21/12/2017

Temas para meditar

A força do Silêncio, 141



Esquecemos frequentemente que Jesus gostava de estar em silêncio.

Ele partia para o deserto não para Se exilar, mas para encontrar Deus. (…)



CARDEAL ROBERT SARAH

Evangelho e comentário

Tempo do Advento


Evangelho: Lc 1, 39-45

39 Por aqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se à pressa para a montanha, a uma cidade da Judeia. 40 Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. 41 Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe de alegria no seio e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. 42 Então, erguendo a voz, exclamou: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. 43 E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? 44 Pois, logo que chegou aos meus ouvidos a tua saudação, o menino saltou de alegria no meu seio. 45 Feliz de ti que acreditaste, porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor.»

Comentário:


Talvez que – poderíamos pensar- depois do Anjo a ter deixado, a Senhor mergulhasse em oração profunda, íntima e intensa com Deus.

Mas, ela surpreende-nos – sempre nos surpreende – porque o que faz é apressar-se a dar assistência à sua prima Isabel que, “já entrada em anos”, bem deveria precisar dela.

Os outros! A Senhora pensa nos outros, sempre, muito antes de os outros lhe pedirem o que for.
Está atenta, disponível, amável e carinhosa e, como em Caná, onde mais uma vez faz o mesmo, não nos diz outra coisa que:
«Fazei o que Ele vos disser»!

(AMA, comentário sobre Lc 1, 39-45, 14.09.2017)






Reflectindo

Expectativa


É uma forma de viver cada dia que passa:

logo... amanhã... para a semana...

o que se espera fazer ou se julga vai suceder.

projectos, desejos, sonhos.

Por isto tudo me esqueço do mais importante:

Viver o presente!



 (AMA. reflexões, 31.07.2007

Leitura espiritual

A PAZ NA FAMÍLIA

A IMAGEM IDEAL E A IMAGEM REAL

Muitos, sem nem darem por isso, fazem dos outros e, concretamente das pessoas da família, como um espelho de si mesmos. Encaram a mulher, o marido, os filhos, como espelhos em que gostariam de ver-se refletidos: sempre lhes agradaria contemplar neles os seus gostos, os seus desejos, os seus sonhos. Os outros só são estimados como projeção de si mesmos.
É preciso virar cento e oitenta graus esse espelho, é preciso abrir o coração e fazer o que, com expressão feliz, Gustavo Corção chamava “a descoberta do outro”.
“O marido, cheio de razões – escreve esse autor –, não admite que a mulher fale de certo modo, tenha tal tique ou qual mania. Que a sua maneira de andar, de partir o pão, de atender o telefone, seja a sua maneira. O confronto diário, entra ano sai ano, é insuportável para cada cônjuge [...]. Cada um se procura a si mesmo na face que lhe fica em frente e, nos dias piores, fica desvairado, atormentado, enlouquecido, como homem que visse no seu espelho uma imagem absurda, diferente da sua, a fazer gestos disparatados e femininos”.
Nesse clima de auto-procura, continua a dizer Corção, as pessoas “são coisas de mim mesmo que circulam fora de mim para melhor me servir. O eu fica no centro de um universo escuro, em volta estão os corpos tributários: este traz-me o café, aquele a carícia”.
Para quebrar esse curto-circuito perverso, é necessário fazer a “descoberta do outro”. A descoberta de que o marido, a mulher, os filhos, são o “outro”, que deve ser compreendido e amado por si mesmo. A caridade cristã leva, então, a ver nos outros membros da família o próximo, “esse que amaremos como a nós mesmos [...]. Vivemos esbarrando no próximo, porque não nos ocorre, na espessura da nossa escuridão, que ele tenha direito à objetividade, que seja o outro” [i].
Sim. Como custa entender que o cônjuge, ou o filho, ou a filha, ou os pais, sejam “eles”! No entanto, esse olhar compreensivo é o primeiro passo do entendimento, da paz, do amor.
Na realidade, qual é a causa mais profunda das desavenças, das brigas, dos maus humores, dos desentendimentos familiares? É que temos uma “imagem ideal” da pessoa (o que desejaríamos que a esposa, o filho, o pai fossem...), mas encontramo-nos a cada passo com a “imagem real”. Essa imagem real – que é a única que existe – irrita, decepciona. O choque com a imagem real, que parece arrebentar os sonhos ideais, azeda e desgasta o dia-a-dia, fere a harmonia familiar, que – rachada já por tantas incompreensões – pode ficar estilhaçada.
O primeiro passo do amor misericordioso consiste em procurar entender os outros, sabendo que são outros. Para isso, antes de mais nada é necessário respeitá-los. Um ser humano é um mundo que deve ser encarado com um respeito imenso. Deus faz assim connosco, dá-nos um enorme valor, embora sejamos – como somos – pobres pecadores: para Ele valemos o preço do sangue de Jesus Cristo.
“Cada criatura humana – diz um autor espiritual – é um enigma, uma palavra velada.
Todo o trabalho da caridade paciente consiste em decifrar esses enigmas e em encontrar o seu sentido” [ii].
Entender exige um acto consciente, um propósito deliberado de compreender. Como dizia um conhecido orientador familiar, “os amantes são aqueles que se amam; os esposos são aqueles que se empenham em amar-se” [iii].
Existe esse ato deliberado, esse empenho, quando alguém diz: “Eu, a partir de hoje, faço o propósito de esforçar-me seriamente por entender a minha mulher; eu quero entender o meu filho”.

