Padroeiros do blog: SÃO PAULO; SÃO TOMÁS DE AQUINO; SÃO FILIPE DE NÉRI; SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ
21/08/2019
Evangelho e comentário
Evangelho: Mt 20, 1-16
Naquele tempo, disse Jesus aos seus
discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um
proprietário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha.
Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha. Saiu a meia
manhã, viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes: ‘Ide vós também
para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo’. E eles foram. Voltou a sair,
por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo. Saindo ao
cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes: ‘Porque
ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’. Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos
contratou’. Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’. Ao anoitecer,
o dono da vinha disse ao capataz: ‘Chama os trabalhadores e paga-lhes o
salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’. Vieram os do
entardecer e receberam um denário cada um. Quando vieram os primeiros, julgaram
que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um. Depois de o
terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo: ‘Estes
últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que
suportámos o peso do dia e o calor’. Mas o proprietário respondeu a um deles:
‘Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o
que é teu e segue o teu caminho. Eu quero dar a este último tanto como a ti.
Não me será permitido fazer o que quero do que é meu? Ou serão maus os teus
olhos porque eu sou bom?’. Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros
serão os últimos».
Comentário:
Parece-nos,
talvez, que, perante situação semelhante, teríamos procedido de outra forma:
pagaríamos o ajustado com os primeiros e, aos outros, daríamos um salário
correspondente às horas que efectivamente trabalharam.
Teríamos
sido justos?
Não
tenho dúvidas em afirmar que sim.
Mas,
de facto, a justiça divina é diferente da justiça dos homens e ainda bem.
Já
pensámos que se o Senhor procedesse assim, nós, de agora, que poderíamos
esperar receber comparando com os milhões de milhões de homens que nos
precederem?
(AMA,
comentário sobre Mt 20, 1-16, 24.09.2017)
Temas para reflectir e meditar
Na própria realidade, independentemente do nosso espírito, o pão e
o vinho deixaram de existir depois da consagração.
(beato
paulo vi, Credo do Povo de Deus, 25)
Leitura espiritual
Amigos
de Deus
113
Não sei se vos terão contado, na vossa
infância, a fábula daquele camponês a quem ofereceram um faisão dourado.
Após
o primeiro momento de alegria e de surpresa por tal oferta, o novo dono começou
a pensar onde poderia guardá-lo.
Ao
fim de várias horas, depois de muitas dúvidas e diversos planos, decidiu
metê-lo no galinheiro.
As
galinhas, admiradas com a beleza do recém-chegado, giravam à sua volta com o
assombro de quem descobre um semi-deus.
No
meio de tanto alvoroço, chegou a hora da comida e, mal o dono lançou os
primeiros punhados de farelo, o faisão, esfomeado pela espera, lançou-se com
avidez a tirar a barriga de misérias.
Ante
um espectáculo tão vulgar - aquele prodígio de formosura comia com o mesmo
apetite que o animal mais corrente - as desencantadas companheiras de capoeira
lançaram-se às bicadas contra o ídolo caído, até lhe arrancarem toda a plumagem.
É
assim triste a derrocada do ególatra; tanto mais desastrosa, quanto mais ele se
elevou sobre as suas próprias forças, presunçosamente confiado na sua
capacidade pessoal.
Tirai consequências práticas para a vossa
vida diária, sentindo-vos depositários de alguns talentos - sobrenaturais e
humanos - que deveis aproveitar rectamente.
Afastai o ridículo engano de que algo vos
pertence, como se fosse fruto só do vosso esforço. Lembrai-vos de que há uma
parcela - Deus - de que ninguém pode prescindir.
114
Com esta perspectiva, convencei-vos de que,
se desejamos deveras seguir o Senhor de perto e prestar um serviço autêntico a
Deus e a toda a humanidade, temos de estar seriamente desprendidos de nós
próprios: dos dons da inteligência, da saúde, da honra, das ambições nobres,
dos triunfos, dos êxitos.
Refiro-me também - porque até aí deve
chegar a tua decisão - a esses afãs limpos com que procuramos exclusivamente
dar toda a glória a Deus e louvá-lo, ajustando a nossa vontade a esta norma clara
e precisa: Senhor, quero isto ou aquilo só se te agrada a Ti, porque se não, a
mim, que me interessa?
