quem conduz o ferido é um Samaritano!

O que faz um Samaritano dirigir-se ao meu estabelecimento?

Sim, eu, que sou judeu, não “morro de amores” pelos samaritanos que, aliás, me pagam na mesma moeda.

Um antagonismo ancestral – que ninguém sabe exactamente quando começou e porquê – divide os filhos de Israel: Samaritanos e Judeus.

Mas, surpreendentemente, o Samaritano aproxima-se de mim e diz-me: ‘Encontrei este teu irmão estendido na vera do caminho porque «caiu nas mãos dos ladrões, que o despojaram, o espancaram e retiraram-se, deixando-o meio morto». Tentei prestar-lhe o auxílio possível ligando-lhe «as feridas, deitando nelas azeite e vinho», mas não podia deixá-lo ali naquele estado por isso pu-lo sobre o meu jumento e trouxe-o até esta estalagem para melhor cuidar dele. Ajuda-me a levá-lo para dentro e encontra uma acomodação confortável onde o possamos fazer’.

Fiquei atónito, sem palavras e levei algum tempo a reagir, mas, como que por encanto desvaneceram-se as minhas dúvidas e pruridos e ajudei a transportar o ferido para a melhor habitação de que dispunha.

Deitámos o homem numa cama, despimos-lhe os farrapos, arranjei uma túnica lavada que lhe vestimos e, enquanto o Samaritano observava de novo as feridas renovando as ligaduras e unguentos fui à cozinha buscar um caldo de sopa que a custo conseguiu engolir. Tendo caído num sono profundo, deixámo-lo a descansar e retiramo-nos; o samaritano para uma acomodação na parte superior da casa, eu para o meu posto à entrada da estalagem.

A noite ia adiantada e como não era de prever aparecessem novos hóspedes, também fui deitar-me. Mas não conseguia conciliar o sono pensando em tudo quanto acontecera e algo apreensivo quanto ao dia seguinte.

Logo pela manhã o samaritano preparou-se para seguir viagem, mas, antes que eu pudesse perguntar o que fosse, abriu a sua bolsa, «tirou dois denários, e deu-mos dizendo: Cuida dele; quanto gastares a mais, eu to pagarei quando voltar».

Ainda hoje, passado tanto tempo, me admiro com a minha reacção! Nem por um momento me ocorreu que o Samaritano não faria exactamente como me disse e que não ficaria por receber o que viesse a gastar com o pobre coitado agora a meu cargo.

Sim, eu que sou judeu e tenho um negócio, não posso dar-me ao luxo de receber hóspedes sem ter a certeza que serei ressarcido das despesas de estadia tanto mais que estas seriam bastante fora do “normal”: os tratamentos, ligaduras, unguentos e outros cuidados que seriam necessários. Volto a repetir: Ainda hoje, passado tanto tempo, me admiro com a minha atitude!

Pela noitinha, o doente estava visivelmente melhor e começou por perguntar-me como tinha ido ali parar, o que acontecera…

Contei-lhe tudo, claro, e o seu espanto foi tão grande como tinha sido o meu no dia anterior quando o estranho “cortejo” aparecera à minha porta.

Não se lembrava de nada, tão súbita e violenta tinha sido a acção dos salteadores, nem sequer quanto tempo estivera prostrado por terra. Mas achava estranho que ninguém o tivesse visto naquela situação, já que o caminho onde tudo acontecera era muito concorrido.

Eu também – pensando melhor – achei estranho, mas como estou habituado à indiferença das pessoas perante as necessidades dos outros não me custava acreditar que alguns o terão visto e ao dar-se conta da situação tivessem optado por seguir adiante livrando-se de “trabalhos” e incómodos. De facto, há tanta gente que vai pelos caminhos da vida tão cheios de si próprios, absorvidos com os seus assuntos que olhando não vêm e, se acaso vêm, ficam indiferentes ao que, pensam, não lhes diz respeito.

Tomei uma decisão: A partir de agora a porta da minha estalagem estará sempre aberta a quem tiver necessidade de entrar, não a fecharei a ninguém por motivos de raça, cor da pele ou religião e independentemente de possuírem meios ou recursos para cobrir as despesas que porventura façam.

Esta decisão consola-me muito porque penso que, um dia, pode acontecer-me o mesmo que ao pobre homem assaltado e espancado pelos salteadores e, então precisarei de alguém – um Samaritano… talvez – que se condoa de mim e me preste assistência.

 

24/03/2023

Quaresma Semana 3 Sexta F

 


DENTRO DO EVANGELHO

(Re Jo XV)

Tu! Vem e segue-me!

Olho em volta para ter a certeza de que é mesmo a minha pessoa que Ele interpela. Não me restam dúvidas, é mesmo comigo! Pergunto-me porquê, que tenho eu de “especial” para querer que O siga?

Tenho as minhas pequenas virtudes e enormes defeitos, a minha inteligência e a minha ignorância, a minha vontade e a minha preguiça, o meu ânimo e a minha letargia. Sou, assim, como que duas, ou mesmo várias, pessoas numa só, e, não obstante, Ele repete aquele chamamento doce e imperioso ao mesmo tempo, simultaneamente expectante e autoritário. Fico-me mais um pouco examinando o que se passa, o que tenho de fazer agora, as coisas que tenho “entre as mãos”, aquilo a que meti ombros, os entusiasmos que me excitam a imaginação, as prioridades que estabeleci – se é que o fiz, de facto – e pergunto-me: Vou? Não vou? Agora? Mais logo?

Percebo que não posso deter-me muito mais porque Ele, depois de me chamar, seguiu o Seu caminho e afasta-se de mim. Não Se volta para trás a ver se O sigo, se atendi ou não o apelo que me fez; de certo modo parece confiante que entendi e atendi o que me disse. Sem grandes pressas, confesso, começo a andar na Sua peugada, deitando contas à vida, arrumando mentalmente as coisas de enormíssima importância que vão ficar por fazer, o conforto que vou desdenhar, talvez as críticas que irei ouvir. Mas, aos poucos, começo a dar-me conta de uma realidade: o peso insignificante de todo esse amontoado de coisas e, até, o pouco interesse que têm. Apercebo-me, com alguma surpresa, confesso, que a minha decisão de O seguir não causou transtornos a ninguém, que a vida não parou, que tudo continua paulatinamente a “funcionar” como se eu não fosse imprescindível, absolutamente necessário. (Parece-me que, de facto, estava convencido do contrário). Sim… estive parado muitas vezes na vera do caminho sem saber para onde ir ou, talvez, na esperança de não de ir a lado nenhum, de poder ficar quieto sem me preocupar com coisa nenhuma. Não sinto grande dificuldade em acompanhá-lo, a Sua passada é firme, mas certa, sem hesitações.

