| Soldado soviético, católico clandestino, padre y después abuelo: ahora ya viudo es sacerdote |
Padroeiros do blog: SÃO PAULO; SÃO TOMÁS DE AQUINO; SÃO FILIPE DE NÉRI; SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ
04/08/2019
Evangelho e comentário
Evangelho: Lc 12, 13-21
Naquele tempo, alguém, do meio da
multidão, disse a Jesus: «Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança
comigo». Jesus respondeu-lhe: «Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas
partilhas?». Depois disse aos presentes: «Vede bem, guardai-vos de toda a avareza:
a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens». E disse-lhes
esta parábola: «O campo dum homem rico tinha produzido excelente colheita. Ele
pensou consigo: ‘Que hei-de fazer, pois não tenho onde guardar a minha
colheita? Vou fazer assim: Deitarei abaixo os meus celeiros para construir
outros maiores, onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens. Então poderei
dizer a mim mesmo: Minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos.
Descansa, come, bebe, regala-te’. Mas Deus respondeu-lhe: ‘Insensato! Esta
noite terás de entregar a tua alma. O que preparaste, para quem será?’. Assim
acontece a quem acumula para si, em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».
Comentário:
A vida não depende dos bens que possam ter-se, é claro e sem discussão.
Não há qualquer mal em ter
bens, até, muitos bens, o errado está em fazer deles a principal preocupação da
nossa vida terrena.
Porquê:
Porque o que nos
interessa, aos cristãos, é a vida eterna e, aí, os bens não contam para nada,
mas apenas as obras que se praticaram em vida.
Além do mais, a excessiva
preocupação com os bens terrenos, pode desviar a atenção do realmente
importante, sobretudo, em “acumular” os bens que interessa ser portador na hora
derradeira:
As boas obras praticadas
por amor de Deus e dos homens.
(AMA,
comentário sobre Lc 12, 13-21, 11.07.2017)
Temas para reflectir e meditar
Temos todos os cristãos esta
necessidade de rezar, ou, por outras palavras, conversar com Deus Nosso Senhor.
Temos sempre algo a dizei, a pedir, a
agradecer.
Presume-se que se trata de uma
conversa pessoal, em confidência como com um amigo muito íntimo.
Na verdade, o que vamos agradecer a um
amigo íntimo?
Penso que em primeiro lugar devemos
agradecer a Sua amizade que, de certo modo, "não O deixa ver" os
nossos defeitos e debilidades.
Dá-nos sempre crédito e benefício da
dúvida.
Não nos pressiona a fazer o que nos
comprometemos.
Não exige a devolução do que nos
emprestou.
Perdoa sem demora as nossas faltas de
correspondência.
E... muito... muito mais!
A nossa oração mais corrente deve,
pois, ser de repetidas - e sentidas - acções de graças.
Na verdade o que será mais fácil?
Dizer obrigado ou pedir o que seja?
O que pedimos deve ser o que
verdadeiramente precisamos e, isso, Deus conhece e sabe. No entanto gosta de
ser instado e o próprio Jesus recomendou perseverança na petição.
Mas, não nos esqueçamos: é de bom
filho ser agradecido".
AMA, 06.12.2018
Leitura espiritual
Amigos de Deus
21
Na
barca de Cristo
Como a Nosso Senhor, também a mim me agrada
muito falar de barcas e de redes, para todos tirarmos propósitos firmes e concretos
dessas cenas evangélicas.
S. Lucas conta-nos que uns pescadores
lavavam e remendavam as redes à beira do lago de Genesaré. Jesus aproxima-se de
uma daquelas naves atracadas na margem e sobe a uma delas, a de Simão.
Com
que naturalidade se mete o Mestre na vida de cada um de nós para nos complicar
a vida, como se repete por aí em tom de queixa. Nosso Senhor cruzou-se convosco
e comigo no nosso caminho, para nos complicar a existência, delicadamente,
amorosamente.
Depois de pregar da barca de Pedro,
dirige-se aos pescadores: duc in altum,
et laxate retia vestra in capturam, remai para o mar alto e lançai as
redes!
