21/07/2019

Leitura espiritual


"Christus vivit": Exortação Apostólica aos Jovens 

Capítulo VII

A PASTORAL DOS JOVENS

Ambientes adequados

216. Em todas as nossas instituições, devemos desenvolver e reforçar muito mais a nossa capacidade de recepção cordial, porque muitos dos jovens que chegam encontram-se numa situação profunda de orfandade.
E não me refiro a certos conflitos familiares, mas a uma experiência que atinge igualmente crianças, jovens e adultos, mães, pais e filhos.
Para muitos órfãos e órfãs, nossos contemporâneos - talvez para nós mesmos -, comunidades como a paróquia e a escola deveriam oferecer percursos de amor gratuito e promoção, de afirmação e crescimento.
Hoje, muitos jovens sentem-se filhos do fracasso, porque os sonhos de seus pais e avós acabaram queimados na fogueira da injustiça, da violência social, do «salve-se quem puder». Quanto desenraizamento!
Se os jovens cresceram num mundo de cinzas, não é fácil para eles sustentar o fogo de grandes ilusões e projectos.
Se cresceram num deserto vazio de sentido, como poderão ter vontade de se sacrificar para semear?
A experiência de descontinuidade, desenraizamento e queda das certezas basilares, favorecida pela cultura mediática actual, provoca esta sensação de profunda orfandade à qual devemos responder, criando espaços fraternos e atraentes onde haja um sentido para viver.

217. Criar «lar» é, em última análise, «criar família; é aprender a sentir-se unido aos outros, sem olhar a vínculos utilitaristas ou funcionais, unidos de modo a sentir a vida um pouco mais humana.
Criar lares, “casas de comunhão”, é permitir que a profecia encarne e torne as nossas horas e dias menos rudes, menos indiferentes e anónimos. É criar laços que se constroem com gestos simples, diários e que todos podemos realizar.
Como todos sabemos muito bem, um lar precisa da colaboração de todos.
Ninguém pode ficar indiferente ou alheado, porque cada qual é uma pedra necessária na sua construção.
Isto implica pedir ao Senhor que nos conceda a graça de aprender a ter paciência, aprender a perdoar-nos; aprender cada dia a recomeçar.
E quantas vezes temos de perdoar e recomeçar?
Setenta vezes sete, todas as vezes que for necessário.
Criar laços fortes requer a confiança, que se alimenta diariamente de paciência e perdão.
Deste modo se concretiza o milagre de experimentar que, aqui, se nasce de novo; aqui todos nascemos de novo, porque sentimos a eficácia da carícia de Deus que nos permite sonhar o mundo mais humano e, consequentemente, mais divino»[1].

218. Neste contexto, é preciso oferecer lugares apropriados aos jovens, nas nossas instituições: lugares que eles possam gerir a seu gosto, com a possibilidade de entrar e sair livremente, lugares que os acolham e onde lhes seja possível encontrar-se, espontânea e confiadamente, com outros jovens tanto nos momentos de sofrimento ou de chatice como quando desejam festejar as suas alegrias.
Algo do género foi realizado por alguns oratórios e outros centros juvenis, que em muitos casos são o ambiente onde os jovens vivem experiências de amizade e namoro, onde se encontram e podem compartilhar música, actividades recreativas, desporto e também a reflexão e a oração com pequenos subsídios e várias propostas.
Assim abre caminho aquele indispensável anúncio de pessoa a pessoa, que não pode ser substituído por nenhum recurso ou estratégia pastoral.

219. «A amizade e o intercâmbio, frequentemente mesmo em grupos mais ou menos estruturados, possibilitam reforçar competências sociais e relacionais num contexto onde não se sentem avaliados nem julgados.
A experiência de grupo constitui também um grande recurso para a partilha da fé e a ajuda mútua no testemunho.
Os jovens são capazes de guiar outros jovens, vivendo um verdadeiro apostolado no meio dos seus próprios amigos»[2].