OS CANAIS DA COMUNICAÇÃO

Se esse propósito for sincero, quem o fez logo verá que precisa de lutar contra vários defeitos que lhe dificultam a compreensão. Em primeiro lugar, terá de lutar contra o preconceito. No lar, os preconceitos podem ser inúmeros. “Já nos conhecemos!” – dizem uns aos outros; e assim, mal o marido abre a boca, a mulher, sem se dar ao trabalho de escutá-lo, corta: “Você já vem de novo com a mesma história, você não muda”; assim que o pai começa a explicar a dificuldade que tem de aumentar a mesada, logo o filho o interrompe: “Ah, pai, sempre podando”... Antes de ouvir, já se tem o filme do outro, pronto e revelado, como se as pessoas fossem clichês que não pudessem mudar.
Como é importante o “empenho” em entender: “Por que ele ou ela é assim? Como é mesmo por dentro? Que lhe acontece? Que teme? Que desejaria? O que o faz sofrer?...”
Não se trata de fazer “análise”. Deus nos livre do marido “analista” da mulher ou vice-versa. Mas trata-se, sim, de abrir o coração à compreensão. Para isso, é muito necessário aprender a bela arte de escutar, que nos permite amplificar os canais da comunicação, do diálogo compreensivo.
Não pratica certamente essa arte aquele tipo de marido que, chegando a casa com ar cansado, desaba na poltrona. A mulher está ansiosa por falar-lhe, e ele, abanando a cabeça como quem faz uma magnânima concessão a um ser inferior, diz-lhe: – “Vai, fala”. Ela desabafa enquanto ele olha para o infinito, com inexpressividade de peixe. – “Já acabou?”, pergunta ele e recolhe-se atrás do jornal.
Pelo contrário, pratica a arte de escutar aquele que deixa falar o outro: escuta-o com atenção até que termine; evita acusações ou desqualificações; não se serve de expressões do tipo “já sei, não precisa dizer-me”; toma cuidado com as interpretações erróneas de palavras, frases, gestos ou atitudes; sabe pedir amavelmente esclarecimentos; está atento ao assunto da conversa, sem pular abruptamente para outro; evita expressões cortantes como “Isso não admito”, “Não aguento esse modo de falar”, “Você não muda”, etc. [iv].
Só o respeito, sem preconceitos nem precipitações, pode levar a “entender” o outro.
E, quando a compreensão vai crescendo, deixa-se de dizer: “Ele deveria ser assim”, e passasse a dizer: “Ele é assim; portanto, o que é que eu devo fazer?”
Então, como diz o Papa, a nossa misericórdia “reavalia, promove e tira o bem de todas as formas de mal” (ou seja, dos defeitos, das limitações, das más disposições dos outros). É uma verdade comprovada que, quando procuramos compreender uma pessoa, facilmente descobrimos qual é a nossa atitude – a palavra, o silêncio – que mais a poderia ajudar, que poderia fazer-lhe maior bem. Nisso consiste a bondade de que fala São Paulo no texto que estamos a comentar [v]. Quando cada membro da família se esforça por entender os outros, todos acabam “entendendo-se” cada vez mais. Assim garantem a paz.

