Padroeiros do blog: SÃO PAULO; SÃO TOMÁS DE AQUINO; SÃO FILIPE DE NÉRI; SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ
04/03/2014
Evangelho do dia e comentário
28 Pedro
começou a dizer-lhe: «Eis que deixámos tudo e Te seguimos». 29 Jesus
respondeu: «Em verdade vos digo: Ninguém há que tenha deixado a casa, os
irmãos, as irmãs, o pai, a mãe, os filhos, ou as terras, por causa de Mim e do
Evangelho, 30 que não receba o cêntuplo, mesmo nesta vida, em casas,
irmãos, irmãs, mães, filhos, e terras, juntamente com as perseguições, e no
tempo futuro a vida eterna. 31 Porém, muitos dos primeiros serão os
últimos, e os últimos serão os primeiros».
Comentário:
A atenção de
uma grande maioria de pessoas pode focar-se numa realidade comum: não se aplica
a nós que temos pouco e, nalguns casos, até o essencial nos falta.
É uma visão
errada porque desprendimento é uma atitude do espírito que conduz a um
comportamento.
Não é nem
miserabilismo nem filantropia, mas é equilíbrio, critério, justiça, parcimónia,
temperança.
Por isso
mesmo, o ter pouco ou muito não tem que ver com desprendimento.
(ama,
comentário sobre Mc 10, 28—31. 2013.05.28)
Leitura espiritual para Mar 04
A leitura tem feito muitos santos.
(S. josemaria, Caminho 116)
Está aconselhada a leitura espiritual diária de mais ou menos 15 minutos. Além da leitura do novo testamento, (seguiu-se o esquema usado por P. M. Martinez em “NOVO TESTAMENTO” Editorial A. O. - Braga) devem usar-se textos devidamente aprovados. Não deve ser leitura apressada, para “cumprir horário”, mas com vagar, meditando, para que o que lemos seja alimento para a nossa alma.
Evangelho: Lc 3, 21-38; 4, 1-13
21 Ora aconteceu que,
recebendo o baptismo todo o povo, foi baptizado também Jesus, e estando em
oração, abriu-se o céu 22 e desceu sobre Ele o Espírito Santo em
forma corpórea como uma pomba. E ouviu-se do céu esta voz: «Tu és o Meu Filho
muito amado; em Ti pus as Minhas complacências». 23 Jesus, quando
começou o Seu ministério, tinha cerca de trinta anos, sendo filho, como se
julgava, de José, filho de Heli, filho de Matã, 24 filho de Levi,
filho de Melqui, filho de Jane, filho de José, 25 filho de Matatias,
filho de Amós, filho de Naum, filho de Hesli, filho de Nagé, 26
filho de Maat, filho de Matatias, filho de Semei, filho de Josech, filho de
Jodá, 27 filho de Joanão, filho de Resa, filho de Zorobabel, filho
de Salatiel, filho de Neri, 28 filho de Melqui, filho de Adi, filho
de Cosão, filho de Elmadão, filho de Er, 29 filho de Jesus, filho de
Eliezer, filho de Jorim, filho de Matã, filho de Levi, 30 filho de
Simeão, filho de Judá, filho de José, filho de Jonão, filho de Eliacim, 31
filho de Meleá, filho de Mená, filho de Matatão, filho de Natão, filho de
David, 32 filho de Jessé, filho de Obed, filho de Booz, filho de
Salá, filho de Naasson, 33 filho de Aminadab, filho de Admin, filho
de Arni, filho de Esron, filho de Farés, filho de Judá, 34 filho de
Jacob, filho de Isaac, filho de Abraão, filho de Taré, filho de Nacor, 35
filho de Seruch, filho de Ragau, filho de Falec, filho de Eber, filho de Salá, 36
filho de Cainão, filho de Arfaxad, filho de Sem, filho de Noé, filho de Lamech,
37 filho de Matusalém, filho de Henoch, filho de Jared, filho de
Maleleel, filho de Cainão, 38 filho de Enós, filho de Set, filho de
Adão, filho de Deus.
4 1 Jesus, cheio do Espírito Santo, partiu do Jordão e foi
conduzido pelo Espírito ao deserto, 2 onde esteve quarenta dias, e
foi tentado pelo demónio. Não comeu nada nestes dias; passados eles, teve fome.
3 Então o demónio disse-Lhe: «Se és filho de Deus, diz a esta pedra
que se converta em pão». 4 Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: “Nem
só de pão vive o homem”». 5 O demónio conduziu-O então a um alto
monte, mostrou-Lhe, num momento, todos os reinos da terra, 6 e
disse-Lhe: «Dar-Te-ei o poder de tudo isto, e a glória destes reinos, porque
eles foram-me dados, e eu dou-os a quem quiser. 7 Portanto, se Tu me
adorares, todos eles serão Teus». 8 Jesus respondeu-lhe: «Está
escrito: “Adorarás o Senhor teu Deus, e só a Ele servirás”». 9
Levou-O também a Jerusalém, pô-l'O sobre o pináculo do templo, e disse-Lhe: «Se
és filho de Deus, lança-Te daqui abaixo; 10 porque está escrito que
“Deus mandou aos Seus anjos que Te guardem, 11 e que Te sustenham em
suas mãos, para não magoares o Teu pé em nenhuma pedra”». 12 Jesus
respondeu-lhe: «Também foi dito: “Não tentarás o Senhor teu Deus”». 13
Terminada toda esta espécie de tentação, o demónio retirou-se d'Ele até outra
ocasião.
EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
EVANGELII GAUDIUM
DO SANTO PADRE FRANCISCO
AO EPISCOPADO, AO CLERO ÀS PESSOAS CONSAGRADAS E AOS
FIÉIS LEIGOS
SOBRE
O ANÚNCIO DO EVANGELHO NO MUNDO ACTUAL
Capítulo
I
A TRANSFORMAÇÃO
MISSIONÁRIA DA IGREJA
IV. A missão que se
encarna nas limitações humanas
40.
A Igreja, que é discípula missionária, tem necessidade de crescer na sua
interpretação da Palavra revelada e na sua compreensão da verdade. A tarefa dos
exegetas e teólogos ajuda a «amadurecer o juízo da Igreja». 42 Embora
de modo diferente, fazem-no também as outras ciências. Referindo-se às ciências
sociais, por exemplo, João Paulo II disse que a Igreja presta atenção às suas
contribuições «para obter indicações concretas que a ajudem no cumprimento da
sua missão de Magistério». 43 Além disso, dentro da Igreja, há
inúmeras questões à volta das quais se indaga e reflecte com grande liberdade.