Vejo, sinto, que conhece muito bem o caminho e, mais, sabe perfeitamente para onde vai. Sinto-me possuído como que de uma estranha segurança não obstante a incógnita do destino final. Ele, sinto-O, não Se engana, não pode enganar ninguém.

O interessante é que sendo um caminho a subir, cada vez para mais alto, não sinto o esforço que normalmente se sente quando se sobe.

Talvez se deva ao facto de a carga que me pôs nos ombros ser leve, muito leve… mesmo para a imensidão que representa. Também não me sinto preso não obstante o jugo com que me cingiu o pescoço, sinal que me considera propriedade sua; porque é tão suave que não prende como um jugo autêntico, antes parece um elo de uma cadeia de amor e, por conseguinte, muito suave a e agradável. Sinto-me bem.

Agi correctamente, tenho a certeza, em acolher o Seu chamamento, o Seu convite: Tu! Vem e segue-me!

Não sei porque me disse isto, porque me escolheu, há tantos como eu que esperam, alguns até sem o saberem, por um chamamento igual, por isso sinto-me privilegiado pela escolha.

Ainda não Lhe disse muitas coisas, acho que não é preciso, Ele sabe o quero dizer-lhe, mas, nas confidências de viajante, contei-Lhe das minhas expectativas, esperanças, ousadias, desejos por satisfazer. Sem querer, acho, fui abrindo o coração e em frases breves e curtas, deixei sair o que há tanto tempo estava como que travado dentro de mim.

Não tenho vergonha ou receio que me ache tonto, com pouco critério, talvez inconsequente. Quis sempre tantas coisas e ao mesmo tempo!

Ouve-me sem me olhar, não pergunta nada, não faz um gesto de admiração ou surpresa. Parece que tudo quanto Lhe possa dizer já o conhece, mas, estranhamente, parece gostar que, não obstante, lho diga, Lhe conte as minhas privacidades, patenteie as ilusões e as quimeras do meu espírito sonhador.

E, a caminhada, prossegue.

Estamos agora tão alto que posso, olhando à minha volta, ver o que deixei, considerar o que fiz e, com grande pena, aperceber-me do que nunca cheguei a fazer. Como um filme, sem protagonista, nem guião, nem enredo; um filme simples, de uma história breve, comum e um pouco anónima. Não me parece “grande coisa”. Não trouxe nenhum equipamento especial para esta caminhada, vim tal qual estava, tenho a certeza que não irei precisar de nada.

Aliás Ele disse-me: nem cajado, nem duas túnicas, nem alforge

Acompanha-nos uma multidão enorme, a perder de vista e que vai engrossando constantemente como uma onda do mar, mas, embora eu tenha consciência dela, parece-me, ao mesmo tempo, que só existo eu, que só eu Lhe interesso, que só a mim dedica a Sua atenção.

Compreendo que também cada um, cada uma, dessa enorme multidão, ouviu as mesmas palavras: Tu! Vem e segue-me!

Uns nota-se bem, estão há muito na Sua companhia andando o Seu caminho, outros, como eu, chegaram mais recentemente e ainda olham, de vez em quando, para trás. Alguns, acabam por desistir, sentam-se à beira do caminho e vão-se deixando ficar. Parecem tristes, abatidos, talvez recordem com apego o que terão deixado e que, julgam, lhes faz falta.

O que estranho é que sendo eu tão decidido, tão senhor das minhas acções, tão categórico nas escolhas que faço, não me tenha ocorrido perguntar-lhe para onde vamos, onde me leva. Poderia pensar, por momentos, que estou a agir como um “zombie” sem vontade ou sem querer tê-la, ou, então, que não consegui resistir à Sua voz, senti que não teria alternativa. Mas não! Sinto-me bem vivo e cheio de força, algo estranho, assim como que um ímpeto que se foi transformando numa certeza.

A certa altura pensei dizer-Lhe: ‘não sei se sou capaz de Te acompanhar por muito mais tempo’! Mas percebi, quase imediatamente, que Ele conhece esse meu temor, esta minha fragilidade e que, não obstante, me quer tal como no primeiro momento quando me disse: ‘Tu! Vem e segue-me!’

Estou convicto que, sabendo Ele o que sou e como sou, me compeliu a segui-Lo é porque me quer junto de Si, mais perto, como companheiro íntimo e incondicional e, portanto, eu não poderia ter feito outra coisa que segui-Lo. Por isso, do mais fundo do meu coração Lhe digo: ‘Eu, Senhor, sigo-Te mas, peço-Te: não me largues da Tua mão porque me perco no caminho e, depois, não saberia para onde ir. Quero ser, tal como aqueles três discípulos, confidente de Jesus. Desejo sinceramente ter com Ele uma atitude próxima, íntima de respeito e confiança, de uma abertura e transparência tais que não exista nada, absolutamente, que não Lhe diga ou revele. As “minhas coisas” todas, aquilo que penso, e repudio, o que me agrada e o que me desgosta, tudo a que me sinto agarrado e o desejo de me “soltar” dessas prisões, desses laços pequenos e grandes que me têm prendido nas esquinas da vida diária. Pedir-Lhe sempre que me ajude a ver o que é realmente importante, o que interessa e, sobretudo, a ter total confiança n’Ele e que tudo, quanto me sucede ou possa suceder, é para meu bem.

Chego a esta conclusão simples e claríssima: ‘Pois se Ele me conhece de que me vale não Lhe contar tudo? Se Ele sabe como sou e, mesmo assim, me quer, me ama, Se preocupa comigo, porque me aflijo tanto com as minhas falhas, as minhas deficiências e defeitos?’  

