19/01/2018

Leitura espiritual

CAPÍTULO IV

«ELE É O VERDADEIRO DEUS
E A VIDA ETERNA»

Divindade de Cristo e anúncio da eternidade


Escrevendo a um Cardeal do seu tempo, Santa Catarina de Sena dizia que sobre o corpo da santa Igreja deveria bradar-se um “urro”, isto é, um rugido tão forte, que acordasse os filhos mortos que jaziam dentro dela [i].
(A Santa partilhava a crença popular daquela época que o leão tinha o poder de ressuscitar, com o seu potente rugido, os leões nado-mortos).
Não sei qual era a palavra que deveria ser bradada, naquele tempo, sobre o corpo da santa Igreja. Sei, porém, qual é a palavra que deve ser bradada hoje, para acordar os filhos adormecidos.
É a palavra “eternidade”.
É este o grito do despertar cristão, apalavra que, como a relha do arado, pode abrir um sulco para uma nova sementeira da Palavra. Anunciar o Evangelho a homens que tivessem, por hipótese, perdido a própria ideia de eternidade, serias o mesmo que semear sobre rochas.

Neste capítulo proponho-me demonstrar como dogma de Cristo «verdadeiro Deus e verdadeiro homem» nos pode ajudar nesta tarefa, restituindo-nos a coragem e franqueza de fé necessárias para voltarmos a bradar aos homens de hoje: “Eternidade! Eternidade!”.
Veremos, ainda, como somente a fé na divindade de Cristo faz, da palavra “eternidade”, uma possibilidade concreta oferecida aos homens, apropria finalidade da vida, e não, como seria diversamente, uma simples categoria de pensamento ou uma vaga “nostalgia do Totalmente Outro” [ii].

Ao mesmo tempo, isso permitir-nos-á colher uma enorme carga existencial e a actualidade do dogma cristológico. A teoria kerigmática do nosso século transferiu todo o peso da cristologia do “por si”, isto é, daquilo que Cristo é em Si mesmo, par o “para mim”, isto é, aquilo que Ele significa para mim e para a minha salvação. Porém, deixou muitas vezes este “para mim” na incerteza, reduzindo-o a um princípio abstracto e formal, desprovido de um conteúdo real. Se Cristo nasceu para mim, se por mim Se tornou o homem novo, se por mim «Se santificou a Si mesmo» [iii], se morreu pelos meus pecados, quer dizer que estes factos me interpelam directamente, que têm um significado que eu devo acolher e imitar na minha vida.

Deste modo, recuperamos um dos aspectos mais fecundos do pensamento existencial, o qual, tendo sido muito acutilante no seu iniciador, logo foi sendo esquecido pelos Seus seguidores a convicção que o elemento de “seriedade” do cristianismo reside no viver, no fazer, bem mais que no explicar ou relacionar com a verdade cristã esteou aquele sistema filosófico. Por outras palavras, a convicção que o cristianismo necessita de Santos e não de professores, ou, se necessita de professores, é só no sentido forte de pessoas que “professam” o cristianismo, que aceitam humildemente as suas exigências, embora sabendo que jamais poderão cumpri-las perfeitamente. O que verdadeiramente conta – como recorda Kierkegaard com o título de uma obra sua – é o exercício do cristianismo, isto é, vivê-lo, praticá-lo, estar inserido nele. Nada mais conta.
«Sabeis estas coisas» - dizia Jesus - «bem-aventurados sereis se as praticardes» [iv]
A bem-aventurança não é prometida a quem sabe, mas sim a quem pratica.

Desejando, uma vez mais, debruçar-me sobre a síntese entre o “por si” e o “para mim” da cristologia, dividirei esta meditação em duas partes. Na primeira, iremos reflectir sobre o dogma das duas naturezas de Cristo e como esse dogma pode ser levado a efeito e actualizado pelo homem de hoje; na segunda parte, veremos o peso do anúncio que se liberta da renovada apresentação deste dogma e, em particular, como ele dá apoio ao brado:
“Eternidade, eternidade!”

