25/06/2014

Tratado da lei 34

Questão 98: Da lei antiga.

Art. 2 — Se a lei antiga procedia de Deus.

(Ad Hebr., cap. VII, lect. III).

O segundo discute-se assim. — Parece que a lei antiga não procedia de Deus.

1. — Pois, diz a Escritura (Dt 32, 4): As obras de Deus são perfeitas. Ora, a lei antiga era imperfeita, como se disse (a. 1). Logo, não procedia de Deus.

2. Demais. — A Escritura diz (Ecle 3, 14): Eu aprendi que todas as obras que Deus fez perseveram para sempre. Ora, a lei antiga não perseverou para sempre; pois, diz o Apóstolo (Heb 7, 18): O mandamento primeiro é na verdade abrogado pela fraqueza e inutilidade. Logo, a lei antiga não procedia de Deus.

3. Demais. — Do legislador sábio é próprio extirpar não só os males, como as suas ocasiões. Ora, a lei antiga era ocasião de pecado, como já se disse (a. 1 ad 2). Logo, não convinha a Deus, a quem nenhum é semelhante entre os legisladores, no dizer da Escritura (Jó 36, 22), impor tal lei.

4. Demais. — A Escritura diz (1 Tm 2, 4): Deus quer que todos os homens se salvem. Ora, a lei antiga não bastava para a salvação dos homens, como já se disse (a. 1). Logo, a Deus não convinha dar tal lei, e portanto a lei antiga não procedia de Deus.

Mas, em contrário, diz o Senhor, falando dos Judeus, a quem foi dada a lei antiga (Mt 15, 6): vós tendes feito vão o mandamento de Deus pela vossa tradição. E pouco antes tinha dito (Mt 15, 4): Honra a teu pai e a tua mãe, o que, manifestamente, está contido na lei antiga (Ex 20, 12; Dt 5, 16). Logo, esta procedia de Deus.

A lei antiga foi dada pelo Deus da bondade, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pois, a lei antiga ordenava os homens para Cristo, de dois modos. — De um modo, dando testemunho de Cristo. Por isso, o Evangelho diz (Lc 24, 44): é necessário cumprir-se tudo o que de mim estava escrito na lei, nos Salmos e nos Profetas; e ainda (Jo 5, 46): Porque se vós crêsseis a Moisés, certamente creríeis também em mim, porque ele escreveu de mim.­ — De outro modo, por uma como disposição, enquanto que, retraindo os homens do culto da idolatria, encerrava-os no culto do Deus único, que, por meio de Cristo, devia salvar o género humano. Donde, diz o Apóstolo (Gl 3, 23): Antes que a fé viesse, estávamos debaixo da guarda da lei, encerrados para aquela fé que havia de ser revelada. Ora, é manifesto, que quem dispõe para o fim também conduz para ele; quero dizer que conduz por si mesmo, ou por meio de seus subordinados. Ora, o diabo não iria fazer uma lei, conducente dos homens a Cristo, por quem ele havia de ser lançado fora, conforme a Escritura (Mt 12, 26): se Satanás lança fora a Satanás, está ele dividido contra si mesmo. Logo, a lei antiga foi dada pelo próprio Deus, donde veio a salvação aos homens, pela graça de Cristo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Nada impede o temporalmente perfeito não o ser, absolutamente. Assim, diz-se que uma criança é perfeita, não absolutamente, mas conforme a sua condição no tempo; e portanto, os preceitos impostos às crianças são perfeitos, não absolutamente, mas segundo a condição delas. E tais foram os preceitos da lei. Por isso o Apóstolo diz (Gl 3, 24): a lei nos serviu de pedagogo que nos conduziu a Cristo.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Perseveram eternamente as obras de Deus, que ele fez para assim perseverarem; e essas são as obras perfeitas. Ora, a lei antiga foi rejeitada no tempo da perfeição da graça, não por má, mas como insuficiente e inútil para esse tempo; porque, como acrescenta o mesmo lugar, a lei não levou coisa nenhuma à perfeição. Donde, diz o Apóstolo (Gl 3, 24): Depois que veio a fé, já não estamos debaixo de pedagogo.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Como já dissemos (q. 79, a. 4), Deus às vezes permite a alguns caírem em pecado para desse modo se humilharem. Assim também, quis dar uma lei tal que, por suas próprias forças, os homens não pudessem cumprir, para, presumindo de si mesmos e reconhecendo-se pecadores, recorrerem, humilhados, ao auxílio da graça.

