10/11/2015

Evangelho, comentário, L. espiritual

 

Tempo comum XXXII Semana

São Leão Magno – Doutor da Igreja

Evangelho: Lc 17, 7-10

7 «Quem de vós, tendo um servo a lavrar ou a guardar gado, lhe dirá quando ele voltar do campo: Vem depressa, põe-te à mesa? 8 Não lhe dirá antes: Prepara-me a ceia, cinge-te e serve-me, enquanto eu como e bebo; depois comerás tu e beberás? 9 Porventura, fica o senhor obrigado àquele servo, por ter feito o que lhe tinha mandado? 10 Assim também vós, depois de terdes feito tudo o que vos foi mandado, dizei: Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer».

Comentário:

Servir é a condição para ganhar o pão de cada dia; servir bem ė fundamental para ganhar a confiança de quem nos garante esse salário.

O Senhor pagará com extrema generosidade os bons serviços que lhe prestemos, mesmo que,  aparentemente, insignificantes ou de escasso relevo.

(ama, comentário sobre Lc 17 7-10 2011.11.11)


Leitura espiritual



A PACIÊNCIA
…/2

O ESTOJO DO MUNDO
OS BELOS ESTOJOS

O leitor há-de concordar comigo em que uma das coisas mais belas do mundo é um bom estojo. Ainda há poucos dias, ficava eu extasiado diante do estojo deslumbrante de uma caneta alemã. É verdade que era dez vezes maior do que a caneta, mas seus brilhos nacarados, sua patina ambarina, e sobretudo o veludo roxo azulado – macio e aristocrático – do interior, onde a caneta dourada se encaixava à perfeição, eram de deixar de queixo caído.

Todos nós já admiramos, provavelmente, a beleza e o ajuste preciso do estojo de um relógio novo, de uma flauta reluzente, de uma joia... Haveria matéria para escrever um livro inteiro sobre as maravilhas dos estojos. E, como é lógico, nesse livro não poderia faltar, por contraste, um capítulo dedicado aos maus estojos.
Como é desagradável um estojo ruim, em que o objecto guardado dança, chocalha com um barulho irritante e acaba por estragar-se a si mesmo e estragar os nossos nervos.

Mas todas estas digressões sobre estojos, que têm a ver com a paciência?

– Desculpe – haveria de responder a quem fizesse essa pergunta –, talvez eu tenha posto o carro à frente dos bois. Só um pouco de paciência e daqui a nada vamos ver que estojo e paciência são duas coisas muito relacionadas.

Para isso, basta que pensemos se não é verdade que um dos nossos desejos mais íntimos é que o mundo (a vida, as coisas, os acontecimentos e as pessoas) funcione como um estojo aveludado e perfeitamente modelado, em que se encaixem sempre suavemente, sem colisões nem atritos, os nossos sonhos, os nossos desejos, os nossos caprichos, as nossas manias e até mesmo os nossos defeitos.

Ah, se tudo na vida fosse assim!

Para o meu mau humor, o estojo de cetim da compreensão dos outros;
para a minha doença, o estojo de seda de um serviço público de saúde com a aparelhagem funcionando e sem filas;
para o meu trabalho, o estojo adamascado de chefes que me louvem e subordinados que em tudo me obedeçam;
e, lá em casa, o veludo amabilíssimo dos filhos dóceis e agradecidos, sempre prontos a sussurrar com um sorriso carinhoso: – ‘a Mãezinha e Paizinho têm razão’, e o de um marido ou uma mulher que, sem pensarem em problemas e cansaços pessoais, só saibam dizer, com o olhar mais terno: – ‘Meu amor, que gostaria de fazer hoje?’