O CUME DA MISERICÓRDIA

O cume da misericórdia, como ensina Cristo, é o perdão. Mas, na vida em família, o perdão, muitas vezes é o cúmulo da dificuldade. Como custa perdoar no lar! E, no entanto, é muito mais daninho para a paz familiar guardar rancores, curtir ressentimentos e andar com revides, do que explodir momentaneamente, dando vazão à ira, ao grito e ao sopapo.
Creio que todos nós experimentamos um estremecimento quando encaramos de frente duas declarações de Cristo:
– depois de nos ensinar a rezar: perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, Jesus acrescenta: Mas, se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará (Mt 6, 12.15). Já imaginamos o que seria, para nós, o dia do Juízo, se Deus nos perdoasse só como nós perdoamos os outros?
– o segundo ensinamento deixa-nos pensativos e um tanto perturbados. Repetindo de certa forma o anterior, introduz um novo matiz. Cristo acaba de narrar a parábola do servo cruel, que tendo sido perdoado de uma grande dívida pelo seu senhor, não perdoa um companheiro que lhe deve uma insignificância. O senhor do servo castiga-o severamente e, como moral da parábola, Cristo conclui: Assim vos tratará meu Pai celeste, se cada um não perdoar a seu irmão de todo o coração (Mt 18, 35).
Há pessoas que parecem ter no coração um computador com capacidade de muitos gigas, em cuja memória se vão guardando todas as mágoas, perfeitamente contabilizadas:
“Não se lembrou do meu aniversário”, “Faz dez anos que não me traz flores nem bombons”, “Ela não aceitou a minha explicação «verdadeira» sobre os meus atrasos à noite e acusa-me de infidelidade”, “Quando éramos namorados, no dia tantos de tantos de mil novecentos e tantos, às dezoito e trinta e cinco horas, na esquina das ruas tal e qual, ele me ofendeu dizendo xis ou ípsilon”, “Ela passa o dia na casa da sua mãe, como se não tivesse marido e filhos”, “Ele não quis ir ao casamento do meu sobrinho, sabendo que magoava toda a minha família”, “Você disse isso porque meus pais são pobres”, e assim por diante.
Basta que qualquer faísca provoque uma irritação, basta uma má interpretação, uma crítica, uma zombaria ou um protesto, para que a pessoa que se sente ofendida “clique” no seu computador invisível e apareça no vídeo o arquivo dos “agravos”, com uma lista interminável. Essa enxurrada de reminiscências negativas cai então como um raio sobre o outro, reacende a fogueira das acusações mútuas e aumenta o círculo vicioso dos rancores e das recriminações. Adeus à paz! São Paulo sabia bem de que massa estamos feitos e, por isso, pensando no amor que gera a paz, dizia, como víamos acima: Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se um tiver contra outro motivo de queixa. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós (Ef 3, 13).
Como são importantes os pequenos perdões no lar! Esforcemo-nos, pelo menos, por calar-nos: não retruquemos, não firamos sensibilidades. Façamos um propósito espiritual altamente recomendável: “Nas discussões, lá em casa, eu faço questão de dizer a penúltima palavra”. Quem se obstina em dizer a última, inevitavelmente atiça a chama da discussão.
Mas calar-se não é carneirismo? Será que tenho que aceitar todas as injustiças e humilhações? Não. Às vezes, pode-se – e deve-se – cortar energicamente e na hora um despropósito, mas não há necessidade de cair numa interminável discussão, nem de ficar remoendo horas e dias. Outras vezes, convirá calar e esperar, e mais tarde, tentar um diálogo sereno e esclarecedor ou fazer uma correção tranquila; em outras ocasiões, nada facilitará tanto o arrependimento do outro como mostrar-lhe – sem humilhá-lo – grandeza de alma. Uma pessoa ofendida que trata bem, com coração magnânimo, aquele que o ofendeu, é moralmente “superior”, não pelo orgulho, mas pela bondade. Com isso, desarma o agressor, que pode perceber a sua tola mesquinhez em contraste com esse amor maior.

