23/02/2015

Evangelho, coment. L espirit. (Santíssima Virgem)

Quaresma I Semana

Evangelho: Mt 25 31-46

31 «Quando, pois, vier o Filho do Homem na Sua majestade, e todos os anjos com Ele, então Se sentará sobre o trono de Sua majestade. 32 Todas as nações serão congregadas diante d'Ele, e separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos, 33 e porá as ovelhas à sua direita, e os cabritos à esquerda. 34 «Dirá então o Rei aos que estiverem à Sua direita: “Vinde, benditos de Meu Pai, possuí o reino que vos está preparado desde a criação do mundo, 35 porque tive fome, e Me destes de comer; tive sede, e Me destes de beber; era peregrino, e Me recolhestes; 36 nu, e Me vestistes; enfermo, e Me visitastes; estava na prisão, e fostes ver-Me”. 37 Então, os justos Lhe responderão: “Senhor, quando é que nós Te vimos faminto, e Te demos de comer; com sede, e Te demos de beber? 38 Quando Te vimos peregrino, e Te recolhemos; nu, e Te vestimos? 39 Ou quando Te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-Te?”. 40 O Rei, respondendo, lhes dirá: “Em verdade vos digo que todas as vezes que vós fizestes isto a um destes Meus irmãos mais pequenos, a Mim o fizestes”. 41 Em seguida, dirá aos que estiverem à esquerda: “Apartai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o demónio e para os seus anjos; 42 porque tive fome, e não Me destes de comer; tive sede, e não Me destes de beber; 43 era peregrino, e não Me recolhestes; estava nu, e não Me vestistes; enfermo e na prisão, e não Me visitastes”. 44 Então, eles também responderão: “Senhor, quando é que nós Te vimos faminto ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não Te assistimos?”. 45 E lhes responderá: “Em verdade vos digo: Todas as vezes que o não fizestes a um destes mais pequenos, foi a Mim que não o fizestes”. 46 E esses irão para o suplício eterno; e os justos para a vida eterna».

Comentário

Nestes tempos que correm em que uma “loucura do ter posses custe o que custar mesmo que seja preciso atropelar pessoas e fazer das leis letra morta” julgo que se aplica este aviso solene de Jesus Cristo.

A justiça não se mede nos tribunais mas sim no coração e no comportamento de cada um.

Quem é injusto para com a sociedade em geral e alguns em particular não pode esperar outra coisa que um tratamento semelhante.

As “contas” a prestar serão rigorosas e justíssimas porque o Senhor é, antes de mais, supremamente justo.

(ama, comentário sobre Mt 25, 31-46, 2014.11.23)


Leitura espiritual


Santíssima Virgem
Vida de Maria (XI)

Regresso a Nazaré

Neste mês contemplam-se os primeiros anos da Sagrada Família em Nazaré, no regresso do Egipto, quando Jesus ia crescendo e fortificando-Se como homem, graças aos cuidados de Maria e de José.

Não se sabe com certeza o tempo que durou a estada da Sagrada Família no Egipto. A maior parte dos estudiosos pensa que se prolongou por um ou dois anos. São Mateus, o evangelista que nos relata estes acontecimentos, mostra-se lacónico, como noutras ocasiões. Morto Herodes — escreve — o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egipto e disse-lhe: "Levanta-te, toma o Menino e Sua mãe, e vai para a terra de Israel; porque morreram os que procuravam tirar a vida ao Menino"[i].

A resposta do Patriarca foi imediata, como noutras ocasiões: Ele levantou-se, tomou o Menino e Sua mãe, e voltou para a terra de Israel[ii]. Nem uma dúvida, nem uma vacilação. Apenas o tempo necessário para recolher as ferramentas do seu ofício, os poucos bens de que dispunha. Ter-se-ia despedido das pessoas em cuja companhia tinha vivido aqueles meses e teria feito as diligências adequadas para empreender o regresso.

"ELE LEVANTOU-SE, TOMOU O MENINO E SUA MÃE E VOLTOU PARA A TERRA DE ISRAEL"[iii].

NEM UMA DÚVIDA, NEM UMA VACILAÇÃO. APENAS O TEMPO NECESSÁRIO PARA RECOLHER AS FERRAMENTAS DO SEU OFÍCIO, OS POUCOS BENS DE QUE DISPUNHA.

As tradições coptas indicam que a Sagrada Família fez a viagem de regresso por via marítima, e não por terra. É uma hipótese provável. Uma vez terminado o perigo, este caminho era mais económico e oferecia menos privações do que os trilhos das caravanas terrestres. Provavelmente partiram nalguma das numerosas embarcações que sulcavam o Nilo a partir de Menfis (actualmente Cairo) até Alexandria, onde apanhariam um pequeno barco que, em quatro ou cinco dias, navegando próximo da costa do Mediterrâneo, atracava em Ascalón, Joppe ou Yamnia.

Ao desembarcar, José recolheu informações sobre o novo rei da Judeia. Era Arquelau, filho de Herodes, e quase tão cruel como o pai, pois acabava de decapitar vários milhares de súbditos no próprio Templo. Num primeiro momento, o esposo de Maria tinha pensado estabelecer-se em Belém, lugar do nascimento do Messias; mas como o anjo não tinha indicado nada de concreto — tinha-lhe dito somente que regressasse à terra de Israel — encarou a possibilidade de ir para um lugar que não estivesse sujeito à jurisdição do rei. O Senhor confirmou-o nos seus propósitos por intermédio de um anjo: ouvindo dizer que Arquelau reinava na Judeia (...), teve medo de ir para lá; e, avisado por Deus em sonhos, retirou-se para a região da Galileia[iv]. Se a profecia de Miqueias tinha anunciado o nascimento de Jesus em Belém, outros oráculos — como São Mateus indica— designavam Nazaré como o lugar onde o Messias havia de crescer e chegar à idade adulta. E foi habitar numa cidade chamada Nazaré, cumprindo-se deste modo o que tinha sido anunciado pelos profetas: "Será chamado nazareno"[v].