Fiados na palavra de Cristo, obedecem e
obtêm aquela pesca prodigiosa.
Olhando
para Pedro que, como Tiago e João, estava pasmado, Nosso Senhor explica-lhe:
não tenhas medo; desta hora em diante serás pescador de homens.
E,
trazidas as barcas para terra, deixando tudo, seguiram-no.
A tua barca - os teus talentos, as tuas
aspirações, os teus êxitos - não vale para nada, a não ser que a ponhas à
disposição de Jesus Cristo, que permitas que Ele possa entrar nela com
liberdade, que não a convertas num ídolo.
Sozinho,
com a tua barca, se prescindires do Mestre, sobrenaturalmente falando,
encaminhas-te directamente para o naufrágio.
Só
se admitires, se procurares a presença e o governo de Nosso Senhor, estarás a
salvo das tempestades e dos reveses da vida.
Põe
tudo nas mãos de Deus: que os teus pensamentos, as aventuras boas da tua
imaginação, as tuas ambições humanas nobres, os teus amores limpos, passem pelo
coração de Cristo.
De
outra forma, mais tarde ou mais cedo, irão a pique com o teu egoísmo.
22
Se consentires que Deus seja o senhor da
tua nave, que Ele seja o amo, que segurança!..., mesmo quando a tempestade se
levanta no meio das trevas mais escuras e parece que Ele se ausenta, que está a
dormir, que não se preocupa.
S. Marcos relata que os Apóstolos se
encontravam nessas circunstâncias; e Jesus, vendo-os cansados de remar (porque
o vento lhes era contrário), cerca da quarta vigília da noite foi ter com eles,
andando sobre o mar...
Tende
confiança, sou eu, não temais.
E
subiu para a barca, para junto deles e cessou o vento.
Meus filhos, acontecem tantas coisas na
terra...!
Podia pôr-me a falar de penas, de
sofrimentos, de maus tratos, de martírios - não tiro nem uma letra -, do
heroísmo de muitas almas.
Aos
nossos olhos, na nossa inteligência, surge às vezes a impressão de que Jesus
dorme, de que não nos ouve; mas S. Lucas narra como Nosso Senhor se comporta
com os seus:
Enquanto
iam navegando, Jesus adormeceu e levantou-se uma tempestade de vento sobre o
lago e a barca enchia-se de água e estavam em perigo.
Aproximando-se
dele, despertaram-no dizendo: Mestre, nós perecemos!
Ele,
levantando-se, increpou o vento e as ondas, que acalmaram e veio a bonança.
Então
disse-lhes: onde está a vossa fé?
Se nos dermos, Ele dá-se-nos.
Temos
de confiar plenamente no Mestre, temos de nos abandonar nas suas mãos sem
mesquinhez; de lhe manifestar, com as nossas obras, que a barca é dele, que
queremos que disponha à vontade de tudo o que nos pertence.
Termino, recorrendo à intercessão de Santa
Maria, com estes propósitos: viver de fé; perseverar com esperança; permanecer
unidos a Jesus Cristo, amá-lo de verdade, de verdade, de verdade; percorrer e
saborear a nossa aventura de Amor, pois estamos apaixonados por Deus; deixar
que Cristo entre na nossa pobre barca e tome posse da nossa alma como Dono e
Senhor; manifestar-lhe com sinceridade que havemos de nos esforçar por nos
mantermos sempre na sua presença, de dia e de noite, porque Ele nos chamou à
fé: ecce ego quia vocasti me! e que
vimos ao seu redil atraídos pela sua voz e pelos seus assobios de Bom Pastor,
com a certeza de que só à sua sombra encontraremos a verdadeira felicidade
temporal e eterna.
23
Tenho recordado com frequência aquela cena
comovedora que o Evangelho nos relata: Jesus está na barca de Pedro, de onde
tinha falado ao povo.
Essa
multidão que o seguia moveu o afã de almas que consome o seu Coração e o Divino
Mestre quer que os discípulos participem quanto antes desse zelo. Depois de
lhes dizer que se façam ao largo - duc in
altum! - sugere a Pedro que lance as redes para pescar.