Que fantástico um mundo-estojo assim!
É melhor nem pensar nele porque, depois, ao abrirmos os olhos à realidade, ficaríamos magoados.
De qualquer modo, é indiscutível que, se o mundo fosse o nosso suave, ajustadinho e macio estojo sob medida (incluindo-se nessa “medida” também os auxílios imediatos de um Deus tão “bom” que nos fizesse sempre as vontades), a impaciência desapareceria do mapa e deveria ser apagada dos dicionários.

ESTOJOS DESAJUSTADOS

Mas, uma vez que não vivemos no País das Maravilhas, como Alice, e sim na Terra dos Homens de que falava Saint-Exupéry, forçoso é que reconheçamos que a toda a hora o estojo do mundo falha, machuca, não abre, não fecha e se desajusta ou se desengonça.
E então a impaciência começa a brotar, a crescer, e a dar os seus, digamos, “frutos” (os já referidos lamentos, tristezas, reclamações e quejandos).

As formas de desajuste e inadaptação ao estojo da realidade, isto é, as impaciências do dia-a-dia, são tão ricas em número como as espécies de insetos num livro de entomologia.
Bastaria observar com um pouquinho de atenção retalhos de um único dia na vida de qualquer família normal para podermos elaborar um volumoso dicionário de impaciências.
Lembremos algumas das mais corriqueiras, a título de exemplo e só para mencionar o que Nelson Rodrigues chamaria o “óbvio ululante”.

O Pai acorda mais cedo e vai preparar o café (ofício cada dia mais masculino).
Primeira contrariedade naquela hora de olhar estremunhado e nervos mal temperados: da torneira não sai um pingo de água, porque é dia de corte devido à estiagem;
e o pior é que o jornal tinha avisado, e já é a quarta vez que se esquece disso num mês.
Segunda contrariedade a menina, após a explosão de um estrondoso rádio-despertador e mais três séries de violentas batidas da mãe na porta do quarto, continua a dormir, e o pobre progenitor de emprego ameaçado, que já está atrasado para o serviço, vai ter que deixá-la antes, a ela e ao Rodrigo, na escola.
Ó estojo mal ajustado!
O dia já começa, como diria Guimarães Rosa, com “o mundo à revelia”!

Mas o que começa, continua.
Quando o aflito Pai ia ligar para o escritório, avisando que uma emergência o impediria de participar da primeira reunião, o imprescindível telefone, tão necessário, está ocupado.
Por quem?
Pela filha mais velha, é lógico, que já leva vinte minutos na sua primeira conversa do dia com o namorado.

‘É sempre assim!’, desabafa o pobre pai.

Mas a bronca não elimina quinze minutos mais, mínimo regulamentar para completar o horário do matutino namoro.
O estojo continua sem funcionar.

E quando por fim o homem, esfalfado antes de ter começado a trabalhar, consegue sair à rua com o velho carro usado, adquirido a preço de amigo a um colega, os olhos batem instantaneamente no guarda-lamas amachucado..., e a última que pegou no carro foi a mulher. – ‘Mais uma vez, outra vez!’, exclama o nosso protagonista, praticando sem o saber um acto teologicamente perfeito de impaciência.

Será, porventura, preciso acrescentar que, ao conseguir entrar na avenida, com um barulhinho no motor que deixa o coração em sobressalto, o trânsito está parado?
O engarrafamento é monumental, fora do comum – que é comum mesmo –, devido a uma carreta que se incrustou de frente no canteiro central e está atravessada na pista.
– ‘Mais essa! E depois dizem que não existe a lei de Murphy!’

Se quiséssemos continuar pintando esse quadro escuro de contrariedades quotidianas, não poderia faltar uma referência aos comentários mordazes dos colegas de escritório, porque a equipa dele “mais uma vez” perdeu, nem faltaria a queixa contra o infernal barulho da rua que tanto dificulta trabalhar; e assim, após inúmeros aborrecimentos, veríamos o nosso homem chegar a casa num tal estado de ânimo que qualquer pergunta da mulher lhe pareceria uma ofensa.

