Padroeiros do blog: SÃO PAULO; SÃO TOMÁS DE AQUINO; SÃO FILIPE DE NÉRI; SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ
15/03/2021
Pequena agenda do cristão
14/03/2021
São Josemaria - Textos
Dar
é próprio dos apaixonados
O teu talento, a tua
simpatia, as tuas condições... perdem-se; não te deixam aproveitá-las. – Pensas
bem nestas palavras de um autor espiritual: "Não se perde o incenso que se
oferece a Deus. – Mais se honra o Senhor com o abatimento dos teus talentos do
que com o seu uso vão". (Caminho, 684)
E, abrindo os seus tesouros,
ofereceram-lhe presentes de ouro, incenso e mirra. Detenhamo-nos um pouco para
entender este passo do Santo Evangelho. Como é possível que nós, que nada somos
e nada valemos, ofereçamos alguma coisa a Deus? Diz a Escritura: toda a dádiva e
todo o dom perfeito vem do alto. O homem não consegue descobrir plenamente a
profundidade e a beleza dos dons do Senhor: se tu conhecesses o dom de Deus...
– responde Jesus à mulher samaritana. Jesus Cristo ensinou-nos a esperar tudo
do Pai, a procurar antes de mais o Reino de Deus e a sua justiça, porque tudo o
resto se nos dará por acréscimo e Ele conhece bem as nossas necessidades. Na
economia da salvação, o nosso Pai cuida de cada alma com amor e delicadeza:
cada um recebeu de Deus o seu próprio dom; uns de um modo, outros de outro.
Portanto, podia parecer inútil cansarmo-nos, tentando apresentar ao Senhor algo
de que Ele precise; dada a nossa situação de devedores que não têm com que
saldar as dívidas, as nossas ofertas assemelhar-se-iam às da Antiga Lei, que
Deus já não aceita: Tu não quiseste os sacrifícios, as oblações e os
holocaustos pelo pecado, nem te são agradáveis as coisas que se oferecem
segundo a Lei. Mas o Senhor sabe que o dar é próprio dos apaixonados e Ele
próprio nos diz o que deseja de nós. Não lhe interessam riquezas, nem frutos,
nem animais da terra, do mar ou do ar, porque tudo isso lhe pertence. Quer algo
de íntimo, que havemos de lhe entregar com liberdade: dá-me, meu filho, o teu
coração. Vedes? Se compartilha, não fica satisfeito: quer tudo para si. Repito:
não pretende o que é nosso; quer-nos a nós mesmos. Daí – e só daí – advêm todas
as outras ofertas que podemos fazer ao Senhor. (Cristo que passa,
35)
Leitura Espiritual Mar 14
Novo Testamento
Evangelho
Lc VIII, 22-39
Jesus acalma uma tempestade
22 Certo dia, Jesus subiu com os seus
discípulos para um barco e disse-lhes: Passemos à outra margem do lago. E
fizeram-se ao largo. 23 Enquanto navegavam, adormeceu. Um turbilhão de vento
caiu sobre o lago, e eles ficaram inundados e em perigo. 24 Aproximaram-se dele
e, despertando-o, disseram: ‘Mestre, Mestre, estamos perdidos!’ E Ele,
levantando-se, ameaçou o vento e as águas, que se acalmaram; e veio a bonança.
25 Disse-lhes depois: Onde está a vossa fé? Cheios de medo e admirados, diziam
entre eles: ‘Quem é este homem, que até manda nos ventos e nas águas, e eles
obedecem-lhe?’
Expulsão de demónio em Gerasa
26 Chegaram à região dos gerasenos,
situada defronte da Galileia. 27 Quando desceu para terra, veio-lhes ao
encontro um homem da cidade, possesso de vários demónios que, desde há muito,
não se vestia nem vivia em casa, mas nos túmulos. 28 Ao ver Jesus, prostrou-se
diante dele, gritando em alta voz: ‘Que tens que ver comigo, Jesus, Filho de
Deus Altíssimo? Peço-te que não me atormentes!’ 29 Jesus, efectivamente,
ordenava ao espírito maligno que saísse do homem, pois apoderava-se dele com
frequência. Prendiam-no com correntes e grilhões para o manterem em segurança,
mas ele partia as cadeias e o demónio impelia-o para os desertos. 30 Jesus
perguntou-lhe: Qual é o teu nome? ‘Legião, - respondeu. Porque muitos demónios
tinham entrado nele 31 e suplicavam-lhe que não os mandasse ir para o abismo.