RESPOSTA À QUARTA. — Embora a lei antiga não bastasse para salvar os homens, contudo, simultaneamente com ela, Deus deu outro auxílio aos homens, com o qual poderiam salvar-se. E esse foi a fé no Mediador, pela qual se justificaram os padres antigos, como também nós nos justificamos. E assim, Deus não abandonava os homens, deixando-os sem os auxílios da salvação.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, comentário e leitura espiritual (A paz na familia 6)


Tempo comum XII Semana

Evangelho: Mt 7, 15-20

15 «Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós vestidos de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. 16 Pelos seus frutos os conhecereis. Porventura se colhem uvas dos espinhos, ou figos dos abrolhos? 17 Assim toda a árvore boa dá bons frutos, e toda a árvore má dá maus frutos. 18 Não pode uma árvore boa dar maus frutos, nem uma árvore má dar bons frutos. 19 Toda a árvore que não dá bons frutos será cortada e lançada ao fogo. 20 Vós os conhecereis, pois, pelos seus frutos.

Comentário:

Vê-se bem a preocupação de Jesus Cristo com muitos dos Seus irmãos homens que se hão-de perder por caminhos de engano e erro. Sabe que o Seu Nome será usado por autênticos lobos vorazes para atrair outros mais fracos ou incautos. Gente sem escrúpulos que ‘ganha a vida’ a explorar a debilidade alheia.

É a estes Seus pobres irmãos que o Senhor dirige o Seu aviso: acautelai-vos, sede prudentes, antes de comer do fruto, por mais apetitoso que pareça ser, vede bem de que árvore foi colhido.

(ama, comentário sobre Mt 7, 15-20, 2013.06.26)


Leitura espiritual



Temas


A PAZ NA FAMÍLIA
…/6

CONSTRUIR A PAZ FAMILIAR
UM COMBATE PELA PAZ

Na introdução a estas páginas, transcrevíamos umas palavras de São Paulo que põem à mostra – dizíamos ali – as cordas da paz. Vamos agora rever e meditar com calma esse texto, que nos pode ajudar a encontrar os caminhos da paz (cf. Lc 1, 79) pelos quais Deus quer que andemos.

Como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, mansidão, paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se um tiver contra outro motivo de queixa. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós. Mas, acima de tudo, revesti-vos do amor, que é o vínculo da perfeição. Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados a formar um único corpo. E sede agradecidos (Col 3, 12-15).

Relendo essas linhas, facilmente podemos observar nelas quatro ideias claras:
Primeira:
São Paulo quer mostrar o caminho para que a paz “triunfe nos corações”.

Reparemos que ele não diz: para que a paz “surja”, “permaneça” ou se “assente” em vossos corações, mas para que “triunfe em vossos corações”. E é que a paz da alma – que transborda em paz para os outros – é sempre “consequência da guerra”; é uma conquista, resultante – como dizia Mons. Escrivá – de uma luta íntima “contra tudo o que na vida não for de Deus: contra a soberba, a sensualidade, o egoísmo, a superficialidade, a estreiteza de coração” 10.

Segunda ideia:
Essa luta trava-se praticando virtudes concretas, não bastando sentimentos e boas vontades: é preciso exercitar a misericórdia, a bondade, a doçura, a mansidão, a paciência, o perdão.

Terceira ideia:
Essas virtudes constituem uma força eficaz, apta para produzir a paz, só quando estão bem amarradas, como um feixe, pela caridade (pelo amor à medida do amor de Cristo), formando assim um conjunto firme e coeso. Este é exatamente o significado da expressão: o amor é o vínculo da perfeição.