Poderíamos, sim, pintar este quadro, mas – ainda que tivesse um fundo realista – seria completamente falso.
A verdade é que, salvo em raros dias que são excepção, a vida não se compõe de uma sequência ininterrupta de contrariedades.
Graças a Deus, há também muitas satisfações e muitas alegrias e, normalmente, para quem não estiver cego, o mais justo é terminar o dia fazendo uma enorme lista de bênçãos recebidas de Deus, de males e perigos evitados, de protecções “descaradas” dos Anjos da Guarda, além de muitos detalhes simpáticos do próximo, de modo que o coração sinta a necessidade de elevar uma emocionada acção de graças.
Se fôssemos sinceros, veríamos que o elenco das bênçãos – tão belas como habituais – é normalmente bem superior ao das contradições.

(cont.)

FRANCISCO FAUS, [i] A PACIÊNCIA, 2ª edição, QUADRANTE, São Paulo 1998

(Revisão da versão portuguesa por ama)






[i] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canônico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na coleção Temas Cristãos, entre outros, os títulos O valor das dificuldades, O homem bom, Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens, Maria, a mãe de Jesus, A voz da consciência e A paz na família.

Pequena agenda do cristão


TeRÇa-Feira


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:
Aplicação no trabalho.

Senhor, ajuda-me a fazer o que devo, quando devo, empenhando-me em fazê-lo bem feito para to poder oferecer.

Lembrar-me:
Os que estão sem trabalho.

Senhor, lembra-te de tantos e tantas que procuram trabalho e não o encontram, provê às suas necessidades, dá-lhes esperança e confiança.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?



Tratado da vida de Cristo 49

Questão 36: Da manifestação de Cristo nascido
Art. 5 — Se a natividade de Cristo devia manifestar-se pelos anjos e pela estrela.

O quinto discute-se assim. — Parece que a natividade de Cristo não devia manifestar-se pelos anjos nem pela estrela 

1. — Pois, os anjos são substâncias espirituais, segundo a Escritura: Que faz os seus anjos espíritos. Ora, a natividade de Cristo era segundo a carne, e não segundo a sua substância espiritual. Logo, não devia ser manifestada pelos anjos.

2. Demais. — Maior é a afinidade dos justos com os anjos do que com quaisquer outros, segundo a Escritura: O anjo do Senhor andará à roda dos que o temem e os livrará. Ora aos justos Simeão e Ana a natividade de Cristo não se manifestou pelos anjos. Logo, nem aos pastores devia ter-se manifestado pelos anjos. Item. - Parece que também aos Magos não devia ter-se manifestado pela estrela.

3. — Pois, o facto de o ter seria ocasião de engano para os que pensam que os astros influem no nascimento dos homens. Ora, aos homens devem poupar-se-lhes as ocasiões de pecar. Logo, não era conveniente que a natividade de Cristo fosse manifestada por uma estrela.

4. Demais. — Um sinal há-de ser segura manifestação de uma realidade determinada. Ora, unia estrela não é sinal certo da natividade. Logo, a natividade de Cristo manifestar-se por uma estrela era inconveniente.

Mas, em contrário, a Escritura: As obras de Deus são perfeitas. Ora, a referida manifestação foi obra divina. Logo, realizou-se pelos sinais convenientes.