220. Isso não significa que se isolem e percam todo o contacto com as comunidades paroquiais, os movimentos e outras instituições eclesiais.
Mas os jovens inserir-se-ão melhor em comunidades abertas, vivas na fé, desejosas de irradiar Jesus Cristo, alegres, livres, fraternas e comprometidas.
Tais comunidades podem ser os canais que os levam a sentir que é possível cultivar relações preciosas.

A pastoral das instituições educacionais

221. A escola é, sem dúvida, uma plataforma para nos aproximarmos das crianças e dos jovens.
Trata-se de um lugar privilegiado de promoção da pessoa; e, por isso, a comunidade cristã sempre lhe dedicou grande atenção, quer formando professores e directores, quer instituindo escolas próprias, de todo o género e grau.
Neste campo, o Espírito tem suscitado inúmeros carismas e testemunhos de santidade.
Contudo a escola precisa duma urgente autocrítica; basta olhar os resultados da pastoral de muitas instituições educacionais: uma pastoral concentrada na instrução religiosa que, frequentemente, se mostra incapaz de suscitar experiências de fé duradouras.
Além disso, existem algumas escolas católicas que parecem organizadas apenas para conservar a situação presente.
A fobia da mudança torna-as incapazes de suportar a incerteza, impelindo-as a retrair-se perante os perigos, reais ou imaginários, que toda a mudança acarreta consigo.
A escola transformada num «bunker», que protege dos erros «de fora»: tal é a caricatura desta tendência.
Esta imagem reflecte de maneira chocante aquilo que experimentam inúmeros jovens na hora da sua saída de alguns estabelecimentos de ensino: um desfasamento insanável entre o que lhes ensinaram e o mundo onde lhes cabe viver.
As próprias propostas religiosas e morais recebidas não os prepararam para confrontá-las com um mundo que as ridiculariza, e não aprenderam formas de rezar e viver a fé que se possam facilmente sustentar no meio do ritmo desta sociedade.
Na realidade, uma das maiores alegrias de um educador é ver um aluno constituir-se como uma pessoa forte, integrada, protagonista e capaz de se doar.

222. A escola católica continua a ser essencial como espaço de evangelização dos jovens.
É importante ter presente alguns critérios inspiradores, indicados na Constituição Apostólica Veritatis gaudium em ordem a uma renovação e relançamento das escolas e universidades «em saída» missionária, tais como a experiência do querigma, o diálogo a todos os níveis, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade, a promoção da cultura do encontro, a necessidade urgente de «criar rede» e a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e abandona[3]; e também a capacidade de integrar os saberes da cabeça, do coração e das mãos.

223. Além disso, não podemos separar a formação espiritual da formação cultural.
A Igreja sempre quis desenvolver, em prol dos jovens, espaços para a melhor cultura; e não deve desistir de o fazer, porque os jovens têm direito a ela.
E, «sobretudo hoje, direito à cultura significa tutelar a sabedoria, ou seja, um saber humano e humanizador.
Demasiadas vezes vivemos condicionados por modelos de vida banais e efémeros, que estimulam a perseguir o sucesso a baixo preço, desacreditando o sacrifício, inculcando a ideia de que o estudo não serve, se não leva imediatamente a algo de concreto. Mas não! O estudo serve para se questionar, para não se deixar anestesiar pela banalidade, para procurar um sentido na vida.
Deve ser reclamado o direito a não fazer prevalecer as muitas sereias que hoje afastam desta busca.
Ulisses, para não ceder ao canto das sereias, que encantavam os marinheiros e os faziam espatifar-se contra os rochedos, amarrou-se ao mastro da nau e fechou os ouvidos dos companheiros de viagem.
Ao contrário, Orfeu, para contrastar o canto das sereias, fez algo diferente: entoou uma melodia mais bonita, que encantou as sereias.
Eis a vossa tarefa: responder aos estribilhos paralisantes do consumismo cultural com escolhas dinâmicas e fortes, com a investigação, o conhecimento e a partilha»[4].