As diversas linhas de pensamento filosófico, teológico e pastoral, se se deixam
harmonizar pelo Espírito no respeito e no amor, podem fazer crescer a Igreja,
enquanto ajudam a explicitar melhor o tesouro riquíssimo da Palavra. A quantos
sonham com uma doutrina monolítica defendida sem nuances por todos, isto poderá
parecer uma dispersão imperfeita; mas a realidade é que tal variedade ajuda a
manifestar e desenvolver melhor os diversos aspectos da riqueza inesgotável do
Evangelho. 44
41.
Ao mesmo tempo, as enormes e rápidas mudanças culturais exigem que prestemos
constante atenção ao tentar exprimir as verdades de sempre numa linguagem que
permita reconhecer a sua permanente novidade; é que, no depósito da doutrina
cristã, «uma coisa é a substância (...) e outra é a formulação que a reveste». 45
Por vezes, mesmo ouvindo uma linguagem totalmente ortodoxa, aquilo que os fiéis
recebem, devido à linguagem que eles mesmos utilizam e compreendem, é algo que
não corresponde ao verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo. Com a santa intenção
de lhes comunicar a verdade sobre Deus e o ser humano, nalgumas ocasiões,
damos-lhes um falso deus ou um ideal humano que não é verdadeiramente cristão.
Deste modo, somos fiéis a uma formulação, mas não transmitimos a substância.
Este é o risco mais grave. Lembremo-nos de que «a expressão da verdade pode ser
multiforme. E a renovação das formas de expressão torna-se necessária para
transmitir ao homem de hoje a mensagem evangélica no seu significado imutável».
46
42.
Isto possui uma grande relevância no anúncio do Evangelho, se temos
verdadeiramente a peito fazer perceber melhor a sua beleza e fazê-la acolher
por todos. Em todo o caso, não poderemos jamais tornar os ensinamentos da
Igreja uma realidade facilmente compreensível e felizmente apreciada por todos;
a fé conserva sempre um aspecto de cruz, certa obscuridade que não tira firmeza
à sua adesão. Há coisas que se compreendem e apreciam só a partir desta adesão
que é irmã do amor, para além da clareza com que se possam compreender as
razões e os argumentos. Por isso, é preciso recordar-se de que cada ensinamento
da doutrina deve situar-se na atitude evangelizadora que desperte a adesão do
coração com a proximidade, o amor e o testemunho.
43.
No seu constante discernimento, a Igreja pode chegar também a reconhecer
costumes próprios não directamente ligados ao núcleo do Evangelho, alguns muito
radicados no curso da história, que hoje já não são interpretados da mesma
maneira e cuja mensagem habitualmente não é percebida de modo adequado. Podem
até ser belos, mas agora não prestam o mesmo serviço à transmissão do
Evangelho. Não tenhamos medo de os rever! Da mesma forma, há normas ou
preceitos eclesiais que podem ter sido muito eficazes noutras épocas, mas já
não têm a mesma força educativa como canais de vida. São Tomás de Aquino
sublinhava que os preceitos dados por Cristo e pelos Apóstolos ao povo de Deus
«são pouquíssimos». 47 E, citando Santo Agostinho, observava que os
preceitos adicionados posteriormente pela Igreja se devem exigir com moderação,
«para não tornar pesada a vida aos fiéis» nem transformar a nossa religião numa
escravidão, quando «a misericórdia de Deus quis que fosse livre». 48
Esta advertência, feita há vários séculos, tem uma actualidade tremenda.
Deveria ser um dos critérios a considerar, quando se pensa numa reforma da
Igreja e da sua pregação que permita realmente chegar a todos.
44.
Aliás, tanto os Pastores como todos os fiéis que acompanham os seus irmãos na
fé ou num caminho de abertura a Deus não podem esquecer aquilo que ensina, com
muita clareza, o Catecismo da Igreja Católica: «A imputabilidade e
responsabilidade dum acto podem ser diminuídas, e até anuladas, pela
ignorância, a inadvertência, a violência, o medo, os hábitos, as afeições
desordenadas e outros factores psíquicos ou sociais». 49
Portanto,
sem diminuir o valor do ideal evangélico, é preciso acompanhar, com
misericórdia e paciência, as possíveis etapas de crescimento das pessoas, que
se vão construindo dia após dia. 5 Aos sacerdotes, lembro que o
confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da misericórdia
do Senhor que nos incentiva a praticar o bem possível. Um pequeno passo, no
meio de grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a
vida externamente correcta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias
dificuldades. A todos deve chegar a consolação e o estímulo do amor salvífico
de Deus, que opera misteriosamente em cada pessoa, para além dos seus defeitos
e das suas quedas.
45.
Vemos assim que o compromisso evangelizador se move por entre as limitações da
linguagem e das circunstâncias. Procura comunicar cada vez melhor a verdade do
Evangelho num contexto determinado, sem renunciar à verdade, ao bem e à luz que
pode dar quando a perfeição não é possível. Um coração missionário está
consciente destas limitações, fazendo-se «fraco com os fracos (...) e tudo para
todos» (1 Cor 9, 22). Nunca se fecha, nunca se refugia nas próprias seguranças,
nunca opta pela rigidez auto-defensiva. Sabe que ele mesmo deve crescer na
compreensão do Evangelho e no discernimento das sendas do Espírito, e assim não
renuncia ao bem possível, ainda que corra o risco de sujar-se com a lama da
estrada.
V. Uma mãe de coração
aberto
46.
A Igreja «em saída» é uma Igreja com as portas abertas. Sair em direcção aos
outros para chegar às periferias humanas não significa correr pelo mundo sem
direcção nem sentido. Muitas vezes é melhor diminuir o ritmo, pôr de parte a
ansiedade para olhar nos olhos e escutar, ou renunciar às urgências para
acompanhar quem ficou caído à beira do caminho. Às vezes, é como o pai do filho
pródigo, que continua com as portas abertas para, quando este voltar, poder
entrar sem dificuldade.
47.
A Igreja é chamada a ser sempre a casa aberta do Pai. Um dos sinais concretos
desta abertura é ter, por todo o lado, igrejas com as portas abertas. Assim, se
alguém quiser seguir uma moção do Espírito e se aproximar à procura de Deus,
não esbarrará com a frieza duma porta fechada. Mas há outras portas que também
não se devem fechar: todos podem participar de alguma forma na vida eclesial,
todos podem fazer parte da comunidade, e nem sequer as portas dos sacramentos
se deveriam fechar por uma razão qualquer. Isto vale sobretudo quando se trata
daquele sacramento que é a «porta»: o Baptismo. A Eucaristia, embora constitua
a plenitude da vida sacramental, não é um prémio para os perfeitos, mas um
remédio generoso e um alimento para os fracos. 51 Estas convicções
têm também consequências pastorais, que somos chamados a considerar com
prudência e audácia. Muitas vezes agimos como controladores da graça e não como
facilitadores. Mas a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há
lugar para todos com a sua vida fadigosa.
