27/07/2019

Evangelho e comentário


TEMPO COMUM


Evangelho: Mt 13 24-30

24 Jesus propôs-lhes outra parábola: «O Reino do Céu é comparável a um homem que semeou boa semente no seu campo. 25 Ora, enquanto os seus homens dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e afastou-se. 26 Quando a haste cresceu e deu fruto, apareceu também o joio. 27 Os servos do dono da casa foram ter com ele e disseram-lhe: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem, pois, o joio?’ 28 ‘Foi algum inimigo meu que fez isto’ - respondeu ele. Disseram-lhe os servos: ‘Queres que vamos arrancá-lo?’ 29 Ele respondeu: ‘Não, para que não suceda que, ao apanhardes o joio, arranqueis o trigo ao mesmo tempo. 30 Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa; e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em feixes para ser queimado; e recolhei o trigo no meu celeiro.’»

Comentário:

No ambiente ou meio mais insuspeito, o inimigo semeia o joio.
Dentro da própria Igreja, por exemplo, coloca esse “joio” que em tudo semelhante ao verdadeiro trigo não passa de erva daninha destinada a corromper toda a seara.

Os “falsos cristãos”, os “lobos disfarçados de ovelhas” que o Senhor tantas vezes refere são esse joio maléfico destinado a confundir, a inventar, a “desnortear” os mais débeis ou incautos.

O verdadeiro cristão tem por dever de estar atento e precavido porque eles existem, de facto, e onde menos se pode esperar tentam enganar, dissuadir, espalhar a confusão ou a dúvida de tal forma que muitos caem nessas armadilhas e se deixam levar por onde não devem ir.

(AMA, comentário sobre Mt 13, 24-30, 28.07.2018)




Temas para reflectir e meditar

Confissão Frequente

Para que a confissão frequente logre conseguir uma consciência delicada, é mister ter com toda seriedade este princípio: sem arrependimento não há perdão dos pecados. 

Daqui nasce esta norma fundamental para o que se confessa com frequência: não confessar nenhum pecado venial do qual não se tenha arrependido séria e sinceramente.

(BENEDICKT BAURLa Confesión frequente, Herder, Barcelona 1957, pgs 37-38, trad ama)


Pequena agenda do cristão

SÁBADO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:

Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





Doutrina


Doutrina – 494  
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA
Compêndio



SEGUNDA SECÇÃO

OS SETE SACRAMENTOS DA IGREJA


CAPÍTULO PRIMEIRO

OS SACRAMENTOS DA INICIAÇÃO CRISTÃ

O SACRAMENTO DA EUCARISTIA


277. Como se desenrola a celebração da Eucaristia?



Desenrola-se em dois grandes momentos que formam um só acto de culto: a liturgia da Palavra, que compreende a proclamação e escuta da Palavra de Deus; e a liturgia eucarística, que compreende a apresentação do pão e do vinho, a oração ou anáfora, que contém as palavras da consagração, e a comunhão.

A nossa tendência para o egoísmo não morre


Não ponhas o teu "eu" na tua saúde, no teu nome, na tua carreira, na tua ocupação, em cada passo que dás... Que coisa tão maçadora! Parece que te esqueceste que "tu" não tens nada, é tudo d'Ele. Quando ao longo do dia te sentires, talvez sem razão, humilhado; quando pensares que o teu critério deveria prevalecer; quando notares que a cada instante borbota o teu "eu", o teu, o teu, o teu..., convence-te de que estás a matar o tempo e que estás a precisar que "matem" o teu egoísmo. (Forja, 1050)

Convém deixar o Senhor meter-se nas nossas vidas e entrar confiadamente sem encontrar obstáculos nem recantos obscuros. Nós, os homens, tendemos a defender-nos, a apegar-nos ao nosso egoísmo. Sempre tentamos ser reis, ainda que seja do reino da nossa miséria. Entendei através desta consideração por que motivo temos necessidade de recorrer a Jesus: para que Ele nos torne verdadeiramente livres e, dessa forma, possamos servir a Deus e a todos os homens. Só assim perceberemos a verdade daquelas palavras de S. Paulo: Agora, porém, livres do pecado e feitos servos de Deus, tendes por fruto a santificação e por fim a vida eterna. Porque o salário do pecado é a morte, ao passo que o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Nosso Senhor Jesus Cristo.