32 Ora, andava ali uma grande vara de porcos a pastar no monte. Os demónios
suplicaram a Jesus que os deixasse entrar neles. Ele permitiu. 33 Saíram, pois,
do homem, entraram nos porcos e a vara lançou-se do alto do precipício ao lago,
e afogou-se. 34 Ao verem o que se tinha passado, os guardas fugiram e levaram a
notícia à cidade e aos campos. 35 As pessoas saíram para ver o que tinha
acontecido. Vieram ter com Jesus e encontraram o homem, de quem tinham saído os
demónios, sentado a seus pés, vestido e em perfeito juízo. 36 Os que tinham
visto contaram-lhes como o possesso tinha sido salvo; 37 e toda a população da região
dos gerasenos pediu a Jesus que se afastasse deles, pois estavam possuídos de
grande temor. Jesus subiu para o barco e afastou-se dali. 38 O homem, de quem
os demónios tinham saído, pediu-lhe para ficar com Ele. 39 Mas Jesus
despediu-o, dizendo: Volta para a tua casa e conta o que Deus fez por ti. E ele
foi anunciando por toda a cidade tudo o que Jesus lhe fizera.
Texto
MENSAGEM
DE SUA SANTIDADE JOÃO PAULO II
PARA
A QUARESMA DE 1979
Vós pondes-vos a pergunta:
«o que é que se tornou a Quaresma?». A privação bastante relativa de alimentos,
pensais vós, não é que signifique muito, quando tão grande número de irmãos e irmãs
nossos, vítimas de guerras ou de catástrofes, tanto sofrem, física e
moralmente.
O jejum está em relação com
a ascese pessoal, sempre necessária; mas a Igreja exige aos baptizados que
assinalem com alguma coisa de diverso este Tempo litúrgico. A Quaresma, de
facto, tem um significado para nós: ela há-de tornar patente aos olhos do mundo
que todo o Povo de Deus, porque pecador, se prepara com a Penitência para
reviver liturgicamente a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Cristo. Um tal
testemunho público e colectivo tem a sua base no espírito de Penitência de cada
um de nós e, por outro lado, há-de levar-nos a aprofundar interiormente este
modo de comportar-nos e a motivá-lo cada vez melhor.
Privar-se de alguma coisa
não é apenas dar do que porventura para nós é supérfluo, mas sim dar também
algumas vezes daquilo que nos é necessário, à imitação da viúva do Evangelho, a
qual sabia bem que o seu óbolo era já um dom recebido de Deus. Privar-se de
algo é libertar-se das servidões de uma civilização que nos incita a um
conforto e consumo cada vez maiores, sem ter sequer o cuidado da preservação do
nosso ambiente, património comum da humanidade.
As vossas Comunidades
eclesiais irão convidar-vos a participar em «Campanhas da Quaresma»; irão, por
certo, ajudar-vos também a orientar o exercício do vosso espírito de Penitência
compartilhando aquilo que possuís com aqueles que têm menos ou nada têm.
Acaso ireis vós ficar
inactivos ainda na praça pública porque ninguém apareceu a convidar-vos para
trabalhar? Olhai: o campo da Caridade cristã carece de trabalhadores; e a
Igreja faz-vos um apelo para aí trabalhardes. Não espereis que seja demasiado
tarde para socorrer Cristo que se acha encarcerado ou sem ter que vestir,
Cristo que é perseguido ou refugiado, Cristo, enfim, que tem fome e se encontra
sem alojamento. Ajudai os nossos irmãos e irmãs que carecem do mínimo
necessário para saírem de condições inumanas e poderem ter acesso a uma
verdadeira promoção humana.
A todos vós, os que estais
decididos a dar este testemunho evangélico de penitência e de compartilha, eu
vos abençoo em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.