(cont)

FRANCISCO FAUS [vi]





[i] Gustavo Corção, A descoberta do outro, Agir, Rio de Janeiro, 1967, págs. 226-228;
[ii] Um Cartuxo, Silêncio com Deus, Aster, Lisboa, 1956, págs. 141-142;
[iii] Pedro-Juan Viladrich, A família “soberana”, em L'Osservatore Romano, 26.08.1994, pág. 5;
[iv] cfr. a obra do psiquiatra Enrique Rojas, Remedios para el desamor, Ediciones TH, Madrid, 1990, págs. 228 e segs.;
[v] Sobre a bondade, cfr. Francisco Faus, O homem bom, Quadrante, São Paulo, 1990.
[vi] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na coleção Temas Cristãos, os títulos:
O valor das dificuldades; O homem bom; Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens; A língua; A paciência; A voz da consciência.

Pequena agenda do cristão

Quinta-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Participar na Santa Missa.


Senhor, vendo-me tal como sou, nada, absolutamente, tenho esta percepção da grandeza que me está reservada dentro de momentos: Receber o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade do Rei e Senhor do Universo.
O meu coração palpita de alegria, confiança e amor. Alegria por ser convidado, confiança em que saberei esforçar-me por merecer o convite e amor sem limites pela caridade que me fazes. Aqui me tens, tal como sou e não como gostaria e deveria ser.
Não sou digno, não sou digno, não sou digno! Sei porém, que a uma palavra Tua a minha dignidade de filho e irmão me dará o direito a receber-te tal como Tu mesmo quiseste que fosse. Aqui me tens, Senhor. Convidaste-me e eu vim.


Lembrar-me:
Comunhões espirituais.


Senhor, eu quisera receber-vos com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu Vossa Santíssima Mãe, com o espírito e fervor dos Santos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?






20/12/2017

A luta contra a soberba há-de ser constante

“Grande coisa é saber-se nada diante de Deus, porque é assim mesmo” (Sulco, 260)


O outro inimigo, escreve S. João, é a concupiscência dos olhos, uma avareza de fundo que nos leva a valorizar apenas o que se pode tocar. Os olhos ficam como que pegados às coisas terrenas e, por isso mesmo, não sabem descobrir as realidades sobrenaturais. Podemos, portanto, socorrer-nos desta expressão da Sagrada Escritura para nos referirmos à avareza dos bens materiais e, além disso, àquela deformação que nos leva a observar o que nos rodeia - os outros, as circunstâncias da nossa vida e do nosso tempo - só com visão humana.

Os olhos da alma embotam-se; a razão crê-se auto-suficiente para compreender todas as coisas, prescindindo de Deus. É uma tentação subtil, que se apoia na dignidade da inteligência, da inteligência que o nosso Pai, Deus, deu ao homem para que O conheça e O ame livremente. Arrastada por essa tentação, a inteligência humana considera-se o centro do universo, entusiasma-se de novo com a falsa promessa da serpente, sereis como deuses, e, enchendo-se de amor por si mesma, volta as costas ao amor de Deus.


(...) A luta contra a soberba há-de ser constante, pois não se disse já, dum modo tão gráfico, que essa paixão só morre um dia depois da morte da pessoa? É a altivez do fariseu, a quem Deus se mostra renitente em justificar por encontrar nele uma barreira de auto-suficiência. É a arrogância que conduz a desprezar os outros homens, a dominá-los, a maltratá-los, porque, onde houver soberba aí haverá também ofensa e desonra. (Cristo que passa, 6)

Temas para meditar

A força do Silêncio, 140


O silêncio não é o exílio da palavra.

É o amor da única Palavra.

Num sentido inverso, a abundância de palavras é sintoma de dúvida.

A incredulidade é sempre faladora.