A viagem de regresso foi tranquila e repousada, em etapas curtas. Podemos imaginar a emoção da Virgem e do seu Esposo quando, ao atravessar a planície de Esdrelón, já na Galileia, foram descobrindo os locais que lhes eram familiares, nos quais tinham decorrido os anos da sua meninice e adolescência. Em Nazaré reencontraram-se com parentes e amigos, que ficariam assombrados ao vê-los regressar depois de tantos meses sem terem notícias deles. Não faltariam as perguntas embaraçosas, motivadas pelo carinho e uma sã curiosidade, a que responderiam com descrição, para não revelar a verdade sobre Jesus que só eles guardavam no coração.

ERA UMA FAMÍLIA EM QUE O AMOR A DEUS E AOS OUTROS SE IDENTIFICAVA COM OS CUIDADOS QUE DISPENSAVAM A JESUS, VERBO ETERNO DO PAI.

Instalaram-se numa pequena casa, uma construção pobre contígua a uma das grutas tão frequentes em Nazaré. Talvez a encontrassem em mau estado, depois de tanto tempo sem estar habitada, mas não se lamentaram: imediatamente puseram mãos à obra. José reparou-a do melhor modo possível, Maria limpou-a com cuidado, talvez ajudada por Maria de Cléofas, sua prima, mãe de Santiago e de José, de Simão e de Judas e de outras pessoas da família.

A vida e o trabalho da Sagrada Família retomaram o seu ritmo quotidiano, sem nenhum acontecimento especial digno de referência. São Lucas, que a partir deste momento retoma a sua narração, refere secamente que o Menino crescia e fortificava-Se cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava com Ele[vi]. A Virgem Santíssima, como todas as mães, seguia com olhar amoroso o crescimento humano do seu Filho e Senhor, cheia de admiração diante da naturalidade do modo de agir de Deus. José trabalhava com empenho, agradecido de servir com o seu trabalho o mistério da Redenção. Era uma família em que o amor a Deus e aos outros se identificava com os cuidados que dispensavam a Jesus, Verbo eterno do Pai, que aprendia a falar com palavras humanas e a amar com coração de homem.

j.a. loarte

A VOZ DO MAGISTÉRIO

Depois da morte de Herodes, quando se dá o retorno da sagrada família a Nazaré, inicia-se o longo período da vida oculta. Aquela que "acreditou no cumprimento das coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor" [vii] vive no dia-a-dia o conteúdo dessas palavras. O Filho a quem deu o nome de Jesus está diariamente ao seu lado; assim, no contacto com Ele, usa certamente este nome, o que não devia, aliás, causar estranheza a ninguém, tratando-se de um nome que era usual, desde havia muito tempo, em Israel. Maria sabe, no entanto, que aquele a quem foi posto o nome de Jesus, foi chamado pelo Anjo "Filho do Altíssimo"[viii]. Maria sabe que o concebeu e deu à luz "sem ter conhecido homem", por obra do Espírito Santo, com o poder do Altíssimo que sobre ela estendeu a sua sombra[ix], tal como nos tempos de Moisés e dos antepassados a nuvem velava a presença de Deus[x]). Maria sabe, portanto, que o Filho, por ela dado à luz virginalmente, é precisamente aquele "Santo", "o Filho de Deus" de que lhe havia falado o Anjo.

Durante os anos da vida oculta de Jesus na casa de Nazaré, também a vida de Maria "está escondida com Cristo em Deus" [xi] mediante a fé. A fé é, efectivamente, um contacto com o mistério de Deus. Maria está constante e quotidianamente em contacto com o mistério inefável de Deus que se fez homem, mistério que supera tudo aquilo que foi revelado na Antiga Aliança. Desde o momento da Anunciação, a mente da Virgem-Mãe foi introduzida na "novidade" radical de auto-revelação de Deus e tomou consciência do mistério. Ela é a primeira daqueles "pequeninos" dos quais um dia Jesus dirá: "Pai, ... escondeste estas coisas aos sábios e aos sagazes e as revelaste aos pequeninos"[xii]. Na verdade, "ninguém conhece o Filho senão o Pai"[xiii].

Como poderá então Maria "conhecer o Filho"? Certamente, não como o Pai o conhece; e no entanto, ela é a primeira entre aqueles aos quais o Pai "o quis revelar"[xiv]. Se, porém, desde o momento da Anunciação lhe foi revelado o Filho, que apenas o Pai conhece completamente, como Aquele que o gera no "hoje" eterno[xv], então Maria, a Mãe, está em contacto com a verdade do seu Filho somente na fé e mediante a fé! Portanto, é feliz porque "acreditou"; e acredita cada dia, no meio de todas as provações e contrariedades do período da infância de Jesus e, depois, durante os anos da sua vida oculta em Nazaré, quando ele "lhes era submisso"[xvi]: submisso a Maria e também a José, porque José, diante dos homens, fazia para ele as vezes de pai; e era por isso que o Filho de Maria era tido pela gente do lugar como "o filho do carpinteiro"[xvii].