‘Desprendido de tudo: O que tenho e o que não tenho. Desprendido dos "desejos de ter", mesmo daqueles que parecem legítimos. Desprendido das coisas grandes e das pequenas que quase não têm importância. Desprendido das "minhas coisas", das "minhas vontades", daquilo que é "meu". Coração grande, aberto a todos e, sobretudo, aberto a Deus para que o encha o amor a Si e aos outros, não deixando lugar a mais nada.   

Se eu pudesse, melhor, se realmente quiser ser íntimo de Jesus, nada mais tenho a fazer que deixá-Lo tomar posse de mim, entregar-me, gostosamente nas Suas mãos amorosas com plena confiança e a certeza que não poderia estar melhor.

Nem as considerações do pouco que sou, dos meus defeitos, das minhas faltas de coerência e tantas… tantas pequenas coisas que arrasto como um lastro que me mantém sujeito a uma quase servidão de manias, tiques, falsas depressões, a minha dignidade ofendida por tantos e tantas vezes, o não reconhecimento de como sou bom, especial… nada disto e muito mais, é desconhecido de Jesus Cristo.

E, mesmo assim, Ele quer, procura a minha intimidade. Lembro-me do publicano que nem coragem tinha de levantar os olhos ao alto.

Mantinha-os baixos e batia no peito dizendo: «Senhor, tem piedade de mim que sou um pecador» e encho-me de coragem já que, tenho a certeza, (…) devemos sentir-nos fortes com tais jaculatórias, feitas com actos de dor amorosa e com desejos de divina reconciliação a fim de que, por meio delas, exprimindo diante do Salvador as nossas angústias, confiemos a alma ao Seu Coração misericordioso que a receberá com piedade».

Como é possível? Como a misericórdia infinita de Deus não se esgota neste constante “ir e vir”, das “flutuações” do meu carácter?

Como pode o Senhor olhar para mim que estou tão longe da postura humilde do publicano?  Eu, sempre em “bicos dos pés” tentando sobressair, fazer-me notado, cheio de mim mesmo e da “excelência” dos meus talentos, das minhas capacidades?

«Senhor: quase que não vejo a necessidade de Te pedir humildade. Ser humilde é, para mim, um objectivo que persigo desde sempre. Sempre longe, parece, cada vez mais distante porque, pobre de mim, sou formado por este barro duro e seco que é o meu carácter, que resiste a ser moldado pelas Tuas divinas mãos.

Mas não Te importes, Senhor, não Te importes com este barro que não vale nada. Parte-o, esfrangalha-o nas Tuas mãos amorosas e, estou certo, daí sairá algo que se possa - que Tu possas - aproveitar. Não dês importância à minha prosápia, à minha vaidade, ao meu desejo incontido de protagonismo e evidência. A verdade que Te confesso é esta: Não sei nada, não posso nada, não tenho nada, não valho nada, não sou absolutamente nada».

E, o “oleiro divino” uma e outra vez refaz a mesma peça de que sou feito. Retoma o Seu ”trabalho” da minha santificação como se nada se tivesse passado, como se eu não estivesse feito nos pedaços que as minhas frequentes quedas originam. E, no entanto, é assim que é!

Às vezes – quantas vezes! – parece que estamos sozinhos no mundo.

Rodeados de pessoas, no afã da vida diária, no corre-corre de todos os dias, mesmo assim, estamos sozinhos.

Sentimo-nos “individuais” como se, no mundo, não existisse mais ninguém senão nós.

Rezamos e, a oração sai insípida, árida.

Sentimo-nos desconfortáveis, achamos que “não vale a pena” e… deixamo-nos ir.

Logo entra o desânimo, o descoroçoamento e, a tempo, a tristeza.

«Clamei bem alto e não me ouvias! No denso nevoeiro da doença, mergulhado num mar povoado de estranhos seres, sem saber se estava acordado ou adormecido, sem ter a noção onde começava e acabava o meu corpo: a cabeça... os pés... as mãos...; “aparafusado” numa cama que fazia parte de mim... os calcanhares...? (como é possível doerem tanto, os calcanhares?!...), clamei por Ti e não me ouvias! E, eu, mergulhava outra vez naquele oceano de perdição e voltava à superfície e de novo me perdia. Havia uma espécie de estratificação dos pensamentos, tinha tudo ordenado, muito bem organizado na minha cabeça: azuis, encarnados, verdes... dois azuis, três verdes... não... agora é um verde e depois... três ou quatro doutra cor qualquer. (decidi que as cores não eram importantes). Nada fazia sentido, estava vivo...?; morto...?; moribundo...? calado...?; aos gritos...? e o ar? Sim o ar: era solene, composto, digno ou, pelo contrário tinha a boca retorcida num esgar, os olhos vítreos esbugalhados, o gesto descontrolado? ‘Ne timeas!’’ Ouvi-te, finalmente! Percebi, então, só então, que estava tão preocupado com a minha doença, o meu sofrimento, que ficara incapacitado para Te ouvir...

Tranquilo, fui repetindo até adormecer: Ofereço..., ofereço..., ofereço!

Faça-se, cumpra-se a Tua Justíssima e Amabilíssima Vontade sobre todas as coisas. Ámen. Ámen.» (Memórias do Hospital, Synestesia)

Como somos pequenos… e fracos… e débeis… Tantas coisas que nos afectam o espírito e condicionam a vontade! Por vezes há como que um alheamento da realidade, pretendemos conseguir resolver as dificuldades ignorando-as, na esperança, fútil, que elas se resolvam por si mesmas. Outras vezes dizemos para nós mesmos que já rezámos pelo assunto – até fizemos uma novena – e, portanto, tudo se resolverá.

Que tentação! ‘Já rezaste… deixa lá…’

O maligno sabe muito bem por onde pegar, e, embora não possa conhecer o nosso íntimo, pelos sinais exteriores apercebe-se da nossa fragilidade, talvez momentânea, e não perde ocasião de a aproveitar.

«Os espíritos imundos não podem conhecer a natureza dos nossos pensamentos. Unicamente lhes é dado adivinhá-los mercê de indícios sensíveis, ou examinando as nossas disposições, as nossas palavras ou as coisas que indicam uma propensão da nossa parte. Ao invés o que não exteriorizamos e permanece oculto nas nossas almas, é-lhes totalmente inacessível. Inclusive os próprios pensamentos que eles nos sugerem, o acolhimento que lhes damos, a reacção que nos causam, tudo isto não o conhecem pela própria essência da alma (...) mas, em todo o caso, pelos movimentos e manifestações externas.