IOANNES PAULUS PP. II
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Sacramentos
O Matrimónio
5.
Matrimónio e família
«Segundo
o desígnio de Deus, o matrimónio é o fundamento da mais ampla comunidade da
família, pois que o próprio instituto do matrimónio e o amor conjugal se
ordenam à procriação e educação da prole, na qual encontram a sua coroação»
[19].
«Pois
que o Criador de todas as coisas constituiu o matrimónio princípio e fundamento
da sociedade humana», a família tornou-se a «célula primeira e vital da
sociedade» [20]. Esta específica e exclusiva dimensão pública do matrimónio
exige a sua defesa e a promoção perla autoridade civil [21]. As leis que não
reconhecem as propriedades essenciais do matrimónio – o divórcio – ou as
equiparam a outras formas de união não matrimoniais – uniões de facto ou uniões
entre pessoas do mesmo sexo – são injustas: lesam gravemente o fundamento da
própria sociedade que o Estado está obrigado a proteger e a fomentar [22].
Na
Igreja, a família é chamada Igreja doméstica, porque a comunhão específica dos
seus membros está chamada «a fazer a experiência de uma comunhão nova e
original, que confirma e aperfeiçoa a comunhão natural e humana» [23]. «Na
família, como numa igreja doméstica, devem os pais, pela palavra e pelo
exemplo, ser para os filhos os primeiros arautos da fé e favorecer a vocação
própria de cada um, especialmente a vocação sagrada» [24]. «É aqui que se
exerce, de modo privilegiado, o sacerdócio baptismal do pai de família, da mãe,
dos filhos, de todos os membros da família, “na recepção dos sacramentos, na
oração e acção de graças, no testemunho da santidade de vida, na abnegação e na
caridade efectiva” (LG, 10). O lar é, assim, a primeira escola de vida cristã e
“uma escola de enriquecimento humano” (GS, 52) (184). É aqui que se aprende a
tenacidade e a alegria no trabalho, o amor fraterno, o perdão generoso e sempre
renovado, e, sobretudo, o culto divino, pela oração e pelo oferecimento da
própria vida» ( Catecismo, 1657).
Rafael
Díaz
Bibliografia
básica
Catecismo
da Igreja Católica , 1601-1666, 2331-2400.
Concilio
Vaticano II, Const. Gaudium et Spes , 47-52 .
João
Paulo II, Ex. ap. Familiaris Consortio , 11-16.
Leituras
recomendadas
S.
Josemaria Escrivá, Temas Actuais do Cristianismo , 87-112.
S.
Josemaria Escrivá, «O Matrimónio, Vocação Cristã», Cristo que Passa, 22-30.
J.
Miras; J.I. Bañares, Matrimónio y Família, Rialp, Madrid 2006.
J. M. Ibañez Langlois,
Sexualidad, Amor, Santa Pureza , Ediciones Universidad Católica de Chile,
Santiago de Chile 2006
Notas
[9]
Concílio Vaticano II, Const. Gaudium
et Spes , 48.
[19] Ibidem , 14
[20] Ibidem , 42.
[21]
«A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à
protecção da sociedade e do Estado» (ONU, Declaração dos Direitos do Homem ,
10-XII-1948, artº 16.)
[22]
Cf. Conselho Pontifício para a Família, Família, matrimónio e uniões de facto ,
Vaticano 2000; Congregação para a Doutrina da Fé, Considerações acerca dos
projectos de reconhecimento legal das uniões de facto entre pessoas homossexuais
, Vaticano 2003.
[23]
João Paulo II, Ex. ap. Familiaris Consortio , 21.
[24]
Concílio Vaticano II, Const. Lúmen Gentium, 11.
Reflexão na Quaresma
Esmola
Quem
distribui esmolas faça-o com despreocupação e alegria, já que, quanto menos se
reserve para si, maior será o ganho que obterá.
(São
Leão Magno, Sermão 10º sobre a Quaresma)
Pequena agenda do cristão - Domingo
13/03/2021
São Josemaria - Textos
Saber-se nada diante de Deus
Grande coisa é saber-se nada diante de Deus, porque é assim mesmo.