Assestamos
assim um golpe mortal no egoísmo e na vaidade que serpenteiam em todas as
consciências.
E
conseguimos também a verdadeira paz para as nossas almas com um desprendimento
que nos leva a possuir Deus, de forma cada vez mais íntima e mais intensa.
Para imitar Jesus, o coração tem de estar
inteiramente livre de apegos.
Se alguém quer vir após
mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser salvar a sua
vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor de mim, encontrá-la-á.
Pois, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se depois perde a sua alma?
E
comenta S. Gregório: não nos bastaria
viver desprendidos das coisas, se não renunciássemos também a nós próprios.
Mas... onde iremos fora de
nós?
Quem é o que renuncia, se
a si mesmo se deixa?
Sabei que é diferente a nossa situação
enquanto caídos pelo pecado e enquanto formados por Deus.
Fomos
criados de uma forma e encontramo-nos noutra diferente por causa de nós mesmos.
Renunciemos
a nós próprios, naquilo em que nos convertemos pelo pecado e mantenhamo-nos
como fomos constituídos pela graça.
Assim, se o que foi soberbo, convertendo-se
a Cristo, se torna humilde, já renunciou a si mesmo; se um luxurioso se
converte a uma vida continente, também renunciou a si próprio naquilo que era
antes; se um avarento deixa de o ser e, em vez de se apoderar do alheio, começa
a ser generoso com o que lhe pertence, certamente se negou a si próprio.
115
Senhorio
do cristão
Corações generosos, com desprendimento
verdadeiro, pede o Senhor.
Consegui-lo-emos,
se soltarmos com valentia as amarras ou os fios subtis que nos prendem ao nosso
eu.
Não
vos escondo que esta determinação exige uma luta constante, uma sobreposição ao
entendimento e à vontade própria, em poucas palavras, uma renúncia mais árdua
que o abandono dos bens materiais mais desejados.
Esse desprendimento que o Mestre pregou e
que espera de todos os cristãos implica também necessariamente manifestações externas.
Jesus Cristo coepit facere et docere:
antes de anunciar a sua doutrina com a palavra, anunciou-a com as obras.
Vemo-lo
nascer num estábulo, na carência mais absoluta, e dormir os seus primeiros
sonos na terra deitado sobre as palhas de uma manjedoura.
Depois,
durante os anos das suas andanças apostólicas, entre muitos outros exemplos,
recordamos a sua clara advertência a um dos que se ofereceram para o acompanhar
como discípulo: as raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho
do homem não tem onde reclinar a cabeça.
E
não deixemos de contemplar aquela cena que o Evangelho recolhe, em que os
apóstolos, para matar a fome, num sábado, arrancam pelo caminho umas espigas de
trigo.
116
Pode-se dizer que Nosso Senhor, perante a
missão recebida do Pai, vive o dia-a-dia, tal como aconselhava num dos
ensinamentos mais sugestivos que saíram da sua boca divina: não vos preocupeis, quanto à vossa vida, com
o que haveis de comer nem, quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir,
pois a vida é mais que o alimento e o corpo mais que o vestuário.
Reparai nos corvos: não
semeiam nem colhem, não têm despensa nem celeiro, e Deus sustenta-os.
Quanto mais valeis vós do
que as aves!...
Reparai nos lírios, como
crescem!
Não trabalham nem fiam.
Pois eu digo-vos: nem
Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como um deles.
Se Deus veste assim a erva
que hoje está no campo e amanhã é lançada no fogo, quanto mais a vós, homens de
pouca fé?
Se vivêssemos mais confiados na Providência
divina, seguros - com fé firme - desta protecção diária que nunca nos falta,
quantas preocupações ou inquietações pouparíamos a nós próprios.
Desapareceriam
muitos desassossegos que, segundo palavras de Jesus, são próprios dos pagãos,
dos homens do mundo, das pessoas que carecem de sentido sobrenatural.
Quereria,
em confidência de amigo, de sacerdote, de pai, trazer-vos à memória em cada
circunstância, que nós, pela misericórdia de Deus, somos filhos desse Pai Nosso,
todo-poderoso, que está nos Céus e, ao mesmo tempo, na intimidade dos nossos
corações.