Franciscus

Revisão da versão portuguesa por AMA


Notas



[1] Francisco, Discurso na visita à Casa-família «O Bom Samaritano»(Panamá, 27 de Janeiro de 2019): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 05/II/2019), 11-12.
[2] DF36.
[3] Cf. Francisco, Const. ap. Veritatis gaudium (8 de dezembro de 2017), 4: AAS 110 (2018), 7-8.
[4] Francisco, Discurso no encontro com os estudantes e o mundo académico (Bolonha 1 de Outubro de 2017): AAS 109 (2017), 1115.

Evangelho e comentário


TEMPO COMUM



Evangelho: Lc 10 38-42

38 Continuando o seu caminho, Jesus entrou numa aldeia. E uma mulher, de nome Marta, recebeu-o em sua casa. 39 Tinha ela uma irmã, chamada Maria, a qual, sentada aos pés do Senhor, escutava a sua palavra. 40 Marta, porém, andava atarefada com muitos serviços; e, aproximando-se, disse: «Senhor, não te preocupa que a minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe, pois, que me venha ajudar.» 41 O Senhor respondeu-lhe: «Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; 42 mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.»

Comentário:

Poder-se-ia dizer que estas duas irmãs são como que o paradigma da sociedade.

Ambas activas e interessadas com modos diferentes de actuar.

Uma preocupa-com os factos da vida corrente empenhando-se para que nada falte sendo útil, serviçal e solidária.

A outra está mais interessada em escutar, saber a verdade das coisas e a razão de ser da vida.
O que aprender ser-lhe-á muito útil para transmitir a outros sendo guia e exemplo.


(AMA, comentário sobre Lc 10, 38-42, 19.10.2018)




Temas para reflectir e meditar

Sobre o Exame pessoal

4 É muito possível que o exame pessoal nos arraste a um desejo de controlo absoluto e constante sobre as nossas acções, desejos e querer.
Se assim for não há mal nenhum desde que, evidentemente, esse desejo não nos conduza a um imobilismo ou a uma situação em que os escrúpulos nos levem à indecisão.
Como para tudo, também o exame pessoal tem de ser equilibrado com critério e bom-senso.

26.05.2018

Pequena agenda do cristão

DOMINGO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me:
Cultivar a Fé

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?

Depois da morte vos receberá o Amor


Agora compreendes quanto fizeste sofrer Jesus, e enches-te de dor: como lhe pedes perdão, deveras e choras pelas tuas traições passadas! Não te cabem no peito as ânsias de reparar! Bem. Mas não esqueças que o espírito de penitência está principalmente em cumprir, custe o que custar, o dever de cada instante. (Via Sacra, 9ª Estação, n. 5)


Como será maravilhoso quando o nosso Pai nos disser: servo bom e fiel, porque foste fiel nas coisas pequenas, eu te confiarei as grandes: entra no gozo do teu Senhor!. Esperançados! Esse é o prodígio da alma contemplativa. Vivemos de Fé, de Esperança e de Amor; e a Esperança torna-nos poderosos. Recordais-vos de S. João? Eu vos escrevo, jovens, porque sois valentes e a palavra de Deus permanece em vós e vencestes o maligno. Deus urge-nos, para a juventude eterna da Igreja e de toda a humanidade. Podeis transformar em divino todo o humano, como o rei Midas convertia em ouro tudo o que tocava!

Nunca esqueçais que depois da morte vos receberá o Amor. E no amor de Deus encontrareis, além do mais, todos os amores limpos que tenhais tido na terra. O Senhor dispôs que passemos esta breve jornada da nossa existência, trabalhando e, como o seu Unigénito, fazendo o bem. Entretanto, temos de estar alerta, à escuta daquelas chamadas que Santo Inácio de Antioquia notava na sua alma, ao aproximar-se a hora do martírio: vem para junto do Pai, vem para o teu Pai que te espera ansioso (Amigos de Deus, n. 221)

20/07/2019

Temas para reflectir e meditar

Sobre o Exame pessoal

3 Não tenho outro remédio, tenho de fazer exame!
Penso que fazer exame é um acto sério que define a consciência e o carácter da pessoa.
Não o fazer equivale a considerar-se ou perfeito - e a perfeição não se examina - ou estar completamente desinteressado da vida que se leva, do impacto ou influência que os nossos actos podem ter nos outros, indiferença pelas escolhas dos caminhos ou decisões que se tomam, enfim, viver como um irracional que, como se sabe, não pensa.

