23/08/2014

Que sejais muito crianças!

Aconselho-te que tentes voltar de vez em quando... ao começo da tua "primeira conversão", o que, se não é fazer-se como criança, é coisa muito parecida: na vida espiritual é preciso deixar-se levar com inteira confiança, sem medos nem duplicidades; tem de se falar com absoluta clareza do que se tem na cabeça e na alma. (Sulco, 145)

Que sejais, espiritualmente, muito crianças! Quanto mais, melhor. Di-lo a experiência deste sacerdote que teve de se levantar muitas vezes, ao longo destes trinta e seis anos (que longos e ao mesmo tempo, que curtos me parecem!) em que tem procurado cumprir uma Vontade precisa de Deus. Houve uma coisa que sempre me ajudou: ser sempre criança e meter-me continuamente no regaço de minha Mãe e no Coração de Cristo, meu Senhor.


As grandes quedas, as que causam destroços sérios na alma, e às vezes com resultados quase irremediáveis, procedem sempre da soberba de nos crermos adultos, auto-suficientes. Nesses casos, torna-se predominante na pessoa uma espécie de incapacidade de pedir ajuda a quem a pode dar: não só a Deus, mas também ao amigo ou ao sacerdote. E aquela pobre alma, isolada na sua desgraça, afunda-se na desorientação e no descaminho. (Amigos de Deus, 147)

Um santo para os nossos dias



Temas para meditar 214


Vontade de Deus


É somente na oração, na intimidade do diálogo imediato e pessoal com Deus, que abre os corações e as inteligências (cf. Act. 16. o4), onde o homem de fé pode aprofundar na compreensão da vontade divina no que respeita à sua vida.

(S. teófilo de antioquia Livro I 27.)

Tratado da Graça 03

Art. 3 — Se o homem pode amar a Deus sobre todas as coisas, só pelas suas faculdades naturais, sem o auxílio da graça.

(I, q. 60, a. 5, IIª-IIªe, q.26, a. 3, II Sent., dist. XXXIX, a. 3, De Virtut., q. 2, a.  2, as 16, q. 4, a. 1, ad 9, Quodl. I, q. 4, a. 3).

O terceiro discute-se assim. — Parece que o homem não pode amar a Deus sobre todas as coisas, só pelas suas faculdades naturais, sem o auxílio da graça.

1. — Pois, amar a Deus sobre todas as coisas é no que consiste própria e principalmente o acto de caridade. Ora, o homem não pode ter a caridade por si mesmo, porque, como diz o Apóstolo (Rm 5, 5), a caridade de Deus está derramada em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado. Logo, só pelas suas faculdades naturais, o homem não pode amar a Deus sobre todas as coisas.

2. Demais. — Nenhuma natureza pode pretender o que lhe é superior. Ora, amar a Deus mais que a si mesmo é pretender o que é superior à natureza criada, logo, não pode amar a Deus mais que a si mesma, sem o auxílio da graça.

3. Demais. — A Deus, que é o sumo bem é devido o sumo amor, e este consiste em amá-lo sobre todas as coisas. Ora, não podemos amar a Deus com o sumo amor, que lhe devemos, sem a graça, de contrário, esta seria dada inutilmente. Logo, o homem não pode, sem a graça, e só com as suas faculdades naturais, amar a Deus sobre todas as coisas.

Mas, em contrário. — Como certos ensinam, o primeiro homem foi constituído só com as suas faculdades naturais, em cujo estado manifestamente amou de algum modo a Deus. Ora, não O amou tanto quanto a si, ou menos que a si, porque então pecaria. Logo, amou-O mais que a si. Donde, só pelas suas faculdades naturais o homem pode amar a Deus mais que a si e sobre todas as coisas.

Como já dissemos na Primeira Parte (q. 60, a. 5), onde também expusemos as diversas opiniões sobre o amor natural dos anjos, o homem, no estado da natureza íntegra, podia obrar, em virtude da sua natureza, o bem que lhe é conatural, sem o acréscimo do dom da graça, embora, não sem o auxilio da moção divina. Ora, amar a Deus sobre todas as coisas é conatural ao homem e mesmo a qualquer criatura, não só racional, mas também irracional e mesmo inanimada, conforme o modo do amor que convém a cada uma delas. E a razão está em ser natural a todos os seres desejarem e amarem o que lhes corresponda a natureza, pois, todo ser age conforme a sua capacidade natural, segundo Aristóteles. Ora, é manifesto que o bem da parte é para o bem do todo. Donde, por desejo ou amor natural, cada ser ama o seu bem próprio, por causa do bem comum de todo o universo, que é Deus. Por isso, Dionísio diz, que Deus atrai todas as coisas ao seu amor. Donde, o homem, no estado da natureza íntegra, referia não só o amor de si mesmo ao amor de Deus, como fim, mas também o de tudo o mais. E assim, amava a Deus mais que a si mesmo e sobre todas as coisas. Mas no estado da natureza corrupta, já não procede do mesmo modo por causa do apetite da vontade racional, que, por causa da corrupção da natureza procura o seu bem particular, salvo sendo restaurada pela graça de Deus. E portanto, devemos dizer, que o homem, no estado de natureza íntegra, não precisa do dom da graça, acrescentada aos seus dotes naturais, para amar a Deus naturalmente sobre todas as coisas, embora, precisasse do auxílio de Deus, para mover-se para esse fim. Mas no estado da natureza corrupta, precisa, mesmo para isso, do auxílio da graça, que restaura a natureza.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — A caridade ama a Deus sobre todas as coisas de modo mais eminente que a natureza. Pois, esta ama a Deus sobre todas as coisas enquanto princípio e fim do bem natural. A caridade porém, enquanto objecto da felicidade, e enquanto o homem tem uma certa sociedade espiritual com Deus. E também a caridade acrescenta ao amor natural de Deus uma certa presteza e prazer, assim como qualquer hábito virtuoso o acrescenta ao acto bom, feito só pela razão natural do homem, sem o hábito da virtude.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Quando se diz que nenhuma natureza pode nada do que lhe é superior, não se deve por aí entender que não possa buscar um objecto que lhe seja superior. Pois, é manifesto que o nosso intelecto, por conhecimento natural, pode conhecer algumas coisas que lhe são superiores, como o demonstra o conhecimento natural de Deus. Mas devemos entendê-lo no sentido de a natureza não poder praticar um acto que lhe exceda a capacidade das forças. Ora, tal não é o acto de amar a Deus sobre todas as coisas, natural a toda natureza criada, como já se disse.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Chama-se sumo o amor, não só quanto ao grau da dilecção, mas também quanto à razão e ao modo de amar. E sendo assim, o sumo grau do amor é o pelo qual a caridade ama a Deus como beatificante, conforme já dissemos.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evang.; Coment.; Leit. Esp. (Magistério - Ratzinguer)