Assim como a demonstração silogística nós a fazemos partindo do que nos é mais conhecido, assim o que se nos manifesta por sinais deve apoiar-se em sinais, que nos sejam mais familiares. Ora, é claro que aos varões justos é familiar e habitual serem ensinados pela inspiração interna do Espírito Santo, sem manifestação de sinais sensíveis, ou seja, pelo espírito de profecia. Ao contrário, os dados às causas corpóreas são conduzidos ao inteligível pelo sensível. Ora, os Judeus estavam habituados a receber as determinações divinas por ministério dos anjos, mediante os quais também receberam a lei, segundo a Escritura: Recebestes a lei por ministério dos anjos. Ao passo que os gentios, e sobretudo os astrólogos, estavam habituados a observar o curso dos astros. Por isso aos justos Simeão e Ana, manifestou-se a natividade de Cristo por inspiração interior do Espírito Santo, segundo o Evangelho: Havia recebido resposta do Espírito santo, que ele não veria a morte sem ver primeiro ao Cristo do Senhor. Mas aos pastores e aos Magos, como dados as causas materiais, a natividade de Cristo manifestou-se por aparições visíveis. E como a sua um sinal. E assim como o Senhor, quando lá falava, o anunciaram, aos gentios, pregadores, por meio da palavra, assim, enquanto ainda não falava foi anunciado pelos elementos mudos. ­ Mas Agostinho dá ainda a razão seguinte: A Abraão foi-lhe prometida uma sucessão inumerável, que devia ser gerada, não por via seminal, mas pela fecundidade da fé. Por isso foi comparada à multidão das estrelas, para que fosse esperada uma progénie celeste. E eis porque os gentios designados pelas estrelas, são advertidos, pelo nascimento de um novo astro, a se darem a Cristo, que os tornará filhos de Abraão.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Precisa de manifestação o que em si mesmo é oculto, mas não o que já por si é manifesto. Ora, ao passo que o corpo de Cristo se tornou manifesto pela sua natividade, a sua divindade permanecia oculta. Por isso foi convenientemente manifestada a sua natividade pelos anjos, que são os ministros de Deus. Donde o anjo ter aparecido resplendente de luz, para mostrar que quem tinha nascido era o esplendor da glória paterna, no dizer do Apóstolo.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Os justos não precisavam de nenhuma aparição visível dos anjos, mas bastava-lhes a inspiração interior do Espírito Santo, para a sua perfeição.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A estrela, que manifestou a natividade de Cristo, não deu lugar a nenhuma ocasião de erro. Pois, como diz Agostinho, nenhum astrólogo jamais ensinou que o destino dos homens, ao nascerem, estivesse de tal modo dependente das estrelas, que por ocasião do nascimento de um deles, ela abandonasse o seu curso normal, para projectar-se sobre o recém-nascido, como se deu com a estrela que manifestou o nascimento de Cristo. O que, pois, não vinha confirmar o erro daqueles que pensam depender a sorte dos que nascem ao curso dos astros, mas não creem que podem mudar o seu curso, para anunciar a natividade de um homem. – E semelhantemente como diz Crisóstomo, não é a função da Astronomia saber, por meio das estrelas, quais os recém-nascidos, mas, predizer o futuro desde, hora da natividade. Ora, os Magos não conheceram o tempo da natividade para, partindo daí, desvendarem o futuro pelo movimento das estrelas; mas antes, ao contrário.

RESPOSTA À QUARTA. — Como refere Crisóstomo, em algumas escrituras apócrifas lê-se que um certo povo do extremo Oriente, nas margens do Oceano, possuía um escrito, com a assinatura de Set, referindo-se à estrela, de que tratamos, e aos dons que deviam ser oferecidos ao recém-nascido. E esse povo, esperando atentamente o momento do nascer a estrela, tendo destacado, para o saber, doze observadores, que, em tempos determinados, subiam indefectivelmente a um monte, do Alto do qual enfim a descobriram, deixando de aparecer como a figura de um menino e, acima, a semelhança de uma cruz. Ou devemos dizer com um autor: Os referidos Magos seguiam a tradição de Balaão, que disse - A estrela nascerá de Jacob. Por isso vendo eles uma estrela extraordinária entenderam ser essa a que Balaão profetizou que haveria de anunciar a vinda do Rei dos Judeus. Ou podemos dizer, com S. Agostinho, por alguma advertência dos anjos, concernente à revelação, os Magos souberam que uma estrela: havia de manifestar o nascimento de Cristo. E provavelmente, dos bons anjos, pois, o adorarem a Cristo já lhes redundava em benefício sua da salvação. Ou, como ensina Leão Papa, além daquela aparição que lhes feria a visão corpórea, o raio mais refulgente da verdade enriqueceu-lhes os corações com a iluminação da fé.


Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.



Temas para meditar - 534

Baptismo

O Baptismo cristão é o sacramento de iniciação que perdoa os pecados e dá a graça santificante.
A eficácia do sacramento do Baptismo cristão exprime-se na doutrina católica dizendo que infunde a graça ex opere operato: quer dizer, não pelos méritos do ministro que confere o sacramento, nem pelos méritos do que o recebe, mas pela virtude de Cristo que actua no sacramento.


(Bíblia Sagrada, anotada pela Faculdade de Teologia, Universidade de Navarra, Comentário sobre Mt 3, 11) 

Bento XVI – Pensamentos espirituais - 77

A busca da felicidade


Como é fácil contentar-se com os pra­zeres superficiais que a existência quotidia­na oferece!

Como é fácil viver só para si mesmo, aparentemente gozando a vida! 
Mas, mais cedo ou mais tarde, damo-nos conta de que não se trata de verdadeira felicidade, porque esta só pode ser encontrada num ní­vel muito mais profundo: em Jesus.

Mensagem aos jovens holandeses (21,Nov.05)

(in “Bento XVI, Pensamentos Espirituais”, Lucerna 2006)

09/11/2015

NUNC COEPI o que pode ver em 09 de Nov

Publicações em Nov 09

São Josemaria – Textos

AMA (Reflectindo - Preocupações)

AMA - Comentários ao Evangelho Jo 2 13-22, Francisco Faus, Leitura espiritual - A Paciência

Doutrina - Dom de línguas

AT - Salmos – 9


Agenda Segunda-Feira

A maior revolução de todos os tempos!

Se nós, os cristãos, vivêssemos realmente de acordo com a nossa fé, far-se-ia a maior revolução de todos os tempos! A eficácia da co-redenção depende também de cada um de nós! Pensa nisto. (Forja, 945)

Sentir-te-ás plenamente responsável quando compreenderes que, perante Deus, só tens deveres. Ele se encarrega de te conceder direitos! (Forja, 946)

Um pensamento te ajudará nos momentos difíceis: quanto mais aumente a minha fidelidade, melhor contribuirei para que os outros cresçam nesta virtude. E é tão atraente sentir-nos apoiados uns pelos outros! (Forja, 948)

Corres o grande perigo de te conformares com viver (ou pensar que deves viver...) como um "bom rapaz", que se hospeda numa casa arrumada, sem problemas, e que não conhece senão a felicidade.

Isso é uma caricatura do lar de Nazaré. Cristo, justamente porque trazia a felicidade e a ordem ao mundo, saiu a propagar esses tesouros entre os homens e mulheres de todos os tempos. (Forja, 952)


Antigo testamento / Salmos

Salmo 9


1 Senhor, quero dar-te graças de todo o coração e falar de todas as tuas maravilhas.

2 Em ti quero alegrar-me e exultar, e cantar louvores ao teu nome, ó Altíssimo.

3 Quando os meus inimigos contigo se defrontam, tropeçam e são destruídos.

4 Pois defendeste o meu direito e a minha causa; em teu trono te assentaste, julgando com justiça.

5 Repreendeste as nações e destruíste os ímpios; para todo o sempre apagaste o nome deles.

6 O inimigo foi totalmente arrasado, para sempre; desarraigaste as suas cidades; já não há quem delas se lembre.

7 O Senhor reina para sempre; estabeleceu o seu trono para julgar.

8 Ele mesmo julga o mundo com justiça; governa os povos com retidão.

9 O Senhor é refúgio para os oprimidos, uma torre segura na hora da adversidade.

10 Os que conhecem o teu nome confiam em ti, pois tu, Senhor, jamais abandonas os que te buscam.

11 Cantem louvores ao Senhor, que reina em Sião; proclamem entre as nações os seus feitos.

12 Aquele que pede contas do sangue derramado não esquece; ele não ignora o clamor dos oprimidos.

13 Misericórdia, Senhor! Vê o sofrimento que me causam os que me odeiam.

14 Salva-me das portas da morte, para que, junto às portas da cidade de Sião, eu cante louvores a ti e ali exulte em tua salvação.

