26/12/2015

Pequena agenda do cristão


SÁBADO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:

Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?


Tratado da vida de Cristo 62

Questão 38: Do baptismo de João

Art. 6 — Se os que já tinham recebido o baptismo de João deviam receber também o baptismo de Cristo.

O sexto discute-se assim. — Parece que os que já tinham recebido o baptismo de João não deviam receber depois o baptismo de Cristo.

1. — Pois, João não era menor que os Apóstolos segundo a ele se refere o Evangelho: Entre os nascidos de mulheres não se levantou outro maior que João Baptista. Ora, os que foram baptizados pelos Apóstolos não o foram de novo, mas só se lhes acrescentou a imposição das mãos. Assim, diz a Escritura, que alguns foram somente baptizados por Filipe em nome do Senhor Jesus; então os Apóstolos, isto é, Pedro e João, punham as mãos sobre eles e recebiam o Espírito Santo. Logo, parece que os baptizados por João não deviam receber também o baptismo de Cristo.

2. Demais. — Os Apóstolos receberam o baptismo de João, pois, alguns foram discípulos dele. Ora, parece que os Apóstolos não receberam o baptismo de Cristo; assim, diz o Evangelho: Jesus não baptizava, mas sim os seus discípulos. Logo, parece que os que tinham recebido o baptismo de João não deviam depois receber o de Cristo.

3. Demais. — O baptizado é inferior a quem o baptiza. Ora, não diz a Escritura que João tivesse recebido o baptismo de Cristo. Logo, com maior razão, os baptizados por João precisavam de ser depois baptizados por Cristo.

4. Demais. — Diz a Escritura: Paulo achou alguns discípulos e disse-lhes: Vós recebestes já o Espírito Santo quando abraçastes a fé? E eles lhe responderam: Antes nós nem sequer temos ainda ouvido se há Espírito Santo. E ele disse-lhes: Em que baptismo fostes vós baptizados? Eles disseram: No baptismo de João. Donde, foram baptizados de novo em nome do Senhor Jesus. E assim, parece que era preciso serem baptizados de novo, por ignorarem a existência do Espírito Santo, como dizem Jerónimo e Ambrósio. Ora, alguns receberam o baptismo de João, que tinham conhecimento pleno da Trindade. Logo, não deviam receber de novo o baptismo de Cristo.

5. Demais. — Segundo o Apóstolo: Esta é a palavra da fé que pregamos - diz a Glosa de Agostinho: Donde tira a água essa virtude tão maravilhosa de purificar à coração, ao mesmo tempo que lava o corpo, senão por efeito da palavra, não precisamente porque pronunciada, mas porque crida? Donde, é claro que a virtude do baptismo depende da fé. Ora, a forma do baptismo de João simbolizava a fé com a qual somos baptizados, conforme o Apóstolo: João baptizou ao povo com baptismo de penitência, dizendo: Que cressem naquele que havia de vir depois dele, isto é, em Jesus. Logo, parece que não era necessário os que receberam o baptismo de João terem que receber de novo o de Cristo.

Mas, em contrário, Agostinho: Aos que receberam o baptismo de João era preciso receberem depois o de Cristo.

