18/03/2023

Quaresma semana 2 Sábado 2023



 ‘Morri’!!!

Sonhei com a minha morte e, de certa forma bizarra, percebi que estava a ficar preocupado com algo que, sei, vai acontecer: o “interrogatório” que o Senhor me fará!

O que vou responder? Como vou responder? Penso que poderia usar um pequeno (grande) “truque” e usar as palavras de Pedro: «Tu, Senhor, Tu sabes tudo! Porque me interrogas?»

Mas, talvez, Ele vá insistir em obter respostas concretas.

Tenho ali, a meu lado, o meu Anjo da Guarda e olho para ele num apelo mudo e um pouco aflito. Inclina-se sobre o meu ombro e segreda-me: ‘Ne timeas…’

Assim, de repente, penso que isso é bem fácil de dizer, mais a mais a um Anjo: Não temas! Grande coisa!!!

Não tive tempo de lhe explicar que não tenho medo, sim… na verdade, não tenho medo! Tenho a convicção absoluta que este chamamento final, derradeiro, do Senhor se deve à Sua Misericórdia. Muito provavelmente terá decidido fazê-lo pensando: ‘Chamemos este desgraçado antes que faça mais disparates!!!’

Ou seja… provavelmente não estava “pronto”, quero dizer, não tinha tudo em ordem, arrumado, muito certinho… seria só chegar ali e mostrar-me, abrir o livro e… pronto…

Mas… não! O livro é Ele Quem o tem nas Suas mãos.

Tem setenta e tal páginas escritas em letra bem nítida e compreensível.

Consigo ver muitos pontos de exclamação e, isto, preocupa-me um pouco porque não sei se se devem a uma apreciação positiva ou negativa.

Depois vejo a Senhora! Radiante, linda, sereníssima.

Tem um enorme marcador verde na mão direita e, debruçando-se sobre o livro começa a sublinhar frases inteiras, às vezes, períodos extensos.

Fico fascinado e expectante enquanto a Senhora, tranquilamente, vai passando página após página sempre sublinhando, sem qualquer hesitação palavras após palavras.

De soslaio olho para o meu Anjo que me sorri de volta: ‘Ne timeas…’

O Filho não diz nada, observa atentamente a “tarefa” da Sua Mãe. Parece-me que já está habituado a estas coisas e, espera, pacientemente, até que, nas Suas mãos, fica um livro cheio de marcas verdes. Uma coisa inacreditável!

Fico, também, calado, pois que hei-de eu dizer?

Finalmente, este maravilhoso interregno, acaba e, eu, fico à espera do tal “interrogatório”.

Mas… O Senhor, não diz nada. Fecha o livro e entrega-o ao meu Anjo para que o guarde na grande Estante dos Livros da Vida dos Homens.

Olha para mim uns brevíssimos momentos como se uma pequena hesitação o assaltasse, mas, logo de imediato, estende-me a Sua Mão e diz-me simplesmente: ‘Vem!’)

Apercebo-me sem dificuldade que faz todo o sentido a presença da Mãe. De facto, ela tem muito a ver com tudo o que se passa com a humanidade. Afinal todos os homens – por vontade expressa do Filho - somos seus filhos. Mas também tem muito a ver com o mar porque é Guia dos Navegantes; a Stela Maris; a segurança – iter para tuto.

A sua vida depois que o Filho começou a ingente tarefa que O trouxe ao mundo foi passada entre pescadores, homens do mar, gente habituada aos “altos e baixos” da profissão, das pescas abundantes e dos malogros das redes vazias. Sabe do que falam, conhece o que desejam, consola-os e anima-os a prosseguir. Tal como o Filho também ela lhes diz: «Duc in altum», fazei-vos ao largo onde a pesca será mais abundante e compensadora do esforço despendido. Não vai com eles nas barcas, mas fica em terra, na praia, pensando neles, pedindo insistentemente ao Filho que os guie, os proteja (,) que os ventos e as ondas não se tornem perigos insuperáveis. Mas, se acaso, soçobram ou estão prestes a sucumbir porque ou perderam os remos ou as velas e estão à deriva num mar desconhecido apressa-se a socorrê-los.