A Mãe daquele Filho, por conseguinte, lembrando tudo quanto lhe tinha sido dito na Anunciação e nos acontecimentos sucessivos, é portadora em si mesma da "novidade" radical da fé: o início da Nova Aliança. Este é o início do Evangelho, isto é, da boa nova e jubilosa nova. Não é difícil, porém, perceber naquele início um particular aperto do coração, unido a uma espécie de "noite da fé" - para usar as palavras de São João da Cruz - como que um "véu" através do qual é forçoso aproximar-se do Invisível e viver na intimidade com o mistério[xviii]. Foi deste modo, efectivamente, que Maria, durante muitos anos, permaneceu na intimidade com o mistério do seu Filho, e avançou no seu itinerário de fé, à medida que Jesus "crescia em sabedoria... e graça, diante de Deus e dos homens"[xix]. Manifestava-se cada vez mais aos olhos dos homens a predilecção que Deus tinha por ele. A primeira entre estas criaturas humanas admitidas à descoberta de Cristo foi Maria que, com Ele e com José, vivia na mesma casa em Nazaré.

são joão paulo ii (século XX). Carta encíclica Redemptoris Mater, 25-III-1987, n. 17.

***

«Nazaré é a escola onde começa a entender-se a vida de Jesus, é a escola onde se inicia o conhecimento do Seu Evangelho. Aqui aprendemos a observar, a escutar, a meditar, a penetrar no sentido profundo e misterioso desta simples, humilde e encantadora manifestação do Filho de Deus entre os homens. Aqui se aprende inclusivamente, talvez de uma maneira quase insensível, a imitar essa vida.

Aqui revela-se-nos o método que nos fará descobrir quem é Cristo. Aqui compreendemos a importância que tem o ambiente que rodeou a Sua vida durante a Sua estadia entre nós, e quão necessário é o conhecimento dos lugares, dos tempos, dos costumes, da linguagem, das práticas religiosas, numa palavra, de tudo aquilo de que Jesus se serviu para Se revelar ao mundo. Aqui tudo fala, tudo tem um sentido.

Aqui, nesta escola, compreendemos a necessidade de uma disciplina espiritual se queremos seguir os ensinamentos do Evangelho e ser discípulos de Cristo. Como gostaríamos de ser outra vez crianças e voltar a esta humilde mas sublime escola de Nazaré! Como gostaríamos de voltar a começar, junto de Maria, a nossa iniciação na verdadeira ciência da vida e na mais elevada sabedoria da verdade divina! (...).

A Sua primeira lição é o silêncio. Como desejaríamos que se renovasse e fortalecesse em nós o amor ao silêncio, esse admirável e indispensável hábito do espírito, tão necessário para nós, que estamos atordoados por tanto ruído, tanto tumulto, tantas vozes da nossa ruidosa e extremamente agitada vida moderna. Silêncio de Nazaré, ensina-nos o recolhimento e a interioridade, ensina-nos a estar sempre dispostos a escutar as boas inspirações e a doutrina dos verdadeiros mestres. Ensina-nos a necessidade e o valor de uma conveniente formação, do estudo, da meditação, de uma vida interior intensa, da oração pessoal que só Deus vê.

Oferece-se-nos, além disso, uma lição de vida familiar. Que Nazaré nos ensine o significado da família, a sua comunhão de amor, a sua simples e austera beleza, o seu carácter sagrado e inviolável, o doce e insubstituível que é a sua pedagogia e o fundamental e incomparável que é a sua função no plano social.

Finalmente, aqui aprendemos também a lição do trabalho. Nazaré, a casa do filho do artesão: como desejamos compreender mais neste lugar a austera mas redentora lei do trabalho humano e exaltá-la devidamente, restabelecer a consciência da sua dignidade, de maneira que fosse patente para todos; recordar aqui, sob este tecto, que o trabalho não pode ser um fim em si mesmo e que a sua dignidade e a liberdade para o exercer não provêm tão só dos seus motivos económicos, mas também daqueles outros valores que o encaminham para um fim mais nobre».

beato paulo vi (século XX). Alocução em Nazaré, 5-I-1964

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A VOZ DOS PADRES DA IGREJA

«Convém meditar nas palavras que se seguem. Diz: "Crescia em sabedoria e graça"[xx]. Crescer em sabedoria e graça não pertence à natureza divina: desde o princípio tinha tudo e nada lhe faltava. Mas também não há que pensar que, segundo a natureza humana, [Jesus] se fortaleceu mais ou foi mais cheio daquele Espírito Santo que habitava n’Ele, pois desde o primeiro momento teve o supremo grau de inabitação da graça. Com efeito, mediante a união das duas naturezas, imediatamente "n’Ele habita, corporalmente, toda a plenitude da divindade"[xxi], como afirma o santo Apóstolo Paulo.

Assim, as palavras: "Crescia em sabedoria e graça"[xxii], ensinam que desde o primeiro momento da inabitação da humanidade na divindade, a plenitude de graça e de sabedoria se manifestava e resplandecia cada vez mais, de acordo com o desenvolvimento e o crescimento corporal; não recebia uma nova graça ou uma sabedoria superabundante, mas a plenitude de graça e de sabedoria manifestava-se por meio das Suas gloriosas acções (...). No entanto, não convinha que a Sua sabedoria se manifestasse fora da idade. E como, segundo a ordem da natureza, se requer esperar pelos doze anos para atingir a plenitude da razão, assim considerou Ele coisa boa atingi-la ao chegar aos doze anos».

são máximo o confessor (século VII). Vida de Maria, n. 60.

