16/08/2014

A minha paixão pela música



Tempo para amar



Temas para meditar 207


Pecado 



Afastamo-nos também da luz quando, na incerteza do nosso dever, desleixamos instruirmo-nos a fim de permanecermos numa meia-luz, que favorece as meias medidas, mas que conduz ao pecado completo.


(georges chevrot Jesus e a Samaritana Éfeso 1956 pg. 92)

Tratado da lei 86

Questão 107: Da comparação entre a lei nova e a antiga.

Art. 4 — Se a lei nova é mais onerosa do que a antiga.

[III Sent., dist. XL, a. 4, qª 3 ; Quodl. IV, q. 8, a. 2 ; In Matth, ; cap. IX].

O quarto discute-se assim. — Parece que a lei nova é mais onerosa que a antiga.

1. — Pois, sobre o constante da Escritura — Aquele que quebrar um destes mínimos mandamentos — diz Crisóstomo: Os mandamentos de Moisés, como — não matarás, não fornicarás — são mais fáceis de praticar. Enquanto que os de Cristo, como — Não te encolerizarás, não cobiçaras — são mais difíceis. Logo, a lei nova é mais onerosa que a antiga.

2. Demais. — É mais fácil usar da prosperidade terrena, do que sofrer tribulações. Ora, no Antigo Testamento, a prosperidade temporal era consecutiva à observância da lei, como se vê na Escritura (Dt 28, 1-14). Ao passo que muitas adversidades perseguem os observantes da lei nova, consoante o Apóstolo (2 Cor 6, 4-10): Portemo-nos em nossas mesmas pessoas como ministros de Deus, na muita paciência, nas tribulações, nas necessidades, nas angústias, etc. Logo, a lei nova é mais onerosa que a antiga.

3. Demais. — Um preceito acrescentado a outro é mais difícil de ser observado. Ora, a lei nova foi acrescentada à antiga. Assim, esta proibiu o perjúrio; ao passo que aquela, até mesmo o juramento. A lei antiga proibia a separação da mulher sem o libelo de repúdio, a nova proibiu absolutamente a separação, como o diz a Escritura (Mt 5, 31 ss), conforme a exposição de Agostinho. Logo, a lei nova é mais onerosa que a antiga.

Mas, em contrário, diz a Escritura (Mt 11, 28): Vinde a mim, todos os que andam em trabalho e vos achais carregados. E segundo a explicação de Hilário: Chama a si os que padecem as dificuldades da lei e estão carregados com os pecados do século. E depois, o Senhor acrescenta, falando do jugo do Evangelho: O meu jugo é suave, e o meu peso leve. Logo, a lei nova é mais leve que a antiga.

Em relação às obras virtuosas, para regular as quais foram dados os preceitos da lei, surge dupla dificuldade. — Uma, relativa às obras externas, que em si mesmas trazem uma certa dificuldade e onerosidade. E neste ponto a lei antiga será muito mais onerosa que a nova. Pois, com as suas múltiplas cerimónias, obrigava a mais actos externos que a lei nova. Esta, além dos preceitos da lei natural, poucas coisas acrescentou, com a doutrina de Cristo e dos Apóstolos. Embora muitos acréscimos se fizessem depois, por instituição dos santos padres. Mas ainda neste ponto, Agostinho diz, que não se deve perder de vista a moderação, para não se tornar onerosa a vida dos fiéis. Assim, referindo-se a alguns, diz: Carregam com obras servis a nossa própria religião, que, com manifestíssimas e pouquíssimas cerimónias de sacrifícios, a misericórdia de Deus quis que fosse livre. De modo que é mais tolerável a condição dos judeus, sujeitos, a sacramentos legais e não a presunções humanas.

A outra dificuldade versa sobre os actos virtuosos internos, como quando praticados pronta e agradavelmente. Ora, atacar essa dificuldade é a função da virtude. Pois, a prática desses actos, muito difícil para quem não possui a virtude, torna-se fácil para o virtuoso. E neste ponto os preceitos da lei nova são mais onerosos que os da antiga. Pois, aquela proíbe os movimentos internos da alma, que a lei antiga não proibia expressamente em todos os casos, embora o fizesse em alguns, em que porém não se acrescentava nenhuma pena à proibição. Ora, o que a lei nova dispõe é dificílimo para quem não tem virtude. Pois, como diz o Filósofo, é fácil fazer o que faz o justo, mas agir como ele age, deleitável e prontamente, é difícil para quem não tem justiça. E assim também diz a Escritura (1 Jo 5, 3): os seus mandamentos não são custosos, o que Agostinho explica: o que não é difícil para quem ama é-o para quem não ama.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — A autoridade aduzida refere-se expressamente à dificuldade da lei nova, quanto à expressa proibição dos movimentos internos.

RESPOSTA À SEGUNDA. — As contrariedades que sofrem os observantes da lei nova não são impostas pela própria lei, contudo, como o amor, em que a lei consiste, são facilmente toleradas. Pois, como diz Agostinho o amor torna fácil e quase destrói o que é cruel e duro.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Esses acréscimos aos preceitos da lei antiga têm por fim facilitar-lhe a observância, como diz Agostinho. Logo, daí não se conclui que a lei nova seja mais onerosa, mas ao contrário, mais fácil.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evang.; Coment.; Leit. Esp. (Magistério - Ratzinguer)

Tempo comum XIX Semana

Evangelho: Mt 19, 13-15

13 Então, foram-Lhe apresentadas várias crianças para que Lhes impusesse as mãos e orasse por elas. Mas os discípulos repreendiam-nas. 14 Jesus, porém, disse-lhes: «Deixai as crianças, e não as impeçais de vir a Mim, porque delas é o Reino dos Céus». 15 E, tendo-lhes imposto as mãos, partiu dali.

Comentário:

Nem mais… nem menos! Se o Reino dos Céus é das crianças é natural que o Rei as queira junto de Si!

Que maravilha!

Como recusar um desafio tão grande como este: ser como criança?

E como será isso possível aos homens adultos cheios de preconceitos, ideias formadas, vícios e defeitos de carácter?