Segundo a opinião do Mestre das Sentenças, os que receberam o baptismo de João, ignorando, a existência do Espírito Santo, mas pondo a esperança nesse baptismo, receberam depois o baptismo de Cristo; mas os que não punham a sua esperança no baptismo de João e criam no Pai, no Filho e no Espírito Santo, não foram baptizados depois, mas pela imposição das mãos feitas sobre eles pelos apóstolos, receberam o Espírito Santo. E isto é por certo verdade, quanto à primeira parte, confirmado por muitas autoridades. Mas, a segunda arte dessa afirmação é de todo irracional. - Primeiro, porque o baptismo de João não conferia a graça nem imprimia carácter, mas era só em água como ele próprio o diz. Por isso, a fé ou a esperança que o baptizado tivesse em Cristo não podia suprir essa falta. - Segundo, porque quando num sacramento se omite o que faz essencialmente parte dele, não só há necessidade de suprir essa omissão, mas é mister tornar a ministrar de novo o sacramento. Ora, o baptismo de Cristo exigia essencialmente que fosse ministrado, não só em água, mas no Espírito Santo, conforme o Evangelho: Quem não renascer da água e do Espírito Santo não pode entrar no reino de Deus. Donde, aos que só pela água receberam o baptismo de João, não era preciso suprir o que lhes faltava, de modo que lhes fosse conferido o Espírito Santo pela imposição das mãos, mas deviam de novo e totalmente ser baptizados na água e no Espírito Santo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Como diz Agostinho, houve outro baptismo além do João, por que este não ministrava o baptismo de Cristo, mas o seu. Mas, o que fosse conferido por Pedro ou ainda por Judas, esse era de Cristo. Por isso, os que Judas baptizou não precisavam de novo baptismo; pois, o baptismo é tal qual foi instituído por quem tinha poderes para fazê-lo, em nada dependendo a sua essência daquele que o ministra. Por isso também os baptizados de Filipe diácono, que ministrava o baptismo de Cristo, não foram de novo baptizados, mas receberam dos Apóstolos a imposição das mãos; assim como os baptizados pelos sacerdotes são confirmados pelos bispos.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Como diz Agostinho, entendemos que os discípulos de Cristo foram baptizados, quer pelo baptismo de João, como alguns pensam, quer, o que é mais crível, pelo baptizado de Cristo; pois, não podia deixar de regular o ministério do baptismo, dando aos já baptizados o poder de baptizar os outros, aquele que se não eximiu de lavar os pés aos seus discípulos, para dar-lhes maior exemplo de humildade.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Como ensina Crisóstomo, o ter Cristo respondido a João que dizia - Eu sou o que devo ser baptizado por ti, respondido - Deixa por ora - mostra que depois Cristo baptizou a João. E refere que tal está claramente escrito em alguns livros apócrifos. Mas é certo, como ensina Jerónimo, que assim como Cristo foi baptizado na água por João, assim João devia ser baptizado por Cristo no Espírito.

RESPOSTA À QUARTA. — A causa total, desses tais terem sido baptizados depois de haverem recebido o baptismo de João, não foi o desconhecerem o Espírito Santo, mas o não terem recebido o baptismo de Cristo.

RESPOSTA À QUINTA. — Como diz Agostinho, os nossos sacramentos são os sinais da graça presente; ao passo que os da lei antiga eram os da graça futura. Donde, o próprio facto de João baptizar, em nome do que devia vir, prova que não conferia o baptismo de Cristo, que é um sacramento da lei nova.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.



Ano litúrgico, Cristo no tempo

Ao oferecer-te aquela História de Jesus, pus como dedicatória: Que procures a Cristo. Que encontres a Cristo. Que ames a Cristo. – São três etapas claríssimas. Tentaste, pelo menos, viver a primeira? (Caminho, 382)

A história humana é e será sempre uma “história de salvação”, e é isto o que a Igreja celebra no ano litúrgico. As festas e tempos não são “aniversários”, uma mera repetição de alguns momentos históricos da vida do Senhor; são a celebração da sua presença, a actualização da salvação que o Padre, por Jesus Cristo, nos comunica no Espírito Santo.

A Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Concílio Vaticano II apresenta o ano litúrgico com estas palavras: «A santa mãe Igreja considera seu dever celebrar, em determinados dias do ano, a memória sagrada da obra de salvação do seu divino Esposo» (Sacrosanctum Concilium, 102). Cada ano litúrgico é, pois, uma nova oportunidade de graça e de presença do Senhor da história na nossa própria história quotidiana, nos acontecimentos -também nos mais insignificantes- de cada dia.

Aquele que é o mesmo, que era e que será, vem a nós no tempo, aqui e agora, para viver o presente, o de cada um, com os seus irmãos os homens.

O ano litúrgico está impregnado pela presença de salvação do Senhor para que em cada tempo litúrgico -com as suas características concretas- os cristãos possamos ser mais semelhantes a Ele, não só no sentido moral de imitação, de mudança de costumes e de melhoramento na conduta, mas de verdadeira identificação sacramental -imediata- com a vida de Cristo. Assim, a nossa vida diária converte-se num culto agradável ao Pai por acção do Espírito (cfr. Rom. 12, 1-2).

Já a partir dos primeiros séculos, à celebração dos mistérios de Cristo, a Igreja uniu a celebração da Virgem e do dia da passagem para casa do Pai dos mártires e dos santos. Com a sua vida, souberam dar testemunho da vida de Cristo, especialmente da Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão gloriosa ao Céu. Por isso ao longo do ano litúrgico são apresentados aos fiéis cristãos como exemplo de amor a Deus.


