13/01/2018

Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus

Capítulo III

ACREDITAS?

A divindade de Cristo no Evangelho de S. João


2. Tu dás testemunho de Ti próprio

…/2

A característica da luz é ser luz para si própria, iluminar tudo, sem poder ser iluminada por nenhuma outra coisa. Pode somente resplandecer, na esperança de que haja olhos abertos para a receber.
«O verdadeiro sentido da resposta de Jesus é que a Sua afirmação encontra confirmação em si mesma.
Na realidade, a pretensão de ser luz não pode ser provada senão fazendo resplandecer a luz.
A finalidade de todo o Evangelho é precisamente esta: demostrar como a conduta de Cristo dá testemunho de si mesma; como as suas “obras” são luminosas» [i].
João Baptista dá testemunho da luz, sim, [ii] mas com uma pequena candeia que se tem acesa à espera da aurora e se retira logo que nasce o Sol.
E, de facto, ele retrai-se, dizendo:
«É necessário que Ele cresça e eu diminua» [iii].
Existe somente uma pessoa que pode dar testemunho de Jesus e que, de facto, Lho dá: o Pai.
Continuamente e de vários modos, o Pai dá testemunho de Cristo:
Com As Escrituras que falam dele; [iv]
Com as palavras que Lhe dá para proferir;
E as obras que Lhe dá para cumprir.
Mas tudo isto supõe uma condição para se poder tornar eficaz: Ter em Si a «palavra», ou «o amor do Pai», ou ser «de Deus», amar a luz, e querer fazer a Vontade de Deus. [v]
São todos modos variados de dizer a mesma coisa.

Todo o testemunho que vem de fora cairá no vazio, se não encontrar no coração alguma coisa capaz de o escutar e acolher.
A luz pode resplandecer quando queira, mas se os olhos que a devem receber se fecha diante dela, é como de facto se não resplandecesse.
Neste caso, o facto de haver alguém que não veja, não é sinal que a luz não existe, mas somente que esse alguém é cego.
Jesus pode mostrar a Sua divindade, a Sua origem vinda do alto; mas se faltar ou não funcionar o órgão que deve receber esta revelação, não haverá compreensão e não nascerá fé alguma.
Acontece como quando se fala com um estrangeiro que não conhece a linguagem de quem lhe fala.
As palavras chegam aos seus ouvidos, mas não têm sentido algum, não passando de meros sons.
Acontece o mesmo no contexto que Jesus pronunciou aquele «Eu Sou»; quase lutando contra esta situação de incomunibilidade que existe entre Ele e os Seus ouvintes, Ele diz:
«Porque não compreendeis a minha linguagem? É porque não sois capazes de ouvir a Minha palavra». [vi]

A resposta que emerge é sempre a mesma:
Alguns não têm em si a Palavra de Deus, e o sinal que não têm essa Palavra é precisamente o facto de não crerem. [vii]

Se fossem de Deus saberiam que Ele profere palavras de Deus.
É como se um homem, vindo de um país longínquo, encontrasse pessoas que dizem ter vindo daquele mesmo país.
Mas quando se dirige a essas pessoas, falando na linguagem pátria, eles não o compreendem.
É sinal evidente que mentiram e que não são do seu mesmo país; ora Ele sabe «de onde veio».

Essa mesma prova tiveram-na dolorosamente os Apóstolos depois da Páscoa. Diante da incredulidade do Sinédrio, Pedro declara:
«Somos testemunhas destes factos, nós e o Espírito Santo que Deus deu àqueles que Lhe obedecem». [viii]
Os Apóstolos chamam aqui «Espírito Santo» ao que Jesus chamava «a Palavra» ou «o amor do Pai», mas trata-se evidentemente da mesma realidade, ou seja, do correspondente íntimo de alguém que só pode permitir recolher o testemunho exterior, primeiramente de Jesus e agora dos Apóstolos.
O campo visual limita-se ao coração do homem; é aí que se decide quem será crente e quem não será crente.