De facto, não é possível, isto é, sem a ajuda do próprio Rei e Senhor. No fim e ao cabo estamos a falar de entrega confiada e alegre nas Suas mãos amorosas, deixar que seja Ele a conduzir a nossa vida, a tentar em tudo, fazer a Sua vontade.

(ama, Comentário sobre Mt 19, Carvide, 13-15, 2013.08.18)

Leitura espiritual



Magistério

cardeal joseph ratzinger

Algumas perguntas pessoais

…/8

Nossa Senhora, Mãe que cura.

Esta antiquíssima e misteriosa imagem a que os romanos chamam Salus populi Romani [salvação ou saúde do povo romano] é, segundo
a tradição, a imagem que Gregório Magno levou em procissão pelas ruas de Roma no ano de 590, num momento em que a peste devastava a cidade. Quando terminou a procissão, cessou também a epidemia; Roma recobrou a saúde. O nome desta imagem quer dizer-nos: neste nome pode Roma, neste nome podem os homens curar-se continuamente.

Desta figura ao mesmo tempo juvenil e venerável, dos seus olhos sábios e bondosos, olha-nos a bondade maternal de Deus. "Como alguém que é consolado pela sua mãe, assim eu vos consolarei", diz-nos Deus através do profeta Isaías (66, 13). O consolo maternal revela-nos plenamente Deus, sobretudo através das mães, através da sua Mãe.

E quem poderia estranhá-lo?

Diante desta imagem, desaparece de nós a fatuidade, diluem-se as crispações da nossa soberba, o medo diante dos nossos sentimentos e tudo aquilo que nos faz adoecer por dentro. A depressão e o desespero nascem de que o âmbito dos nossos sentimentos está desordenado ou entrou em colapso. Já não vemos o que há de cálido, de consolador, de bom e salvador no mundo - coisas que somente podemos perceber com o coração -. Na frieza de um conhecimento que foi privado das suas raízes, o mundo torna-se puro desespero. Daí que a aceitação desta imagem cure. Devolve-nos ao chão da fé e da condição humana, sempre que aceitemos a partir de dentro a sua linguagem, sempre que não nos fechemos a ela. [...] Esta imagem [.-.] ajuda-nos assim a desligar a fé do esforço da vontade e do entendimento e a situá-la novamente na totalidade do nosso ser. [...]

Podemos abrir-nos de novo à proximidade da nossa Mãe sem medo de falsos sentimentalismos [i].


O futuro da Igreja


Minoria? Há muitos anos, o senhor falava em termos proféticos sobre a Igreja do futuro: a Igreja - dizia então - reduzir-se--á nas suas dimensões, e será preciso começar novamente. Mas desta prova sairá uma Igreja que terá obtido uma grande força do processo de simplificação pelo qual terá passado, da sua renovada capacidade de olhar para dentro de si mesma. Qual é a perspectiva que nos espera na Europa?

Para começar, a Igreja "reduzir-se-á numericamente". Quando fiz esta afirmação, choveram-me de toda a parte censuras de pessimismo. Hoje, quando todas as proibições parecem ter caído em desuso, entre elas as que dizem respeito ao que se vem chamando pessimismo - o qual, com frequência, não passa de um sadio realismo -, cada vez são mais os que admitem que a percentagem dos cristãos baptizados na Europa vem diminuindo: numa cidade como Magdeburgo, é de apenas 8% da população total, incluindo-se aí todas as confissões cristãs. Os dados estatísticos mostram tendências irrefutáveis. Neste sentido, reduz-se a possibilidade de identificação entre povo e Igreja em determinadas áreas culturais. Devemos tomar nota disto com simplicidade e realismo.

A Igreja de massas pode ser algo muito bonito, mas não é necessariamente a única modalidade do ser Igreja. A Igreja dos primeiros três séculos era pequena, sem que por isso fosse uma comunidade sectária. Pelo contrário, não estava fechada sobre si mesma, mas sentia uma grande responsabilidade pelos pobres, pelos doentes, por todos. No seu seio encontravam abrigo todos aqueles que se nutriam de uma fé monoteísta e estavam à busca de uma promessa. Essa consciência de não ser um clube fechado, mas de estar aberta à comunidade no seu conjunto, sempre foi um componente intrínseco da Igreja. [...]

Devemos tomar nota da diminuição das nossas fileiras, mas devemos continuar igualmente a ser uma Igreja aberta. A Igreja não pode ser um grupo fechado, auto-suficiente. Devemos, sobretudo, ser missionários, no sentido de voltar a propor à sociedade aqueles valores que são os fundamentos da forma legal que a sociedade deu a si mesma, e que estão na base da própria possibilidade de construir qualquer comunidade social verdadeiramente humana. A Igreja continuará a propor os grandes valores humanos universais. Porque, se o Direito deixa de ter fundamentos morais compartilhados por todos, desmorona também como Direito. Deste ponto de vista, a Igreja tem uma responsabilidade universal. Responsabilidade missionária significa precisamente, como diz o Papa, empreender verdadeiramente uma nova evangelização.

Não podemos aceitar tranquilamente que o resto da Humanidade volte a precipitar-se no paganismo; devemos encontrar o caminho para levar o Evangelho também aos não-crentes. A Igreja deve recorrer a toda a sua criatividade para fazer com que não se apague a força viva do Evangelho [ii].

Perigo e esperança.

Qual é, a seu parecer, o grande perigo e a grande esperança da Igreja, hoje?

Acredito que o maior perigo está em que nos convertamos numa organização social que não esteja fundada na fé do Senhor. À primeira vista, poderia parecer que só importa o que estamos fazendo e que a fé não é tão importante. Mas se a fé desaparece, todas as outras coisas, como vimos, decompõem--se. Penso que existe o perigo, com todas estas actividades e perspectivas externas, de subestimar a importância da fé e de perdê-la, de começar a viver numa Igreja em que a fé não seja importante.

E existe a grande esperança de que veremos uma nova presença do Senhor. Já vimos que a sua presença sacramental na Eucaristia é um dom para todos nós e nos permite amar os outros e trabalhar pelos outros. Penso que a nova presença da Eucaristia e o novo amor por Cristo, o próprio Cristo presente na Eucaristia, é o elemento mais alentador do nosso tempo [iii].