Em Dezembro de 2011 a embarcação “Virgem do Sameiro” com seis pescadores a bordo naufragou. Os pescadores recolheram-se numa balsa e andaram sessenta horas à deriva no mar, exaustos, sem comida nem água sem quaisquer meios disponíveis para sobreviver quando finalmente foram avistados por um helicóptero que os resgatou e os trouxe para terra. Rodeado pelas televisões e jornalistas, o Mestre da embarcação respondeu a uma jornalista que perguntava o que tinha a dizer sobre o que se afirmava que teria sido milagre por intervenção de Nossa Senhora: ‘Sim, estou convencido que foi um milagre! Não é por acaso que o nome da embarcação é “Virgem do Sameiro” e que dentro da balsa tínhamos um Terço do Rosário’».

É bem conhecida a devoção das gentes do mar à Virgem Santíssima.

Muitas das suas embarcações têm nomes que a invocam. Fazem-se procissões em sua honra muito concorridas com os barcos engalanados em ambiente de grande festa e alegria. Algumas ostentam pinturas algumas de carácter bem ingénuo quase infantis, outras mais elaboradas retratando cenas mais complexas em que a Senhora é sempre a figura central.

Desde sempre o mar atrai o ser humano talvez pelo que encerra de mistério e desconhecido. Constitui um desafio que está ali, poderosamente presente aguardando que alguém se aventure à descoberta do que esconde. E o que é a nossa vida senão um navegar num oceano desconhecido onde a cada momento precisamos acertar o rumo, corrigir a rota, guiando-nos pela bússola que nos indica o porto onde queremos chegar.

Há muitíssimos portos que, aparentemente, podem parecer-nos atraentes, interessantes. Talvez, até, adequados àquilo que costumamos chamar “a nossa maneira de ser”.

Vamos por ali, navegando como sabemos e podemos, determinados, umas vezes, outras, tergiversando, lutando contra os ventos e as marés, as tempestades ou as faltas de vento que enfunem as velas da nossa esperança.

Consideramo-nos marinheiros experimentados, sabendo muito bem como fazer para chegar ao porto?

Temos a certeza que os meios que usamos são os mais adequados, em cada momento e circunstância, para atingir o nosso fim?

Não seria muito melhor deixar nas mãos de Cristo o leme da nossa barca?

 Ele sabe como fazer – sempre – para levar essa barca, que é a nossa vida, pelas águas mais tranquilas, pelo rumo mais certeiro, com os ventos mais favoráveis. Nas borrascas, estará firme no Seu posto, no cansaço da luta não Se deixará vencer nem pela fadiga nem pelo desânimo. No fim e ao cabo, Ele, é o Caminho!

Cristo está junto ao mar porque quer ver como nos comportamos na nossa barca, na nossa navegação. Ele sabe muito bem os perigos que o mar desta vida tem, conhece profundamente e em detalhe as nossas incapacidades e deficiências como “marinheiros”. Está ali, para “o que der e vier”. Da praia, se nos vir em perigo, aflitos com a perda do rumo, acenar-nos-á para que vamos ter com Ele.

É tão bom saber que Cristo está na praia do nosso mar! Que confiança nos dá o sabê-lo ali, disponível para o que for preciso! Mesmo quando não nos damos conta, ou pior, quando ignoramos a Sua presença, Ele está lá, sempre, solícito e pronto a acudir-nos. Até se nos consideramos importantes, capazes, instruídos, sabedores, Ele não Se afasta, continua sempre disponível e expectante à nossa espera.

Foi na praia que Jesus começou a fantástica história da salvação humana. Eram homens do mar os que, em primeiro lugar, Jesus escolheu para concretizar a Sua Missão Salvadora. Muito particularmente, estes três: Pedro, Tiago e João, hão-de acompanhá-lo-ão sempre mais perto da Sua intimidade.

Quantas longas horas deve ter passado instruindo a sua pouca cultura, limando as rudezas do seu carácter, cimentando a sua dedicação!

Desejou tê-los consigo nos momentos mais marcantes, que conhecemos, da Sua vida pública: Nos grandes milagres, como a ressurreição de Lázaro – e agora, neste, da filha de Jairo -, como testemunhas particulares da Sua Divindade – na Transfiguração do Tabor - nas horas dramáticas de Getsémani.