1.   Dos dois “tempos” às duas “naturezas” de Cristo.

Como é que se formou o dogma das duas naturezas de Cristo «verdadeiro homem e verdadeiro Deus?»
De início, logo depois da Páscoa, o esquema com que se procurava exprimir o mistério de Jesus não era o das duas naturezas, ou das Suas substâncias, divindade e humanidade, mas sim, o esquema dos dois tempos, ou fases, da Sua história: a fase anterior à ressurreição, vivida nas condições do homem comum – o crescimento, a passibilidade, a morte – e a fase inaugurada pela Sua ressurreição da morte, assinalada por caracteres completamente diferentes.
À primeira fase chamou-se: “vida segundo a carne”, e à segunda: “vida segundo o Espírito”.
É assim que se exprime o texto da Carta aos Romanos [v].
Cristo que, por força do Seu nascimento humano da estirpe de David, tinha a Sua existência segundo a carne, a partir da Sua ressurreição dos mortos vive segundo o Espírito e manifesta-Se em todo o Seu poder de Filho de Deus.
Era um esquema histórico; a sucessão: carne-espírito, de facto corresponde, de perto, à de tempo-eternidade.
Mais que a “natureza” de Cristo, o que interessa, nesta perspectiva, é a “condição” de Cristo, o Seu “modo de existir”: primeiramente no tempo e depois fora do tempo.
Mais que a essência, diríamos nós hoje, interessa-nos a existência.

A partir desta compreensão inicial do mistério de Cristo, começa um processo de aprofundamento, em que a fé da Igreja se esforça por escalar cada vez mais até ao cume, ou, o que é o mesmo, escavar sempre cada vez mais em profundidade, à descoberta da verdadeira identidade de Cristo.

Um primeiro, e enorme, passo nesta direcção consiste na inversão do esquema. Assim, não colocaremos em primeiro lugar a carne e depois o Espírito, nem primeiro o tempo e depois a eternidade, mas, pelo contrário, colocaremos antes a eternidade só depois o tempo.
A inversão do sistema começa com o próprio S. Paulo.
Na sua carta aos Filipenses [vi], ele fala de Jesus como d’Aquele que, possuindo em primeiro lugar a “natureza divina”, assume em certo momento da história a “condição de servo”, isto é, a condição humana.
Tudo se torna ainda mais claro com S. João, quando fala do Verbo, que “no princípio estava com Deus” e que depois “Se fez carne” [vii].

Alguns textos dos Padre Apostólicos, permitem-nos ver em acto esta passagem de uma perspectiva para a outra.
Santo Inácio de Antioquia, uma vez, comentando o texto [viii], diz que Jesus é “carnal e espiritual, de Maria e de Deus”, que “nasceu da estirpe de David e do Espírito Santo [ix]; mas, de outra vez, segue já o novo esquema e fala de Jesus que, sendo primeiramente “intemporal, invisível e impassível”, Se torna, depois, “visível e passível” [x].
No primeiro caso, o momento da passagem ainda é a ressurreição de Cristo; no segundo, o momento da passagem é já a Encarnação.
A ordem, no primeiro caso, é: carne-espírito; no segundo, é: Espírito-carne.
Esta nova ordem é a que se observa já claramente num outro escrito apostólico, onde se lê que Cristo “sendo primeiramente Espírito, Se fez carne” [xi].

Um segundo passo nesta evolução diz respeito não só já à ordem, mas ao significado dos termos Espírito-carne, ou – o que corresponde a esses termos na linguagem joanina -Verbo-carne.
Eles não indicam já somente duas condições diferentes, ou modos de existir de Cristo, mas duas realidades, duas substâncias ou naturezas.
Basta o seguinte texto de Tertuliano para nos fazer medir todo o caminho percorrido pela fé em pouco mais de século e meio. Comentando o texto de romanos 1,3-4, escreve:
“O Apóstolo indica aqui as duas substâncias de Cristo.Com as palavras “nascido da estirpe de David segundo a carne”, ele designa o Homem e o Filho do Homem; com as palavras “manifestado Filho de Deus, segundo o Espírito”, indica Deus, o Verbo Filho de Deus. Vemos nele, então, duas substâncias” [xii].
Um outro autor, de época pouco posterior, escreve também:
“Confessamos que Cristo é verdadeiramente Deus segundo o Espírito e verdadeiramente homem segundo a carne” [xiii].
A doutrina do Cristo “segundo a carne e segundo o Espírito”, ou dos dois tempos, ficou determinada como doutrina do Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, isto é, das duas naturezas.