Perspectivas.

Que mudanças sofrerá a Igreja?

Penso que devemos ser muito cautelosos à hora de fazer previsões, porque o desenvolvimento histórico sempre traz muitas surpresas. A futurologia fracassa com frequência. Ninguém se arriscava, por exemplo, a prever a queda dos regimes comunistas. A sociedade mundial sofrerá profundas mudanças, mas por enquanto não temos condições de prever que consequências terá a diminuição numérica do mundo ocidental, que ainda é o dominante, qual será a nova cara da Europa transformada pelas correntes migratórias, que civilização e que formas sociais hão-de impor-se. Seja como for, o que é claro é que a Igreja ocidental se sustentará sobre um potencial diverso.

O que conta mais, na minha opinião, é "essencializar", para usar uma expressão de Romano Guardini. É necessário evitar a elaboração de pré-construções fantásticas de algo que se poderá revelar muito diferente e que não podemos pré-fabricar nos meandros do nosso cérebro, para concentrar-se, pelo contrário, no essencial, que depois poderá encontrar novos modos de encarnar-se. É importante um processo de simplificação que nos permita distinguir o que constitui a viga-mestra da nossa doutrina, da nossa fé, o que nela tem valor perene.
É importante voltar a propor as grandes constantes de fundo nos seus componentes fundamentais: as questões sobre Deus, a salvação, a esperança, a vida, sobre tudo o que eticamente tem um valor básico [iv].

Escândalos.

Eminência [...]: devo dizer-lhe, honestamente, que os últimos dias foram como uma prova de fé para mim e para alguns dos meus colegas [refere-se à campanha contra a Igreja por causa dos padres pedófilos nos Estados Unidos]. Como enfrentar a tentação da desesperança que às vezes experimentamos [...]?

Penso que temos de nos lembrar de Nosso Senhor, que nos disse: "No campo da Igreja não haverá só trigo, mas também palha; dos mares do mundo, tirareis não somente peixes, mas também coisas inaceitáveis". Portanto, o Senhor anuncia-nos uma Igreja em que existirão escândalos e pecadores. Devemos lembrar-nos de que São Pedro, o primeiro dos Apóstolos, foi um grande pecador, e apesar disso o Senhor quis que esse Pedro pecador fosse a rocha da Igreja. Com isso, indicou-nos que não esperássemos que todos os Papas fossem grandes santos: temos de aceitar que alguns deles sejam pecadores.

[Cristo] anuncia-nos que no campo da Igreja haverá muita palha. A situação actual não nos surpreende se considerarmos a História da Igreja. Houve épocas que foram pelo menos tão complicadas como a nossa, com escândalos, coisas ruins, etc. Basta pensar no século IX, no X, no Renascimento... Contemplando, pois, as palavras do Senhor aplicadas à História da Igreja, poderemos relativizar os escândalos de hoje.

Sofremos. Temos que sofrer porque os escândalos fazem sofrer muita gente, e agora penso nas vítimas. Certamente, temos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar que essas coisas aconteçam no futuro, mas, por outro lado, sabemos que o Senhor - e esta é a essência da Igreja - se sentava à mesa com pecadores. Esta é a própria definição da Igreja: que o Senhor se senta à mesa com pecadores.
Portanto, não podemos surpreender-nos [de que haja pecados]. Não podemos cair na desesperança.

Pelo contrário, o Senhor disse-nos: "Não estou aqui só para os justos, mas sim para os pecadores". Temos que estar certos de que o Senhor, verdadeiramente, e também hoje em dia, procura os pecadores para os salvar.

Durante os dois últimos anos, muitos diagnosticaram uma crise de abusos sexuais que estariam infestando a Igreja nos Estados Unidos. [...] O senhor, eu sei, acompanhou bastante essa crise, tratando de fechar as feridas. A minha pergunta ê: quais pensa que sejam as raízes dessa crise?

Distinguiria talvez dois elementos: um geral e outro específico. O elemento geral é, como já disse, a fraqueza dos seres humanos, incluídos os sacerdotes. As tentações existem também para os padres, e isso sempre será assim. Temos de aceitá-lo e entender que [...] estas coisas podem acontecer.

O segundo ponto é mais específico. Por que é mais comum nestes tempos do que no passado? Penso que um ponto essencial é a debilidade da fé. Somente se eu me encontrar a sós com o Senhor, se o Senhor estiver presente para mim - não a ideia, mas a Pessoa com quem vivo uma profunda amizade -, se eu o conhecer pessoalmente e estiver todos os dias em contacto com o seu amor, somente então é que a fé se converterá numa realidade para mim.
Se for assim, ela passará a ser o chão da minha vida, a mais firme realidade, e não uma simples possibilidade.
Se for assim, se eu estiver realmente convicto e em contacto com o amor do Senhor, então Ele me ajudará a vencer as tentações, por mais que pareçam impossíveis de vencer. Se não actualizamos a nossa fé todos os dias, se ela se enfraquece e se converte em algo que não é fundamental na vida, então começam todos esses problemas.

É por todas estas razões que a debilidade da fé e a pouca presença da fé na Igreja são o ponto essencial [das crises]. Parece-me que é um problema que vimos arrastando há quarenta ou cinquenta anos: a noção de que temos de ter ideias comuns com todo o mundo e de que a fé é um assunto muito pessoal, juntamente com a falta de consciência de que é um dom de Deus. A primeira coisa a fazer, neste caso, é voltar a aprender, é reconvertermo-nos a uma fé profunda e educarmo-nos na fé.

Penso também que, nos últimos quarenta ou cinquenta anos, o ensino moral na Igreja não esteve muito claro. Tivemos tantos mestres que ensinavam falsidades e diziam: "Não, isso não é pecado. Isso é comum e, como todos o fazem, está permitido"! Por causa dessas ideias, não tivemos uns ensinamentos morais claros. Acredito que há duas coisas essenciais nesta matéria: a conversão a uma fé profunda, a vida sacramental e de oração, por um lado; e, por outro, um ensino moral e a convicção de que a Igreja tem o Espírito Santo do seu lado.