Tempo comum XX Semana

Evangelho: Mt 23, 1-12

1 Então, Jesus falou às multidões e aos Seus discípulos, 2 dizendo: «Sobre a cadeira de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus. 3 Observai, pois, e fazei tudo o que eles vos disserem, mas não imiteis as suas acções, porque dizem e não fazem. 4 Atam cargas pesadas e impossíveis de levar, e as põem sobre os ombros dos outros homens, mas nem com um dedo as querem mover. 5 Fazem todas as suas obras para serem vistos pelos homens. Trazem mais largas as filactérias, e mais compridas as franjas dos seus mantos. 6 Gostam de ter os primeiros lugares nos banquetes, e as primeiras cadeiras nas sinagogas, 7 das saudações na praça, e de serem chamados rabi pelos homens. 8 Mas vós não vos façais chamar rabis, porque um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos. 9 A ninguém chameis pai sobre a terra, porque um só é o vosso Pai, O que está nos céus. 10 Nem façais que vos chamem mestres, porque um só é o vosso Mestre, Cristo. 11 Quem entre vós for o maior, seja vosso servo. 12 Aquele que se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado.

Comentário:

Se fosse necessário, este trecho do Evangelho seria mais uma prova da actualidade das palavras de Cristo.

Os homens não mudaram assim tanto como pode julgar-se desde o tempo em que as pronunciou até agora, ao dia de hoje!

E, na verdade, continua a verificar-se a humilhação dos que, sem qualquer razão válida se exaltam a si mesmos, como que perseguindo a qualquer preço um estatuto de fama e glória pessoais e o reconhecimento dos que não manifestam nem vaidade nem desejos de protagonismo nas atitudes que tomam ou nas obras que levam a cabo.

(ama, comentário sobre Mt 23, 1-12, 2014.03.18

Leitura espiritual



Magistério

cardeal joseph ratzinger

Algumas perguntas pessoais

NOVA EVANGELIZAÇÃO

…/15

OS CONTEÚDOS ESSENCIAIS DA NOVA EVANGELIZAÇÃO

Conversão

No que diz respeito aos conteúdos da nova evangelização, convém antes de tudo ter presente que o Antigo e o Novo Testamentos são inseparáveis. O conteúdo fundamental do Antigo Testamento está resumido na mensagem de São João Baptista: Convertei-vos.

Não se pode chegar a Jesus sem o Baptista; não é - possível chegar a Jesus sem corresponder ao chamado do Precursor; mais ainda, Jesus inseriu a mensagem de João na síntese da sua própria pregação: Convertei-vos e crede no Evangelho (Mc 1, 15). A palavra grega para "converter-se" significa mudar de mentalidade, pôr em confronto o modo comum de viver e o nosso próprio modo de viver, deixar Deus entrar nos critérios da nossa vida, já não julgar apenas segundo as opiniões correntes.

Por conseguinte, converter-se, significa, deixar de viver como todos vivem, deixar de agir como todos agem, deixar de sentir-se justificado em actos duvidosos, ambíguos, maus, pelo facto de todos fazerem o mesmo: começar a ver a própria vida com os olhos de Deus. Portanto, é começar a fazer o bem, mesmo que seja incómodo; é não depender do juízo da maioria, dos outros, mas do juízo de Deus. Em outras palavras, é buscar um novo estilo de vida, uma vida nova.

Isto não significa moralismo. Quem reduz o cristianismo à moralidade perde de vista a essência da mensagem de Cristo: o dom de uma nova amizade, o dom da comunhão com Jesus e, portanto, com Deus. Quem se converte a Cristo não quer ter autonomia moral, não pretende construir a sua bondade com as próprias forças.

"Conversão" (metanoia) significa precisamente o contrário: sair da auto-suficiência, descobrir e aceitar a própria indigência, a necessidade dos outros e a necessidade de Deus, do seu perdão, da sua amizade. A vida sem conversão é auto-justificação ("eu não sou pior do que os outros"); a conversão é a humildade de nos entregarmos ao amor do Outro, amor que se transforma em medida e critério da nossa própria vida.

Aqui também devemos ter presente o aspecto social da conversão. Certamente, a conversão é sobretudo um acto personalíssimo, é personalização. Eu renuncio a "viver como todos"; já não me sinto justificado pelo facto de todos fazerem o mesmo que eu, e encontro diante de Deus o meu próprio eu, a minha responsabilidade pessoal. Mas a verdadeira personalização é sempre também uma socialização nova e mais profunda. O eu abre-se de novo ao tu, em toda a sua profundidade, nascendo assim um novo nós. Se o modo de vida comum no mundo implica o risco da despersonalização, de viver não a minha vida mas a dos outros, na conversão deve surgir um novo nós no caminhar comum com Deus.

Junto com o anúncio da conversão, devemos oferecer também uma comunidade de vida, um espaço comum para o novo estilo de vida. Não se pode evangelizar apenas com palavras. O Evangelho cria vida, cria comunidade de caminho. Uma conversão puramente individual não tem consistência.

O reino de Deus

Está implícito na chamada à conversão, como sua condição fundamental, o anúncio do Deus vivo. O teocentrismo é fundamental na mensagem de Jesus e deve ser também o núcleo da nova evangelização. A palavra-chave do anúncio de Jesus é: reino de Deus.

Mas reino de Deus não é uma coisa, uma estrutura social ou política, uma utopia. O reino de Deus é Deus.

Reino de Deus quer dizer: Deus existe. Deus vive. Deus está presente e actua no mundo, na nossa vida, na minha vida. Deus não é uma longínqua "causa última". Deus não é o "grande arquitecto" do deísmo, que montou a máquina do mundo e depois a abandonou.

Pelo contrário. Deus é a realidade mais presente e decisiva em cada acto da minha vida, em cada momento da História.

Na conferência de despedida da sua cátedra na Universidade de Munster, o teólogo Johann Baptist Metz disse coisas que ninguém imaginaria ouvir dos seus lábios. Antes, ensinara o antropocentrismo: o verdadeiro feito do cristianismo teria sido o "giro antropológico", a secularização, a descoberta da secularidade do mundo. Depois passara a ensinar teologia política, a índole política da fé; a "memória perigosa"; e, finalmente, a teologia narrativa. Mas após percorrer esse caminho árduo e difícil, ele nos diz: o verdadeiro problema do nosso tempo é "a crise de Deus", a ausência de Deus, disfarçada de religiosidade vazia. A teologia deve voltar a ser realmente teologia, falar de Deus e com Deus.

