01/07/2020

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E, com esse convívio, gerar-se-á o Amor


O único meio de conhecer Jesus: privar com Ele! N'Ele encontrarás sempre um Pai, um Amigo, um Conselheiro e um Colaborador para todas as actividades honestas da tua vida quotidiana... E, com esse convívio, gerar-se-á o Amor. (Sulco, 662)

Se procuras meditar, o Senhor não te negará a sua assistência. Fé e obras de fé! Obras, porque o Senhor – tu já reparaste nisso desde o princípio e eu já to fiz notar a seu tempo – cada dia é mais exigente. Isto já é contemplação e união; e assim há-de ser a vida de muitos cristãos, avançando cada um pela sua própria via espiritual – são infinitas – no meio dos afazeres deste mundo, mesmo sem se darem conta disso.
Uma oração e uma conduta que não nos afastam das nossas actividades correntes, que nos conduzem a Nosso Senhor no meio dos nossos nobres empenhos terrenos. Ao elevar a Deus todas essas ocupações, a criatura diviniza o mundo. Tenho falado tantas vezes do mito do rei Midas que convertia em ouro tudo aquilo em que tocava! Podemos converter em ouro de méritos sobrenaturais tudo o que tocamos, apesar dos nossos erros pessoais.
Assim actua o Nosso Deus. Quando aquele filho regressa, depois de ter gasto o seu dinheiro, vivendo mal, depois – sobretudo – de se ter esquecido do pai, o pai diz: depressa, trazei aqui o vestido mais rico e vesti-lho e colocai-lhe um anel no dedo; calçai-lhe as sandálias. Tomai um vitelo gordo, matai-o e comamos e celebremos um banquete. O Nosso Pai, Deus, quando recorremos a Ele com arrependimento, tira riqueza da nossa miséria e força da nossa debilidade. Que preparará para nós, se não O abandonarmos, se O procurarmos todos os dias, se Lhe dirigirmos palavras carinhosas confirmadas pelas nossas acções, se Lhe pedirmos tudo, confiados na Sua omnipotência e na Sua misericórdia? (Amigos de Deus, 308–309)

Leitura espiritual


ACTOS DOS APÓSTOLOS 01 Jul
Capítulo I


1 Prólogo (Lc 1,1-4) –
1 No meu primeiro livro, ó Teófilo, narrei as obras e os ensinamentos de Jesus, desde o princípio 2 até ao dia em que, depois de ter dado, pelo Espírito Santo, as suas instruções aos Apóstolos que escolhera, foi arrebatado ao Céu. 3 A eles também apareceu vivo depois da sua paixão e deu-lhes disso numerosas provas com as suas aparições, durante quarenta dias, e falando-lhes também a respeito do Reino de Deus.

Ascensão (Mc 16,19-20; Lc 24,50-53) –
4 No decurso de uma refeição que partilhava com eles, ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem lá o Prometido do Pai, «do qual - disse Ele - me ouvistes falar. 5 João baptizava em água, mas, dentro de pouco tempo, vós sereis baptizados no Espírito Santo.» 6 Estavam todos reunidos, quando lhe perguntaram: «Senhor, é agora que vais restaurar o Reino de Israel?» 7 Respondeu-lhes: «Não vos compete saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou com a sua autoridade. 8 Mas ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo.» 9 Dito isto, elevou-se à vista deles e uma nuvem subtraiu-o a seus olhos. 10 E como estavam com os olhos fixos no céu, para onde Jesus se afastava, surgiram de repente dois homens vestidos de branco, 11 que lhes disseram: «Homens da Galileia, porque estais assim a olhar para o céu? Esse Jesus que vos foi arrebatado para o Céu virá da mesma maneira, como agora o vistes partir para o Céu.»

I. A IGREJA DE JERUSALÉM

O grupo dos Apóstolos –
12 Desceram, então, do monte chamado das Oliveiras, situado perto de Jerusalém, à distância de uma caminhada de sábado, e foram para Jerusalém. 13 Quando chegaram à cidade, subiram para a sala de cima, no lugar onde se encontravam habitualmente. Estavam lá: Pedro, João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelota, e Judas, filho de Tiago. 14 E todos unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente à oração, com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus.

Eleição de Matias –
15 Por aqueles dias, Pedro levantou-se no meio dos irmãos - encontravam-se reunidas cerca de cento e vinte pessoas - e disse:16 «Irmãos, era necessário que se cumprisse o que o Espírito Santo anunciou na Escritura pela boca de David a respeito de Judas, que foi o guia dos que prenderam Jesus. 17 Ele, efectivamente, era um dos nossos e tinha recebido uma parte do nosso ministério. 18 Esse homem, depois de ter adquirido um terreno com o salário do seu crime, precipitou-se de cabeça para baixo, rebentou pelo meio, e todas as suas entranhas se espalharam. 19 O facto chegou ao conhecimento de todos os habitantes de Jerusalém, a tal ponto que esse terreno foi chamado na língua deles 'Haqueldamá', que quer dizer Campo de Sangue. 20 Está realmente escrito no Livro dos Salmos: 'Fique deserta a sua habitação e não haja quem nela resida'. E ainda: 'Receba outro o seu encargo.' 21 Portanto, de entre os homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu no meio de nós, 22 a partir do baptismo de João até ao dia em que nos foi arrebatado para o Alto, é indispensável que um deles se torne, connosco, testemunha da sua ressurreição.» 23 Designaram dois: José, de apelido Barsabas, chamado Justo, e Matias. 24 Fizeram, então, a seguinte oração: «Senhor, Tu que conheces o coração de todos, indica-nos qual destes dois escolheste 25 para ocupar, no ministério apostólico, o lugar abandonado por Judas, que foi para o lugar que merecia.» 26 Depois, tiraram à sorte, e a sorte caiu em Matias, que foi incluído entre os onze Apóstolos.

