22/01/2017

Leitura espiritual


Leitura espiritual



A Cidade de Deus 


Vol. 1

LIVRO IV

CAPÍTULO XIII

Segundo alguns, só os seres animados e racionais constituem partes de um só Deus.

Se, porém, pretendem que apenas os seres vivos racionais, tais como os homens, constituem partes de Deus — não vejo, na realidade, se o Mundo todo é Deus, como é que se excluem os animais de serem partes dele. Mas discutir para quê? A respeito do próprio ser vivo racional, isto é, do homem — que há de mais lamentável do que crer que quando se açoita uma criança é uma parte de Deus que se açoita? Quem poderá admitir sem de todo perder o senso que há partes de Deus que se tornam lascivas, iníquas, ímpias, e totalmente condenáveis? Por fim — porque se hão-de os deuses indignar contra os que os não veneram, quando, afinal, não são venerados pelas suas próprias partes? Só resta, portanto, afirmar que os deuses, todos eles, têm as suas vidas próprias, cada um vive para si, nenhum deles é parte de qualquer outro, mas devem venerar-se apenas todos os que podem ser conhecidos e venerados, pois eles são tão numerosos que nem todos o podem ser. Como Júpiter lhes preside como rei, julgo que é a ele que se atribui a fundação e a dilatação do Império Romano. Com efeito, se não foi ele mesmo quem o fez, que outro deus julgam que poderia empreender uma tão vasta empresa, já que todos estão ocupados nos seus deveres e trabalhos próprios sem que cada um se intrometa nos dos outros? Foi, pois, pelo rei dos deuses que o reino dos homens se pôde estender e prosperar.

CAPÍTULO XIV

Atribui-se, sem razão, a dilatação dos reinos a Júpiter: bastaria para isso Vitória, se ela é, como dizem, uma deusa.

Agora, e antes de mais nada, eu pergunto: Porque é que o próprio Estado não é um Deus? Porque é que não há-de ser assim se a Vitória é uma deusa? Ou que necessidade há de Júpiter nesta questão, se a Vitória favorece e é propícia e sempre se põe do lado dos que ela quer que sejam vencedores? Quando esta deusa é favorável e propícia — que povos poderão fugir ao seu domínio, que reinos resistirão, mesmo que Júpiter se mantenha inactivo ou ocupado em outra coisa?

Será talvez que desagrada aos bons fazerem guerras injustas e, para estenderem os seus Estados, provocarem inesperadamente para o combate vizinhos tranquilos que nenhuma injustiça cometeram? Se são estes os seus verdadeiros sentimentos — pois apoio-os e louvo-os.

CAPÍTULO XV

Convém aos bons quererem estender a sua dominação?

Vejam, pois, bem se por acaso convirá a homens de bem que se regozijem com a extensão do Império. Foi a iniquidade daqueles contra os quais foram movidas justas guerras que ajudou o Império a dilatar-se. Este decerto continuaria diminuto se os povos vizinhos, por serem pací­ ficos e justos, não lhe tivessem dado azo com suas ofensas e provocações. Assim, para a felicidade da humanidade, não teria havido mais que pequenos reinos felizes por viverem em absoluta concórdia com os seus vizinhos e no mundo haveria muitos Estados como na cidade há muitas moradas de cidadãos. Por isso é que guerrear, alargar o império sobre povos dominados, parece aos maus uma felicidade e aos bons uma necessidade. Mas, como seria pior ainda que os justos fossem subjugados pelos injustos, não é uma incongruência que também se chame felicidade a esta necessidade. Sem dúvida, porém, que viver em concórdia com um bom vizinho é uma felicidade maior do que subjugar um mau vizinho agressivo. Maus votos são os de quem deseja que haja quem odeie ou a quem tema para poder ter quem possa vencer. Se, portanto, foi conduzindo guerras justas, isentas de impiedade e de iniquidade, que os Romanos puderam conquistar um tão dilatado império — não deveriam então venerar também como uma deusa a iniquidade alheia? É que, de facto, esta contribuiu, como vimos, para a dilatação do Império, provocando inimigos injustos para que contra eles surgissem guerras justas e se dilatasse o Império. Porque é que a iniquidade não será também uma deusa, pelo menos dos povos estrangeiros, se o Pavor e o Palor e a Febre merecem ser deuses romanos?