Não me vou demorar agora nos pormenores,
tão instrutivos, desses momentos.
Desejo
que consideremos a reacção do Príncipe dos Apóstolos perante o milagre:
afasta-te de mim, Senhor, que sou um homem pecador. É uma verdade - disso não
tenho dúvidas - que se ajusta perfeitamente à situação pessoal de todos.
No
entanto, asseguro-vos que, ao tropeçar durante a minha vida com tantos
prodígios da graça, realizados através de mãos humanas, tenho-me sentido
inclinado, diariamente cada vez mais inclinado, a gritar: Senhor, não te
afastes de mim, pois sem Ti não posso fazer nada de bom.
Precisamente por isso, percebo muito bem
aquelas palavras do Bispo de Hipona, que soam como um cântico maravilhoso à
liberdade: Deus, que te criou sem ti, não
te salvará sem ti, porque cada um de nós, tu, eu, temos sempre a possibilidade
- a triste desventura - de nos levantarmos contra Deus, de rejeitá-lo - talvez
só com a nossa conduta - ou de exclamar: não queremos que reine sobre nós.
24
Escolher
a vida
Agradecidos por nos apercebermos da
felicidade a que estamos chamados, aprendemos que todas as criaturas foram
tiradas do nada por Deus e para Deus: as racionais, os homens, apesar de tão frequentemente
perdermos a razão; e as irracionais, as que percorrem a superfície da terra, ou
habitam as entranhas do mundo, ou cruzam o azul do céu, algumas delas até
fitarem o Sol. Mas, no meio desta maravilhosa variedade, só nós, homens -não
falo aqui dos anjos - nos unimos ao Criador pelo exercício da nossa liberdade,
podendo prestar ou negar a Nosso Senhor a glória que lhe corresponde como Autor
de tudo o que existe.
Essa possibilidade é a principal componente
do claro-escuro da liberdade humana.
Nosso
Senhor convida-nos e anima-nos a escolher o bem, porque nos ama profundamente.
Considera
que ponho hoje diante de ti, dum lado, a vida e o bem, do outro, a morte e o mal.
Recomendo-te
que ames o Senhor teu Deus, que andes nos seus caminhos, que guardes os seus
preceitos, as suas leis e os seus decretos.
Se
assim fizeres, viverás...
Escolhe,
pois, a vida para que vivas.
Queres pensar - pela minha parte também
farei o meu exame - se manténs imutável e firme a tua escolha da Vida?
Se, ao ouvires essa voz de Deus,
amabilíssima, que te estimula à santidade, respondes livremente que sim?
Dirijamos o olhar para o nosso Jesus,
quando falava às multidões pelas cidades e campos da Palestina.
Não
pretende impor-se.
Se
queres ser perfeito..., diz ao jovem rico.
Aquele
rapaz rejeitou o convite e o Evangelho conta que abiit tristis , que se retirou entristecido.
Por
isso, alguma vez lhe chamei a ave triste: perdeu a alegria, porque se negou a
entregar a liberdade a Deus.
25
Consideremos agora o momento sublime em que
o Arcanjo São Gabriel anuncia a Santa Maria o desígnio do Altíssimo.
A nossa Mãe ouve e interroga para
compreender melhor aquilo que Nosso Senhor lhe pede; depois, surge a resposta
firme: Fiat! - faça-se em mim segundo
a tua palavra! -, o fruto da melhor liberdade: a de se decidir por Deus.
Em todos os mistérios da nossa fé católica
paira esse cântico à liberdade.
A Santíssima Trindade tira do nada o mundo
e o homem, num livre esbanjamento de amor.
O
Verbo desce do Céu e assume a nossa carne com este selo maravilhoso da
liberdade na submissão: eis que venho, segundo está escrito de mim no princípio
do livro, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Quando chega a hora marcada por
Deus para salvar a humanidade da escravidão do pecado, contemplamos Jesus
Cristo em Getsémani, sofrendo terrivelmente até derramar um suor de sangue e
aceitando rendida e espontaneamente o sacrifício que o Pai lhe reclama: como
cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda diante dos tosquiadores.