15 Caíram as nações na cova que abriram; os seus pés ficaram presos no laço que esconderam.

16 O Senhor é conhecido pela justiça que executa; os ímpios caem em suas próprias armadilhas. Interlúdio. Pausa

17 Voltem os ímpios ao pó, todas as nações que se esquecem de Deus!

18 Mas os pobres nunca serão esquecidos, nem se frustrará a esperança dos necessitados.

19 Levanta-te, Senhor! Não permitas que o mortal triunfe! Julgadas sejam as nações na tua presença.


20 Infunde-lhes terror, Senhor; saibam as nações que não passam de seres humanos. Pausa

Evangelho, comentário, L. espiritual


Tempo comum XXXII Semana


Evangelho: Jo 2, 13-22

13 Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. 14 Encontrou no templo vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas sentados às suas mesas. 15 Tendo feito um chicote de cordas, expulsou-os a todos do templo, e com eles as ovelhas e os bois, deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou as suas mesas. 16 Aos que vendiam pombas disse: «Tirai isto daqui, não façais da casa de Meu Pai casa de comércio». 17 Então lembraram-se os Seus discípulos do que está escrito: “O zelo da Tua casa Me consome”. 18 Tomaram então a palavra os judeus e disseram-Lhe: Que sinal nos mostras para assim procederes?». 19 Jesus respondeu-lhes: «Destruí este templo e o reedificarei em três dias». 20 Replicaram os judeus: «Este templo foi edificado em quarenta e seis anos, e Tu o reedificarás em três dias?». 21 Ora Ele falava do templo do Seu corpo. 22 Quando, pois, ressuscitou dos mortos os Seus discípulos lembraram-se do que Ele dissera e acreditaram na Escritura e nas palavras que Jesus tinha dito.

Comentário:

Nada do que Jesus Cristo, até então, tinha feito e multidões presenciado, parece não serem “sinais” suficientemente evidentes para os que Lhe fazem a pergunta.
De facto, há muita gente – talvez até, às vezes, nós próprios – que deseja um sinal tão evidente como uma ‘escritura’ para aceitar ou acreditar na Vontade de Deus.
É que estamos muito habituados a que a nossa própria vontade e desejos coincida com a do Senhor, como se não devesse ser exactamente o contrário.

E se fosse Ele a perguntar-nos… a cada um:

‘Que sinal me dás que acreditas em Mim?’

Qual seria a nossa resposta?

(ama, comentário sobre Jo 2, 13-22, 2013.11.09)



Leitura espiritual



A PACIÊNCIA
INTRODUÇÃO

O HOMEM NA CALÇADA

O homem estava ali, perto de nós – de mim e de um meu amigo –, na mesma calçada, a uns vinte metros de distância. Era um sessentão de estatura mediana e puxava para gordo. Chamava a atenção porque gesticulava com invulgar veemência. Dava para perceber, mesmo de longe, que se lhe contraíam as feições. De súbito, elevou fortemente a voz, e então chegou até nós uma frase perfeitamente audível:

– Tenha santa paciência!

Nada havíamos captado, nem eu nem o meu amigo, da agitada conversação anterior. Mas uma certeza nos ficava: aquele homem acabava de perder a paciência, que devotamente invocava como “santa”.