O Concílio de Calcedónia não faz mais que sancionar esta nova compreensão da fé, falando de Cristo, “perfeito em divindade e perfeito em humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem… gerado pelo Pai antes dos séculos segundo a divindade e por Maria nos últimos dias, segundo a humanidade; um só e idêntico Cristo Filho de Deus, que reconhecemos nas duas naturezas, sem confusão e sem divisão” [xiv].

O motivo desta evolução é o mesmo que já tratamos mais atrás quando falámos da humanidade de Cristo
Estamos perante um primeiro e exemplar caso de inculturação da fé.
Pelo mesmo motivo que se passa de Cristo “homem novo” (que diz respeito ao tempo e à história) para o Cristo comum “verdadeiro” ou “completo” (que diz respeito à essência), passa-se agora das duas fases ou modos de existir de Cristo para as Suas duas naturezas, Isto deve-se ao facto de que o Evangelho teve de entranhar-se numa cultura para a qual aquilo que verdadeiramente conta é o ser, ou a essência imutável das coisas, muito mais que o seu devir e a sua história.
Pela mesma razão, a dimensão espiritual e eterna de Cristo antepõe-se agora à dimensão temporal e histórica.
De facto, é impossível que a eternidade possa brotar do tempo, como uma criação sua, mas, pelo contrário, é o tempo que brota da eternidade que “segue” a eternidade, se é que se pode falar de uma precedência ou sequência em relação áquilo que não tem um antes nem um depois.
Foi a certeza de preexistência do Verbo que induziu a inverter a ordem entre Cristo segundo a carne e Cristo segundo o Espírito.

Afastámo-nos, então, da Bíblia para nos aproximarmos dos gregos? Helenizámos o cristianismo e o próprio Jesus Cristo? Não, porque vimos que aquilo que se afirma já estava presente na Palavra de Deus, em São Paulo e em São João. A exigência pastoral do anúncio contribuiu só para manifestar um aspecto fundamental do dado revelado que, de outra forma, teria ficado para sempre na sombra.

Mas, com isto, estabeleceu-se logo um princípio que, de modo diferente, nos interpela também a nós. O caminho da fé não se deteve com a definição de Calcedónia. Do mesmo modo que os padres souberam descortinar com segurança o aspecto da mensagem que melhor poderia servir para estabelecer uma ponte com a cultura do seu tempo, também nós devemos saber descobrir nele o aspecto que está mais apto para falar aos homens de hoje, submetendo, se necessário for, esta mesma cultura hodierna ao juízo da Palavra de Deus e ajudando-a a superar os seus limites e as suas lacunas, como fizeram os Padres com a cultura grega do seu tempo.


(cont)

rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Santa Catarina de Sena, Carta 177 ao Card. Pietro Corsini
[ii] Cfr. M. Horkheimer, A Nostalgia do Totalmente Outro, Brescia, 1973
[iii] Cfr. Jo 17, 19
[iv] Jo 13, 17
[v] Cfr. Rm 1,3-4
[vi] 2,6-9
[vii] Cfr. Jo 1,1-4
[viii] Rom 1,3-4
[ix] Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios,7,2;20,2
[x] Santo Inácio de Antioquia, Carta a Policarpo, 3,2
[xi] Segunda carta de Clemente, 9,5
[xii] Tertuliano, Adversus Praxean, 27,11
[xiii] Adanatius, De Recta Fide, 5,11
[xiv] Dezinger, Schonmtzer, 301-302

Doutrina – 394

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

Compêndio


PRIMEIRA PARTE: A PROFISSÃO DA FÉ
SEGUNDA SECÇÃO: A PROFISSÃO DA FÉ CRISTÃ
CAPÍTULO TERCEIRO

CREIO NA SANTA IGREJA CATÓLICA

A Igreja é una, santa, católica e apostólica

172. Porque é que a Igreja deve anunciar o Evangelho a todo o mundo?



Porque Cristo ordenou: «ide e ensinai todas as nações, baptizando-as no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (Mt 28,19). Este mandato missionário do Senhor tem a sua fonte no amor eterno de Deus, que enviou o seu Filho e o seu Espírito porque «quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade» (1 Tim 2, 4).