Metz tem razão. O "único necessário" (unum necessarium) para o homem é Deus. Tudo muda dependendo da existência ou não de Deus. Por desgraça, também nós, cristãos, muitas vezes vivemos como se Deus não existisse (51 Deus non dare-tur). Vivemos segundo o slogan: Deus não existe e, se existe, não conta para nada. Por isso, a evangelização deve falar de Deus antes de qualquer coisa, anunciar o único Deus verdadeiro: o Criador, o Santificador, o Juiz (cfr. Catecismo da Igreja Católica).

Também aqui é preciso ter presente o aspecto prático. Não se pode dar a conhecer Deus unicamente com palavras. Não se conhece uma pessoa quando as únicas referências que se têm a seu respeito são de segunda mão. Anunciar Deus é introduzir na relação com Deus: ensinar a orar. A oração é fé em acto. E é apenas através dessa experiência vivida que encontramos, de maneira evidente, as garantias de que Deus existe. Por isso são tão importantes as escolas de oração, as comunidades de oração. A oração pessoal (no teu quarto, a sós na presença de Deus), a oração comum "para-litúrgica" ("religiosidade popular") e a oração litúrgica são complementares entre si. Sim, a liturgia é principalmente oração: o seu elemento específico consiste em que o seu sujeito primário não somos nós (como na oração privada e na religiosidade popular), mas o próprio Deus. A liturgia é actio divina. Deus age e nós correspondemos à ação divina.

Falar de Deus e falar com Deus devem estar sempre juntos. O anúncio de Deus leva à comunhão com Deus na comunhão fraterna, fundada e vivificada por Cristo. Por isso a liturgia (os sacramentos) não é um tema anexado ao da pregação do Deus vivo, mas a concretização da nossa relação com Deus.

Neste sentido, gostaria de fazer uma observação geral sobre a questão litúrgica. Com frequência, o nosso modo de celebrar a liturgia é racionalista demais. A liturgia converte-se num ensinamento submetido ao critério da compreensibilidade. Isso muitas vezes tem como consequência a banalização do mistério, o predomínio das nossas palavras, a repetição de uma série de palavras que parecem mais inteligíveis e mais gratas às pessoas. Acontece que isso não é apenas um erro teológico, mas também psicológico e pastoral. A onda de esoterismo, a difusão das técnicas asiáticas de relaxamento e de auto-esvaziamento mostram que falta algo nas nossas liturgias.

Precisamos especialmente do silêncio, do mistério supra--individual e da beleza no mundo actual. A liturgia não é uma invenção do sacerdote celebrante ou de um grupo de especialistas. A liturgia - o rito - desenvolveu-se num processo orgânico ao longo dos séculos; encerra o fruto da experiência de fé de todas as gerações. Embora os participantes talvez não compreendam todas as suas fórmulas, percebem o seu significado profundo, a presença do mistério, que transcende todas as palavras. O celebrante não é o centro da acção litúrgica; não está diante do povo em seu próprio nome, não fala de si e por si, mas in persona Christi. O que importa não são as qualidades pessoais do celebrante, mas apenas a sua fé, que deve refletir Cristo. Convém que ele cresça e eu diminua (Jo 3, 30).

Jesus Cristo

Com essa reflexão, o tema de Deus já se ampliou e concretizou no tema de Jesus Cristo.

Apenas em Cristo e por Cristo o tema de Deus se faz realmente concreto: Cristo é o Emmanuel, o Deus connosco, a concretização do Eu sou, a resposta ao deísmo. Hoje é muito forte a tentação de reduzir Jesus Cristo, o Filho de Deus, unicamente a um Jesus histórico, a um mero homem. Não é que se negue a sua divindade, mas usam-se certos métodos para destilar da Bíblia um Jesus à nossa medida, um Jesus possível e compreensível segundo os parâmetros da nossa historiografia. Mas esse "Jesus histórico" é uma invenção, a imagem dos seus autores, e não a imagem de Deus vivo (cfr. 2 Cor 4, 4 e segs.; Col 1, 15). O Cristo da fé não é um mito; o assim chamado "Jesus histórico" é que é uma figura mitológica, inventada por diversos intérpretes. Os duzentos anos de história do "Jesus histórico" refletem fielmente a história das filosofias e ideologias desse período.

Seria impossível tratar nesta conferência de todos os conteúdos do anúncio do Salvador.

Gostaria de mencionar apenas dois aspectos importantes. O primeiro é o seguimento de Cristo. Cristo apresenta-se como caminho da minha vida.

O seguimento de Cristo não significa imitar o homem Jesus. Essa tentativa fracassaria necessariamente; seria um anacronismo. O seguimento de Cristo tem uma meta muito mais elevada: identificar-se com Cristo, isto é, chegar à união com Deus. Esta palavra talvez choque os ouvidos do homem moderno. Mas, na realidade, todos temos sede de infinito, de uma liberdade infinita, de uma felicidade ilimitada. Só assim se explica toda a história das Revoluções dos últimos dois séculos. Só assim se explica a droga. O homem não se contenta com soluções que não cheguem à divinização. Mas todos os caminhos oferecidos pela "serpente" (cfr. Gên 3, 5), isto é, a sabedoria mundana, fracassam. O único caminho é a identificação com Cristo, realizável na vida sacramental. Seguir Cristo não é um assunto de moralidade, mas um tema "mistérico", um conjunto em que intervêm a acção divina e a nossa resposta.

Neste tema do seguimento de Cristo, encontra-se o outro centro da cristologia, ao qual gostaria de aludir: o mistério pascal, a Cruz e a Ressurreição. Ordinariamente, o tema da Cruz carece de significado nas reconstruções do "Jesus histórico". Numa interpretação "burguesa", transforma-se num acidente de per si evitável, sem valor teológico; numa interpretação revolucionária, converte-se na morte heróica de um rebelde. Mas a verdade é muito diferente. A Cruz pertence ao mistério divino; é a expressão do seu amor até o extremo (cfr. Jo 13,1). O seguimento de Cristo é a participação na sua Cruz, a união com o seu amor, a transformação da nossa vida, que se converte no nascimento do homem novo, criado segundo Deus (cfr. Ef 4, 24). Quem omite a Cruz, omite a essência do cristianismo (cfr. 1 Cor 2, 2).

A vida eterna

Um último elemento central de toda a evangelização verdadeira é a vida eterna. Hoje, devemos anunciar a nossa fé com nova força na vida diária. Gostaria de aludir aqui a apenas um aspecto frequentemente esquecido na actual pregação de Cristo: o anúncio do reino de Deus é o anúncio de Deus presente, de Deus que nos conhece, que nos ouve; de Deus que entra na História para fazer justiça. Por isso, essa pregação é anúncio do Juízo, anúncio da nossa responsabilidade. O homem não pode fazer ou não fazer só o que lhe apetece. Será julgado. Tem de prestar contas. Essa certeza vale tanto para os poderosos como para os humildes. Quando é respeitada, traçam-se os limites de todo o poder deste mundo. Deus faz justiça e, em última análise, apenas Ele pode fazê-la.