3     «Como podeis vós acreditar?»

Mas, porque motivo não existe no nosso íntimo aquela «palavra» ou aquele Espírito que permite discernir que aquilo que Jesus diz de Si próprio é verdadeiro, e que Ele é verdadeiramente o Filhó de Deus?
É porventura Deus que nos discrimina e obceca, que predestina uns para a fé e outros para a incredulidade?
Sabemos que alguns, por exemplo Calvino, explicaram as coisas desse modo.
Mas, então, quem não crê, como poderia ser responsável e como poderia ser «julgado» pela Palavra de Jesus e pelas obras que pratica?
É verdade que o próprio São João escreve de alguns:
«Não podiam crer, pelo facto de Isaías ter dito: “Obcecou-lhes os olhos e endureceu-lhes o coração, para que não vejam com os olhos e não entendam com o coração, e se convertam e Eu os cure”» [ix]
Mas sabemos como são interpretados estes textos da Escritura; não no sentido de que Deus obceca ou endurece Ele próprios corações, mas que permite que o espírito seja obcecado e o coração empedernido, em consequência das livres opções e resistências do homem.
«Pois que – diz São Paulo – os homens não deram glória a Deus, mas desvaneceram-se nos seus pensamentos e desprezaram o conhecimento de Deus… por isso, Deus abandonou-os a um sentimento perverso» [x].

Quem é que obceca verdadeiramente o homem, é também São Paulo que o diz quando escreve:

«Se o nosso Evangelho permanece encoberto, isto é para aqueles que se perdem, aos quais o deus deste mundo cegou a mente incrédula para que não lhes resplandeça a luz do glorioso evangelho de Cristo que é imagem de Deus» [xi]

Também Santo Agostinho escreve que «Deus não abandona, se não for abandonado» [xii]

É claro que, com isto, resta sempre uma ponta de mistério no facto de que alguns creem e outros não, o que nos deve incutir um temor salutar.
Mas nós temos é que preocupar-nos com o que depende de nós, não com o que depende de Deus.
Sabemos, e isso nos basta, que Deus é sempre justo e recto naquilo que faz.

A propósito daquilo que depende de nós, o próprio Jesus apontou a raiz da qual nasce no homem a incredulidade, ou seja, porque é que o incrédulo «não pode crer:

«Como podeis crer – disse Ele – vós que recebeis a glória uns dos outros e não procurais a glória que vem só de Deus?» [xiii]
Ainda de outra vez, precisamente depois de ter recordado aquelas palavras de Isaías, o evangelista escreve:

«Apesar de tudo, creram nele também muitos dos chefes, mas não o confessavam abertamente por causa dos fariseus e para não serem expulsos da sinagoga; porque apreciavam mais a glória dos homens que a glória de Deus» [xiv]

Quem é, então, o inimigo da fé na divindade de Cristo?

A Razão?

Não, é o pecado e, precisamente, o pecado do orgulho, a procura da própria glória.
Quem está dominado pala procura da própria glória não pode crer, porque na fé não há lugar para a glória humana e não existe «originalidade».
Pelo contrário, para rer é preciso ajoelhar, obedecer a Deus, como dizia São Pedro [xv].
É verdade que quem crê «verá a glória de Deus» [xvi], mas é a glória de Deus e não a glória pessoal.
Crer é estar constantemente na dependência do absoluto, em constante avaliação do próprio nada.

Em consequência, a grande aliada da fé e o seu verdadeiro preambulum, é a humildade.
Deus escondeu a Sua divindade na humildade da carne e da Cruz.
Ninguém, portanto, a pode descobrir se não for humilde, se não se fizer pequeno.
É como se alguém procurasse uma coisa qualquer, tomando a direcção posta àquela em que ela está: nunca a encontrará.
Procurará em vão a divindade de Cristo todo aquele que não a procurar na humildade e com humildade.
O Pai – diz Jesus – escondeu estas coisas, e sobretudo o mistério da Sua Pessoa, aos sábios e entendidos e revelou-as aos pequeninos [xvii].