A Pedro, impetuoso, decidido e… cobarde, desculpar-lhe-á a traição, o abandono e confere-lhe a suprema honra de ser o Seu primeiro representante na terra. Sabe que, apesar de tudo, pode contar com ele. A sua maneira de ser é por vezes irreflectida, mas, quando o Mestre o chama, mesmo sabendo que não lhe é possível caminhar sobre as águas lança-se impetuosamente ao mar para ir ter com Ele. Depois, cai em si, encara a situação e a sua confiança no Senhor esmorece e como resultado começa a afundar-se. Mas Cristo está ali a pouca distância, o Seu olhar tranquilo não se despega do seu cheio de temor e grita: «Salva-me, Senhor!»

Jesus conversa com eles de forma que eles entendem bem:

Fala-lhes do mar e da faina da pesca. Diz-lhes que o que espera deles, a tarefa grandiosa, extraordinária que lhes tem reservada. Talvez não tenham percebido completamente o que encerrava esta primeira lição, mas não precisaram de mais para se decidirem. Na escolha feita por Jesus, o que contou, de facto, foi a pronta decisão de O seguirem assim que os chamou.

Certamente haveria, na Palestina, outros homens de igual ou melhor carácter, com qualidades, talvez, mais marcantes, muito provavelmente mais capazes de apreenderem com maior rapidez a missão que lhes destinaria. Mas, no mar, sozinho entre o céu e a as águas profundas e misteriosas, o homem sente-se mais entregue a si mesmo, percebe que a sua vida depende da sua perícia, da sua aptidão, da sua capacidade de enfrentar as dificuldades. Os pescadores estão habituados a trabalhar em equipa, a obedecer a um chefe, o patrão da barca, a quem confiam as suas vidas. É ele quem dá as ordens, quem destina o que se deve fazer em cada momento, quem escolhe o rumo, quem melhor conhece os ventos e a força das ondas.

Pedro, não só é, deles, o que tem mais experiência, mas é quem sabe sempre o que fazer em todos os momentos. Mantém a calma e a serenidade perante os perigos sempre à espreita, sabe mandar e, muito importante, é capaz de substituir sempre quem, por este ou aquele motivo, se encontre incapacitado para o trabalho que lhe compete.

São solidários uns com os outros, se um, por qualquer motivo, falha no que lhe está cometido, é substituído sem demora e sem recriminações.

Parece lógico que, a Igreja, venha a ser confiada a homens assim.

Mais tarde, é na margem do mar, que Cristo Ressuscitado lhes aparece.

Sabe onde os encontrar nas horas da desilusão e atordoamento que se seguiram à Sua Paixão e Morte; «Disse-lhes então Jesus: Não temais. Ide dar a notícia aos Meus irmãos, para que vão para a Galileia e lá Me verão».


17/03/2023

Quaresma Semana 2 Sexta F

 Q


 

(Re:Lv VIII)

Thalita kum



Prólogo

 

«O Senhor procura-nos a todo o instante: levanta-te - diz-nos - e sai da tua preguiça, do teu comodismo, dos teus pequenos egoísmos, dos teus “problemazinhos” sem importância. Desapega-te da terra; estás aí rasteiro, achatado e informe. Ganha altura, peso, volume e visão sobrenatural».

Muitas vezes dou comigo a pensar que, a minha vida é uma constante procura de um encontro com o Senhor, fazendo oração, procurando-O no sacrário, participando na Santa Missa. Quando me detenho mais um pouco, vejo com clareza que não é bem assim, aliás, não é de todo assim; com efeito, eu, procuro encontrar-me com Ele, mas, isto só acontece porque, primeiro, Ele, quis encontrar-se comigo.

De muitas maneiras diferentes, nos mais diversos ambientes e circunstâncias, sinto que me fala, me interpela, me chama.

Está à minha espera! E não deixo de me surpreender com este cuidado e carinho que Jesus tem para comigo, sendo eu o que sou, sendo eu como sou: Nada! Depois, mergulho em mim mesmo e reflicto: Sou filho de Deus!

ensão não consigo abarcar completamente.

 

«Estava junto do mar, quando chega um dos príncipes da sinagoga, de nome Jairo, e, ao vê-lo, cai-lhe aos pés e suplica-lhe instantemente, dizendo: A minha filhinha está em agonia, Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva! E foi com ele.» 

Cristo está junto ao mar. O mar da vida de cada homem. O mar onde navega a multidão de seres humanos lutando por chegar a um porto. O de cada um. O porto que cada um escolheu para si, para descansar da luta da viagem, longa ou breve, que começou quando nasceu de sua mãe e acabará exactamente nesse porto.