Conseguiremos fazer justiça na medida em que formos capazes de viver na presença de Deus e de comunicar ao mundo a verdade do Juízo.

Assim o artigo de fé do Juízo, a sua força para formar as consciências, é um conteúdo central do Evangelho e é realmente uma boa nova. Uma boa nova para todos os que sofrem pela injustiça do mundo e pedem justiça. Assim, compreende-se também a conexão entre o reino de Deus e os pobres, os que sofrem e todos os que vivem as bem-aventuranças do Sermão da Montanha. Estão protegidos pela certeza do Juízo, pela certeza de que há justiça.

Este é o verdadeiro conteúdo do artigo do Credo sobre o Juízo, sobre Deus juiz: há justiça. As injustiças do mundo não são a última palavra da História. Há justiça. Só quem não deseja que haja justiça pode opor-se a essa verdade. Se levarmos a sério o Juízo e a grave responsabilidade que dele brota para nós, compreenderemos bem o outro aspecto desse anúncio que é a redenção, o feito de que Jesus na cruz assume os nossos pecados, de que o próprio Deus, na paixão do seu Filho, se torna um advogado para nós, pecadores, e assim torna possível a penitência, a esperança ao pecador arrependido, uma esperança expressa de modo admirável nas palavras de São João: Deus é maior que a nossa consciência e conhece tudo (1 Jo 3, 20). Diante de Deus, a nossa consciência ficará tranquila, independentemente das nossas manchas.

A bondade de Deus é infinita, mas não a devemos reduzir a uma complacência sem verdade. Apenas acreditando no justo juízo de Deus, apenas tendo fome e sede de justiça (cfr. Mt 5, 6), abrimos o nosso coração, a nossa vida, à misericórdia divina. Não é verdade que a fé na vida eterna tira a importância da vida terrena. Pelo contrário, é só quando a medida da nossa vida é a eternidade que esta nossa vida na terra se torna grande e de imenso valor. Deus não é um inimigo da nossa vida, mas a garantia da nossa grandeza.

Voltamos assim ao ponto de partida: Deus. Se considerarmos bem a mensagem cristã, veremos que ela não fala de um monte de coisas.

A mensagem cristã é na verdade muito simples: falamos de Deus e do homem, e assim dizemos tudo.

(Revisão da versão portuguesa por ama)


22/08/2014

O camionista de Deus



Jesus Cristo e a Igreja 28

Quem foi Maria Madalena?

Os dados que nos oferecem os evangelhos são escassos. Lc 8, 2 informa-nos que entre as mulheres que seguiam Jesus e o assistiam com os seus bens estava Maria Madalena, quer dizer, uma mulher chamada Maria, que era oriunda de Migdal Nunayah, em grego Tariquea, uma pequena povoação junto ao lago da Galileia, situada 5,5 km ao norte de Tiberíades. Dela Jesus tinha expulsado sete demónios
(Lc 8, 2; Mc 16, 9), que é o mesmo que dizer “todos os demónios”. A expressão pode entender-se como uma possessão diabólica, mas também como uma enfermidade do corpo ou do espírito.
Os evangelhos sinópticos mencionam-na como a primeira de um grupo de mulheres que contemplaram de longe a crucifixão de Jesus (Mc 15, 40-41 e par.) e que ficaram sentadas em frente do sepulcro (Mt 27, 61) enquanto sepultavam Jesus (Mc 15, 47). Referem que na madrugada do dia depois do sábado, Maria Madalena e outras mulheres voltaram ao sepulcro para ungir o corpo com os aromas que tinham comprado (Mc 16, 1-7 e par.). Nessa altura um anjo comunicou-lhes que Jesus tinha ressuscitado e encarregou-as de ir comunicá-lo aos discípulos (cf. Mc 16, 1-7 e par).

São João apresenta os mesmos dados com pequenas variantes. Maria Madalena está junto à Virgem Maria ao pé da cruz (Jo 19, 25). Depois do sábado, quando ainda era de noite, aproxima-se do sepulcro, vê a pedra removida e avisa Pedro pensando que alguém teria roubado o corpo de Jesus (Jo 20, 1-2).
De volta ao sepulcro, começa a chorar e encontra-se com Jesus ressuscitado, o qual a encarrega de anunciar aos discípulos o seu regresso ao Pai (Jo 20, 11-18). Essa é a sua glória. Por isso, a tradição da Igreja chamou-lhe no Oriente “isapóstolos” (igual a um apóstolo) e no Ocidente “ apostola apostolorum” (apostolina de apóstolos). No Oriente há uma tradição que diz que foi sepultada em Éfeso e que as suas relíquias foram levadas para Constantinopla no século IX.
Maria Madalena foi muitas vezes identificada com outras mulheres que aparecem nos evangelhos. A partir dos séculos VI e VII, na Igreja Latina tendeu-se a identificar Maria Madalena com a mulher pecadora que, (na Galileia), em casa de Simão, (o fariseu), ungiu os pés de Jesus com as suas lágrimas (Lc 7, 36-50).
Por outro lado, alguns Padres e escritores eclesiásticos, comparando os evangelhos, tinham já identificado esta mulher pecadora com Maria, irmã de Lázaro, que, (em Betânia), unge com perfume a cabeça de Jesus (Jo 12, 1-11). Mateus e Marcos, na passagem paralela não dão o nome de Maria, mas dizem que foi uma mulher e que a unção ocorreu na casa de Simão, o leproso (Mt 26, 6-13 e par.). Por essa razão, e devido em boa parte a São Gregório Magno, no Ocidente estendeu-se a ideia de que as três mulheres eram a mesma pessoa. No entanto, os dados evangélicos não sugerem que se deva identificar Maria Madalena com a Maria que unge Jesus em Betânia, pois esta parece ser a irmã de Lázaro (Jo 12, 2-3). Esses dados, também não permitem deduzir que seja a mesma que a pecadora, que segundo Lc 7, 36-49 ungiu Jesus, ainda que a confusão seja compreensível, pelo facto de São Lucas assinalar – imediatamente depois do relato em que Jesus perdoa a esta mulher – que o assistiam algumas mulheres, entre elas Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete demónios (Lc 8, 2). Além disso, Jesus louva o amor da mulher pecadora: “ São-lhe perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou” (Lc 7, 47). Também se descobre um grande amor no encontro de Maria com Jesus depois da ressurreição (Jo 20, 14-18). Em todo o caso, ainda que se tratasse da mesma mulher, o seu passado pecador não é um descrédito. Pedro foi infiel a Jesus e Paulo um perseguidor dos cristãos. A sua grandeza não está na sua impecabilidade, mas no seu amor.
Pelo seu papel de relevo no evangelho, foi uma figura que recebeu especial atenção de alguns grupos marginais à primitiva Igreja. Tratam-se fundamentalmente de seitas gnósticas, cujos escritos recolhem revelações secretas de Jesus depois da ressurreição e que recorrem à figura de Maria para transmitir as suas ideias. São relatos que não têm fundamento histórico.
Padres da Igreja, escritores eclesiásticos e outras obras destacam o papel de Maria como discípula do Senhor e proclamadora do Evangelho. A partir do século X surgiram narrações fictícias que exaltavam a
sua pessoa e que se difundiram sobretudo em França.
Ali nasce a lenda, que não tem nenhum fundamento histórico, de que Madalena, Lázaro e alguns mais, quando se iniciou a perseguição contra os cristãos, foram de Jerusalém a Marselha e evangelizaram a
Provença. De acordo com esta lenda, Maria morreu em Aix-en-Provence ou Saint Maximin e as suas relíquias foram levadas para Vézelay.