É preciso dizer que o orgulho tem um poderoso aliado nesta sua obra de obcecação, que é a impureza, a escravidão da matéria e, em geral, uma vida desordenada e indecorosa.
É o que afirma o Evangelista São João, recorrendo mais uma vez à imagem da luz:
«A luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque eram más as sua obras. Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reveladas» [xviii].
Não se fala aqui só da impureza da carne (luz é também o amor, e as trevas o ódio), mas certamente também se fala dela e é a experiência que o confirma.
A desordem moral apaga o Espírito, que é unicamente Quem permite discernir o testemunho exterior de Jesus e dos Apóstolos.
«Porque os instintos egoístas têm desejos contrários ao Espírito, e o Espírito contra os desejos egoístas.[xix]

(cont)

rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] C. H. Dodd, A Interpretação do IV Evangelho, Brescia, 1974, p. 260.
[ii] Jo 1,8
[iii] Jo 3,30
[iv] Jo 1,8
[v] Jo 5,38;5,41;7,17;8,47
[vi] Jo 8,43
[vii] Jo 5,38
[viii] At 5,32
[ix] Jo 13,39-40; Is 9,9sss.
[x] Rm 1,21.28
[xi] 2Cor 4,3-4
[xii] Santo Agostinho, De Natura et Gratia, 26,29 (CSEI. 5,255): «Non deserit si non deseratur».
[xiii] Jo 5,44
[xiv] Jo 12,43-44
[xv] Act 5,32
[xvi] Jo 11,40
[xvii] Cfr. Mt 11,25
[xviii] Jo3,19-20
[xix] Gl 5,17

Hoy el reto del amor es que te dejes hidratar por Cristo

CRISTO SABE DE COSMÉTICA 


Ayer empezamos una Jornada Monástica, y una del grupo nos entregó unas bolsas con unos cuantos botes dentro.


Emocionada, nos habló de su contenido: ¡era un tratamiento completo para las manos! Nos enseñó todo con entusiasmo, poniendo un poco de cada producto sobre nuestras manos. Nos hizo experimentar la textura, el olor... Realmente convencía de que era lo mejor. Pero... el proceso eran tres pasos y eso... dado el tiempo del que disponemos, emplearlo para el uso de cosméticos no nos convencía mucho.


Cuando se fueron, razonamos todo lo que nos dijo, pues las circunstancias, el tiempo... eran factores adversos. ¡No entendíamos tener que echar una crema de manos en tres pasos! Pensamos que quizá si las mezclábamos y las hacíamos un solo producto, sería más rápido; que si nos saltábamos uno de los pasos que nos resultaba ilógico, daría igual...


Finalmente: cogimos las instrucciones. Y el primer paso resulta ser el hidratante; el segundo, exfoliante; y el tercero, el que daba suavidad a las manos, siendo todo el conjunto lo que daba el ¡resultado perfecto! Así sí que tenía su lógica.


Y así vimos el tratamiento de Cristo en nuestro corazón: Como Gema hizo con la crema sobre nuestras manos, así Cristo, cuando menos te lo esperas, se posa sobre ti y te deja sentir su olor, su textura, traducidos en Amor y Paz.


Así, el primer paso, en el que le experimentas vivo, cercano, te llena de tal manera que hidrata todas tus heridas, todo tu pasado, el momento duro por el que puedes estar pasando... sintiéndole así presente.


El segundo, el exfoliante, en el que dejas que entre Él en tu corazón, en tu intimidad, dejas que muera por todas aquellas heridas, quita de tu vida aquello que te hace daño y va limpiando todo.


Y ya por último, el tercero, en el que tu vida adquiere la suavidad del amor, un sentido nuevo, ¡el resultado perfecto!