Temos sempre de pôr todos os meios na procura do que necessitamos. O Senhor não espera de nós nada que vá além das nossas forças e das nossas capacidades. Mas espera que as utilizemos, todas, com critério e sem desfalecimentos.

Jesus não é uma espécie de milagreiro a quem recorremos nas aflições, nas dificuldades, resolvendo as coisas, ou concedendo sem demora aquilo que pedimos. É verdade que Deus é infinitamente bondoso, mas também é infinitamente justo.

A Sua justiça pede, portanto, um empenhamento pessoal, dedicado e completo.

Atrever-me-ia a dizer que, muitas vezes, o Senhor concede a graça que pedimos, não pela graça em si, pelo bem em que ela consiste, mas movido pelo esforço, empenho e persistência que pusemos da nossa parte em conquistá-la.

O contrário será, talvez, uma espécie de tentação a Deus, apresentar-nos assim, miserandos, aflitos e até chorosos, ante o Senhor, pedindo-lhe que nos conceda isto ou aquilo. Com Deus não se fazem chantagens ou exercem pressões, ou se fazem negócios do género: ‘se me concederes isto eu, faço aquilo’.

No nosso mar “particular”, que é a nossa vida, não estamos nunca sozinhos. Na margem, Jesus espera uma oportunidade de subir para a nossa barca para nos indicar o melhor rumo a seguir. Quer que vamos mar adentro «duc in altum», mas sabe muito bem que somos incapazes, por nós mesmos, de o fazer. E, então, dispõe-se a dar-nos as instruções precisas, fundamentais que, só um timoneiro divino pode dar.

Remar sem descanso, com um ritmo certo e vigoroso, levantar as velas quando houver vento favorável, recolhê-las, cautelosamente, quando a tempestade se aproxima, corrigir o rumo quando as correntes nos desviam da rota e, finalmente, lançar a rede onde só Ele sabe que há peixe para recolher. É um trabalho de uma vida, sem descanso nem distracções, somos pescadores não do “nosso mar” mas do oceano divino e, o mandato que recebemos é bem preciso: Pescadores de homens!

‘Quais homens?’ pergunto-me às vezes. E a resposta é sempre a mesma: ‘Todos os homens, todos são Meus filhos, por todos dei a Minha Vida’.

Há para aí alguns – muitos, infelizmente – que andam perdidos, embrulhados nas redes das paixões deste mundo, confundidos com as correntes das opiniões dos outros, desnorteados com os rumos que lhe sugerem. ‘Tu – diz-me Ele a mim – és importante, imprescindível para os trazeres de volta à praia. Aqueles que esperam por ti, se não os encontrares e salvares, perder-se-ão porque não há substitutos para a tua missão.’

«Por cima do meu mar revolto levantou-se um nevoeiro espesso que me envolvia como num manto ou, talvez, como uma mortalha bem à minha medida já que não conseguia mexer-me minimamente. Queria muito tocar o nevoeiro, a sua textura, perceber de que era feito. Parecia-me como que uma espuma das ondas do mar bravio, mas, ao mesmo tempo, também se apresentava como uma nuvem etérea de uma tarde de Inverno, mas as minhas mãos não me obedeciam. Estavam onde deviam estar, nas extremidades dos braços, aparentemente prontas e disponíveis para o que fosse preciso, mas... não…, não conseguia movê-las, ou melhor, moviam-se como se tivessem vontade própria, para coçar uma comichão no nariz, a mão direita ia “viajar” até à nuca, depois ao pescoço e, quando lhe parecia, lá tocava, então, no nariz. Entretanto, a esquerda, para carregar no botão do telemóvel para atender uma chamada, encarava o serviço como algo tão difícil e custoso que, normalmente, quem me chamava, desistia.

‘Nevoeiro e mar... Que mais, Senhor, que mais mandas? Olha que eu... não posso, sou fraco, débil, tenho medo!’

 

Ne timeas!

Ouvi-Te e... deixei-me “ir” murmurando como podia: 'Gratias tibi, Gratias tibi'.»

O medo! O medo paralisa.

O medo revela, sempre, uma atitude de cobardia pessoal. Assumir as consequências das nossas atitudes, dos actos que praticamos é, muitas vezes difícil, nomeadamente quando, por um motivo ou outro, temos a percepção que merecemos crítica ou reparo.

Faz parte da vida de todos os dias, a vida corrente de cada um, ter de assumir responsabilidades, grandes ou pequenas, dar respostas, tomar decisões. Fugir ou pretender ignorar, ou, muitas vezes, adiar para uma ocasião que consideremos mais oportuna ou favorável, não resolve nada, bem pelo contrário, talvez agrave e complique, desnecessariamente, a questão.

Quantas vezes nos sentimos ufanos de comentários favoráveis a nosso respeito e nos deixamos invadir por uma confortável sensação de bonomia quando, complacentemente, ouvimos um elogio? Não pensamos que, o elogio que nos é feito vem de alguém que não nos conhece verdadeiramente, isto é, não imagina sequer os muitos defeitos do nosso carácter?

Então, surge o medo que se venha a saber, que de alguma forma descubram esses defeitos, essas deficiências que conhecemos bem. 

Medo da vida… sim… medo da vida, do futuro, do dia de amanhã. O dia de hoje, este dia concreto em que estamos, é que é importante e tem de ser vivido com plenitude, não descurando nenhuma oportunidade que se nos apresente de fazer algo bom, de emendar algo errado que fizemos ontem, de concretizar aquele plano que tínhamos guardado.

Hoje é o tempo oportuno, a ocasião favorável.

Medo do comprometimento em algo que exija de nós desprendimento, serviço, doação. Daquilo que pode alterar a tranquilidade do nosso viver, o ritmo a que estamos habituados do esquema de vida que fomos construindo ao longo dos anos e onde nos sentimos confortáveis.

Medo de corrigir o que está mal nos outros de, com caridade, mas com desassombro, apontar o erro, o engano.

Medo de “ficar mal” se nos mantivermos firmes nas nossas convicções bem informadas e não transigirmos com o erro – propositado ou fruto da ignorância – que outros divulgam à nossa volta.

Medo de procurar conselho, ajuda quando pensamos que esse conselho, essa ajuda, vem exigir de nós novas atitudes de correcção interior.