Perguntas e respostas

A EUTANÁSIA


11. Outros temas.


A morte digna, os cuidados paliativos e a dureza terapêutica são temas amplos que podemos resumir assim:

É necessário pôr os meios ordinários para os cuidados do doente, mas não se é obrigado a pôr meios extraordinários. 
Isto não significa Eutanásia, mas sim aceitação de uma morte que não se pode evitar.
É bom abrandar a dor de modo proporcional à situação.

Não se deve privar ninguém da consciência sem o seu consentimento. 
Antes de o fazer, convém que tenha recebido cuidado espiritual e tenha já estipulado os seus últimos desejos, testamento, etc.

Pequena agenda do cristão

Sexta-Feira


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)




Propósito:

Contenção; alguma privação; ser humilde.


Senhor: Ajuda-me a ser contido, a privar-me de algo por pouco que seja, a ser humilde. Sou formado por este barro duro e seco que é o meu carácter, mas não Te importes, Senhor, não Te importes com este barro que não vale nada. Parte-o, esfrangalha-o nas Tuas mãos amorosas e, estou certo, daí sairá algo que se possa - que Tu possas - aproveitar. Não dês importância à minha prosápia, à minha vaidade, ao meu desejo incontido de protagonismo e evidência. Não sei nada, não posso nada, não tenho nada, não valho nada, não sou absolutamente nada.

Lembrar-me:
Filiação divina.

Ser Teu filho Senhor! De tal modo desejo que esta realidade tome posse de mim, que me entrego totalmente nas Tuas mãos amorosas de Pai misericordioso, e embora não saiba bem para que me queres, para que queres como filho a alguém como eu, entrego-me confiante que me conheces profundamente, com todos os meus defeitos e pequenas virtudes e é assim, e não de outro modo, que me queres ao pé de Ti. Não me afastes, Senhor. Eu sei que Tu não me afastarás nunca. Peço-Te que não permitas que alguma vez, nem por breves instantes, seja eu a afastar-me de Ti.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





18/01/2018

A riqueza da fé

Não sejas pessimista. – Não sabes que tudo quanto sucede ou pode suceder é para bem? – O teu optimismo será a consequência necessária da tua fé. (Caminho, 378)


No meio das limitações inseparáveis da nossa situação presente, porque o pecado ainda habita em nós de algum modo, o cristão vê com nova clareza toda a riqueza da sua filiação divina, quando se reconhece plenamente livre porque trabalha nas coisas do seu Pai, quando a sua alegria se torna constante por nada ser capaz de lhe destruir a esperança.


Pois é também nesse momento que é capaz de admirar todas as belezas e maravilhas da Terra, de apreciar toda a riqueza e toda a bondade, de amar com a inteireza e a pureza para que foi criado o coração humano.


Também é nessa altura que a dor perante o pecado não degenera num gesto amargo, desesperado ou altivo porque a compunção e o conhecimento da fraqueza humana conduzem-no a identificar-se outra vez com as ânsias redentoras de Cristo e a sentir mais profundamente a solidariedade com todos os homens. É então, finalmente, que o cristão experimenta em si com segurança a força do Espírito Santo, de tal maneira que as suas quedas pessoais não o abatem; são um convite a recomeçar e a continuar a ser testemunha fiel de Cristo em todas as encruzilhadas da Terra, apesar das misérias pessoais, que nestes casos costumam ser faltas leves, que apenas turvam a alma; e, ainda que fossem graves, acudindo ao Sacramento da Penitência com compunção, volta-se à paz de Deus e a ser de novo uma boa testemunha das suas misericórdias.



Tal é, em breve resumo que mal consegue traduzir em pobres palavras humanas a riqueza da fé, a vida do cristão, quando se deixa guiar pelo Espírito Santo. (Cristo que passa, 138)

Temas para reflectir e meditar

Temor e Amor




O Temor e o amor devem andar juntos; continuai temendo, continuai amando até ao último dia da vossa vida.