Quarta ideia:
Essa luta pela paz – e concretamente pela paz na família – é um dever que decorre da nossa vocação. Por isso São Paulo começa esse parágrafo afirmando que devemos exercitar as virtudes que levam à paz justamente por sermos eleitos de Deus, santos – chamados à santidade – e amados.

Após este olhar geral sobre as palavras de São Paulo, vamos agora ativar o zoom e fazer uma aproximação das virtudes mencionadas por ele, juntamente com outras que lhes são conexas.

UMA ENTRANHADA MISERICÓRDIA

Que quer dizer misericórdia na família?
Entenderemos bem essa virtude, se nos lembramos de que a misericórdia do cristão deve imitar a misericórdia de Deus: Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso (Lc 6, 36).

Deus é misericordioso porque vê as nossas misérias – por dizê-lo de um modo humano – “com coração”.

A palavra misericórdia significa, com efeito, “miséria” que toca o “coração”.

Quer isto dizer que Deus olha para os nossos pecados, os nossos defeitos, as nossas ofensas – que não pode aprovar –, não com a dureza de um justiceiro, mas com um olhar compreensivo, compassivo e sempre predisposto ao perdão.

A pessoa misericordiosa sabe “olhar com coração”. Mas não fica só nisso.

“O verdadeiro significado da misericórdia – diz João Paulo II – não consiste apenas no olhar, por mais penetrante e cheio de compaixão que seja, com que se encara o mal moral, físico ou material. A misericórdia manifesta-se com a sua fisionomia verdadeira e própria quando reavalia, promove e sabe tirar o bem de todas as formas de mal existentes no mundo e no homem”. A misericórdia – acrescenta – é um amor “que não se deixa «vencer pelo mal», mas «vence o mal com o bem» (cf. Rom 12, 21)” 11.

Retenhamos bem essas ideias:
A virtude da misericórdia começa por “olhar” o outro, por “vê-lo” com um olhar “penetrante” e “cheio de compaixão”; e completa-se quando, a partir desse olhar compreensivo, nos esforçamos por tirar um bem do mal que vemos nos outros.

Duas atitudes que, por si sós, já seriam um excelente programa para a paz da família.

Mas bem poucos as conseguem viver na prática.

A IMAGEM IDEAL E A IMAGEM REAL

Muitos, sem nem darem por isso, fazem dos outros e, concretamente das pessoas da família, como um espelho de si mesmos.

Encaram a mulher, o marido, os filhos, como espelhos em que gostariam de ver-se refletidos: sempre lhes agradaria contemplar neles os seus gostos, os seus desejos, os seus sonhos. Os outros só são estimados como projeção de si mesmos.

É preciso virar cento e oitenta graus esse espelho, é preciso abrir o coração e fazer o que, com expressão feliz, Gustavo Corção chamava “a descoberta do outro”.

“O marido, cheio de razões – escreve esse autor –, não admite que a mulher fale de certo modo, tenha tal tique ou qual mania. Que a sua maneira de andar, de partir o pão, de atender o telefone, seja a sua maneira. O confronto diário, entra ano sai ano, é insuportável para cada cônjuge [...]. Cada um se procura a si mesmo na face que lhe fica em frente e, nos dias piores, fica desvairado, atormentado, enlouquecido, como homem que visse no seu espelho uma imagem absurda, diferente da sua, a fazer gestos disparatados e femininos”.

Nesse clima de auto-procura, continua a dizer Corção, as pessoas “são coisas de mim mesmo que circulam fora de mim para melhor me servir. O eu fica no centro de um universo escuro, em volta estão os corpos tributários: este traz-me o café, aquele a carícia”.

Para quebrar esse curto-circuito perverso, é necessário fazer a “descoberta do outro”.

A descoberta de que o marido, a mulher, os filhos, são o “outro”, que deve ser compreendido e amado por si mesmo. A caridade cristã leva, então, a ver nos outros membros da família o próximo, “esse que amaremos como a nós mesmos [...]. Vivemos esbarrando no próximo, porque não nos ocorre, na espessura da nossa escuridão, que ele tenha direito à objetividade, que seja o outro” 12.

Sim. Como custa entender que o cônjuge, ou o filho, ou a filha, ou os pais, sejam “eles”! No entanto, esse olhar compreensivo é o primeiro passo do entendimento, da paz, do amor.