Medo, finalmente, de não sermos ouvidos nas nossas preces quando consideramos a nossa total falta de merecimento.

Não revelam, todos estes “medos” falta de coragem, ou seja, cobardia?

Jesus Cristo deu-nos numerosos exemplos do que é não ter medo.

Por exemplo, quando pegou num azorrague expulsou os vendilhões do templo, não teve medo de ser mal interpretado, nem então nem nos séculos futuros, e poder ser considerado um arruaceiro intransigente e fanático.

Fez o que achou que deveria ser feito, exactamente para nos ensinar o que, em situações semelhantes de adulteração e profanação do sagrado – e tantas há nos nossos dias – devemos fazer.

As Suas atitudes eram tão desassombradas que Lhe perguntavam: «Com que autoridade fazes estas coisas» E, Jesus, não ficou “mal”, bem pelo contrário.

A Sua resposta é a adequada às pessoas preconceituosas que o interrogam: «Também Eu vos farei uma pergunta; respondei-me e dir-vos-ei, então, com que autoridade faço estas coisas: O baptismo de João era do Céu, ou dos homens? Respondei-me

Estão bem gravadas no nosso espírito duas cenas que o Evangelho nos relata e que ilustram bem o medo-cobarde que se apodera de nós em situações de extrema tensão.

Quando Pilatos pergunta a Jesus o que é a verdade, o Evangelho diz que, sem esperar pela resposta, voltando as costas se retirou.

Na história da humanidade, ficará para sempre registada esta atitude do Pretor romano. Não quer ouvir a resposta de Jesus. Intimamente sabe que, se a ouvisse, completa e esclarecedora, como não podia deixar de ser, vinda do Salvador, ela transformaria por completo a sua atitude perante o que se estava a passar no seu tribunal e, efectivamente, o que desejava era acabar rapidamente com um processo que, intrigando-o sobremaneira, não sabia como resolver.

Em suma, não quis saber com clareza os fundamentos da justiça que lhe competia administrar.

Quando a servente do Sumo-Sacerdote interpela Pedro sobre Jesus, ele responde como sabemos. E invadido por um autêntico pavor de ser conotado, de alguma forma, com o Mestre que, ainda poucas horas antes, afirmara querer defender com a espada, se fosse preciso.

Nestas duas atitudes, o medo é, claramente, cobardia e, ambas têm consequências graves.

Se Pilatos tivesse ouvido a resposta de Jesus, provavelmente a sua decisão ter-se-ia alterado e o desfecho da tragédia da Paixão do Senhor poderia ter sido outro.

Se Pedro assumisse que conhecia Cristo e que pertencia ao círculo restrito dos Doze escolhidos, talvez sofresse alguns dissabores, embora os que acusavam Jesus, obcecados como estavam nos seus propósitos de O levarem à morte, talvez nem prestassem atenção a tal.

As duas atitudes são semelhantes, mas não se equivalem. Pilatos é um homem esclarecido, culto, entendido em leis, habituado a mandar, a tomar decisões; Pedro é um simples pescador, sem grandes letras e atordoado com os últimos acontecimentos.

A intervenção de Pilatos na história da salvação humana acaba aqui, com esta imagem negativa e contrária a toda a ética; a de Pedro, não, arrepende-se amargamente, obtém o perdão de Jesus, é confirmado por Ele como Seu sucessor herdeiro directo à frente da Sua Igreja e, mais tarde, numa atitude de suprema humildade e arrependimento, quer que Marcos deixe lavrado com pormenores, este triste episódio.

O primeiro, segundo consta, morre em desgraça, o segundo, merece o supremo prémio do martírio.

 

 

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23/03/2023

Quaresma Semana 3 Quinta F

 


Dentro do Evangelho

(Re Jo XV)

 

Ser servo e ser amigo

Há de facto uma diferença e vê-se bem qual é. O amo pode ser amigo do seu servo, isto é, sente amizade por ele porque faz o que lhe manda fazer, é diligente, não recalcitra, aceita de bom grado o trabalho que lhe encomenda, a sua liberdade para escolher outro servo está condicionada pela aptidão que esse outro possa ter para cumprir as tarefas que este cumpre a contento, mas mesmo querendo-lhe como amigo tratá-lo-á sempre como servo.

O inverso pode também ser verdadeiro, o servo pode ter amizade pelo seu senhor porque é justo, o trata com urbanidade, não lhe exige tarefas que vão além das suas capacidades, mas sempre o considerará como seu amo e não tem a liberdade de poder escolher outro. Então a diferença está exactamente nisto: os amigos verdadeiros são-no em qualquer circunstância e não se exigem nada um ao outro pelo contrário gozam com as diferenças e idiossincrasias de cada um encontrando sempre pontos comuns ou que se completam. São livres de ter outros amigos, diferentes interesses e objectivos. Sim, de facto existem diferenças e de monta, mas também existe algo que é comum e, esse algo, é exactamente o serviço.

Os amigos verdadeiros prestam-se serviços mútuos, pequenos ou grandes, de muita ou escassa importância. Serviço que começa na disponibilidade gratuita para suprir uma necessidade, ajudar a ultrapassar um momento menos bom, na partilha da alegria e da dor do outro, tudo como que balizado por um profundo respeito mútuo pela privacidade de cada um. É esta a amizade à qual o Senhor se refere e, de facto, uma amizade assim pode conduzir à dádiva da própria vida pelo amigo.

‘Esta realidade que me atinge como um raio, deixa-me sem palavras: Jesus é meu amigo! Sendo eu o que sou. Sendo eu como sou. Durante os anos, e não são poucos, quantas conversas, quantos desabafos, queixas e pedidos não Lhe fiz! Meu amigo! Jesus é meu amigo. Com esta certeza, com este AMIGO, que mais posso precisar? Que posso temer?’

Não tenhamos receio que o que pedimos seja algo grande, muito importante, absolutamente desajustado aos nossos méritos (na verdade, não temos qualquer mérito). Aprendamos a ser simples nas nossas conversas com o Senhor, com uma simplicidade infantil, como aconselhava São Josemaria: «Sê ainda mais audaz e, quando precisares de alguma coisa, sempre disposto a dizer «fiat» - «faça-se a Tua Vontade» - não peças; diz "Jesus, quero isto ou aquilo", porque é assim que pedem as crianças».