AS INDULGÊNCIAS

A. AS INDULGÊNCIAS EM GERAL

1. Onde situamos as indulgências?
As indulgências estão relacionadas com a confissão, os pecados, a redenção e a comunhão dos santos.

2. Em que estado fica um homem ao pecar?
Uma pessoa que comete um pecado adquire, obviamente, a condição de pecador, afasta-se do Senhor e fica mais inclinado para o mal.
Além disso, a justiça reclama uma reparação, chamada também pena, expiação ou penitência.

3. Como muda a situação ao confessar-se?
A confissão apaga a culpa do pecado – a situação actual do pecador – e também perdoa parte da penitência que deveria realizar-se, ainda que fique na alma um sinal ou qualidade de que se foi pecador e que se deve reparar.
Isto que fica por expiar purifica-se por meio dos sofrimentos e boas obras desta vida, com as penas do purgatório e mediante as indulgências.

4. O que são as indulgências?
Digamos duas definições:
Brevemente: indulgência é a supressão da pena devida pelos pecados que a Igreja outorga a quem realize determinadas acções.
A indulgência é a remissão, diante de Deus, da pena temporal pelos pecados já perdoados quanto à culpa, que um fiel disposto e cumprindo determinadas condições consegue por mediação da Igreja, a qual, como administradora da redenção, distribui e aplica, com autoridade, os tesouros das reparações de Cristo e dos santos (cfr. Mt 16, 19).

5. As indulgências podem aplicar-se aos defuntos?
As indulgências sempre são aplicadas a si mesmo ou às almas dos defuntos, mas não são aplicáveis a outras pessoas vivas na terra. Algumas indulgências só podem aplicar-se aos defuntos: por exemplo, rezando por eles num cemitério consegue-se uma indulgência parcial, que será plenária se essa oração é feita dos dias 1 a 8 de Novembro (uma em cada dia).

6. Tipos de indulgências.
- As indulgências agrupam-se em dois tipos:
Indulgências plenárias: apagam todo o resto de pecado deixado na alma disposta a entrar imediatamente no céu.
Indulgências parciais: apagam parte das penas que os pecados cometidos reclamam.

B. INDULGÊNCIAS PLENÁRIAS
1. Condições para ganhar uma indulgência plenária.
- Esta indulgência tem um valor muito grande e requer várias condições:
Os mesmos requisitos que nas indulgências parciais:
. realizar a acção que a Igreja contempla com esta indulgência.
. estar na graça de Deus antes de terminar a obra contemplada.
. ter intenção, pelo menos geral, de ganhar a indulgência.
Só se pode ganhar uma indulgência plenária por dia.
Ter a disposição interior de aversão total ao pecado, inclusive venial.
Confessar-se, pelo menos vinte dias antes ou depois de realizar a acção escolhida (sem esquecer que tem de se estar na graça de Deus antes de terminar a acção). Uma só confissão pode servir para ganhar várias indulgências plenárias.
Comungar, nesse mesmo período de tempo. É necessário uma comunhão para cada indulgência plenária.
Rezar pelas intenções do Papa um Pai Nosso e uma Avé Maria, ou outras orações que podem fazer-se também nesses períodos. É necessária uma oração para cada indulgência plenária.

2. Que acções estão contempladas com indulgência plenária?
Qualquer dia é bom para se obter uma indulgência plenária nestes casos:
Adoração à Eucaristia durante meia hora.
Realização da Via Sacra percorrendo as catorze estações erigidas meditando na Paixão do Senhor.
Recitação do santo rosário (5 mistérios seguidos) numa igreja, ou em família, ou acompanhado por outras pessoas.
Leitura ou audição da Sagrada escritura durante meia hora.

3. Indulgências plenárias em circunstâncias especiais.
- Em determinadas ocasiões podem ganhar-se indulgências plenárias. Por exemplo:
No momento da morte a quem tiver rezado algo durante a sua vida (o que é muito consolador). Neste caso não é necessária a confissão, nem a comunhão, nem a oração pelo Papa; mas é necessário manter as disposições necessárias: em graça de Deus, recusando qualquer pecado e ter desejado alguma vez ganhar esta indulgência.
Rezar um Pai Nosso e um Credo num santuário ou basílica (concede-se uma vez por ano por santuário; santuário é uma igreja com muitos peregrinos, aprovada como tal pelo Bispo correspondente).
Receber a bênção papal Urbi et Orbi (no local ou via radio ou televisão, em directo).
Realizar exercícios espirituais de pelo menos três dias completos.
Assistir a uma primeira Comunhão.

