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28/07/2019

Leitura espiritual


"Christus vivit": Exortação Apostólica aos Jovens


Capítulo IX

A chamada do Amigo

287. Para discernir a própria vocação, é preciso reconhecer que a mesma é a chamada dum amigo: Jesus. Aos amigos, quando se dá um presente, oferece-se o melhor; isto não significa que seja necessariamente o presente mais caro ou difícil de conseguir, mas o que - sabemos - dará alegria ao outro. Um amigo tem uma percepção tão clara disto mesmo que consegue visualizar, na sua imaginação, o sorriso do amigo ao abrir o seu presente. Este discernimento de amizade é o que proponho aos jovens como modelo se quiserem compreender qual é a vontade de Deus para a sua vida.

288. Quero que saibais que o Senhor, quando pensa em alguém, no que gostaria de lhe dar de presente, vê-o como seu amigo pessoal. E se decidiu presentear-te com uma graça, um carisma que te fará viver plenamente a tua vida transformando-te numa pessoa útil aos outros, em alguém que deixa uma marca na história, será certamente algo que te deixará feliz no mais íntimo de ti mesmo e te entusiasmará mais do que qualquer outra coisa neste mundo. Não, porque o dom concedido seja um carisma extraordinário ou raro, mas porque é precisamente à tua medida, à medida de toda a tua vida.

289. O dom da vocação será, sem dúvida, um dom exigente. Os dons de Deus são interactivos e, para desfrutá-los, é preciso pôr-me em caminho, arriscar. Não será a exigência dum dever imposto por outro de fora, mas algo que te estimulará a crescer e a optar por que esse presente amadureça e se transforme em dom para os outros. Quando o Senhor suscita uma vocação, não pensa apenas no que és, mas em tudo o que poderás, juntamente com Ele e os outros, chegar a ser.

290. A energia da vida e a força da própria personalidade alimentam-se mutuamente, no interior de cada jovem, e impelem-no a ultrapassar todos os limites. A inexperiência permite que isto aconteça, embora bem depressa se transforme em experiência muitas vezes dolorosa. É importante pôr em contacto este desejo do «infinito de quando ainda não se tentou começar»


[1] com a amizade incondicional que Jesus nos oferece.
Antes de toda a lei e dever, aquilo que Jesus nos propõe escolher é um seguimento como o de amigos que se frequentam, procuram e encontram por pura amizade. Tudo o mais vem depois; e até os fracassos da vida poderão ser uma experiência inestimável de tal amizade que não se rompe jamais.

Escuta e acompanhamento

291. Há sacerdotes, religiosos, religiosas, leigos, profissionais e até jovens qualificados, que podem acompanhar os jovens no seu discernimento vocacional.
Quando nos toca ajudar o outro a discernir o caminho da sua vida, a primeira coisa a fazer é ouvir.
Esta escuta pressupõe três sensibilidades ou atenções diferentes e complementares:

292. A primeira sensibilidade ou atenção é à pessoa.
Trata-se de escutar o outro, que se nos dá com as suas palavras.
O sinal desta escuta é o tempo que dedico ao outro.
Não é questão de quantidade, mas de que o outro sinta que o meu tempo é dele: todo o tempo que precisar para me manifestar o que quer.
Deve sentir que o escuto incondicionalmente, sem me ofender, escandalizar, aborrecer nem cansar.
Tal é a escuta que o Senhor realiza quando Se põe a caminho com os discípulos de Emaús e os acompanha durante longo tempo por uma estrada cuja direcção seguida era oposta à correcta (cf. Lc 24, 13-35).
Quando Jesus faz menção de continuar em frente, porque os dois discípulos tinham chegado a casa, estes compreendem que Ele lhes oferecera o seu tempo e, então, dão-Lhe o deles, oferecendo-Lhe hospedagem.
Esta escuta atenta e desinteressada mostra o valor que tem para nós a outra pessoa, independentemente das suas ideias e opções de vida.