Quereria
gravar a fogo nas vossas mentes que temos todos os motivos para caminhar com
optimismo nesta terra, com a alma bem desprendida dessas coisas que parecem imprescindíveis,
pois bem sabe o vosso Pai que tendes necessidade delas.
E
Ele providenciará.
Crede
que só assim nos portaremos como senhores da Criação e evitaremos a triste
escravidão em que tantos caem, porque esquecem a sua condição de filhos de Deus,
preocupados com um amanhã ou um depois que talvez nem sequer cheguem a ver.
117
Permiti que, mais uma vez, vos manifeste
uma pequena parte da minha experiência pessoal.
Abro-vos
a minha alma na presença de Deus, com a certeza mais absoluta de que não sou
modelo de nada, de que sou um farrapo, um pobre instrumento - surdo e inapto -
que o Senhor utilizou para que se comprove, com mais evidência, que Ele escreve
perfeitamente com a perna de uma mesa.
Portanto,
ao falar-vos de mim, não me passa pela cabeça, nem de longe, o pensamento de
que na minha actuação haja algum mérito meu; e muito menos pretendo impor-vos o
caminho por onde o Senhor me levou, até porque pode suceder muito bem que o
Mestre não vos peça o que tanto me ajudou a trabalhar sem impedimento nesta
Obra de Deus a que dediquei toda a minha existência.
Asseguro-vos - toquei-o com as minhas mãos,
contemplei-o com os meus olhos - que, se confiardes na divina Providência, se
vos abandonardes nos seus braços omnipotentes, nunca vos faltarão os meios para
servir a Deus, à Santa Igreja, às almas, sem descuidar nenhum dos vossos
deveres.
E,
além disso, gozareis de uma alegria e de uma paz que mundus dare non potest, que a posse de todos os bens da terra não
pode dar.
Desde os começos do Opus Dei, em 1928, além
de que não contava com nenhum recurso humano, nunca utilizei pessoalmente um
cêntimo sequer.
Tão-pouco
intervim directamente nos assuntos económicos que logicamente surgem ao
realizar qualquer tarefa em que participam criaturas - homens de carne e osso,
e não anjos - que precisam de instrumentos materiais para desenvolver
eficazmente o seu trabalho apostólico.
O Opus Dei precisou e penso que precisará
sempre, até ao fim dos tempos, da colaboração generosa de muitos para sustentar
as obras apostólicas: por um lado, porque essas actividades nunca são
rentáveis; por outro, porque ainda que aumentem o número dos que cooperam e o
trabalho dos meus filhos, se há amor de Deus, o apostolado desenvolve-se e as
necessidades multiplicam-se.
Por
isso, em mais de uma ocasião, fiz rir os meus filhos, pois enquanto os
impulsionava com fortaleza a corresponderem fielmente à graça de Deus,
animava-os a dirigirem-se descaradamente ao Senhor, pedindo-lhe mais graça e o
dinheiro, de contado, que nos faltava.
Nos primeiros anos, faltava-nos até o mais
indispensável.
Atraídos
pelo fogo de Deus, vinham ter comigo operários, mecânicos, universitários...
que ignoravam o aperto e a indigência em que nos encontrávamos, porque no Opus
Dei, com o auxílio do Céu, sempre procurámos trabalhar de maneira que o
sacrifício e a oração fossem abundantes e escondidos.
Ao
rememorar agora aquela época, brota do coração uma acção de graças rendida.
Que
segurança havia nas nossas almas!
Sabíamos
que, procurando o reino de Deus e a sua justiça, o resto ser-nos-ia concedido
por acréscimo.
E
posso garantir-vos que não deixou de realizar-se nenhuma iniciativa apostólica
por falta de recursos materiais.
No momento preciso, de uma forma ou doutra,
o nosso Pai Deus com a sua Providência ordinária facilitava-nos o que era necessário,
para que víssemos que Ele é sempre bom pagador.
(cont)
Pequena agenda do cristão
(Coisas muito simples, curtas, objectivas)
Propósito:
Simplicidade e modéstia.
Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.
Lembrar-me:
Do meu Anjo da Guarda.
Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.
Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de correspondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos.
Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?