Mas, fazer exame não significa um escalpelizar da personalidade à procura de erros, defeitos, vícios, mau procedimento. É, também, verificar o que está bem e que pode eventualmente melhorar e, este aspecto do exame é, seguramente, tão importante como o outro.

26.05.2018

Leitura espiritual


"Christus vivit": Exortação Apostólica aos Jovens


Capítulo VI

JOVENS COM RAÍZES

Arriscar juntos

198. O amor que se dá e age, muitas vezes erra.
Aquele que actua, aquele que arrisca, frequentemente comete erros.
A propósito, pode revelar-se interessante o testemunho de Maria Gabriela Perin, que, recém-nascida, ficou órfã de pai e reflecte como isso influiu na sua vida, numa relação que não durou, mas fez dela mãe e agora avó: «O que sei é que Deus cria histórias.
Na sua genialidade e misericórdia, Ele pega nos nossos triunfos e fracassos e tece lindas tapeçarias que estão cheias de ironia.
O reverso do tecido pode parecer confuso com os seus fios emaranhados - os acontecimentos da nossa vida - e talvez seja este lado que não nos deixa em paz quando temos dúvidas.
Todavia o lado bom da tapeçaria mostra uma história magnífica, e este é o lado que Deus vê»


[1].

Quando as pessoas mais velhas olham com atenção a vida, com frequência compreendem instintivamente o que está por trás dos fios emaranhados e reconhecem o que Deus faz criativamente até mesmo com os nossos erros.

199. Se caminharmos juntos, jovens e idosos, poderemos estar bem enraizados no presente e, daqui, visitar o passado e o futuro: visitar o passado, para aprender da história e curar as feridas que às vezes nos condicionam; visitar o futuro, para alimentar o entusiasmo, fazer germinar os sonhos, suscitar profecias, fazer florescer as esperanças.
Assim unidos, poderemos aprender uns com os outros, acalentar os corações, inspirar as nossas mentes com a luz do Evangelho e dar nova força às nossas mãos.

200. As raízes não são âncoras que nos prendem a outros tempos, impedindo de nos encarnarmos no mundo actual para fazer nascer uma realidade nova.
Pelo contrário, são um ponto de aprofundamento que nos permite crescer e responder aos novos desafios.
Sendo assim, não aproveita «sentarmo-nos a recordar com saudade os tempos passados; devemos tomar a peito, com realismo e amor, a nossa cultura e enchê-la de Evangelho.
Somos enviados hoje a anunciar a Boa Nova de Jesus aos tempos novos.
Temos de amar o nosso tempo com as suas possibilidades e riscos, com as suas alegrias e sofrimentos, com as suas riquezas e limites, com os seus sucessos e erros»[2].

201. No Sínodo, um dos jovens auditores, vindo das Ilhas Samoa, disse que a Igreja é uma canoa, na qual os idosos ajudam a manter a rota, interpretando a posição das estrelas, e os jovens remam com força imaginando o que os espera mais além.
Não nos deixemos extraviar nem pelos jovens que pensam que os adultos são um passado que já não conta, que já está superado, nem pelos adultos que julgam saber sempre como se deveriam comportar os jovens.
O melhor é subirmos todos para a mesma canoa e, juntos, procurarmos um mundo melhor, sob o impulso sempre novo do Espírito Santo.