(CARD. J. H. NEWMAN, Sermões Paroquiais, nr. 24)



Evangelho e comentário

Tempo Comum


Evangelho: Mc 3, 7-12

7 Jesus retirou-se para o mar com os discípulos. Seguiu-o uma imensa multidão vinda da Galileia. E da Judeia, 8 de Jerusalém, da Idumeia, de além-Jordão e das cercanias de Tiro e de Sídon, uma grande multidão veio ter com Ele, ao ouvir dizer o que Ele fazia. 9 E disse aos discípulos que lhe aprontassem um barco, a fim de não ser molestado pela multidão, 10 pois tinha curado muita gente e, por isso, os que sofriam de enfermidades caíam sobre Ele para lhe tocarem. 11 Os espíritos malignos, ao vê-lo, prostravam-se diante dele e gritavam: «Tu és o Filho de Deus!» 12 Ele, porém, proibia-lhes severamente que o dessem a conhecer.

Comentário:

A atracção que Jesus Cristo exerce sobre as pessoas arrasta-as ultrapassando quaisquer obstáculos que possam surgir como, por exemplo, as distâncias que têm de percorrer, a escassez de alimentos… o que for.

Quem assim procede o que procura?
Qual a força que os move?

Bem… procuram Quem os ensine, quem lhes dê esperança e confiança, e, também, Quem possa curar os males – do corpo ou da alma -que os afligem.

A força? Pois a força vem exactamente de uma fé crescente naquele que lhes tem provado que tudo pode e que só quer o bem pessoal de todos e cada um.

Em que são diferentes esses contemporâneos Cristo e nós próprios?

Diferentes? Em nada, temos a mesma Fé e confiança no Senhor, mas, talvez, por vezes, nos deixemos vencer por pequenas dificuldades de pouca monta que se levantam à nossa frente, - porque está a chover, faz muito frio ou calor, temos uma outra ocupação que não queremos interromper – mas… na maior parte das vezes, fruto ou consequência do nosso comodismo, preguiça e falta de zelo.

(AMA Comentário sobre Mc 3, 7-12, 19.01.2017)







Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus

Capítulo III

ACREDITAS?

A divindade de Cristo no Evangelho de S. João


6. “Corde creditur: Crê-se com o coração.”

1.   Crer “em” Cristo

O carácter pessoal do acto de fé é posto em relevo pelo próprio uso do verbo “crer” no evangelho de João.
Encontramos nele a expressão “acreditar” que significa prestar fé, considerar verdadeiro.
Por exemplo, acreditar na Escritura [i], em Moisés, em Cristo [ii].
Encontramos também a expressão “crer que” (em grego oti), que significa estar convencido que, ou simplesmente acreditar.
Por exemplo, acreditar que Jesus é o Santo de Deus, que Ele é o Cristo, que o Pai O enviou, etc. [iii]

Mas ao lado destas expressões conhecidas, há uma outra que é desconhecida da linguagem profana, e que é a que mais agrada ao evangelista: é a expressão “crer me”, (em grego: eis), como na frase:
«Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé também em (eis) Mim» [iv].
Ter fé, significa, neste caso, ter confiança, confiar n’Aquele em que se crê, construir sobre Ele a própria vida.
Significa uma confiança total e incondicional que deve substituir toda a segurança humana.
Uma confiança pela qual o coração não se possa perturbar com mais nada.
Jesus pede para Si o mesmo tipo de confiança que Deus pedia ao Seu povo no Antigo Testamento.

Já Santo Agostinho tinha posto em relevo a força da expressão “crer em”.
Comentando: «Esta é a obra de Deus: crer n’Aquele que Ele enviou» [v], Santo Agostinho escreve:
«Diz crer n’Ele, não dar-Lhe crédito, sim, porque se crerdes n’Ele, dais-lhe; porém, quem dá crédito a Ele também a Ele não crê também necessariamente n’Ele: os demónios davam-Lhe crédito, mas não criam n’Ele. O mesmo se pode dizer em relação aos Apóstolos: damos crédito a Paulo; damos crédito a Pedro, mas não cremos em Pedro. Pois só a quem crê n’Aquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça [vi].Que significa, então, crer n’Ele? Crer, amá-Lo, incorporar-se nos Seus membros. É esta a fé que Deus pretende de nós, se Ele mesmo no-la conceder» [vii].