***

«O Menino Jesus, que hoje nasceu para nós, cresce em sabedoria, idade e graça naqueles que O acolhem, mas em diversa medida. Não é idêntico em todos, mas adapta-Se à disponibilidade e à capacidade de cada um e, na medida em que é acolhido, mostra-Se como criança, como adolescente ou como adulto. É como um ramo na videira: não aparece sempre do mesmo modo, mas muda com o decorrer das estações; germina, floresce, converte-se em fruto, chega a fazer-se vinho.

A videira encerra já a promessa no fruto ainda não pronto para o vinho, mas aguarda a estação propícia. No entanto, não se pode dizer que o ramo esteja desprovido de atractivo. Em lugar de deleitar o gosto, deleita o olfacto; e na espera da vindima, fortalece o coração com a esperança. A fé firme e segura da graça que se espera é já gozo para quem aguarda com paciência. Assim sucede com a uva de Chipre: promete o vinho embora ainda não o seja. E com a sua flor (a flor é a esperança) dá garantias da graça futura. Quem adere plenamente mediante a sua vontade à lei do Senhor, e medita nela de dia e de noite, cresce como uma árvore frondosa regada por veias de água viva e produz fruto a seu tempo».

são gregório de nisa (século IV). Homilia II sobre o Cântico dos Cânticos (PG 44, 802-804).

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A VOZ DOS SANTOS


«S. Mateus, ao narrar estas cenas no seu Evangelho, põe constantemente em destaque a fidelidade de José, que cumpre sem vacilações os mandatos de Deus, embora por vezes o sentido desses mandatos lhe possa parecer obscuro ou se lhe oculte a sua conexão com o resto dos planos divinos.

A fé de José não vacila, a sua obediência é sempre estrita e rápida. Para compreender melhor esta lição que aqui nos dá o Santo Patriarca, é bom que consideremos que a sua fé é activa e que a sua obediência não se parece com a obediência de quem se deixa arrastar pelos acontecimentos. Porque a fé cristã é o que há de mais oposto ao conformismo ou à falta de actividade e de energia interiores.

José abandonou-se sem reservas nas mãos de Deus, mas nunca deixou de reflectir sobre os acontecimentos, e assim recebeu do Senhor a inteligência das obras de Deus, que é a verdadeira sabedoria.

Deste modo, aprendeu pouco a pouco que os planos sobrenaturais têm uma coerência divina, que às vezes está em contradição com os planos humanos.

Nas diversas circunstâncias da sua vida, o Patriarca não renuncia a pensar, nem se alheia da sua responsabilidade. Pelo contrário: põe toda a sua experiência humana ao serviço da fé. Quando volta do Egipto, ouvindo que Arquelau reinava na Judeia em vez de seu pai Herodes, temeu ir para lá. Aprendeu a mover-se dentro dos planos divinos e, como confirmação de que Deus quer o que ele pressentia, recebe a indicação de se retirar para a Galileia.

Assim foi a fé de S. José: plena, confiante, íntegra, manifestando-se numa entrega real à vontade de Deus, numa obediência inteligente. E, com a Fé, a Caridade, o Amor. A sua fé funde-se com o amor: com o amor de Deus que estava a cumprir as promessas feitas a Abraão, a Jacob, a Moisés; com o carinho de esposo para com Maria e com o carinho de pai para com Jesus. Fé e amor na esperança da grande missão que Deus, servindo-se também dele – um carpinteiro da Galileia – estava a começar no mundo: a redenção dos homens.»

são josemaria (século XX). Cristo que passa, n. 42.

* * *

A VOZ DOS POETAS

O infinito Menino vai crescendo,
e com garbo e graça sobre-humana
dá passinhos pela mão asiendo
à que pisa a imortal Diana;
dela para o justo José parte correndo,
e dos braços com que o universo aplana
asas fazendo, voa para o doce ninho
do terno coração do seu querido...

Pendendo alegre do amado colo,
e achando-Se seguro entre seus braços,
o rosto grave junta ao Seu belo,
premiando seus dulcíssimos abraços:

Talvez deixe os braços de Sua mãe,
e cheio de amoroso regozijo
por ver que tal favor a José agrade,
balbuciando com ele, pai! lhe disse.

Ele com afecto e com amor de pai
filho! lhe chama, sendo de Deus Filho;
encosta o seu rosto ao de escarlate e neve,
e das suas rosas o alento bebe.

Já o Menino Deus os alvos peitos deixa
ricos do seu alimento soberano,
e nos pés de ouro já com maior força,
e anda sem que ninguém Lhe dê a mão;
chora se vê que seu José se afasta,
e vendo-o voltar se alegra ufano;
e diz cheio de alegria:

"Pai, dê-nos o pão de cada dia"...

josé de valdivielso (siglos XVI-XVII). Vida, excelencias y muerte del glorioso Patriarca y Esposo de Nuestra Señora San José, canto XIX.









[i] Mt 2, 19-20
[ii] Mt 2, 21
[iii] MT 2, 21
[iv] Mt 2, 22
[v] Mt 2, 23
[vi] Lc 2, 40
[vii] Lc 1, 45
[viii] cf. Lc 1, 32
[ix] cf. Lc 1, 35
[x] cf. Ex 24, 16; 40, 34-35; 1 Rs 8, 10-12
[xi] cf. Col 3, 3
[xii] Mt 11, 25
[xiii] Mt 11, 27
[xiv] cf. Mt 11, 26-27; 1 Cor 2, 11
[xv] cf. Sl 2, 7
[xvi] Lc 2, 51
[xvii] Mt 13, 55
[xviii] cfr. Subida do Monte Carmelo, II, cap. 3, 4-6
[xix] Lc 2, 52
[xx] Lc 2, 40
[xxi] Col 2, 9
[xxii] Lc 2, 40

Tratado do verbo encarnado 130

Questão 21: Da oração de Cristo

Em seguida devemos tratar da oração de Cristo.