293. A segunda sensibilidade ou atenção é no discernir.
Trata-se de individuar o ponto certo onde se discerne o que é a graça e o que é tentação. Com efeito, às vezes as coisas que cruzam a nossa imaginação não passam de tentações que nos afastam do nosso verdadeiro caminho.
Aqui preciso de me interrogar:
O que é que, exactamente, esta pessoa me está dizendo?
O que me quer dizer?
O que deseja que eu compreenda do que lhe acontece?
São perguntas que ajudam a entender onde se ligam os argumentos que movem o outro, e a sentir o peso e o ritmo dos seus afectos influenciados por esta lógica.
Esta escuta tem em vista discernir as palavras salvíficas do Espírito bom, que nos propõe a verdade do Senhor, mas também as armadilhas do espírito mau, os seus enganos e as suas seduções.
É preciso ter a coragem, o afecto e a delicadeza necessários para ajudar o outro a reconhecer a verdade e os enganos ou as desculpas.

294. A terceira sensibilidade ou atenção consiste em escutar os impulsos «para diante» que o outro experimenta.
É a escuta profunda do ponto «para onde o outro quer verdadeiramente ir». Além do que sente e pensa no presente e do que fez no passado, a atenção orienta-se para o que quereria ser.
Às vezes, isto requer que a pessoa não olhe tanto para o que gosta, os seus desejos superficiais, mas para o que mais agrada ao Senhor, o seu projecto para a própria vida que se expressa numa inclinação do coração, além da casca dos gostos e sentimentos.
Esta escuta é atenção à intenção última, que é aquela que, em última análise, decide a vida, porque há Alguém como Jesus que entende e valoriza esta intenção última do coração.
Por isso, Ele está sempre disposto a ajudar cada um a reconhecê-la e, para isso, basta que alguém Lhe diga:
«Senhor, salvai-me! Tende misericórdia de mim!»

295. Então, o discernimento torna-se um instrumento de compromisso forte para seguir melhor o Senhor[2].

Assim, o desejo de reconhecer a própria vocação adquire uma intensidade suprema, uma qualidade diferente e um nível superior, que responde muito melhor à dignidade da vida.
Porque, em última análise, um bom discernimento é um caminho de liberdade que faz aflorar a realidade única de cada pessoa, aquela realidade que é tão sua, tão pessoal que só Deus a conhece.
Os outros não podem entender plenamente nem prever de fora como se desenvolverá.

296. Por conseguinte, quando alguém escuta o outro desta maneira, a dado momento deve desaparecer para o deixar seguir o caminho que ele descobriu.
Desaparecer como desaparece o Senhor da vista dos seus discípulos, deixando-os sozinhos com o ardor do coração que se transforma num impulso irresistível de se porem a caminho (cf. Lc 24, 31-33).
De regresso à comunidade, os discípulos de Emaús receberão a confirmação de que o Senhor verdadeiramente ressuscitou (cf. Lc 24, 34).

297. Uma vez que «o tempo é superior ao espaço»[3], devemos suscitar e acompanhar processos, não impor percursos.
Trata-se de processos de pessoas, que sempre são únicas e livres.
Por isso é difícil elaborar receituários, mesmo quando todos os sinais forem positivos, porque «tem-se de submeter os próprios factores positivos a um atento discernimento, para que não se isolem uns dos outros, nem entrem em oposição entre si, absolutizando-se e combatendo-se mutuamente.
O mesmo se diga dos factores negativos: não são de rejeitar em bloco e sem distinções, porque em cada um deles pode ocultar-se algum valor que espera ser libertado e reconduzido à sua verdade plena»[4].

298. Mas, para acompanhar os outros neste caminho, primeiro precisas de ter o hábito de o percorreres tu próprio.
Maria fê-lo, enfrentando as suas questões e as suas próprias dificuldades, quando era ainda muito jovem.
Que Ela renove a tua juventude com a força da sua oração e te acompanhe sempre com a sua presença de Mãe.

