01/01/2023

Publicações em Fevereiro 11



 

DENTRO DO EVANGELHO

(Re Mc V, 21-43)

Qem é este Jairo que demonstra tal confiança em Jesus e no Seu Poder Divino que vence as “distâncias” da sua posição social e Lhe pede humildemente auxílio?

É um homem com coração, com sentimentos que ultrapassam todas as barreiras que alguma sociedade parece impor.

Quando um homem tem sentimentos puros e simples o caminho para o Coração de Jesus está aberto.

Porque é um homem assim, Jairo obtém o que pede.

Não ter medo de pedir a Deus o que julgamos precisar e que, temos a certeza, Ele pode dar-nos.

Se o não for Ele endireitará o que pedimos de acordo com a Sua Infinita Sabedoria para nos dar o que mais nos convém.

Vindo das Suas Mãos será sempre o melhore o mais conveniente.

 

Reflectindo

A Moderação é, talvez, uma virtude das mais difíceis de conseguir.

No fim e ao cabo, tudo se resumirá a pensar bem antes de reagir, íntima ou publicamente, se necessário pedir ajuda e conselho.

Resumindo: nunca reagir por incontrolável impulso.

 

 

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Publicações em Janeiro 1

 

 Evangelho

 

Mt XIX 16 - 30

 

O perigo das riquezas

16 Aproximou-se dele um jovem e disse-lhe: «Mestre, que hei-de fazer de bom, para alcançar a vida eterna?» 17 Jesus respondeu-lhe: «Porque me interrogas sobre o que é bom? Bom é um só. Mas, se queres entrar na vida eterna, cumpre os mandamentos.» 18 «Quais?» - perguntou ele. Retorquiu Jesus: Não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não levantarás falso testemunho, 19 honra teu pai e tua mãe; e ainda: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. 20 Disse-lhe o jovem: «Tenho cumprido tudo isto; que me falta ainda?» 21 Jesus respondeu: «Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.» 22 Ao ouvir isto, o jovem retirou-se contristado, porque possuía muitos bens. 23 Jesus disse, então, aos discípulos: «Em verdade vos digo que dificilmente um rico entrará no Reino do Céu. 24 Repito-vos: É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino do Céu.» 25 Ao ouvir isto, os discípulos ficaram estupefactos e disseram: «Então, quem pode salvar-se?» 26 Fixando neles o olhar, Jesus disse-lhes: «Aos homens é impossível, mas a Deus tudo é possível.»

 

Recompensa dos que seguem Jesus

 

27 Tomando a palavra, Pedro disse-lhe: «Nós deixámos tudo e seguimos-te. Qual será a nossa recompensa?» 28 Jesus respondeu-lhes: «Em verdade vos digo: No dia da regeneração de todas as coisas, quando o Filho do Homem se sentar no seu trono de glória, vós, que me seguistes, haveis de sentar-vos em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel. 29 E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá por herança a vida eterna. 30 Muitos dos primeiros serão os últimos, e muitos dos últimos serão os primeiros.»

 


Paciência

 

  A paciência é a virtude pela qual suportamos com ânimo os males.

Não seja que por perder a serenidade da alma abandonemos bens que nos hão-de levar a outros maiores. [1]

 

  O que é a paciência?

Quem pode responder melhor a esta pergunta que o impaciente?

Sim, há várias coisas que sabe.

 

Por exemplo:

  A sua falta traz-lhe sofrimento porque, habitualmente faz sofrer outros;

  Quer, agora, o que só estará disponível mais tarde;

  Esgota num ápice o que deveria durar algum tempo;

  Responde mesmo antes da pergunta estar completamente elaborada;

  Adianta-se quando deveria esperar;

  Começa sem ter acabado o que antes começou;

  Agita o que estava tranquilo;

  Desconfia do evidente;

  Pretende o que não lhe compete;

  Julga sem analisar;

  Precipita a conclusão;

         Não espera pelo resultado.

 

E, sofre ainda mais porque se dá conta que:

 

  É desagradável no trato;

  Cai com frequência no destempero de atitudes e linguagem;

  Dá-se conta do afastamento dos outros.

 

Continua a sofrer porque:

 

Perde oportunidades;

  Não presta a atenção que os outros merecem;

  Não tem uma trajectória recta;

  Ziguezagueia de emoções em emoções;

  Troca coisas importantes por ninharias;

  Muda de verdades essenciais para hipóteses efémeras.

  Na verdade, o impaciente, sofre muitíssimo porque não dando felicidade aos outros não a consegue para si próprio.

  Assim temos, exactamente, o que a paciência não é.

 

 

 



[1] Santo Agostinho, sobre a paciência, 2

31/12/2022

Publicações em Dezembro 31

  


Quase a terminar um ano a seguir de perto Jesus no Seu deambular diário pelas terras da Palestina resolvo fazer como que um "balanço" de quanto aconteceu - me aconteceu - neste "seguimento".