O que diria aos fiéis nos Estados Unidos que se encontram tão abatidos nestes momentos que não sabem para quem olhar?

Bem, em primeiro lugar o que têm de fazer é olhar para o Senhor. Ele está sempre presente e sempre perto de nós. E olhem também para os santos de todos os tempos. Os humildes, os fiéis estão aí, talvez de maneira não tão evidente porque não aparecem na televisão; mas estão presentes, e é nisso que a Igreja confia: confia em que todos os fiéis encontrarão esse tipo de pessoas. Assim verão que, com todos os problemas de hoje, a Igreja não desapareceu, continua adiante, especialmente graças a pessoas que não são muito visíveis. Penso, por conseguinte, que o essencial é encontrar o Senhor, ver os santos de todos os tempos e encontrar também os que não estão canonizados, as pessoas singelas que estão no coração da Igreja [v].

Autoridade na Igreja.

A obediência [...], segundo alguns, já não seria nem ao menos uma virtude cristã, mas uma herança de um passado autoritário, dogmático, a ser, portanto, superado.

Com efeito, se a Igreja é a nossa Igreja, se a Igreja somos apenas nós, se as suas estruturas não são as que Cristo quis, então não se pode mais conceber a existência de uma hierarquia como serviço aos baptizados, estabelecida pelo próprio Senhor. Recusa-se o conceito de uma autoridade querida por Deus, de uma autoridade que tem a sua legitimidade em Deus, e não no consenso da maioria dos membros da organização, como acontece nas estruturas políticas.

Mas a Igreja de Cristo não é um partido, não é uma associação nem um clube: a sua estrutura profunda é ineliminável; não é democrática, e sim sacramental, e portanto hierárquica: porque a hierarquia baseada na sucessão apostólica é condição indispensável para obter a força e a realidade dos sacramentos. Aqui, a autoridade não se baseia em votações da maioria; baseia-se na autoridade do próprio Cristo, que quis fazer com que participassem dela homens que fossem os seus representantes até ao seu retorno definitivo. Só se poderá redescobrir a necessidade e a fecundidade católica da Igreja retomando essa visão de obediência à sua legítima hierarquia [vi].

Divisões entre os cristãos.

Deus escreve certo por linhas tortas. Mas as linhas permanecem tortas, e isso significa que as divisões estão relacionadas com o pecado humano. O pecado não se torna positivo só porque, se for compreendido como algo que deve ser superado pela conversão e apagado pelo perdão, pode levar a um processo de crescimento. Já Paulo teve de explicar aos Romanos a ambiguidade que nascera do seu ensinamento sobre a graça, segundo a qual, se o pecado conduzia à graça, podia ser aceite tranquilamente (Rom 6, 19). A capacidade divina de tirar coisas boas até dos nossos pecados certamente não significa que o pecado seja bom. E o facto de que Deus pode tirar frutos positivos da divisão não a torna boa em si mesma [vii].

A única apologética. A única, a verdadeira apologia do cristianismo pode reduzir-se a dois argumentos: os santos que a Igreja produziu e a arte que germinou no seu seio. O Senhor torna-se crível pela magnificência da santidade e da arte, que explodem dentro da comunidade crente, mais que pelas astutas escapatórias que a apologética elaborou para justificar os lados obscuros que abundam, infelizmente, nos acontecimentos humanos da Igreja. Se a Igreja, portanto, deve continuar a converter, a humanizar o mundo, como pode, na sua liturgia, renunciar à beleza, que está unida de modo inseparável ao amor e, ao mesmo tempo, ao esplendor da Ressurreição? Não, os cristãos não devem contentar-se facilmente, devem continuar a fazer da sua Igreja o lar do belo, portanto do verdadeiro, sem o que o mundo se torna o primeiro círculo do inferno. [...]

Um teólogo que não ame a arte, a poesia, a música, a natureza, pode ser perigoso. Essa cegueira e surdez para o belo não são secundárias, reflete-se necessariamente também na sua teologia [viii].

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





Notas:
[i] Meditación para el tiempo de Navidad, em Humanitas, n. 12
[ii] Dios y el mundo; repr. em Avvenire, 27.09.2001
[iii] La crisis de la Iglesia: una fe débil
[iv] Dios y el mundo
[v] La crisis de la Iglesia: una fe débil
[vi] A fé em crise?, pág. 32
[vii] Entrevista à Frankfurter Allgemeine Zeitung, 22.09.2000
[viii] A fé em crise?, pág. 97

15/08/2014

Hás-de ir procurar as almas

Cristo espera muito da tua actividade. Mas hás-de ir procurar as almas, como o Bom Pastor saiu à procura da centésima ovelha: sem esperar que te chamem. Depois, serve-te dos teus amigos para fazer bem aos outros. Ninguém pode sentir-se tranquilo (di-lo a cada um) com uma vida espiritual que, depois de o encher, não transborde para os outros com zelo apostólico. (Sulco, 223)

Convence-te: precisas de te formares bem, em vista dessa avalanche de gente que nos cairá em cima, com a pergunta precisa e exigente: – "Ora bem, que é preciso fazer?". (Sulco, 221)

Jesus está junto do lago de Genesaré e as pessoas comprimem-se à sua volta, ansiosas por ouvirem a palavra de Deus. Tal como hoje! Não estais a ver? Estão desejando ouvir a mensagem de Deus, embora o dissimulem exteriormente. Talvez alguns se tenham esquecido da doutrina de Cristo; talvez outros, sem culpa sua, nunca a tenham aprendido e olhem para a religião como coisa estranha... Mas convencei-vos de uma realidade sempre actual: chega sempre um momento em que a alma não pode mais; em que não lhe bastam as explicações vulgares; em que não a satisfazem as mentiras dos falsos profetas. E, mesmo que nem então o admitam, essas pessoas sentem fome, desejam saciar a sua inquietação com os ensinamentos do Senhor. (Amigos de Deus, 260)

Jesus Cristo e a Igreja 27

Jesus teve irmãos?