48.
Se a Igreja inteira assume este dinamismo missionário, há-de chegar a todos,
sem excepção. Mas, a quem deveria privilegiar? Quando se lê o Evangelho,
encontramos uma orientação muito clara: não tanto aos amigos e vizinhos ricos,
mas sobretudo aos pobres e aos doentes, àqueles que muitas vezes são
desprezados e esquecidos, «àqueles que não têm com que te retribuir» (Lc 14,
14). Não devem subsistir dúvidas nem explicações que debilitem esta mensagem
claríssima. Hoje e sempre, «os pobres são os destinatários privilegiados do
Evangelho», 52 e a evangelização dirigida gratuitamente a eles é
sinal do Reino que Jesus veio trazer. Há que afirmar sem rodeios que existe um
vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os deixemos jamais
sozinhos!
49.
Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui,
para toda a Igreja, aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos
de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter
saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se
agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o
centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se
alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é
que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da
amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um
horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos
mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa protecção,
nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos
sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus
repete-nos sem cessar: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Mc 6, 37).
Capítulo
II
NA CRISE DO COMPROMISSO
COMUNITÁRIO
50.
Antes de falar de algumas questões fundamentais relativas à acção
evangelizadora, convém recordar brevemente o contexto em que temos de viver e
agir. É habitual hoje falar-se dum «excesso de diagnóstico», que nem sempre é
acompanhado por propostas resolutivas e realmente aplicáveis. Por outro lado,
também não nos seria de grande proveito um olhar puramente sociológico, que
tivesse a pretensão, com a sua metodologia, de abraçar toda a realidade de
maneira supostamente neutra e asséptica. O que quero oferecer situa-se mais na
linha dum discernimento evangélico. É o olhar do discípulo missionário que «se
nutre da luz e da força do Espírito Santo». 53
51.
Não é função do Papa oferecer uma análise detalhada e completa da realidade
contemporânea, mas animo todas as comunidades a «uma capacidade sempre
vigilante de estudar os sinais dos tempos». 54 Trata-se duma
responsabilidade grave, pois algumas realidades hodiernas, se não encontrarem
boas soluções, podem desencadear processos de desumanização tais que será
difícil depois retroceder. É preciso esclarecer o que pode ser um fruto do
Reino e também o que atenta contra o projecto de Deus. Isto implica não só
reconhecer e interpretar as moções do espírito bom e do espírito mau, mas
também – e aqui está o ponto decisivo – escolher as do espírito bom e rejeitar
as do espírito mau. Pressuponho as várias análises que ofereceram os outros
documentos do Magistério universal, bem como as propostas pelos episcopados
regionais e nacionais. Nesta Exortação, pretendo debruçar-me, brevemente e numa
perspectiva pastoral, apenas sobre alguns aspectos da realidade que podem deter
ou enfraquecer os dinamismos de renovação missionária da Igreja, seja porque afectam
a vida e a dignidade do povo de Deus, seja porque incidem sobre os sujeitos que
mais directamente participam nas instituições eclesiais e nas tarefas de
evangelização.
I.
Alguns desafios do mundo actual
52.
A humanidade vive, neste momento, uma viragem histórica, que podemos constatar
nos progressos que se verificam em vários campos. São louváveis os sucessos que
contribuem para o bem-estar das pessoas, por exemplo, no âmbito da saúde, da
educação e da comunicação. Todavia não podemos esquecer que a maior parte dos
homens e mulheres do nosso tempo vive o seu dia a dia precariamente, com
funestas consequências. Aumentam algumas doenças. O medo e o desespero
apoderam-se do coração de inúmeras pessoas, mesmo nos chamados países ricos. A
alegria de viver frequentemente se desvanece; crescem a falta de respeito e a
violência, a desigualdade social torna-se cada vez mais patente. É preciso
lutar para viver, e muitas vezes viver com pouca dignidade. Esta mudança de
época foi causada pelos enormes saltos qualitativos, quantitativos, velozes e
acumulados que se verificam no progresso científico, nas inovações tecnológicas
e nas suas rápidas aplicações em diversos âmbitos da natureza e da vida.
Estamos na era do conhecimento e da informação, fonte de novas formas dum poder
muitas vezes anónimo.
Não
a uma economia da exclusão
53.
Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar o valor
da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão
e da desigualdade social». Esta economia mata. Não é possível que a morte por
enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de
dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o facto de se lançar
comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social.
Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o
poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da
população vêem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas,
num beco sem saída. O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de
consumo que se pode usar e depois lançar fora. Assim teve início a cultura do
«descartável», que aliás chega a ser promovida. Já não se trata simplesmente do
fenómeno de exploração e opressão, mas duma realidade nova: com a exclusão,
fere-se, na própria raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive
nas favelas, na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos
não são «explorados», mas resíduos, «sobras».
54.
Neste contexto, alguns defendem ainda as teorias da «recaída favorável» que
pressupõem que todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado,
consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta
opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e
ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismos
sacralizados do sistema económico reinante. Entretanto, os excluídos continuam
a esperar. Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros ou mesmo
entusiasmar-se com este ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização da
indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer
ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem
nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de
outrem, que não nos incumbe. A cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de
perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos,
enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um
mero espectáculo que não nos incomoda de forma alguma.
__________________________________
Notas:
42
Conc. Ecum. Vat.II,Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 12.
43
Motu proprio Socialium Scientiarum (1 de Janeiro de 1994): AAS 86 (1994), 209.
44
São Tomás de Aquino sublinhava que a multiplicidade e a distinção «provêm da
intenção do primeiro agente», d’Aquele que quis que, «aquilo que faltasse a
cada coisa para representar a bondade divina, fosse compensado pelas outras»,
porque a sua bondade «não poderia ser representada convenientemente por uma só
criatura» (Summa theologiae I, q. 47, a. 1). Por isso, precisamos de captar a
variedade das coisas nas suas múltiplas relações (cf. ibid. I, q. 47, a. 2, ad
1; q. 47, a. 3). Por análogas razões, temos necessidade de ouvir-nos uns aos
outros e completar-nos na nossa recepção parcial da realidade e do Evangelho.
