03/09/2019

Publicações em 03 Setembro

Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá

Amigos de Deus

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Jesus, parando, mandou chamá-lo.
E alguns dos melhores que o rodeiam, dirigem-se ao cego: Tem confiança; levanta-te; Ele chama-te.
É a vocação cristã!
Mas, na vida de cada um de nós, não há apenas um chamamento de Deus.
O Senhor procura-nos a todo o instante: levanta-te - diz-nos - e sai da tua preguiça, do teu comodismo, dos teus pequenos egoísmos, dos teus problemazinhos sem importância.
Desapega-te da terra; estás aí rasteiro, achatado e informe.
Ganha altura, peso, volume e visão sobrenatural.

Aquele homem, deitando fora a capa, levantou-se de um salto e foi ter com Jesus.
Atirou a capa!
Não sei se estiveste alguma vez na guerra.
Há já muitos anos, tive ocasião de andar por um campo de batalha, algumas horas depois de ter acabado a luta.
Lá havia, abandonados pelo chão, mantas, cantis e mochilas cheias de recordações de família: cartas, fotografias de pessoas queridas... E não pertenciam aos derrotados, mas aos vitoriosos!
Tudo aquilo lhes sobrava para correrem mais depressa e saltarem as trincheiras do inimigo.
Tal como acontecia com Bartimeu, para correr atrás de Cristo.

Não te esqueças de que, para chegar até Cristo, é preciso o sacrifício.
Deitar fora tudo o que estorva: manta, mochila, cantil. Tens de proceder da mesma maneira nesta luta pela glória de Deus, nesta luta de amor e de paz, com que procuramos difundir o reinado de Cristo. Para servires a Igreja, o Romano Pontífice e as almas, deves estar disposto a renunciar a tudo o que sobeja; a ficar sem essa manta, que é abrigo para as noites frias, sem essas recordações queridas da família e sem o refrigério da água.
Lição de fé, lição de amor, porque é assim que se tem de amar Cristo.

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Fé com obras

E imediatamente começa um diálogo divino, um diálogo maravilhoso, que comove, que abrasa, porque tu e eu somos agora Bartimeu.
Da boca divina de Cristo sai uma pergunta: quid tibi vis faciam?
Que queres que te faça?
E o cego: Mestre, faz que eu veja.
Que coisa mais lógica!

E tu, vês?
Não te aconteceu já, alguma vez, o mesmo que a esse cego de Jericó?
Não posso agora deixar de recordar que, ao meditar nesta passagem há já muitos anos e ao compreender então que Jesus esperava alguma coisa de mim - algo que eu não sabia o que era! - compus para mim, umas jaculatórias:
Senhor, que queres?
Que me pedes?
Pressentia que me procurava para uma realidade nova e o Rabboni, ut videam - Mestre, que eu veja - levou-me a suplicar a Cristo, numa oração contínua: Senhor, que se faça isso que Tu queres.

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Rezai comigo ao Senhor: doce me facere voluntatem tuam, quia Deus meus es tu, ensina-me a cumprir a tua Vontade, porque Tu és o meu Deus.
Por outras palavras: que brote dos nossos lábios o afã sincero por corresponder, com um desejo eficaz, aos convites do nosso Criador, procurando seguir os seus desígnios com uma fé inquebrantável, com a convicção de que Ele não pode falhar.

Amando deste modo a Vontade divina, percebemos como o valor da fé não consiste apenas na clareza com que se expõe, mas também na resolução de a defender com obras.
Assim, agiremos de acordo com ela.

Mas voltemos à cena que se desenrola à saída de Jericó.
Agora é contigo que Cristo fala.
Diz-te: que queres de Mim?
Que eu veja, Senhor, que eu veja!
E Jesus: Vai, a tua fé te salvou.
Nesse mesmo instante, começou a ver e seguia-o pelo caminho. Segui-lo pelo caminho.
Tu tomaste conhecimento do que o Senhor te propunha e decidiste acompanhá-lo pelo caminho.
Tu procuras seguir os seus passos, vestir-te com as vestes de Cristo, ser o próprio Cristo: portanto, a tua fé - fé nessa luz que o Senhor te vai dando - deverá ser operativa e sacrificada.
Não te iludas, não penses em descobrir novas formas.
É assim a fé que Ele nos pede: temos de andar ao seu ritmo com obras cheias de generosidade, arrancando e abandonando tudo o que seja estorvo.