Com estas duas, isto é, com a Iniquidade alheia e a Vitória — a Iniquidade suscitando motivos para a guerra e a Vitória conduzindo a guerra a um feliz resultado, dilatou- -se o Império sem que Júpiter se mexesse. Aliás, que participação poderia ter tido nisso Júpiter, quando os benefí­cios que lhe poderiam ser atribuídos são tidos por deuses, chamam-se deuses, como deuses se veneram e são invocados como partes dele? Poderia ter chegado a ter alguma se tivesse recebido o nome do estado, como se chamou deusa à Vitória. Ou, se o estado é um presente de Júpiter, porque é que também a Vitória não é tida por um seu presente? Como tal seria tida, sem dúvida, se no Capitólio não se venerasse uma pedra, mas se reconhecesse e adorasse o verdadeiro

Rei dos Reis e Senhor dos Senhores [i].

CAPÍTULO XVI

Porque é que os Romanos, que assinalam um deus para cada acontecimento e para cada movimento, quiseram que o templo de Quietude (Quies) ficasse fora de portas?

Mas o que mais admira é que os Romanos tenham atribuído um deus para cada coisa e quase para cada movimento. Invocam a deusa Agenória, que os leva a agir; a deusa Stímula, que os estimula a agir além da medida; a deusa Múrcia, que imobiliza o homem desmedidamente e o toma, como diz Pompónio, múrcido, isto é, extremamente preguiçoso e inactivo; a deusa Strénia, que os torna vivazes. Decidiram oferecer sacrifícios públicos a todos estes deuses e deusas. Todavia, invocando embora a deusa Quietude, (Quies) que lhes assegura a tranquilidade, não quiseram prestar-lhe oficialmente culto porque ela tinha o seu templo fora da porta Colina. Terá sido isto indício de um espírito inquieto ou tal significa, pois aquele que persevera em adorar aquela turbamulta, não de deuses com certeza, mas de demónios, não pode manter aquela tranquilidade para que nos chama o verdadeiro médico quando nos diz:

Aprendei de mim, pois sou manso e humilde de coração, e encontrareis a paz nas vossas almas [ii]?

CAPÍTULO XVII

Se o poder de Júpiter é soberano, deverá Vitória ser ainda considerada como deusa?

Dirão talvez que Júpiter envia a deusa Vitória e que esta, obedecendo-lhe como ao rei dos deuses, se dirige para os que ele lhe indicou e se põe ao lado deles? Isso diz- -se com verdade, não desse Júpiter imaginado caprichosamente como rei dos deuses, mas do verdadeiro Rei dos Séculos que envia, não a Vitória, que nada tem duma substância, mas o seu anjo, para tornar merecedor quem Ele quer, Ele cujos desígnios podem ser ocultos, mas não injustos. Com efeito, se a Vitória é uma deusa, porque é que o Triunfo não é, ele também, um deus e não se junta à Vitória como marido ou irmão ou filho? Efectivamente, tem havido tais opiniões acerca dos deuses que, se os poetas as tivessem imaginado e se nós os criticássemos, poderiam responder-nos «são ficções dos poetas de que nos devemos rir e que não se devem atribuir às verdadeiras divindades». E, contudo, não zombavam de si próprios, não, quando liam estas extravagâncias nos poetas, mas os adoravam nos templos. Era, portanto, a Júpiter que eles deviam rogar, só a ele deviam suplicar. Se Vitória é uma deusa e até sujeita a esse rei, não pode, quando é enviada por ele, atrever-se a resistir-lhe e a satisfazer a sua própria vontade.


(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Apocalipse, X IX , 16.
[ii] Mt., XI, 29.