Já
o tinha anunciado aos seus, numa daquelas conversas em que abria o Coração, com
a finalidade de que aqueles que o amam conheçam que Ele é o Caminho - não há
outro - para se aproximarem do Pai: por isso o meu Pai me ama, porque dou a
minha vida para outra vez a assumir. Ninguém ma tira, mas Eu é que a dou por
minha própria vontade e tenho o poder de a dar e o poder de a recobrar.
(cont)
Pequena agenda do cristão
(Coisas muito simples, curtas, objectivas)
Propósito:
Viver a família.
Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.
Lembrar-me:
Cultivar a Fé
São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.
Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?
Se os cristãos soubessem servir!
Quando te falo do "bom
exemplo", quero indicar-te também que hás-de compreender e desculpar, que
hás-de encher o mundo de paz e de amor. (Forja, 560)
Se os cristãos soubessem servir! Vamos
confiar ao Senhor a nossa decisão de aprender a realizar esta tarefa de
serviço, porque só servindo é que poderemos conhecer e amar Cristo e dá-Lo a
conhecer e conseguir que os outros O amem mais.
Como o mostraremos às almas? Com o
exemplo: que sejamos testemunho seu, com a nossa voluntária servidão a Jesus
Cristo em todas as nossas actividades, porque é o Senhor de todas as realidades
da nossa vida, porque é a única e a última razão da nossa existência. Depois,
quando já tivermos prestado esse testemunho do exemplo, seremos capazes de instruir
com a palavra, com a doutrina. Assim procedeu Cristo: coepit facere et docere, primeiro ensinou com obras, e só depois
com a sua pregação divina.
Servir os outros, por Cristo, exige
que sejamos muito humanos. Se a nossa vida é desumana, Deus nada edificará
nela, porque habitualmente não constrói sobre a desordem, sobre o egoísmo,
sobre a prepotência. Precisamos de compreender todas as pessoas, temos de
conviver com todos, temos de desculpar todos, temos de perdoar a todos. Não
diremos que o injusto é o justo, que a ofensa a Deus não é ofensa a Deus, que o
mau é bom. Todavia, perante o mal, não responderemos com outro mal, mas com a
doutrina clara e com a boa acção; afogando o mal em abundância de bem. (Cristo
que passa, 182).
03/08/2019
Evangelho e comentário
Evangelho: Mt 14, 1-12
Naquele tempo, o tetrarca Herodes
ouviu falar da fama de Jesus e disse aos seus familiares: «Esse homem é João
Baptista que ressuscitou dos mortos. Por isso é que nele se exercem tais
poderes miraculosos». De facto, Herodes tinha mandado prender João e algemá-lo
no cárcere, por causa de Herodíades, a mulher de seu irmão Filipe. Porque João
dizia constantemente a Herodes: «Não te é permitido tê-la por mulher». E embora
quisesse dar-Lhe a morte, tinha receio da multidão, que o considerava como
profeta. Ocorreu entretanto o aniversário de Herodes e a filha de Herodíades
dançou diante dos convidados. Agradou de tal maneira a Herodes, que este lhe
prometeu com juramento dar-lhe o que ela pedisse. Instigada pela mãe, ela
respondeu: «Dá-me agora mesmo num prato a cabeça de João Baptista». O rei ficou
consternado, mas por causa do juramento e dos convidados, ordenou que lha
dessem e mandou decapitar João no cárcere. A cabeça foi trazida num prato e
entregue à jovem, que a levou a sua mãe. Os discípulos de João vieram buscar o
seu cadáver e deram-lhe sepultura. Depois foram dar a notícia a Jesus.
Comentário:
Como
comentar esta página trágica de São Mateus?
A
brutalidade e a total ausência de escrúpulos de que os homens são capazes,
ultrapassam o que se pode imaginar.
O
desprezo absoluto pela dignidade e o valor da vida humana tem a sua expressão
bem vincada neste personagem sinistro que que cruza na história da salvação.
Os
“Herodes” de hoje continuam a sua actuação desgarrada e destemperada, olhando o
próprio desprezando o outro.
Não
têm nem valores nem critério e, no entanto, pasme-se, são filhos de Deus como
nós.