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Fé e humildade

Agora é S. Mateus quem nos descreve um quadro comovedor.
Eis que uma mulher, que, havia doze anos, padecia de um fluxo de sangue, se chegou por detrás dele e tocou a fímbria do seu manto. Que humildade a desta mulher!
Dizia dentro de si: Basta que eu toque somente o seu manto para ficar curada.
Nunca faltam doentes que imploram, como Bartimeu, com uma fé grande, e que não têm pejo em confessá-la aos gritos.
Mas reparai como, no caminho de Cristo, não há duas almas iguais. Grande é também a fé desta mulher, e não grita: aproxima-se sem que ninguém a note.
Basta-lhe tocar ao de leve o traje de Jesus, porque tem a certeza de que será curada.
E ainda mal tinha acabado de fazê-lo, quando Nosso Senhor se volta e a olha.
Já sabe o que se passa no interior daquele coração.
Apercebeu-se da sua segurança: Tem confiança, filha, a tua fé te salvou.

Tocou com delicadeza a orla do manto, aproximou-se com fé, acreditou e soube que tinha sido curada...
Também nós, se queremos salvar-nos, devemos tocar com fé o manto de Cristo.
Estás bem persuadido de como há-de ser a nossa fé?
Humilde.
Quem és tu, quem sou eu, para merecer este chamamento de Cristo? Quem somos nós, para estar tão perto dele?
Tal como àquela pobre mulher no meio da multidão, ofereceu-nos uma oportunidade.
E não só para tocar um pouco do seu traje ou, num breve momento, a ponta do seu manto, a orla.
Temo-lo a ele próprio.
Entrega-se-nos totalmente, com o seu Corpo, com o seu Sangue, com a sua Alma e com a sua Divindade.
Comemo-lo todos os dias, falamos intimamente com Ele, como se fala com um pai, como se fala com o Amor.
E isto é verdade.
Não são imaginações.

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Procuremos que aumente a nossa humildade.
Porque só uma fé humilde permite que tenhamos visão sobrenatural. Não existe outra alternativa.
Só são possíveis dois modos de viver na terra: ou se vive vida sobrenatural ou vida animal.
E tu e eu não podemos viver senão a vida de Deus, a vida sobrenatural.
Que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma.
Que proveito terá para o homem tudo o que existe na terra, todas as ambições da inteligência e da vontade? Que vale tudo isto, se tudo se acaba, se tudo se desfaz, se são bambolinas de teatro todas as riquezas deste mundo terreno, se depois é a eternidade para sempre, para sempre, para sempre?

Este advérbio - sempre - tornou grande Teresa de Jesus. Quando ela - em criança - saía pela porta do rio Adaja, atravessando as muralhas da cidade acompanhada por seu irmão Rodrigo, com o intuito de chegar a terras de moiros, para que os decapitassem por amor de Cristo, ia segredando ao irmão que já dava mostras de cansaço: para sempre, para sempre, para sempre.

Mentem os homens ao dizer para sempre em coisas temporais. Só é verdade, com uma verdade total, o para sempre em relação a Deus.
E assim hás-de viver tu, com uma fé que te ajude a sentir sabor de mel, doçura de céu, ao pensares na eternidade, que é, de verdade, para sempre.

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Vida corrente e contemplação

Voltemos ao Santo Evangelho e detenhamo-nos no que refere S. Mateus, no capítulo vigésimo primeiro.
Conta-nos que Jesus, quando voltava para a cidade, teve fome.
Vendo uma figueira junto do caminho, aproximou-se dela.
Que alegria, Senhor, ver-te com fome, ver-te também sedento, junto do poço de Sicar!
Contemplo-te perfectus Deus, perfectus homo: verdadeiro Deus, mas também verdadeiro homem, com carne como a minha.
Aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, para que eu nunca mais duvidasse de que Ele me compreende e me ama.