A Virgem Maria concebeu Jesus sem concurso de varão (Mt 1, 25) e não teve mais filhos, como também o sugere o facto de Jesus na cruz confiar a sua Mãe a João (Jo 19, 27). Assim no-lo transmitiu a tradição da Igreja, que declarou Maria como a “sempre virgem”. Trata-se de uma verdade de fé que está de acordo com os textos evangélicos. As expressões que se encontram nos evangelhos e que parecem contradizê-la devem ser entendidas correctamente:
a) No evangelho diz-se que Jesus é o primogénito de Maria (Lc 2, 6), o que implicaria ser o maior de vários irmãos. Contudo, o termo “ primogénito” é a forma legal de denominar o primeiro filho (Ex 12, 29; 34, 19, etc.) e não implica que tivesse outros irmãos depois dele, como é evidente pelo testemunho de uma conhecida inscrição hebraica na qual se diz de uma mãe: que morreu ao dar à luz o seu “ filho primogénito”.

b) As palavras de Mateus 1, 25, “ e, sem que ele a tivesse conhecido, deu à luz um filho”, poder-se-iam traduzir literalmente “ e não a conheceu até que deu à luz” . A conjunção grega heos, “até que”, implicaria que depois teria havido coabitação. Todavia, esta conjunção indica, em si, o que ocorreu até ao momento, neste caso a concepção virginal de Jesus, prescindindo da situação posterior. Encontramos a mesma conjunção em Jo 9, 18, onde se diz que os fariseus não acreditaram no milagre da cura do cego de nascimento “ até que” chamaram os pais deste.
Mas é-nos dito logo de seguida que não passaram a acreditar depois disso.

c) Nos textos evangélicos há referências explícitas “irmãos e irmãs” de Jesus (Mc 3, 32; 6, 3 e par.).
Inclusivamente, é-nos indicado o nome de quatro deles: “ Tiago, José, Simão e Judas” (Mc 6, 3). Destes quatro, Tiago desempenhará um papel importante na Igreja primitiva, como cabeça da Igreja de Jerusalém, sendo conhecido como “Tiago, o irmão do Senhor” (Gl 1, 19; cf. 1 Co 15, 7). Perante disto é necessário saber que em hebraico ou aramaico não existe um termo específico para indicar o grau de parentesco, pelo que todos os parentes são “ irmãos”. A palavra grega que traduz “ irmão”, e que aparece nos evangelhos (que são textos que reflectem um mundo semita, e não grego), tem um significado muito amplo, que vai desde irmão natural até meio-irmão, cunhado, primo, tio, vizinho, discípulo, etc.
Em Gn 13, 8 diz-se que Abraão e Lot eram irmãos, quando na realidade, por outros dados, sabemos que eram tio e sobrinho. Em Mc 6, 17 diz-se que Herodíades se tinha casado com Herodes, “irmão de Filipe”, e na realidade eram meios-irmãos, uma vez que tinham mãe diferente. Em Jo 19, 25 indica-se que estavam junto à cruz de Jesus “ sua mãe e a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas” , quer dizer, duas Marias, que deviam ser parentes e não irmãs, já que tinham o mesmo nome.

É verdade que em grego existe uma palavra que significa “primo”, mas que só aparece uma vez no Novo Testamento (Col 4, 10). Afirmar que, no caso de terem sido primos e não verdadeiros irmãos, os evangelistas teriam utilizado este termo ou teriam deixado algum outro indício, é partir de um preconceito. Aduzir o testemunho de Hegisipo, recolhido por Eusébio, que fala de “ Tiago, irmão do Senhor” (Hist. Eccl. 2, 23) e de “ Simão, primo do Senhor” (Hist. Eccl. 4, 22), não é conclusivo, porque provêm de passagens que aparecem em contextos distintos. O primeiro pode entender-se como o título pelo qual era conhecido Tiago, sem querer precisar o grau de parentesco.
A não ser que o contexto o indique claramente, é impossível saber o significado exacto da palavra “ irmão” e o grau de parentesco ou relação. Jesus é conhecido como o “ filho de Maria” (Mc 6, 3). É o seu
único filho. A tradição da Igreja (e não as análises filológicas aparentemente mais prováveis e os testemunhos isolados, por mais antigos que sejam) é a verdadeira intérprete destes textos. Esta mesma tradição explicou que, nas passagens do Novo Testamento, a expressão “irmãos” ou “ irmãs” de Jesus se deve entender como “parentes”, de acordo com o significado da palavra grega. Qualquer outra interpretação é possível, mas arbitrária. Ver também a pergunta “Teve São José mais filhos?”

© www.opusdei.org - Textos elaborados por uma equipa de professores de Teologia da Universidade de Navarra, dirigida por Francisco Varo.


Temas para meditar 206



Vontade de Deus 



Aderindo a Cristo, podemos tornar-nos um só espírito com Ele e assim cumprir a Sua Vontade; desse modo, ela será feita na Terra como no Céu.



(origenes Or. 26)

Tratado da lei 85

Questão 107: Da comparação entre a lei nova e a antiga.

Art. 3 — Se a lei nova está contida na antiga.

O terceiro discute-se assim. — Parece que a lei nova não está contida na antiga.

1. — Pois, a lei nova consiste principalmente na fé, sendo por isso chamada lei da fé, como diz o Apóstolo (Rm 3, 27). Ora, a lei nova estabeleceu muitos preceitos da fé, que não estão contidos na lei antiga. Logo, a lei nova não está contida na antiga.

2. Demais. — Sobre o Evangelho (Mt 5, 19) — Aquele que quebrar um destes mínimos mandamentos — diz uma Glosa, que os mandamentos da lei são menores, e os do Evangelho, maiores. Ora, o mais não pode estar contido no menos. Logo, a lei nova não está contida na antiga.

3. Demais. — A coisa contida noutra é possuída simultaneamente com esta. Ora, se a lei nova estivesse contida na antiga, resultaria que quem estivesse sob o regime desta estaria também sob o daquela. Logo, foi supérfluo dar uma lei nova a quem já tinha a antiga. Portanto, a lei nova não está contida na antiga.