Actos dos Apóstolos

Actos dos Apóstolos

III. MISSÕES DE PAULO [i]

Capítulo 13


1.ª Viagem Missionária: [ii]

Discurso de Paulo em Antioquia da Pisídia

16Então, Paulo, levantando-se, fez sinal com a mão e disse:

«Homens de Israel e vós os tementes a Deus, escutai: 17O Deus deste povo, o Deus de Israel, escolheu os nossos pais e engrandeceu este povo durante a sua permanência no Egipto. Depois, com a força do seu braço, retirou-o de lá 18e, durante uns quarenta anos, sustentou-o no deserto. 19A seguir, exterminando sete nações na terra de Canaã, conferiu-lhes a posse do seu território, 20por cerca de quatrocentos e cinquenta anos. Depois disso, deu-lhes juízes até ao profeta Samuel. 21Em seguida, pediram um rei, e Deus concedeu-lhes, durante quarenta anos, Saul, filho de Quis, da tribo de Benjamim. 22Pondo este de parte, Deus elevou David como rei, e a seu respeito deu este testemunho: ‘Encontrei David, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará todas as minhas vontades.’

23Da sua descendência, segundo a sua promessa, Deus proporcionou a Israel um Salvador, que é Jesus. 24João preparou a sua vinda, anunciando um baptismo de penitência a todo o povo de Israel. 25Quase a terminar a sua carreira, João dizia: ‘Eu não sou quem julgais; mas vem, depois de mim, alguém cujas sandálias não sou digno de desatar.’

26Irmãos, filhos da estirpe de Abraão, e os que de entre vós são tementes a Deus, a nós é que foi dirigida a palavra de salvação. 27Sem dúvida, os habitantes de Jerusalém e os seus chefes não quiseram reconhecer Jesus, mas, condenando-o, cumpriram, sem disso se aperceberem, as profecias que são lidas todos os sábados.

28Embora não tivessem encontrado nele motivo algum de morte, exigiram a Pilatos que o mandasse matar. 29Quando cumpriram tudo o que acerca dele estava escrito, desceram-no do madeiro e sepultaram-no. 30Mas Deus ressuscitou-o dos mortos 31e, durante muitos dias, apareceu aos que tinham subido com Ele da Galileia a Jerusalém, os quais são agora suas testemunhas diante do povo.

32E nós estamos aqui para vos anunciar a Boa-Nova de que a promessa feita a nossos pais, 33Deus a cumpriu em nosso benefício, para nós, seus filhos, ressuscitando Jesus, como está escrito no Salmo segundo:

Tu és meu filho, Eu hoje te gerei!
34Que Deus o ressuscitou dos mortos para não mais voltar à corrupção, disse-o Ele deste modo:
Dar-vos-ei as coisas santas de David,
que são verdadeiras.
35Por isso, diz noutra passagem:
Não deixarás o teu Santo ver a corrupção.

36Ora David, depois de servir em sua vida os desígnios de Deus, morreu; foi reunir-se a seus pais e viu a corrupção. 37Mas aquele que Deus ressuscitou não viu a corrupção. 38Ficai sabendo, irmãos, que por seu intermédio é que vos é anunciada a remissão dos pecados. A justificação completa que não pudestes obter pela Lei de Moisés, 39obtê-la-á por meio dele todo aquele que crê. 40Tende, pois, cautela, para que vos não aconteça o que se diz nos profetas:

41Olhai, vós, os desdenhosos,
admirai-vos e desaparecei!
Porque Eu vou fazer uma obra em vossos dias,
obra em que não acreditaríeis,
se alguém vo-la contasse.»

42À saída, pediram-lhe que falasse do mesmo assunto no sábado seguinte. 43Depois da reunião, muitos judeus e prosélitos piedosos seguiam Paulo e Barnabé, os quais, nas suas conversas com eles, os exortavam a perseverar na graça de Deus.



[i] (13,1-28,31)
[ii] 13,1-14,28

Segredos para envelhecer - 1

Envelhecer bem

Envelhecer bem envolve serenidade, paz e uma íntima e humilde satisfação interior.