45
João XXIII, Discurso na inauguração do Concílio Vaticano II (11 de Outubro de
1962), VI, 5: AAS 54 (1962), 792: «Est enim aliud ipsum depositum Fidei, seu
veritates, quae veneranda doctrina nostra continentur, aliud modus, quo eaedem
enuntiantur».
46
João Paulo II, Carta enc. Ut unum sint (25 de Maio de 1995), 19: AAS 87 (1995),
933.
47 Summa theologiae I-II, q.
107, a. 4.
48
Ibidem.
49
N.º 1735.
50
Cf. João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Familiaris consortio (22 de Novembro
de 1981), 34: AAS 74 (1982), 123-125.
51
«Devo recebê-lo sempre, para que sempre perdoe os meus pecados. Se peco
continuamente, devo ter sempre um remédio» (Santo Ambrósio, De Sacramentis, IV,
6, 28: PL 16, 464). «Aquele que comeu o maná, morreu; aquele que come deste
corpo, obterá o perdão dos seus pecados» (Ibid., IV, 5, 24: o. c., 463).
«Examinei a mim mesmo e reconheci-me indigno. Àqueles que assim falam, eu digo:
E quando sereis dignos? Então quando vos apresentareis diante de Cristo? E, se
os vossos pecados impedem de vos aproximar e se nunca parais de cair – quem
conhece os seus delitos?: diz o salmo – ficareis sem tomar parte na
santificação que vivifica para a eternidade?» (São Cirilo de Alexandria, In
Johannis evangelium, IV, 2: PG 73, 584-585).
52
Bento XVI, Discurso durante o encontro com o Episcopado Brasileiro (Catedral de
São Paulo – Brasil, 11 de Maio de 2007), 3: AAS 99 (2007), 428.
53
João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de Março de
1992), 10: AAS 84 (1992), 673.
Tratado dos vícios e pecados 26
Art. 4 ― Se na
sensualidade pode haver pecado mortal.
(II Sent., dist. XXIV; q. 3, a.
2, ad 3; De Verit., q. 25, a. 5; De Malo, q. 7, a. 6; Quodl. IV,
q. 11, a. 1)
O
quarto discute-se assim. ― Parece que na sensualidade pode haver pecado mortal.
1.
― Pois, o acto é conhecido pelo seu objecto. Ora, podemos pecar mortalmente em
relação aos objectos da sensualidade, assim, relativamente aos prazeres da
carne. Logo, um acto da sensualidade pode ser pecado mortal, que portanto, pode
existir na sensualidade.
2.
Demais. ― O pecado mortal é contrário à virtude. Ora, esta pode existir na
sensualidade, pois, a temperança e a fortaleza são virtudes das partes
irracionais, como diz o Filósofo 1. Logo, na sensualidade pode haver
pecado mortal, pois é natural dos contrários coexistirem no mesmo sujeito.
3.
Demais. ― O pecado venial é uma disposição para o mortal. Ora, a disposição e o
hábito coexistem no mesmo sujeito. Mas, existindo o pecado venial na
sensualidade, como já se disse, nela também pode existir o mortal.
Mas,
em contrário, diz Agostinho 2, e está na Glosa da Escritura, o
movimento desordenado da concupiscência, i. é, o pecado da sensualidade, pode
existir também nos que estão em graça 3, nos quais, entretanto, não
existe pecado mortal. Logo, o movimento desordenado da sensualidade não é
pecado mortal.
Assim como a desordem corruptora do princípio da vida corpórea causa a morte
do corpo, assim a que corrompe o princípio da vida espiritual, que é o fim
último, causa a morte espiritual do pecado mortal, como já dissemos (q. 72, a.
5). Ora, ordenar alguma coisa para o fim não pertence à sensualidade, mas só à
razão. Por outro lado, o afastar-se do fim também só pertence a quem pode
ordenar para ele. Logo, o pecado mortal não pode existir na sensualidade, mas,
só na razão.
DONDE
A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. ― O acto da sensualidade pode concorrer para o
pecado mortal, mas o acto deste não é mortal pelo que há nele de sensualidade,
senão pelo que tem de racional, pois, à razão compete ordenar para o fim. Donde,
o pecado mortal não se atribui à sensualidade mas à razão.
RESPOSTA
À SEGUNDA. ― O acto virtuoso não o é completamente só pelo que há nele de
sensualidade, mas antes, pelo que contém de razão e de virtude, à qual é
próprio o escolher, pois, o acto da virtude moral não existe sem a eleição. Donde
e sempre, esse acto, moralmente virtuoso, que aperfeiçoa a potência apetitiva,
é acompanhado do acto da prudência, que aperfeiçoa a potência racional. E o
mesmo se dá também com o pecado mortal, como já dissemos.
RESPOSTA
À TERCEIRA. ― A disposição mantém tríplice relação com o sujeito disposto. Às
vezes, ambos se identificam e coexistem no mesmo sujeito, assim, dizemos que a
ciência incoada é a disposição para a ciência perfeita. Outras vezes, coexistem
no mesmo sujeito, mas não se identificam, assim, o calor é a disposição para a
forma ígnea. Outras vezes enfim nem se identificam, nem coexistem no mesmo
sujeito, como se dá com coisas que se ordenam umas para as outras, de modo a
ser um meio para se chegar à outra, assim, a bondade da imaginação é uma
disposição para a ciência, existente no intelecto. Ora, deste modo, o pecado
venial, existente na sensualidade, pode ser uma disposição para o pecado
mortal, residente na razão.
Revisão da tradução portuguesa por ama
_______________________________________
Notas:
1.
III Ethic. (lect. XIX).
2.
I Retract. (cap. XXIII).
3.
Rm 7, 14.
Servir Nosso Senhor e os homens
Qualquer actividade – quer seja ou não
humanamente muito importante – tem de converter-se para ti num meio de servir
Nosso Senhor e os homens: aí está a verdadeira dimensão da sua importância. (Forja, 684)
Não me afasto da mais rigorosa verdade se vos
digo que Jesus continua agora a buscar pousada no nosso coração. Temos de Lhe
pedir perdão pela nossa cegueira pessoal, pela nossa ingratidão. Temos de Lhe
pedir a graça de nunca mais Lhe fechar a porta das nossas almas.