Procuremos
que em vez de sentir revolta e asco por tais criaturas, pedir a Deus que se
arrependam e façam uma revisão devida.
A
Deus nada é impossível.
(AMA,
comentário sobre Mt 14, 1-12, 11.06.2019)
Leitura espiritual
Amigos de Deus
14
Por volta dos primeiros anos da década de
40, eu ia muito a Valência.
Não
tinha então nenhum meio humano e, com os que - como vocês agora - se reuniam
com este pobre sacerdote, fazia oração onde podíamos, algumas tardes numa praia
solitária.
Como
os primeiros amigos do Mestre, lembras-te?
S.
Lucas escreve que, ao sair de Tiro com Paulo, a caminho de Jerusalém,
acompanharam-nos todos, com as suas mulheres e filhos até fora da cidade e
ajoelhados na praia fizemos oração.
Pois um dia, ao fim da tarde, durante um
daqueles pores do Sol maravilhosos vimos que uma barca se aproximava da
beira-mar e que saltaram para terra uns homens morenos, fortes como rochas,
molhados, de tronco nu, tão queimados pela brisa que pareciam de bronze.
Começaram
a tirar da água a rede que traziam arrastada pela barca, repleta de peixes
brilhantes como a prata.
Puxavam
com muito brio, os pés metidos na areia, com uma energia prodigiosa.
De
repente veio uma criança, muito queimada também, aproximou-se da corda,
agarrou-a com as mãozinhas e começou a puxar com evidente falta de habilidade.
Aqueles
pescadores rudes, nada refinados, devem ter sentido o coração estremecer e
permitiram que aquele pequeno colaborasse; não o afastaram, apesar de ele
estorvar em vez de ajudar.
Pensei em vocês e em mim; em vocês, que
ainda não conhecia e em mim; nesse puxar pela corda todos os dias, em tantas
coisas. Se nos apresentarmos diante de Deus Nosso Senhor como esse pequeno,
convencidos da nossa debilidade mas dispostos a cumprir os seus desígnios,
alcançaremos a meta mais facilmente: arrastaremos a rede até à beira-mar,
repleta de frutos abundantes, porque onde as nossas forças falham, chega o
poder de Deus.
15
Sinceridade
na direcção espiritual
Conhecem muito bem as obrigações do vosso
caminho de cristãos, que os hão-de levar sem parar e com calma à santidade; também
estão precavidos contra as dificuldades, praticamente contra todas, porque já
se vislumbram desde o princípio do caminho.
Agora
insisto em que se deixem ajudar e guiar por um director de almas, a quem
confiem todos os entusiasmos santos, os problemas diários que afectarem a vida
interior, as derrotas que sofrerem e as vitórias.
Nessa direcção espiritual mostrem-se sempre
muito sinceros: não deixem nada por dizer, abram completamente a alma, sem medo
e sem vergonha.
Olhem
que, se não, esse caminho tão plano e tão fácil de andar complica-se e o que ao
princípio não era nada acaba por se converter num nó que sufoca.
Não
penseis que os que se perdem caem vítimas de um fracasso repentino; cada um
deles errou no princípio do seu caminho ou então descuidou por muito tempo a
sua alma, de modo que, enfraquecendo progressivamente a força das suas virtudes
e crescendo pelo contrário, pouco a pouco, a dos vícios, veio a desfalecer
miseravelmente...
Uma casa não se desmorona de repente por um
acidente imprevisível: ou já havia algum defeito nos alicerces ou o desleixo
dos que a habitavam se prolongou por muito tempo, de modo que os defeitos, a
princípio pequeníssimos, foram corroendo a firmeza da estrutura, pelo que,
quando chegou a tempestade ou surgiram as chuvas torrenciais, ruiu sem remédio,
pondo a descoberto o antigo descuido.
Lembram-se da história do cigano que se foi
confessar?
Não
passa de uma história, de uma historieta, porque da confissão nunca se fala e,
além disso, estimo muito os ciganos.
Coitadinho!