Não queiras ser grande. – Criança, criança sempre
Não queiras ser grande. – Criança,
criança sempre, ainda que morras de velho. – Quando um menino tropeça e cai,
ninguém estranha...; seu pai apressa-se a levantá-lo. Quando quem tropeça e cai
é adulto, o primeiro movimento é de riso. – Às vezes, passado esse primeiro
ímpeto, o ridículo cede o lugar à piedade. – Mas os adultos têm de se levantar
sozinhos. A tua triste experiência quotidiana está cheia de tropeços e de
quedas. Que seria de ti se não fosses cada vez mais pequeno? Não queiras ser
grande, mas menino. Para que, quando tropeçares, te levante a mão de teu
Pai-Deus. (Caminho, 870)
A piedade que nasce da filiação divina
é uma atitude profunda da alma, que acaba por informar toda a existência: está
presente em todos os pensamentos, em todos os desejos, em todos os afectos. Não
tendes visto como, nas famílias, os filhos, mesmo sem repararem, imitam os
pais: repetem os seus gestos, seguem os seus costumes, se parecem com eles em
tantos modos de comportar-se?
Pois o mesmo acontece na conduta de um
bom filho de Deus. Chega-se também, sem se saber como nem por que caminho, a
esse endeusamento maravilhoso que nos ajuda a olhar os acontecimentos com o
relevo sobrenatural da fé; amam-se todos os homens como o nosso Pai do Céu os
ama e – isto é o que mais importa – consegue-se um brio novo no esforço
quotidiano para nos aproximarmos do Senhor. As misérias não têm importância,
insisto, porque aí estão ao nosso lado os braços amorosos do nosso Pai Deus
para nos levantar. (Amigos de Deus, 146)
20/08/2019
Evangelho e comentário
São
Bernardo –Doutor da Igreja
Evangelho: Mt 19, 23-30
Naquele tempo, disse Jesus aos seus
discípulos: «Em verdade vos digo: Um rico dificilmente entrará no reino dos
Céus. É mais fácil passar um camelo pelo fundo duma agulha do que um rico
entrar no reino de Deus». Ao ouvirem estas palavras, os discípulos ficaram
muito admirados e disseram: «Quem poderá então salvar-se?». Jesus olhou para
eles e respondeu: «Aos homens isso é impossível, mas a Deus tudo é possível».
Então Pedro tomou a palavra e disse-Lhe: «Nós deixámos tudo para Te seguir. Que
recompensa teremos?». Jesus respondeu: «Em verdade vos digo: No mundo renovado,
quando o Filho do homem vier sentar-Se no seu trono de glória, também vós que
Me seguistes vos sentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel.
E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou
terras, por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá como herança a
vida eterna. Muitos dos primeiros serão os últimos e muitos dos últimos serão
os primeiros».
Comentário:
Acreditar
firmemente que a Deus nada é impossível deve dar-nos a segurança necessária
para encarar os factos da vida com coragem e determinação.
Nada
é inevitável, coisa alguma é imprescindível.
Tudo
deve ser para bem.
Com
esta disposição a riqueza será um bem porque permitirá fazê-lo, tal como a
escassez que nos levará oferecê-la.
Nos
dois casos, portanto, poderá haver mérito e é conveniente que o haja porque
dele depende a nossa salvação.
(AMA,
comentário sobre Mt 19, 23-30, 17.08.2010)
Temas para reflectir e meditar
O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê
tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm o ofício de sal,
qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção?
Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra não se deixa
salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina;
ou porque a terra não se deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina
que lhes dão, a não querem receber.
Ou porque é que o sal não salga, e os pregadores dizem uma coisa e
fazem outra; ou porque a terra não se deixa salgar, e os ouvintes querem antes
imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem.
Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não
a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir
a Cristo, se servem a seus apetites.
Não é, tudo isto, verdade?
(cfr. P. antónio vieira, Sermão aos peixes)
Leitura espiritual
Amigos
de Deus
121
Ao comportarmo-nos com normalidade - como
os nossos semelhantes - e com sentido sobrenatural, não fazemos mais que seguir
o exemplo de Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.
Reparai
que toda a sua vida está cheia de naturalidade.
Passa
trinta anos oculto, sem chamar a atenção, como qualquer outro trabalhador e
conhecem-no na sua aldeia como o filho do carpinteiro.
Ao longo da sua vida pública, também não se
nota nada que destoe, que pareça estranho ou excêntrico.
Rodeava-se
de amigos, como qualquer dos seus concidadãos, e no seu porte não se
diferenciava deles.