CARDEAL ROBERT SARAH

Evangelho e comentário

Tempo do Advento


Evangelho: Lc 1, 26-38

26 Ao sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, 27 a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria. 28 Ao entrar em casa dela, o anjo disse-lhe: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo.» 29 Ao ouvir estas palavras, ela perturbou-se e inquiria de si própria o que significava tal saudação. 30 Disse-lhe o anjo: «Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. 31 Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. 32 Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David, 33 reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim.» 34 Maria disse ao anjo: «Como será isso, se eu não conheço homem?» 35 O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus. 36 Também a tua parente Isabel concebeu um filho na sua velhice e já está no sexto mês, ela, a quem chamavam estéril, 37 porque nada é impossível a Deus.» 38 Maria disse, então: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.» E o anjo retirou-se de junto dela.

Comentário:

Como num filme cujo realizador é o próprio Deus Todo Poderoso, uma novel actriz desempenha um papel inesquecível!

A cena é entranhável de simplicidade grandiosa e de extraordinária dignidade.

O que é dito pelos intervenientes é o essencial, o que verdadeiramente importa para a esta primeira cena do filme da Salvação humana.


(ama, comentário sobre Lc 1, 26-38, 08.12.2015)








Leitura espiritual

A PAZ NA FAMÍLIA

VOCAÇÃO DIVINA, VOCAÇÃO DE AMOR

“Compreender a obra sobrenatural que supõe a fundação de uma família”, ter “consciência da própria missão”.
Para muitas moças e rapazes, frases como as que acabamos de ler devem parecer-lhes belas palavras ou sonhos irreais. E, no entanto, desses ideais sobre o casamento e a família, que eles ainda não entendem, “dependem, em grande parte, a eficácia e o êxito da sua vida: a sua felicidade”.
O casamento e a família, como qualquer outra vocação, significam para um cristão um chamamento pessoal de Cristo, um apelo para segui-Lo.
Se alguém quiser vir após mim – diz Jesus Cristo –, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me (Mt 16, 24). Estamos nos antípodas do utilitarismo egoísta. Em vez de dizer: “Procure-se a si mesmo, realize-se a si mesmo”, diz-nos: “Não pense em si, doe-se generosamente”.
Esse apelo à renúncia e ao esquecimento próprio não é, absolutamente, uma tristonha anulação da personalidade, nem um abafamento da alegria de viver. É exatamente o contrário: as palavras de Cristo estão a mostrar-nos o rosto do amor. E o amor é a seiva vivificante da família.
Será preciso lembrar que o amor cristão se formula assim: Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei (Jo 13, 34)? Será que há alguma dúvida sobre como Ele, Cristo, nos amou? Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos (Jo 15, 13).
Com Cristo, um amor inédito entrou no mundo, um amor que o mundo pagão desconhecia totalmente. Era um amor à medida do Amor de Deus, que os cristãos designaram com uma palavra nova: “agápe”, em grego; “caritas” – caridade –, em latim. Era um amor à imagem e semelhança do amor de Cristo.
O que fizemos desse amor? No mundo de hoje, é preciso reaprendê-lo; é urgente – para todos, mas especialmente para os jovens – redescobrir a beleza inefável do Amor com maiúscula, que vem de Deus (1 Jo 44, 7). A nossa alma tem uma necessidade vital de experimentar o deslumbramento feliz de São João, quando exclamava: Nisto conhecemos o amor: em que Jesus deu a sua vida por nós, e também nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos (1 Jo 3, 16). Desse João Apóstolo que, com quase cem anos de idade, acrescentava, extasiado: Nós conhecemos o amor de Deus e acreditamos nele!... Se Deus nos amou assim, também nós nos devemos amar-nos uns aos outros (1 Jo 4, 11.16).
Não duvidemos: é aí, e somente aí, nas profundezas do amor cristão, que finca as suas raízes a paz familiar.