* * *

E para concluir... um desejo

299. Queridos jovens, ficarei feliz vendo-vos correr mais rápido do que os lentos e medrosos.
Correi «atraídos por aquele Rosto tão amado, que adoramos na sagrada Eucaristia e reconhecemos na carne do irmão que sofre.
O Espírito Santo vos impulsione nesta corrida para a frente.
A Igreja precisa do vosso ímpeto, das vossas intuições, da vossa fé. Nós temos necessidade disto!
E quando chegardes aonde nós ainda não chegámos, tende a paciência de esperar por nós»[5].


Loreto, no Santuário da Santa Casa, a 25 de Março – Solenidade da Anunciação do Senhor – do ano 2019, sétimo do pontificado.

Franciscus

Revisão da versão portuguesa por AMA




Notas



[1] Romano Guardini, As idades da vidaOpera omnia, IV (Brescia 2015), 209.
[2] Cf. Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate (19 de Março de 2018), 169.
[3] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novembro de 2013), 222: AAS 105 (2013), 1111.
[4] São João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de Março de 1992), 10: AAS 84 (1992), 672.
[5] Francisco, Encontro e oração com jovens italianos, no Circo Máximo de Roma (11 de Agosto de 2018): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 23/VIII/2018), 2.


26/07/2019

Leitura espiritual


"Christus vivit": Exortação Apostólica aos Jovens 


Capítulo VIII

A VOCAÇÃO

Vocações para uma consagração especial

274. Se partirmos da convicção de que o Espírito continua a suscitar vocações para o sacerdócio e a vida religiosa, podemos «voltar a lançar as redes» em nome do Senhor, com toda a confiança.
Podemos - e devemos - ter a coragem de dizer a cada jovem que se interrogue quanto à possibilidade de seguir este caminho.

275. Algumas vezes fiz esta proposta a jovens que me responderam quase em tom de zombaria:
«Não! Verdadeiramente não me sinto inclinado para esse lado».
E todavia, anos depois, alguns deles estavam no Seminário.
O Senhor não pode falhar na sua promessa de não deixar a Igreja privada dos pastores, sem os quais não poderia viver nem desempenhar a sua missão.
E, se alguns sacerdotes não dão bom testemunho, não é por isso que o Senhor deixará de chamar.
Pelo contrário, redobra a aposta, porque não cessa de cuidar da sua amada Igreja.

276. No discernimento duma vocação, não se deve excluir a possibilidade de consagrar-se a Deus no sacerdócio, na vida religiosa ou em outras formas de consagração.
Porquê excluí-lo?
Podes ter a certeza de que, se reconheceres uma chamada de Deus e a seguires, será isso que dará plenitude à tua vida.

277. Jesus caminha no meio de nós, como fazia na Galileia.
Passa pelas nossas estradas, detém-Se e fixa-nos nos olhos, sem pressa.
A sua chamada é atraente, fascinante.
Mas, hoje, a ansiedade e a velocidade de tantos estímulos que nos bombardeiam fazem com que não haja lugar para aquele silêncio interior onde se percebe o olhar de Jesus e se ouve a sua chamada. Entretanto receberás muitas propostas bem confeccionadas, que parecem belas e intensas, mas com o passar do tempo, deixar-te-ão simplesmente vazio, cansado e sozinho.
Não deixes que isto te aconteça, porque o turbilhão deste mundo arrasta-te numa corrida sem sentido, sem orientação, nem objectivos claros, e deste modo se malograrão muitos dos teus esforços.
Procura, antes, aqueles espaços de calma e silêncio que te permitam reflectir, rezar, ver melhor o mundo ao teu redor e então sim, juntamente com Jesus, poderás reconhecer qual é a tua vocação nesta terra.

Capítulo IX

O DISCERNIMENTO

278. Sobre o discernimento em geral, já me debrucei na Exortação Apostólica Gaudete et exsultate.
Permiti-me retomar algumas daquelas reflexões, aplicando-as ao discernimento da vocação própria no mundo.

279. Lembro que todos, mas «especialmente os jovens, estão sujeitos a um zapping constante.
É possível navegar simultaneamente em duas ou três telas e interagir, ao mesmo tempo, em diferentes cenários virtuais.
Sem a sapiência do discernimento, podemos facilmente transformar-nos em marionetes à mercê das tendências da ocasião»[i].