Hoy el reto del amor es dejar que Cristo entre en tu corazón, limpie lo que te pesa y suavice tu vida: cuando vayas paseando, entra en una iglesia y déjate hidratar por Él.



VIVE DE CRISTO

Pequena agenda do cristão

SÁBADO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:

Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





12/01/2018

A tarefa dos pais de família é importantíssima

Admira a bondade do nosso Pai Deus: não te enche de alegria a certeza de que o teu lar, a tua família, o teu país, que amas com loucura, são matéria de santidade? (Forja, 689)


Comove-me que o Apóstolo qualifique o matrimónio cristão como "sacramentum magnum", sacramento grande. Também daqui deduzo que o trabalho dos pais de família é importantíssimo.


– Participais do poder criador de Deus e, por isso, o amor humano é santo, nobre e bom: uma alegria do coração, à qual Nosso Senhor, na sua providência amorosa, quer que outros livremente renunciemos.


Cada filho que Deus vos concede é uma grande bênção divina: não tenhais medo aos filhos! (Forja, 691)


Nas minhas conversas com tantos casais, insisto em que, enquanto eles viverem e os filhos também viverem, devem ajudá-los a ser santos, sabendo que na terra ninguém será santo. Não faremos mais que lutar, lutar e lutar.


E acrescento: – Vós, mães e pais cristãos, sois um grande motor espiritual, que manda aos vossos filhos fortaleza de Deus para essa luta, para vencer, para que sejam santos. Não os defraudeis! (Forja, 692)


Não tenhas medo de querer bem às almas, por Ele; e não te importes de amar ainda mais aos teus, sempre que, querendo-lhes muito, o ames a Ele milhões de vezes mais. (Sulco, 693)


Pela tua intimidade com Cristo, estás obrigado a dar fruto: Fruto que sacie a fome das almas, quando se aproximarem de ti, no trabalho, no convívio, no ambiente familiar... (Forja, 981)


Temas para reflectir e meditar

Carácter


O teu mau carácter, a tua brusquidão, os teus modos pouco amáveis, as tuas atitudes falhas de afabilidade, a tua rigidez (tão pouco cristã!), são a causa de que te encontres só, na solidão do egoísta, do amargurado, do eterno descontente, do ressentido, e são também a causa de que à tua volta, em vez de amor, haja indiferença, frieza, ressentimento e desconfiança.

É necessário que com o teu bom carácter, com a tua Compreensão e afabilidade, com a mansidão de Cristo amalgamada na tua vida, sejas feliz e faças felizes a todos os que te rodeiam, a todos os que te encontrem no caminho da vida.

(SALVATORE CANALS, Ascética Meditada, Col. Éfeso 4ª Ed. nr. 72-73)



Evangelho e comentário

Tempo Comum


Evangelho: Mc 2, 1-12

1 Dias depois, tendo Jesus voltado a Cafarnaúm, ouviu-se dizer que estava em casa. 2 Juntou-se tanta gente que nem mesmo à volta da porta havia lugar, e anunciava-lhes a Palavra. 3 Vieram, então, trazer-lhe um paralítico, transportado por quatro homens. 4 Como não podiam aproximar-se por causa da multidão, descobriram o tecto no sítio onde Ele estava, fizeram uma abertura e desceram o catre em que jazia o paralítico. 5 Vendo Jesus a fé daqueles homens, disse ao paralítico: «Filho, os teus pecados estão perdoados.» 6 Ora estavam lá sentados alguns doutores da Lei que discorriam em seus corações: 7 «Porque fala este assim? Blasfema! Quem pode perdoar pecados senão Deus?» 8 Jesus percebeu logo, em seu íntimo, que eles assim discorriam; e disse-lhes: «Porque discorreis assim em vossos corações? 9  Que é mais fácil? Dizer ao paralítico: ‘Os teus pecados estão perdoados’, ou dizer: ‘Levanta-te, pega no teu catre e anda’? 10 Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar os pecados, 11 Eu te ordeno - disse ao paralítico: levanta-te, pega no teu catre e vai para tua casa.» 12 Ele levantou-se e, pegando logo no catre, saiu à vista de todos, de modo que todos se maravilhavam e glorificavam a Deus, dizendo: «Nunca vimos coisa assim!»