Porque a oração de Jairo foi assim, simples, concreta, confiada, Jesus foi com ele sem mais delongas ou perguntas. Não temos junto de nós, fisicamente, como Jairo tinha naquele momento, a Pessoa de Jesus, não podemos fixar o Seu olhar amabilíssimo, apreender os Seus gestos de acolhimento e amor, mas, nos Sacrários de toda a terra, talvez algum bem próximo onde nos encontramos, Ele está realmente presente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, aguardando a nossa visita diária para uma pequena e íntima conversa a dois. Jairo teve de informar-se por onde andava Jesus naquela hora, qual o Seu caminho, por onde passaria e tem de apressar-se pois Jesus, caminhava continuamente pelos caminhos da Palestina. Detinha-se junto dos doentes, dos aflitos, demorava-se por vezes em pregações mais demoradas que as multidões ansiavam por ouvir. Embora sem pressas, nunca se detém num local por tempo além do necessário. Tem muito que fazer!

Nós não temos de fazer grande esforço para encontrar Jesus.

Temo-Lo ali, à nossa espera, sempre disponível para nos atender o tempo que quisermos dedicar à nossa conversa. Somos, na verdade, muito mais afortunados que aqueles contemporâneos de Jesus – que Jairo – que tinham de percorrer distâncias consideráveis, ficando muitas vezes sem comer, beber ou descansar, só para terem a dita de O ver ou de O escutar. O Evangelho fala-nos concretamente das multidões que O seguiam há três dias sem sequer comer. Visitar Jesus no Sacrário é, portanto, um dever de amor porque, Ele está ali única e exclusivamente por amor de nós e, amor, com amor se deve pagar. «Senhor, graças por teres ficado. Que teria sido de nós sem Ti? Onde iríamos restaurar as forças, pedir alívio? Que fácil nos tornas o caminho a partir do Sacrário»

Muito admirados terão ficado os que O rodeavam ao verem o novo rumo do caminho de Jesus. Os mais próximos ter-se-ão dado conta da sua atitude perante Jairo, ouvido a sua interpelação suplicante e confiada. Não ouvindo resposta alguma do Mestre, mas tão só a Sua pronta decisão de ir com Jairo, deverão ter entendido que o Coração de Jesus fora profundamente tocado a satisfazer o que Lhe pedia. Alguns terão guardado este exemplo de como abordar o Mestre. Todos têm algo que Lhe pedir, talvez… nem saibam bem o quê porque sofrem tantas necessidades, sentem tantas carências. Sabem que Ele é o refúgio, o consolo, a solução e, também, ficaram a saber, pela atitude de Jairo, como obter tudo isso. «A nossa petição não se dirige a mudar a vontade divina, mas a obter o que já tinha disposto que nos concederia se Lho pedíssemos. Por isso é necessário pedir ao Senhor incansavelmente, pois não sabemos qual é a «medida» da oração que Deus espera que «enchamos» para nos outorgar o que quer dar-nos».

O mistério da oração tem-nos sempre suspensos como que numa espécie de limbo nebuloso. Eu penso, quero confiar no Senhor e, por isso, rezo, mas, cá no meu íntimo, sei que não mereço nada e que a minha oração, muito provavelmente, não será ouvida. Que mal estaríamos, se o Senhor só ouvisse as orações dos que têm algum merecimento…! Eu sei, também, que o próprio Jesus insistiu, tantas vezes, em que rezássemos continuamente, sem desfalecer. Deu-nos exemplos que constam nos Evangelhos. Só que, por vezes, é tão difícil rezar! Parece sempre tanto tempo!

Na verdade, muitas vezes procuramos consolações na oração, um empolgamento do espírito que nos arrebate e eleve o coração no espaço espiritual onde nos sentimos mais perto de Deus. Infelizmente, parece que, assim, estamos a rezar a nós próprios, num contentamento espiritual que é, desde logo, a paga almejada. É uma pena porque assim, perdemos aquela outra paga, extraordinariamente mais importante e de valor incomensuravelmente maior, porque é uma paga divina. Nem a gente sabe “fazer as contas” que o Senhor usa para connosco.

Conta-se que Alexandre o Grande mandou dar o governo de cinco cidades a um pobre camponês que lhe dera uma indicação útil. O pobre homem, espantado, terá dito: Senhor, nunca me atreveria a pedir tanto! Ao que Alexandre respondeu: Tu pedes como quem és, eu dou como quem sou!

Eu peço como quem sou: um pobre miserável que precisa de tudo, absolutamente tudo, do seu Senhor. Nada tenho, nada valho e tudo o que tenho ou possa valer é d’Ele, desse Senhor que me deu uma alma imortal e nela imprimiu a Sua imagem. É o meu único bem de valor – aliás, incalculável – a imagem de Deus impressa na minha alma. Ele ouve a minha oração e dá-me não o que Lhe peço, mas o que entende dar-me, com uma generosidade e uma grandeza que me espantam. E atrevo-me a dizer-lhe profundamente agradecido: «Peço-te, Senhor, que recebas o meu amor como se fosse o único amor que tens na terra. Assim não notarás como é pequeno, miserável... Serei feliz porque mesmo sabendo o pouco que é, como to dou todo... fico disponível para me “encher” do Teu...’  

Esta é uma situação, que, seguindo a cronologia de S. Lucas, muito se assemelha a outra de há tempos atrás. Nessa altura fora um Centurião a implorar pelo seu servo doente. Não se achara digno de comparecer ante Jesus e, assim pedira por interpostas pessoas. Fez mais, declarou expressamente ao Mestre que se sentia indigno de O receber em sua casa, mas que sabia que bastaria uma palavra Sua para se cumprir o que desejava. Jesus ficou admirado com a sua fé e fez o que lhe pedia.  Agora o que se passa é mais grave. Jesus sabe muito bem que a filha de Jairo já morreu. Pode, se quiser, devolvê-la à vida em qualquer momento, em não importa que local, mas encontra uma ocasião propícia para edificar o povo que O seguia e, talvez principalmente, os três discípulos que convocará para O acompanharem.