(Sulco, 260)
Deixa-me que te recorde, entre outros, alguns sinais evidentes de
falta de humildade:
– pensar que o que fazes ou dizes está mais bem feito ou mais bem
dito do que o que os outros fazem ou dizem;
– querer levar sempre a tua avante;
– discutir sem razão ou, quando a tens, insistir com teimosia e de
maus modos;
– dar a tua opinião sem ta pedirem ou sem a caridade o exigir;
– desprezar o ponto de vista dos outros;
– não encarar todos os teus dons e qualidades como emprestados;
– não reconhecer que és indigno de toda a honra e estima,
inclusive da terra que pisas e das coisas que possuis;
– citar-te a ti mesmo como exemplo nas conversas;
– falar mal de ti mesmo, para fazerem bom juízo de ti ou te
contradizerem;
– desculpar-te quando te repreendem;
– ocultar ao Director algumas faltas humilhantes, para que não
perca o conceito que faz de ti;
– ouvir com complacência quem te louva, ou alegrar-te por terem
falado bem de ti;
– doer-te que outros sejam mais estimados do que tu;
– negar-te a desempenhar ofícios inferiores;
– procurar ou desejar singularizar-te;
– insinuar na conversa palavras de louvor próprio, ou que dão a
entender a tua honradez, o teu engenho ou destreza, o teu prestígio
profissional...;
– envergonhar-te por careceres de certos bens... (Sulco, 263)
Leitura Espiritual Mar 13
Novo Testamento
Lc VIII, 1-21
Jesus é servido por piedosas
mulheres
1 Em seguida, Jesus ia de cidade em
cidade, de aldeia em aldeia, proclamando e anunciando a Boa-Nova do Reino de
Deus. Acompanhavam-no os Doze 2 e algumas mulheres, que tinham sido curadas de
espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham
saído sete demónios; 3 Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes; Susana
e muitas outras, que os serviam com os seus bens.
Parábola do semeador
4 Como estivesse reunida uma grande
multidão, e de todas as cidades viessem ter com Ele, disse esta parábola: 5
Saiu o semeador para semear a sua semente. Enquanto semeava, uma parte da
semente caiu à beira do caminho, foi pisada e as aves do céu comeram-na. 6
Outra caiu sobre a rocha e, depois de ter germinado, secou por falta de
humidade. 7 Outra caiu no meio de espinhos, e os espinhos, crescendo com ela,
sufocaram-na. 8 Uma outra caiu em boa terra e, uma vez nascida, deu fruto
centuplicado. Dizendo isto, clamava: Quem tem ouvidos para ouvir, oiça! 9 Os
discípulos perguntaram-lhe o significado desta parábola. 10 Disse-lhes: A vós
foi dado conhecer os mistérios do Reino de Deus; mas aos outros fala-se-lhes em
parábolas, a fim de que, vendo, não vejam e, ouvindo, não entendam. 11 O
significado da parábola é este: a semente é a Palavra de Deus. 12 Os que estão
à beira do caminho são aqueles que ouvem, mas em seguida vem o diabo e
tira-lhes a palavra do coração, para não se salvarem, acreditando. 13 Os que
estão sobre a rocha são os que, ao ouvirem, recebem a palavra com alegria; mas,
como não têm raiz, acreditam por algum tempo e afastam-se na hora da provação.
14 A que caiu entre espinhos são aqueles que ouviram, mas, indo pelo seu
caminho, são sufocados pelos cuidados, pela riqueza, pelos prazeres da vida e
não chegam a dar fruto. 15 E a que caiu em terra boa são aqueles que, tendo
ouvido a palavra, com um coração bom e virtuoso, conservam-na e dão fruto com a
sua perseverança.
Parábola da lâmpada
16
Ninguém acende uma candeia para a cobrir com um vaso ou para a esconder debaixo
da cama; mas coloca-a no candelabro, para que vejam a luz aqueles que entram.
17 Porque não há coisa oculta que não venha a manifestar-se, nem escondida que
não se saiba e venha à luz. 18 Vede, pois, como ouvis, porque àquele que tiver,
ser-lhe-á dado; mas àquele que não tiver, ser-lhe-á tirado mesmo o que julga
possuir.