É bom igualmente para a família, porque facilita os cuidados, quando são necessários, em uma troca de agradecimento e carinho.

Do ponto de vista social, quem envelhece bem se forma como um exemplo de solidariedade, serviço, generosidade.

Fonte: LA FAMILIA

(tradução por ama)

Doutrina – 220

Doutrina


CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

Compêndio


PRIMEIRA PARTE: A PROFISSÃO DA FÉ
SEGUNDA SECÇÃO: A PROFISSÃO DA FÉ CRISTÃ
CAPÍTULO SEGUNDO

CREIO EM JESUS CRISTO, O FILHO UNIGÉNITO DE DEUS
«JESUS CRISTO PADECEU SOB PÔNCIO PILATOS, FOI CRUCIFICADO, MORTO E SEPULTADO»

Em que condições estava o corpo de Cristo no sepulcro?


Cristo conheceu uma verdadeira morte e uma verdadeira sepultura. Mas o poder divino preservou o seu corpo da corrupção.

Tratado da vida de Cristo 144

Questão 50: A morte de Cristo

Art. 6 — Se a morte de Cristo produziu algum efeito para a nossa salvação.

O sexto discute-se assim. — Parece que a morte de Cristo não produziu nenhum efeito para a nossa salvação.

1. — Pois, a morte é uma certa privação a da vida. Ora, a privação, não sendo nenhuma realidade, não tem nenhuma virtude activa. Logo,
nada podia produzir para a nossa salvação.

2. Demais. — A Paixão de Cristo obrou a nossa salvação a modo de mérito. Ora, assim, a sua morte não podia produza-la; pois pela morte separa-se do corpo e alma, a qual é o princípio do mérito. Logo, a morte de Cristo nada produziu para a nossa salvação.

3. Demais. — O corporal não pode ser a causa do espiritual. Ora, a morte de Cristo foi corporal. Logo, não podia ser a causa espiritual da nossa salvação.

Mas, em contrário, diz Agostinho: A morte única do nosso Salvador, isto é, a corpórea, foi a salvação para as duas mortes nossas, a saber, a da alma e a do corpo.

Podemos considerar a morte de Cristo de dois modos: no seu devir e na sua realização. - Assim, dizemos que a morte de alguém está no seu devir, quando tende para ela, por algum sofrimento natural ou violento. E neste sentido, o mesmo é falar da morte e da Paixão de Cristo. Em tal acepção, pois, a morte de Cristo é a causa da nossa salvação, conforme o que dissemos ao tratar da Paixão. - Mas a morte de Cristo é considerada como realizada, pelo facto da separação entre o seu corpo e a sua alma. E tal é o sentido em que agora tratamos dessa morte. Ora, nesta acepção, a morte de Cristo não pode ser causa da nossa salvação a modo de mérito, mas só a modo de eficiência; isto é, enquanto que nem pela morte a divindade se separou do corpo de Cristo. Donde, tudo o que se passou com o corpo de Cristo, mesmo depois de separado da alma, foi-nos salutífero, em virtude da divindade que lhe estava unida. - Mas, o efeito de uma causa é propriamente considerado tendo-se em vista a semelhança com ela. Donde, sendo a morte uma privação da própria vida, o efeito da morte de Cristo deve ser considerado relativamente à remoção dos obstáculos contrários à nossa salvação; e esses são a morte da alma e a do corpo. Por isso, dizemos, que a morte de Cristo destruiu em nós tanto a morte da alma - o do Apóstolo: O qual foi entregue por nossos pecados - como a do corpo, consistente na separação da alma - segundo aquele outro lugar: Flagrada foi à morte na vitória.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — A morte de Cristo obrou a nossa salvação em virtude da divindade que lhe estava unida, e não só em razão da morte.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A morte de Cristo, considerada como realizada, embora não tenha obrado a nossa salvação a modo de mérito, operou-a, contudo a modo de eficiência como dissemos.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A morte de Cristo foi, por certo, corporal; mas o seu corpo foi o instrumento da divindade que lhe estava unida, obrando em virtude dela, mesmo enquanto morto.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Pequena agenda do cristão



DOMINGO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me:
Cultivar a Fé.