O Senhor não nos oculta que a obediência
rendida à vontade de Deus exige renúncia e entrega porque o amor não pede
direitos: quer servir. Ele percorreu primeiro o caminho. Jesus, como
obedecestes Tu? Usque ad mortem, mortem autem crucis, até à morte e morte de
Cruz. É preciso sair de nós mesmos, complicar a vida, perdê-la por amor de Deus
e das almas... Tu querias viver e que nada te acontecesse; mas Deus quis outra
coisa... Existem duas vontades: a tua vontade deve ser corrigida para se
identificar com a vontade de Deus, e não torcida a de Deus para se acomodar à
tua.
Com alegria, tenho visto muitas almas que
jogaram a vida – como Tu, Senhor, "usque ad mortem"! – para cumprir o
que a vontade de Deus lhes pedia, dedicando os seus esforços e o seu trabalho
profissional ao serviço da Igreja, pelo bem de todos os homens.
Aprendamos a obedecer, aprendamos a servir.
Não há maior fidalguia do que entregar-se voluntariamente ao serviço dos
outros. Quando sentimos o orgulho que referve dentro de nós, a soberba que nos leva
a pensar que somos super-homens, é o momento de dizer que não, de dizer que o
nosso único triunfo há-de ser o da humildade. Assim nos identificaremos com
Cristo na Cruz, não aborrecidos ou inquietos, nem com mau humor, mas alegres,
porque essa alegria, o esquecimento de nós mesmos, é a melhor prova de amor. (Cristo que passa, 19)
Temas para meditar 32
Vidas de Santos
Nota Histórica
Filho do rei da Polónia, nasceu no ano 1458. Praticou
de modo excelente as virtudes cristãs, especialmente a castidade e a bondade
para com os pobres. Teve um grande zelo pela promoção da fé e uma singular
devoção à Sagrada Eucaristia e a Nossa Senhora. Morreu vítima de tuberculose em
1484.
Dispõe dos seus tesouros segundo os preceitos do
Altíssimo
Uma caridade quase inacreditável, não fingida mas
sincera, inflamava o coração de Casimiro no amor de Deus pela acção do Espírito
divino; e de tal modo transbordava espontaneamente no amor do próximo, que nada
era para ele alegria maior, nada lhe era mais agradável, do que dar o que lhe
pertencia e dar-se a si próprio aos pobres de Cristo, aos peregrinos, aos
doentes, aos prisioneiros e aos atribulados.
Para as viúvas, os órfãos e os oprimidos, não era
apenas tutor e defensor: era pai, filho e irmão.
E seria necessário escrever uma longa história, se
quiséssemos referir cada uma das grandes obras com que demonstrou o seu amor
para com Deus e para com os homens.
Dificilmente se pode descrever ou imaginar o seu amor
pela justiça, a sua temperança, a sua prudência, a sua constância e fortaleza
de ânimo, precisamente naquela idade mais inconsiderada em que os homens
costumam ser mais impetuosos e inclinados para o mal.
Todos os dias persuadia o pai a governar com justiça o
reino e os povos que lhe estavam submetidos. E se às vezes acontecia, ou por
inércia ou pela fraqueza humana, que alguma coisa vinha negligenciada no
governo, nunca deixava de repreender o rei com delicadeza.
Abraçava e defendia como suas as causas dos pobres e
dos infelizes, e por isso o povo lhe chamava defensor dos pobres. E, apesar de
ser filho do rei e de nobre ascendência, nunca se mostrava orgulhoso a tratar
ou conversar com qualquer pessoa, por mais humilde que fosse de condição.
Preferiu sempre ser contado entre os humildes e pobres
de espírito, dos quais é o reino dos Céus, a ser considerado entre os ilustres
e poderosos deste século. Nunca ambicionou o poder; e quando o pai lho ofereceu
não o quis aceitar, temendo que o seu ânimo fosse ferido pelo aguilhão das
riquezas, a que Nosso Senhor Jesus Cristo chamou espinhos, ou pudesse ser
manchado pelo contágio das coisas terrenas.
Todos os da sua casa, os seus camareiros e secretários,
dos quais alguns ainda vivem, homens insignes e bons que o conheciam profundamente,
asseguram e testemunham que ele viveu em virgindade até ao fim dos seus dias.
(Da
Vida de São Casimiro, escrita por um autor quase contemporâneo, Cap. 2-3. Acta
Sanctorum Martii, 1, 347-348)
(SNL)
03/03/2014
Evangelho do dia e comentário
17 Tendo
saído para Se pôr a caminho, veio um homem a correr e, ajoelhando-se diante
d'Ele, perguntou-Lhe: «Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida
eterna?». 18 Jesus disse-lhe: «Porque Me chamas bom? Ninguém é bom
senão Deus. 19 Tu conheces os mandamentos: “Não mates, não cometas
adultério, não roubes, não digas falso testemunho, não cometas fraudes, honra
teu pai e tua mãe”». 20 Ele respondeu: «Mestre, todas estas coisas
tenho observado desde a minha mocidade». 21 Jesus olhou para ele com
afecto, e disse-lhe: «Uma coisa te falta: vende tudo quanto tens, dá-o aos
pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-Me». 22 Mas
ele, entristecido por estas palavras, retirou-se desgostoso, porque tinha
muitos bens. 23 Jesus, olhando em volta, disse aos discípulos: «Quão
dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!». 24 Os
discípulos ficaram atónitos com estas palavras. Mas, Jesus de novo lhes disse:
«Meus filhos, como é difícil entrarem no reino de Deus os que confiam nas
riquezas! 25 Mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha,
do que entrar um rico no reino de Deus». 26 Eles, cada vez mais
admirados, diziam uns para os outros: «Então quem pode salvar-se?». 27
Jesus, olhando para eles, disse: «Para os homens isto é impossível, mas não
para Deus, porque a Deus tudo é possível».
Comentário:
Este trecho de
S. Marcos tem sido glosado por muitos autores e pensadores cristãos a propósito
da vocação e, na verdade, é muito apropriado. Costuma focar-se sobretudo, a
necessidade do desprendimento como sendo fulcral para seguir a vocação quando
esta é seguir Cristo.
No entanto, tal como acontece no
Evangelho, a riqueza pessoal não impede de ir ter com Cristo com entusiasmo,
como este jovem que foi ter com Ele correndo.
E este primeiro passo é que é deveras
importante porque a graça e a misericórdia divinas, encontrarão
local propício para deitar raízes.
(ama, comentário
sobre Mc 10, 17-27, 2013.05.27)
Leitura espiritual para Mar 03
A leitura tem feito muitos santos.
(S. josemaria, Caminho 116)
Está aconselhada a leitura espiritual diária de mais ou menos 15 minutos. Além da leitura do novo testamento, (seguiu-se o esquema usado por P. M. Martinez em “NOVO TESTAMENTO” Editorial A. O. - Braga) devem usar-se textos devidamente aprovados. Não deve ser leitura apressada, para “cumprir horário”, mas com vagar, meditando, para que o que lemos seja alimento para a nossa alma.