Estava
realmente arrependido: Senhor Padre, acuso-me de ter roubado uma arreata...-
pouca coisa, não é? - e atrás vinha uma burra...; e depois outra arreata...; e
outra burra... e assim até vinte.
Meus filhos, o mesmo acontece no nosso
comportamento: quando cedemos na arreata, depois vem o resto, a seguir vem uma
série de más inclinações, de misérias que aviltam e envergonham; e acontece o
mesmo na convivência: começa-se com uma pequena falta de delicadeza e acaba-se
a viver de costas uns para os outros, no meio da indiferença mais gelada.
16
Caçai as raposas pequenas que destroem a
vinha, as nossas vinhas em flor.
Fiéis
no pequeno, muito fiéis no pequeno.
Se
procurarmos esforçar-nos assim, também havemos de aprender a recorrer com
confiança aos braços de Santa Maria, como seus filhos. Não vos lembrava eu ao
princípio que todos nós temos muito poucos anos, tantos quantos passaram desde
que nos decidimos a ter muita intimidade com Deus?
Pois
é razoável que a nossa miséria e a nossa insuficiência se aproximem da grandeza
e da pureza santa da Mãe de Deus, que é também nossa Mãe.
Posso contar-vos outra história real,
porque já passaram tantos, tantos anos desde que aconteceu; e porque há-de
ajudá-los a pensar, pelo contraste e pela crueza das expressões.
Estava
a dirigir um retiro para sacerdotes de diversas dioceses.
Procurava-os
com afecto e com interesse, para que viessem falar comigo, aliviar a
consciência desabafando, porque os sacerdotes também precisam do conselho e da
ajuda de um irmão.
Comecei
a conversar com um, um pouco rude, mas muito nobre e sincero; puxava-lhe um
pouco pela língua, com delicadeza e clareza para sarar qualquer ferida que
existisse dentro do seu coração.
A
certa altura interrompeu-me, mais ou menos com estas palavras: tenho uma grande
inveja da minha burra; tem prestado serviços paroquiais em sete freguesias e
não há nada a apontar-lhe.
Ah!
Se eu tivesse feito o mesmo!
17
Talvez - examina-te a fundo - também nós
não mereçamos o elogio que esse cura de aldeia fazia à burra.
Trabalhámos
muito, ocupámos tantos cargos de responsabilidade, triunfaste nesta e naquela
tarefa humana... mas, na presença de Deus, não encontras nada de que devas
lamentar-te?
Procuraste
de verdade servir a Deus e aos homens teus irmãos, ou fomentaste o teu egoísmo,
a tua glória pessoal, as tuas ambições, o teu êxito exclusivamente terreno e
penosamente caduco?
Se falo um pouco cruamente, é porque quero
fazer uma vez mais um acto de contrição muito sincero e porque queria que cada
um de vocês também pedisse perdão.
Perante
as nossas infidelidades, à vista de tantos enganos, de fraquezas, de cobardias
- cada um com as suas -, repitamos do fundo do coração a Nosso Senhor aquelas
exclamações contritas de S. Pedro: Domine,
tu omnia nosti, tu scis quia amo te!; Senhor! Tu sabes tudo, Tu sabes que
te amo, apesar das minhas misérias!
E
atrevo-me a acrescentar: Tu sabes que te amo, precisamente por causa dessas
minhas misérias, pois elas levam-me a apoiar-me em Ti, que és a fortaleza: quia Tu es, Deus, fortitudo mea.
E
a partir daqui, recomecemos.
18
Procurar
a presença de Deus
Vida interior.
Santidade
nas tarefas usuais, santidade nas coisas pequenas, santidade no trabalho
profissional, nas canseiras de todos os dias...; santidade para santificar os
outros.
Numa
certa ocasião, um meu conhecido - nunca hei-de chegar a conhecê-lo bem -
sonhava que ia a voar num avião a uma grande altura, mas não dentro da cabine;
ia montado nas asas.
Coitado
do desgraçado: como sofria e se angustiava!
Parecia
que Nosso Senhor lhe dava a conhecer que assim andam pelas alturas - inseguras,
inquietas - as almas apostólicas que não têm vida interior ou que a descuidam:
com o perigo constante de caírem, sofrendo, incertas.
