16/04/2020

LEITURA ESPIRITUAL

COMENTANDO OS EVANGELHOS

São Mateus

Cap. XVI


1 Foram ter com Ele os fariseus e os saduceus e, para O tenta­rem, pediram-Lhe que lhes mostrasse algum prodígio do céu. 2 Ele, porém, respondeu-lhes: «Vós, quando vai chegando a noite, di­zeis: “Haverá tempo sereno, porque o céu está vermelho”. 3 E de ma­nhã: “Hoje haverá tempestade, porque o céu mostra um avermelhado sombrio”. 4 Sabeis, pois, distinguir o aspecto do céu e não podeis co­nhecer os sinais dos tempos? Esta geração perversa e adúltera pede um prodígio, mas não lhe será dado outro prodígio, senão o prodígio do profeta Jonas». E, deixando-os, retirou-Se. 5 Os Seus discípulos, tendo passado à outra margem do lago, tinham-se esquecido de levar pão. 6 Jesus disse-lhes: «Olhai e acautelai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus». 7 Mas eles discorriam entre si, dizendo: «É que não trouxemos pão». 8 Conhecendo Jesus isto, disse: «Homens de pouca fé, porque estais a discorrer entre vós por não terdes trazido pão? 9 Ainda não compreendeis nem vos lembrais dos cinco pães para os cinco mil homens, e quantos cestos recolhestes? 10 Nem dos sete pães para qua­tro mil homens, e quantos cestos recolhestes? 11 Porque não compre­endeis que não foi a respeito do pão que eu vos disse: “Acautelai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus”?». 12 Então compreenderam que não havia dito que se guardassem do fermento dos pães, mas da doutrina dos fariseus e dos saduceus. 13 Tendo chegado à região de Cesareia de Filipe, Jesus interrogou os Seus discípulos, dizendo: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?». 14 Eles responde­ram: «Uns dizem que é João Baptista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas». 15 Jesus disse-lhes: «E vós quem di­zeis que Eu sou?». 16 Respondendo Simão Pedro, disse: «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo». 17 Respondendo Jesus, disse-lhe: «Bem-aventu­rado és, Simão filho de João, porque não foi a carne e o sangue que to revelaram, mas Meu Pai que está nos céus. 18 E Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. 19 Eu te darei as chaves do Reino dos Céus; e tudo o que ligares sobre a terra, será ligado também nos céus, e tudo o que desatares sobre a terra, será desatado também nos céus». 20 Depois ordenou aos Seus discípulos que não dissessem a nin­guém que Ele era o Cristo. 21 Desde então começou Jesus a manifestar a Seus discípulos que devia ir a Jerusalém e padecer muitas coisas dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas, ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia. 22 Tomando-O Pedro à parte, começou a repreendê-l'O, dizendo: «Deus tal não permita, Senhor; não Te sucederá isto». 23 Ele, voltando-Se para Pedro, disse-lhe: «Retira-te de Mim, Satanás! Tu serves-Me de escândalo, porque não tens a sabedoria das coisas de Deus, mas dos homens». 24 Então, Jesus disse aos Seus discípulos: «Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. 25 Porque quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a sua vida por amor de Mim, acha-la-á. 26 Pois, que aproveitará a um homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma? Ou que dará um homem em troca da sua alma? 27 Porque o Filho do Homem há-de vir na glória de Seu Pai com os Seus anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras. 28 Em verdade vos digo que, entre aqueles que estão aqui presentes, há alguns que não morrerão antes que vejam vir o Filho do Homem com o Seu reino».

Comentários:

9-15 –

Quem se dedica ao apostolado – que deve ser tarefa de todo o cristão – terá de contar com a incredulidade e as dúvidas daqueles que o escutam e não terá outro remédio que pedir insistentemente ao Senhor que o ajude a ser convincente no que transmite. Mas, e além disso, deve preparar muito bem o que vai dizer e como vai dizer, tentando saber de antemão se a quem se dirige tem um são critério e um coração bem-disposto. Jesus Cristo teve de enfrentar constantemente pessoas de vistas estreitas e repletas de preconceitos e, no entanto, repetia uma e outra vez as mesmas verdades ilustrando-as de forma sempre nova e sempre velha, isto é, sem retirar a essência do que ensinava. Porquê? Porque todas as Suas palavras eram a própria essência da verdade. Não desanimemos pois, a verdade acaba sempre por vencer!
Não se pode acreditar no que não se conhece. Chegamos à conclusão, por este trecho de S. Marcos, que os onze não conheciam Jesus. Em mais de uma ocasião é o próprio Jesus que afirma que não conhecem o Pai porque não conhecem o Filho. E nós, cristãos de hoje bem informados e bem formados, conhecemos, de facto, Jesus? Preocupa-nos conhecê-lo cada vez melhor, mais intimamente? Lemos o Evangelho diariamente? Com pausa e atenção metendo-nos nas cenas "como um personagem mais", como aconselhava São Josemaria?