Frequentemente, o Senhor fala-nos do prémio que nos ganhou com a sua Morte e Ressurreição. Vou preparar um lugar para vós. Depois que Eu tiver ido e vos tiver preparado um lugar, virei novamente e tomar-vos-ei comigo para que, onde eu estou, estejais vós também (Cfr. Jo. XIV, 2-3). O Céu é a meta do nosso caminho terreno. Jesus Cristo precedeu-nos e ali, na companhia da Virgem e de S. José -a quem tanto venero- dos Anjos e dos Santos, aguarda a nossa chegada. (Amigos de Deus, 220)

25/12/2015

Índice de publicações em 25 Dez

nunc coepi – Índice de publicações em Dez 25

S. Josemaria – Textos

A Paixão do Senhor (Luis de la Palma), Fortaleza, Getsémani, Luis de la Palma, Oração, Virtudes

AMA - Conto de Natal -como são os olhos de um Pai

Ano jubilar da misericórdia

AMA - Comentários ao Evangelho Jo 1 1-18, Marta Brancatisano - Leitura Espiritual - Amor e sexualidade

AT - Salmos – 54


Agenda Sexta-Feira

O meu conto de Natal: Como são os olhos de um Pai?

Como são os olhos de um Pai?

Pergunta a um oftalmologista!
Não!
Pergunta a um filho!

Se lembro bem os olhos do meu Pai eram transparentes, quero dizer, lia-se neles como num livro aberto.

Percebia perfeitamente quando estava contente comigo ou, se o que eu fizera ou tinha dito, não eram do seu agrado.

Não usava lentes que aumentassem ou diminuíssem o seu afecto por mim, eram sempre o mesmo… quer dizer… comprazido ou algo decepcionado.

Os olhos do meu Pai eram, por assim dizer, o meu espelho onde podia ver com meridiana clareza “como andava a minha vida”.

Lembro-me que – deveria ter os meus catorze anos - 1954 - que é uma idade importante num rapaz – ter chegado a casa por altura das férias de Natal e de lhe ter oferecido com grande orgulho e satisfação pessoais, a minha “caderneta” com as “notas” do período escolar.

Eram óptimas notas, a média de dezoito valores atribuíra-me o terceiro lugar na minha classe.

Mas quando vi os olhos do meu Pai tive uma surpresa enorme: não mostravam nenhuma satisfação especial, talvez até, houvesse neles algum laivo de decepção.

Fiquei, penso eu com toda a justiça, alterado, e perguntei:

‘Mas… Pai… média de dezoito… o terceiro da aula!!!’

A resposta foi “demolidora”:

‘Bom… está bem! Mas houve pelo menos dois colegas teus que tiveram médias de dezanove e vinte, um terá ficado em segundo lugar e o outro terá sido o primeiro da classe!’

Fiquei sem palavras, sem explicação nenhuma que pudesse aduzir: o que o meu Pai acabara de dizer era absolutamente verdade!

Olhei os seus olhos de novo e então vi neles uma centelha de incentivo, de desafio.

A verdade é que, no período seguinte, pela Páscoa pude entregar-lhe a “caderneta” com média de vinte e classificação de primeiro da classe.

Os seus olhos então, disseram-me claramente:

‘Vês como eu tinha razão e tu podias…’

Os olhos de um Pai vêm muito… muitíssimo mais longe que os olhos de um filho!

ama, Dezembro 2015.

Ano Jubilar da Misericórdia – 17

Resultado de imagem para ano da misericórdiaObras de misericórdia

6) Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo

A paciência diante dos defeitos alheios é virtude e é uma obra de misericórdia. No entanto, há um conselho muito útil: quando suportar esses defeitos causa mais dano do que bem, com muita caridade e suavidade, deve fazer-se a advertência.

prelatura do opus dei, NOTÍCIAS 29 de Novembro de 2015


(cont)

Antigo testamento / Salmos

Salmo 54








  
1 Salva-me, ó Deus, pelo teu nome; defende-me pelo teu poder.
2 Ouve a minha oração, ó Deus; escuta as minhas palavras.
3 Estrangeiros me atacam; homens cruéis querem matar-me, homens que não se importam com Deus.
4 Certamente Deus é o meu auxílio; é o Senhor que me sustém.
5 Recaia o mal sobre os meus inimigos! Extermina-os por tua fidelidade!
6 Eu te oferecerei um sacrifício voluntário; louvarei o teu nome, ó Senhor, porque tu és bom.