Crer “no” é algo diferente e algo mais do que crer “que” Jesus é o Filho de Deus.
Esta última é uma fé indivisível, que não admite em si graduações; ou existe, ou não existe; ou se crê, ou não se crê.
Na primeira, pelo contrário, existem vários graus e jamais se acaba de progredir nela.
Noutras palavras, podemos ter mais confiança em Cristo, entregarmo-nos cada vez mais a Ele e perdermo-nos n’Ele, até fazermos da fé no Filho de Deus a razão da nossa vida.
Como São Paulo que podia dizer: «Esta vida que agora vivo, vivo-a pela fé no Filho de Deus que me amou e Se entregou por mim» [viii].

2.   Os frutos da fé em Cristo, Filho de Deus

Os frutos da fé na divindade de Cristo são maravilhosos e também eles divinos.
O primeiro fruto é a vida eterna: «Quem crê n’Ele tem a vida eterna» [ix].
O próprio Evangelho foi escrito para que se creia que Jesus é o Filho de Deus e, crendo, e crendo se tenha a vida eterna [x].
Para João, a vida eterna não é só a vida que começa depois da morte, mas a vida nova, de filhos de Deus, a qual se abre já agora àqueles que creem: Quem crê n’Ele «passou já da morte à vida» [xi].
A fé permite que o mundo divino faça uma invasão neste nosso mundo. Portanto, crer significa muito mais que crer num “além”, numa vida depois da morte; é fazer já a experiência da vida e da glória de Deus. Quem crê, vê logo, e desde já, a glória de Deus [xii].

Este fruto da fé que é a vida, é também realçado com outras imagens.
Quem crê no nome de Cristo “nasce de Deus”, recebe o poder de se tornar Filho de Deus [xiii]; passa das trevas para a luz [xiv], fará as obras que o próprio Jesus fez [xv]. Mas, sobretudo, quem crê recebe o Espírito Santo, que é Aquele que, concretamente, nos traz a vida eterna:
«Quem crê em Mim, como diz a Escritura, do seu seio correrão rios de água viva».
Isto dizia Ele referindo-se ao Espírito que haveriam de receber os que cressem n’Ele!
A fé estabelece um contacto entre Cristo e os crentes, abre uma via de comunicação, através da qual passa o Espírito Santo.
O Espírito Santo é dado a quem crê em Cristo.
A fé – para usar uma metáfora – é a lança do soldado com que se abre o lado de Cristo, a fim de que brotem dele os rios de água viva do Espírito.

Há um fruto da fé em Cristo Filho de Deus que João descobriu já no fim da sua vida, talvez após tê-lo experimentado pessoalmente, e que ele descreve na sua primeira carta: a fé na divindade de Cristo, e só ela, permite vencer o mundo:
«Quem é que vence o mundo senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?» [xvi].
Vencer o mundo significa vencer a hostilidade, a incredulidade, o ódio e a perseguição do mundo.
Mas não é só isto.
Tem também um significado não polémico, existencial; vencer o mundo significa vencer o tempo, a corrupção, a mundanidade.
Quem crê foge à lei da caducidade e da morte. Eleva-se acima do tempo. Em suma, participa da vitória de Cristo que disse:
«Tende confiança, Eu venci o mundo» [xvii].
Mas isto é obtido somente por uma fé de especial qualidade: a que passou, ou está passando, através da cruz.
Foi sobre a cruz, na verdade, que o cordeiro venceu [xviii].

A Igreja anda à procura, hoje mais que nunca, de alguma coisa que vença o mundo, não para o dominar, mas para o salvar e o converter.
Alguma coisa que seja mais forte que o imenso poder que o mundo tem de resistir à fé e seduzir os homens.
A palavra de Deus assegura-nos que essa coisa existe: é a fé em Jesus Cristo Filho de Deus:

«esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé» [xix].