© www.opusdei.org - Textos elaborados por uma equipa de professores de Teologia da Universidade de Navarra, dirigida por Francisco Varo.


Temas para meditar 213


Jejum

Sobressai com grande clareza que o jejum representa uma prática ascética importante, uma arma espiritual para lutar contra qualquer eventual apego desordenado a nós mesmos. Privar-se voluntariamente do prazer dos alimentos e de outros bens materiais, ajuda o discípulo de Cristo a controlar os apetites da natureza fragilizada pela culpa da origem, cujos efeitos negativos atingem toda a personalidade humana.

(bento xvi Mens. Para a Quaresma 2009)

Tratado da Graça 02

Art. 2 — Se o homem sem a graça pode querer e fazer o bem.

(II Sent., dist. XXVIII, a. 1; dist. XXXIX, expos. Litt.; IV, dist.XVII, q. 1, a. 2, qª 2, ad; 3; De Verit., q. 24, a. 12; II Cor., cap. III, lect. I).

O segundo discute-se assim. — Parece que sem a graça o homem pode querer e fazer o bem.

1. — Pois, está no poder do homem o de que ele é senhor. Ora, o homem é senhor de seus actos, e sobretudo da sua vontade, como já se disse (q. 1, a. 1; q. 13, a. 6). Logo, pode querer e fazer o bem por si mesmo, sem o auxílio da graça.

2. Demais. — Um ser tem mais poder sobre o que lhe é natural do que sobre o que lhe contraria a natureza. Ora, o pecado é contra a natureza, como diz Damasceno, ao contrário, o acto virtuoso é segundo a natureza da alma, como já se disse (q. 71, a. 1). Ora, desde que o homem pode por si mesmo pecar, conclui-se com maioria de razão, que pode por si mesmo querer o fazer o bem.

3. Demais. — O bem da inteligência é a verdade, como diz o Filósofo. Ora, a inteligência pode por si mesma conhecê-la, assim como todo o ser pode por si mesmo realizar o seu acto natural. Logo, com maior razão, o homem pode por si mesmo fazer e querer o bem.

Mas, em contrário, diz o Apóstolo (Rm 9, 16): Não depende do que quer, i.é, do querer, nem do que corre, i. é, do correr, mas, de usar Deus da sua misericórdia. E Agostinho: sem a graça, os homens não podem, absolutamente, fazer o bem por pensamento, nem por vontade, amor, ou acção.

A natureza do homem pode ser considerada a dupla luz. Na sua integridade, como existia em nosso primeiro pai, antes do pecado ou como após esse pecado existe agora em nós. Ora, tanto num como noutro estado, a natureza humana precisa do auxílio divino, como primeiro motor, para fazer ou querer qualquer bem, conforme já dissemos (a. 1). Porém no estado de natureza íntegra, podia o homem, quanto o exigem os actos virtuosos e só ajudado pelas suas faculdades naturais, querer e obrar o bem proporcionado à sua natureza, tal como é o da virtude adquirida; não porém o da virtude infusa, que lhe excede a natureza. No estado da natureza corrupta, porém, o homem falha, mesmo no que poderia por natureza alcançar, de modo que não lhe é possível fazer, só pelas suas faculdades naturais, todo o bem de que a sua natureza é capaz. Contudo, pelo pecado não ficou a natureza humana totalmente corrupta, de modo a ficar privada de todo bem natural. Por isso, pode o homem, mesmo no estado da natureza corrupta e por virtude da sua natureza, fazer algum bem particular, como, edificar casas, plantas vinhas e coisas semelhantes. Mas não pode fazer todo bem que lhe é conatural, sem falhar em caso algum. Assim como um homem doente pode, por si mesmo, fazer algum movimento, mas, sem ser curado pelo médico, não pode mover-se perfeitamente, como um homem são.

Donde, o homem necessita, no estado da natureza íntegra, do auxílio da graça, acrescentado às suas faculdades naturais, mas só, para fazer e querer o bem sobrenatural. No estado da natureza corrupta, porém, precisa desse auxílio, primeiro, para fortificar-se, e depois para praticar o bem da virtude sobrenatural, que é meritório. Além disso, em um e outro estado, o homem precisa do auxílio divino para mover-se à prática do bem.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — O homem é senhor dos seus actos de querer ou não querer, por causa da deliberação racional, que pode inclinar-se para um ou outro lado. Mas só e necessariamente por uma deliberação precedente é que poderá deliberar ou não, se disso for capaz. Ora, como esse processo não pode ir ao infinito, é forçoso, finalmente, o livre arbítrio humano ser movido por algum princípio externo, superior à mente humana, e que é Deus, como o prova o filósofo. Donde, o espírito do homem, mesmo ainda não corrompido, não tem de tal modo o domínio dos seus actos, que dispense a moção divina. E, com maior razão, o livre arbítrio do homem enfermo pelo pecado, que encontra, na corrupção da sua natureza um obstáculo a prática do bem.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Pecar não é mais do que claudicar na prática do bem adequado à natureza de um ser. Ora, todo o ser criado, assim como não existe senão em virtude de outro e, em si considerado, nada é: assim também precisa, por esse outro, de ser conservado no bem adequado à sua natureza. Donde, se não for sustentado por Deus, pode, abandonado a si mesmo, falhar na prática do bem, assim como pode, nessas condições, reduzir-se ao nada.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Também a verdade o homem não a pode conhecer sem o auxílio divino, como já dissemos (a. 1). E contudo, a natureza humana ficou mais corrupta, pelo pecado, no seu desejo do bem, que no conhecimento da verdade.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evang.; Coment.; Leit. Esp. (Magistério - Ratzinguer)

Tempo comum XX Semana

Virgem Santa Maria – Rainha

Evangelho: Lc 1, 26-38

26 Estando Isabel no sexto mês, foi enviado por Deus o anjo Gabriel a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, 27 a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de David; o nome da virgem era Maria. 28 Entrando o anjo onde ela estava, disse-lhe: «Salve, ó cheia de graça; o Senhor é contigo». 29 Ela, ao ouvir estas palavras, perturbou-se e discorria pensativa que saudação seria esta. 30 O anjo disse-lhe: «Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus; 31 eis que conceberás no teu ventre, e darás à luz um filho, a Quem porás o nome de Jesus. 32 Será grande e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus Lhe dará o trono de Seu pai David; 33 reinará sobre a casa de Jacob eternamente e o Seu reino não terá fim». 34 Maria disse ao anjo: «Como se fará isso, pois eu não conheço homem?». 35 O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a Sua sombra; por isso mesmo o Santo que há-de nascer de ti será chamado Filho de Deus. 36 Eis que também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na sua velhice; e este é o sexto mês da que se dizia estéril; 37 porque a Deus nada é impossível». 38 Então Maria disse: «Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra». E o anjo afastou-se dela.