E «isto revela-se particularmente importante, quando aparece uma novidade na própria vida, sendo necessário então discernir se é o vinho novo que vem de Deus ou uma novidade enganadora do espírito do mundo ou do espírito maligno»[ii].

280. Este discernimento, «embora inclua a razão e a prudência, supera-as, porque se trata de entrever o mistério daquele projecto, único e irrepetível, que Deus tem para cada um (…).
Está em jogo o sentido da minha vida diante do Pai, que me conhece e ama, aquele sentido verdadeiro para o qual posso orientar a minha existência e que ninguém conhece melhor do que Ele»[iii].

281. Neste contexto, situa-se a formação da consciência, que permite ao discernimento crescer em profundidade e fidelidade a Deus: «Formar a consciência requer o caminho da vida inteira, no qual se aprende a cultivar os mesmos sentimentos de Jesus Cristo, assumindo os critérios das suas opções e as intenções da sua actividade (cf. Flp 2, 5)»[iv].

282. Esta formação implica deixar-se transformar por Cristo e, ao mesmo tempo, uma «prática habitual do bem, verificada no exame de consciência: um exercício no qual não se trata apenas de identificar os pecados, mas também de reconhecer a obra de Deus na própria experiência diária, nas vicissitudes da história e das culturas onde se está inserido, no testemunho de muitos outros homens e mulheres que nos precederam ou acompanham com a sua sabedoria.

Tudo isto ajuda a crescer na virtude da prudência, articulando a orientação global da existência com as opções concretas, na consciência serena dos próprios dons e limites»[v].

Como discernir a tua vocação

283. Uma expressão do discernimento é o esforço por reconhecer a própria vocação.
É uma tarefa que requer espaços de solidão e silêncio, porque se trata duma decisão muito pessoal que mais ninguém pode tomar no nosso lugar.
«Embora o Senhor nos fale de muitos e variados modos durante o nosso trabalho, através dos outros e a todo o momento, não é possível prescindir do silêncio da oração prolongada para perceber melhor aquela linguagem, para interpretar o significado real das inspirações que julgamos ter recebido, para acalmar ansiedades e recompor o conjunto da própria vida à luz de Deus»[vi].

284. Este silêncio não é uma forma de isolamento, pois devemos lembrar-nos de que «o discernimento orante exige partir da predisposição para escutar: o Senhor, os outros, a própria realidade que não cessa de nos interpelar de novas maneiras.
Somente quem está disposto a escutar é que tem a liberdade de renunciar ao seu ponto de vista parcial e insuficiente (…).
Desta forma, está realmente disponível para acolher uma chamada que quebra as suas seguranças, mas leva-o a uma vida melhor, porque não é suficiente que tudo corra bem, que tudo esteja tranquilo.

Pode acontecer que Deus nos esteja oferecendo algo mais e, na nossa cómoda distracção, não o reconheçamos»[vii].

285. Quando se trata de discernir a própria vocação, há várias perguntas que é preciso colocar-se.
Não se deve começar por questionar onde se poderia ganhar mais dinheiro, onde se poderia obter mais fama e prestígio social, mas também não se deveria começar perguntando que tarefas nos dariam mais prazer.
Para não se enganar, é preciso mudar de perspectiva, perguntando: Conheço-me a mim mesmo, além das aparências ou das minhas sensações?
Sei o que alegra ou entristece o meu coração?
Quais são os meus pontos fortes e as minhas fragilidades?
E, logo a seguir, vêm outras perguntas:
Como posso servir melhor e ser mais útil ao mundo e à Igreja?
Qual é o meu lugar nesta terra?
Que poderia eu oferecer à sociedade?
E surgem imediatamente outras muito realistas:
Tenho as capacidades necessárias para prestar este serviço?
Em caso negativo, poderei adquiri-las e desenvolvê-las?