Por isso, Cristo não quis fundar a Sua Igreja sobre outra coisa que não fosse sobre a fé n’Ele próprio como Filho de Deus.
Pedro torna-se Pedra, Kefa, Rocha, no momento em que, por revelação do Pai, crê na origem divina de Jesus.
“Sobre esta pedra - comenta Santo Agostinho – edificarei a fé que tu professaste. Pelo facto de teres dito «Tu és O Cristo, O Filho de Deus vivo», edificarei a minha Igreja» [xx].
A Igreja é fundada sobre o primeiro acto de fé, em ordem de tempo, na divindade de Jesus Cristo.
Esta fica a se a sua base, aquilo que lhe permite vencer o mundo e as portas dos infernos.
Como são diferentes as obras de Deus das obras dos homens!
Todo o imenso edifício da Igreja se apoia sobre uma coisa invisível e frágil, mas que é invencível: é sobre a fé em Cristo Filho de Deus e sobre a promessa feita a esta fé!
A Igreja é, em si mesma, aprova tangível da verdade desta palavra.
Quem crê que Jesus é Filho de Deus, vence o mundo.

9. Convite à fé

Na Bíblia há um salmo chamado “invitatório” e que a liturgia nos faz recitar no começo de cada novo dia. Diz assim:

Vinde, prostremo-nos em terra adoremos o Senhor que nos criou. Ele é o nosso Deus [xxi].

Nós, cristãos, podemos e devemos recitar estas palavras também em relação a Cristo:
“Vinde, prostremo-nos em terra, aproximemo-nos d’Ele com fé; Ele é o nosso Deus”
A melhor maneira para concluir uma meditação sobre a divindade de Cristo é a de nos exortarmos reciprocamente a crer.
Aquilo que São João diz no seu evangelho serve também para as nossas reflexões:
«Estes sinais foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Filho de Deus».

Todos os evangelhos são uma exortação a crer. A grande pergunta de Jesus através dos evangelhos é esta: Acreditais? Acreditas?
O “Credo” com que a Igreja responde a esta pergunta, é uma realidade temporal. É a única resposta adequada. A Igreja dá um passo em frente e, na presença do mundo inteiro, declara: “Eu creio!”
Como não haveria Deus de amar a Igreja?
Ainda hoje acontece algo de novo e incomensurável todas as vezes que um homem, sem delongas, sai da esfera da neutralidade do mundo, da esfera de um simples narrar, explicar, discutir, ainda que com admiração, e diz: “Eu creio!”
Eram estes momentos, quando alguém acreditava, que faziam exultar Jesus no Espírito. Jesus era um buscador sôfrego de fé, infinitamente mais sôfrego que os homens pesquisadores de ouro.

É Ele, o Unigénito do Pai, que está agora diante dos homens e diz: «Tranquilizai-vos e sabei que Eu sou Deus» [xxii].
Não lhes pede, não mendiga fé e gratidão, como muitos pseudo-profetas e fundadores de religiões ocas e sem sentido.
A Sua palavra é plena de autoridade divina. Não diz: “Crede em Mim, peço-vos, prestai-me atenção”, mas diz: “Sabei que Eu sou Deus!”. “Quer queirais quer não, quer acrediteis ou não, Eu sou Deus!”
O evangelho narra-nos que os magos, «prostrando-se O adoraram» e depois abrindo os seus cofres, «Lhe ofereceram ouro, incenso e mirra» [xxiii].
Abramos nós também o cofre do nosso coração e ofereçamos a Jesus a nossa fé. “Corde creditur”; crê-se com o coração, o coração foi feito para crer. Se ele nos aparecer vazio peçamos ao Pai que no-lo encha de fé.
«Ninguém pode vir a Mim – diz Jesus – se o Pai não o atrair» [xxiv].
“Não te sentes ainda atraído? Reza para que o sejas” [xxv].
Não devemos cair no erro que a fé na divindade de Cristo pode vir de nós. Quem pode sozinho escalar o Evereste? Foi o Pai dos Céus Quem revelou a Pedro Quem era Jesus, e não a carne ou o sangue; foi o Pai Quem lhe deu a fé para crer, e Jesus proclamou-o bem-aventurado, precisamente por isso.
A melhor fé e a que se obtém com a oração e não com o estudo.