Teve fome.
Sempre que nos cansemos - no trabalho, no estudo, na tarefa apostólica - sempre que no horizonte haja trevas, então é preciso olhar Cristo: Jesus bom, Jesus cansado, Jesus faminto e sedento.
Como te fazes compreender bem, Senhor!
Como te fazes amar!
Mostras-te igual a nós em tudo, excepto no pecado, para que sintamos que contigo poderemos vencer as nossas más inclinações e as nossas culpas.
Efectivamente, não têm importância o cansaço, a fome, a sede, as lágrimas...
Cristo cansou-se, passou fome, teve sede, chorou.
O que importa é a luta - uma luta amável, porque o Senhor permanece sempre a nosso lado - para cumprir a vontade do Pai que está nos céus.

(cont)


Pequena agenda do cristão


TeRÇa-Feira


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)




Propósito:

Aplicação no trabalho.

Senhor, ajuda-me a fazer o que devo, quando devo, empenhando-me em fazê-lo bem feito para to poder oferecer.

Lembrar-me:
Os que estão sem trabalho.

Senhor, lembra-te de tantos e tantas que procuram trabalho e não o encontram, provê às suas necessidades, dá-lhes esperança e confiança.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?




Evangelho e comentário


TEMPO COMUM

São Gregório Magno – Doutor da Igreja

Evangelho: Lc 4, 31-37

Naquele tempo, Jesus desceu a Cafarnaum, cidade da Galileia, e ali ensinava aos sábados. Todos se maravilhavam com a sua doutrina, porque falava com autoridade. Encontrava-se então na sinagoga um homem que tinha um espírito de demónio impuro, que bradou com voz forte: «Ah! Que tens que ver connosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir? Eu sei quem Tu és: o Santo de Deus». Disse-lhe Jesus em tom severo: «Cala-te e sai desse homem». O demónio, depois de o ter arremessado para o meio dos presentes, saiu dele sem lhe fazer mal nenhum. Todos se encheram de assombro e diziam entre si: «Que palavra esta! Ordena com autoridade e poder aos espíritos impuros e eles saem!». E a fama de Jesus espalhava-se por todos os lugares da região.

Comentário:

Vê-se bem a diferença de acolhimento prestado a Jesus em Cafarnaum e em Nazaré.


Será porque os de Cafarnaum têm mais fé?

Será, talvez, porque não têm preconceitos nem reservas de intenção, mas, antes, genuína vontade de aprender.

(AMA, comentário sobre Lc 4, 31-37, 05.09.2017)


Temas para reflectir e meditar


Unidade de vida


Hoje não parece que haja muita gente que sofra com a Sua ausência; há cristãos para os quais a presença ou ausência de Cristo nas suas almas não significa praticamente nada.
Passam da graça ao pecado e não experimentam sofrimento nem dor, aflição nem angústia.
Passam do pecado à graça e não dão a impressão de homens que voltaram do inferno, que passaram da morte à vida: não se lhes vê o alívio, o gozo, a paz e o sossego de quem recuperou Jesus.


(f. suarezJosé o esposo de Maria, 195)



O trabalho é uma bênção de Deus


O trabalho é a vocação original do homem; é uma bênção de Deus; e enganam-se lamentavelmente aqueles que o consideram um castigo. O Senhor, o melhor dos pais, colocou o primeiro homem no Paraíso – "ut operaretur", para trabalhar. (Sulco, 482)

O trabalho acompanha necessariamente a vida do homem sobre a terra. Com ele nascem o esforço, a fadiga, o cansaço, as manifestações de dor e de luta que fazem parte da nossa existência humana actual e que são sinais da realidade do pecado e da necessidade da redenção. Mas o trabalho, em si mesmo, não é uma pena nem uma maldição ou castigo: os que assim falam não leram bem a Sagrada Escritura.