Comentário:

Quando se trata de ajudar os verdadeiros amigos não se deixam vencer pelas dificuldades que possam apresentar-se.

Não há nem “respeitos humanos” nem receio de ridículo… trata-se de ajudar um amigo e, tal, está acima de qualquer razão humana.

Esta é, sem dúvida, a verdadeira amizade que não se move nem por interesses nem por outra qualquer razão, mas, tão só, a vontade e disponibilidade de ajudar, servir, ser útil.

Feliz é quem tem amigos assim!

(AMA, comentário sobre Mc 2, 1-12, 13.01.2017)






Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus

Capítulo III

ACREDITAS?

A divindade de Cristo no Evangelho de S. João

1. Se não acreditardes que Eu Sou...

Um dia estava eu a celebrar a Missa num convento de clarissas.
O terço evangélico proposto pela liturgia era a página de S. João em que Jesus repetidamente anuncia o seu Eu Sou:

«Se não acreditardes que Eu Sou morrereis nos vossos pecados... quando levantardes o Filho do homem, então sabereis que Eu Sou... antes que Abraão existisse, Eu Sou» [i].

O facto de Eu Sou, contrariamente a todas as regras gramaticais, estar escrito no evangeliário com duas maiúsculas, ligado certamente a qualquer outra causa mais misteriosa, fez acender uma centelha.
Aquela palavra explodiu em mim. Sim, eu sabia que no Evangelho de S. João havia numerosos ego eimi, «Eu Sou», pronunciados por Jesus e que isso era um facto importante para a Sua cristologia. Mas era um conhecimento inerte e sem consequências.
Esse facto jamais me tinha alvoroçado. Porém, naquele dia, não aconteceu assim. Estava-se na quadra pascal e parecia que o próprio Jesus ressuscitado tinha proclamado o Seu nome divino perante o Céu e a terra. O Seu «Eu Sou» iluminava e enchia o universo.
Eu sentia-me pequenino, como quem assiste, por acaso e à parte, a uma cena imprevistas e extraordinária, ou a um grande espectáculo da natureza.
Não se tratou senão de uma simples emoção de fé, mas foi uma emoção daquelas que, tendo já passado, deixam no coração uma grande saudade.

Desejoso de saber algo mais daquele «Eu Sou» de Cristo, recorri aos comentários modernos sobre o Quarto Evangelho e verifiquei que eles são quase unânimes em ver naquelas palavras de Jesus uma alusão ao Nome divino, como ele se apresenta, por exemplo, em Isaías 43,10: para que saibais, que acrediteis em Mim e entendamos que Eu Sou.
De resto, já muito tempo antes, Santo Agostinho tinha relacionado esta palavra de Jesus com a revelação do nome divino em Êxodo 3,14, e tinha concluído:

Parece-me que o Senhor Jesus Cristo, dizendo, Se não acreditardes que Eu Sou, não quis dizer nada mais que isto:
Graças sejam dadas a Deus porque Ele disse se não acreditais e não disse se não compreenderdes. Se não compreendes, a fé salva-te 
[ii].

Tive a ousadia de começar esta explanação sobre a divindade de Cristo com esta recordação pessoal, porque, no âmbito do Quarto Evangelho, essa verdade encontra a sua expressão mais palpitante precisamente naquele Eu Sou de Cristo.