Sabemos qual é o porto para onde nos dirigimos? Temos a certeza de que a nossa “navegação” nos levará a esse destino?

Sem dúvida que o porto é o seio de Deus fim de todo o homem: A Eternidade!

No cais desse porto, Ele estará à nossa espera com o grande livro nas mãos. Ao lado está presente o Anjo que designou para ser o “nosso Guarda”.  Ele sabe qual era a vontade do nosso Criador a nosso respeito, o que desejava que nós fizéssemos para navegar no rumo que tinha traçado para nós.

Ao lado do Juiz, está atentíssimo ao folhear das páginas, preparado para intervir, sempre em nosso favor, nalguma passagem mais crítica ou delicada. Apressar-se-Á a explicar que as circunstâncias, o mar revolto, as ondas e os ventos, o ambiente, as debilidades pessoais, talvez tenham contribuído para o nosso navegar por vezes incerto, errático. Nesse livro está toda a nossa vida, desde que nascemos até a esse derradeiro momento da nossa partida. É um registo fiel e rigoroso onde tudo, absolutamente se descreve.

Em primeiro lugar deverá constar a “expectativa” do Criador a nosso respeito: ‘Desde o início do mundo, pensei em ti e criei-te para seres… Depois virá uma lista, rigorosa, completa de tudo quanto nos deu para conseguir-mos corresponder a essas “expectativas”. É uma lista longa, que, constataremos talvez com espanto, cobre todos os dias da nossa vida. Diariamente fomos recebendo dons, graças, inspirações, sentimentos que se destinaram a ajudar-nos em cada momento a caminhar nesse sentido.

Logo no início, deverão descrever-se os talentos que recebemos, que Ele, com Infinita Bondade, inseriu na nossa alma no momento em que fomos concebidos.

Depois virá um rol exaustivo das graças iniciais que nos foram concedidas: O ambiente cristão em que nascemos, a educação que os nossos pais nos proporcionaram, o exemplo que nos deram: Assim como que uma espécie de “handicap” que nos foi concedido em relação a tantos – muitos – outros que não tiveram nada disso ou tiveram muito menos.

Aqui sobressai a graça do Baptismo que nos integrou na Sua Santa Igreja e onde, perante o mundo, nos foi dado o nome pelo qual Ele próprio, nos chamou desde o início da criação. Constará, decerto, a primeira vez que nos dirigimos à Sua Santíssima Mãe, a primeira Ave-Maria que, pacientemente, a nossa mãe nos ensinou a balbuciar. Com cores muito vivas estará patente o retracto da nossa alma inocente, branca, pura, impecável na festa do nosso primeiro encontro com Ele, quando O recebemos pela primeira vez.

Também consta o momento em que nos tornamos Seus “soldados” com a descrição das graças que em nós infundiu o Espírito Santo. A partir destas páginas iniciais abre-se um segundo capítulo que cobre toda a nossa juventude.

Minuciosamente passa em revista, ponto por ponto, tudo o que se passou connosco nesse período.

Não nos lembrávamos nem de uma pequena parte e, no entanto, está tudo ali cuidadosamente registado. Talvez surja um “apontarmento” referente a uma insinuação que nos fez acerca da nossa vocação e, claro, a nossa resposta. Esta referência há-de aparecer mais vezes ao longo das páginas deste capítulo e, também, em cada caso, a resposta que então demos: ‘Sim, aqui estou’! ‘Sim, mas…’; ‘Agora… não’!; ‘Não! Nem pensar em tal coisa’!

Ficamos muito admirados porque não nos lembrávamos de quantas vezes tínhamos ouvido a pergunta, escutado o desafio: ‘Vem comigo. Segue-me’! E os entusiasmos passageiros, os desejos de corresponder logo sufocados e os projectos de mudança por concretizar… tantas oportunidades não aproveitadas e para sempre perdidas!

As mãos divinas folheiam agora o grande capítulo da nossa vida adulta. Desejaríamos que algumas passagens, talvez páginas inteiras, não estivessem ali, mas… estão! Deve ser aqui que “o nosso Guarda” mais intervém, quase sempre para confirmar: ‘Mas… arrependeu-se, pediu perdão’

‘Sim’ – dirá Cristo – ‘é verdade, foi perdoado e o assunto esquecido, mas… consta aqui… quod scripsi, scripsi’.

E, o Senhor, passa adiante...