É a hora de nós, os cristãos, dizermos bem alto que o trabalho é um dom de Deus e que não tem nenhum sentido dividir os homens em diversas categorias segundo os tipos de trabalho, considerando umas tarefas mais nobres do que outras. O trabalho, todo o trabalho, é testemunho da dignidade do homem, do seu domínio sobre a criação. É um meio de desenvolvimento da personalidade. É um vínculo de união com os outros seres; fonte de recursos para sustentar a família; meio de contribuir para o melhoramento da sociedade em que se vive e para o progresso de toda a Humanidade.

Para um cristão, essas perspectivas alargam-se e ampliam-se, porque o trabalho aparece como participação na obra criadora de Deus que, ao criar o homem, o abençoou dizendo-lhe: Procriai e multiplicai-vos e enchei a terra e subjugai-a, e dominai sobre todo o animal que se mova à superfície da terra. (Cristo que passa, 47)

02/09/2019

O amor casto entre um homem e uma mulher


Admira a bondade do nosso Pai Deus: não te enche de alegria a certeza de que o teu lar, a tua família, o teu país, que amas com loucura, são matéria de santidade? (Forja, 689)

E agora, meus filhos e minhas filhas, permiti que me detenha noutro aspecto – particularmente querido – da vida comum. Refiro-me ao amor humano, ao amor casto entre um homem e uma mulher, ao noivado, ao matrimónio. Devo dizer uma vez mais que esse amor humano santo não é algo de permitido, de tolerado, à margem das verdadeiras actividades do espírito, como poderiam insinuar os falsos espiritualismos a que antes aludia. Há quarenta anos que venho pregando exactamente o contrário, através da palavra e da escrita, e os que não compreendiam já o vão entendendo.

O amor que conduz ao matrimónio e à família pode ser também um caminho divino, vocacional, maravilhoso, meio para uma completa dedicação ao nosso Deus. Realizai as coisas com perfeição, tenho-vos recordado, ponde amor nas pequenas actividades da jornada, descobri – insisto – esse quê divino que se oculta nos pormenores: toda esta doutrina encontra um lugar especial no espaço vital em que o amor humano se enquadra. (Temas Actuais do Cristianismo, 121)

Publicações em 02 Setembro

Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá

Amigos de Deus

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Começai por contar o que não quereríeis que se soubesse. Abaixo o demónio mudo!
De uma coisa de nada, dando-lhe voltas e mais voltas, faz-se uma grande bola como com a neve, e acaba-se por ficar fechado lá dentro. Porquê?...
Abri a alma!
Asseguro-vos a felicidade, que é fidelidade à vocação cristã, se fordes sinceros.
A clareza e a simplicidade são disposições absolutamente indispensáveis.
Abramos pois, de par em par a nossa alma, de modo que o sol de Deus possa entrar e com ele a caridade do Amor.

Para se afastar da sinceridade total nem sempre é preciso má intenção; às vezes, basta um erro de consciência.
Há pessoas que formaram (isto é, deformaram) de tal modo a consciência que o seu mutismo, a sua falta de simplicidade lhes parece bom; até pensam que é bom calar.
Acontece que às vezes até receberam uma boa preparação e conhecem as coisas de Deus e talvez, por isso, se convençam de que é conveniente calar.
Enganam-se, porém, porque a sinceridade é sempre necessária e não cabem desculpas, ainda que pareçam boas.

Acabamos esta conversa, na qual tu e eu fizemos a nossa oração com o Nosso Pai, pedindo-lhe a graça de viver essa afirmação gozosa, que é a virtude cristã da castidade.

Pedimo-la por intercessão de Santa Maria, que é a pureza imaculada.
Recorramos a Ela, tota pulchra, seguindo um conselho que eu dava, há muitos anos, àqueles que se sentiam intranquilos no seu empenho diário por ser humildes, limpos, sinceros, alegres e generosos: Todos os pecados da tua vida parecem ter-se posto de pé. - Não desanimes. - Pelo contrário, chama por tua Mãe, Santa Maria, com fé e abandono de criança. Ela trará o sossego à tua alma.