De
tal maneira que Judas, para o denunciar, precisa de combinar um sinal: aquele a
quem eu beijar, é esse.
Não
havia em Jesus nenhum indício extravagante.
A
mim, emociona-me esta norma de conduta do nosso Mestre, que passa como mais um
entre os homens.
João Baptista - seguindo um chamamento
especial - vestia pele de camelo e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre.
O
Salvador usava uma túnica de uma só peça, comia e bebia como os outros,
enchia-se de alegria com a felicidade alheia, comovia-se ante a dor do próximo,
não recusava os momentos de descanso que lhe ofereciam os seus amigos e a
ninguém escondia que tinha ganho o seu sustento, durante muitos anos,
trabalhando com as suas próprias mãos junto a José, o artesão.
Assim
temos nós de comportar-nos neste mundo: como Nosso Senhor.
Dir-te-ia,
em poucas palavras, que temos de andar com a roupa limpa, com o corpo limpo e,
principalmente, com a alma limpa.
Inclusivamente - porque não notá-lo? - o
Senhor, que prega um tão maravilhoso desprendimento dos bens terrenos, mostra
ao mesmo tempo um cuidado admirável em não os desperdiçar.
Depois
daquele milagre da multiplicação dos pães, com que tão generosamente saciou
mais de cinco mil homens, ordenou aos seus discípulos: recolhei os pedaços que
sobraram, para que não se percam. Recolheram-nos e encheram doze cestos.
Se
meditardes atentamente toda esta cena, aprendereis a nunca ser preguiçosos, mas
bons administradores dos talentos e meios materiais que Deus vos conceder.
122
O desprendimento que prego, depois de olhar
o nosso modelo, é domínio e não miséria clamorosa que chame a atenção, disfarce
da preguiça e do desmazelo.
Deves
andar vestido de acordo com o que é próprio da tua condição, do teu ambiente,
da tua família, do teu trabalho..., como os teus companheiros, mas por Deus,
com o afã de dar uma imagem autêntica e atraente da verdadeira vida cristã.
Com
naturalidade, sem extravagâncias, asseguro-vos que é preferível que pequeis por
excesso do que por defeito.
Como imaginas tu o porte de Nosso Senhor?
Já
pensaste com que dignidade vestiria aquela túnica inconsútil, que provavelmente
terá sido tecida pelas mãos de Santa Maria?
Não
te lembras de como em casa de Simão se lamenta por não lhe haverem oferecido
água para se lavar, antes de se sentar à mesa? Com certeza que o Senhor trouxe
à baila essa falta de urbanidade, para realçar com tal facto o ensinamento de
que é nos pormenores que se mostra o amor.
Mas
procura também deixar claro que se atém aos usos sociais do ambiente.
Portanto,
tu e eu esforçar-nos-emos por estar desapegados dos bens e das comodidades da
terra, mas sem destoar e sem fazer coisas estranhas.
Para mim, uma manifestação de que nos
sentimos senhores do mundo, administradores fiéis de Deus, é cuidar das coisas
que usamos, com interesse em conservá-las, em fazê-las durar, em mantê-las
impecáveis e em fazê-las servir o mais tempo possível para o seu fim, de
maneira a não haver desperdício.
Nos
centros do Opus Dei, encontrais uma decoração simples, acolhedora e, sobretudo,
limpa, porque não tem que se confundir uma casa pobre com o mau gosto ou com a
sujidade.
No
entanto, compreendo que tu, de acordo com as tuas possibilidades e as tuas
obrigações familiares e sociais, possuas objectos de valor e cuides deles com
espírito de mortificação, com desprendimento.
123
Há muitos anos - mais de vinte e cinco - eu
costumava passar por um refeitório de caridade, para mendigos que não comiam em
cada dia outro alimento senão o que ali lhes davam.
Tratava-se
de um local grande, entregue aos cuidados de um grupo de senhoras bondosas.
Depois
da primeira distribuição, acudiam outros mendigos, para recolher as sobras.
Entre
os deste segundo grupo houve um que me chamou a atenção: era proprietário de
uma colher de lata!
Tirava-a
cuidadosamente do bolso, com avareza, olhava-a com satisfação e, quando acabava
de saborear a sua ração, voltava a olhar para a colher com uns olhos que
gritavam: é minha!