Poder-se-ia objectar que estas palavras de São João, desenvolvimentos tardios da fé, que Jesus nada tem a ver com isso.
Mas a questão está mesmo aqui. Essas palavras são mesmo de Jesus; certamente de Jesus ressuscitado que vive e falta agora no Espírito; mas são sempre palavras de Jesus, do próprio Jesus de Nazaré.
Hoje costuma-se distinguir as palavras de Jesus dos evangelhos em palavras autênticas e em pessoas não autênticas, isto é, em pessoas pronunciadas verdadeiramente por Ele durante a Sua vida, e em palavras a ele atribuídas pelos Apóstolos depois da Sua morte. Mas esta distinção é muito ambígua e não tem valimento no caso de Cristo, como no caso de um vulgar autor humano.
Não se trata evidentemente, de pôr em dúvida o carácter plenamente humano e histórico dos escritos do Novo Testamento, a diversidade dos géneros literários e das formas, nem tampouco de regressar à antiga ideia de inspiração verbal e quase mecânica da Escritura.
Trata-se somente de saber se a inspiração bíblica tem ainda algum sentido para os cristãos ou não; se quando dizemos que a bíblia é Palavra de Deus, este de Deus tem para nós um significado qualitativamente diferente de qualquer outro caso, ou se é somente um modo de dizer como qualquer outro.

Jesus dizia que o Espírito Santo daria testemunho dele [iii] que haveria de receber do que era Seu para O anunciar aos discípulos [iv]; e onde Lhe daria este testemunho a não ser nas Escrituras por Ele inspiradas?

Mais ainda.
Jesus afirma que Ele próprio haveria de continuar a falar através do Espírito:

«Virá o tempo em que vos falarei já não por parábolas, mas abertamente vos falarei do Pai [v].
Eu, e não outro, vos falarei do Pai!

A que tempo futuro Se refere Jesus com estas palavras?
Não ao tempo da Sua vida terrestre, onde não será já necessário que Ele fale ainda do Pai. Refere-se ao tempo depois da Sua Páscoa e do Pentecostes, quando, através do Seu Espírito, levou os discípulos à verdade plena da Sua relação com o Pai [vi], que é aquilo que historicamente sabemos que aconteceu.

Certamente alguém poderá dizer que também aquelas palavras: «Eu vos falarei do Pai", são exclusivamente do Evangelista; mas já não é extraordinário que João tenha afirmado isso: que Ele acreditava que depois da Páscoa era ainda Jesus que continuava a revelar-se e a revelar o Pai?

2. Tu dás testemunho de Ti próprio

É o próprio Jesus, portanto, que no «Eu Sou» e de numerosos outros modos, Se autoproclama Deus no Quarto Evangelho.
Ele tornará assim explícita uma reivindicação que, durante a Sua vida terrena, fora já preparada, mesmo que só de forma implícita.
Os Discípulos ainda não tinham capacidade para suportar o peso de tal revelação.

Mas este motivo era secundário. O motivo pelo qual Jesus reserva a plena compreensão de Si próprio para depois da Páscoa – e, portanto, para o testemunho dos Apóstolos - é também outro, mais determinante. Precisamente porque a Sua morte e ressurreição eram a chave para compreender quem Ele era.
Neste sentido, o testemunho dos Apóstolos - isto é, na prática, os escritos do Novo Testamento - são parte integrante da auto-revelação de Jesus. Jesus narrou neles, com o Seu Espírito, aquilo que não podia narrar pessoalmente, sem antes ter morrido e ressuscitado. Antes de saber «que Jesus era Deus», era importante saber «que Deus era Jesus», e que isso só é revelado na Cruz e na ressurreição.

Portanto, não é só o Evangelista que proclama Jesus como «Deus», mas é Ele próprio que Se auto-proclama como tal.
Já durante a vida de Cristo existia a grande contestação: «Tu dás testemunho de Ti mesmo, o Teu testemunho não é verdadeiro" [vii].

Jesus responde:
«Ainda que Eu próprio dê testemunho de Mim, o Meu testemunho é verdadeiro, porque sei de onde vim e para onde vou» [viii].