13-19 -
Eu, como Pedro, creio firmemente que Tu és Deus, meu Salvador e Redentor, que amo com todas as veras do meu coração, que sigo com incondicional entrega até ao momento que queiras chamar-me definitivamente para junto de Ti. Como anseio por esse momento, Senhor! Vultum Tuum requiram, Domine!
Jesus Cristo quer confirmar os Seus Apóstolos na Fé na Sua Divindade. Que tenham absolutamente claro e seguro que Ele é o Filho Unigénito de Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que veio ao mundo para redimir a humanidade inteira e instaurar o Reino de Deus. Para nós, cristãos, esta é uma verdade de Fé e assim o afirmamos no Credo.
As Chaves do Reino de Deus! Nem mais nem menos! O Senhor entrega a Pedro, um simples Pescador da Galileia, um poder extraordinário sem comparação com qualquer outro. Poder que se mantém desde então nas mãos da cabeça visível da Igreja, o Papa. É obrigação dos cristãos apoiar com orações e carinho o Vigário de Cristo ajudando-o a carregar tão enorme responsabilidade. Dominus conservat eum et vivificat eum et beatum faciat eum in terra et non tradat eum in animam inimicorum eius. [i]
A pergunta de Jesus pode parecer desnecessária e, de facto, é porque, Ele sabe muito bem, com detalhado pormenor, o que diz d'Ele. A intenção é clara: quer suscitar a resposta de Pedro que, assim, assume, desde logo, a responsabilidade de responder por todos os discípulos. Cristo aproveita esta atitude de Pedro e confirma-o como chefe da Igreja que irá fundar. E não só como chefe mas, como detentor de um poder que é unicamente de Deus: ligar e desligar, ou seja, aceitar os pedidos de perdão dos homens pelos pecados cometidos, reatando as relações deste com Deus. Este poder, claramente dado a Pedro, que será depois transmitido por este aos seus sucessores, é extensivo aos Bispos da Igreja Católica que o repartem pelos presbíteros sob o seu múnus. A grande questão dos Escribas que por várias vezes afirmam que, só Deus tem poder para perdoar os pecados, tem, assim, uma resposta mais completa ainda porque, na verdade, Deus pode fazer o que quiser com os Seus poderes – que são absolutos – inclusive, como neste caso, autorizar outros para os usarem em Seu Nome. É, efectivamente o que faz o Sacerdote ao declarar ao penitente: "Eu te absolvo dos teus pecados, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" não em meu nome, mas em nome daqueLe de Quem me vem este poder. Quando se ouve – com alguma frequência, infelizmente – eu confesso-me a Deus, essa pessoa está a dizer uma verdade absoluta, embora a sua intenção seja outra.
Como é que Pedro sabe que Jesus é o Filho de Deus? Foi o próprio Deus quem lho revelou, disse Jesus. Também a nós acontece o mesmo, conhecemos as verdades essenciais sobre Deus porque Ele mesmo no-las revela. Queremos saber mais e mais profundamente? Peçamos mais e com maior confiança! Não há outra forma: ou Deus satisfaz os nossos pedidos feitos com são critério e boa intenção e nos revela o que nos convém saber, ou não os aceitando, porque não convêm ou vão mal endereçados, nos deixará na ignorância que merecemos.
Quem dizemos nós que é Jesus Cristo? A pergunta não é descabida, tentemos responder: Jesus, alguns dirão, é Aquele a Quem recorro sempre que preciso e faço-o com toda a confiança; Para mim, dirá outro, é o Salvador, O que veio propositadamente para nos salvar a todos; Já eu acho que Cristo é o verdadeiro Filho de Deus...etc., etc. Todas as respostas estarão, em princípio, certas mas, quantas referem a Cruz? Não se pode separar Cristo da Cruz porque foi nela que, Ele, cumprindo a vontade do Pai, nos redimiu e salvou definitivamente abrindo-nos as portas da Vida Eterna. Jesus Cristo não é o Deus particular, individual que muitos desejam ter ao serviço das suas necessidades do momento. Embora Se humilhe fazendo-se igual a nós em tudo, menos no pecado, Ele é de todos, a Sua Morte na Cruz foi por toda a humanidade passada, presente e futura.

13-20 -
Queremos – temos esse secreto desejo – de ser como Pedro, ter a sua frontalidade e singeleza, simples e categórica, com dúvidas convertidas em certezas inabaláveis. Realmente o que desejamos é que, como Pedro, o Senhor confie em nós!
A humanidade inteira deve a Pedro e aos outros seus companheiros, saber Quem É Jesus e, sabendo-o, ter a oportunidade através dos Evangelhos, de chegar a conhecê-Lo intimamente. Conhecer Jesus Cristo é conhecer Deus Uno e Trino, Criador e Senhor de toda a criação. Sem estes homens, simples, um pouco rudes, cheios de defeitos e debilidades mas, sentindo um amor incomensurável pelo Mestre, por Quem a maior parte deu a própria vida, não teríamos essa ventura. E devemos, todos, estar-lhes muito gratos e, como são pessoas comuns como nós, imitá-los em tudo mas, sobretudo, nesse Amor com A grande por Nosso Senhor Jesus Cristo.
Fica absolutamente claro que só podemos conhecer Deus pela Fé. E… o que é a Fé? Podemos responder simplesmente que se trata de uma Virtude Teologal que só o próprio Deus pode incutir em nós. É que, de facto, não merecemos ter Fé, porque, por nós mesmos, nada podemos fazer já que não conhecemos Deus e, evidentemente, não se pode amar o que não se conhece. Assim, a primeira coisa a fazer é pedir veementemente ao Senhor que nos conceda essa virtude, fundamental para que O possamos amar e, mais, nunca nos darmos "por satisfeitos" com a fé que temos porque, se não a cultivarmos e incessantemente a pedirmos, até a que temos podemos perder. Os cristãos têm Fé, foi-lhes como que “doada” no Baptismo. Sem qualquer mérito da nossa parte, ao tornar-nos Seus filhos, o Criador entregou-nos como que o ADN dessa Virtude. A nós, cabe-nos, agradecendo tão grande dom, não deixarmos que ela definhe ou enfraqueça. Por isso mesmo, alimentando-nos da Eucaristia, havemos de a manter bem viva e actuante.
Este trecho do Evangelho de São Mateus leva-nos, quase que inevitavelmente, a considerar a Confissão Sacramental. É um tema, infelizmente para muitos, controverso que, sem qualquer fundamentação séria, consideram não ser necessária a Confissão Sacramental para obter o perdão de Deus. Mas… estão profundamente errados, bastando para fundamentar esta afirmação, ler atentamente o que Jesus Cristo diz a este respeito; claramente dá a Pedro e aos seus sucessores, os Bispos, o poder, que só Ele tem, de perdoar os pecados. E como o poderão fazer se o pecador não revelar, directa e claramente, as suas faltas?
E eu? Sim, eu? Quem digo eu que Tu és? Sei-o, no meu coração, na minha alma, que Tu, És O Filho de Deus, O meu Salvador e O Redentor do mundo. Sei, desde pequenino, tudo isso, só que, por vezes – tantas vezes! – actuo como se não o soubesse. Levado pelos respeitos humanos, pelos preconceitos, pela falta de coragem, desvio muitas vezes a “conversa”, esquivo-me ao tema, digo para mim mesmo que “não é nem o tempo nem o lugar certos”. E, Tu, Senhor, que nunca me esqueces nem me negas como Teu filho! Tão triste deves ficar! Ajuda-me a retribuir o Teu grande amor por mim com o meu pequeno amor por Ti. Pequeno, porque sou pouca coisa, mas grande, porque é todo o que tenho.

13-23 -
De uma forma absolutamente clara que não deixa qualquer margem para dúvidas, o Senhor dá a Pedro e nele aos seus sucessores, os poderes que até então eram exclusivos de Deus: Perdoar os pecados. Pedro fica assim, constituído como um representante de Cristo na terra a quem, portanto, é devido respeito e acatamento das instruções que dele vêm.
A sabedoria das coisas de Deus e a sabedoria dos homens! A verdadeira Sabedoria é um Dom do Espírito Santo, logo é ela que deve estar na base de toda a sabedoria humana. De que serve saber muitas coisas – ser um “sábio” – se se ignora este Dom? É ele que dá a luz, o enfoque de quanto precisamos saber e, sobretudo, acompanhado do Dom de Entendimento, compreender aquilo que sabemos.