Mas, em contrário, diz a Escritura (Ez 1, 16): E a roda estava na roda, i. é, o Novo Testamento no Velho, como expõe Gregório.

Uma coisa pode estar contida noutra de dois modos: actualmente, como a que está colocada num lugar, ou, virtualmente, como o efeito na causa ou o completo no incompleto. Assim, o género contém potencialmente a espécie, e toda a árvore está contida na semente. E deste modo a lei nova está contida na antiga: pois, como já se disse, aquela está para esta, como o perfeito, para o imperfeito. Por isso, Crisóstomo, expondo o Evangelho (Mr 4, 28) — A terra por si mesma produz, primeiramente a erva, depois a espiga e, por último, o grão graúdo na espiga — diz assim: Primeiro, frutifica a erva, na lei da natureza, depois, as espigas na lei de Moisés, enfim, o grão graúdo, no Evangelho. Assim, pois, a lei nova está na antiga, como o grão na espiga.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Tudo o que o Novo Testamento ensina explícita e abertamente para ser acreditado, também já se encontrava no Velho Testamento, mas implícita e figuradamente. E assim, mesmo quanto ao que devemos crer, a lei nova está contida na antiga.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Diz-se que os preceitos da lei nova são maiores que os da antiga, quanto à sua manifestação explícita. Mas, pela própria substância, os preceitos do Novo Testamento estão todos contidos no do Velho. Donde o dizer Agostinho: Quase tudo o que o Senhor ensinou ou preceituou, quando acrescentava — Eu, porém, vos digo — já se encontra naqueles livros antigos. Mas, como não se compreendia no homicídio senão a morte dada ao corpo humano, o Senhor explicou, que todo ato injusto, para prejudicar o próximo, está incluído no género do homicídio. E por tais explicações, os preceitos da lei nova consideram-se maiores que os da lei antiga. Mas, nada impede que o maior esteja virtualmente contido no menor, como a árvore, na semente.

RESPOSTA À TERCEIRA. — É preciso explicar o dito implicitamente. Donde, depois de dada a lei antiga, era necessária dar também a lei nova.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evang.; Coment.; Leit. Esp. (Magistério - Ratzinguer)

Tempo comum XIX Semana

Assunção da Santíssima Virgem

Evangelho: Lc 1, 39-56

39 Naqueles dias, levantando-se Maria, foi com pressa às montanhas, a uma cidade de Judá. 40 Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. 41 Aconteceu que, logo que Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe no ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo; 42 e exclamou em alta voz: «Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre. 43 Donde a mim esta dita, que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? 44 Porque, logo que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino saltou de alegria no meu ventre. 45 Bem-aventurada a que acreditou, porque se hão-de cumprir as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor». 46 Então Maria disse: «A minha alma glorifica o Senhor; 47 e o meu espírito exulta de alegria em Deus meu Salvador, 48 porque olhou para a humildade da Sua serva. Portanto, eis que, de hoje em diante, todas as gerações me chamarão ditosa, 49 porque o Todo-poderoso fez em mim grandes coisas. O Seu nome é Santo, 50 e a Sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem. 51 Manifestou o poder do Seu braço, dispersou os homens de coração soberbo. 52 Depôs do trono os poderosos, elevou os humildes. 53 Encheu de bens os famintos, e aos ricos despediu de mãos vazias. 54 Tomou cuidado de Israel, Seu servo, lembrado da Sua misericórdia; 55 conforme tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre». 56 Maria ficou com Isabel cerca de três meses; depois voltou para sua casa.

Comentário:

Este trecho do Evangelho escrito por S. Lucas é o escolhido para o dia de hoje - 15 de Agosto - em que todo mundo celebra a Assunção de Nossa Senhora ao Céu. E a escolha é muito a propósito já que é, no conjunto dos Evangelhos, onde a Santíssima Virgem é citada com maior extensão e detalhe.

O Magnificat é como que uma “declaração formal” que a própria Senhora faz, sobre si própria e o que Deus lhe reservou, desde o princípio dos tempos.

Um dia, haveremos de dar-nos conta dessa extraordinária festa celeste que se celebrou - e continua celebrando-se - para receber, no Céu, a Mãe de Deus e havemos de maravilhar-nos com a excelência da Criatura que, por vontade expressa do Seu Divino Filho, também é Nossa Mãe.

(ama, comentário sobre Lc 1, 39-56, 2012.08.15)

Leitura espiritual




Magistério

cardeal joseph ratzinger

Algumas perguntas pessoais

…/7

Pescadores de homens.

Hoje também a Igreja e os sucessores dos Apóstolos recebem a ordem de partir para o mar profundo da história e lançar redes, para conquistar homens e mulheres para o Evangelho - para Deus, para Cristo, para a vida verdadeira [...]. Vivemos em alienação, nas águas salgadas do sofrimento e da morte; no mar das trevas sem luz.
A rede do Evangelho retira-nos das águas da morte e nos traz para o esplendor da luz de Deus, para a vida verdadeira. E é realmente verdade: conforme seguimos Cristo nesta missão de sermos pescadores de homens, temos de trazer homens e mulheres para fora do mar, que é salobro com tantas formas de alienação, e para a terra da vida, para a luz de Deus.
E é realmente verdade: o propósito de nossas vidas é revelar Deus aos homens. E apenas quando se vê Deus a vida realmente começa. Apenas quando encontramos o Deus vivo em Cristo sabemos o que a
vida é.
Não somos um produto sem sentido do acaso da evolução. Cada um de nós é resultado de um pensamento de Deus. Cada um de nós é desejado, cada um de nós é amado, cada um de nós é necessário. Nada é mais belo que ser surpreendido pelo Evangelho, pelo encontro com Cristo. Nada é mais belo que conhecê-lo e falar aos outros da nossa amizade com Ele.
A tarefa do pastor, a tarefa do pescador de homens, pode muitas vezes parecer cansativa. Mas é bela e maravilhosa, porque é verdadeiramente um serviço para a alegria, para a alegria que Deus deseja espalhar pelo  mundo [i].