A SABEDORIA DE SÃO TOMÁS

Antes de terminar esta panorâmica – “a família em perspectiva” –, talvez valha a pena acrescentar ainda, como complemento útil, umas breves reflexões. São considerações que procedem de boa fonte, de São Tomás de Aquino.
Na sua Suma Teológica, a certa altura, o santo doutor, na esteira de Aristóteles, formula várias perguntas sobre o amor e – como se estivesse a dizer a coisa mais óbvia do mundo – escreve que há dois tipos de amor:
Um é o que chama amor de concupiscência (que não significa só o amor sexual, pois a palavra latina concupiscentia designa os desejos em geral). Dá-se esse amor quando “em vez de querer o bem de quem amamos, queremos que ele seja um bem para nós, como quando dizemos que amamos o vinho ou um cavalo...” São Tomás parece brincar, mas fala com a maior seriedade. Não sei se o que vou dizer não será rude demais, mas creio que o amante egoísta, descrito nas páginas anteriores, encara a esposa – ou o marido, ou os filhos, ou os pais – com a mesma mentalidade com que degusta um vinho ou experimenta o trote de um cavalo.
O outro tipo de amor – acrescenta São Tomás – é o que se chama amor de amizade.
“Não é – diz – um amor qualquer, mas o amor que possui a benevolência, isto é, o amor que existe quando amamos alguém de tal maneira que queremos o seu bem”  [i].
Pronto. Poucas palavras para enormes verdades. Há um amor que busca só o bem e o interesse próprios. Há outro amor que busca e trabalha pelo bem da pessoa amada. Este último – amor de amizade –, vivificado pela capacidade de querer que nos infunde o Espírito Santo (cf. Rom 5, 5), é o amor cristão. E é só com esse tipo de amor que se faz, de verdade, família e nela se consegue a paz.
Enquanto escrevo estas últimas linhas, vem-me ao pensamento – e comove-me novamente – a lembrança de um casal amigo, excelentes pessoas, unidas e fiéis após longos anos de convívio. Com uma lucidez plácida e simples, o marido, bom cristão, dizia-me: “O senhor sabe? Depois de tantos anos, cheguei à conclusão de que o amor entre marido e mulher só é amor mesmo quando os dois se tornam amigos, quando são dois bons amigos.
O verdadeiro amor é amizade”.
E, com isto, finalizamos a nossa digressão sobre a “família em perspectiva”. As considerações gerais que acabamos de fazer serão o ponto de partida para as que faremos a seguir comentando atitudes e gestos concretos que, brotando do amor, podem construir a paz familiar.

CONSTRUIR A PAZ FAMILIAR
UM COMBATE PELA PAZ

Na introdução a estas páginas, transcrevíamos umas palavras de São Paulo que põem à mostra – dizíamos ali – as cordas da paz. Vamos agora rever e meditar com calma esse texto, que nos pode ajudar a encontrar os caminhos da paz (cf. Lc 1, 79) pelos quais Deus quer que andemos.
Como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, mansidão, paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se um tiver contra outro motivo de queixa. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós. Mas, acima de tudo, revesti-vos do amor, que é o vínculo da perfeição. Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados a formar um único corpo. E sede agradecidos (Col 3, 12-15).
Relendo essas linhas, facilmente podemos observar nelas quatro ideias claras:
Primeira: São Paulo quer mostrar o caminho para que a paz “triunfe nos corações”.
Reparemos que ele não diz: para que a paz “surja”, “permaneça” ou se “assente” em vossos corações, mas para que “triunfe em vossos corações”. E é que a paz da alma – que transborda em paz para os outros – é sempre “consequência da guerra”; é uma conquista, resultante – como dizia Mons. Escrivá – de uma luta íntima “contra tudo o que na vida não for de Deus: contra a soberba, a sensualidade, o egoísmo, a superficialidade, a estreiteza de coração” [ii].
Segunda ideia: essa luta trava-se praticando virtudes concretas, não bastando sentimentos e boas vontades: é preciso exercitar a misericórdia, a bondade, a doçura, a mansidão, a paciência, o perdão.
Terceira ideia: essas virtudes constituem uma força eficaz, apta para produzir a paz, só quando estão bem amarradas, como um feixe, pela caridade (pelo amor à medida do amor de Cristo), formando assim um conjunto firme e coeso. Este é exactamente o significado da expressão: o amor é o vínculo da perfeição.
Quarta ideia: essa luta pela paz – e concretamente pela paz na família – é um dever que decorre da nossa vocação. Por isso São Paulo começa esse parágrafo afirmando que devemos exercitar as virtudes que levam à paz justamente por sermos eleitos de Deus, santos – chamados à santidade – e amados.
Após este olhar geral sobre as palavras de São Paulo, vamos agora ativar o zoom e fazer uma aproximação das virtudes mencionadas por ele, juntamente com outras que lhes são conexas.