15-18 -
                Detendo-me um pouco nesta frase: «Eis os milagres que acompanharam os que crerem» fico a pensar na Força da Fé na Palavra de Deus. Jesus, de facto, diz que aqueles que acreditarem serão dados poderes extraordinários. Porquê? Parece-me que Jesus quer garantir aos primeiros crentes auxílios especiais para ultrapassarem as dificuldades que, sabe, irão enfrentar. Na verdade, as perseguições e ataques de toda a ordem contra os fieis seguidores da Palavra, irão surgir logo no início da Igreja nascente.


15-20 -
Que felicidade teres partido para o Céu!, não me canso de pensar. Indo ficaste connosco, comigo, para sempre. Na presença viva e real na Sagrada Eucaristia, que é o meu alimento, a minha força, o manancial onde bebo a água da vida eterna. Tenho-Te aqui como nenhum dos Teus Apóstolos Te teve; eles tinham a Tua companhia, gozavam da Tua presença, ouviam as Tuas palavras, viam os Teus gestos, eu, pelo contrário, tenho isso tudo, ouço-Te no meu coração quando me falas, sinto as inspirações que constantemente sopras no meu entendimento e, finalmente, recebo-Te todo inteiro, em Corpo, Alma e Divindade tal como estás no Céu para onde subisTe!

21-27 -
Ajuda-me, Senhor, a olhar para os outros com o Teu olhar divino e não com o meu modo de ver tão humano e rasteiro. Só assim poderei descobrir neles a Tua imagem e amá-los como a mim mesmo.

21-28 -
Parece estranho que O Senhor tenha dito que «quem pretender salvar a sua vida acabará por perdê-la»! Como se pode entender tal coisa! É preciso compreender que Jesus fala do apego à vida sobre tudo o resto como o único bem que realmente possa interessar ao homem. Na verdade não deve ser assim; a vida, a nossa vida, pertence a Deus que no-la deu e a pode fazer cessar quando bem entenda. Ou seja por nós, nada podemos fazer para a prolongar um segundo que seja. Devemos, isso sim, preservar a vida como um bem concedido por Deus para que dela tiremos o melhor partido e a façamos frutificar em obras e serviço. O apego desmesurado à saúde e bem-estar pessoal é contrário à missão que temos de levar a cabo: viver como Deus quer que vivamos, com a consciência que somos Suas criaturas e que teremos de Lhe dar contas do uso que demos a essa mesma vida.
A gente sente pena de Pedro! Coitado... Ainda há pouco o Senhor o bendisse e exaltou a sua resposta sobre quem Ele era e, agora... umas palavras duras, agrestes... Claro que, e em primeiro lugar, não sabemos o tom, a inflexão de voz de Jesus ao pronunciá-las e, depois, o sentido que agora damos difere, seguramente do de então. Seja como for, Pedro "não tem tempo para ficar auto-satisfeito", percebe, sabe que tem muito ainda a aprender. O facto é que, nos derradeiros momentos foi capaz de negar conhecer Jesus! Mas é a Pedra firme sobre a qual assenta a Igreja porque, a fortaleza e a capacidade, não está no homem que é um mero instrumento mas sim em Cristo que Se serve dele como Lhe apraz.

23-33 -
Parecem – e de facto são – duras as palavras que Jesus Cristo dirige a Pedro! Excessivas? Não! O Senhor quer deixar bem vincadas no espírito do Apóstolo duas coisas: A primeira é que ninguém, seja qual for o seu estatuto, pode corrigir – ou sequer tentar – o Senhor; A segunda para chamar Pedro à realidade simples e crua da sua condição humana e a impossibilidade, por si próprio, de compreender as coisas de Deus.
Como nos emociona a figura de Pedro! Podemos, cada um de nós, rever-nos neste homem são, um pouco impulsivo, generoso, disponível, amigo íntimo de Jesus, que não esconde os seus sentimentos e, sobretudo, que não impede – talvez antes o tenha sugerido – que as suas fraquezas sejam expostas nos textos evangélicos, algo que revela um surpreendente e cativante aspecto do seu carácter: a humildade pessoal. Ele é de facto o chefe dos Apóstolos porque Jesus Cristo assim o quis mas, nunca lemos em nenhum lugar que alguma vez se tenha vangloriado ou, sequer, feito valer o seu “estatuto”. Ao contrário, tendo guardado bem fundo no seu coração todas as palavras, conselhos e directivas do seu Mestre e Senhor, não esqueceu esta tão importante: que, o próprio Senhor, não veio para ser servido mas para servir.
O escândalo da sabedoria dos homens quando se opõe – o que é frequente – à sabedoria de Deus! Como evitar isto, nós que julgamos saber tanto sobre tantas coisas?
A resposta é simples: Doutrina! Claro! Doutrina, catequese, estudar, rever, meditar a Palavra de Deus. Que já sabemos o suficiente? Não, não sabemos nada e, muito menos o suficiente para nos salvarmos e para conduzir outros à salvação. Não esqueçamos que São João deixou escrito, para que constasse para sempre, que Jesus disse e fez muitíssimo mais coisas que aquelas que os quatro Evangelhos relatam e que, em todo o mundo não caberiam os livros que seria preciso escrever para as relatar. Com os olhos da alma leremos o Evangelho e descobriremos, sempre coisas novas. Com o nosso olhar humano apenas (re)leremos pela enésima vez o que já sabemos, talvez, de cor. Há que ter este conhecimento da nossa limitação natural e tentar obter uma dimensão sobrenatural, a única forma de compreender as coisas divinas.