Não preciso fazer nenhum esforço porque tudo se me apresenta como que num filme tão nítido e detalhado que fico, embora siderado, tranquilo.

Em primeiríssimo lugar, tenho de admitir que a minha vida se modificou radicalmente.

Não tenho qualquer dúvida... sou outro homem diferente do que era.

Sim... eu lia o Evangelho diáriamente, é verdade, mas ficava-me por aí, bastava-me. Quando resolvi tentar introduzir-me no Evangelho "como um personagem mais" como aconselha um Santo dos nossos dias, tudo se modificou.

Para falar francamente... a princípio parecia-me como que um abuso, uma intromissão indesculpável mas, depois, insistindo sempre, fui sentindo um "à-vontade" que me tranquilizava.

O resultado? Bom... o resultado foi que comecei a  descobrir no Evangelho coisas sempre novas que estavam como que escondidas na leitura diária, por vezes apressada, dos textos.

Hoje vejo claramente que, graças a Deus, trilhei o caminho certo.

No meu viver diário - atrevo-me a dizer no viver diário de qualquer um - nada acontece por acaso - o acaso não existe tudo tem uma razão de ser - encontro a cada passo circunstâncias, factos... que sem esforço encontro no Evangelho.

Sim... é verdade! O Evangelho é a  História mais completa do ser humano, exactamente porque foi inspirada aos que o escreveram, pelo Próprio Criador.

Está lá tudo... as grandes obras, os êxitos, fracassos, dúvidas, certezas, actos de enorme coragem... outros de inadmissível cobardia... enfim o que sou e o quanto sou capaz de ser...

Esta constatação levou-me a uma realidade: o que faço, o que penso o que desejo está ali... no Evangelho!

Não tenho nem penso, faço ou desejo absolutamente nada novo, inédito, tudo já foi feito, desejado por alguém.

Convicto que estou desta realidade, penso que o melhor será tentar imitar os que procederam bem e, assim, alcançar o que realmente me interessa: a minha salvação eterna.

 

Reflectindo

 

Sinto-me perdido nos meus pensamentos sobre a Vida Eterna. Sei, estou habituado, com frequência diária mergulho no tema.Não... não se trata de morbidez mas, antes, de algo muito concreto, absolutamente real. Sei muito bem que no Baptismo recebi esse "passaporte", tu, António, a partir de agora não morrerás, és eterno.

Encaro com realidade o que me vai acontecendo ou, prefiro, pôr de lado essa "avaliação", talvez, esperando um momento mais favorável?

Se o fizer assim, cometo um disparate tremendo porque o que acontece agora tem de ser "avaliado" agora, imediatamente, porque não é garantido nem que volte a suceder igual, nem que venha a haver esse tal momento.

Considero que enquanto estou vivo a minha principal obrigação é viver, cada dia como se fosse o último, estar preparado, pronto para me apresentar ao meu Pai do Céu.

Este é, deve ser, o "meu trabalho", tudo o resto deverá ser para o conseguir.

 

 

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30/12/2022

Dentro do Evangelho

       



      Nicodemos

 

Sou servo de um membro do Sinédrio chamado Nicodemos e tenho-me dado conta que alguns dos meus colegas trocam conciliábulos entre si a propósito de um judeu que ultimamente tem provocado controvérsia um pouco por todo o lado.

O nome desse homem, natural de Belém na Judeia é Jesus.

De tal forma essa controvérsia foi crescendo que o Sinédrio tomou uma posição "oficial" sobre o assunto que, em suma, era: esse Jesus não era pessoa credível, desrespeitava a Lei, nomeadamente o Sábado, ensinava sem que tivesse autoridade para tal.

Juntamente havia notícias de actos extraordinários como curas de doentes que não passariam de "passes de magia" e muitas outras coisas condenáveis tal como dar-se com pecadores conhecidos e meretrizes.

Por isso mesmo o Sinédrio declarou esse Jesus como réprobo inaceitável.

Como Nicodemos me tratava muito bem e bastantes vezes conversava comigo, atrevi-me a falar-lhe sobre o assunto.

Depois de me ouvir disse-me que de facto se lhe levantavam numerosas dúvidas a respeito e por isso agendara um encontro com esse Jesus, encontro que desejava discreto e em segredo.

Convidou-me para o acompanhar.

No seguimento do convite feito acompanhei Nicodemos no seu encontro com Jesus; era de noite, de alguma forma o meu Amo queria que nada constasse.

Recomendou-me que visse o que visse ouvisse o que ouvisse mantivesse silêncio. (Como se preciso fora tal recomendação).

Na dobra de um caminho Jesus, sozinho,estava sentado num tronco caído à nossa espera.

Sem detença perguntou a Nicodemos o que queria.

O meu amo falou durante algum tempo sobretudo fazendo perguntas.

Quando acabou Jesus disse-lhe algo surpreendente "És Mestre em Israel e não sabes essas coisas"?