Estejamos precavidos, portanto, visto que a nossa tendência para o egoísmo não morre e a tentação pode insinuar-se de muitas maneiras. Deus exige que, ao obedecer, ponhamos em exercício a fé, porque a sua vontade não se manifesta com aparato ruidoso; às vezes o Senhor sugere o seu querer como que em voz baixa, lá no fundo da consciência; e é necessário escutar atentamente para distinguir essa voz e ser-Lhe fiel. (Cristo que passa, 17)

26/07/2019

Leitura espiritual


"Christus vivit": Exortação Apostólica aos Jovens 


Capítulo VIII

A VOCAÇÃO

Vocações para uma consagração especial

274. Se partirmos da convicção de que o Espírito continua a suscitar vocações para o sacerdócio e a vida religiosa, podemos «voltar a lançar as redes» em nome do Senhor, com toda a confiança.
Podemos - e devemos - ter a coragem de dizer a cada jovem que se interrogue quanto à possibilidade de seguir este caminho.

275. Algumas vezes fiz esta proposta a jovens que me responderam quase em tom de zombaria:
«Não! Verdadeiramente não me sinto inclinado para esse lado».
E todavia, anos depois, alguns deles estavam no Seminário.
O Senhor não pode falhar na sua promessa de não deixar a Igreja privada dos pastores, sem os quais não poderia viver nem desempenhar a sua missão.
E, se alguns sacerdotes não dão bom testemunho, não é por isso que o Senhor deixará de chamar.
Pelo contrário, redobra a aposta, porque não cessa de cuidar da sua amada Igreja.

276. No discernimento duma vocação, não se deve excluir a possibilidade de consagrar-se a Deus no sacerdócio, na vida religiosa ou em outras formas de consagração.
Porquê excluí-lo?
Podes ter a certeza de que, se reconheceres uma chamada de Deus e a seguires, será isso que dará plenitude à tua vida.

277. Jesus caminha no meio de nós, como fazia na Galileia.
Passa pelas nossas estradas, detém-Se e fixa-nos nos olhos, sem pressa.
A sua chamada é atraente, fascinante.
Mas, hoje, a ansiedade e a velocidade de tantos estímulos que nos bombardeiam fazem com que não haja lugar para aquele silêncio interior onde se percebe o olhar de Jesus e se ouve a sua chamada. Entretanto receberás muitas propostas bem confeccionadas, que parecem belas e intensas, mas com o passar do tempo, deixar-te-ão simplesmente vazio, cansado e sozinho.
Não deixes que isto te aconteça, porque o turbilhão deste mundo arrasta-te numa corrida sem sentido, sem orientação, nem objectivos claros, e deste modo se malograrão muitos dos teus esforços.
Procura, antes, aqueles espaços de calma e silêncio que te permitam reflectir, rezar, ver melhor o mundo ao teu redor e então sim, juntamente com Jesus, poderás reconhecer qual é a tua vocação nesta terra.

Capítulo IX

O DISCERNIMENTO

278. Sobre o discernimento em geral, já me debrucei na Exortação Apostólica Gaudete et exsultate.
Permiti-me retomar algumas daquelas reflexões, aplicando-as ao discernimento da vocação própria no mundo.

279. Lembro que todos, mas «especialmente os jovens, estão sujeitos a um zapping constante.
É possível navegar simultaneamente em duas ou três telas e interagir, ao mesmo tempo, em diferentes cenários virtuais.
Sem a sapiência do discernimento, podemos facilmente transformar-nos em marionetes à mercê das tendências da ocasião»[i].