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?


21/01/2017

Ele nos anima, ensina, guia

"Iesus Christus, perfectus Deus, perfectus Homo" – Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito Homem! Muitos são os cristãos que seguem Cristo, pasmado com a sua divindade, mas que O esquecem como Homem... e fracassam no exercício das virtudes sobrenaturais (apesar de todo o aparato externo de piedade), porque não fazem nada por adquirir as virtudes naturais. (Sulco, 652)


Enamora-te da Santíssima Humanidade de Jesus Cristo.

– Não te dá alegria que tenha querido ser como nós? Agradece a Jesus este cúmulo de bondade. (Forja, 547)


Obrigado, meu Jesus, porque quiseste fazer-te perfeito Homem, com um Coração amante e amabilíssimo, que ama até à morte e sofre; que se enche de júbilo e de dor; que se entusiasma com os caminhos dos homens, e nos mostra o que nos leva ao Céu; que se sujeita heroicamente ao dever, e se guia pela misericórdia; que vela pelos pobres e pelos ricos; que cuida dos pecadores e dos justos...

Obrigado, meu Jesus, e dá-nos um coração à medida do Teu! (Sulco, 813)


Nisto se define a verdadeira devoção ao Coração de Jesus: em conhecer a Deus e conhecermo-nos a nós mesmos, e em olhar para Jesus e recorrer a Ele – que nos anima, nos ensina, nos guia. A única superficialidade que pode haver nesta devoção é a do homem que não é integralmente humano e que, por isso, não consegue aperceber-se da realidade de Deus feito carne.


Cristo na Cruz, com o Coração trespassado de Amor pelos homens, é uma resposta eloquente – as palavras não são necessárias – à pergunta sobre o valor das coisas e das pessoas. (Cristo que passa, nn. 164–165) 

Evangelho e comentário

 
Tempo comum

Evangelho: Mc 3, 20-21

20 Depois, foi para casa e de novo acorreu tanta gente, que nem sequer podiam tomar alimento.21 Quando os Seus parentes ouviram isto, foram para tomar conta d'Ele; porque diziam: «Está louco».

Comentário:

Claro que estás louco, Senhor, louco de amor pelos homens que Te procuram incessantemente em busca de alívio para as suas apreen­sões, cura para os seus males.

É tanta a urgência que as pessoas têm de estar contigo que não Te deixam nem comer, nem descansar e, Tu, louco de amor, a todos aten­des, todos recebes.

Loucura de amor!

Por mim?

Como posso retribuir-te? Como posso agradecer-te?

(ama, comentário sobre Mc 3, 20-21, 209.11.13)



Leitura espiritual


Leitura espiritual


A Cidade de Deus 



Vol. 1

LIVRO IV

CAPÍTULO X

Opiniões seguidas por aqueles que propuseram deuses diferen­tes para as diferentes partes do Mundo.