A mãe e os parentes de Jesus
19
Sua mãe e seus irmãos vieram ter com Ele, mas não podiam aproximar-se por causa
da multidão. 20 Anunciaram-lhe: ‘Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem
ver-te.’ 21 Mas Ele respondeu-lhes: Minha mãe e meus irmãos são aqueles que
ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática.
Texto
CARTA
APOSTÓLICA
SANCTORUM
ALTRIX
DO
SUMO PONTÍFICE
JOÃO
PAULO II
NO
XV CENTENÁRIO
DO
NASCIMENTO DE SÃO BENTO
PATRONO
DA EUROPA, MENSAGEIRO DA PAZ
III
No tempo de S. Bento a comunidade eclesial e
a sociedade humana mostravam muitas semelhanças com as condições da vida humana
que existem hoje. As perturbações do Estado e a incerteza do futuro, estando
iminente a guerra ou tendo já rebentado, originavam males que aterravam os
ânimos. Por isto aconteceu que a vida foi julgada desprovida de todo o
significado certo e definido.
Dentro da Igreja acalmara-se finalmente a
prolongada luta, com que se investigavam apaixonadamente os mistérios de Deus,
sobretudo a imperscrutável verdade da divindade do Filho e da Sua autêntica
humanidade. Todas estas matérias ressoavam como eco nas palavras, dignas de
eterna memória, de Leão Magno, sucessor de S. Pedro e bispo de Roma.
S. Bento, reconhecendo este estado de coisas,
pediu a Deus e à tradição viva da Igreja a luz e o caminho que devia seguir. A determinação
por ele tomada pode considerar-se como paradigma do dever cristão nas várias
alternativas desta peregrinação terrena, embora não existisse um método de vida
certo e definido.
Jesus Cristo é o centro vital, absolutamente
necessário, a que todas as coisas devem referir-se, para que a estas possa ser
dado sentido e elas possam harmonizar-se solidamente. Apelando para a afirmação
de S. Cipriano, Bispo de Cartago, Bento afirma com energia e gravidade que
absolutamente "nada pode ser anteposto ao amor de Cristo" [19].
Nos homens, porém, e nas coisas, há força e
importância na medida em que tudo está ligado com Cristo; portanto a esta luz
tudo deve ser considerado e estimado. Todos os que estão no mosteiro — do
superior (que é o pai, o abade) até ao hóspede desconhecido e pobre, do doente
ao último dos irmãos — significam a presença viva de Cristo. Também as coisas
são sinais do amor de Deus para com as criaturas, ou do amor com que o homem é
levado para Deus, e até mesmo um instrumento e uma ferramenta para se fazer um
trabalho "sejam considerados como vasos sagrados do altar" [20].
S. Bento não propõe alguma vazia consideração
teológica, mas partindo da verdade das coisas, segundo o uso, inculca nas almas
um modo de pensar e de agir, segundo o qual a teologia é transferida para a
prática da vida. Não tem tanto a peito falar das verdades sobre Cristo quanto,
partindo do mistério de Cristo e do "Cristocentrismo" dele derivado,
viver uma vida bem autêntica.
É necessário que o primeiro lugar, que é atribuído
ao modo sobrenatural de sentir as vicissitudes quotidianas, concorde com a
verdade da Encarnação: porque, ao homem fiel a Deus, não é lícito esquecer-se
do que é humano, deve ser fiel também ao homem. Por isso, o dever para cumprir,
de modo vertical como dizem, que se manifesta sobretudo na vida de oração, está
devidamente equilibrado se se harmoniza devidamente com o que requer o modo
"horizontal", de que a parte mais importante é o trabalho.
Na convivência monástica, portanto, sob a
guia daquele que "se crê fazer as vezes de Cristo" [21], S.
Bento mostra o caminho que há-de percorrer-se, o qual se distingue por grande
uniformidade. Este caminho, que está entre a solidão e a convivência, entre a
oração e o trabalho, é necessário que também o leigo do nosso tempo o percorra
— ainda que sejam diversos os pesos para atribuir a estas coisas — a fim de
poder realizar perfeitamente a sua vocação.