286. Estas questões devem-se colocar não tanto em relação a si mesmo e às próprias inclinações, mas em relação aos outros, em ordem a eles, para que o discernimento enquadre a própria vida referida aos outros.
Por isso, quero lembrar qual é a grande questão:
«Muitas vezes, na vida, perdemos tempo a questionar-nos: “Quem sou eu?” E podes passar a vida inteira a questionar-te, procurando saber quem és. Mas a pergunta que te deves colocar é esta: “Para quem sou eu?”»[viii]

És para Deus, sem dúvida alguma; mas Ele quis que fosses também para os outros, e colocou em ti muitas qualidades, inclinações, dons e carismas que não são para ti, mas para os outros.

Franciscus

Revisão da versão portuguesa por AMA


Notas




[i] Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate (19 de Março de 2018), 167.
[ii] Ibid., 168.
[iii] Ibid., 170.
[iv] DF108.
[v] Ibid., 108.
[vi] Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate (19 de Março de 2018), 171.
[vii] Ibid., 172.
[viii] Francisco, Discurso na Vigília de Oração de preparação para a XXXIV Jornada Mundial da Juventude (Roma – Basílica de Santa Maria Maior 8 de Abril de 2017): AAS 109 (2017), 447.

25/07/2019

Leitura espiritual


"Christus vivit": Exortação Apostólica aos Jovens


Capítulo VIII

A VOCAÇÃO

O amor e a família

259. Os jovens sentem fortemente a chamada ao amor e sonham encontrar a pessoa certa com quem formar uma família e construir uma vida juntos.
Sem dúvida, é uma vocação que o próprio Deus propõe através dos sentimentos, anseios, sonhos.
Debrucei-me largamente sobre este tema na Exortação Apostólica Amoris laetitia, convidando todos os jovens a lerem especialmente os capítulos IV e V.

260. Apraz-me pensar que «dois cristãos que casam reconheceram na sua história de amor a chamada do Senhor, a vocação a formar de duas pessoas, varão e mulher, uma só carne, uma só vida.
E o sacramento do Matrimónio corrobora este amor com a graça de Deus, arraigando-o no próprio Deus.
Com este dom, com a certeza desta vocação, é possível começar com segurança, sem medo de nada, para, juntos, enfrentar tudo!»[1]

261. Neste contexto, lembro que Deus nos criou sexuados.
Ele próprio «criou a sexualidade, que é um presente maravilhoso para as suas criaturas»[2].

Dentro da vocação para o matrimónio, devemos reconhecer, agradecidos, que «a sexualidade, o sexo são um dom de Deus.
Sem tabus.
São um dom de Deus, um dom que o Senhor nos dá.
E fá-lo com dois propósitos: amar-se e gerar vida.
É uma paixão, é o amor apaixonado.
O verdadeiro amor é apaixonado.
O amor entre um homem e uma mulher, quando é apaixonado, leva-te a dar a vida para sempre.
Sempre.
E a dá-la com corpo e alma»[3].

262. O Sínodo destacou que «a família continua a ser o principal ponto de referência para os jovens.
Os filhos apreciam o amor e os cuidados recebidos dos pais, tomam a peito os laços familiares e esperam conseguir, por sua vez, formar uma família.
Sem dúvida, o aumento de separações, divórcios, segundas uniões e famílias monoparentais pode causar grandes sofrimentos e crises de identidade nos jovens.
Por vezes, têm de assumir responsabilidades desproporcionadas para a sua idade, forçando-os a tornar-se adultos antes do tempo.
Muitas vezes, os avós prestam uma contribuição decisiva no afecto e na educação religiosa: com a sua sabedoria, são um elo decisivo na relação entre gerações»[4].

263. Estas dificuldades, encontradas na família de origem, levam certamente muitos jovens a interrogar-se se vale a pena formar uma nova família, ser fiéis, ser generosos.
Quero dizer-vos que sim, que vale a pena apostar na família e que nela encontrareis os melhores estímulos para amadurecer e as mais belas alegrias para partilhar.
Não deixeis que vos roubem a possibilidade de amar a sério.
Não permitais que vos enganem quantos vos propõem uma vida desenfreada e individualista que acaba por levar ao isolamento e à pior solidão.