E porque é que lhe unem Juno como esposa, que se diz sua «irmã e cônjuge»? Porque, dizem, segundo a tradi­ção, Júpiter está no éter, Juno no ar e estes dois elementos, um superior e outro inferior, estão unidos. Já não é, portanto, aquele de quem foi dito:
tudo está cheio de Júpiter  [i].
pois também Juno enche uma parte. Será que os dois cônjuges enchem os dois elementos residindo ao mesmo tempo um e outro nos dois? Então, porque é que se atribui o éter a Júpiter e o ar a Juno? No fim de contas, estas duas divindades bastariam: para quê atribuir o mar a Neptuno e a terra a Plutão? E para que estes não fiquem também sem esposas, juntam Salácia a Neptuno e Prosérpina a Plutão. É que, dizem, assim como Juno reside no ar, isto é, na parte inferior do céu, assim também Salácia ocupa a parte inferior do mar e Prosérpina a parte inferior da terra. Procuram, mas não encontram, a maneira de remendar estas fábulas. Se assim fosse, os antigos teriam falado de três e não de quatro elementos do mundo para atribuírem a cada elemento uma parelha de deuses. Todavia, o que afirmam é bem diferente: o éter é uma coisa e o ar é outra. Quanto à água, superior ou inferior, não deixa de ser água. Imagina tu que é diferente: deixará ela por isso de ser água? E a terra «inferior» que outra coisa poderá ser senão terra, por muito diferente que seja? E eis que com estes quatro ou três elementos já o conjunto do mundo corpóreo está completo. Onde ficará Minerva? Que ocupará ela? Que é que preencherá? Encontrou um lugar no Capitólio ao mesmo tempo que eles, embora não seja filha de ambos. Se, como dizem, Minerva ocupa a parte superior do éter — e por essa razão os poetas fingem que ela nasceu da cabeça de Júpiter — porque não a consideram então como rainha dos deuses, mesmo acima de Júpiter? Porque seria indecoroso colocar a filha acima do pai? Porque é que não se observou a mesma justiça a propósito do próprio Júpiter para com Saturno? Porque este foi vencido? Então, combateram? Longe disso, dizem; palavrório de fábulas é que isso é! Vá — não acreditemos em fábulas e façamos dos deuses melhor juízo. Porque é que então não foi dado ao pai de Júpiter uma morada, se não mais sublime pelo menos de igual categoria? Por­que, dizem, Saturno é a duração do tempo. Portanto prestar culto a Saturno é prestar culto ao tempo e supor que Júpiter, rei dos deuses, nasceu do tempo. Que há de indigno em dizer-se que Júpiter e Juno nasceram do tempo — se aquele é o céu e esta a terra — sendo certo que o céu e a terra foram criados? De facto, também os seus doutores e sábios consignaram isto nos seus livros. Não foi segundo as ficções dos poetas mas segundo os livros dos filósofos que Vergílio escreveu:
Então, o Pai Omnipotente, o Éter, desceu em forma de chuva fecunda, ao seio da sua ditosa esposa [ii],
isto é, no seio de Telure, a Terra. Porque ainda aqui querem que haja diferenças. Julgam que na própria terra uma coisa é a Terra, outra Telure outra Telumão e que cada um destes deuses tem os seus próprios nomes, distingue-se pelas suas funções e é venerado em altares e com ritos próprios.

A esta mesma Terra chamam também a mãe dos deuses, e assim já as ficções dos poetas se tomam mais toleráveis, pois não é nos seus poemas mas nos livros sagrados que é chamada não só a «irmã e esposa» mas também a mãe de Júpiter. Querem ainda que a mesma Terra seja Ceres e também Vesta. Mas é frequente apresentarem Vesta como o fogo dos lares, sem o qual a cidade não poderia existir. E por isso eram virgens que costumavam consagrar ao seu serviço, porque, assim como nada nasce do fogo, também nada nasce de uma virgem. Todas estas frivolidades deviam com certeza vir a ser abolidas e extintas por quem nasceu duma virgem. Efectivamente, quem suportará que os que tributam tão grande honra (e até como que castidade) ao fogo, não se envergonhem de chamar Vénus a Vesta, desvanecendo assim a louvável virgindade das suas servidoras? É que, se Vesta é Vénus, como é que virgens podem correctamente servi-la, abstendo-se das obras de Vénus? Haverá duas Vénus — uma virgem e outra senhora (mulier)? Ou antes três — uma das virgens, que é tam­bém Vesta, outra das casadas e outra das meretrizes? Era a esta que os Fenícios davam de presente a prostituição das filhas antes de as vincularem aos maridos. Qual delas é a mulher de Vulcano? Com certeza que não é a virgem, pois tem um marido. Que seja a meretriz — nem pensar nisso: não vá parecer que se pretende fazer injúrias ao filho de Juno, ao colaborador de Minerva. Portanto, tem que se concluir que se trata da que respeita às casadas. Mas não queremos que a imitem no que ela fez com Marte. Lá voltas de novo às fábulas, dirão! Que justiça é essa que se inflama contra nós por isto afirmarmos dos seus deuses e não inflama contra si próprios os que no teatro assistem gostosamente a estes crimes dos seus deuses? E (o que não seria de acreditar se não se provasse sem contestação) estas representações teatrais dos crimes dos deuses foram instituídas em louvor desses mesmos deuses.