Santidade e alegria

Virtude heróica e santidade.

Vêm-me à cabeça as palavras do Senhor recolhidas no Evangelho de São João (5, 17): Meu Pai opera sempre. São palavras pronunciadas por Jesus no decorrer de uma discussão com alguns especialistas em religião que não queriam reconhecer que Deus pode trabalhar no dia de sábado. Um debate ainda aberto e actual, de certo modo, entre os homens - também entre os cristãos - do nosso tempo.

Alguns pensam que Deus, depois da criação, "se retirou" e já não tem nenhum interesse pelos nossos assuntos de cada dia. De acordo com esse modo de pensar, Deus não poderia intervir na trama da nossa vida quotidiana; no entanto, as palavras de Jesus Cristo indicam-nos precisamente o contrário. Um homem aberto à presença de Deus percebe que Deus trabalha sempre e que também actua hoje; por isso, devemos deixar que Ele entre e actue em nós [...].

Conhecendo um pouco da história dos santos, sabendo que nos processos de canonização se procura a virtude "heróica", podemos, quase inevitavelmente, formar um conceito equivocado da santidade porque tendemos a pensar: "Isso não é para mim", "eu não me sinto capaz de praticar virtudes heróicas", "é um ideal alto demais para mim"...

Nesse caso, a santidade estaria reservada para alguns "grandes" cujas imagens vemos nos altares e que são muito diferentes de nós, pecadores comuns. No entanto, seria uma ideia totalmente errada da santidade [...].

Virtude heróica não quer dizer que o santo seja uma espécie de "atleta" da santidade, que consegue fazer uns exercícios inexequíveis para as pessoas normais. Quer dizer, pelo contrário, que na vida de um homem se revela a presença de Deus, e se torna mais patente tudo aquilo que o homem não é capaz de fazer por si mesmo. No fundo, talvez se trate de uma questão terminológica, porque o adjectivo "heróico" foi com frequência mal interpretado.

Virtude heróica não significa propriamente que alguém faz coisas grandes por suas forças pessoais, mas que na sua vida aparecem realidades que não foi ele quem fez, porque ele só esteve disponível para deixar que Deus actuasse. Noutras palavras, ser santo não é senão falar com Deus como um amigo fala com o amigo. Isto é a santidade.

Ser santo não significa ser superior aos outros; pelo contrário, o santo pode ser muito fraco e cometer muitos erros na sua vida. A santidade é o contacto profundo com Deus: é fazer-se amigo de Deus, deixar que o Outro trabalhe, o Único que pode realmente fazer com que este mundo seja bom e feliz. [...]
Verdadeiramente, todos somos capazes, todos somos chamados a abrir-nos a essa amizade com Deus, a não nos soltarmos da sua mão, a não nos cansarmos de voltar uma vez e outra para o Senhor, falando com Ele como se fala com um amigo e sabendo, com toda a certeza, que o Senhor é o verdadeiro amigo de todos, também dos que não são capazes de fazer coisas grandes por si próprios [ii].

Martírio.

Se deixa de existir algo por que valha a pena morrer, também a vida se torna vazia.
Só se existe o bem absoluto, pelo qual vale a pena morrer, e o mal eterno, que nunca se converte em bem, só então o homem é confirmado na sua dignidade e estamos protegidos da ditadura das ideologias [iii].


Alegria.

"Alegrai-vos, mais uma vez vos digo: alegrai-vos" (cfr. Fil 4, 4). A alegria é fundamental no cristianismo, que é por essência evangelium, "boa nova". No entanto, é neste ponto que o mundo se engana quando abandona a Igreja em nome da alegria, pretendendo que, com todos os seus preceitos e proibições, o cristianismo a arranca ao homem.

Não há dúvida de que a alegria de Cristo não é tão fácil de enxergar como o prazer banal que nasce de qualquer diversão. Mas seria falso traduzir as palavras Alegrai-vos no Senhor por estas outras: "Alegrai-vos, mas no Senhor", como se na segunda frase se quisesse recortar o que se afirmou na primeira. Significa simplesmente "alegrai-vos no

Senhor", já que o Apóstolo evidentemente crê que toda a verdadeira alegria está no Senhor, e que fora dEle não pode haver nenhuma.

Com efeito, não há dúvida de que toda a alegria que se dá fora de Deus ou contra Ele não satisfaz, mas, pelo contrário, arrasta o homem para um redemoinho no qual não consegue experimentar um verdadeiro contentamento. Por isso, com essa expressão o Apóstolo informa-nos que a verdadeira alegria não chegará enquanto Cristo não a trouxer, e que aquilo que interessa na nossa vida é aprender a ver e compreender Cristo, o Deus da graça, a luz e a alegria do mundo. Pois a nossa alegria não será autêntica enquanto não deixar de se apoiar em coisas que possam ser arrebatadas das nossas mãos e destruídas, enquanto não encontrar um firme apoio na mais íntima profundidade da nossa existência, que não nos pode ser arrebatada por força alguma deste mundo. E toda a perda externa deveria fazer-nos avançar um passo para essa intimidade e tornar-nos mais amadurecidos para a nossa vida autêntica [iv].

Alegrar-se com a fé.

A fé dá alegria. Se Deus não está presente, o mundo desertifica-se e tudo se torna aborrecido, tudo é completamente insuficiente.
Hoje, vê-se bem como um mundo sem Deus se desgasta cada vez mais, como se tornou um mundo sem nenhuma alegria. A grande alegria vem do facto de existir o grande amor, e é essa a afirmação essencial da fé. Você é alguém indefectivelmente amado. Foi por isso que o cristianismo encontrou a sua primeira expansão sobretudo entre os fracos e os que sofriam.

É claro que agora se pode interpretar isso num sentido marxista, e dizer que na época o cristianismo representou apenas uma consolação, quando devia ter sido uma revolução.

Mas penso que, de certa forma, já ultrapassamos essas fórmulas. O cristianismo estabeleceu novas relações entre senhores e escravos, de modo que já São Paulo podia dizer a um senhor: "Não faças mal ao teu escravo porque ele se tornou teu irmão" (cfr. Filémon).