Estes três escolhidos terão sempre um lugar muito particular nos grandes momentos da vida pública de Jesus. Muito provavelmente teriam estado nas bodas de Caná– era usual os “rabis” fazerem-se acompanhar de alguns dos seus discípulos mais chegados -, talvez, na altura, não se tivessem dado bem conta do portentoso milagre que, a instâncias de Sua Mãe, Jesus operou. Por uma razão simples e muito humana, poder-se-ia dizer: “salvar a face” dos noivos aflitos com a falta de vinho.

Não são necessárias grandes causas ou magnos problemas para que Cristo Se compadeça do ser humano. O Seu Coração amantíssimo move-se pelos mais singelos problemas dos homens e, ainda mais, quando a Sua Mãe intervém. ‘A ti, Mãe, recorro nesta hora de preocupação. Como em Caná intervieste em favor dos noivos que, sem terem pedido, obtiveram por teu intermédio uma graça inesperada, diz-lhe também agora: Este meu filho não tem! E como é uma graça que por tua maternal intercessão, solicito, tenho a certeza que a obterei.’    

Terão os discípulos percebido que fora por causa da intervenção da Virgem que, Jesus decidira, definitivamente, a fazer o milagre? Talvez não. Podemos supor que sendo a primeira vez que o poder divino de Jesus se manifestava de forma tão evidente, eles não estivessem preparados para dar atenção aos pormenores. Mais tarde, sim. No fragor dos dias que se seguiram à Crucifixão e Morte do Senhor, hão-de procurar refúgio junto da Mãe e, será junto dela, no Cenáculo, que receberão o Espírito Santo que lhes abrirá definitivamente a compreensão de todas as coisas.

Junto dela encontramos, sempre, refúgio e protecção, a luz necessária para distinguir os caminhos que Jesus quer que percorramos e, também, a compreensão das incidências e agruras que inevitavelmente surgem na vida de cada um.

Pedro, que será a coluna sobre a qual assentará a Igreja de Cristo, duvidará muito, terá momentos de desânimo, sem compreender o que Jesus lhe diz acerca do sofrimento, da Cruz… Maria, ajudá-lo-á a compreender, a confiar e, sobretudo, a aceitar. Repetirá, vezes sem conta, o que dissera em Caná: Fazei tudo o que Ele vos disser

«Estamos nas mãos de Deus. Todos os acontecimentos que Ele manda ou permite têm o seu significado e estão dirigidos para nosso proveito. (...) O que Eu faço não o entendes agora... Também a nós nos ocorre o mesmo que a Pedro: às vezes não compreendemos os acontecimentos que o Senhor permite: a dor, a enfermidade, a ruína económica, a perda do posto de trabalho, a morte de um ente querido quando estava nos começos da vida. Ele tem uns planos mais altos, que abarcam esta vida e a felicidade eterna. Não nos vamos fiar do Senhor e da Sua providência amorosa? Somente vamos confiar n’Ele quando os acontecimentos nos pareçam humanamente aceitáveis? Estamos nas Suas mãos, e em nenhum outro sítio poderíamos estar melhor. Um dia, no final da vida, o Senhor nos explicará com pormenores o porquê de tantas coisas que aqui não entendemos, e veremos a mão providente de Deus em tudo, até no mais insignificante. (...) Senhor, Tu sabes mais. Em Ti me abandono. Já entenderei mais tarde.»

Chamá-los-á também para testemunhar a Sua Transfiguração, para verem com os seus olhos tão humanos a glória do Filho de Deus. Ainda aqui, não entendiam nada. Com os olhos carregados de sono, a Pedro só lhe ocorre dizer que se sente bem, que não quer afastar-se daquela visão, daquele local. Depois, nos momentos derradeiros, convidá-los-á, aos mesmos três, para O acompanharem no Horto das Oliveiras para testemunharem a Sua Agonia.

Mais uma vez, o sono vence-os. Este sono é a figura do desânimo, da preocupação, da incerteza, do medo. «A oração do Senhor prolongava-se entre lágrimas e eles não penetraram no seu mistério. A tristeza ia afundando-os num sopor paralisante. E adormeceram. O sono foi para eles a saída psicológica da tristeza, enquanto Jesus a superava permanecendo em vigília, orando com perseverança, clamando ao Pai de joelhos, sem Se dispensar do esforço».

Tristeza e sono… como andam juntas estas “fraquezas” do homem!

Consentir na tristeza é caminho certo para adormecer. Ficamos absortos no problema ou na situação que nos aflige e nos entristece. Tudo parece cinzento à nossa volta, não vemos nem saída nem escapatória e, se nos deixarmos ir por aí, o mais certo é os nossos olhos deixarem de ver o que realmente se passa à nossa volta e cerrarem-se com sono. ‘Eu…? Não!’ Dizemos, espantados com tal possibilidade, ‘comigo isso não acontece, nunca estou triste!’ Será verdade? Todas as vezes que nos detemos a pensar no que não temos e desejaríamos ter, porque pensamos que nos faz falta, no que faríamos se as circunstâncias fossem as que consideramos ideais; quando deixamos insinuar-se a suspeita, a pequena inveja, a nossa vontade de sobressair, de sermos notados, talvez mais “queridos” que os outros; quando nos revemos com prazer e gosto no que fizemos, como falámos, como fomos “certeiros” na nossa avaliação, como nos olharam com admiração… aí, não estamos tristes, bem pelo contrário, sentimo-nos contentes, felizes até, talvez, eufóricos. E, a tristeza, que tem a ver com isto, que, afinal, são coisas pequenas que procuramos reprimir de imediato? Tem, e muito, a ver. Porque essa alegria e esse contentamento depressa se desvanecem quando nos damos conta da nossa fraqueza, do pouco que somos, da nossa tendência para considerar detidamente tudo aquilo que é agradável aos nossos sentidos e, em contrapartida, a fuga ao sacrifício, à entrega, à renúncia, à simples contenção de pensamentos, atitudes e palavras. «Se vês que adormeço; se descobres que me assusta a dor; se notas que me detenho ao ver mais de perto a Cruz, não me deixes! Diz-me como a Pedro, como a Tiago, como a João, que necessitas da minha correspondência, do meu amor. Diz-me para seguir-te, para não voltar a deixar-te abandonado com os que tramam a Tua morte, tenho que passar por cima do sono, das minhas paixões, da comodidade.»