24-28 -

Perder a vida para ganhar a vida! Que estranha forma de explicar em que consiste a salvação! Aparentemente, falta algo nesta “sentença” de Cristo que melhor nos faça entender o que propõe. Mas, de facto, o que de algum modo foi incompreensível para as pessoas da Sua época, inclusive os discípulos, é, hoje em dia, perfeitamente entendível para os cristãos. Deve-se ao Espírito Santo e ao Seu Dom de Entendimento esse entender e compreender o alcance e significado das palavras do Senhor. Assim, ficamos cientes que a vida, a verdadeira Vida, é a vida em Cristo, com Cristo e por Cristo. A vida de um cristão autêntico parece ser algo de pesado, angustiante, de luta contínua. Pode parecer a alguns que assim é mas, estão enganados. A cruz é comum a todos os homens que, uns mais outros menos, têm de suportá-la e conviver com ela. Faz parte integrante da condição humana. Mas, o cristão autêntico, tem-na como um sinal indelével da sua pertença a Cristo que nos redimiu – a todos – numa Cruz. E vive a sua vida – a sua cruz – com a alegria que as pequenas vitórias diárias proporcionam e, convenhamos, não há maior alegria que vencer!
Perder a vida para ganhá-la? Que estranha forma de encarar a nossa santa religião! A vida, a nossa vida, é o bem mais precioso que possuímos e por isso mesmo somos levados num primeiro impulso, a rejeitar esta sentença de Jesus Cristo. Mas, e aí está a verdade, a vida não é nossa, pertence a Deus que no-la deu e mantém até Ele próprio querer. Não somos mais que usufrutuários desse bem. Esta é que é a verdade! Sendo assim, como de facto é, amar a vida só faz sentido amando a Deus e só se pode amar a Deus sobre todas as coisas, logo, mais que a própria vida.
A cruz talvez seja o símbolo mais usado e visto no mundo. A Cruz de Cristo é o instrumento de Redenção da humanidade e, por isso mesmo, deve ser usado com reverência e autêntico amor. Ela é, também, a “nossa cruz” porque nela estavam as faltas, os pecados de todos os homens de todos os tempos. Comparar a nossa cruz pessoal, essa cruz que todos carregamos ao longo da vida, por pesada que seja, é algo de bom e meritório porque, sabemo-lo muito bem por experiência própria, sozinhos dificilmente a suportamos.
Ah a cruz! A cruz de cada dia que é de cada um, pesada, leve, mas... cruz, é, quase sempre, feita por nós. Como dizia São Filipe de Néri "os homens são frequentemente os carpinteiros das suas próprias cruzes". O que tem O Senhor a ver com a nossa cruz? Tem muito a ver porque Ele próprio carregou com ela ou, pelo menos com a parte mais pesada, mais penosa de transportar. A Cruz que levou às costas para o monte Calvário tinha o peso de todos os nossos pecados, faltas, omissões e desvarios de todos os homens e de todos os tempos. A nossa cruz do dia-a-dia tem só o peso das faltas que acrescentamos pela nossa fragilidade; são muitas as faltas… o peso é maior, são poucas e sem grande relevo… é mais levadeira. A nossa cruz e a Cruz da Redenção têm em comum que para serem levadas precisam do Senhor, dos Seus ombros fortes, da Sua ajuda preciosa. Sozinhos não a moveremos um milímetro!



(AMA, 2018)




[i] Deus o conserve e vivifique e o faça santo na terra e não o deixe sucumbir ao ânimo dos seus inimimigos

15/04/2020

NOTÍCIA: Padre MiguelCabral

HOJE, 4f dia 15, sou entrevistado em directo, no estúdio da TVI, durante 1h, sobre *como cheguei a padre, evangelização em tempos de pandemia e outros assuntos*. Das *17h às 18h*. Também vão aparecer por skype outros 2 padres (Marco Castro e um do norte que é D.J.). Programa da Fátima Lopes.
🔹 como devem calcular não tenho nenhum interesse pessoal, pelo contrário, em ir ao *programa da Fátima Lopes na TVI* . Até me dá um pouco de vergonha. Também nunca vi esse programa. Mas acho que não devo perder oportunidades de evangelização e por isso aceitei. São Josemaria dizia que para salvar uma alma vamos até às portas do inferno, se for preciso; para além das portas, jamais. 
Além disso, já aproveitei a oportunidade e a jornalista que me contactou já começou a assistir às aulas de Doutrina Cristã que estou a dar 😉. Para depois ser baptizada, se Deus quiser.  Rezem para que corra bem e que possa servir para que algumas pessoas se aproximem de Deus. Já que vou, não me importo que divulguem. Pode ser que sirva a alguém..., ou não🙄. Pelo menos a um mim vai servir para cortar o cabelo. Já não sabia como fazer e perguntei se não havia por lá essa possibilidade, _depois_ da entrevista. Foram impecáveis e ligaram a dizer que sim, mas _antes_ e para ir um pouco mais cedo. Veremos como fica o corte😆🤕 Rezo por todos! Pe. Miguel C

La enfermedad y la fe





Pequena agenda do cristão

Quarta-Feira

PEQUENA AGENDA DO CRISTÃO

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)






Propósito:

Simplicidade e modéstia.


Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.


Lembrar-me:
Do meu Anjo da Guarda.


Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.

Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de correspondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?








Redenção


São muitos os cristãos persuadidos de que a Redenção se há-de realizar em todos os ambientes do mundo, e de que deve haver algumas almas (não sabem quais) que contribuam para a realizar com Cristo. Mas vêem-na a um prazo de séculos, de muito séculos... de uma eternidade, se se levasse a cabo ao passo da sua entrega.
Assim pensavas tu, até que vieram "despertar-te". (Sulco, 1)

Temas para reflectir e meditar

Imaginação


Quando não se tem um trabalho habitualmente intenso, as dificuldades nascem por si, por entre as névoas de uma imaginação desocupada.





(Javier Abad GómezFidelidade, Quadrante 1989, pg. 114) 

PANDEMIA


PANDEMIA - 13
ALEGRIA

O AMOR é, tem de ser, expressão da própria alegria.

A maior alegria é conhecer a VERDADE.

 O amor alegra-se com a verdade”. (1 Coríntios 13:4-7)

O AMOR É:
ENTREGA – DOAÇÃO – RESPEITO – PRUDÊNCIA – UNIVERSAL -TOTAL – SACRIFÍCIO – REFLEXO -  OBEDIÊNCIA – CONFIANÇA – PACIENTE – GENUÍNO – HUMANO – CONSAGRAÇÃO - ALEGRIA - VERDADE


Com estes predicados o AMOR não será a solução?

(AMA, 2020)