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Ouve-se às vezes dizer que actualmente os milagres são menos frequentes.
Não se dará antes o caso de serem menos as almas que vivem vida de fé?
Deus não pode faltar à sua promessa: Pede-me e eu te darei as nações em herança.
 Os teus domínios irão até aos confins da terra.
O nosso Deus é a Verdade, o fundamento de tudo o que existe: nada se cumpre sem o seu querer omnipotente.

Como era no princípio, agora e sempre.
O Senhor não muda, não precisa de se mover para alcançar coisas que não possua.
Ele é todo o movimento, toda a beleza e toda a grandeza.
Hoje como outrora.
Passarão os céus como o fumo e a terra envelhecerá como um vestido, mas a minha salvação durará pela eternidade e a minha justiça durará para sempre.

Deus estabeleceu em Jesus Cristo uma nova e eterna aliança com os homens.
Pôs a sua omnipotência ao serviço da nossa salvação.
Quando as criaturas desconfiam, quando vacilam por falta de fé, ouvimos novamente Isaías anunciar em nome do Senhor: Será que o meu braço tenha ficado mais curto para vos salvar ou que já não tenha força para vos libertar?
Só com a minha ameaça, seco o mar e transformo os rios num deserto, até perecerem os seus peixes por falta de água e morrerem de sede os seus viventes.
Eu revisto os céus com um manto de sombra e cubro-os com um saco de luto.


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A fé é a virtude sobrenatural que predispõe a nossa inteligência a aderir às verdades reveladas, a responder afirmativamente a Cristo, que nos deu a conhecer plenamente o desígnio salvífico da Santíssima Trindade.
Deus, tendo falado outrora muitas vezes e de muitos modos a nossos pais pelos profetas, ultimamente, nestes dias, falou-nos por meio de seu Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem criou também os séculos; o qual, sendo o resplendor da sua glória e a figura viva da sua substância, sustentando tudo com a sua poderosa palavra, depois de nos ter purificado dos nossos pecados, está sentado à direita da majestade no mais alto dos céus.

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Junto da piscina de Siloé

Gostaria que fosse Jesus quem nos falasse de fé, quem nos desse lições de fé.
Por isso, abriremos o Novo Testamento e viveremos com Ele algumas passagens da sua vida.
Efectivamente, Cristo não se poupou a esforços para, pouco a pouco, ensinar os seus discípulos, a fim de se entregarem com confiança ao cumprimento da Vontade do Pai.
Vai-os doutrinando com palavras e com obras.

Considerai o capítulo nono de S. João.
E, passando Jesus, viu um homem cego de nascença. E os seus discípulos perguntaram-lhe: Mestre, quem pecou, este ou os seus pais, para que nascesse cego?
Estes homens, apesar de estarem tão perto de Cristo, julgam mal aquele pobre cego.
Para que não vos admireis se, com o andar dos anos, ao servirdes a Igreja, encontrais discípulos do Senhor que se comportam assim convosco ou com outras pessoas.
Não vos preocupeis e não façais caso, como aquele cego.
Abandonai-vos de verdade nas mãos de Cristo; Ele não ataca, perdoa; não condena, absolve; não olha a doença com desinteresse, mas aplica-lhe o remédio com divina diligência.


Nosso Senhor cuspiu no chão, fez lodo com a saliva, untou com o lodo os olhos do cego e disse-lhe:
Vai e lava-te na piscina de Siloé, que quer dizer Enviado.
Foi ele, pois, e lavou-se, e voltou com vista.

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Que belo exemplo de firmeza na fé nos dá este cego!
Uma fé viva, operativa.
É assim que te comportas com os mandatos de Deus, quando muitas vezes estás cego, quando nas preocupações da tua alma se oculta a luz?
Que poder continha a água, para que os olhos ficassem curados ao serem humedecidos?
Teria sido mais adequado um colírio desconhecido, um medicamento precioso preparado no laboratório dum sábio alquimista.
Mas aquele homem crê, põe em prática o que Deus lhe ordena e volta com os olhos cheios de claridade.