E «isto revela-se particularmente importante, quando aparece uma novidade na própria vida, sendo necessário então discernir se é o vinho novo que vem de Deus ou uma novidade enganadora do espírito do mundo ou do espírito maligno»[ii].

280. Este discernimento, «embora inclua a razão e a prudência, supera-as, porque se trata de entrever o mistério daquele projecto, único e irrepetível, que Deus tem para cada um (…).
Está em jogo o sentido da minha vida diante do Pai, que me conhece e ama, aquele sentido verdadeiro para o qual posso orientar a minha existência e que ninguém conhece melhor do que Ele»[iii].

281. Neste contexto, situa-se a formação da consciência, que permite ao discernimento crescer em profundidade e fidelidade a Deus: «Formar a consciência requer o caminho da vida inteira, no qual se aprende a cultivar os mesmos sentimentos de Jesus Cristo, assumindo os critérios das suas opções e as intenções da sua actividade (cf. Flp 2, 5)»[iv].

282. Esta formação implica deixar-se transformar por Cristo e, ao mesmo tempo, uma «prática habitual do bem, verificada no exame de consciência: um exercício no qual não se trata apenas de identificar os pecados, mas também de reconhecer a obra de Deus na própria experiência diária, nas vicissitudes da história e das culturas onde se está inserido, no testemunho de muitos outros homens e mulheres que nos precederam ou acompanham com a sua sabedoria.

Tudo isto ajuda a crescer na virtude da prudência, articulando a orientação global da existência com as opções concretas, na consciência serena dos próprios dons e limites»[v].

Como discernir a tua vocação

283. Uma expressão do discernimento é o esforço por reconhecer a própria vocação.
É uma tarefa que requer espaços de solidão e silêncio, porque se trata duma decisão muito pessoal que mais ninguém pode tomar no nosso lugar.
«Embora o Senhor nos fale de muitos e variados modos durante o nosso trabalho, através dos outros e a todo o momento, não é possível prescindir do silêncio da oração prolongada para perceber melhor aquela linguagem, para interpretar o significado real das inspirações que julgamos ter recebido, para acalmar ansiedades e recompor o conjunto da própria vida à luz de Deus»[vi].

284. Este silêncio não é uma forma de isolamento, pois devemos lembrar-nos de que «o discernimento orante exige partir da predisposição para escutar: o Senhor, os outros, a própria realidade que não cessa de nos interpelar de novas maneiras.
Somente quem está disposto a escutar é que tem a liberdade de renunciar ao seu ponto de vista parcial e insuficiente (…).
Desta forma, está realmente disponível para acolher uma chamada que quebra as suas seguranças, mas leva-o a uma vida melhor, porque não é suficiente que tudo corra bem, que tudo esteja tranquilo.

Pode acontecer que Deus nos esteja oferecendo algo mais e, na nossa cómoda distracção, não o reconheçamos»[vii].

285. Quando se trata de discernir a própria vocação, há várias perguntas que é preciso colocar-se.
Não se deve começar por questionar onde se poderia ganhar mais dinheiro, onde se poderia obter mais fama e prestígio social, mas também não se deveria começar perguntando que tarefas nos dariam mais prazer.
Para não se enganar, é preciso mudar de perspectiva, perguntando: Conheço-me a mim mesmo, além das aparências ou das minhas sensações?
Sei o que alegra ou entristece o meu coração?
Quais são os meus pontos fortes e as minhas fragilidades?
E, logo a seguir, vêm outras perguntas:
Como posso servir melhor e ser mais útil ao mundo e à Igreja?
Qual é o meu lugar nesta terra?
Que poderia eu oferecer à sociedade?
E surgem imediatamente outras muito realistas:
Tenho as capacidades necessárias para prestar este serviço?
Em caso negativo, poderei adquiri-las e desenvolvê-las?