Capítulo VII

A PASTORAL DOS JOVENS

202. A pastoral juvenil, tal como estávamos habituados a realizá-la, foi significativamente assaltada pelas mudanças sociais e culturais. Nas estruturas habituais, muitas vezes os jovens não encontram resposta para as suas inquietudes, necessidades, problemas e feridas.
A proliferação e o crescimento de associações e movimentos com características predominantemente juvenis podem ser interpretados como uma acção do Espírito que abre novos caminhos.
Mas é necessário um aprofundamento da sua participação na pastoral de conjunto da Igreja, bem como uma maior comunhão entre eles e uma melhor coordenação da actividade.
Embora nem sempre seja fácil abordar os jovens, estamos crescendo em dois aspectos: a consciência de que é toda a comunidade que os evangeliza e a urgência de que os jovens sejam mais protagonistas nas propostas pastorais.

Uma pastoral sinodal

203. Quero destacar que os próprios jovens são agentes da pastoral juvenil, acompanhados e orientados, mas livres para encontrar caminhos sempre novos, com criatividade e ousadia.
Por conseguinte, seria supérfluo deter-me aqui a propor uma espécie de manual de pastoral juvenil ou um guia prática de pastoral.
Trata-se, antes, de colocar em campo a sagacidade, o engenho e o conhecimento que os próprios jovens têm da sensibilidade, linguagem e problemáticas dos outros jovens.

204. Fazem-nos ver a necessidade de assumir novos estilos e estratégias.
Por exemplo, enquanto os adultos procuram ter tudo programado, com reuniões periódicas e horários fixos, hoje a maioria dos jovens sente-se pouco atraída por estes esquemas pastorais.
A pastoral juvenil precisa adquirir outra flexibilidade, convidando os jovens para acontecimentos que, de vez em quando, lhes proporcionem um espaço onde não só recebam uma formação, mas lhes permitam também compartilhar a vida, festejar, cantar, escutar testemunhos concretos e experimentar o encontro comunitário com o Deus vivo.

205. Neste sentido, seria altamente desejável recolher ainda mais as boas práticas: metodologias, linguagens, motivações que se revelaram realmente atraentes para aproximar os jovens de Cristo e da Igreja.
Não importa a cor delas: se são «conservadoras ou progressistas», se são «de direita ou de esquerda».
O importante é recolher tudo aquilo que deu bons resultados e seja eficaz para comunicar a alegria do Evangelho.

206. A pastoral juvenil só pode ser sinodal, ou seja, capaz de dar forma a um «caminhar juntos» que implica «a valorização - através dum dinamismo de corresponsabilidade - dos carismas que o Espírito dá a cada um dos membros [da Igreja], de acordo com a respectiva vocação e missão. (…)
Animados por este espírito, poderemos avançar para uma Igreja participativa e corresponsável, capaz de valorizar a riqueza da variedade que a compõe, acolhendo com gratidão também a contribuição dos fiéis leigos, incluindo jovens e mulheres, a da vida consagrada feminina e masculina e a de grupos, associações e movimentos.
Ninguém deve ser colocado nem deixado colocar-se de lado»[3].

207. Desta forma, aprendendo uns com os outros, podemos reflectir melhor aquele maravilhoso poliedro que deve ser a Igreja de Jesus Cristo.
Esta pode atrair os jovens, precisamente porque não é uma unidade monolítica, mas uma trama de variados dons que o Espírito derrama incessantemente nela, fazendo-a sempre nova apesar das suas misérias.

208. No Sínodo, surgiram muitas propostas concretas para renovar a pastoral juvenil e libertá-la de esquemas que já não são eficazes, porque não entram em diálogo com a cultura actual dos jovens.
Como se compreende, não poderia reuni-las todas aqui; entretanto é possível encontrar algumas delas no Documento Final do Sínodo.

Grandes linhas de acção

209. Queria apenas destacar, brevemente, que a pastoral juvenil supõe duas grandes linhas de acção.
Uma é a busca, a convocação, a chamada que atraia novos jovens para a experiência do Senhor.
A outra é o crescimento, o desenvolvimento dum percurso de amadurecimento para os que já fizeram essa experiência.