4. Indulgências plenárias em datas especiais.
- Há vários dias no ano em que se podem ganhar indulgência plenárias com certas condições. Por exemplo:
31 de Dezembro: recitando solenemente um "Te Deum" numa igreja, dando graças a Deus pelos benefícios recebido no último ano.
1 de Janeiro: recitando solenemente o "Veni Creator" numa igreja.
Nas sextas-feiras da Quaresma: depois de comungar, rezando diante de um crucifixo a oração “Olhai-me ó meu amado e bom Jesus”.
Nos ofícios da Semana Santa:
. Quinta-feira Santa: recitando o "Tantum ergo" durante a exposição que se segue à Missa.
. Sexta-feira Santa: assistindo às Cerimónias.
. Sábado Santo: renovando as promessas baptismais na Vigília Pascal.
Pentecostes: recitando solenemente o "Veni Creator" numa igreja.
Corpus Christi (Corpo de Deus): participando na procissão eucarística (dentro ou fora da igreja).
2 Agosto: rezando um Pai Nosso e um Credo numa Catedral ou paróquia.

5. Indulgências plenárias particulares.
- Muitas instituições gozam de indulgências em determinados dias do ano, coincidindo normalmente com datas ou santos próprios.
Há um caso particularmente interessante, pois aqueles que usam o escapulário do Carmo se unem à família carmelita e podem ganhar indulgência plenária no dia da imposição do escapulário e nos seguintes dias:
16 de Maio (São Simão Stock).
16 de Julho (Virgem do Carmo).
20 de Julho (Santo Elias Profeta).
1 de Outubro (Santa Teresa de Lisieux).
15 de Outubro (Santa Teresa de Jesus).
14 de Novembro (Todos os Santos Carmelitas).
14 de Dezembro (São João da Cruz).









[1] Francisco Luís Bernárdez, «Soneto»: Cielo de tierra (Buenos Aires 1937).
[2] Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate (19 de Março de 2018), 140.
[3] Francisco, Homilia na Eucaristia da XXXI Jornada Mundial da Juventude (Cracóvia 31 de Julho de 2016): AAS 108 (2016), 923.
[4] Francisco, Discurso na Cerimónia de Acolhimento e Abertura da XXXIV Jornada Mundial da Juventude (Panamá 24 de Janeiro de 2019): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 29/I/2019), 9-10.






Temas para reflectir e meditar


Solidão 2


Tem-se a noção que as pessoas – mesmo as mais próximas – se cansam de nos aturar porque somos aborrecidos contamos as mesmas coisas repetidamente, as histórias são sempre as mesmas em que quase sempre somos os protagonistas e, no fim e ao cabo, tudo gira à nossa volta, somos o assunto, o tema o motivo.

Já descrevi o que se pode chamar um “quadro negro” e de facto, é disso mesmo que se trata!

Dramatismo exagerado?

Não me parece.

A pessoa solitária é uma pessoa “adiada” porque está constantemente a considerar outro momento que não seja o presente para fazer o que devia. Não o faz nem agora nem provavelmente nunca mais.

(AMA, reflexões, Carvide, 14.08.2019)

El reto del amor

Pequena agenda do cristão

Quarta-Feira

PEQUENA AGENDA DO CRISTÃO

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)






Propósito:

Simplicidade e modéstia.


Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.


Lembrar-me:
Do meu Anjo da Guarda.


Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.

Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de correspondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?








30/06/2020

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Sem Ele nada podemos


Quando sentires o orgulho que ferve dentro de ti - a soberba! -, que faz com que te consideres um super-homem, chegou o momento de exclamar: - Não! E, assim, saborearás a alegria do bom filho de Deus, que passa pela terra com erros, mas fazendo o bem. (Forja, 1054)

Vedes como é necessário conhecer Jesus, observar amorosamente a sua vida? Muitas vezes fui à procura da definição da biografia de Jesus na Sagrada Escritura. Encontrei-a lendo aquela que o Espírito Santo faz em duas palavras: pertransiit benefaciendo. Todos os dias de Jesus Cristo na terra, desde o seu nascimento até à morte, pertransiit benefaciendo, foram preenchidos fazendo o bem. Como, noutro lugar, a Escritura também diz: bene omnia fecit, fez tudo bem, terminou bem todas as coisas, não fez senão o bem.
E tu? E eu? Lancemos um olhar para ver se temos alguma coisa que emendar. Eu, sim, encontro em mim muito que fazer. Como me vejo incapaz, só por mim, de fazer o bem e, como o próprio Jesus nos disse que sem Ele nada podemos, vamos tu e eu implorar ao Senhor a sua assistência, por meio de sua Mãe, neste colóquio íntimo, próprio das almas que amam a Deus. Não acrescento mais nada, porque é cada um de vós que tem de falar, segundo a sua particular necessidade. Por dentro, e sem ruído de palavras, neste mesmo momento em que vos dou estes conselhos, aplico esta doutrina à minha própria miséria. (Cristo que passa, 16)