Evangelho: Lc 3, 1-20
1 No ano décimo
quinto do império de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judeia,
Herodes tetrarca da Galileia, Filipe, seu irmão, tetrarca da Itureia e da
província da Traconítide, Lisânias tetrarca da Abilena2 sendo
pontífices Anás e Caifás, o Senhor falou a João, filho de Zacarias, no deserto.
3 E ele foi por toda a região do Jordão, pregando o baptismo de
penitência para a remissão dos pecados, 4 como está escrito no livro
das palavras do profeta Isaías: “Voz do que clama no deserto: Preparai o
caminho do Senhor, endireitai as suas veredas; 5 todo o vale será
terraplanado, todo o monte e colina serão arrasados, os caminhos tortuosos
tornar-se-ão direitos, os escabrosos planos; 6 e todo o homem verá a
salvação de Deus”. 7 Dizia, pois, às multidões que vinham para ser
por ele baptizadas: «Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que vos
ameaça? 8 Fazei, portanto, frutos dignos de penitência, e não
comeceis a dizer: Temos por pai Abraão. Porque eu vos digo que Deus é poderoso
para suscitar destas pedras filhos de Abraão. 9 Porque o machado já
está posto à raiz das árvores. Toda a árvore que não dá bom fruto será cortada
e lançada no fogo». 10 As multidões interrogavam-no, dizendo: «Que
devemos, pois, nós fazer?». 11 Respondendo, dizia-lhes: «Quem tem
duas túnicas, dê uma ao que não tem; e quem tem que comer, faça o mesmo». 12
Foram também publicanos, para serem baptizados, e disseram-lhe: «Mestre, que
devemos nós fazer?». 13 Ele respondeu-lhes: «Não exijais nada além
do que vos está fixado». 14 Interrogavam-no também os soldados: «E
nós, que faremos?». Respondeu-lhes: «Não façais violência a ninguém, nem
denuncieis falsamente, e contentai-vos com o vosso soldo». 15
Estando o povo na expectativa e pensando todos nos seus corações que talvez
João fosse o Cristo, 16 João respondeu, dizendo a todos: «Eu, na
verdade, baptizo-vos em água, mas virá um mais forte do que eu, a Quem não sou
digno de desatar as correias das sandálias; Ele vos baptizará no Espírito Santo
e no fogo; 17 tomará na Sua mão a pá, limpará a Sua eira e recolherá
o trigo no Seu celeiro, mas a palha queimá-la-á num fogo inextinguível». 18
Por muitas outras exortações anunciava ao povo a boa nova. 19 Porém,
o tetrarca Herodes, sendo repreendido por ele, por causa de Herodíades, mulher
de seu irmão e por causa de todos os males que tinha feito, 20
acrescentou a todos os outros crimes mais este: mandar meter João no cárcere.
EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
EVANGELII GAUDIUM
DO SANTO PADRE FRANCISCO
AO EPISCOPADO, AO CLERO ÀS PESSOAS CONSAGRADAS E AOS
FIÉIS LEIGOS
SOBRE
O ANÚNCIO DO EVANGELHO NO MUNDO ACTUAL
Capítulo
I
A TRANSFORMAÇÃO
MISSIONÁRIA DA IGREJA
II. Pastoral em conversão
25.
Não ignoro que hoje os documentos não suscitam o mesmo interesse que noutras
épocas, acabando rapidamente esquecidos. Apesar disso sublinho que, aquilo que
pretendo deixar expresso aqui, possui um significado programático e tem
consequências importantes. Espero que todas as comunidades se esforcem por
actuar os meios necessários para avançar no caminho duma conversão pastoral e
missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento, não nos
serve uma «simples administração». 21 Constituamo-nos em «estado
permanente de missão», 22 em todas as regiões da terra.
26.
Paulo VI convidou a alargar o apelo à renovação de modo que ressalte, com
força, que não se dirige apenas aos indivíduos, mas à Igreja inteira. Lembremos
este texto memorável, que não perdeu a sua força interpeladora: «A Igreja deve
aprofundar a consciência de si mesma, meditar sobre o seu próprio mistério
(...). Desta consciência esclarecida e operante deriva espontaneamente um
desejo de comparar a imagem ideal da Igreja, tal como Cristo a viu, quis e
amou, ou seja, como sua Esposa santa e imaculada (Ef 5, 27), com o rosto real
que a Igreja apresenta hoje. (…) Em consequência disso, surge uma necessidade
generosa e quase impaciente de renovação, isto é, de emenda dos defeitos, que
aquela consciência denuncia e rejeita, como se fosse um exame interior ao
espelho do modelo que Cristo nos deixou de Si mesmo». 23
O
Concílio Vaticano II apresentou a conversão eclesial como a abertura a uma
reforma permanente de si mesma por fidelidade a Jesus Cristo: «Toda a renovação
da Igreja consiste essencialmente numa maior fidelidade à própria vocação. (…)
A Igreja peregrina é chamada por Cristo a esta reforma perene. Como instituição
humana e terrena, a Igreja necessita perpetuamente desta reforma». 24
Há
estruturas eclesiais que podem chegar a condicionar um dinamismo evangelizador;
de igual modo, as boas estruturas servem quando há uma vida que as anima,
sustenta e avalia. Sem vida nova e espírito evangélico autêntico, sem
«fidelidade da Igreja à própria vocação», toda e qualquer nova estrutura se
corrompe em pouco tempo.
Uma
renovação eclesial inadiável
27.
Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os
costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se
tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo actual que à
auto-preservação. A reforma das estruturas, que a conversão pastoral exige, só
se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais
missionárias, que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja mais
comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de
«saída» e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus
oferece a sua amizade. Como dizia João Paulo II aos Bispos da Oceânia, «toda a
renovação na Igreja há-de ter como alvo a missão, para não cair vítima duma
espécie de introversão eclesial». 25
28.