286. Estas questões devem-se colocar não tanto em relação a si mesmo e às próprias inclinações, mas em relação aos outros, em ordem a eles, para que o discernimento enquadre a própria vida referida aos outros.
Por isso, quero lembrar qual é a grande questão:
«Muitas vezes, na vida, perdemos tempo a questionar-nos: “Quem sou eu?” E podes passar a vida inteira a questionar-te, procurando saber quem és. Mas a pergunta que te deves colocar é esta: “Para quem sou eu?”»[viii]

És para Deus, sem dúvida alguma; mas Ele quis que fosses também para os outros, e colocou em ti muitas qualidades, inclinações, dons e carismas que não são para ti, mas para os outros.

Franciscus

Revisão da versão portuguesa por AMA


Notas




[i] Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate (19 de Março de 2018), 167.
[ii] Ibid., 168.
[iii] Ibid., 170.
[iv] DF108.
[v] Ibid., 108.
[vi] Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate (19 de Março de 2018), 171.
[vii] Ibid., 172.
[viii] Francisco, Discurso na Vigília de Oração de preparação para a XXXIV Jornada Mundial da Juventude (Roma – Basílica de Santa Maria Maior 8 de Abril de 2017): AAS 109 (2017), 447.

Evangelho e comentário


TEMPO COMUM


São Joaquim e Santa Ana – Pais de Nossa Senhora

Evangelho: Mt 13 16-17

16 Quanto a vós, ditosos os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem.17 Em verdade vos digo: Muitos profetas e justos desejaram ver o que estais a ver, e não viram, e ouvir o que estais a ouvir, e não ouviram.»

Comentário:

Podem parecer algo controversas as afirmações que o Senhor faz.

Mas vejamos como termina e perceberemos que pretender acreditar para obter uma cura, um milagre não é nem correcto nem honesto.

Parece, portanto, que a esses tais que Jesus refere lhes falta algo indispensável, para obter a misericórdia divina: a Fé.

Com Fé, tudo é possível sem fé, nada conseguiremos.

(AMA, comentário sobre Mt 13, 16-17, 26.07.2018)




Pequena agenda do cristão

Sexta-Feira


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)




Propósito:

Contenção; alguma privação; ser humilde.


Senhor: Ajuda-me a ser contido, a privar-me de algo por pouco que seja, a ser humilde. Sou formado por este barro duro e seco que é o meu carácter, mas não Te importes, Senhor, não Te importes com este barro que não vale nada. Parte-o, esfrangalha-o nas Tuas mãos amorosas e, estou certo, daí sairá algo que se possa - que Tu possas - aproveitar. Não dês importância à minha prosápia, à minha vaidade, ao meu desejo incontido de protagonismo e evidência. Não sei nada, não posso nada, não tenho nada, não valho nada, não sou absolutamente nada.

Lembrar-me:
Filiação divina.

Ser Teu filho Senhor! De tal modo desejo que esta realidade tome posse de mim, que me entrego totalmente nas Tuas mãos amorosas de Pai misericordioso, e embora não saiba bem para que me queres, para que queres como filho a alguém como eu, entrego-me confiante que me conheces profundamente, com todos os meus defeitos e pequenas virtudes e é assim, e não de outro modo, que me queres ao pé de Ti. Não me afastes, Senhor. Eu sei que Tu não me afastarás nunca. Peço-Te que não permitas que alguma vez, nem por breves instantes, seja eu a afastar-me de Ti.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





Devemos amar a Santa Missa


Luta por conseguir que o Santo Sacrifício do Altar seja o centro e a raiz da tua vida interior, de maneira que toda a jornada se converta num acto de culto – prolongamento da Missa que ouviste e preparação para a seguinte –, que vai transbordando em jaculatórias, em visitas ao Santíssimo, no oferecimento do teu trabalho profissional e da tua vida familiar... (Forja, 69)