CAPÍTULO XL

Os doutores dos pagãos defendem a opinião de que os diversos deuses mais não são que um e o mesmo Júpiter.

Afirmem pois o que lhes apetecer baseados em argumentos de ordem física e em conclusões das suas controvérsias:
— umas vezes, que Júpiter é a alma deste mundo corpóreo, alma que enche e move toda esta mole formada e constituída por quatro, ou por quantos elementos lhes aprouver;
— outras vezes, que ele cede à irmã e aos irmãos a sua parte;
        — outras, que ele é o éter que envolve o ar desde Juno, lá em cima, até ao difundido cá por baixo;
— umas vezes, que ele próprio é o céu todo com o ar e que fecunda com as suas chuvas e sementes a Terra, simultaneamente sua esposa e mãe (pois que nada de torpe há entre os deuses);
— outras vezes, finalmente (para não desfiar todas as possibilidades), que ele é o deus único ao qual muitos atribuem o que foi dito pelo mais ilustre dos poetas:
o deus de facto percorre todas as terras, todas as extensões dos mares, todas as profundezas do Céu [iii];
— ele é Júpiter no éter e Juno nos ares;
— é Nephino nos mares e Salácia nas regiões inferiores do mar;
        — é na terra Plutão, e Prosérpina nas regiões inferiores da terra;
        — é Vesta nos lares domésticos e Vulcano na fornalha dos ferreiros;
— nos astros é o Sol, a Lua e as estrelas, e nos adivinhos é Apolo;
        — no comércio é Mercúrio, Jano no começo das coisas, Saturno no tempo, Marte e Belona nas guerras, Líder nas vinhas, Ceres nas searas, Diana nas florestas, Minerva nas artes;
— está, finalmente, na multidão dos deuses, a bem dizer ple­beus;
— é quem preside, com o nome de Libero, à emissão seminal dos homens e, com o nome de Libera, à das mulheres;
— é Diespáter, que leva a seu termo o parto;
— é a deusa Mena, que preside às regras das mulheres;
— é Lucina, invocada pelas parturientes;
— é quem, com o nome de Ópis, presta socorro aos recém-nascidos, recebendo-os do seio da terra;
— é quem, com o nome do deus Vaticano, lhes abre a boca para os vagidos;
— com o nome da deusa Levana, os ergue da terra;
— com o nome da deusa Cunina, vigia os berços;
— é ele e não outro quem, com o nome das deusas Carmentes, narra os destinos dos recém-nascidos;
— quem, com o nome de Fortuna, preside aos acontecimentos fortuitos;
— com o da deusa Rumina, munge a mama para o pequenino
— por isso é que os antigos chamaram ruma à mama;
— com o da deusa Potina, lhes administra a bebida;
— com o da deusa Edura, lhes fornece a comida;
— quem do pavor das crianças tira o nome de Pavência, o de Venília da esperança que vem, o de Volú­pia da voluptuosidade, o de Agenória do esforço.
— Dos estímulos com que o homem é impelido para o excesso de actividade, vem-lhe o nome de Stímula, e de Strénia da energia (strenuus) para a acção;
— a que ensina a contar (numerare) é Numeria e a que ensina a cantar (canere) é Canena;
— é ainda o deus Consus porque aconselha, a deusa Sência por­que inspira os pensamentos (sententia), a deusa Juventas que, chegada a idade de envergar a toga pretexta, apadrinha a entrada na idade juvenil;
— é a Fortuna barbuda que reveste de barba os adolescentes (a estes os quiseram honrar, considerando esta curiosa divindade pelo menos como um deus masculino, quer chamando-lhe Barbado, por causa da barba, como se chamou Nodato, por causa dos nós (nodus), quer chamando-lhe Fortúnio em vez de Fortuna ainda por causa das barbas);
— como deus Jugatino ele une os esposos;
— com o nome da deusa Virginiense é invocado quando se desaperta a cinta da noiva;
— ele é mesmo Mutuno ou Tutuno, ou seja, entre os gregos, Priapo.