A paróquia não é uma estrutura caduca; precisamente porque possui uma grande
plasticidade, pode assumir formas muito diferentes que requerem a docilidade e
a criatividade missionária do Pastor e da comunidade. Embora não seja
certamente a única instituição evangelizadora, se for capaz de se reformar e
adaptar constantemente, continuará a ser «a própria Igreja que vive no meio das
casas dos seus filhos e das suas filhas». 26 Isto supõe que esteja
realmente em contacto com as famílias e com a vida do povo, e não se torne uma
estrutura complicada, separada das pessoas, nem um grupo de eleitos que olham
para si mesmos. A paróquia é presença eclesial no território, âmbito para a
escuta da Palavra, o crescimento da vida cristã, o diálogo, o anúncio, a
caridade generosa, a adoração e a celebração. 27 Através de todas as
suas actividades, a paróquia incentiva e forma os seus membros para serem
agentes da evangelização. 28 É comunidade de comunidades, santuário
onde os sedentos vão beber para continuarem a caminhar, e centro de constante
envio missionário. Temos, porém, de reconhecer que o apelo à revisão e
renovação das paróquias ainda não deu suficientemente fruto, tornando-as ainda
mais próximas das pessoas, sendo âmbitos de viva comunhão e participação e
orientando-as completamente para a missão.
29.
As outras instituições eclesiais, comunidades de base e pequenas comunidades,
movimentos e outras formas de associação são uma riqueza da Igreja que o
Espírito suscita para evangelizar todos os ambientes e sectores. Frequentemente
trazem um novo ardor evangelizador e uma capacidade de diálogo com o mundo que
renovam a Igreja. Mas é muito salutar que não percam o contacto com esta realidade
muito rica da paróquia local e que se integrem de bom grado na pastoral
orgânica da Igreja particular. 29 Esta integração evitará que fiquem
só com uma parte do Evangelho e da Igreja, ou que se transformem em nómades sem
raízes.
30.
Cada Igreja particular, porção da Igreja Católica sob a guia do seu Bispo,
está, também ela, chamada à conversão missionária. Ela é o sujeito primário da
evangelização, 30 enquanto é a manifestação concreta da única Igreja
num lugar da terra e, nela, «está verdadeiramente presente e opera a Igreja de
Cristo, una, santa, católica e apostólica». 31 É a Igreja encarnada
num espaço concreto, dotada de todos os meios de salvação dados por Cristo, mas
com um rosto local. A sua alegria de comunicar Jesus Cristo exprime-se tanto na
sua preocupação por anunciá-Lo noutros lugares mais necessitados, como numa
constante saída para as periferias do seu território ou para os novos âmbitos
socioculturais. 32 Procura estar sempre onde fazem mais falta a luz
e a vida do Ressuscitado. 33 Para que este impulso missionário seja
cada vez mais intenso, generoso e fecundo, exorto também cada uma das Igrejas
particulares a entrar decididamente num processo de discernimento, purificação
e reforma.
31.
O Bispo deve favorecer sempre a comunhão missionária na sua Igreja diocesana,
seguindo o ideal das primeiras comunidades cristãs, em que os crentes tinham um
só coração e uma só alma (cf. Act 4, 32). Para isso, às vezes pôr-se-á à frente
para indicar a estrada e sustentar a esperança do povo, outras vezes
manter-se-á simplesmente no meio de todos com a sua proximidade simples e
misericordiosa e, em certas circunstâncias, deverá caminhar atrás do povo, para
ajudar aqueles que se atrasaram e sobretudo porque o próprio rebanho possui o
olfacto para encontrar novas estradas. Na sua missão de promover uma comunhão
dinâmica, aberta e missionária, deverá estimular e procurar o amadurecimento
dos organismos de participação propostos pelo Código de Direito Canónico 34
e de outras formas de diálogo pastoral, com o desejo de ouvir a todos, e não
apenas alguns sempre prontos a lisonjeá-lo. Mas o objectivo destes processos
participativos não há-de ser principalmente a organização eclesial, mas o sonho
missionário de chegar a todos.
32.
Dado que sou chamado a viver aquilo que peço aos outros, devo pensar também
numa conversão do papado. Compete-me, como Bispo de Roma, permanecer aberto às
sugestões tendentes a um exercício do meu ministério que o torne mais fiel ao
significado que Jesus Cristo pretendeu dar-lhe e às necessidades actuais da
evangelização. O Papa João Paulo II pediu que o ajudassem a encontrar «uma
forma de exercício do primado que, sem renunciar de modo algum ao que é
essencial da sua missão, se abra a uma situação nova». 35 Pouco
temos avançado neste sentido. Também o papado e as estruturas centrais da
Igreja universal precisam de ouvir este apelo a uma conversão pastoral. O
Concílio Vaticano II afirmou que, à semelhança das antigas Igrejas patriarcais,
as conferências episcopais podem «aportar uma contribuição múltipla e fecunda,
para que o sentimento colegial leve a aplicações concretas». 36 Mas
este desejo não se realizou plenamente, porque ainda não foi suficientemente
explicitado um estatuto das conferências episcopais que as considere como
sujeitos de atribuições concretas, incluindo alguma autêntica autoridade doutrinal.
37 Uma centralização excessiva, em vez de ajudar, complica a vida da
Igreja e a sua dinâmica missionária.
33.
A pastoral em chave missionária exige o abandono deste cómodo critério
pastoral: «fez-se sempre assim». Convido todos a serem ousados e criativos
nesta tarefa de repensar os objectivos, as estruturas, o estilo e os métodos
evangelizadores das respectivas comunidades. Uma identificação dos fins, sem
uma condigna busca comunitária dos meios para os alcançar, está condenada a
traduzir-se em mera fantasia. A todos exorto a aplicarem, com generosidade e
coragem, as orientações deste documento, sem impedimentos nem receios.
Importante é não caminhar sozinho, mas ter sempre em conta os irmãos e, de modo
especial, a guia dos Bispos, num discernimento pastoral sábio e realista.
III.
A partir do coração do Evangelho
34.
Se pretendemos colocar tudo em chave missionária, isso aplica-se também à
maneira de comunicar a mensagem. No mundo actual, com a velocidade das
comunicações e a selecção interessada dos conteúdos feita pelos mass-media, a
mensagem que anunciamos corre mais do que nunca o risco de aparecer mutilada e
reduzida a alguns dos seus aspectos secundários. Consequentemente, algumas
questões que fazem parte da doutrina moral da Igreja ficam fora do contexto que
lhes dá sentido. O problema maior ocorre quando a mensagem que anunciamos
parece então identificada com tais aspectos secundários, que, apesar de serem
relevantes, por si sozinhos não manifestam o coração da mensagem de Jesus
Cristo. Portanto, convém ser realistas e não dar por suposto que os nossos
interlocutores conhecem o horizonte completo daquilo que dizemos ou que eles podem
relacionar o nosso discurso com o núcleo essencial do Evangelho que lhe confere
sentido, beleza e fascínio.
35.