E nesta questão discutem-se quatro artigos:

Art. 1 — Se convinha a Cristo orar.
Art. 2 — Se a Cristo, considerado na sua sensibilidade, convinha orar.
Art. 3 — Se convinha a Cristo orar por si.
Art. 4 — Se a oração de Cristo sempre foi ouvida.

Art. 1 — Se convinha a Cristo orar.

O primeiro discute-se assim. — Parece que a Cristo não convinha o orar.

1. — Pois, como diz Damasceno, orar é pedir o que convém, a Deus. Ora, podendo Cristo fazer tudo, não lhe convém pedir nada a ninguém. Logo, parece que não convinha a Cristo o orar.

2. Demais. — Não devemos pedir, nas nossas orações, o que sabemos haver certamente de se dar, assim, não oramos para o sol nascer amanhã. Também não é conveniente pedir nas nossas orações o que sabemos que de nenhum modo se dará. Ora, Cristo sabia, em tudo, o que haveria de suceder. Logo, não lhe cabia pedir nada, pela oração.

3. Demais. — Damasceno diz que a oração é ascensão do nosso intelecto para Deus. Ora, o intelecto de Cristo não precisava ascender para Deus, com quem estava sempre unido, não só pela união hipostática mas também pela fruição da bem-aventurança. Logo, a Cristo não convinha orar.

Mas, em contrario, o Evangelho: Aconteceu naqueles dias que saiu ao monte a orar e passou toda a noite em oração a Deus.

Como dissemos na Segunda Parte, a oração é um como expandir-se da nossa vontade para com Deus, para que a satisfaça. Se, pois, Cristo tivesse uma só vontade – a divina, de nenhum modo lhe cabia orar, pois, a vontade divina faz por si mesma tudo quanto quer, segundo a Escritura: Quantas coisas quis todas fez o Senhor. Mas, tendo Cristo uma vontade divina e outra, humana, e não sendo a sua vontade humana capaz, por si mesma, de fazer o que quer, senão por virtude divina, daí vem que era natural a Cristo orar, enquanto homem e dotado de uma vontade humana.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Cristo, como Deus, podia fazer tudo o que queria, mas não como homem, pois, como tal, não tinha a omnipotência, como dissemos. Contudo ele quis, mesmo como homem e Deus, fazer oração ao Pai, não porque não fosse omnipotente, mas para nossa instrução. — Primeiro, para mostrar que vinha do Pai, sendo por isso que disse: Falei assim, isto e, orei por atender a este povo que está à roda de mim, para que eles creiam que tu me enviaste. Donde o dizer Hilário: Não precisava de orar, orou por nós, para que o Filho não fosse ignorado. — Segundo, para nos dar o exemplo da oração. E por isso diz Ambrósio: Não escuteis com ouvidos enganosos, pensando que o Filho de Deus orava, por fraqueza, pedindo se realizar o que não podia ele realizar. Mas, como fonte de todo poder, como mestre da obediência, ensina-nos, com o seu exemplo, os preceitos da virtude. Daí o dizer Agostinho: O Senhor podia, sob a forma de servo, e se o fosse necessário, orar em silêncio, mas quis apresentar-se ao Pai como pecador, para lembrar que era o nosso Mestre.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Entre as várias coisas futuras que Cristo sabia, sabia que algumas se realizariam mediante as suas orações. E essas não era inconveniente que as pedisse a Deus.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A ascensão não é mais que o movimento para o que está em cima. Ora, o movimento, conforme Aristóteles, é susceptível de duplo sentido. - Num sentido próprio implica a passagem a potência para o acto, enquanto é o acto do que é imperfeito. E assim, ascender é próprio do que é potencial, e não actual, em relação ao que está em cima. E neste sentido Damasceno diz: O intelecto humano de Cristo não precisava de ascender para Deus, pois, estava sempre unido com Deus, tanto pela sua existência pessoal, como pela contemplação beatífica. — Noutro sentido, o movimento é o acto do perfeito, isto é, do que existe em acto, e assim chamamos movimento ao inteligir e ao sentir. E neste sentido, o intelecto de Cristo sempre ascende para Deus, pois sempre o contemplava como o que tinha uma existência superior.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Temas para meditar - 374

Tristeza



A tristeza exerce um efeito paralisante sobre a nossa fé.




(tadeus dajczer, Meditações sobre a Fé, Paulus, 4ª Ed., pg. 89)

Pequena agenda do cristão

SeGUNDa-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:
Sorrir; ser amável; prestar serviço.

Senhor que eu faça ‘boa cara’, que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.

Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.

Lembrar-me:
Papa, Bispos, Sacerdotes.

Que o Senhor assista e vivifique o Papa, santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.

Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Igreja na fortaleza do Senhor.

Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?

22/02/2015

Cristo também vive agora

Vive junto de Cristo! Deves ser, no Evangelho, uma personagem mais, convivendo com Pedro, com João, com André..., porque Cristo também vive agora: "Iesus Christus, heri et hodie, ipse et in saecula!" Jesus Cristo vive!, hoje como ontem; é o mesmo, pelos séculos dos séculos. (Forja, 8)


É esse amor de Cristo que cada um de nós deve se esforçar por realizar na sua vida. Mas para ser ipse Christus é preciso mirar-se Nele. Não basta ter-se uma ideia geral do espírito que Jesus viveu; é preciso aprender com Ele pormenores e atitudes. É preciso contemplar a sua vida, sobretudo para daí tirar força, luz, serenidade, paz.