Não compreendo como se possa viver cristãmente sem sentir a necessidade de uma amizade constante com Jesus na Palavra e no Pão, na oração e na Eucaristia. E entendo perfeitamente que, ao longo dos séculos, as sucessivas gerações de fiéis tenham vindo a concretizar essa piedade eucarística. Umas vezes com práticas multitudinárias, professando publicamente a sua fé; outras, com gestos silenciosos e calados, na sagrada paz do templo ou na intimidade do coração.
Antes de mais, devemos amar a Santa Missa, que deve ser o centro do nosso dia. Se vivemos bem a Missa, como não havemos depois de continuar o resto da jornada com o pensamento no Senhor, com o desejo ardente de não nos afastarmos da sua presença, para trabalhar como Ele trabalhava e amar como Ele amava? Aprendemos então a agradecer ao Senhor essa sua outra delicadeza: não quis limitar a sua presença ao momento do Sacrifício do Altar, mas decidiu permanecer na Hóstia Santa que se reserva no Tabernáculo, no Sacrário. (Cristo que passa, n. 154)

25/07/2019

Leitura espiritual


"Christus vivit": Exortação Apostólica aos Jovens


Capítulo VIII

A VOCAÇÃO

O amor e a família

259. Os jovens sentem fortemente a chamada ao amor e sonham encontrar a pessoa certa com quem formar uma família e construir uma vida juntos.
Sem dúvida, é uma vocação que o próprio Deus propõe através dos sentimentos, anseios, sonhos.
Debrucei-me largamente sobre este tema na Exortação Apostólica Amoris laetitia, convidando todos os jovens a lerem especialmente os capítulos IV e V.

260. Apraz-me pensar que «dois cristãos que casam reconheceram na sua história de amor a chamada do Senhor, a vocação a formar de duas pessoas, varão e mulher, uma só carne, uma só vida.
E o sacramento do Matrimónio corrobora este amor com a graça de Deus, arraigando-o no próprio Deus.
Com este dom, com a certeza desta vocação, é possível começar com segurança, sem medo de nada, para, juntos, enfrentar tudo!»[1]

261. Neste contexto, lembro que Deus nos criou sexuados.
Ele próprio «criou a sexualidade, que é um presente maravilhoso para as suas criaturas»[2].

Dentro da vocação para o matrimónio, devemos reconhecer, agradecidos, que «a sexualidade, o sexo são um dom de Deus.
Sem tabus.
São um dom de Deus, um dom que o Senhor nos dá.
E fá-lo com dois propósitos: amar-se e gerar vida.
É uma paixão, é o amor apaixonado.
O verdadeiro amor é apaixonado.
O amor entre um homem e uma mulher, quando é apaixonado, leva-te a dar a vida para sempre.
Sempre.
E a dá-la com corpo e alma»[3].

262. O Sínodo destacou que «a família continua a ser o principal ponto de referência para os jovens.
Os filhos apreciam o amor e os cuidados recebidos dos pais, tomam a peito os laços familiares e esperam conseguir, por sua vez, formar uma família.
Sem dúvida, o aumento de separações, divórcios, segundas uniões e famílias monoparentais pode causar grandes sofrimentos e crises de identidade nos jovens.
Por vezes, têm de assumir responsabilidades desproporcionadas para a sua idade, forçando-os a tornar-se adultos antes do tempo.
Muitas vezes, os avós prestam uma contribuição decisiva no afecto e na educação religiosa: com a sua sabedoria, são um elo decisivo na relação entre gerações»[4].

263. Estas dificuldades, encontradas na família de origem, levam certamente muitos jovens a interrogar-se se vale a pena formar uma nova família, ser fiéis, ser generosos.
Quero dizer-vos que sim, que vale a pena apostar na família e que nela encontrareis os melhores estímulos para amadurecer e as mais belas alegrias para partilhar.
Não deixeis que vos roubem a possibilidade de amar a sério.
Não permitais que vos enganem quantos vos propõem uma vida desenfreada e individualista que acaba por levar ao isolamento e à pior solidão.