Os discípulos agora, não sentem sono. Estão bem despertos, talvez preocupados com a multidão que cerca Jesus num turbilhão de pessoas de todas as condições sociais, homens, mulheres, jovens e anciãos, gente humilde e de posses, letrados e ignorantes, sãos e doentes, que quer aproximar-se, ouvir, tocar o Mestre. A sua preocupação é protegê-Lo, resguardá-Lo e, talvez, também darem a perceber que são os discípulos, os próximos, os íntimos. Talvez haja algum orgulho, vaidade até. Afinal, são eles os confidentes de Jesus…‘Que são orgulho! Que justificada vaidade! Estar próximo de Jesus. Ser Seu íntimo!’

«Muitos não entendem este desejo: Estar próximo de Cristo! É que têm de Jesus uma visão como que esfumada pela distância em que O colocam. Há como que um “respeito humano” muitas vezes disfarçado de falsa discrição, que leva muitos a pensar: ‘Cada coisa no seu lugar, isto é: Jesus Cristo na Igreja’, como se dissessem: ‘a minha esposa, os meus filhos… em casa!’ Alguns têm por costume pôr no automóvel fotografias deles, desses entes mais próximos e queridos. Dos motivos que os movem, talvez dois sejam os mais comuns: para funcionarem como ‘despertador’ prevenindo excessos perigosos na condução e como “última imagem” em caso de acidente grave. Mas, na verdade, só quem traz no coração a imagem da pessoa querida consegue vê-la com nitidez. Quem traz a fotografia no bolso, na carteira, no automóvel, só se lembra dela quando, por acaso ou de propósito, a mira. Para os outros, é apenas uma recordação que, de vez em quando, a memória traz, envolta na bruma do passado mais ou menos recente.

Estar próximo de Cristo não é, de facto, trazer a Sua imagem na carteira, é trazer a Sua imagem no coração. Lembrarmo-nos que, de facto, somos a “outra face da moeda” a que pertence a Deus. A outra ficará para César. Numa “preocupação egoísta e interesseira”, se preciso for… Trata-se de ganhar intimidade concreta, real, palpável com a pessoa de Jesus Cristo. Esta intimidade tem, sem dúvida, exigências muito grandes que se nos colocam, sobretudo, quando temos de tomar decisões relevantes. Foi o que aconteceu por exemplo, com Mateus. Jesus chamou-o quando sentado no telónio, o seu local de trabalho e, ele «Levantou-se e seguiu-o». A concisão da frase põe claramente em evidência a prontidão de Mateus a responder à chamada. Para ele isso significava abandonar tudo, principalmente o que lhe garantia uma fonte segura de recursos, que era no entanto desonrosa e muitas vezes injusta. Mateus compreendeu pela evidência que a intimidade com Jesus o impedia de seguir uma actividade desaprovada por Deus. Facilmente se tira daqui uma lição para o presente: também hoje é inadmissível o apego a coisas incompatíveis com a caminhada de seguir Jesus, como é o caso das riquezas desonestas.» Mas, como se pode ser íntimo de alguém se não convivemos com ele com regularidade, com interesse?

Conviver com Jesus parece difícil, por vezes. Não O vemos, não O sentimos, não temos uma referência que nos desperte a necessidade de conviver com Ele. Ah! Mas a verdade, é que temos tudo isso, só que, muitas vezes está bem guardado no mais fundo do nosso coração. É necessário pôr o coração “de fora”, para que o possamos sentir o seu latejar de amor pelo Mestre.

«Aqui está, realmente, a dificuldade. A decisão de ganhar intimidade com Deus é, tem de ser, algo sério e decisivo. Não pode ser tomada com ligeireza, num entusiasmo, num momento de exaltação ou fervor espiritual. A intimidade com Deus é pormo-nos, incondicionalmente, nas Suas mãos, disponíveis para o que Ele quiser, como quiser e quando quiser, prontos para aceitar a Sua Vontade sobre todas as coisas. Isto pode parecer muito exigente e, de facto é, mas se tivermos bem em conta a realidade da nossa pessoa na sua relação com Deus, a nossa identidade superior a todas as outras possíveis de encontrar na natureza, chegaremos à conclusão que o lugar certo para estarmos é, sem qualquer dúvida, na intimidade do Criador. «O céu não foi feito à imagem de Deus, nem a lua, nem o sol, nem a beleza das estrelas, nem nada do que aparece na criação. Só tu (alma humana) foste feita à imagem da natureza que supera toda inteligência, semelhante à beleza incorruptível, marca da verdadeira divindade, espaço de vida bem-aventurada, imagem da verdadeira luz, e ao contemplar-te convertes-te no que Ele é, pois por meio do raio reflectido que provém de tua pureza tu imitas Aquele que brilha em ti. Nada do que existe é tão grande que possa ser comparado à tua grandeza.»  Seremos pessoas que andamos pelo mundo preocupadas principalmente com a nossa vida, com aquilo que temos, o que desejaríamos ter e, até, aquilo que julgamos que era conveniente possuir? Mergulhamos profundamente nas preocupações que todos os dias nos surgem dos mais diversos quadrantes e com diferentes matizes?

Os outros são para nós meras visões passageiras de familiares, companheiros de trabalho, pessoas com quem nos cruzamos ocasionalmente? Detemo-nos para pensar, uns momentos que sejam, no que realmente somos e pretendemos ser? Colocamos a “fasquia” alta ou acordamos numa rotineira actividade, sem grandes acidentes de percurso, rasteira, chata, anónima? Quando é que, ao longo do dia nos ocorre esta realidade: Deus está aqui, ao meu lado, no escritório, no automóvel, no consultório, no armazém, no…!

«Na intimidade pessoal, na conduta externa, no convívio com os outros, no trabalho, cada um há-de procurar manter-se numa contínua presença de Deus, com uma conversa – um diálogo – que não se manifesta exteriormente. Melhor dito, não se exprime normalmente com ruído de palavras, mas há-de notar-se pelo empenho e pela diligência amorosa com que acabamos bem as tarefas, tanto as importantes como as insignificantes. Se não procedêssemos com essa constância, seríamos pouco coerentes com a nossa condição de filhos de Deus, pois teríamos desperdiçado os recursos que Nosso Senhor colocou providencialmente ao nosso alcance, para chegarmos ao estado de homem perfeito, à medida da idade perfeita segundo Cristo»

 

 

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