LEITURA ESPIRITUAL

COMENTANDO OS EVANGELHOS

São Mateus

Cap. XV


1 Aproximaram-se, então, de Jesus alguns fariseus e doutores da Lei, vindos de Jerusalém e disseram-lhe: 2 «Porque transgridem os teus discípulos a tradição dos antigos? Pois não lavam as mãos antes das refeições.» 3 Replicou-lhes: «E vós, porque transgredis o mandamento de Deus, por causa da vossa tradição? 4 Deus, com efeito, disse: Honra teu pai e tua mãe. E ainda: Quem amaldiçoar o pai ou a mãe seja punido de morte. 5 Mas vós dizeis: ‘Seja quem for que diga a seu pai ou a sua mãe: Os meus bens, de que poderias beneficiar, são oferta sagrada’, 6 esse já não está obrigado a socorrer o pai ou a mãe. E assim, em nome da vossa tradição, anulastes a palavra de Deus. 7 Hipócritas! Muito bem profetizou Isaías a vosso respeito, ao dizer: 8 Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. 9 É vão o culto que me presta, ensinando doutrinas que são preceitos humanos.» 10 Jesus chamou, depois, a multidão para junto de si e disse-lhes: «Escutai e tratai de compreender! 11 Não é aquilo que entra pela boca que torna o homem impuro; o que sai da boca é que torna o homem impuro.» 12 Os discípulos aproximaram-se dele e disseram-lhe: «Sabes que os fariseus ficaram escandalizados, por te ouvirem falar assim?» 13 Ele respondeu: «Toda a planta que não tenha sido plantada por meu Pai celeste será arrancada. 14 Deixai-os: são cegos a conduzir outros cegos! Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão nalguma cova.» 15 Tomando a palavra, Pedro disse-lhe: «Explica-nos esta parábola.» 16 Jesus respondeu-lhes: «Também vós não sois ainda capazes de compreender? 17 Não sabeis que tudo aquilo que entra pela boca passa para o ventre e é expelido em lugar próprio? 18 Mas o que sai da boca provém do coração; e é isso que torna o homem impuro. 19 Do coração procedem as más intenções, os assassínios, os adultérios, as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfémias. 20 É isto que torna o homem impuro. Mas comer com as mãos por lavar não torna o homem impuro.» 21 Jesus partiu dali e retirou-se para os lados de Tiro e de Sídon. 22 Então, uma cananeia, que viera daquela região, começou a gritar: «Senhor, Filho de David, tem misericórdia de mim! Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio.» 23 Mas Ele não lhe respondeu nem uma palavra. Os discípulos aproximaram-se e pediram-lhe com insistência: «Despacha-a, porque ela persegue-nos com os seus gritos.» 24 Jesus replicou: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.» 25 Mas a mulher veio prostrar-se diante dele, dizendo: «Socorre-me, Senhor.» 26 Ele respondeu-lhe: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorros.» 27 Retorquiu ela: «É verdade, Senhor, mas até os cachorros comem as migalhas que caem da mesa de seus donos.» 28 Então, Jesus respondeu-lhe: «Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se como desejas.» E, a partir desse instante, a filha dela achou-se curada. 29 Partindo dali, Jesus foi para junto do mar da Galileia. Subiu ao monte e sentou-se. 30 Vieram ter com Ele numerosas multidões, transportando coxos, cegos, aleijados, mudos e muitos outros, que lançavam a seus pés. Ele curou-os, 31 de modo que as multidões ficaram maravilhadas ao ver os mudos a falar, os aleijados escorreitos, os coxos a andar e os cegos com vista. E davam glória ao Deus de Israel. 32 Jesus, chamando os discípulos, disse-lhes: «Tenho compaixão desta gente, porque há já três dias que está comigo e não tem que comer. Não quero despedi-los em jejum, pois receio que desfaleçam pelo caminho.» 33 Os discípulos disseram-lhe: «Onde iremos buscar, num deserto, pães suficientes para saciar tão grande multidão?» 34 Jesus perguntou-lhes: «Quantos pães tendes?» Responderam: «Sete, e alguns peixinhos.» 35 Ordenou à multidão que se sentasse. 36 Tomou os sete pães e os peixes, deu graças, partiu-os e dava-os aos discípulos, e estes, à multidão. 37 Todos comeram e ficaram saciados; e, com os bocados que sobejaram, encheram sete cestos. 38 Ora, os que comeram eram quatro mil homens, sem contar mulheres e crianças. 39 Depois de ter despedido a multidão, Jesus subiu para o barco e veio para a região de Magadan.

Comentários:

21-28 -

Esta mulher Cananeia, “descobriu” a forma mais eficaz de chegar directamente ao Coração Misericordioso de Jesus: A petição perseverante e humilde! Mas, mais… ela parece querer dar como que uma “lição” ao Senhor, intuindo a lógica mais simples: «até os cachorros comem as migalhas que caem da mesa de seus donos». É possível que Jesus tenha sorrido perante o que, talvez ,alguns dos circunstantes, achassem um “atrevimento”, porque de facto a “lição” não foi, evidentemente para Ele, mas para quem estava presente. Reconhecer o que se é, a importância que de facto se tem, é difícil se não houver humildade e são critério.
As palavras de Jesus são muito mais que um elogio; são a confirmação de que a humildade é fundamental – absolutamente – para que a Fé se fortaleça e arreigue na nossa alma. O que interessa àquela mulher é ser tratada como uma pessoa autêntica como muito mais valor – por pouco que seja – que um simples cachorrinho. Há, de facto, na petição desta mulher, uma lógica iniludível, como se dissesse: ‘Se tratam assim os cachorrinhos como não me hão-de tratar a mim que sou uma filha de Deus?’ Trata-se de uma lógica simples e humilde e, para Jesus, não é preciso mais para atender o que Lhe é solicitado.
Jesus não pode deixar de fazer um elogio claríssimo àquela mulher: «grande é a tua fé!» Uma lição para todos nós que nos contemos ou hesitamos perante a menor dificuldade que se levanta ao nosso objectivo de chegar perto do Senhor. Naturalmente que, se assim procedemos nas coisas pequenas ou de escasso relevo, como podemos aspirar a vencer os grandes obstáculos que, talvez, se nos deparem? Evidentemente, o Senhor está à nossa espera aguardando que vamos ter com Ele para Lhe pedir seja o que for, para agradecer, para expor algo que nos traz preocupados; mas não será por estar à nossa espera que teremos a “audiência” garantida mas, sim, como fruto – ou melhor – prémio – do nosso empenho e perseverança.  Cuidado com a “falsa humildade” que se insinua no nosso espírito levando-nos a não procurar Cristo considerando que não merecemos. Não esqueçamos que o Senhor nos quer como somos e não como desejaríamos ser.

29-37 -
Tantas vezes se tem comentado esta passagem do Evangelho que não será possível deixar de repetir algo do que já foi dito. De facto, este portentoso milagre, ficará para sempre como o prenúncio do milagre eucarístico que se repete milhares e milhares de vezes, todos os dias, na Santa Missa. Todos os que comungamos ficamos saciados e sobra sempre mais e mais alimento divino para que nunca tenhamos fome de Jesus. Se nos dermos bem conta desta maravilha, com que devoção, amor e agradecimento, não haveremos de comungar o Corpo, Sangue Alma e Divindade do Nosso Salvador?
        Muitos de nós já testemunhámos multidões incontáveis – por exemplo, em Fátima – com os sentidos, sobretudo o olhar, - postos no altar onde se celebra a Santa Missa. Espera-se o momento extraordinário da Consagração do pão e do vinho no Corpo e no Sangue do Senhor. E mal se pode esperar que desçam desse altar os portadores das Hóstias Consagradas para as distribuírem a quantos desejarem receber a Sagrada Eucaristia. Repete-se o que o Evangelho de hoje descreve: Jesus distribui às mãos largas, alimento pelos que têm fome. E será sempre assim, porque Ele, nesse extraordinário milagre eucarístico, estará sempre disponível para saciar os que d’Ele se aproximam com fé e amor de filhos que esperam do seu Pai o alimento que tanto precisam.