Era evidente que o homem gordo não tinha gostado de alguma coisa de que lhe falara o seu interlocutor. E o pedido de que tivesse santa paciência – explodido num desabafo – fora sem dúvida provocado por uma contrariedade: o outro afirmara, narrara ou defendera algo que o tinha aborrecido, que o tinha contrariado. Sempre são as contrariedades que nos fazem perder a paciência. Como é lógico, nunca nos impacientamos quando tudo nos sorri e se amolda aos nossos desejos.

Se prestarmos atenção, poderemos observar que, na nossa linguagem comum, a perda da paciência anda sempre associada a alguma coisa difícil de aceitar, de aturar, de “engolir”, de sofrer:
“Haja paciência para aguentar isso”, “Aquilo já está saturando as paciências”, “É demais...”, dizemos.

E é claro que, com isso, estamos falando de algo desagradável, que nos aborreceu; quase sempre, de uma pessoa ou de uma situação que nos vem contrariando ou incomodando desde há um certo tempo. Perante a adversidade instantânea (como a agressão verbal de um motorista – “domingueiro!” – que passa por nós em alta velocidade), não caímos propriamente na impaciência, mas – como veremos logo – na ira.

TRÊS CONTRARIEDADES E DUAS REAÇÕES

Se pensarmos um pouco, analisando o que se passa connosco, perceberemos que costumamos padecer de três tipos de contrariedades e que, em face delas, temos dois tipos de reações.

Existem as contrariedades provocadas pelos outros: eles têm aqueles modos desagradáveis de falar, de olhar ou não olhar, de retrucar ou não responder, de esquecer ou estar lembrando-nos certas coisas a toda a hora, de dirigir carro – dirigir? –, de se atrasar, de impor...

Existem depois as contrariedades procedentes de nós mesmos:
‘Não me aguento, voltei a deixar a chave de casa no escritório!’;
‘Por que sempre gaguejo ao falar na sala de aula?’;
‘Não consigo contar uma piada que faça rir a ninguém!’

E, por último, as que decorrem das circunstâncias:

‘Há já sete meses que estou sem emprego!’;
‘Desde que apanhei aquela bronquite, nunca mais deixei de tossir!’; ‘Justamente quando fui tirar férias, veio aquela frente fria estacionária e não parou mais de chover!’

De facto, quase todas as contrariedades se enquadram em algum desses três capítulos.

Ora, ao lado dessas três espécies de contrariedades, existem, como mencionávamos acima, dois modos diferentes, ainda que muito “aparentados”, de reagir. Vale a pena focalizá-los.

O primeiro modo é a impaciência. É preciso dizer desde já que a impaciência, em si mesma, na sua essência mais íntima, consiste em não saber sofrer. Precisamente a palavra paciência deriva do verbo latino pati, que significa padecer. Por isso, a virtude da paciência é a capacidade de padecer dignamente, a arte de sofrer bem, e mais concretamente a paciência cristã é a virtude que nos dá, com a graça divina, a capacidade de sofrer, de suportar as contrariedades e a dor – especialmente quando se prolongam – com fé, esperança e amor.

Uma vez esclarecido isto, pode também ficar claro que a irritação, a brusquidão, a raiva ou a cólera não fazem parte, propriamente falando, da impaciência – ainda que muitas vezes a acompanhem –, mas da ira. É bem verdade que a ira – a que nos referiremos daqui a instantes – e a impaciência convivem muitas vezes no nosso dia-a-dia como duas irmãs siamesas. Mas é útil não perder de vista, na leitura destas páginas dedicadas à paciência, que a impaciência se dá – mesmo que não se faça acompanhar de nenhuma emoção ou explosão – simplesmente quando não sabemos aceitar ou aceitamos de má vontade aquilo que nos contraria ou nos faz sofrer.