Sentimos como que um “aperto” no peito ao constatar os pequenos traços vermelhos com que o Juiz vai sublinhando passagens do livro; às vezes páginas inteiras. Traços vermelhos!

Não auguram nada de bom!….

 

 

Links sugeridos:

 

Opus Dei

Evangelho/Biblia

Santa Sé

Religión en Libertad

 

 

 



[1] Conf. 

[2] O que a seusca detendo-me principalmente nessa “estatura” de ser criado por Deus à Sua 

16/03/2023

Quaresma Semana 2 Quinta F

  


Reflectindo na Quaresma

Morte é Vida

Perante o mistério da morte ficamos surpreendidos com a confusão que, por vezes, se instala no nosso espírito.

Há uma mescla de sentimentos, onde, naturalmente, avulta a tristeza que o sentimento de perda provoca, mas que, surpreendentemente, não é o principal e é isto que mais nos causa estranheza e incompreensão.

Fere-nos singularmente algum sentimento de alívio, do terminar de um sofrimento, do arrastar de uma situação séria, grave, por vezes dolorosa, em que a pessoa querida se vai degradando fisicamente, perdendo gradualmente a sua autonomia até acabar totalmente dependente para os mais elementares e simples actos fisiológicos.

E este "sentirmo-nos feridos" quase nos envergonha porque pensamos – e bem – que não desejávamos que essa pessoa morresse, ao mesmo tempo que não queríamos que continuasse, assim, naquele estado de vida tão condicionada e sofredora.

Não é por essa morte ser previsível num espaço de tempo não muito longo, que se torna menos “cortante” – porque se trata de um corte definitivo e sem remédio -, porque, graças a uma espécie de esperança que nunca morre, esperamos sempre estar enganados e que uma súbita alteração das circunstâncias, mesmo sem explicação aparente – mas que sabemos, acontece por vezes – venha alterar definitivamente a situação.

De facto, a morte, não tem remédio absolutamente nenhum, é definitiva. É este – definitivo – que nos leva à tal surpresa que falávamos no início.

Não estamos habituados a que algo seja definitivo porque, a vida, a nossa própria vida tal como a dos outros, está sempre em evolução e o hoje não é igual ao amanhã, nada se repete tal e qual, tudo se vai transformando, evoluindo.

Vêm, depois, os outros, os familiares, mais ou menos próximos, os amigos mais ou menos chegados, companheiros de trabalho… e todos nos dizem mais ou menos as mesmas coisas. Frases feitas, termos usuais nestas circunstâncias, ar contristado, pesaroso, tentando parecer muito mais íntimos do que na verdade são.

Depois, cumpridas estas formalidades, retiram-se para o exterior para "espairecer", fumar um cigarro e, daí a pouco estabelece-se como que uma assembleia que conversa, convive, troca impressões.

Sentimo-nos, talvez, como que numa espécie de teatro um pouco requentado e com um enredo pouco ou nada atraente.

Mas, a morte, é assim: vida!

A vida prossegue o seu ritmo quase normal, nos primeiros tempos em que a memória está “fresca”, depois… só ocasionalmente nos recordamos do que aconteceu.

É muito bom que assim seja porque nestas memórias raramente aparecem os defeitos – que com toda a certeza a pessoa tinha – para surgirem com mais força, maior nitidez, as qualidades, os momentos bem passados, enfim, as coisas boas da vida anterior.

Assim, a morte, vem nivelar as relações, as memórias. Já não há nada a fazer!

Deparamo-nos finalmente com esta sensação estranha que não tínhamos sequer imaginado pudesse surgir: afinal, o lugar deixado vago pela morte não necessita ser preenchido donde concluímos que cada pessoa, sendo única, é insubstituível.

Claro que a razão é muito mais profunda que a simples constatação formal. Cada ser humano, embora podendo ter semelhanças com outro, nunca é qual exactamente porque é fruto da obra criadora de Deus que não faz nada “em série”, como numa linha de montagem. Cada ser humano tem uma alma – a imagem do Criador impressa – exclusivamente criada para si no momento da concepção.

Por isso mesmo, a concepção da vida concreta, real é de suma importância para compreender e aceitar a morte.

É, pelo menos, interessante dar-nos conta como a consideração da morte nos leva a pensar na vida sendo que, o contrário, não acontece.

A que propósito se iria pensar na morte quando nos sentimos vivos e, mais, com vontade e desejo de viver?