210. Em relação à primeira, a busca, confio na capacidade dos próprios jovens, que sabem encontrar os caminhos atraentes para convidar.
Sabem organizar festivais, competições desportivas, e sabem também evangelizar nas redes sociais com mensagens, canções, vídeos e outras intervenções.
Devemos apenas estimular os jovens e dar-lhes liberdade de acção, para que se entusiasmem com a missão nos ambientes juvenis.
O primeiro anúncio pode despertar uma profunda experiência de fé no meio dum retiro de conversão, numa conversa no bar, num recreio da Faculdade, ou qualquer outro dos insondáveis caminhos de Deus.
O mais importante, porém, é que cada jovem ouse semear o primeiro anúncio na terra fértil que é o coração de outro jovem.

211. Nesta busca, deve-se privilegiar a linguagem da proximidade, a linguagem do amor desinteressado, relacional e existencial que toca o coração, atinge a vida, desperta esperança e anseios.
É necessário aproximar-se dos jovens com a gramática do amor, não com o proselitismo.
A linguagem que os jovens entendem é a dos que dão a vida, a daqueles que estão ali por eles e para eles, e a de quem, apesar das suas limitações e fraquezas, se esforça por viver coerentemente a sua fé.
Ao mesmo tempo, devemos procurar, ainda com maior sensibilidade, como encarnar o querigma na linguagem dos jovens de hoje.

212. Quanto ao crescimento, quero fazer uma advertência importante.
Acontece em alguns lugares que, depois de ter provocado nos jovens uma experiência intensa de Deus, um encontro com Jesus que tocou o seu coração, propõe-lhes encontros de «formação» onde se abordam apenas questões doutrinais e morais: sobre os males do mundo actual, sobre a Igreja, a doutrina social, sobre a castidade, o matrimónio, o controlo da natalidade e sobre outros temas. Resultado: muitos jovens aborrecem-se, perdem o fogo do encontro com Cristo e a alegria de O seguir, muitos abandonam o caminho e outros ficam tristes e negativos.
Acalmemos a ânsia de transmitir uma grande quantidade de conteúdos doutrinais e procuremos, antes de mais nada, suscitar e enraizar as grandes experiências que sustentam a vida cristã. Como dizia Romano Guardini, «na experiência dum grande amor (…), tudo o que acontece se transforma num episódio interno àquela»[4].

213. Qualquer projecto formativo, qualquer percurso de crescimento para os jovens deve, certamente, incluir uma formação doutrinal e moral.
De igual modo é importante que aqueles estejam centrados em dois eixos principais: um é o aprofundamento do querigma, a experiência do encontro com Deus através de Cristo morto e ressuscitado; o outro é o crescimento no amor fraterno, na vida comunitária, no serviço.

214. Sobre isto, insisti muito na Exortação Evangelii gaudium e acho que seria oportuno lembrá-lo.
Por um lado, seria um erro grave pensar que, na pastoral juvenil, «o querigma é deixado de lado em favor de uma formação supostamente mais “sólida”.
Nada há de mais sólido, mais profundo, mais seguro, mais consistente e mais sábio que esse anúncio.
Toda a formação cristã é, primariamente, o aprofundamento do querigma que se vai, cada vez mais e melhor, fazendo carne»[5].
Por isso, a pastoral juvenil deveria incluir sempre momentos que ajudem a renovar e aprofundar a experiência pessoal do amor de Deus e de Jesus Cristo vivo.
Fá-lo-á valendo-se de vários recursos: testemunhos, cânticos, momentos de adoração, espaços de reflexão espiritual com a Sagrada Escritura e, inclusivamente, com vários estímulos através das redes sociais.
Mas nunca se deve substituir esta experiência feliz de encontro com o Senhor por uma espécie de «doutrinação».

215. Além disso, qualquer plano de pastoral juvenil deve conter claramente meios e recursos variados para ajudarem os jovens a crescer na fraternidade, viver como irmãos, auxiliar-se mutuamente, criar comunidade, servir os outros, aproximar-se dos pobres.
Se o amor fraterno é o «novo mandamento» (Jo 13, 34), «o pleno cumprimento da lei» (Rm 13, 10) e o que melhor demonstra o nosso amor a Deus, então deve ocupar um lugar relevante em todo o plano de formação e crescimento dos jovens.