37-38 –
      Jesus Cristo não Se deixa “vencer” em generosidade. Porque, poderia haver algum, ou alguns, de última hora que precisassem de alimento ali ficam disponíveis, «sete cestos»! A magnanimidade do Senhor é bem patente e verdadeira.


(AMA, 2018)





14/04/2020

Andrea Bocelli - Páscoa



Temas para reflectir e meditar

OBEDIÊNCIA



Não há caminho que leve mais rapidamente à perfeição do que o da obediência.



Santa Teresa de JesusFundaciones, 5, 10, trad ama)

PANDEMIA


PANDEMIA - 12

CONSAGRAÇÃO

As almas consagradas, que fizeram voto de pobreza, são mais ricas que todos os ricos, pois que, não ambicionando coisa alguma, na realidade tudo possuem”. (Fulton Sheen, Pensamentos para a vida diária)

Sei, vejo muitas vezes, esta realidade: A felicidade das Monjas Clarissas no Convento de Cristo Rei em Monte Real.

Esta felicidade – alegre, permanente – é bem visível no sorriso afável e tranquilo nos seus rostos.

Numa escolha de AMOR, estas almas encontraram a verdadeira ALEGRIA.

O AMOR É:
ENTREGA – DOAÇÃO – RESPEITO – PRUDÊNCIA – UNIVERSAL -TOTAL – SACRIFÍCIO – REFLEXO -  OBEDIÊNCIA – CONFIANÇA – PACIENTE – GENUÍNO – HUMANO – CONSAGRAÇÃO - ALEGRIA

Com estes predicados o AMOR não será a solução?


(AMA, 2020)

Deus está junto de nós continuamente


É preciso convencermo-nos de que Deus está junto de nós continuamente. – Vivemos como se o Senhor estivesse lá longe, onde brilham as estrelas, e não consideramos que também está sempre ao nosso lado. E está como um pai amoroso – quer mais a cada um de nós do que todas as mães do mundo podem querer a seus filhos – ajudando-nos, inspirando-nos, abençoando... e perdoando. Quantas vezes fizemos desanuviar a fronte dos nossos pais, dizendo-lhes, depois de uma travessura: não torno a fazer mais! – Talvez naquele mesmo dia tenhamos tornado a cair... – E o nosso pai, com fingida dureza na voz, de cara séria, repreende-nos..., ao mesmo tempo que se enternece o seu coração, conhecedor da nossa fraqueza, pensando: pobre rapaz, que esforços faz para se portar bem! É necessário que nos embebamos, que nos saturemos de que é Pai e muito Pai nosso, o Senhor que está junto de nós e nos Céus. (Caminho, 267)

Descansai na filiação divina. Deus é um Pai cheio de ternura, de amor infinito. Chama-lhe Pai muitas vezes durante o dia e diz-lhe – a sós, na intimidade do teu coração – que o amas, que o adoras, que sentes o orgulho e a força de seres seu filho. Tudo isto pressupõe um autêntico programa de vida interior, que é preciso canalizar através das tuas relações de piedade com Deus – poucas, mas constantes, insisto – que te permitirão adquirir os sentimentos e as maneiras de um bom filho.
Devo prevenir-te, no entanto, contra o perigo da rotina – verdadeiro sepulcro da piedade – a qual se apresenta frequentemente disfarçada com ambições de realizar ou empreender gestas importantes, enquanto se descuida comodamente a devida ocupação quotidiana. Quando notares essas insinuações, põe-te diante do Senhor com sinceridade. Pensa se não te terás aborrecido de lutar sempre nas mesmas coisas, porque na realidade não estavas à procura de Deus. Vê se não terá decaído a tua perseverança fiel no trabalho, por falta de generosidade, de espírito de sacrifício. Nesse caso, as tuas normas de piedade, as pequenas mortificações, a actividade apostólica que não produz fruto imediato parecem-te tremendamente estéreis. Estamos vazios e talvez comecemos a sonhar com novos planos, para calar a voz do nosso Pai do Céu, que exige de nós uma lealdade total. E, com um pesadelo de grandezas na alma, lançamos no esquecimento a realidade mais certa, o caminho que sem dúvida nos conduz direitos à santidade. Aí temos um sinal evidente de que perdemos o ponto de vista sobrenatural, a convicção de que somos meninos pequenos, a persuasão de que o nosso Pai fará em nós maravilhas, se recomeçarmos com humildade. (Amigos de Deus, n. 150)

Pequena agenda do cristão


TeRÇa-Feira

PEQUENA AGENDA DO CRISTÃO

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)




Propósito:

Aplicação no trabalho.

Senhor, ajuda-me a fazer o que devo, quando devo, empenhando-me em fazê-lo bem feito para to poder oferecer.

Lembrar-me:
Os que estão sem trabalho.

Senhor, lembra-te de tantos e tantas que procuram trabalho e não o encontram, provê às suas necessidades, dá-lhes esperança e confiança.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?


Orações sugeridas:

salmo ii

Regnum eius regnum sempiternum est et omnes reges servient et obedient. 
Quare fremerunt gentes et populi meditati sunt inania?
Astiterum reges terrae et principes convenerunt in unum adversus Dominum et adversus christum eius.
Dirumpamus vincula eorum et proiciamos a nobis iugum ipsorum.
Qui habitabit in caelis, irridebit eos, Dominus subsanabit eos.
Ego autem constitui regem meum super sion montem sanctum meum.
Praedicabo decretum eius Dominus dixit ad me: filius meus es tu; ego hodie genui te.
Postula a me, et dabo tibi gentes hereditatem tuam et possessionem tuam terminos terrae.
Reges eos in virga ferrea et tamquam vas figuli confringes eos.
Et nunc, reges, intelegite, erudimini, qui indicatis terram.
Servite Domino in timore et exultate ei cum tremore.
Apprehendite disciplinam ne quando irascatur et pereatis via, cum exarcerit in brevi ira eius.
Beati omnes qui confident in eo.
Gloria Patri...
Regnum eius regnum sempiternum est et omnes reges servient et obedient.
Oremus:
Omnipotens et sempiterne Deus qui in dilecto Filio Tuo universorum rege omnia instaurare voluisti concede propitius ut cunctae familiae gentium pecati vulnere disgregatae eius suavissimo subdantur imperio: Qui tecum vivit et regnat in unitate Spiritus Sancti Deus, per omnia saecula saeculorum.