IV
O amor verdadeiro e absoluto a Cristo
manifesta-se de modo significativo na oração; que é por assim dizer o eixo à
volta do qual rodam a convivência quotidiana e toda a vida beneditina.
Mas o fundamento da oração, em conformidade
com uma sentença de S. Bento, está em que alguém ouça a palavra; porque o Verbo
encarnado — aqui, hoje, a cada homem na condição presente que não se repete —
fala através das Escrituras e do ministério eclesial; coisa que no mosteiro se
realiza também por meio das palavras do pai e dos irmãos da comunidade.
Em tal obediência de fé, a palavra de Deus é
recebida com humildade e alegria, derivando esta de se reconhecer uma perene
novidade, que o tempo não diminui, pelo contrário torna mais viva e de dia para
dia mais atraente. E esta palavra torna-se fonte inexausta de oração, porque
"o próprio Deus fala à alma, sugerindo-lhe as respostas, que o Seu coração
espera. Esta oração é dividida pelos vários períodos do dia e, como veia de
água subterrânea, alimenta o trabalho quotidiano" [22].
E pela meditação tranquila e saborosa — que é
verdadeira ruminação espiritual — a palavra de Deus excita nas almas dadas à
oração aqueles agudos raios de luz, que iluminam o decurso do dia inteiro. Na
verdade, esta é a "oração do coração", aquela "breve e pura
oração" [23], por meio da qual aos divinos impulsos
respondemos, e ao mesmo tempo pedimos ao Senhor que nos conceda o inexaurível
dom da sua misericórdia.
Portanto a palavra de Deus, que encerra o
profundo mistério da salvação, todos os dias é ouvida amorosamente pela alma e
é meditada com solicitude; isto faz-se por certo empenho vital, que se
explicita não por ciência humana mas pela sabedoria, que traz em si alguma
coisa de divino; isto é, não para que saibamos mais, mas para que, se é lícito
assim falar, para que sejamos mais: para falarmos com Deus, para a Ele
dirigirmos a Sua mesma palavra, para pensarmos o que Ele pensa, numa palavra,
para vivermos a Sua mesma vida.
O fiel, ouvindo a palavra de Deus, é levado a
entender o curso das coisas múltiplas e várias como também dos tempos, que o
Senhor providente decidiu acontecessem na família humana, de maneira que à alma
crente fosse apresentado mais amplo espectáculo da munificência salvífica. Por
isso do mesmo modo acontece que as maravilhas de Deus sejam captadas pela fé de
olhos abertos e com os ouvidos atentos [24]. A
luz deífica da contemplação acende a centelha e quer o silêncio, junto à
admiração; e o cântico de exultação e a pronta acção de graças dão àquela
oração índole particular, mediante a qual os monges celebram cantando os
louvores do Senhor cada dia. Então a oração torna-se quase a voz da criação
inteira e toma o lugar do excelso canto da Jerusalém celeste. A palavra de Deus
nesta peregrinação terrena faz que toda a vida seja sentida como aberta a Deus
que olha, e na oração ao Pai vem a ser dada voz àqueles que agora já não a têm:
as alegrias e as ansiedades, os êxitos favoráveis e as esperanças desiludidas,
e as expectativas de acontecimento propício ressoam nela de algum modo.
S. Bento é principalmente levado por esta
palavra de Deus na sagrada liturgia, não procurando contudo que se torne a
comunidade somente uma reunião para celebrar os mistérios divinos com ardor,
mas que declare harmoniosamente a comum experiência recebida no Espírito com o
canto coral; de facto, tem muito a peito que as disposições íntimas correspondam
à palavra de Deus pronunciada e cantada: "a mente esteja de acordo com a
palavra" [25]. A Sagrada Escritura, conhecida e
apreciada deste modo vital, é lida com gosto, quando ao mesmo tempo há
aplicação intensa à oração. Por impulso de amor, a alma recolhe-se muitas vezes
diante de Deus; nada é preferido à Obra de Deus [26]; a
oração, feita na liturgia, transfere-se para a vida, e a vida mesma torna-se
oração. A oração, logo que termina a liturgia, levada como de círculos pequenos
a outros maiores, amplifica-se e propaga-se no estado de alma recolhido e
silencioso, e por isso acontece que alguém de modo especial ore consigo mesmo e
que o hábito da oração penetre as acções e os momentos do dia.