Franciscus

Revisão da versão portuguesa por AMA

Notas



[1] Cf. Antonio Spadaro (ed.), A Sabedoria do Tempo. Em diálogo com o Papa Francisco sobre as grandes questões da vida (Veneza 2018).162-163.
[2] Eduardo Pironio, Mensagem aos jovens argentinos, no Encontro Nacional de Jovens em Córdova (12-15 de Setembro de 1985), 2.
[3] DF 123.
[4] A essência do cristianismo (Bréscia 1984), 12.
[5] N. 165: AAS 105 (2013), 1089.

Evangelho e comentário


TEMPO COMUM



Evangelho: Mt 12 14-21

14 Os fariseus, saindo dali, tiveram conselho contra Ele sobre o modo de O levarem á morte. 15 Jesus, sabendo isto, retirou-se daquele lugar. 16Muitos seguiram-no, e curou-os a todos. 17 Ordenou-lhes que não O descobrissem, para que se cumprisse o que tinha sido anunciado pelo profeta Isaías: 18 «Eis o Meu servo, que Eu escolhi, o Meu amado, em quem a Minha alma pôs as suas complacências. Farei repousar sobre Ele o Meu Espírito, e Ele anunciará a justiça às nações. 19 Não discutirá nem clamará, nem ouvirá alguém a Sua voz nas praças; 20 Não quebrará a cana rachada, nem apagará a torcida que fumega, até que faça triunfar a justiça; 21 e as nações esperarão no Seu nome». 22 Então trouxeram-lhe um endemoninhado cego e mudo, e Ele curou-o, de modo que falava e via.

Comentário:

São Mateus cita com alguma extensão, o Profeta Jeremias:

18 «Eis o Meu servo, que Eu escolhi, o Meu amado, em quem a Minha alma pôs as suas complacências. Farei repousar sobre Ele o Meu Espírito, e Ele anunciará a justiça às nações. 19 Não discutirá nem clamará, nem ouvirá alguém a Sua voz nas praças; 20 Não quebrará a cana rachada, nem apagará a torcida que fumega, até que faça triunfar a justiça; 21 e as nações esperarão no Seu nome»

Parece clara a sua intenção de, mais uma vez, esclarecer o povo sobre a Figura, a Pessoa de Jesus Cristo e a missão que O trouxe até nós.

O próprio Jesus tinha afirmado mais que uma vez que não vinha abolir a Lei mas completá-la e dar-lhe o verdadeiro sentido divino retirando quanto tinha sido acrescentado ao longo dos tempos pelos Escribas e Doutores da Lei.

Mais: afirma que nunca, absolutamente, as Suas palavras deixarão de se cumprir e que nem um simples acento seria retira do da Lei Divina.

(AMA, comentário sobre Mt 12, 14-21 21.07.2018)




Pequena agenda do cristão

SÁBADO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:

Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





Doutrina


Doutrina – 493
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA
Compêndio



SEGUNDA SECÇÃO

OS SETE SACRAMENTOS DA IGREJA


CAPÍTULO PRIMEIRO

OS SACRAMENTOS DA INICIAÇÃO CRISTÃ

O SACRAMENTO DA EUCARISTIA


276. Qual o lugar da Eucaristia no desígnio da salvação?



Na Antiga Aliança, a Eucaristia é preanunciada sobretudo na ceia pascal anual, celebrada cada ano pelos judeus com os pães ázimos, para recordar a imprevista e libertadora partida do Egipto. Jesus anuncia-a no seu ensino e institui-a, celebrando com os seus Apóstolos a última Ceia, durante um banquete pascal.
A Igreja, fiel ao mandamento do Senhor: «Fazei isto em memória de mim» (1 Cor 11, 24), sempre celebrou a Eucaristia, sobretudo ao Domingo, dia da ressurreição de Jesus.