Pode-se dizer que o elemento fundamental do cristianismo é a alegria. Não me refiro à alegria no sentido de um divertimento qualquer, que pode ter o desespero como pano de fundo; como sabemos, muitas vezes o divertimento é a máscara do desespero. Refiro-me à verdadeira alegria. É uma alegria que está presente numa existência difícil e torna possível que essa existência seja vivida. A história de Cristo começa, segundo o Evangelho, com o Anjo que diz a Maria: "Alegra-te!" Na noite do Natal, os anjos dizem outra vez: "Eis que vos anunciamos uma grande alegria". E Jesus diz: "Anuncio-vos a Boa Nova".
Portanto, o núcleo de que aqui se trata é sempre: "Anuncio-vos uma grande alegria. Deus está presente, sois amados, e isso está estabelecido para sempre" [v].

Alegria e confiança.

Uma observação que sempre faço é que a alegria genuína se tornou mais rara. A alegria está hoje, por assim dizer, cada vez mais sobrecarregada de hipotecas morais e ideológicas. Quando uma pessoa se alegra, até tem medo de faltar à solidariedade com os muitos que sofrem. Pensa-se: Na realidade, nem posso alegrar-me num mundo em que existe tanta miséria, tanta injustiça.

Posso compreender isso. Estamos perante uma atitude também moral. Contudo, essa atitude é um erro. Porque o mundo não se torna melhor graças à perda da alegria: e, pelo contrário, o "não se alegrar" por causa do sofrimento também não ajuda os que sofrem.

Mas, por outro lado, o mundo precisa de pessoas que descubram o bem, que se alegrem por causa dele e que, desse modo, encontrem a energia e a coragem para o bem.
A alegria, portanto, não exclui a solidariedade. Quando é correcta, quando não é egoísta, quando vem da percepção do bem, então também quer comunicar-se e se perpetua. O que volta sempre a chamar-me a atenção é que se encontram, nos bairros pobres, por exemplo, na América do Sul, muito mais pessoas rindo, alegres, do que entre nós.

Manifestamente, apesar de destituídas de tudo, ainda têm a percepção do bem, que as orienta como força inspiradora.

Nessa medida, precisamos outra vez dessa confiança originária, que, em última análise, só a fé pode dar: [a confiança de saber] que, no fundo, o mundo é bom, que Deus está presente e é bom, que é bom viver e ser humano. Daí vem também a coragem para a alegria, que, por sua vez, leva a que outros se alegrem e possam receber a Boa Nova [vi].


Nossa Senhora



Nossa Senhora, a Encarnação e as mulheres.

Alguém poderia objectar que esta [a igreja de Santa Maria Maior, em Roma] não é uma igreja dedicada à Natividade, e, portanto, uma igreja dedicada a Cristo, mas sim um templo mariano, a primeira igreja dedicada a Maria em Roma e em todo o Ocidente. Essa objecção indicaria, porém, que quem a formula não entendeu precisamente aquilo que é essencial, tanto na piedade mariana da Igreja como no mistério do Natal.

O Natal tem na estrutura interna da fé cristã, um significado muito particular.
Não o celebramos da mesma maneira como se recordam os dias em que nasceram os grandes homens, porque a nossa relação com Cristo é também muito diferente da admiração que experimentamos diante dos grandes homens. O que interessa neles é a sua obra: os pensamentos que pensaram e deixaram escritos, a arte que criaram e as instituições que nos legaram. Essa obra pertence-lhes, não procede das suas mães, pelas quais só nos interessamos na medida em que podem fornecer-nos algum elemento que contribua para explicar a obra mencionada.

Mas Cristo não conta para nós apenas pela sua obra, pelo que fez, mas sobretudo pelo que era e pelo que é, na totalidade da sua pessoa. Conta para nós de uma maneira distinta da de qualquer outro homem, porque Ele não é simplesmente um homem. Conta porque nEle a terra e o céu se tocam, e assim Deus se faz nEle tangível para nós como homem.
Os Padres da Igreja denominaram Maria a terra santa da qual Ele foi formado enquanto homem; e o que é mais maravilhoso é que, em Cristo, Deus permanece para sempre unido a esta terra. Agostinho expressou certa vez este mesmo pensamento da seguinte forma: Cristo não quis um pai humano para manter visível a sua filiação com respeito a Deus, mas quis uma Mãe humana. "Quis receber em si o género masculino, e dignou-se honrar o feminino na sua Mãe... Se Cristo homem tivesse aparecido sem enaltecer o género das mulheres, estas teriam que desesperar de si... Mas Ele honrou os dois, enalteceu os dois, assumiu os dois. Nasceu de mulher. Não desespereis, homens: Cristo dignou-se ser homem. Não desespereis, mulheres: Cristo dignou-se nascer da mulher. Ambos os géneros colaboram para a salvação, quer se trate do masculino, quer do feminino: na fé, não há homem nem mulher".

Digamo-lo de novo de outra maneira: no drama da salvação, não é que Maria tenha tido que desempenhar um papel para depois calar-se, como alguém cuja fala terminou. A Encarnação a partir da mulher não é um papel que se tenha encerrado depois de um breve tempo, mas a estada permanente de Deus na terra, com o ser humano, connosco, que somos terra. Daí que a festa do Natal seja ao mesmo tempo uma festa de Maria e uma festa de Cristo, e é por isso que uma autêntica igreja dedicada ao Natal deve ser um templo mariano [vii].

(cont.)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Homilia da Missa pelo início do pontificado, Vaticano, 24.04.2005.
[ii] Deixar Deus trabalhar, em l’Osservatore Romano, 06.10.2002
[iii] Las catorze encíclicas de Juan Pablo II, discurso no Congresso de homenagem aos vinte e cinco anos de Pontificado de João Paulo II, Pontifícia Universidade Lateranense, 07-09.05.2004
[iv] Sentido del Adviento
[v] O sal da terra, págs. 23-24
[vi] O sal da terra, págs. 30-31
[vii] Meditación para el tiempo de Navidad, em Humanitas, n. 12