Quando se ama alguém, deseja-se conhecer toda a sua vida, o seu carácter, para nos identificarmos com essa pessoa. Por isso temos de meditar na vida de Jesus, desde o Seu nascimento num presépio até à Sua morte e à Sua Ressurreição. Nos primeiros anos do meu labor sacerdotal costumava oferecer exemplares do Evangelho ou livros onde se narra a vida de Jesus, porque é necessário que a conheçamos bem, que a tenhamos inteira na mente e no coração, de modo que, em qualquer momento, sem necessidade de nenhum livro, cerrando os olhos, possamos contemplá-la como um filme; de forma que, nas mais diversas situações da nossa vida, acudam à memória as palavras e os actos do Senhor.


Sentir-nos-emos assim metidos na sua vida. Na verdade, não se trata apenas de pensar em Jesus e de imaginar aqueles episódios; temos de meter-nos em cheio neles, como actores. (Cristo que passa, 107)

Evangelho, coment. L espirit. (Santíssima Virgem)

Quaresma

Cadeira de São Pedro

Evangelho: Mc 1 12-15

12 Imediatamente o Espírito impeliu Jesus para o deserto. 13 E permaneceu no deserto quarenta dias, sendo tentado por Satanás. Vivia entre os animais selvagens, e os anjos O serviam. 14 Depois que João foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o Evangelho de Deus 15 e dizendo: «Completou-se o tempo e aproxima-se o reino de Deus; arrependei-vos e acreditai no Evangelho».

Comentário

Começa o Novo Tempo o Tempo do Reino.
Chegou ao fim a “vida oculta” do Salvador, a partir de agora poderá ser encontrado pelos caminhos da Palestina, nas Sinagogas e no Templo, na casa de amigos e outros que O convidam.
Fala com todos, responde às perguntas mesmo aquelas que são dúbias e mal intencionadas. Rapidamente se reúnem à Sua volta e começam a segui-lo numerosos discípulos dos quais escolherá doze para serem os Seus mais próximos, as Suas palavras falam de um mundo novo de justiça e paz, de amor entre os homens.

Para imitar Jesus, nosso Mestre e Guia, é o que temos de fazer. Deixar de lado tudo - e talvez seja muito - que não nos interessa nem convém para recomeçar uma nova vida, um tempo novo.

(ama, comentário sobre Mc 1, 12-15, 2012.02.260)

Leitura espiritual



Santíssima Virgem
Vida de Maria (X)

A voz do Magistério

«Depois de terem adorado o Senhor e terem satisfeito a sua devoção, os Magos, de acordo com o aviso recebido em sonhos, regressaram ao seu país por um caminho diferente daquele por onde tinham vindo. Acreditando já em Cristo, não tinham que ir, com efeito, pelo caminho da sua antiga vida, mas entrando na nova rota, abstêm-se dos erros que tinham abandonado. Era necessário invalidar as manobras de Herodes, que, sob o pretexto de zelo, preparava um engano ímpio sobre o Menino Jesus.

Por isso, ficando o seu plano desbaratado e a sua esperança iludida, a cólera do rei inflamou-se com ardor. Recordando a data que os Magos tinham indicado, derramou a raiva da sua crueldade sobre todas as crianças de Belém e numa matança geral fez perecer todos os recém-nascidos da cidade, fazendo-os passar para a glória eterna. Pensou que nenhuma criança tinha escapado da morte nesse lugar e, por isso, que Cristo tinha também morrido. Mas Ele, que reservava para outro tempo a efusão do Seu sangue para a redenção do mundo, tinha fugido para o Egipto, levado pelo cuidado dos Seus pais. Restaurava assim a antiga linhagem do povo hebreu e exercia o principado do verdadeiro José, usando de um poder e de uma providência muito maior que a sua, pois vinha libertar os corações dos egípcios de uma fome mais terrível do que toda a indigência, que eles sofriam pela ausência da verdade, já que Ele veio do Céu como verdadeiro pão de vida (cfr. Jo 6, 51). De modo que este país não seria já estranho à preparação do mistério da única vítima, onde, pela imolação do cordeiro, tinham sido prefigurados pela primeira vez o sinal salvador da cruz e a Páscoa do Senhor»[i].

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«Tal como o agir, também o sofrimento faz parte da existência humana. Este deriva, por um lado, da nossa finitude e, por outro, do volume de culpa que se acumulou ao longo da história e, mesmo actualmente, cresce de modo irreprimível.

Certamente é preciso fazer tudo o possível para diminuir o sofrimento: impedir, na medida do possível, o sofrimento dos inocentes; amenizar as dores; ajudar a superar os sofrimentos psíquicos. Todos estes são deveres tanto da justiça como da caridade, que se inserem nas exigências fundamentais da existência cristã e de cada vida verdadeiramente humana. Na luta contra a dor física conseguiu-se realizar grandes progressos; mas o sofrimento dos inocentes e inclusive os sofrimentos psíquicos aumentaram durante os últimos decénios.

Devemos – é verdade – fazer tudo por superar o sofrimento, mas eliminá-lo completamente do mundo não entra nas nossas possibilidades, simplesmente porque não podemos desfazer-nos da nossa finitude e porque nenhum de nós é capaz de eliminar o poder do mal, da culpa que – como constatámos – é fonte contínua de sofrimento. Isto só Deus o poderia fazer: só um Deus que pessoalmente entra na história fazendo-Se homem e sofre nela. Nós sabemos que este Deus existe e que por isso este poder que «tira os pecados do mundo»[ii] está presente no mundo. Com a fé na existência deste poder, surgiu na história a esperança da cura do mundo»[iii].