UMA ENTRANHADA MISERICÓRDIA

Que quer dizer misericórdia na família? Entenderemos bem essa virtude, se nos lembramos de que a misericórdia do cristão deve imitar a misericórdia de Deus: Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso (Lc 6, 36).
Deus é misericordioso porque vê as nossas misérias – por dizê-lo de um modo humano – “com coração”. A palavra misericórdia significa, com efeito, “miséria” que toca o “coração”. Quer isto dizer que Deus olha para os nossos pecados, os nossos defeitos, as nossas ofensas – que não pode aprovar –, não com a dureza de um justiceiro, mas com um olhar compreensivo, compassivo e sempre predisposto ao perdão.
A pessoa misericordiosa sabe “olhar com coração”. Mas não fica só nisso. “O verdadeiro significado da misericórdia – diz João Paulo II – não consiste apenas no olhar, por mais penetrante e cheio de compaixão que seja, com que se encara o mal moral, físico ou material. A misericórdia manifesta-se com a sua fisionomia verdadeira e própria quando reavalia, promove e sabe tirar o bem de todas as formas de mal existentes no mundo e no homem”. A misericórdia – acrescenta – é um amor “que não se deixa «vencer pelo mal», mas «vence o mal com o bem» (cf. Rom 12, 21)”11.
Retenhamos bem essas ideias: a virtude da misericórdia começa por “olhar” o outro, por “vê-lo” com um olhar “penetrante” e “cheio de compaixão”; e completa-se quando, a partir desse olhar compreensivo, nos esforçamos por tirar um bem do mal que vemos nos outros. Duas atitudes que, por si sós, já seriam um excelente programa para a paz da família.
Mas bem poucos as conseguem viver na prática.

(cont)

FRANCISCO FAUS [iii]




[i]  São Tomás de Aquino, Suma teológica, II-II, q. XXIII, art. 1, concl.;
[ii] Josemaria Escrivá, É Cristo que passa, n. 73; (11) Encíclica Dives in misericordia, n. 4;
[iii] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na coleção Temas Cristãos, os títulos:
O valor das dificuldades; O homem bom; Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens; A língua; A paciência; A voz da consciência.

Tratado da vida de Cristo 187

Questão 59: Do poder judiciário de Cristo


Art. 5 — Se além do juízo proferido no tempo presente haverá um outro juízo universal.

O quinto discute-se assim. — Parece que além do juízo proferido no tempo presente, não haverá nenhum outro juízo, universal.

1. — Pois, é inútil acrescentar qualquer juízo, depois da atribuição dos últimos prémios. Ora, no tempo presente é que se faz a atribuição dos prémios e das penas. Assim, o Senhor disse ao ladrão, na cruz: Hoje serás comigo no paraíso. E noutro lugar o Evangelho diz: Morreu o rico e foi sepultado no inferno. Logo, é vão esperar o juízo final.

2. Demais. — A Escritura, segundo outra letra: Deus não julgará duas vezes a mesma causa. Ora, no tempo presente o juízo de Deus se exerce na ordem temporal e na espiritual. Logo, parece que não devemos esperar nenhum juízo final.

3. Demais. — O prémio e a pena correspondem ao mérito e ao demérito. Ora, o mérito e o demérito não recaem sobre o corpo senão enquanto instrumento da alma. Logo, nem o prémio ou a pena são devidos aos corpos senão por causa da alma. Logo, não há necessidade de nenhum juízo final para ser o homem premiado ou punido no seu corpo, além daquele pelo qual são punidas ou premiadas as almas.

Mas em contrário, o Evangelho: A palavra que eu tenho falado, essa o julgará no dia último. Logo, haverá em juízo no dia último além do juízo exercido no presente.