S. Bento, amante da palavra de Deus, lê-a não
só na Bíblia sagrada mas também no grande livro que é a natureza. O homem,
contemplando a beleza da criatura, comove-se nos recessos mais íntimos do
espírito, e é levado a recordar Aquele que é sua fonte e origem; ao mesmo tempo
é levado a comportar-se com reverência para com a natureza, a pôr-lhe em
evidência a beleza, respeitando-lhe a verdade.
"Onde sopra o silêncio, fala a
oração" [27]: na solidão, de facto, a oração aumenta
por certa riqueza pessoal; o que deve referir-se não só ao vale inculto do
Aniene, onde S. Bento na solidão falava a sós com Deus, mas também à cidade
repleta de progressos técnicos mas distractiva para os espíritos, onde o homem
da nossa época se vê muitas vezes segregado e entregue a si mesmo. Mas é
necessário que a alma se exercite nalgum deserto, a fim de poder levar vida
autenticamente espiritual; porque ele previne contra as palavras vazias e torna
mais fácil o trato que é necessário ter com Deus, com os homens e com as
coisas. No silêncio do deserto, os motivos que se interpõem entre uns e outros,
ficam reduzidos àquilo que é principal e primário, acrescentando-se-lhe certa
austeridade, enquanto se purifica o coração, enquanto se descobre de novo o
hábito da oração quotidiana, que do íntimo do coração se eleva a Deus. Oração
que verdadeiramente não é feita com Ele na abundância das palavras mas na
pureza do coração inflamado e na compunção das lágrimas [28].
IOANNES PAULUS II
Notas:
[19] Cf. Regra de S. Bento,
4, 21; 72, 11.
[20] Cf. Regra de S. Bento,
31, 10.
[21] Regra de S. Bento, 63,
13; cf. ibid. 2, 2.
[22] Cf. Aloc. de Paulo VI
às Superioras Beneditinas, 29.9.1976: Insegnamenti di Paolo VI, XIV 1976, p.
771.
[23] Cf. Regra de S. Bento,
20, 4.
[24] Cf. Regra de S. Bento,
Prólog.. 9.
[25] Regra de S. Bento, 19,
7.
[26] Cf. Regra de S. Bento,
4, 55; 4, 56; 43, 3.
[27] Cf. Aloc. de Paulo VI
aos monges beneditinos, 8.9.1971: AAS 63 (1971), p. 746.
[28] Cf. Regra de S. Bento,
20, 3; 52, 4.
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Filosofia e Religião, Vida Humana
Democracia
Condições e bases da
democracia
Condição fundamental para a autêntica
democracia é certo grau de maturidade cultural e cívica. A experiência prova
que nas sociedades subdesenvolvidas a democracia se torna uma utopia. A própria
inclusão extemporânea dos processos demecráticosegenera facilmente em anarquia,
que por sua vez abrirá caminho necessário a qualquer das formas de ditadura. A
maturidade de que se fala revela-se por uma certa capacidade de discernimento,
opinião justa e equilibrada, expressão dos próprios sentimentos, objectividade,
harmonia e conveniência com o bem comum.
A verdadeira democracia respeita os direitos
da família, da educação, livre opinião, opção e responsabilidade nos próprios
destinos. Reclama um alto sentido de serviço tanto para governantes como para
governados.
A liberdade religiosa é um direito que o
homem tem, a partir da sua condição de criatura. Mesmo os agnósticos e ateus
têm a obrigação, pelo menos, de respeitar a liberdade de consciência e as
convicções de cada um.
Por direito natural é à família que compete
educar.A educação é o prolongamento e o exercício continuado daquele amor
inicial que deu origem ao acto da vida.A própria natureza dotou os pais daquela
força de inclinação e instinto que os capacita para tão alta tarefa. Por isso,é
à família que compete o direito de escolher as escolas dos seus filhos
(A
Ferraz, Cristãos e liberdades democráticas, BROTÈRIA, Vol. 99, 1974)