Exame Pessoal

Sabes Senhor, qual é, talvez a minha maior fraqueza? É pensar em demasiado mim, nos meus problemas, nas minhas tristezas, naquilo que me acontece e no que gostaria me acontecesse. Nas voltas e reviravoltas que dou sobre mim mesmo, sobre a minha vida.
E os outros? Sim, os outros que rezam por mim, que se interessam por mim, que têm paciência para comigo, que me desculpam as minhas faltas e as minhas fraquezas, que estão sempre prontos a ouvir-me a atender-me, que não se importam de esperar que eu os compense pelo bem que me fazem, que não me pressionam para que pague o que me emprestam, que não me criticam nem julgam com a severidade que mereço.
Ajuda-me Senhor, a ser, pelo menos reconhecido e a devolver o bem que recebo e, além disso a não julgar, a não emitir opinião, critica ou conceito, vendo nos outros, a maior parte das vezes, os defeitos e fraquezas que eu próprio possuo.[i]

Senhor, ajuda-me a pensar nos outros em vez de estar aqui, mergulhado nos meus problemas, girando à volta de mim mesmo, concentrado apenas no que me diz respeito. Os outros! Todos os outros. Os que conheço, de quem sou amigo ou familiar e aqueles que me são desconhecidos. São Teus filhos como eu, logo, todos são meus irmãos. Se somos irmãos somos também herdeiros, convém, portanto que me preocupe com aqueles que vão partilhar a herança comigo.[ii]

Noverim me

Oh Deus que me conheces perfeitamente tal como sou, ajuda-me a conhecer-me a mim mesmo, para que possa combater com eficácia os enormes defeitos do meu carácter, em particular...
Chamaste-me, Senhor, pelo meu nome e eu aqui estou: com as minhas misérias, as minhas debilidades, com palavras maiores que os actos, intenções mais vastas que as obras e desejos que ultrapassam a vontade.
Porque não sou nada, não valho nada, não sei nada e não posso nada, entrego-me totalmente nas Tuas mãos para que, por intercessão de minha Mãe, Maria Santíssima, de São José, meu Pai e Senhor, do Anjo da Minha Guarda e de São Josemaria, possa adquirir um espírito de luta perseverante.[iii]
   
Meu Senhor e meu Deus, tira-me tudo o que me afaste de Ti.
Meu Senhor e meu Deus, dá-me tudo o que me aproxime de Ti
Meu Senhor e meu Deus, desapega-me de mim mesmo, para que eu me dê todo a ti.
Eu sei que podeis tudo e que, para Vós, nenhum projecto é impossível.[iv]

Faz-me santo, meu Deus, ainda que seja à força.[v]

Nada te perturbe / nada te atemorize Tudo passa / Deus não muda A paciência tudo alcança / Quem a Deus tem Nada falta / só Deus basta.[vi]



[i] AMA orações pessoais
[ii] AMA orações pessoais
[iii] AMA orações pessoais
[iv] AMA orações pessoais
[v] AMA orações pessoais
[vi] Santa Teresa de Jesus

LEITURA ESPIRITUAL

COMENTANDO OS EVANGELHOS

São Mateus

Cap. XIV


1 Por aquele tempo, a fama de Jesus chegou aos ouvidos de Herodes, o tetrarca, 2 e ele disse aos seus cortesãos: «Esse homem é João Baptista! Ressuscitou dos mortos e, por isso, se manifestam nele tais poderes miraculosos.» 3 De facto, Herodes tinha prendido João, algemara-o e metera-o na prisão, por causa de Herodíade, mulher de seu irmão Filipe. 4 Porque João dizia-lhe: «Não te é lícito possuí-la.» 5 Quisera mesmo dar-lhe a morte, mas teve medo do povo, que o considerava um profeta. 6 Ora, quando Herodes festejou o seu aniversário, a filha de Herodíade dançou perante os convidados e agradou a Herodes, 7 pelo que ele se comprometeu, sob juramento, a dar-lhe o que ela lhe pedisse. 8 Induzida pela mãe, respondeu: «Dá-me, aqui num prato, a cabeça de João Baptista.» 9 O rei ficou triste, mas, devido ao juramento e aos convidados, ordenou que lha trouxessem 10 e mandou decapitar João Baptista na prisão. 11 Trouxeram, num prato, a cabeça de João e deram-na à jovem, que a levou à sua mãe. 12 Os discípulos de João vieram buscar o corpo e sepultaram-no; depois, foram dar a notícia a Jesus. 13 Tendo ouvido isto, Jesus retirou-se dali sozinho num barco, para um lugar deserto; mas o povo, quando soube, seguiu o a pé, desde as cidades. 14 - Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e, cheio de misericórdia para com ela, curou os seus enfermos. 15 Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se dele e disseram-lhe: «Este sítio é deserto e a hora já vai avançada. Manda embora a multidão, para que possa ir às aldeias comprar alimento.» 16 Mas Jesus disse-lhes: «Não é preciso que eles vão; dai-lhes vós mesmos de comer.» 17 Responderam: «Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes.» 18 «Trazei-mos cá» - disse Ele. 19 E, depois de ordenar à multidão que se sentasse na relva, tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu e pronunciou a bênção; partiu, depois, os pães e deu-os aos discípulos, e estes distribuíram-nos pela multidão. 20 Todos comeram e ficaram saciados; e, com o que sobejou, encheram doze cestos. 21 Ora, os que comeram eram uns cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças. 22 Depois, Jesus obrigou os discípulos a embarcar e a ir adiante para a outra margem, enquanto Ele despedia as multidões. 23 Logo que as despediu, subiu a um monte para orar na solidão. E, chegada a noite, estava ali só. 24 O barco encontrava-se já a várias centenas de metros da terra, açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário. 25 De madrugada, Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar. 26 Ao verem-no caminhar sobre o mar, os discípulos assustaram-se e disseram: «É um fantasma!» E gritaram com medo. 27 No mesmo instante, Jesus falou-lhes, dizendo: «Tranquilizai-vos! Sou Eu! Não temais!» 28 Pedro respondeu-lhe: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas.» 29 «Vem» - disse-lhe Jesus. E Pedro, descendo do barco, caminhou sobre as águas para ir ter com Jesus. 30 Mas, sentindo a violência do vento, teve medo e, começando a ir ao fundo, gritou: «Salva-me, Senhor!» 31 Imediatamente Jesus estendeu-lhe a mão, segurou-o e disse-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?» 32 E, quando entraram no barco, o vento amainou. 33 Os que se encontravam no barco prostraram-se diante de Jesus, dizendo: «Tu és, realmente, o Filho de Deus!» 34 Após a travessia, pisaram terra em Genesaré. 35 Ao reconhecerem-no, os habitantes daquele lugar espalharam a notícia por toda a região. Trouxeram-lhe todos os doentes, 36 suplicando-lhe que, ao menos, os deixasse tocar na orla do seu manto. E todos aqueles que a tocaram, ficaram curados.