Uma pastoral em chave missionária não está obcecada pela transmissão
desarticulada de uma imensidade de doutrinas que se tentam impor à força de
insistir. Quando se assume um objectivo pastoral e um estilo missionário, que
chegue realmente a todos sem excepções nem exclusões, o anúncio concentra-se no
essencial, no que é mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo
tempo, mais necessário. A proposta acaba simplificada, sem com isso perder
profundidade e verdade, e assim se torna mais convincente e radiosa.
36.
Todas as verdades reveladas procedem da mesma fonte divina e são acreditadas
com a mesma fé, mas algumas delas são mais importantes por exprimir mais
directamente o coração do Evangelho. Neste núcleo fundamental, o que sobressai
é a beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e
ressuscitado. Neste sentido, o Concílio Vaticano II afirmou que «existe uma ordem
ou “hierarquia” das verdades da doutrina católica, já que o nexo delas com o
fundamento da fé cristã é diferente». 38 Isto é válido tanto para os
dogmas da fé como para o conjunto dos ensinamentos da Igreja, incluindo a
doutrina moral.
37.
São Tomás de Aquino ensinava que, também na mensagem moral da Igreja, há uma
hierarquia nas virtudes e acções que delas procedem. 39 Aqui o que
conta é, antes de mais nada, «a fé que actua pelo amor» (Gal 5, 6). As obras de
amor ao próximo são a manifestação externa mais perfeita da graça interior do
Espírito: «O elemento principal da Nova Lei é a graça do Espírito Santo, que se
manifesta através da fé que opera pelo amor». 40 Por isso afirma
que, relativamente ao agir exterior, a misericórdia é a maior de todas as virtudes:
«Em si mesma, a misericórdia é a maior das virtudes; na realidade, compete-lhe
debruçar-se sobre os outros e – o que mais conta – remediar as misérias
alheias. Ora, isto é tarefa especialmente de quem é superior; é por isso que se
diz que é próprio de Deus usar de misericórdia e é, sobretudo nisto, que se
manifesta a sua omnipotência». 41
38.
É importante tirar as consequências pastorais desta doutrina conciliar, que
recolhe uma antiga convicção da Igreja. Antes de mais nada, deve-se dizer que,
no anúncio do Evangelho, é necessário que haja uma proporção adequada. Esta
reconhece-se na frequência com que se mencionam alguns temas e nas acentuações
postas na pregação. Por exemplo, se um pároco, durante um ano litúrgico, fala
dez vezes sobre a temperança e apenas duas ou três vezes sobre a caridade ou
sobre a justiça, gera-se uma desproporção, acabando obscurecidas precisamente
aquelas virtudes que deveriam estar mais presentes na pregação e na catequese.
E o mesmo acontece quando se fala mais da lei que da graça, mais da Igreja que
de Jesus Cristo, mais do Papa que da Palavra de Deus.
39.
Tal como existe uma unidade orgânica entre as virtudes que impede de excluir
qualquer uma delas do ideal cristão, assim também nenhuma verdade é negada. Não
é preciso mutilar a integridade da mensagem do Evangelho. Além disso, cada
verdade entende-se melhor se a colocarmos em relação com a totalidade
harmoniosa da mensagem cristã: e, neste contexto, todas as verdades têm a sua
própria importância e iluminam-se reciprocamente. Quando a pregação é fiel ao
Evangelho, manifesta-se com clareza a centralidade de algumas verdades e fica
claro que a pregação moral cristã não é uma ética estóica, é mais do que uma
ascese, não é uma mera filosofia prática nem um catálogo de pecados e erros. O
Evangelho convida, antes de tudo, a responder a Deus que nos ama e salva,
reconhecendo-O nos outros e saindo de nós mesmos para procurar o bem de todos.
Este convite não há-de ser obscurecido em nenhuma circunstância! Todas as
virtudes estão ao serviço desta resposta de amor. Se tal convite não refulge
com vigor e fascínio, o edifício moral da Igreja corre o risco de se tornar um
castelo de cartas, sendo este o nosso pior perigo; é que, então, não estaremos
propriamente a anunciar o Evangelho, mas algumas acentuações doutrinais ou
morais, que derivam de certas opções ideológicas. A mensagem correrá o risco de
perder o seu frescor e já não ter «o perfume do Evangelho».
__________________________________________
Notas:
21
V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, Documento de
Aparecida (29 de Junho de 2007), 201.
22
Ibid., 551.
23
Carta enc. Ecclesiam suam (6 de Agosto de 1964), 10-12: AAS 56 (1964), 611-612.
24
Conc. Ecum. Vat.II, Decr. sobre o ecumenismo Unitatis redintegratio, 6.
25
Exort. ap. pós-sinodal Ecclesia in Oceania (22 de Novembro de 2001), 19: AAS 94
(2002), 390.
26
João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Christifideles laici (30 de Dezembro de
1988), 26: AAS 81 (1989), 438.
27
Cf. Propositio 26.
28
Cf. Propositio 44.
29
Cf. Propositio 26.
30
Cf. Propositio 41.
31
Conc. Ecum. Vat.II, Decr. sobre o múnus pastoral dos Bispos na Igreja Christus
Dominus, 11.
32
Cf. Bento XVI, Discurso por ocasião do 40° aniversário do Decreto «Ad gentes»
(11 de Março de 2006): AAS 98 (2006), 337.
33
Cf. Propositio 42.
34
Cf. câns. 460-468; 492-502; 511-514; 536-537.
35
Carta enc. Ut unum sint (25 de Maio de 1995), 95: AAS 87 (1995), 977-978.
36
Conc. Ecum. Vat.II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 23.
37
Cf. João Paulo II, Motu proprio Apostolos suos (21 de Maio de 1998): AAS 90
(1998), 641-658.
38
Conc. Ecum. Vat.II, Decr. sobre o ecumenismo Unitatis redintegratio, 11.
39 Cf. Summa theologiae I-II,
q. 66, a. 4-6.
40 Ibid. I-II, q. 108, a. 1.
41 Ibid. II-II, q. 30, a. 4. Cf.
ainda II-II, q. 40, a. 4, ad 1: «O nosso culto a Deus com sacrifícios e com
ofertas exteriores não é exercido em proveito d’Ele, mas nosso e do próximo. Na
realidade, Deus não precisa dos nossos sacrifícios, mas deseja que os mesmos
Lhe sejam oferecidos para nossa devoção e utilidade do próximo. Por isso a
misericórdia, pela qual se socorre a miséria alheia, é o sacrifício que mais
Lhe agrada, porque assegura mais de perto o bem do próximo».
Subscrever:
Mensagens (Atom)