7 Pois ele me livrou de todas as minhas angústias, e os meus olhos contemplaram a derrota dos meus inimigos.

Evangelho, comentário, L. espiritual

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Tempo de Natal


Evangelho: Jo 1, 1-18

1 No princípio existia o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. 2 Estava no princípio com Deus. 3 Todas as coisas foram feitas por Ele; e sem Ele nada foi feito. 4 N'Ele estava a vida, e a vida era a luz dos homens, 5 e a luz resplandeceu nas trevas, mas as trevas não O receberam. 6 Apareceu um homem enviado por Deus que se chamava João. 7 Veio como testemunha para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. 8 Não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz. 9 O Verbo era a luz verdadeira, que vindo a este mundo ilumina todo o homem. 10 Estava no mundo, e o mundo foi feito por Ele, mas o mundo não O conheceu. 11 Veio para o que era Seu, e os Seus não O receberam. 12 Mas a todos os que O receberam, àqueles que crêem no Seu nome, deu poder de se tornarem filhos de Deus; 13 eles que não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. 14 E o Verbo fez-Se carne, e habitou entre nós; e nós vimos a Sua glória, glória como de Filho Unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade. 15 João dá testemunho d'Ele e clama: «Este era Aquele de Quem eu disse: O que há-de vir depois de mim é mais do que eu, porque existia antes de mim». 16 Todos nós participamos da Sua plenitude, e recebemos graça sobre graça; 17 porque a Lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade foram trazidas por Jesus Cristo.18 Ninguém jamais viu a Deus; o Unigénito de Deus, que está no seio do Pai, Ele mesmo é que O deu a conhecer.

Comentário:

Que felizes nos devemos sentir com estas afirmações do Baptista: participamos da Sua plenitude!

Antecipa as próprias palavras de Cristo que irá afirmar que somos deuses!
Elevados a esta extraordinária dignidade, hoje, dia em que celebramos o nascimento de Jesus, mais nos confirmamos na Fé.

Ele, o Menino agora nascido, é o nosso caminho para a salvação eterna.

(ama, comentário sobre Jo 1, 1-18, Marinha   Grande, 2013.12.26)

Leitura espiritual


Amor e sexualidade

A única relação de amor possível é entre homem e mulher. Por quê?

A BELEZA DA SEXUALIDADE

A sexualidade, "exige manifestar-se em toda a sua beleza e em todo o seu valor a partir da cultura cristã.
Na carta apostólica Mulieris Dignitatem, João Paulo II fala da sexualidade como de um carácter ontológico, não como mera função".
Hoje, devido à propagação da cultura da contracepção, "falta a plenitude e a completude espiritual e física do amor, que só pode se manifestar na relação entre homem e mulher".

CONTRACEPÇÃO E PROCRIAÇÃO

Brancatisano destaca:
"A cultura da contracepção contraria a cultura católica, que se mantém firme ao longo dos milênios na visão antropológica e sacramental do casamento.
É verdade que, neste contexto, as razões em favor da separação voluntária entre amor e procriação nunca são atribuídas a uma valorização diferente dos dois bens, mas sim a uma necessidade, eu diria contingente, de enfrentar os desafios que o mundo atual apresenta aos cônjuges como pais; por exemplo, dificuldades económicas, mudança no papel das mulheres etc".

O CISMA SILENCIOSO

Formou-se uma corrente de pensamento "que tende a tornar a contracepção compatível com a identidade do casamento, ainda que mediante a sua interpretação como um ‘mal menor’ em vez de um ‘direito a ser reivindicado’.
Esta situação é abordada pela encíclica Humanae Vitae, que responde com tanta clareza a esta visão que chegou a despertar entre os próprios católicos o que tem sido chamado de ‘cisma silencioso’, ou seja, o afastamento de grande parte dos fiéis dos ditames do magistério no tocante ao casamento e ao significado da sexualidade".

A CARTA DO PAPA JOÃO PAULO II

Em 1988, vinte anos depois da encíclica Humana Vitae, a carta apostólica Mulieris Dignitatem, de João Paulo II, "se torna um documento sem precedentes na história da Igreja porque abre uma perspectiva antropológica: os conteúdos da exegese de João Paulo II [i] ‘completam’ a Humanae Vitae.
Assim, captamos a conexão íntima entre a procriação e a estrutura antropológica que se manifesta na relação entre homem e mulher".