LEITURA ESPIRITUAL


São João

Cap. XV



1 «Eu sou a videira verdadeira e o meu Pai é o agricultor. 2 Ele corta todo o ramo que não dá fruto em mim e poda o que dá fruto, para que dê mais fruto ainda. 3 Vós já estais purificados pela palavra que vos tenho anunciado. 4 Permanecei em mim, que Eu permaneço em vós. Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em mim. 5 Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanece em mim e Eu nele, esse dá muito fruto, pois, sem mim, nada podeis fazer. 6 Se alguém não permanece em mim, é lançado fora, como um ramo, e seca. Esses são apanhados e lançados ao fogo, e ardem. 7 Se permanecerdes em mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes, e assim vos acontecerá. 8 Nisto se manifesta a glória do meu Pai: em que deis muito fruto e vos comporteis como meus discípulos.» 9 «Assim como o Pai me tem amor, assim Eu vos amo a vós. Permanecei no meu amor. 10 Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu, que tenho guardado os mandamentos do meu Pai, também permaneço no seu amor. 11 Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa. 12 É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei. 13 Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos. 14 Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando. 15 Já não vos chamo servos, visto que um servo não está ao corrente do que faz o seu senhor; mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai. 16 Não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e a dar fruto, e fruto que permaneça; e assim, tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome Ele vo-lo concederá. 17 É isto o que vos mando: que vos ameis uns aos outros.» 18 «Se o mundo vos odeia, reparai que, antes que a vós, me odiou a mim. 19 Se viésseis do mundo, o mundo amaria o que é seu; mas, como não vindes do mundo, pois fui Eu que vos escolhi do meio do mundo, por isso é que o mundo vos odeia. 20 Lembrai-vos da palavra que vos disse: o servo não é mais que o seu senhor. Se me perseguiram a mim, também vos hão-de perseguir a vós. Se cumpriram a minha palavra, também hão-de cumprir a vossa. 21 Mas tudo isto vos farão por causa de mim, porque não reconhecem aquele que me enviou. 22 Se Eu não tivesse vindo e não lhes tivesse dirigido a palavra, não teriam culpa, mas, agora, não têm escusa do seu pecado. 23 Quem me odeia a mim odeia também o meu Pai. 24 Se, diante deles, Eu não tivesse realizado obras que ninguém mais realizou, não teriam culpa; mas agora, apesar de as verem, continuam a odiar-me a mim e ao meu Pai. 25 Tinha, porém, de se cumprir a palavra que ficou escrita na sua Lei: Odiaram-me sem razão.» 26 «Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, e que Eu vos hei-de enviar da parte do Pai, Ele dará testemunho a meu favor. 27 E vós também haveis de dar testemunho, porque estais comigo desde o princípio.»

Comentários:

         Todos compreendem estas imagens usadas por Cristo. Não e necessário ser agricultor para saber que um ramo qualquer separado do tronco não serve para nada e acaba por secar. E, a razão porque tal acontece é compreendida por todos: o ramo vive enquanto recebe a seiva que corre no tronco. Separados de Cristo, a Sua Palavra, que é a seiva que alimenta a vida, deixa de correr em nós, alimentar a nossa alma e, o resultado é o mesmo, mortos espiritualmente, não servimos para nada. O que se pode concluir, sem esforço, é que a nossa união com Deus é vital para a nossa própria sobrevivência.
Unidos a Ele, viveremos uma vida com sentido e com proveito donde que, o contrário, isto é, separados d’Ele, acabamos por morrer por não ter qualquer préstimo.
         Pela segunda vez este ano a Liturgia apresenta este trecho de São João e, parece-me que a razão se compreende com facilidade: A Igreja quer chamar-nos a atenção para a necessidade de uma constante revisão de vida, para um exame cuidado e sério do nosso comportamento como cristãos. O que temos que conservar e desenvolver e o que não interessa e convém deixar.
         Este Mandamento – o Mandamento Novo – é, digamos assim, a razão da vinda do Senhor à terra. Ao mandar-nos ter o amor como motivo e razão da nossa vida, mais não faz que confirmar que, sem o AMOR, não é possível fazer parte da família divina como filhos de Deus. Mais: sem amor, nem sequer seremos considerados como amigos - o que já seria muito – mas servos que não têm nem escolha ou outra vontade que as do seu Senhor. Amando, deveras, alcançaremos essa dignidade extraordinária de amigos escolhidos, um a um, pelo próprio Jesus Cristo. Poderá haver quem não goste desta palavra – servo! – uns, porque acham, e com alguma razão, que é de certo modo pejorativa e, outros, porque parece estar em contradição com a própria liberdade que o nosso Criador nos outorgou. Mas, de facto, nem uns nem outros veem como devem ver: Em primeiro lugar, qualquer um de nós pode considerar-se servo de alguém, seja o patrão para o qual trabalha, seja a própria profissão que escolheu e que o obriga a cumprir com os princípios de ética e outros dessa mesma profissão; Depois porque a liberdade que disfrutamos não a conquistámos, por assim dizer, foi-nos dada sem nenhuma contribuição da nossa parte. Mas, então, pode aduzir-se, nunca se é inteiramente livre! É verdade, a nossa liberdade, que tanto prezamos, permite-nos fazer o que bem entendermos, mas, naturalmente que ela só existirá se as nossas escolhas forem acertadas quando não acabamos por ser servos – melhor dito – escravos dos nossos defeitos, tendências e vícios.
         É bem de ver que podar as videiras é uma tarefa absolutamente necessária para não só manter a saúde e o vigor das plantas, como para garantir frutos abundantes e de bom calibre. Abandonada, a videira continuará a dar frutos mas, em pouco tempo, este tornam-se enfezados e sem qualquer préstimo e a própria videira crescerá sem forma, num emaranhado de ramos e folhas que acabarão por abafar as outras plantas que estiverem próximo. Assim connosco, os cristãos, temos de "podar" quanto não presta ou está a mais na nossa vida, mantendo o vigor e a saúde da nossa alma para que as obras sejam boas, dêem os frutos que O Senhor legitimamente espera colher. Por vezes pode custar esse corte, essa "limpeza" desses inúmeros "ramos" que são os desejos de ter, os atilhos que nos prendem a coisas supérfluas, o lastro que vamos acumulando que nos pesa e tolhe. Mas vale a pena! As importantes declarações de Jesus unem indissoluvelmente o amor e a alegria. Não é possível existir uma sem o outro e compreende-se bem porquê: A alegria que o amor – verdadeiro, sincero, total – produz no ser humano, é de tal forma visível, palpável, que não há quem se atreva a negá-lo. O inverso, infelizmente, é bem verdadeiro, sem amor o homem vive mergulhado na tristeza e não é, de modo nenhum, e um ser completo porque Deus criou-nos para amar. Há quem aduza que todos os amores humanos por honestos, verdadeiros, puros, que possam existir não se podem comparar com o Amor de Deus porque Ele É O Amor! Mas Cristo diz o contrário, que o amor é só um, o que vale, o que interessa: O Amor do Pai pelo Filho e, sendo assim, é este Amor que devemos perseguir com afinco para atingirmos aquela alegria de Cristo, sumo bem e consolação. Por isso mesmo nos diz categoricamente: «o que vos mando: que vos ameis uns aos outros». Amar como Jesus pede é possível? Temos de convir que sim ou ele não o teria pedido. Aliás, faz mais que um pedido, dá uma instrução, uma regra. Sem amor, que interessa a vida? Como são possíveis as boas obras? Quem ama está por natureza definitivamente empenhado no que ama. É o que mais quer, o que mais entranhadamente deseja porque o tem como um autêntico bem que não pode desperdiçar. Não tenhamos medo do amor e de o demonstrar com palavras e com obras.
          Alegria, alegria... É principal característica dos filhos de Deus porque a alegria nasce do amor e os filhos de Deus são reconhecidos exactamente pelo amor que os une entre si, a todos os homens, a Deus. Tudo começa na extraordinária noite do nascimento de Cristo em que os Anjos do Céu anunciam aos pastores de Belém «uma grande alegria». Esta alegria incomensurável perdurará para sempre até ao final dos tempos e, depois, continua no Céu no gozo da presença de Deus.
Qual é o “motor” da alegria? O amor! Alguém que ama – verdadeiramente ama – tem de ser uma pessoa alegre porque não há forma de se poder amar como convém – isto é, totalmente – sem essa alegria que vem de dentro, do mais fundo do coração. E isto - perdoe-se-me – não é poesia, mas uma realidade. Jesus Cristo declara-se alegre, totalmente alegre, o que é natural porque o Seu Amor é total, não tem nem condições nem limites.
         O Senhor confirma aos Seus Apóstolos, para que não lhes restem quaisquer dúvidas, que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade dará testemunho, confirmará por assim dizer, quanto Ele lhes disse e ensinou. E o mesmo Espírito Santo lhes dará as luzes que possam necessitar para compreender o que ouviram. Só agora, o Senhor lhes diz isto porque, como disse e é absolutamente lógico, tudo ouviram directamente da Sua boca enquanto esteve com eles Talvez que o maior bem que nos foi alcançado por Jesus Cristo seja o ter-nos retirado do mundo, isto é, pertencendo ao mundo sem ser mundanos. Isto significa que a podemos viver perfeitamente a nossa vida espiritual que é, no fim e ao cabo, a nossa íntima relação com Deus, vivendo onde temos de viver nos ambientes e circunstâncias que cabem a cada um. Não precisamos retirar-nos para viver uma intensa vida de piedade, de amorosa " ligação " com a prática da nossa fé, ser santos. Santos no meio do mundo! Esta maravilhosa realidade foi-nos dada por Jesus que, sem qualquer mérito da nossa parte, nos proporciona quanto precisamos para a atingir.