A voz dos Padres

«Aparecido, pois, o anjo, fala não com Maria, mas com José, e diz-lhe: Levanta-te e toma o Menino e Sua Mãe[iv]. Ao ouvir isto, José não se escandalizou nem disse: isto parece um enigma. Tu mesmo me dizias não há muito tempo que Ele salvaria o Seu povo, e agora não é capaz nem de Se salvar a Si mesmo, mas temos necessidade de fugir, de empreender uma viagem e uma longa deslocação. Isto é contrário à tua promessa. Mas não diz nada disto, porque José é um varão fiel. Também não pergunta pelo tempo do regresso, apesar de que o anjo o tenha deixado indeterminado, pois tinha-lhe dito: e fica lá até que eu te avise (Ibid.). No entanto, nem por isso entorpece, antes obedece, acredita e suporta alegremente todas as provas. É bem verdade que Deus, que ama os homens, mistura dificuldades e doçuras, estilo que Ele segue com todos os santos. Nem os perigos nem os consolos no-los dá contínuos, antes de uns e outros vai Ele entretecendo a vida dos justos. Assim fez com José»[v].


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«Herodes teme, os magos desejam; estes desejam encontrar o Rei, aquele temeu perder o reino. Por último, todos O procuram: aqueles, para viver por Ele; o outro, porque quer dar-Lhe a morte; Herodes, para cometer um grande pecado contra Ele; os magos, para que lhes perdoe todos os seus. Herodes dá morte a muitas crianças com a intenção de matar um determinado, e enquanto causa tão cruel e sangrenta matança nas pessoas de tantos inocentes, é ele o primeiro a causar a sua própria morte com tanta maldade. Entretanto, o nosso Rei, a Palavra que ainda não fala, enquanto os magos O adoravam as crianças morriam por Ele, ou jazia deitado ou tomava o peito, e antes de falar encontrava crentes e antes de padecer fazia também mártires.

Oh crianças ditosas, recém-nascidas, nunca tentados, nunca forçados a lutar e já coroados! Duvide que fostes coroados, ao padecer por Cristo, quem pense que de nada serve às crianças o Baptismo de Cristo. Ainda não tínheis a idade para crer em Cristo, que havia de sofrer também a Sua paixão, mas tínheis carne em que padecê-la por Ele, que a sofreria posteriormente. De nenhum modo a graça do Salvador abandonaria estas crianças, o Menino que tinha vindo buscar o que se tinha perdido, não só mediante o Seu nascimento, mas também suspenso da cruz. Quem pôde ter como pregoeiros do seu nascimento os anjos, como proclamadores os céus e como adoradores os magos, poderia conceder-lhes que não morressem aqui por Ele, se soubesse que com aquela morte iam perecer e não viver numa felicidade maior. Longe, longe de nós pensar que, vindo libertar os homens, Cristo não se preocupasse com a recompensa para aqueles que iam morrer por Ele que, pendente da cruz, orou inclusivamente pelos seus assassinos»[vi].


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«Que temes, Herodes, ao ouvir que nasceu um Rei? Ele não veio expulsar-te a ti, mas para vencer o Maligno. Mas tu não entendes estas coisas e por isso perturbaste e enfureces-te, e, para que não escape o que procuras, mostras-te cruel, dando a morte a tantas crianças. Nem a dor das mães que gemem, nem o lamento dos pais pela morte dos seus filhos, nem o choro e os gemidos das crianças te fazem desistir do teu propósito. Matas o corpo das crianças, porque o temor te matou em ti o coração (...).

As crianças sem o saber, morrem por Cristo; os pais fazem luto pelos mártires. Cristo fez Suas dignas testemunhas os que ainda não podiam falar. É esta a maneira com reina Aquele que veio para reinar. É assim que o Libertador concede liberdade e o Salvador dá a salvação... Oh! grande dom da graça! De quem são os merecimentos para que triunfem assim as crianças? Ainda não falam, e já confessam Cristo. Ainda não podem entabular batalha, valendo-se dos seus próprios membros, e já conseguem a palma da vitória»[vii].


A voz dos santos

«Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo. Ao ouvir isto, o Rei Herodes ficou perturbado, e com ele toda a cidade de Jerusalém[viii]. Esta cena continua a repetir-se nos nossos dias. Perante a grandeza de Deus, perante a decisão – seriamente humana e profundamente cristã – de viver de modo coerente com a fé, há quem fique desconcertado, e mesmo quem se escandalize, sem nada entender. Dir-se-ia que não admitem a existência de outra realidade para além dos seus acanhados horizontes terrenos. Em face das manifestações de generosidade que observam no comportamento dos que ouviram o chamamento do Senhor, sorriem com displicência, assustam-se, ou então - em casos que parecem verdadeiramente patológicos - obstinam-se em pôr obstáculos à santa determinação tomada por uma consciência com plena liberdade.

Já várias vezes tive oportunidade de assistir a essa espécie de mobilização geral contra quem se decide a dedicar toda a sua vida ao serviço de Deus e do próximo. Há pessoas que estão convencidas que o Senhor não pode escolher quem quer que seja sem lhes pedir primeiro autorização a eles; e de que o homem não tem inteira liberdade para aceitar ou recusar o Amor. Para quem pensa desse modo, a vida sobrenatural de cada alma é algo de secundário; julgam que se lhe deve prestar atenção, mas só depois de satisfeitos os pequenos comodismos e os egoísmos humanos (…).