264. Reina hoje a cultura do provisório, que é uma ilusão. Julgar que nada pode ser definitivo é um engano e uma mentira.
Muitas vezes ouvis dizer que «hoje o casamento está “fora de moda” (…).
Na cultura do provisório, do relativo, muitos pregam que o importante é “curtir” o momento, que não vale a pena comprometer-se por toda a vida, fazer escolhas definitivas (…).
Em vez disso, peço-vos para serdes revolucionários, peço-vos para irdes contracorrente; sim, nisto, peço que vos rebeleis: que vos rebeleis contra esta cultura do provisório que, no fundo, crê que vós não sois capazes de assumir responsabilidades, crê que vós não sois capazes de amar de verdade»[5].

Ao contrário, eu tenho confiança em vós e, por isso, vos encorajo a optar pelo matrimónio.

265. É necessário preparar-se para o matrimónio; isto requer educar-se a si mesmo, desenvolver as melhores virtudes, sobretudo o amor, a paciência, a capacidade de diálogo e de serviço.
Implica também educar a própria sexualidade, para que seja sempre menos um instrumento para usar os outros, e cada vez mais uma capacidade de se doar plenamente a uma pessoa, de maneira exclusiva e generosa.

266. Ensinam os bispos da Colômbia que «Cristo sabe que os esposos não são perfeitos e que precisam superar a sua fragilidade e inconstância para que o seu amor possa crescer e durar no tempo.
Por isso, concede aos esposos a sua graça que é, simultaneamente, luz e força que lhes permite realizar o seu projecto de vida conjugal de acordo com o plano de Deus»[6].

267. Àqueles que não são chamados ao matrimónio nem à vida consagrada, devemos sempre lembrar-lhes que a primeira e a mais importante vocação é a baptismal.
As pessoas não casadas, mesmo que não o sejam por opção, podem tornar-se de modo particular testemunhas da vocação baptismal no seu caminho de crescimento pessoal.

O trabalho

268. Os bispos dos Estados Unidos da América deixaram claro que frequentemente a juventude, uma vez atingida a maioridade, «marca a entrada duma pessoa no mundo do trabalho.

“Que fazes para viver?” é tema constante de conversa, porque o trabalho é uma parte muito importante da sua vida.
Para os jovens adultos, esta experiência é muito fluida, porque passam dum emprego para outro e mesmo duma carreira para outra.
O trabalho pode definir o uso do tempo e determinar o que se pode fazer ou comprar.
E pode determinar também a qualidade e a quantidade de tempo livre.
O trabalho define e influi na identidade e noção de si mesmo que tem um jovem adulto, sendo um lugar fundamental onde se desenvolvem as amizades e outras relações, porque habitualmente não se trabalha sozinho. Homens e mulheres jovens falam do trabalho como cumprimento duma função e como algo que lhes proporciona um sentido.
Aquele permite aos jovens adultos satisfazer as suas necessidades práticas e - mais importante ainda - procurar o significado e a realização dos seus sonhos e visões.
Ainda que o trabalho não ajude a alcançar os seus sonhos, resta importante para os adultos jovens poder cultivar uma visão, aprender a trabalhar de maneira realmente pessoal e satisfatória para a sua vida e continuar a discernir a chamada de Deus»[7].

269. Peço aos jovens que não esperem viver sem trabalhar, dependendo da ajuda dos outros.
Isto não faz bem, porque «o trabalho é uma necessidade, faz parte do sentido da vida nesta terra, é caminho de amadurecimento, desenvolvimento humano e realização pessoal.
Neste sentido, ajudar os pobres com o dinheiro deve ser sempre um remédio provisório para enfrentar emergências»[8].

Assim, «a espiritualidade cristã, a par da admiração contemplativa das criaturas que encontramos em São Francisco de Assis, desenvolveu também uma rica e sadia compreensão do trabalho, como podemos encontrar, por exemplo, na vida do Bem-Aventurado Carlos de Foucauld e seus discípulos»[9].