(cont)

rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Cfr. Jo 2,22
[ii] Cfr. Jo 5,46
[iii] Cfr. Jo 6,69; 11,42; 14,11
[iv] Jo 14,1
[v] Jo 6,29
[vi] Rm 4,5
[vii] Santo Agostinho, In Ioh. 29,6 (PI. 35,1631
[viii] GI 2,20
[ix] Cfr. Jo 3,5; 5,24; 6,40; 6,47
[x] Cfr Jo 20,31
[xi] Jo 5,24
[xii] Cfr. Jo 11,40
[xiii] Cfr. Jo 1,12-13
[xiv] Cfr. Jo 12-46
[xv] Cfr. Jo 14-12
[xvi] 1 Jo 5,5
[xvii] Jo 16,33
[xviii] Cfr Act 5,5
[xix] I Jo 5,4
[xx] Santo Agostinho, Sermo 295, I (PL 38,1349
[xxi] Salmo 94
[xxii] Sl 46,11
[xxiii] Cfr. Mt 2,11
[xxiv] Jo 6,44
[xxv] Santo Agostinho, In Ioh. 26,2 (PL 35,1607

Devoción a la Virgen



El enviado especial del Papa a Medjugorje matiza su afirmación sobre el permiso para las peregrinaciones

Pequena agenda do cristão

Quinta-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Participar na Santa Missa.


Senhor, vendo-me tal como sou, nada, absolutamente, tenho esta percepção da grandeza que me está reservada dentro de momentos: Receber o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade do Rei e Senhor do Universo.
O meu coração palpita de alegria, confiança e amor. Alegria por ser convidado, confiança em que saberei esforçar-me por merecer o convite e amor sem limites pela caridade que me fazes. Aqui me tens, tal como sou e não como gostaria e deveria ser.
Não sou digno, não sou digno, não sou digno! Sei porém, que a uma palavra Tua a minha dignidade de filho e irmão me dará o direito a receber-te tal como Tu mesmo quiseste que fosse. Aqui me tens, Senhor. Convidaste-me e eu vim.


Lembrar-me:
Comunhões espirituais.


Senhor, eu quisera receber-vos com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu Vossa Santíssima Mãe, com o espírito e fervor dos Santos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?






17/01/2018

O amor manifesta-se com factos

Vai até Belém, aproxima-te do Menino, baila com Ele, diz-lhe muitas coisas vibrantes, aperta-o contra o coração... Não estou a falar de infantilidades: falo de amor! E o amor manifesta-se com factos: na intimidade da tua alma, bem o podes abraçar! (Forja, 345)


É preciso ver o Menino, nosso Amor, no seu berço. Olhar para Ele, sabendo que estamos perante um mistério. Precisamos de aceitar o mistério pela fé, aprofundar o seu conteúdo. Para isso necessitamos das disposições humildes da alma cristã: não pretender reduzir a grandeza de Deus aos nossos pobres conceitos, às nossas explicações humanas, mas compreender que esse mistério, na sua obscuridade, é uma luz que guia a vida dos homens.


Ao falar diante do presépio sempre procurei ver Cristo Nosso Senhor desta maneira, envolto em paninhos sobre a palha da manjedoura, e, enquanto ainda menino e não diz nada, vê-Lo já como doutor, como mestre. Preciso de considerá-Lo assim, porque tenho de aprender d'Ele. E para aprender d'Ele é necessário conhecer a sua vida: ler o Santo Evangelho, meditar no sentido divino do caminho terreno de Jesus.


Na verdade, temos de reproduzir na nossa, a vida de Cristo, conhecendo Cristo à força de ler a Sagrada Escritura e de a meditar, à força de fazer oração, como agora estamos fazendo diante do presépio.



É preciso entender as lições que nos dá Jesus já desde menino, desde recém-nascido, desde que os seus olhos se abriram para esta bendita terra dos homens. Jesus, crescendo e vivendo como um de nós, revela-nos que a existência humana, a vida corrente e ordinária, tem um sentido divino. (Cristo que passa, nn. 13–14)