CRIAÇÃO E CASAL HOMEM-MULHER

Do relato duplo da criação do ser humano, segundo a exegese feita pelo autor de Mulieris Dignitatem, Brancatisano observa que "surgem traços de identidade do homem e da mulher, mas também a clareza de que o ser humano se completa apenas com a constituição do casal homem-mulher".
A linguagem poética do Génesis diz-nos que “todo acto criativo contava com a aprovação de Deus.
A complacência divina (‘e Deus viu que isso era bom’) só se rompe diante de uma lacuna: ‘Não é bom que o homem esteja só’”.

AJUDA E TOTALIDADE DA RELAÇÃO

Brotam desta visão alguns conceitos básicos que a antropóloga classifica assim:

1.   Solidão/ajuda:

Diante da negatividade do estado de solidão, o Criador estabelece, como antídoto, o estado de ajuda, que prenuncia a dimensão relacional e a interdependência ontológica entre homem e mulher;

2.   Totalidade da relação:

As palavras “o homem deixará seu pai e sua mãe” indicam a prioridade desta nova relação sobre as outras, ainda que vitais, como a relação filiação/paternidade ou filiação/maternidade.

UMA SÓ CARNE

A totalidade também decorre “da modalidade de realização da relação: uma modalidade específica e inédita, indicada pelas palavras ‘uma só carne’.
Isto expressa, literalmente, unidade e corporeidade.
O modo de unir-se e de ser um para a outra e uma para o outro, que caracteriza a relação entre homem e mulher, é indicado na sua dimensão física não para restringir o seu âmbito de aplicação apenas ao material, mas para indicar a totalidade da pessoa, cuja parte corpórea é sinal e testemunho da parte espiritual invisível”.

SEXO, MASCULINIDADE E FEMINILIDADE

Desta forma, vem à luz "um carácter do ser humano que João Paulo II define como ontológico: o sexo.
Esta passagem da mera função procriadora para um elemento constitutivo da pessoa, ao mesmo tempo que sanciona a complementaridade como condição para a plenitude da humanidade, afirma que a feminilidade e a masculinidade são dois modos de ser ‘ser humano’, projectados pelo Criador para a união e fundamentados em uma diferença estimulante do ser".

O ESTADO DE PLENITUDE

É também "uma experiência humana universal" que, na união de amor "feita de aceitação plena, maravilhamento alegre, doação total, o homem se faz homem, ou seja, põe em acto a sua masculinidade, e a mulher se faz mulher, pondo em acto a sua feminilidade".
Desse "estado de plenitude" emana "a energia vital que inunda o casal e que, do casal, se derrama para fora: seja produzindo uma nova vida, seja reforçando na vida as relações circunstantes, segundo a dinâmica que, desde sempre, identifica na família a base da sociedade”.

CONTRA A VISÃO ESTREITA DA VIDA

Estas reflexões de Brancatisano desafiam a "cultura da contracepção", que diz que a relação se aperfeiçoa justamente na separação entre união e procriação, como se a procriação fosse um limite intrínseco ao amor.
Deixar de fora da união a própria capacidade de geração "é tornar parcial o que era total: significa substituir o acto de fé no outro e na capacidade humana de amar por uma visão mais estreita do sentido da vida, totalmente humana e fechada ao transcendente, suscetível de cálculo e mensuração, enquanto a totalidade do amor é um ponto de contato com Deus mesmo".

UM PROJECTO QUE RENUNCIA À FELICIDADE

A relação de amor entre homem e mulher como fundamento antropológico "não restringe a escolha existencial ao casamento.
Simplesmente revela a estrutura humana e, a partir de uma perspectiva esponsal, interpreta a orientação humana do ser".
Amor e vida são "sinónimos" e são vividos e realizados “na relação de doação total entre homem e mulher.
A cultura da contracepção tira o amor humano do seu estado original de semelhança com Deus e o reduz a um estado ‘humano’, onde o homem sozinho se projecta a si mesmo e a vida.
É um projecto que tende a eliminar os riscos e que, em nome da ‘segurança’, renuncia à felicidade e se adapta a uma serenidade sem impulsos à completude”.

marta brancatisano [ii]

(Revisão da versão portuguesa por ama)




[i] Inspirados no Génesis e em Mateus 19
[ii] Antropóloga, professora de Antropologia na Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma, e diretora do mestrado "Amor, família, educação", na mesma universidade. Ela afirma que "a cultura actual tem muitas incertezas sobre o significado do ser humano e da relação entre homem e mulher. Isso é estranho, porque as ciências humanas são capazes de dar respostas muito precisas sobre o relacionamento como fundamento da vida e sobre a feminilidade e a masculinidade como elementos da humanidade".