A impaciência é rica em apresentações. Pode manifestar-se quer no nosso interior, quer externamente, de maneiras muito variadas. Com muita frequência, aflora em forma de queixas internas (quando a pessoa se lamenta no íntimo, sentindo-se vítima), ou de reclamações ásperas ou lamurientas com os outros, ou de cobranças insistentes, ou de suspiros lastimosos, ou de trejeitos e desabafos reveladores de cansaços morais (‘Já não suporto mais! Cheguei ao limite! Isto é superior às minhas forças!’).
Também são frutos da impaciência os comentários de desânimo e os olhares de tristeza... É interessante saber que um dos principais efeitos da paciência, mencionado por São Tomás de Aquino, é expulsar a tristeza do coração. [1]

A IRA É DIFERENTE
Ao lado da impaciência, um segundo modo de reagir perante as contrariedades é a ira, a irritação já acima mencionada como assídua parceira da impaciência. Quando alguém se deixa levar pela ira, é porque perdeu – repentinamente ou por acumulação de contrariedades – o controlo emocional. A pessoa irada não tem mais autodomínio e extravasa a sua revolta por meio do grito (os terríveis gritos das mães desgovernadas!), do safanão, da injúria, do palavrão (abra-se o ouvido no meio do trânsito de uma grande cidade), do comentário ofensivo e grosseiro, da ‘piada’ (fecha a cara, levanta-se da mesa e vai-se embora sem acabar de jantar) ou da violência: desde dar um pontapé num objecto ou fechar uma porta com estrondo, até sacar o revólver e disparar.

Assim é a ira.
Parente próxima, irmã siamesa até – dizíamos – da impaciência, mas diferente dela.
Não é inútil, pois, repisar que a impaciência é, essencialmente, a incapacidade de sofrer, de sofrer “com classe”, dignamente, como um filho de Deus.

Importa insistir nisto porque é muito comum, hoje em dia, considerar como modelos de paciência comportamentos mansos (sem ira nenhuma) que, na realidade, são exemplos da mais perversa impaciência.
Refiro-me, por exemplo, ao caso, tristemente trivial, de casais que se separam, após poucos ou muitos anos de matrimónio e, fazendo alarde de uma pretensa “maturidade”, se gabam de que “não brigaram”, não quiseram nem ouvir falar em separação litigiosa, e entraram em acordo “como gente civilizada” (acomodando suave e serenamente os seus dois egoísmos).

Por trás de tanta calma, o que é que houve?
Vejamos de perto, e logo perceberemos que existiu uma elementar incapacidade de sofrer, de aceitar e superar com generosidade as contrariedades e divergências normais de uma vida a dois.
Ou seja, houve a mais pura impaciência, uma impaciência radicalmente egoísta que, por apresentar-se cinicamente calma e sorridente, é especialmente abjecta.
Costumam ter maior grandeza de coração e de carácter – e mais conserto – os que cometem o erro de separar-se arrastados por uma erupção vulcânica de raiva, de ira, de amor-próprio ferido. A ira, às vezes, é apenas um sinal de fraqueza.
Mas a infidelidade fria e calculista é sempre o retrato do egoísmo.

Mas deixemos a ira para outra ocasião, e tentemos enfronhar-nos na impaciência, que é o tema que agora nos ocupa.
E, antes de mais, como começo de conversa, será preciso reconhecer que todos nós, de um modo ou de outro, padecemos deste mal.

Ninguém escapa.
Por isso, será interessante procurarmos descobrir por que e como é que nos impacientamos, a fim de enxergarmos melhor os caminhos que nos podem conduzir à paciência, essa virtude tão amada, tão desejada e tão pouco praticada.

(cont.)

FRANCISCO FAUS, [i] A PACIÊNCIA, 2ª edição, QUADRANTE, São Paulo 1998
(Revisão da versão portuguesa por ama)



[1] Suma Teológica, II-II, q. 136, a. 2, 1.



[i] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canônico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na coleção Temas Cristãos, entre outros, os títulos O valor das dificuldades, O homem bom, Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens, Maria, a mãe de Jesus, A voz da consciência e A paz na família.