         Jesus Cristo que É a VERDADE, não podia enganar-nos, com promessas, “futuros cor-de-rosa”, vidas cheias de bons momentos e futuros risonhos. Bem ao contrário, diz sem rebuços tudo quanto irá acontecer aos que decidirem segui-Lo e espalhar o Reino de Deus pela terra. Não só no futuro imediato, mas ao longo de todos os tempos, como bem vemos agora. Não parece apelativo este convite a segui-Lo, mas, a verdade, é que não faltaram – nem faltarão nunca – quem se decida por esse caminho e, o que parece ser um contra-senso é na verdade, uma escolha de extraordinária eficácia. Ninguém gosta de sofrer, mas, se for preciso passar dificuldades, amarguras, maus tratos e, até sacrificar a própria vida pela “causa” Divina haverá sempre quem escolha esse caminho porque sabe que, o prémio vale bem tudo isso. O que o Senhor tem reservado para quem O segue é um bem incomensuravelmente maior que qualquer contratempo, dificuldade ou obstáculo. E, com Ele, depositando n’Ele inteira confiança que nunca nos faltará com o Seu auxílio, vale bem a pena percorrer esse caminho.
         Na verdade, quando Deus "decidiu" salvar a humanidade, recuperando os filhos perdidos pelo pecado de Adão, fá-lo para sempre. Não admira, o homem está feito para a eternidade. Primeiro Deus Pai envia os profetas e estabelece alianças com o povo escolhido; logo Deus Filho toma a forma humana gerado no seio puríssimo da Santíssima Virgem e vive entre os homens, fisicamente, durante trinta e três anos, entregando o penhor dessa vida eterna, ensinando os meios para a conquistar, depositando nas mãos de Pedro à chaves do Reino de Deus e, depois, já legitimados como autênticos filhos de Deus, vem Deus Espírito Santo para confirmar na fé, consolidar a esperança e fortalecer o amor e, finalmente, ficar connosco até ao final dos tempos assistindo-nos com os Seus Dons inefáveis. Temos forçosamente de concluir que Deus não nos abandona nunca e que o Seu gozo e alegria é que vivamos esta vida terrena de tal forma que possamos merecer gozar a Sua presença por toda a eternidade.
         Jesus sublinha uma vez mais que sem Ele nada podemos fazer. E como proceder? Estando unidos a Ele. Não há outro processo ou alternativa. Unidos a Cristo como os ramos à videira podemos tudo mesmo o que aparentemente é impossível. Jesus dá este exemplo muito gráfico da videira e dos sarmentos para ”reforçar” a absoluta necessidade que temos de estar unidos a Ele, o que temos a ganhar e o que perderemos se o não estivermos. O que andam a fazer no monte as ovelhas sem pastor? Andam perdidas e sem rumo em busca das melhores pastagens que, sem a ajuda do pastor, serão muito difíceis de encontrar. Andarão perdidas e sem rumo podendo precipitar-se num barranco que não adivinham ou entrar no território perigoso do lobo que está sempre à espreita. Sim! Unidos a Cristo com firmeza e determinação e, sobretudo, com toda a confiança na Sua pronta e eficaz assistência em caso de necessidade. Todos entendemos bem estas imagens de que o Senhor se serve para nossa doutrina. Podemos não ser “agricultores experimentados”, mas sabemos o suficiente para compreender que um ramo só pode produzir frutos se estiver ligado ao tronco. O nosso “tronco” é Jesus Cristo, que mergulhado na nossa humanidade por vontade própria – por Amor – nos garante a seiva, o alimento necessário para que não só vivamos, mas, sobretudo, para que frutifiquemos. E… que frutos são esses? Nada mais que as boas obras que praticamos e, estas, não são outra coisa que o cumprimento da Vontade de Deus. São João, com o estilo que lhe é próprio, reproduz as palavras de Jesus Cristo que nos parece estar a ouvir o Senhor a explicar-nos com singela simplicidade o que significa ser cristão: [1] ESTAR UNIDO A CRISTO! Evidentemente que sabemos muito bem que somos cristãos pela força da graça infundida no Baptismo mas, do que falamos é viver como cristãos e tal não é possível sem essa união íntima, sólida, constante como os sarmentos em relação à vide. Então, compreendemos bem, que tal como a vide só está “completa” com os sarmentos a ela unidos, também nós só estaremos “completos” se unidos a Cristo. Sem esta união somos incapazes de dar qualquer fruto aproveitável porque, de facto, Quem os produz é o Próprio Cristo por nosso intermédio, como instrumentos Seus para espalhar por toda a parte o Seu Reino de Paz e Amor.
         As palavras de Cristo segundo Ele próprio são «espírito e vida» e, segundo o príncipe dos Apóstolos são «palavras de vida eterna». As duas afirmações completam-se admiravelmente não sendo necessárias mais explicações. Ouvindo Cristo, guardando as suas palavras temos quanto precisamos para viver esta vida de forma a ganhar a vida eterna. Há algo neste trecho de São João: «Assim como o Pai me tem amor, assim Eu vos amo a vós» que é tão sério e importante que não podemos deixar de reflectir detidamente. O amor que Cristo nos tem é igual ao amor que Deus Pai tem por Deus Filho?! Então… é um amor imenso, sem medida nem comparação possível. Vemos as “consequências” desse amor: dar a vida por nós! O Senhor quase que resume todas as Suas recomendações numa única: «É isto o que vos mando: que vos ameis uns aos outros». Esforçar-se por cumprir este mandato é, pois, o segredo da nossa salvação.
         A Sagrada Liturgia vai, ao longo do tempo pascal, percorrendo, entre outros, o Capítulo 15 do Evangelho escrito por São João. Percebemos que esta insistência se deve ao desejo de que gravemos bem no nosso espírito Quem é de facto Jesus Cristo e – com palavras humanas – a estrutura da Sua doutrina. Insiste, sobretudo, no amor, ou melhor, no AMOR com letra grande, porque, de facto, a Sua vinda a este mundo assumindo uma identidade humana igual a nós em tudo excepto no pecado, se deve a uma “missão” de amor que terminará no Sacrifício da Cruz como a prova maior e mais completa desse mesmo AMOR. Não podemos, nós os homens, viver sem amor e, há que primeiro amar com toda a nossa alma e todas as nossas capacidades a Deus Nosso Senhor e, depois, como bem sabemos, os outros – todos – por amor de Deus. Nunca o esqueçamos: Nós somos a prova viva do Amor de Deus!
              Nós que ouvimos a Palavra de Deus e que tentamos pô-la em prática somos, para Jesus Cristo iguais à Sua Santíssima Mãe? Assusta um pouco esta afirmação do Senhor, mas na verdade temos de reconhecer que é muito lógica. Quem primeiro pós em prática a Palavra que ouviu do Anjo? Foi Maria Santíssima donde que imitando-a merecermos tão grande honra.
     Este tempo que vivemos é o tempo do Espírito Santo. O que sabemos e intuímos é a Ele que o devemos. Presente na nossa vida diária vai concedendo na medida em que precisamos e Lhe pedimos os Dons de cujos frutos vivemos. Sem eles ficaríamos absolutamente impedidos de fazer algo bom é meritório