Esta resposta só aparentemente é absurda e contrária a todas as nossas ideias de testemunho.
«Se alguém se conhece perfeitamente e com um conhecimento que, por sua natureza, não pode ser compartilhado com outros, o único testemunho possível só pode ser o do interessado» [ix] .
Ora este é precisamente o caso de Jesus e somente dele.
Só Eles sabe donde vem e para onde vai; só Ele vem do Céu, ao passo que os outros são cá de baixo.
[x]
Jesus dá testemunho de Si mesmo, pelo mesmo motivo pelo qual Deus - diz a Bíblia - «jurou por Si mesmo já que não tinha ninguém superior a Si por quem jurasse». [xi]

Jesus ilustra este facto recorrendo à imagem da luz:

«Eu sou a luz do mundo» [xii].

Ele – dizia o evangelista - «era a luz verdadeira». [xiii]

Pode o sol receber luz de uma vela?


(cont)

rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Jo 8,24.28.58
[ii] Santo Agostinho, In Ioh 38,10 (PL 35, 1680)
[iii] Jo 15,26
[iv] Cfr. Jo 16,14
[v] Jo 16,25
[vi] Jo 16,13
[vii] Jo 8,13
[viii] Jo 8,14
[ix] C. H. Dodd, A Interpretação do IV Evangelho, Brescia, 1974, p. 260.
[x] cfr. Jo 8,14-23
[xi] Hb 6,13
[xii] Jo 8,12
[xiii] Jo 1,9

Doutrina – 392

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

Compêndio


PRIMEIRA PARTE: A PROFISSÃO DA FÉ
SEGUNDA SECÇÃO: A PROFISSÃO DA FÉ CRISTÃ
CAPÍTULO TERCEIRO

CREIO NA SANTA IGREJA CATÓLICA

A Igreja é una, santa, católica e apostólica

170. Que ligação há entre a Igreja católica e as religiões não cristãs?



Antes de mais, há o laço comum da origem e fim de todo o género humano. A Igreja católica reconhece que tudo o que de bom e de verdadeiro existe nas outras religiões vem de Deus, é reflexo da sua verdade, pode preparar para acolher o Evangelho e mover em direcção à unidade da humanidade na Igreja de Cristo.

Perguntas e respostas

A EUTANÁSIA



9. Que sentido tem o sofrimento?

É difícil entender o sentido do padecimento sem referências espirituais.

Sobre isto pode ver-se o tema dor.


Para muitas pessoas esses sacrifícios e paciência abrem-lhes as portas do céu e retiram tempo ao purgatório.

Pequena agenda do cristão

Sexta-Feira


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)




Propósito:

Contenção; alguma privação; ser humilde.


Senhor: Ajuda-me a ser contido, a privar-me de algo por pouco que seja, a ser humilde. Sou formado por este barro duro e seco que é o meu carácter, mas não Te importes, Senhor, não Te importes com este barro que não vale nada. Parte-o, esfrangalha-o nas Tuas mãos amorosas e, estou certo, daí sairá algo que se possa - que Tu possas - aproveitar. Não dês importância à minha prosápia, à minha vaidade, ao meu desejo incontido de protagonismo e evidência. Não sei nada, não posso nada, não tenho nada, não valho nada, não sou absolutamente nada.

Lembrar-me:
Filiação divina.

Ser Teu filho Senhor! De tal modo desejo que esta realidade tome posse de mim, que me entrego totalmente nas Tuas mãos amorosas de Pai misericordioso, e embora não saiba bem para que me queres, para que queres como filho a alguém como eu, entrego-me confiante que me conheces profundamente, com todos os meus defeitos e pequenas virtudes e é assim, e não de outro modo, que me queres ao pé de Ti. Não me afastes, Senhor. Eu sei que Tu não me afastarás nunca. Peço-Te que não permitas que alguma vez, nem por breves instantes, seja eu a afastar-me de Ti.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?