Comentário:

A Virgem estava convicta, intimamente consciente, que Deus tinha aceite o seu voto de virgindade, feito anos antes.
Como Nossa Senhora seria muito jovem - a tradição diz que deveria ter entre quinze e dezassete anos - estariam bem vivo no seu espírito o momento recolhido em que tinha comunicado ao Senhor a sua decisão, permanecer Virgem.
Era uma oferta de muito valor naquele tempo e naquela sociedade judaica: uma mulher sem filhos era olhada como algo estranho e desenraizado, até talvez, como se um castigo de Deus se manifestasse dessa forma.
Por isso se compreende que a gravidez de Isabel, sua parente, fosse um tão grande milagre, cuja possibilidade esmagou Zacarias.
A Virgindade é sem dúvida o estado mais querido a Deus, pois significa a renúncia a um direito e até, em certo sentido, a uma instrução de Deus que mandou crescer e multiplicar a raça humana.
Jesus olhará com ternura o jovem rico que pretende aperfeiçoar-se e convida-o a vender o que tem e a segui-lo, isto é, a pôr-se inteiramente ao Seu serviço.
É também, transparente nos Evangelhos o carinho muito especial de Jesus por João.
Compreende-se pois a confusão da Virgem ao ser-lhe transmitido que a Vontade de Deus seria exactamente o oposto, isto é, que aceitasse a maternidade quebrando o seu voto de virgindade.
Poderia este mensageiro representar alguém que não o próprio Deus?
A ilação que queria tirar desta atitude da Virgem é a necessidade de esclarecimento.
Temos obrigação de comprovar o que se nos afigura, ou nos é transmitido como sendo a Vontade de Deus.
Sem excesso de zelo, mas com segurança devemos interrogar a nossa consciência e o nosso coração e ainda, se necessário, o nosso director espiritual ou o confessor sobre o problema que se nos põe.
Daqui que é necessário termos muito bem definida a nossa consciência e a nossa formação religiosa e cristã.
Sem isso facilmente cairemos em falsas ideias, escrúpulos, talvez até aspectos de "beatice", deixando passar, imóveis e imutáveis, ao nosso lado, sinais claros da Vontade de Deus.
Destacaria em segundo lugar o Fiat da Virgem: «Faça-se», responde Nossa Senhora, depois do Anjo ter exposto os desígnios de Deus. «Faça-se a Vontade de Deus ... eis a escrava do Senhor» - é muito explicita a Virgem.
Responde de uma forma completa ao convite divino: que se faça exactamente o que Deus quer e de uma forma total porque, Ela, é escrava de Deus e portanto submissa no seu todo: espírito e corpo.
Esta afirmação de total disponibilidade dá-nos a verdadeira dimensão da união da Virgem com Deus.
A sua submissão é total, sem dúvida, mas não é cega ou inconsciente, pelo contrário, sabe exactamente o que diz e as consequências do que diz.
Assim é que, alguns dias mais tarde, ao encontrar-se com Isabel, a Senhora rompe num canto - Magnificat - em que não tem rebuço em declarar que aceita ser Mãe de Deus e que sabe que será louvada por todas as futuras gerações humanas. (…)
Esta disponibilidade total para o cumprimento exclusivo da vontade divina, como primeira preocupação, não põe de lado as preocupações da vida normal e corrente.
Nossa Senhora tinha as suas ocupações, e com certeza - tanto mais que as disponibilidades seriam escassas - preocupava-se com o orçamento familiar, haveria que comer, vestir, calçar o que, nem por ser modesto, deixa de ser um problema e não pouca preocupação. (…) Sim, porque viver correctamente, todos os dias, na nossa casa, na nossa família, no trabalho seja ele qual for, tem de ser também uma atitude de entrega ao Senhor.
Porque me dás trabalho, porque me dás saúde, porque me dás isto e me retiras aquilo, porque permites este sofrimento, aquele desgosto que servem para temperar a minha ambição, ou chamar a atenção para a minha fragilidade. (…)
Temos necessidade premente de pôr o nosso coração nas mãos de Deus.
Por intermédio de Maria, pedir ao Senhor ajuda. (…)
Esta é a forma mais segura de conseguir-mos êxito nos nossos propósitos.
A mediação da Virgem é importantíssima, eu diria mesmo imprescindível para o afinamento da nossa vida interior que deverá ser o espelho do nosso comportamento.
Em Fátima o Papa invocou várias vezes a Virgem: «Monstra te esse mater.» «Mostra que és Mãe.»
As Mães têm com os filhos aquela relação que nós, Pais, não conseguimos ter tão facilmente.
Os olhos maternos vêm os contornos e as suavidades, os nossos, destacam mais os ângulos e as asperezas, os ouvidos das mães ouvem os queixumes e as palavras ternas, os nossos ouvidos guardam mais as más respostas e os desacordos, os corações delas vibram com o coração dos filhos, os nossos amarguram-se com as desilusões.
“Filtrada” pelo coração da mãe a atitude do filho é melhor aceite pelo pai, atendemos melhor o seu pedido se feito pela voz da mãe. Nas coisas muito pequenas como nas coisas grandes. (…)
(ama, palestra, Meadela, Dezembro de 1993)

Leitura espiritual



Magistério

cardeal joseph ratzinger

Algumas perguntas pessoais

…/14

SIDA e preservativos.

Numa sociedade que parece desprezar cada vez mais o valor da castidade, da fidelidade conjugal e da temperança, e estar preocupada algumas vezes quase que exclusivamente com a saúde física e o bem-estar temporal, a Igreja tem a responsabilidade de dar o testemunho que lhe é próprio, concretamente um testemunho inequívoco de solidariedade para com aqueles que sofrem e, ao mesmo tempo, um testemunho de defesa da dignidade da sexualidade humana, que pode ser realizada somente dentro do contexto da lei moral.
É também crucial notar, como faz o documento da Conferência, que os únicos meios medicamente eficazes para prevenção da SIDA são exatamente os tipos de comportamento conformes com a lei de Deus e com a verdade sobre o homem que a Igreja sempre ensinou e que hoje continua a ser chamada corajosamente a ensinar [i].