270. O Sínodo salientou que o mundo do trabalho é uma área onde os jovens «experimentam formas de exclusão e marginalização.
A primeira e a mais grave é o desemprego juvenil, que, nalguns países, atinge níveis exorbitantes.
Além de os empobrecer, a falta de trabalho rescinde nos jovens a capacidade de sonhar e esperar, e priva-os da possibilidade de contribuir para o desenvolvimento da sociedade.
Em muitos países, esta situação depende do facto de alguns sectores da população juvenil carecerem de competências profissionais adequadas, devido também aos deficits do sistema educacional e formativo.
Muitas vezes, a precariedade ocupacional que aflige os jovens deve-se aos interesses económicos que exploram o trabalho»[10].

271. É uma questão muito delicada que a política deve considerar como prioritária, sobretudo hoje que a velocidade dos avanços tecnológicos, aliada à obsessão de reduzir os custos laborais, pode levar rapidamente à substituição de inúmeros postos de trabalho por máquinas.
Trata-se de uma questão fundamental da sociedade, porque o trabalho, para um jovem, não é simplesmente uma actividade para ganhar dinheiro.
É expressão da dignidade humana, é caminho de amadurecimento e inserção social, é um estímulo constante para crescer em responsabilidade e criatividade, é uma protecção contra a tendência para o individualismo e a comodidade, e serve também para dar glória a Deus com o desenvolvimento das próprias capacidades.

272. Nem sempre um jovem tem a possibilidade de decidir a que vai dedicar os seus esforços, em que tarefas vai empregar as suas energias e a sua capacidade de inovação. Com efeito, aos próprios desejos e mesmo às próprias capacidades e discernimento que a pessoa pode maturar, sobrepõem-se os duros limites da realidade.
É verdade que não podes viver sem trabalhar e que, às vezes, tens de aceitar o que encontras, mas nunca renuncies aos teus sonhos, nunca enterres definitivamente uma vocação, nunca te dês por vencido.
Continua sempre a procurar, ao menos, modalidades parciais ou imperfeitas de viver aquilo que, no teu discernimento, reconheces como uma verdadeira vocação.

273. Quando alguém descobre que Deus o chama para uma coisa concreta, que está feito para isso - enfermagem, carpintaria, comunicação, engenharia, ensino, arte ou qualquer outro trabalho -, então será capaz de fazer desabrochar as suas melhores capacidades de sacrifício, generosidade e dedicação.
O facto de uma pessoa saber que não faz as coisas por fazer, mas com um significado, como resposta a uma chamada - que ressoa nas profundezas do seu ser - para contribuir com algo para o bem dos outros, isto faz com que estas actividades dêem ao próprio coração uma particular experiência de plenitude. Assim o diz o livro bíblico do Eclesiastes: «Reconheci que não há felicidade maior para o homem do que alegrar-se com as suas obras» (3, 22).

Franciscus

Revisão da versão portuguesa por AMA



Notas 




[1] Francisco, Encontro com os jovens da Úmbria (Assis 4 de Outubro de 2013): AAS 105 (2013), 921.
[2] Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Amoris laetitia (19 de Março de 2016), 150: AAS 108 (2016), 369.
[3] Francisco, Audiência a jovens da diocese de Grenoble-Viena (17 de Setembro de 2018): L’Osservatore Romano(19/IX/2018), 8.
[4] DF32.
[5] Francisco, Encontro com os voluntários da XXVIII Jornada Mundial da Juventude (Rio de Janeiro 28 de Julho de 2013): Insegnamenti, I,2 (2013), 125.
[6] Conferência Episcopal da Colômbia, Mensagem cristã sobre o Matrimónio (14 de maio de 1981).
[7] Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos , Filhos e filhas da luz: Um plano pastoral para o ministério com jovens adultos (12 de Novembro de 1996), I, 3.
[8] Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24 de Maio de 2015), 128: AAS 107 (2015), 898.
[9] Ibid., 125: o. c., 897.
[10] DF40.