        






[1] São João é o único Evangelista que relata esta parábola da videira.


Temas para reflectir e meditar


Solidão 1


Uma consequência muito comum do estado de solidão é a preguiça.
Bem… podemos dizer que é inacção, “dourando um pouco a pílula”, mas realmente trata-se de preguiça.

É algo terrível que também condiciona e muito o comportamento, o viver dia a dia.

Constantemente adiando o que se deveria fazer nesse dia ou momento porque não apetece ou faz frio ou está muito calor razões sem valor nenhum para justificar essa preguiça apática e abúlica.
E vai-se andando assim dia após dia com um sentimento crescente da inutilidade da nossa vida que não serve para nada, que não interessa, uma maçada enorme!


(AMA, reflexões, Carvide, 14.08.2019)

FILOSOFIA E RELIGIÃO


Sobre o Tempo

Que é, com efeito, o Tempo? Quem o poderá explicar fácil e brevemente? Quem poderá compreendê-lo pelo pensamento e expressar-se literalmente (correctamente) a cerca dele? E, no entanto, que coisa mais familiar e conhecida do que o tempo trazemos nós à memória no falar? E, quando falamos dele, entendêmo-lo sempre, como também entendemos (dito) por outro interlocutor. Que é, portanto, o Tempo? Se ninguém mo perguntar, sei; se o quiser explicar ao que mo pergunta, não sei…

(Santo Agostinho, Confessionum, XI, 14, 17; Patrologia Latina, ed. Migne XXXII, 816, in BROTÉRIA, Janeiro de 1974, pg24)

El reto del amor

Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá

Cristo que passa 46 a 50

46
          
A fé e a vocação de cristãos afectam toda a nossa existência e não só uma parte dela.
As relações com Deus são necessariamente relações de entrega e assumem um sentido de totalidade.
A atitude de um homem de fé é olhar para a vida, em todas as suas dimensões, com uma perspectiva nova: a que nos é dada por Deus.

Vós, que hoje celebrais comigo esta festa de S. José, sois todos homens dedicados ao trabalho em diversas profissões humanas, formais diversos lares, pertenceis a diferentes nações, raças e línguas. Adquiristes formação em centros de ensino, em oficinas ou escritórios, tendes exercido durante anos a vossa profissão, estabelecestes relações profissionais e pessoais com os vossos companheiros, participastes na solução dos problemas colectivos das vossas empresas e da sociedade.

Pois bem: recordo-vos, mais uma vez, que nada disso é alheio aos planos divinos.
A vossa vocação humana é uma parte, e parte importante, da vossa vocação divina.

Esta é a razão pela qual vos haveis de santificar, contribuindo ao mesmo tempo para a santificação dos outros, vossos iguais, precisamente santificando o vosso trabalho e o vosso ambiente: a profissão ou ofício que enche os vossos dias, que dá fisionomia peculiar à vossa personalidade humana, que é a vossa maneira de estar no mundo: o vosso lar, a vossa família; e a nação em que nascestes e que amais.
47
          
O trabalho acompanha necessariamente a vida do homem sobre a terra.
Com ele nascem o esforço, a fadiga, o cansaço, as manifestações de dor e de luta que fazem parte da nossa existência humana actual e que são sinais da realidade do pecado e da necessidade da redenção. Mas o trabalho, em si mesmo, não é uma pena nem uma maldição ou castigo: os que assim falam não leram bem a Sagrada Escritura.

É a hora de nós, os cristãos, dizermos bem alto que o trabalho é um dom de Deus e que não tem nenhum sentido dividir os homens em diversas categorias segundo os tipos de trabalho, considerando umas tarefas mais nobres do que outras.
O trabalho, todo o trabalho, é testemunho da dignidade do homem, do seu domínio sobre a criação.
É um meio de desenvolvimento da personalidade.
É um vínculo de união com os outros seres; fonte de recursos para sustentar a família; meio de contribuir para o melhoramento da sociedade em que se vive e para o progresso de toda a Humanidade.

Para um cristão, essas perspectivas alargam-se e ampliam-se, porque o trabalho aparece como participação na obra criadora de Deus que, ao criar o homem, o abençoou dizendo-lhe: Procriai e multiplicai-vos e enchei a terra e subjugai-a, e dominai sobre todo o animal que se mova à superfície da terra.
Além disso, ao ser assumido por Cristo, o trabalho apresenta-se-nos como uma realidade redimida e redentora: é, não só o âmbito em que o homem vive, mas também meio e caminho de santidade, realidade santificável e santificadora.