Dava-lhe
duas lambedelas para a limpar e guardava-a de novo, satisfeito, nas pregas dos
seus andrajos.
Efectivamente
era sua!
Um
pobre miserável que, entre aquela gente, companheira de desventura, se
considerava rico.
Por essa altura, conhecia também uma
senhora com título nobiliárquico, Grande de Espanha.
Isto
não conta nada diante de Deus: somos todos iguais, todos filhos de Adão e Eva,
criaturas débeis, com virtudes e com defeitos, capazes dos piores crimes, se o
senhor nos abandona.
Desde
que Cristo nos redimiu, não há diferença de raça, nem de língua, nem de cor,
nem de estirpe, nem de riquezas...
Somos
todos filhos de Deus.
Essa
pessoa de que vos falo agora residia numa casa solarenga, mas não gastava
consigo mesma nem duas pesetas por dia.
Por
outro lado, pagava muito bem aos seus empregados e o resto destinava-o a ajudar
os necessitados, passando ela própria privações de todo o género.
A
esta mulher não lhe faltavam muitos desses bens que tantos ambicionam, mas ela
era pessoalmente pobre, muito mortificada, completamente desprendida de tudo.
Compreendestes bem?
Aliás, basta escutar as palavras do Senhor:
bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus.
Se desejas alcançar esse espírito,
aconselho-te a que sejas sóbrio contigo e muito generoso com os outros.
Evita
os gastos supérfluos por luxo, por capricho, por vaidade, por comodidade...;
não cries necessidades.
Numa
palavra, aprende com S. Paulo a viver na pobreza e a viver na abundância, a ter
fartura e a passar fome, a ter de sobra e a padecer necessidade.
Tudo posso naquele que me
conforta.
E,
como o Apóstolo, também sairemos vencedores da luta espiritual, se mantivermos
o coração desapegado, livre de ataduras.
Todos os que viemos a esta
luta da fé, diz S. Gregório Magno, tomamos a nosso cargo lutar contra os espíritos malignos.
Os
demónios nada possuem neste mundo e, portanto, assim como eles se apresentam
nus à peleja, também nós devemos lutar nus. Porque, se alguém vestido lutar com
outro sem roupa, depressa será derrubado, pois o seu inimigo tem por onde o
agarrar.
E que são as coisas da terra senão uma
espécie de indumentária?
124
Deus
ama o que dá com alegria
Dentro deste quadro de desprendimento total
que o Senhor nos pede, assinalar-vos-ei outro ponto de particular importância:
a saúde.
Agora,
a maioria de vós sois jovens; atravessais essa etapa formidável de plenitude de
vida, que transborda de energias.
Mas
o tempo passa e começa a notar-se inexoravelmente o desgaste físico; vêm depois
as limitações da idade madura e, por último, os achaques da velhice. Aliás,
qualquer de nós, em qualquer momento pode adoecer ou sofrer algum transtorno
corporal.
Só se aproveitarmos com rectidão -
cristãmente - as épocas de bem-estar físico, os bons tempos, aceitaremos também
com alegria sobrenatural os acontecimentos que habitualmente são considerados
maus.
Sem
descer a demasiados pormenores, quero transmitir-vos a minha experiência
pessoal.
Quando
estamos doentes, podemos ser impertinentes: não me atendem bem, ninguém se
preocupa comigo, não me tratam como mereço, ninguém me compreende...
O
demónio, que anda sempre à espreita, ataca por qualquer flanco. E, na doença, a
sua táctica consiste em fomentar uma espécie de psicose que nos afaste de Deus,
que azede o ambiente ou que destrua esse tesouro de méritos, que, para bem de
todas as almas, se alcança quando aceitamos a dor com optimismo sobrenatural -
com amor. Portanto, se é da vontade de Deus que nos atinja o aguilhão do sofrimento,
aceitemo-lo como sinal de que nos considera maduros para nos associar mais
estreitamente à sua cruz redentora.
Torna-se, pois, necessária, uma preparação
remota, feita todos os dias com santo desapego de nós próprios, para nos
dispormos a aceitar com garbo a doença ou a desventura - se o Senhor tal permitir.
Servi-vos
das ocasiões normais, de alguma privação, da dor nas suas pequenas
manifestações habituais, da mortificação, para exercitardes as virtudes
cristãs.
(cont)
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