Considerai o caso de Herodes. É um poderoso da terra e tem oportunidade de recorrer à colaboração dos sábios: convocando todos os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo, perguntou-lhes onde havia de nascer o Messias.O poder e a ciência não o levam ao conhecimento de Deus. Para o seu coração empedernido, o poder e a ciência são instrumentos da maldade: o desejo inútil de aniquilar Deus, o desprezo pela vida de um punhado de crianças inocentes»[ix].


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«Não nos entristeçamos pela Sua morte, alegremo-nos, antes, porque receberam o prémio merecido. Quando eles morreram entre os tormentos, Raquel, ou seja, a Mãe Igreja, acompanhou-os com luto e lágrimas. Mas a Jerusalém celestial, que é Mãe de todos nós, acolheu imediatamente com sinais de alegria os que tinham sido audazes na terra e introduziu-os na glória do Seu Senhor, para que recebessem d’Ele a coroa. Por este motivo, São João afirma que "estavam diante do trono e diante do Cordeiro, revestidos com vestes brancas, com palmas nas suas mãos"[x]. Agora, coroados, estão de pé diante do trono de Deus os mesmos que antes jaziam, esmagados pelos sofrimentos, diante dos tribunais terrenos. Estão na presença do Cordeiro e não poderão ser excluídos, por motivo algum, da contemplação da Sua glória, do mesmo modo que aqui em baixo nenhum suplício pôde apartá-los do amor (...). "Por isso estão diante do trono de Deus e O servem de dia e de noite no Seu Templo"[xi].

Estar na presença de Deus, louvá-Lo sem interrupção, não é um serviço custoso, é antes algo muito grato e desejável; a expressão "de dia e de noite" não significa propriamente sucessão no tempo, indica antes de modo simbólico a perpetuidade. Nos claustros de Cristo "já não existirá a noite"[xii], mas um dia único, mais feliz do que mil dias em qualquer outro lugar. Nesse dia, Raquel já não chorará pelos seus filhos, pois Deus "enxugará as lágrimas dos seus olhos"[xiii]; mas "há gritos de júbilo e de vitória nas tendas dos justos"[xiv]».[xv]


A voz dos poetas


Desterrado parte o Menino,
e chora;
disse-lhe Sua Mãe assim,
e chora.

Calai, meu Senhor, agora.

Ouvi prantos de amargura,
pobreza, temor, tristura,
águas, ventos, noite escura,
com que vai Nossa Senhora,
e chora;
calai, meu Senhor, agora.

O desterro que sofreis
é a chave com que abris
ao mundo que redimis,
a cidade em que Deus mora
e chora;
calai, meu Senhor, agora.

Não pode ficar nisto;
morrereis, e não tão presto;
mas a cruz do serás posto
me trespassa desde agora,
e chora;
calai, meu Senhor, agora.

Calai-vos, minha luz é aviso,
pois que vosso Pai quis
que sejais do paraíso
Flor que nunca se desflora,
e chora;
calai, meu Senhor, agora.

Oh grande Rei de minhas entranhas,
como ides pelas montanhas,
fugindo para terras estranhas
da mão matadora!
e chora;
calai, meu Senhor, agora.

Vós tomais esta viagem
por guardar a homenagem
que fizeste à linhagem
da gente pecadora,
e chora;
calai, meu Senhor, agora.

Com seu Filho já fugindo,
já cansado, já temendo,
já tremendo, já correndo
atrás da fé, sua guia,
e chora;
calai, meu Senhor, agora.

Chora o Menino do látego,
da água e do desabrigo
com a Mãe, que é testemunha,
nossa luz que ilumina,
e chora;
calai, meu Senhor, agora.

Oh os que vão caminhando,
temendo e atrás mirando
se os ia já alcançando
a gente perseguidora!

E chora;
calai, meu Senhor, agora.

À Virgem sem mancha
a verde palma se humilha,
em sinal de maravilha,
que é do céu imperadora,
e chora;
calai, meu Senhor, agora.

Este frio não Vos fatigue,
nem Herodes, que vos persegue,
pelo grande bem que se segue
desta vida penosa,
e chora;
calai, meu Senhor, agora.

Pela ira herodiana
que sofreis, Filho, de gana,
dai a glória soberana
ao que tal desterro adora
e chora;
calai, meu Senhor, agora.

Estando o Menino nos seus braços,
faixazinha de retalhos,
desfizeram-se em mil pedaços
os ídolos a destempo
e chora;
calai, meu Senhor, agora.

¡Oh se soubesses, Egipto,
quanto já és bendito
pelo tesouro infinito
que hoje em ti se entesoura!

E chora;
calai, meu Senhor, agora.[xvi]

ambrósio de montesino (século XV), Cancionero.




  




[i] são leão magno, Papa século V, Homilia 3 na solenidade da Epifania.
[ii] Jo 1,29
[iii] bento xvi século XXI, Carta encíclica Spe salvi, 30-XI-2007, n. 36.
[iv] Mt 2, 13
[v] são joão crisóstomo século IV, Homilias sobre o Evangelho de São Mateus, 8, 3.
[vi] santo agostinho séculos IV-V, Sermão 373, 2-3.
[vii] são quodvultdeus século V, Sermão 2, sobre o Símbolo.
[viii] Mt 2, 2-3
[ix] são josemaria século XX, Cristo que passa, n. 33.
[x] Ap 7,9
[xi] Ap 7, 15
[xii] Ap 21, 25
[xiii] Ap 7, 17
[xiv] Sal 117, 15
[xv] são beda o venerável séculos VII-VIII, Homilia sobre os Santos Inocentes 1, 10.
[xvi] ambrósio de montesino século XV, Cancionero.