Foi útil - escreveu S. Agostinho ao comentar esta passagem - que o Evangelista explicasse o sentido do nome da piscina, dizendo que significava Enviado.
Agora entendemos quem é este Enviado.
Se o Senhor não nos tivesse sido enviado, nenhum de nós teria sido liberto do pecado.
Temos de crer com fé firme em quem nos salva, neste Médico divino que foi enviado precisamente para nos curar.
E crer com tanto mais vigor quanto mais grave ou desesperada for a doença de que padeçamos.

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É preciso que adquiramos a medida divina das coisas, sem perder nunca o ponto de mira sobrenatural, e contando com que Jesus se serve também das nossas misérias, para que a sua glória resplandeça.
Por isso, quando sintais serpentear na vossa consciência o amor-próprio, o cansaço, o desânimo, o peso das paixões, reagi prontamente e ouvi o Mestre, sem vos assustardes perante a triste realidade que é cada um de nós; com efeito, enquanto vivermos, acompanhar-nos-ão sempre as debilidades pessoais.

Este é o caminho do cristão.
É necessário invocar sem descanso, com uma fé rija e humilde: Senhor, não te fies de mim!
Eu, sim, confio em Ti.
E ao pressentir na nossa alma o amor, a compaixão e a ternura com que Jesus Cristo nos olha - Ele não nos abandona - compreenderemos em toda a sua profundidade as palavras do Apóstolo: virtus in infirmitate perficitur; com fé no Senhor, apesar das nossas misérias - ou melhor, com as nossas misérias - seremos fiéis ao nosso Pai Deus e o poder divino brilhará, sustentando-nos no meio da nossa fraqueza.

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A Fé de Bartimeu

É S. Marcos quem nos conta, desta vez, a cura doutro cego.
Ao sair de Jericó, Ele com os seus discípulos e grande multidão, Bartimeu, o cego, filho de Timeu, estava sentado junto do caminho a pedir esmola.
Ouvindo aquele grande vozear das pessoas, o cego perguntou: o que é isto?
Responderam-lhe: é Jesus de Nazaré.
Então inflamou-se-lhe tanto a alma na fé em Cristo, que gritou: Jesus, Filho de David, tem piedade de mim.

Não te dá vontade de gritar, a ti que também estás parado na berma do caminho, desse caminho da vida que é tão curta; a ti, a quem faltam luzes; a ti, que necessitas de mais graça para te decidires a procurar a santidade?
Não sentes urgência em clamar: Jesus, Filho de David, tem piedade de mim?
Que bela jaculatória para repetires com frequência!

Aconselho-vos a meditar com vagar sobre as circunstâncias que precedem o prodígio, a fim de que conserveis bem gravada na vossa mente uma ideia muito nítida: como os nossos pobres corações são diferentes do Coração misericordioso de Jesus!
Isto ser-vos-á sempre muito útil, de modo especial na hora da prova, da tentação, e também na hora da resposta generosa nos pequenos afazeres do dia-a-dia ou nas ocasiões heróicas.

Muitos repreendiam-no para o fazer calar.
Tal como a ti, quando suspeitaste de que Jesus passava a teu lado. Acelerou-se o bater do teu coração e começaste também a clamar, movido por uma íntima inquietação.
E amigos, costumes, comodidade, ambiente, todos te aconselharam: cala-te, não grites!
Porque é que hás-de chamar por Jesus?
Não o incomodes!

Mas o pobre Bartimeu não os ouvia e continuava ainda com mais força: Filho de David, tem piedade de mim.
O Senhor, que o ouviu desde o começo, deixou-o perseverar na sua oração.
Contigo, procede da mesma maneira.
Jesus apercebe-se do primeiro apelo da nossa alma, mas espera. Quer que nos convençamos de que precisamos dele; quer que lhe roguemos, que sejamos teimosos, como aquele cego que estava à beira do caminho, à saída de Jericó.
Imitemo-lo.
Ainda que Deus não nos conceda imediatamente o que lhe pedimos e, apesar de muitos procurarem afastar-nos da oração, não cessemos de lhe implorar.

(cont)