Não faz muito sentido, parece e, no entanto, seria de manifesta utilidade que o fizéssemos exactamente para termos consciência do nosso destino eterno.

O cristão tem, como verdade de fé, que está destinado à vida eterna e, mais, que ressuscitará no fim dos tempos em que o seu corpo se unirá à sua alma.

Como o mistério é de tal forma complexo, grandioso, extraordinário, optamos a maior parte das vezes por não pensar muito nisso porque ficamos, quase sempre, com a sensação que andamos às voltas sobre um eixo que também roda sobre si mesmo sem conseguirmos chegar a um fim, concreto, absoluto.

Aliás, é manifesto, que só conseguimos aceitá-lo com a ajuda da nossa fé cristã.

Podemos sentir curiosidade em imaginar o que seria o mundo se os nossos primeiros pais - Adão e Eva – não tivessem pecado e, assim, permanecessem no estado original da criação que não conhecia a morte.

Onde caberia tanta gente!

Se não existe fé, este problema é insolúvel, a resposta nunca será convincente.

 

Novíssimos - Morte


Encontrei-me com essa senhora

A princípio custou-me perceber de quem ser tratava. Não tinha forma de gente antes parecia uma coisa vaga como uma neblina indefinida. Percebi que estava triste e extraordinariamente cansada.

‘Tenho tido muito que fazer, disse-me, não tenho descanso.

A minha principal inimiga, a vida, até nem me tem dado muito trabalho. Cada vez há menos quem a queira. Mas em compensação os meus serviços cada vez são mais requisitados. É estranho que as pessoas queiram morrer e mais estranho ainda que desejem que outros morram. Por todo o lado parece haver uma cultura de morte e não me refiro só às guerras e lutas fratricidas que pululam por  todo o mundo, mas aos milhares de jovens vidas, algumas mal acabadas de começar a existir, que são sacrificadas nos altares da indiferença, do planeamento feroz, da impiedade mais radical. Sim, estou muito cansada.’

Fiquei a pensar nesta estranha conversa e dei-me conta que embora imaginária poderia ser bem real.

 

 

Links sugeridos:

  

Opus Dei

Evangelho/Biblia

Santa Sé

Religión en Libertad

 

15/03/2023

Reflexões para a Quaresma

 


Quaresma  

Ideias práticas e básicas

Neste período que começou na Quarta-Feira de Cinzas e termina na Quarta-Feira da Semana Santa, somos convidados afazer o confronto especial entre as nossas vidas e a mensagem cristã expressa nos Evangelhos. Este confronto deve levar-nos a aprofundar a compreensão da Palavra de Deus e a intensificar a prática dos princípios essenciais da fé.

É um tempo de transformação, em que nos devemos exercitar espiritualmente para podermos melhorar. É um tempo de alegria, em que devemos estar atentos às oportunidades de mais amar.

 

Oração – para aprofundar e melhorar a minha relação com Deus. Trata-se de dar mais tempo e tempo de qualidade ao meu relacionamento com o Pai.

Esmola – para melhor amar e melhorar a minha relação com os outros. Estar atento aos que me rodeiam (Família, amigos, colegas de trabalho) e também aos que estão mais longe, mas que têm algum tipo de necessidades.

Jejum – para adquirir maior liberdade interior. Procurar as minhas dependências, aquelas que me limitam, afastam os outros, e tentar combatê-las.

 

Alguns exemplos destas três prácticas: [i]

 

Oração

(como, quanto tempo, de que maneira)

Esmola

(ir ao encontro do outro de forma positiva)

Jejum

(libertar de manias, preconceitos, vícios)

Meditação

Ajudar financeiramente pessoas vítimas da actual crise

Abster-se de beber ou comer o que nos dá maior prazer.

Exame de consciência

Dar atenção a alguém

Televisão

Eucaristia

Ajudar instituições de cariz social

Determinado tipo de conversas

Reconciliação

Agradecer

Show off

Rezar o terço

Dizer coisas positivas

Comentar ou fazer juízos de valor sobre o próximo

Rezar pelos outros

Um sorriso

Evitar compras desnecessárias

Fazer silêncio no meu dia

Visitar um doente, um idoso.

Computador

 

E, no fim do dia, pensar em algo que fiz bem e em algo que poderia ter feito melhor.



[i] Síntese elaborada com base na Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2017.