264. Reina hoje a cultura do provisório, que é uma ilusão. Julgar que nada pode ser definitivo é um engano e uma mentira.
Muitas vezes ouvis dizer que «hoje o casamento está “fora de moda” (…).
Na cultura do provisório, do relativo, muitos pregam que o importante é “curtir” o momento, que não vale a pena comprometer-se por toda a vida, fazer escolhas definitivas (…).
Em vez disso, peço-vos para serdes revolucionários, peço-vos para irdes contracorrente; sim, nisto, peço que vos rebeleis: que vos rebeleis contra esta cultura do provisório que, no fundo, crê que vós não sois capazes de assumir responsabilidades, crê que vós não sois capazes de amar de verdade»[5].

Ao contrário, eu tenho confiança em vós e, por isso, vos encorajo a optar pelo matrimónio.

265. É necessário preparar-se para o matrimónio; isto requer educar-se a si mesmo, desenvolver as melhores virtudes, sobretudo o amor, a paciência, a capacidade de diálogo e de serviço.
Implica também educar a própria sexualidade, para que seja sempre menos um instrumento para usar os outros, e cada vez mais uma capacidade de se doar plenamente a uma pessoa, de maneira exclusiva e generosa.

266. Ensinam os bispos da Colômbia que «Cristo sabe que os esposos não são perfeitos e que precisam superar a sua fragilidade e inconstância para que o seu amor possa crescer e durar no tempo.
Por isso, concede aos esposos a sua graça que é, simultaneamente, luz e força que lhes permite realizar o seu projecto de vida conjugal de acordo com o plano de Deus»[6].

267. Àqueles que não são chamados ao matrimónio nem à vida consagrada, devemos sempre lembrar-lhes que a primeira e a mais importante vocação é a baptismal.
As pessoas não casadas, mesmo que não o sejam por opção, podem tornar-se de modo particular testemunhas da vocação baptismal no seu caminho de crescimento pessoal.

O trabalho

268. Os bispos dos Estados Unidos da América deixaram claro que frequentemente a juventude, uma vez atingida a maioridade, «marca a entrada duma pessoa no mundo do trabalho.

“Que fazes para viver?” é tema constante de conversa, porque o trabalho é uma parte muito importante da sua vida.
Para os jovens adultos, esta experiência é muito fluida, porque passam dum emprego para outro e mesmo duma carreira para outra.
O trabalho pode definir o uso do tempo e determinar o que se pode fazer ou comprar.
E pode determinar também a qualidade e a quantidade de tempo livre.
O trabalho define e influi na identidade e noção de si mesmo que tem um jovem adulto, sendo um lugar fundamental onde se desenvolvem as amizades e outras relações, porque habitualmente não se trabalha sozinho. Homens e mulheres jovens falam do trabalho como cumprimento duma função e como algo que lhes proporciona um sentido.
Aquele permite aos jovens adultos satisfazer as suas necessidades práticas e - mais importante ainda - procurar o significado e a realização dos seus sonhos e visões.
Ainda que o trabalho não ajude a alcançar os seus sonhos, resta importante para os adultos jovens poder cultivar uma visão, aprender a trabalhar de maneira realmente pessoal e satisfatória para a sua vida e continuar a discernir a chamada de Deus»[7].

269. Peço aos jovens que não esperem viver sem trabalhar, dependendo da ajuda dos outros.
Isto não faz bem, porque «o trabalho é uma necessidade, faz parte do sentido da vida nesta terra, é caminho de amadurecimento, desenvolvimento humano e realização pessoal.
Neste sentido, ajudar os pobres com o dinheiro deve ser sempre um remédio provisório para enfrentar emergências»[8].

Assim, «a espiritualidade cristã, a par da admiração contemplativa das criaturas que encontramos em São Francisco de Assis, desenvolveu também uma rica e sadia compreensão do trabalho, como podemos encontrar, por exemplo, na vida do Bem-Aventurado Carlos de Foucauld e seus discípulos»[9].