Se ele não se envergonha de ser tudo o que disse e até o que não disse (pois não tenciono dizer tudo), isto é, que Júpiter sozinho seja todos os deuses e todas as deusas, quer sejam estas, como pretendem uns, partes dele ou potências dele, como parece a outros, a quem apraz ver nele a alma do mundo, o que constitui a opinião de muitos dos seus grandes doutores.

Se assim é (e qual seja não o indago por ora) — que perderiam, se adorassem, numa síntese mais sensata, um Deus apenas? Que poderiam «dele desprezar, adorando-o a ele próprio»? Se deviam evitar que se irassem algumas das partes que eram esquecidas ou postas de lado — então não é ele (Júpiter), como pretendem, a vida total do único animador que em si contém todos os deuses como po­tências suas, como membros seus, como partes suas; mas cada uma das suas partes tem vida própria, separada das outras, uma vez que uma pode irar-se com a exclusão de outra e que uma se amansa quando a outra se indigna. Se se disser que o próprio Júpiter todo inteiro se ofende, isto é, todas as suas partes ao mesmo tempo, no caso de não serem veneradas todas elas, uma a uma — diz-se uma tolice. Na verdade, uma parte não seria posta de parte quando fosse venerado o próprio Uno que a todas contém. Mas omito outras questões, que muitas são. Quando afirmam que todos os astros são partes de Júpiter, que todos vivem e têm alma racional, que, portanto, são indiscutivelmente deuses — não reparam quantos não veneram, a quantos não constroem templos nem levantam altares, pois entenderam que não os deviam levantar senão a muito poucos astros, aos quais deviam ser oferecidos sacrifícios em especial. Se, pois, se enfurecem os que não são venerados em especial, não haverá que recear, dado o pequeno número dos satisfeitos, viver na cólera de todo o céu?

Mas, se se veneram todos os astros honrando Júpiter que a todos contém, poderiam então elevar-lhes súplicas a todos os compreendidos em Júpiter (desta forma, nenhum teria que se encolerizar, já que, neste único, nenhum estaria posto de parte). Seria melhor do que reservar o culto para uns tantos, dando lugar a que injustificadamente se indignem os que — decerto muitos mais — tivessem sido preteridos, sobretudo quando do alto do céu onde brilham, vêem preferir-se-lhes um Priapo exibindo-se na sua obscena nudez.

CAPÍTULO XII

Opinião dos que consideram Deus como a alma do Mundo e o Mundo o corpo de Deus.

Quê? Isto não deve deixar de emocionar os homens argutos ou sejam eles o que forem, porque, se pusermos de parte a discussão apaixonada, não é preciso ser um grande génio para compreender que

se Deus é a alma do Mundo e o Mundo o corpo desta alma, então Deus é um ser vivo único, composto de um corpo e de uma alma;

e se Deus, no próprio seio da natureza, contém em si todas as coisas de maneira que da sua alma, como princípio vivificante de toda esta mole, derivam a vida e a alma de todos os seres vivos conforme a sorte que coube a cada um quando nasceu — então nada há que não seja parte de Deus.

Se assim é — quem não vê quanta impiedade e irreligiosidade daí de­corre: pois o que qualquer calcar, a Deus calcará, e ao m atar qualquer ser vivo, matará parte de Deus?

Não quero referir tudo o que pode ocorrer aos que nisto pensam, mas não pode ser referido sem vergonha.

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Vergílio, Bucólicas, III, 60
[ii] Vergílio, Geórgicas, II, 325.
[iii] Vergílio, Georg., IV, 221.