E penso, efectivamente, que correm um sério
risco de se extraviarem os que se lançam à acção - ao activismo - prescindindo
da oração, do sacrifício e dos meios indispensáveis para conseguir uma piedade
sólida: a frequência dos Sacramentos, a meditação, o exame de consciência, a
leitura espiritual, a convivência assídua com a Virgem Santíssima e com os
Anjos da Guarda...
Tudo
isto contribui, além disso, com uma eficácia insubstituível, para que o caminho
do cristão seja tão agradável, porque da sua riqueza interior jorram a doçura e
a felicidade de Deus como o mel do favo.
19
Na intimidade pessoal, na conduta externa,
no convívio com os outros, no trabalho, cada um há-de procurar manter-se numa
contínua presença de Deus, com uma conversa - um diálogo - que não se manifesta
exteriormente.
Melhor
dito, não se exprime normalmente com ruído de palavras, mas há-de notar-se pelo
empenho e pela diligência amorosa com que acabamos bem as tarefas, tanto as
importantes como as insignificantes. Se não procedêssemos com essa constância,
seríamos pouco coerentes com a nossa condição de filhos de Deus, pois teríamos
desperdiçado os recursos que Nosso Senhor colocou providencialmente ao nosso
alcance, para chegarmos ao estado de homem perfeito, à medida da idade perfeita
segundo Cristo.
Durante a última guerra de Espanha, fazia
viagens com frequência para atender sacerdotalmente muitos rapazes que se encontravam
na frente da batalha.
Numa
trincheira, ouvi um diálogo que me ficou muito gravado.
Perto
de Teruel, um soldado bastante novo comentava acerca de outro, pelos vistos um
pouco indeciso, pusilânime: não é um homem às direitas!
Teria
um grande desgosto se se pudesse afirmar de qualquer de nós, com fundamento,
que somos incoerentes; homens que afirmam que querem ser autenticamente
cristãos, santos, mas que desprezam os meios, já que não manifestam
continuamente a Deus o seu carinho e o seu amor filial no cumprimento das suas
obrigações. Se a nossa actuação se revelasse assim, tu e eu também não seríamos
cristãos íntegros.
20
Procuremos fomentar no fundo do coração um
desejo ardente, um empenho grande por alcançar a santidade, apesar de nos
vermos cheios de misérias.
Não
se assustem; à medida que se avança na vida interior, conhecem-se com mais
clareza os defeitos pessoais.
O
que acontece é que a ajuda da graça se transforma como que numa lente de
aumentar e o mais pequeno cotão, o grãozinho de areia quase imperceptível
aparecem com dimensões gigantescas, porque a alma adquire a finura divina e até
a sombra mais pequena incomoda a consciência, que só gosta da limpeza de Deus.
Diz-lhe
agora, do fundo do coração: Senhor, a sério que quero ser santo, a sério que
quero ser um teu discípulo digno e seguir-te sem condições.
E
depois, hás-de propor a ti próprio a intenção de renovar diariamente os grandes
ideais que te animam nestes momentos.
Jesus, se nós, que nos reunimos no teu
Amor, fôssemos perseverantes!
Se
conseguíssemos traduzir em obras esses anseios de santidade que Tu próprio
despertas nas nossas almas!
Perguntemo-nos a nós próprios com
frequência: para que estou eu na terra?
E assim hão-de procurar acabar
perfeitamente - com muita caridade - as tarefas que empreenderem em cada dia e
cuidar das coisas pequenas.
Debrucemo-nos
sobre o exemplo dos santos: pessoas como nós, de carne e osso, com fraquezas e
debilidades, que souberam vencer e vencer-se por amor de Deus; consideremos a
sua conduta e - como as abelhas que destilam de cada flor o néctar mais
precioso - aproveitemo-nos das suas lutas.
Assim
também havemos de aprender a descobrir muitas virtudes nos que nos rodeiam -
dão-nos lições de trabalho, de abnegação, de alegria... - sem nos determos
demasiado nos seus defeitos; só quando for imprescindível, para os ajudar com a
correcção fraterna.
(cont)
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