Clonagem.

O homem é capaz de produzir em laboratório outro homem que, portanto, já não seria dom de Deus nem da natureza. Pode-se fabricar e, da mesma forma que se fabrica, pode-se destruir. [...]
Se esse é o poder do homem, então ele se está convertendo numa ameaça mais perigosa que as armas de destruição em massa [ii].

Bioética.

Venda de órgãos, manipulação genética, clonagem: será que não é preciso pôr limites à pesquisa médica e científica?

A ideia de pôr limites à pesquisa científica soa como uma blasfémia aos ouvidos do homem moderno.
Existe, no entanto, um limite extrínseco: a dignidade do homem.
É inaceitável qualquer forma de progresso cujo preço seja a violação da dignidade humana. Se a pesquisa ameaça o homem, torna-se uma deformação da ciência. Embora se argumente que uma ou outra linha de pesquisa pode abrir possibilidades para o futuro, é preciso dizer "não" quando é o homem que está em jogo. Apesar de ser uma comparação um pouco forte, gostaria de lembrar que já houve um período em que se levaram a cabo experimentações médicas com pessoas que eram consideradas inferiores. Para onde nos levará essa lógica que consiste em tratar um feto ou um embrião como uma coisa? [iii]


A nova evangelização (texto integral de uma conferência)

(Pela sua actualidade e mensagem, inclui-se aqui o texto completo da conferência A nova evangelização [iv].)

A vida humana não se realiza por si só. A nossa vida é uma questão em aberto, um projeto incompleto, que é preciso realizar passo a passo. A pergunta fundamental de todo o homem é: Como se leva a cabo esse projeto de realização do homem? Como se aprende a arte de viver? Qual é o caminho que leva à felicidade?

Evangelizar significa mostrar esse caminho, ensinar a arte de viver. Jesus diz no início da sua vida pública: "Vim para evangelizar os pobres" (cfr. Lc 4, 18). Ou seja: Eu tenho a resposta para a vossa pergunta fundamental; mostro-vos o caminho da vida, o caminho que leva à felicidade; mais ainda, Eu sou esse caminho. A pobreza mais profunda é a incapacidade de alegrar-se, o tédio de uma vida considerada absurda e contraditória.

Essa pobreza encontra-se hoje muito estendida, de maneiras muito diversas, tanto nas sociedades materialmente ricas como nos países pobres. A incapacidade de alegrar-se pressupõe e traz consigo a incapacidade de amar, produz a inveja, a avareza..., todos os vícios que arruínam a vida das pessoas e do mundo. Por isso, é necessária uma nova evangelização. Se não se conhece a arte de viver, tudo o mais deixa de funcionar. Mas essa arte não é objecto de uma ciência; só pode ser comunicada por Aquele que tem a vida, Aquele que é o Evangelho em pessoa.

ESTRUTURA E MÉTODO DA NOVA EVANGELIZAÇÃO

Estrutura

Antes de falar dos conteúdos fundamentais da nova evangelização, gostaria de explicar a estrutura e o método adequados. A Igreja sempre evangeliza e nunca interrompeu o seu caminho de evangelização. Celebra diariamente o mistério eucarístico, administra os sacramentos, anuncia a palavra da vida, a palavra de Deus, e compromete-se em favor da justiça e da caridade. E essa evangelização produz frutos: dá luz e alegria, mostra o caminho da vida a um imenso número de pessoas. Muitos fiéis vivem, frequentemente sem dar-se conta, da luz e do calor dessa evangelização permanente. No entanto, testemunhamos um processo gradual de descristianização e perda dos valores humanos essenciais que é realmente preocupante. Grande parte da humanidade de hoje não encontra o Evangelho na evangelização permanente da Igreja, isto é, não encontra a resposta convincente à pergunta: como viver?

Por isso, precisamos, além da evangelização permanente, que nunca se interrompeu nem nunca se interromperá, de uma nova evangelização, capaz de ser ouvida por esse mundo que não tem acesso à evangelização "clássica". Todos necessitam do Evangelho. O Evangelho está destinado a todos e não apenas a um grupo determinado, e por isso devemos buscar novos caminhos para levar o Evangelho a todos.

No entanto, aqui se esconde também uma tentação: a tentação da impaciência, a tentação dos grandes números, de buscar o êxito imediato. E não é esse o método do reino de Deus. Para o reino de Deus, assim como para a evangelização, que é o instrumento e veículo [da difusão desse reino], sempre é válida a parábola do grão de mostarda (cfr. Mc 4, 31-32). O reino de Deus torna a construir-se uma e outra vez sob esse signo.


"Nova evangelização" não é sinónimo de atrair imediatamente com métodos novos e mais refinados, as grandes massas que se afastaram da Igreja. Não; não é essa a
promessa da nova evangelização. "Nova evangelização" significa não se contentar com o facto de o grão de mostarda se ter transformado na grande árvore da Igreja universal, nem pensar que basta o facto de nos seus ramos poderem aninhar-se aves de todo o tipo.

"Nova evangelização" significa recomeçar o trabalho valentemente, com a humildade desse minúsculo grão, deixando que Deus decida quando e como há de crescer (cfr. Mc 4, 26-29).

As grandes coisas começam sempre por um pequeno grão, ao passo que os movimentos de massas são sempre efémeros. Na sua visão do processo evolutivo, Teilhard de Chardin fala do "espaço em branco das origens": o início das novas espécies é invisível, está fora do alcance da investigação científica. As fontes estão ocultas; são pequenas demais. Noutras palavras, as grandes realidades têm começos humildes. Deixemos de lado a questão de saber se as teorias evolucionistas de Teilhard são ou não correctas, e até que ponto: a lei das origens invisíveis reflete uma verdade presente precisamente na ação de Deus na História. "Não te escolhi por seres grande; pelo contrário, és o menor dentre os povos; foste escolhido porque te amo...", diz Deus ao povo de Israel no Antigo Testamento, expressando assim o paradoxo fundamental da História da Salvação: Deus certamente não conta com grandes números; o poder exterior não é o sinal da sua presença.

Grande parte das parábolas de Jesus demonstra essa estrutura da acção divina e respondem assim às preocupações dos discípulos, que esperavam êxitos e sinais muito diferentes por parte do Messias: êxitos como aquele que Satanás oferece ao Senhor: "Tudo isto te darei, todos os reinos do mundo"... (cfr. Mt 4, 9).