Um ser mutável não pode ser julgado perfeitamente senão depois de consumado. Assim, nenhum juízo perfeito sobre a qualidade de uma acção pode ser proferido, antes de consumada, em si e nos seus efeitos. Pois, muitas acções, que parecem úteis, demonstram-se nocivas pelos seus efeitos. Semelhantemente, nenhum juízo perfeito pode ser proferido de um homem, enquanto não se lhe terminar a vida; porque pode de muitos modos mudar do bem para o mal ou vice-versa, ou do bem para o melhor, ou do mal para o pior. Donde o dizer o Apóstolo: Está decretado aos homens que morram uma só vez e que depois disto se siga o juízo. Devemos, porém, saber que, embora a morte termine a vida de um homem em si mesma, contudo permanece, de certo modo, dependente do futuro. — Primeiro, por viver ainda na memória dos outros, que às vezes dele guardam uma fama boa ou má, que não corresponde à verdade. — Segundo, por perdurar nos filhos, que são como parte do pai, segundo a Escritura: Morreu o pai dele e foi como se não morresse, porque deixou depois de si um seu semelhante. E contudo, muitos que foram bons deixaram maus filhos e inversamente. — Terceiro, quanto ao efeito das suas obras; assim, o sofisma de Ari e de outros sedutores gerarão a infidelidade até ao fim do mundo, bem como até o fim progredirá a fé nascida da pregação dos Apóstolos. — Quarto, quanto ao corpo que umas vezes é dado honras e, outras, é deixado insepulto; e contudo, vem ao cabo a resolver-se de todo em cinzas. — Quinto, quanto às coisas em que o homem fixou o seu afecto, por exemplo, em certos bens temporais, dos quais uns acabam mais depressa e outros duram mais diuturnamente. Ora, todas essas coisas estão sujeitas à estimativa do juízo divino. Donde, elas não podem todas ser perfeita e manifestamente julgadas, enquanto dura o curso desta vida. Donde a necessidade de um juízo final, no dia derradeiro, quando o que concerne a cada homem em particular, perfeitamente e de qualquer modo, será perfeita e manifestamente julgado.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Alguns foram de opinião que nem as almas dos santos serão premiadas no céu, nem as dos condenados punidas no inferno, até o dia do juízo. O que é manifestamente falso, pelo dito do Apóstolo: Temos confiança e ansiosos queremos mais ausentar-nos do corpo e estar presentes ao Senhor; o que é já não andar por fé, mas por visão, como resulta da sequência do texto. Ora, isso é ver a Deus em essência, no que consiste a vida eterna, conforme está claro no Evangelho. Donde é manifesto que as almas separadas do corpo vivem na vida eterna. Donde se conclui que depois da morte, no concernente à alma, o homem está posto num estado imutável. E assim, para prémio da alma não é necessário que seja o juízo diferido para depois. Mas, como há outras causas que dizem respeito ao homem e se desenrolam em todo o decurso do tempo e que são alheias ao juízo divino, é necessário que de novo, ao fim dos tempos, sejam trazidas a juízo. Embora, pois, por elas o homem não mereça nem desmereça, contudo lhe redundam de certo modo em prémio ou em pena. E por isso é necessário seja tudo ponderado no juízo final.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Deus não julgará duas vezes a mesma causa, isto é, à mesma luz. Mas, a luzes diversas, nenhum inconveniente há em julgar ele duas vezes.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Embora o prémio ou a pena do corpo dependa do prémio ou da pena da alma, contudo, não sendo a alma mutável, em virtude do corpo, senão por acidente, desde que estiver separada dele ficará num estado imutável e receberá então a sua sentença. Ao contrário, o corpo permanecerá mutável até ao fim dos tempos. Logo e necessariamente, no juízo final é que há de receber o prémio ou a pena.


Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.



Perguntas e respostas

A EUTANÁSIA


2. Porque está mal o homicídio? (Falamos agora do homicídio normal, não da eutanásia).


Há vários motivos para não matar um ser humano, como também não queremos que nos matem a nós:

A dignidade humana reclama um respeito especial aos homens.
No nosso interior sabemos que não devemos fazê-lo: a natureza humana pede-o e a nossa consciência capta esta exigência (lei natural).

O Criador do homem proibiu-o expressamente: "não matarás" (mandamentos).

Pequena agenda do cristão

Quarta-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)






Propósito:

Simplicidade e modéstia.


Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.


Lembrar-me:
Do meu Anjo da Guarda.


Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.

Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de correspondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?