48
          
Convém não esquecer, portanto, que esta dignidade do trabalho está fundamentada no Amor.
O grande privilégio do homem é poder amar, transcendendo assim o efémero e o transitório.
O homem pode amar as outras criaturas, dizer um tu e um eu cheios de sentido.
E pode amar a Deus, que nos abre as portas do Céu, que nos constitui membros da sua família, que nos autoriza a falar também de tu a Tu, face a face.

Por isso, o homem não pode limitar-se a fazer coisas, a construir objectos.
O trabalho nasce do amor, manifesta o amor, ordena-se ao amor. Reconhecemos Deus não só no espectáculo da Natureza, mas também na experiência do nosso próprio trabalho, do nosso esforço.
O trabalho é, assim, acção de graças, porque nos sabemos colocados por Deus na terra, amados por Ele, herdeiros das suas promessas.
É justo que se nos diga: quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus.

49
          
O trabalho é também apostolado, ocasião de entrega aos outros homens, para lhes revelar Cristo e levá-los até Deus Pai, consequência da caridade que o Espírito Santo derrama nas almas.
Entre as indicações que S. Paulo dá aos de Éfeso sobre como deve se manifestar a mudança que representou para eles a sua conversão, a sua vocação ao Cristianismo, encontramos esta: o que furtava, não furte mais, mas trabalhe, ocupando-se com as suas mãos nalguma tarefa honesta, para ter com que ajudar a quem tenha necessidade.

Os homens têm necessidade do pão da terra que sustente as suas vidas e também do pão do Céu que ilumine e dê calor aos seus corações.
Com o vosso próprio trabalho, com as iniciativas que se promovam a partir dessa ocupação, nas vossas conversas, no convívio com os outros, podeis e deveis concretizar esse preceito apostólico.

Se trabalhamos com este espírito, a nossa vida, no meio das limitações próprias da condição terrena, será uma antecipação da glória do Céu, dessa comunidade com Deus e com os santos, na qual só reinará o amor, a entrega, a fidelidade, a amizade, a alegria.
Na vossa ocupação profissional, corrente e ordinária, encontrareis a matéria - real, consciente, valiosa - para realizar toda a vida cristã, para corresponder à graça que nos vem de Cristo.

Nas vossa ocupações profissionais, realizadas face a Deus, pôr-se-ão em jogo a Fé, a Esperança e a Caridade. Os incidentes, as relações e os problemas que o vosso trabalho traz consigo alimentarão a vossa oração.
O esforço por cumprirdes os vossos deveres correntes será o modo de viverdes a Cruz, que é essencial para o Cristão.
A experiência da vossa debilidade e os fracassos que existem sempre em todo o esforço humano dar-vos-ão mais realismo, mais humildade, mais compreensão com os outros.
Os êxitos e as alegrias convidar-vos-ão a dar graças e a pensar que não viveis para vós mesmos, mas para o serviço dos outros e de Deus.

50
          
Para servir, servir

Para viver assim, para santificar a profissão, é necessário, primeiro que tudo, trabalhar bem, com seriedade humana e sobrenatural. Quero recordar-vos agora, por contraste, o que conta um dos antigos relatos dos evangelhos apócrifos: O Pai de Jesus, que era carpinteiro, fazia arados e jugos.
Uma vez - continua a narração - foi-lhe encomendada uma cama, por certa pessoa de boa posição. Mas aconteceu que um dos varais era mais curto que o outro, pelo que José não sabia o que fazer.
Então o Menino Jesus disse ao seu Pai: põe os dois paus no chão e acerta-os por uma extremidade.
Assim fez José. Jesus põe-se do outro lado, pegou no varal mais curto e esticou-o, deixando-o tão comprido como o outro.
José, seu Pai, ficou cheio de admiração ao ver o prodígio e encheu o Menino de abraços e beijos dizendo: ditoso de mim, porque Deus me deu este Menino

José, não daria graças a Deus por estes motivos; o seu trabalho não podia ser assim. S. José não é o homem das soluções fáceis e milagreiras, mas o homem da perseverança, do esforço e, quando é necessário, do engenho.
O cristão sabe que Deus faz milagres; que os realizou há séculos, que continuou a fazê-los depois e que continua a fazê-los agora, porque non est abbreviata manus Domini, não diminuiu o poder de Deus.

Mas os milagres são uma manifestação da omnipotência salvadora de Deus, e não um expediente para resolver as consequências da inépcia ou para facilitar o nosso comodismo.
O milagre que o Senhor vos pede é a perseverança na nossa vocação cristã e divina, a santificação do trabalho de cada dia: o milagre de converter a prosa diária em decassílabos, em verso heróico, pelo amor com que realizais a vossa ocupação habitual.
Aí vos espera Deus para que sejais almas com sentido de responsabilidade, com zelo apostólico, com competência profissional.

Assim, como lema para o vosso trabalho, posso indicar-vos este: para servir, servir.
Porque para fazer as coisas, é necessário, em primeiro lugar, saber concluí-las.
Não acredito na rectidão da intenção de quem não se esforça por conseguir a competência necessária para cumprir bem os trabalhos de que está encarregado.
Não basta querer fazer o bem; é preciso saber fazê-lo.
E, se queremos realmente, esse desejo traduzir-se-á no empenho por utilizar os meios adequados para fazer as coisas bem acabadas, com perfeição humana.

(Continua)