São Paulo, no final da sua vida, não tinha dúvidas de que tinha levado o Evangelho até os confins da terra, mas os cristãos eram pequenas comunidades dispersas pelo mundo, insignificantes segundo os critérios humanos. Na realidade, porém, eram o fermento que penetraria na massa, e levavam o futuro do mundo dentro de si mesmas (cfr. Mt 13, 33).

Há um antigo provérbio que diz: "O êxito não é um dos nomes de Deus". A nova evangelização deve actuar como o grão de mostarda, sem esperar que surja imediatamente uma grande árvore. Vivemos numa tranquilidade excessiva por causa da grande árvore que já existe ou sentimos o afã de possuir uma árvore ainda maior e mais viva. No entanto, devemos aceitar o mistério de que a Igreja é, ao mesmo tempo, uma árvore grande e um minúsculo grão. Na História da Salvação, vive-se sempre simultaneamente a Sexta-feira Santa e o Domingo de Páscoa.

O método

É da estrutura da nova evangelização que deriva também o método adequado. Não há dúvida de que devemos usar os meios modernos de modo razoável para nos fazermos
escutar; ou melhor, para tornar acessível e compreensível a voz do Senhor. Mas não queremos que nos escutem a nós; não queremos aumentar o poder e a extensão das nossas instituições; o que queremos é contribuir para o bem das pessoas e da humanidade, abrindo caminho para Aquele que é a Vida.

Essa renúncia ao próprio eu, oferecendo-o a Cristo para a salvação dos homens, é a condição fundamental de um verdadeiro compromisso em favor do Evangelho: Vim em nome de meu Pai, mas não me recebeis. Se vier outro em seu próprio nome, haveis de recebê-lo... (Jo 5, 43).

O anticristo distingue-se por falar em nome próprio. O sinal do Filho é a sua comunhão com o Pai. O Filho introduz-nos na comunhão trinitária, no círculo do seu amor, cujas Pessoas são "relações puras", acto puro de entrega e acolhimento. O desígnio trinitário, visível no Filho, que não fala em seu nome, mostra o modo de vida do verdadeiro evangelizador. Mais ainda, evangelizar não é tanto um modo de falar, é antes um modo de viver: viver na escuta do Pai e ser seu porta-voz. Não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir (Jo 16, 13), diz o Senhor do Espírito Santo.

Esta forma cristológica e pneumatológica de evangelização é ao mesmo tempo uma forma eclesiológica: o Senhor e o Espírito constroem a Igreja, comunicam-se na Igreja.

O anúncio de Cristo, o anúncio do reino de Deus, pressupõe a escuta da sua voz na voz da Igreja. "Não falar em nome próprio" significa falar na missão da Igreja.

Desta lei da renúncia ao próprio eu tiram-se consequências muito prácticas. Todos os métodos racionais e moralmente aceitáveis devem ser estudados; é um dever usar das possibilidades da comunicação. Mas nem as palavras nem toda a arte da comunicação são capazes de penetrar na pessoa humana até à profundidade a que o Evangelho deve chegar. Faz poucos anos, li a biografia de um óptimo sacerdote do nosso século, o pe. Dídimo, pároco de Bassano dei Grappa. Nas suas notas, encontramos umas palavras de ouro, fruto de uma vida de oração e meditação. Por exemplo, o pe. Dídimo dizia a propósito do assunto de que tratamos aqui: "Jesus pregava de dia e orava de noite". Com essa breve anotação, queria dizer que Jesus devia ganhar de Deus os seus discípulos.

Isso é válido sempre. Nós não podemos "ganhar" os homens. Devemos "ganhá-los" de Deus para Deus. Todos os métodos são ineficazes se não estão fundados na oração.
A palavra de anúncio deve estar sempre impregnada de uma intensa vida de oração.

Vamos avançar mais um pouco. Jesus pregava de dia e orava de noite, mas isso não é tudo. Toda a sua vida, como mostra de uma maneira muito bela o Evangelho de São Lucas, foi um caminho para a cruz, uma subida a Jerusalém. Jesus não redimiu o mundo com palavras bonitas, mas com o seu sofrimento e com a sua morte. A sua paixão é inesgotável fonte de vida para o mundo; a paixão sustenta a sua palavra.

O próprio Senhor, estendendo e ampliando a parábola do grão de mostarda, formulou essa lei da fecundidade na parábola do grão de trigo que cai na terra e morre (cfr. Jo 12, 24). Também essa lei é válida até o fim do mundo e, junto com o mistério do grão de mostarda, é uma lei fundamental para a nova evangelização. Toda a História assim o demonstra. Seria fácil demonstrá-lo na história do cristianismo. Gostaria de recordar aqui somente o início da evangelização na vida de São Paulo.

O êxito da sua missão não foi fruto da retórica ou da prudência pastoral; a sua fecundidade dependeu do seu sofrimento, da sua união com a paixão de Cristo (cfr. 1 Cor 2, 1-5; 2 Cor 5, 7; 11, 10 e segs.; 11, 30; Gál 4, 12-14). Não lhes será dado outro sinal senão o do profeta Jonas (Lc 1 29), disse o Senhor. O sinal de Jonas é Cristo crucificado, são as testemunhas que completam o que falta à paixão de Cristo (Col 1, 24). As palavras de Tertuliano cumpriram-se em todas as épocas da História: o sangue dos mártires é semente de novos cristãos.

Santo Agostinho diz o mesmo de um modo muito bonito, mostrando no Evangelho de São João a íntima relação entre a profecia do martírio de São Pedro e o mandato de apascentar, ou seja, o seu primado (cfr. Jo 21, 16). Comenta Santo Agostinho: "Apascenta as minhas ovelhas, isto é, sofre pelas minhas ovelhas" (Sermo 32: PL 2, 640). Uma mãe não pode dar à luz sem sofrer. Todo o parto implica sofrimento, é sofrimento, e chegar a ser cristão é um parto. Digamo-lo mais uma vez com palavras do Senhor: O reino de Deus exige violência (Mt 11, 12; Lc 10, 16), mas a violência de Deus é o sofrimento, a cruz. Não podemos dar vida aos outros sem dar a nossa vida. O processo de renúncia ao próprio eu, a que antes me referia, é a forma concreta (manifestada de diversas maneiras) de dar a própria vida. Já o disse o Salvador: Quem perder a sua vida por mim e pelo Evangelho, salvá-la-á (Mc 8, 35).

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





Notas:
[i] Letter on AIDS, enviada ao arcebispo Laghi durante a reunião geral da Conferência Nacional dos Bispos dos Estados Unidos, 1988
[ii] Debate no Centro de Orientação Política do Roma, out 2004
[iii] L’abolition de l’homme
[iv] Pronunciada no Congresso de catequistas e professores de religião, Roma, 10.12.2000, e publicada em L’Osservatore romano, 19.01.2001