Comentários:

1-12 -
Jurar é algo que deveria ser inaceitável por desnecessário e inconsequente. Desnecessário porque significa que de alguma forma se pede como que uma garantia que a pessoa a quem se pede não merece total credibilidade. Inconsequente porque se a palavra dada não é suficiente como o será o juramento?
Como comentar esta página “trágica” de São Mateus? A brutalidade e a total ausência de escrúpulos de que os homens são capazes, ultrapassam o que se pode imaginar. O desprezo absoluto pela dignidade e o valor da vida humana tem a sua expressão bem vincada neste personagem sinistro que se cruza na história da salvação. Os “Herodes” de hoje continuam a sua actuação desgarrada e destemperada, olhando o próprio desprezando o outro. Não têm nem valores nem critério e, no entanto, pasme-se, são filhos de Deus como nós. Procuremos que em vez de sentir revolta e asco por tais criaturas, pedir a Deus que se arrependam e façam uma revisão devida. A Deus nada é impossível.
Jesus Cristo deixa bem claro que a Sua missão neste mundo não se destina a resolver os eventuais conflitos ou questões entre os homens. Veio a este mundo para entregar um testemunho e uma “revisão” da Lei. Não pode, no entanto, deixar de por de sobreaviso sobre o verdadeiro objectivo da vida humana que deve ser a salvação eterna. Tudo aquilo, portanto, que possa constituir um entrave a esse objectivo – como, sem dúvida, são as excessivas preocupações temporais -,é de evitar e usar de grande contenção. A vida terrena só interessa verdadeiramente se for caminho para a Vida Eterna.

13-21 -
A necessidade que os homens sentem de estar com Jesus é de tal forma imperiosa que O seguem para onde quer que for mesmo que tal implique sacrifício e desconforto. Um lugar deserto! Que importa o local desde que Cristo esteja ali?
Desta vez é São Mateus quem nos relata este portentoso milagre de Jesus. Não poderia deixar de o fazer já que - embora não haja milagres menores e outros maiores – as consequências e o ambiente têm uma importância enorme. Uma multidão de gente saciada com uns poucos de pães e de peixes! Os doze cestos que sobraram depois de todos terem comido! Mas, talvez, o mais relevante foi a surpreendente “ordem” de Cristo: «dai-lhes vós de comer» Esta “ordem” é-nos dada também a nós, cristãos sem distinção de categorias ou importância; como se dissesse: ‘Tu, não deixes ninguém afastar-se porque tem fome e sede, dá-lhes o que precisam realmente: o alimento para o corpo e para a alma. Dá o que tens, não importa se muito ou pouco, porque, se o fizeres em Meu Nome, Eu providenciarei o que te possa faltar’.

22-33 -
Novamente o Senhor fala sobre a fé, desta vez para censurar Pedro. A fé de Pedro, naquela altura, é como a nossa, quase sempre: acreditamos, fazemos, até, um esforço para acreditar, mas… O resultado é, quase sempre, afundarmo-nos no meio das procelas da vida sentindo-nos perdidos e com medo. Mas, o Senhor, conta com essa nossa debilidade e está ali, sempre pronto e atento a responder ao nosso apelo: «Salva-me, Senhor!». E, como a Pedro, estende-nos a Sua mão e salva-nos porque nos quer, nos ama e sabe muito bem que precisamos dessas provas que a vida nos trás para robustecer a nossa fé e acreditarmos deveras que, Ele, pode tudo.

22-36 -
Este como que lamento de Jesus «homem de pouca fé, porque duvidaste?» fica-nos gravado na alma de forma indelével. Também nós, tantas vezes, duvidamos que Ele pode tudo e, se nos convida a segui-Lo, não obstante o “pouca coisa” que somos e as dificuldades que possamos encontrar, a Sua assistência, nunca nos faltará. Ele convida quem quer para O seguir mais de perto e, quem é convidado, não tem que interrogar-se o porquê do convite porque não sabemos os planos que Ele terá a nosso respeito. Coisas grandes ou de escasso relevo, mas, certamente, importantes, ou não faria o convite. Não sei, não sirvo, não sou digno, não tenho capacidade… tudo isto são razões sem razão porque, Ele, se convida, sabe. Aceitemos sem medo, ouvindo-O dizer como neste episódio que o Evangelista relata «Tranquilizai-vos! Sou Eu! Não temais!». E, acrescentando, comigo estarás sempre a salvo, seguro e no caminho certo!
Estas cenas que São Mateus nos relata de forma tão viva e detalhada têm uma importância extraordinária na formação dos futuros apóstolos. Jesus retira de qualquer circunstância ou acontecimento o que necessita para formar o carácter e fortalecer a fé dos O seguem mais de perto e, sobretudo, os que serão os seguidores a quem confiará a Sua Igreja.  Já estamos habituados a estas revelações da humildade daqueles homens que desejam que conste para sempre, as suas hesitações, os “altos e baixos” da sua confiança em Jesus… enfim, da sua fragilidade e medos. Claro que, temos de pensar, também com humildade, que, no nosso caso, as reacções que teríamos seriam idênticas porque, na verdade, há todo um ambiente de mistério e de poder divino que ultrapassa a simples compreensão humana. Mas, de facto, o que acontece, é que a convivência com o Senhor há-de levar estes homens simples a formarem uma fé e confiança sólidas como rocha e inabaláveis perante todas as adversidades. Leiamos com atenção quanto os Evangelhos nos relatam e peçamos ao Espírito Santo que nos ilumine o entendimento para entender e acreditar.
Quando o Senhor nos diz para fazer-mos alguma coisa mesmo que a experiência e o conhecimento das nossas incapacidades nos digam o contrário, não duvidemos um segundo e fazemos o que nos diz. Não nos há-de importar se temos de caminhar sobre as águas ou se temos de lançar a rede onde já tentámos uma e outra vez pescar sem qualquer resultado, se Ele o diz… Ah! Mas temos momentos de fraqueza, em que a nossa confiança estremece e falha! Não importa! Ele estará lá para nos estender a mão e arrancar-nos do abismo das águas ou para encher a nossa rede de abundante pescaria.


(AMA, 2018)

13/04/2020

Temas para reflectir e meditar

EUCARISTIA

Jesus ficou na Eucaristia para remediar a nossa fraqueza, as nossas dúvidas, os nossos modos, as nossas angústias; para curar a nossa solidão, as nossas perplexidades, os nossos desânimos; para nos acompanhar no caminho; para sustentar-nos na luta interior. 

Sobre tudo, para nos ensinar a amar, para nos atrair ao Seu Amor.

(Javier EchevarríaCarta aos fiéis da Prelatura do Opus Dei, Ano da Eucaristia, Roma, 2004.10.06)