Nicodemos era um homem sério e correcto e por isso respondeu que se tinha inteirado dos ensinamentos que Jesus espalhava por toda a parte, que lhe pareciam justos e conforme a Lei, mas que havia algumas coisas que não entendia, principalmente «para entrar no Reino dos Céu é preciso nascer de novo», como é possível, dizia «a um homem sendo velho nascer de novo? Acaso pode reentrar no ventre da sua mãe?!»

Jesus, então explicou-lhe que é não é na carne mas no espírito que o homem que deseja alcançar o Reino do Céu tem de renascer. Voltar atrás, emendar o comportamento, perdoar as ofensas, amar a todos, mesmo os inimigos, considerar todos como seus iguais, como seus irmãos.

Passado mais algum tempo, perguntas e respostas, afastamo-nos.

No regresso o meu amo confessou-me com um suspiro do fundo do coração: 'Este caminho para o Reino dos Céus não é fácil de seguir mas, eu, estou disposto a tentar e a tudo fazer para que outros me sigam. Vejo claramente que só assim é possível alcançar a Felicidade Eterna’.

 

Reflectindo

 

A cama 28 da enfermaria do hospital onde passei a última semana estava ocupada por um homem de idade indefinida, mas, talvez, rondando os setenta anos. Um sujeito com aspecto rude, fechado num mutismo feroz, que comia com sofreguidão as refeições que lhe serviam até à última migalha.

No terceiro dia depois da minha cirurgia, ao fim tarde, um enfermeiro abeirou-se da sua cama e comunicou-lhe:

‘Amanhã, você, vai-se embora. Teve alta. Percebeu?’

O homem teve uma reacção extraordinária: disse apenas:

Estou fodido!

Fiquei a pensar naquilo até porque, pela noite fora o homem ia repetindo sem cessar:

Estou fodido?

Esta expressão era proferida com tal convicção que percebi que realmente vinha do fundo do seu íntimo mais recôndito como se o facto de ter “alta” no dia seguinte fosse uma catástrofe, algo terrível e sem remédio.

Na manhã seguinte, depois deter saído sem dar palavra a nenhum dos companheiros de enfermaria, chamei um enfermeiro e perguntei o que se passava.

Contou-me que o sujeito estava ali já há vinte dias tendo chegado num estado lastimoso e grave, tendo sido sujeito a uma cirurgia urgente à próstata e que se encontrava bem. Há muito que deveria ter tido “alta” mas tinham conseguido mantê-lo ali por mais umas semanas porque se tratava de um pobre homem, sem recursos, morando sozinho num casebre sem um mínimo de condições e que tinha sido trazido para o hospital por um amigo – miserável como ele – num triciclo destes com uma caixa aberta.

A Segurança Social tinha sido alertada e, só agora, parece, iriam acompanhar a situação.

Fiquei envergonhado, senti-me rasteiro e tão “pouca coisa”!

Transportado na caixa de um triciclo!

Lembrei-me daquele outro que os companheiros desceram por um buraco aberto no telhado e colocaram aos pés de Jesus;

Da minha casa confortável onde nada me falta;

Das minhas Filhas, os meus Netos, os meus amigos que me telefonam, fazem companhia, se interessam por mim;

Do meu automóvel que me leva onde eu quero com conforto e segurança; E senti-me ainda mais rasteiro e “tão pouca coisa”, porque aquele homem era – é – um filho de Deus como eu só que mais genuíno, sincero, sem sonhos nem ambições e estava dramaticamente fodido, porque iam acabar a cama confortável do hospital, a assistência da enfermagem, as refeições quentes.

Para ele, aquele “grito da alma”: ‘estou fodido’, significava o fim de um sonho, de um intervalo de um mês na sua vida miserável, um grito que significava: acabou-se!

Esta história – verdadeira, repito – termina com a chegada, umas horas mais tarde, do tal amigo que o vinha buscar ao hospital no triciclo e que quando lhe disseram que o outro já se tinha ido embora saiu a correr para tentar encontra-lo. O triciclo estava à porta do hospital para os levar de volta para a vida real, concreta, que ambos conheciam bem.

O amigo não falhara, não faltara ao seu amigo!

Aquela palavra – que talvez nos choque porque somos bem-educados, correctos, impecáveis – tem um peso de toneladas de miséria e uma dimensão de hectares de cicatrizes, marcas e sinais de uma vida difícil, sempre no limite da sobrevivência.

Não… nós não a utilizamos porque preferimos lamentar-nos porque nos falta qualquer coisa, ou não recebemos aquele telefonema, ou pura e simplesmente estamos fartos, cansados, impacientes com a “maçada” da cirurgia, do hospital, da recuperação que deveria ser instantânea, imediata, sem dores nem incómodos.

Passado algum tempo, senti-me melhor porque me atrevi a pensar que, pelo menos uma vez na sua vida, aquele homem da cama 28, tivera alguém que rezou por ele e deu graças por lhe ter dado a oportunidade de reconhecer o OUTRO, o IRMÂO, o PRÓXIMO.

 

  

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