270. O Sínodo salientou que o mundo do trabalho é uma área onde os jovens «experimentam formas de exclusão e marginalização.
A primeira e a mais grave é o desemprego juvenil, que, nalguns países, atinge níveis exorbitantes.
Além de os empobrecer, a falta de trabalho rescinde nos jovens a capacidade de sonhar e esperar, e priva-os da possibilidade de contribuir para o desenvolvimento da sociedade.
Em muitos países, esta situação depende do facto de alguns sectores da população juvenil carecerem de competências profissionais adequadas, devido também aos deficits do sistema educacional e formativo.
Muitas vezes, a precariedade ocupacional que aflige os jovens deve-se aos interesses económicos que exploram o trabalho»[10].

271. É uma questão muito delicada que a política deve considerar como prioritária, sobretudo hoje que a velocidade dos avanços tecnológicos, aliada à obsessão de reduzir os custos laborais, pode levar rapidamente à substituição de inúmeros postos de trabalho por máquinas.
Trata-se de uma questão fundamental da sociedade, porque o trabalho, para um jovem, não é simplesmente uma actividade para ganhar dinheiro.
É expressão da dignidade humana, é caminho de amadurecimento e inserção social, é um estímulo constante para crescer em responsabilidade e criatividade, é uma protecção contra a tendência para o individualismo e a comodidade, e serve também para dar glória a Deus com o desenvolvimento das próprias capacidades.

272. Nem sempre um jovem tem a possibilidade de decidir a que vai dedicar os seus esforços, em que tarefas vai empregar as suas energias e a sua capacidade de inovação. Com efeito, aos próprios desejos e mesmo às próprias capacidades e discernimento que a pessoa pode maturar, sobrepõem-se os duros limites da realidade.
É verdade que não podes viver sem trabalhar e que, às vezes, tens de aceitar o que encontras, mas nunca renuncies aos teus sonhos, nunca enterres definitivamente uma vocação, nunca te dês por vencido.
Continua sempre a procurar, ao menos, modalidades parciais ou imperfeitas de viver aquilo que, no teu discernimento, reconheces como uma verdadeira vocação.

273. Quando alguém descobre que Deus o chama para uma coisa concreta, que está feito para isso - enfermagem, carpintaria, comunicação, engenharia, ensino, arte ou qualquer outro trabalho -, então será capaz de fazer desabrochar as suas melhores capacidades de sacrifício, generosidade e dedicação.
O facto de uma pessoa saber que não faz as coisas por fazer, mas com um significado, como resposta a uma chamada - que ressoa nas profundezas do seu ser - para contribuir com algo para o bem dos outros, isto faz com que estas actividades dêem ao próprio coração uma particular experiência de plenitude. Assim o diz o livro bíblico do Eclesiastes: «Reconheci que não há felicidade maior para o homem do que alegrar-se com as suas obras» (3, 22).

Franciscus

Revisão da versão portuguesa por AMA



Notas 




[1] Francisco, Encontro com os jovens da Úmbria (Assis 4 de Outubro de 2013): AAS 105 (2013), 921.
[2] Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Amoris laetitia (19 de Março de 2016), 150: AAS 108 (2016), 369.
[3] Francisco, Audiência a jovens da diocese de Grenoble-Viena (17 de Setembro de 2018): L’Osservatore Romano(19/IX/2018), 8.
[4] DF32.
[5] Francisco, Encontro com os voluntários da XXVIII Jornada Mundial da Juventude (Rio de Janeiro 28 de Julho de 2013): Insegnamenti, I,2 (2013), 125.
[6] Conferência Episcopal da Colômbia, Mensagem cristã sobre o Matrimónio (14 de maio de 1981).
[7] Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos , Filhos e filhas da luz: Um plano pastoral para o ministério com jovens adultos (12 de Novembro de 1996), I, 3.
[8] Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24 de Maio de 2015), 128: AAS 107 (2015), 898.
[9] Ibid., 125: o. c., 897.
[10] DF40.