Na realidade, qual é a causa mais profunda das desavenças, das brigas, dos maus humores, dos desentendimentos familiares? É que temos uma “imagem ideal” da pessoa (o que desejaríamos que a esposa, o filho, o pai fossem...), mas encontramo-nos a cada passo com a “imagem real”. Essa imagem real – que é a única que existe – irrita, decepciona.

O choque com a imagem real, que parece arrebentar os sonhos ideais, azeda e desgasta o dia-a-dia, fere a harmonia familiar, que – rachada já por tantas incompreensões – pode ficar estilhaçada.

O primeiro passo do amor misericordioso consiste em procurar entender os outros, sabendo que são outros. Para isso, antes de mais nada é necessário respeitá-los.

Um ser humano é um mundo que deve ser encarado com um respeito imenso.

Deus faz assim connosco, dá-nos um enorme valor, embora sejamos – como somos – pobres pecadores: para Ele valemos o preço do sangue de Jesus Cristo.

“Cada criatura humana – diz um autor espiritual – é um enigma, uma palavra velada.

Todo o trabalho da caridade paciente consiste em decifrar esses enigmas e em encontrar o seu sentido” 13.

Entender exige um acto consciente, um propósito deliberado de compreender.

Como dizia um conhecido orientador familiar, “os amantes são aqueles que se amam; os esposos são aqueles que se empenham em amar-se” 14.

Existe esse ato deliberado, esse empenho, quando alguém diz: “Eu, a partir de hoje, faço o propósito de esforçar-me seriamente por entender a minha mulher; eu quero entender o meu filho”.

OS CANAIS DA COMUNICAÇÃO

Se esse propósito for sincero, quem o fez logo verá que precisa de lutar contra vários defeitos que lhe dificultam a compreensão.

Em primeiro lugar, terá de lutar contra o preconceito.

No lar, os preconceitos podem ser inúmeros. “Já nos conhecemos!” – dizem uns aos outros; e assim, mal o marido abre a boca, a mulher, sem se dar ao trabalho de escutá-lo, corta:
“Você já vem de novo com a mesma história, você não muda”; assim que o pai começa a explicar a dificuldade que tem de aumentar a mesada, logo o filho o interrompe: “Ah, pai, sempre podando”...
Antes de ouvir, já se tem o filme do outro, pronto e revelado, como se as pessoas fossem clichês que não pudessem mudar.

Como é importante o “empenho” em entender: “Por que ele ou ela é assim?
Como é mesmo por dentro?
Que lhe acontece?
Que teme?
Que desejaria?
O que o faz sofrer?...”

Não se trata de fazer “análise”.
Deus nos livre do marido “analista” da mulher ou vice-versa. Mas trata-se, sim, de abrir o coração à compreensão.
Para isso, é muito necessário aprender a bela arte de escutar, que nos permite amplificar os canais da comunicação, do diálogo compreensivo.

Não pratica certamente essa arte aquele tipo de marido que, chegando a casa com ar cansado, desaba na poltrona. A mulher está ansiosa por falar-lhe, e ele, abanando a cabeça como quem faz uma magnânima concessão a um ser inferior, diz-lhe: – “Vai, fala”. Ela desabafa enquanto ele olha para o infinito, com inexpressividade de peixe. – “Já acabou?”, pergunta ele e recolhe-se atrás do jornal.

Pelo contrário, pratica a arte de escutar aquele que deixa falar o outro: escuta-o com atenção até que termine; evita acusações ou desqualificações; não se serve de expressões do tipo “já sei, não precisa dizer-me”; toma cuidado com as interpretações erróneas de palavras, frases, gestos ou atitudes; sabe pedir amavelmente esclarecimentos; está atento ao assunto da conversa, sem pular abruptamente para outro; evita expressões cortantes como “Isso não admito”, “Não aguento esse modo de falar”, “Você não muda”, etc. 15
Só o respeito, sem preconceitos nem precipitações, pode levar a “entender” o outro.
E, quando a compreensão vai crescendo, deixa-se de dizer: “Ele deveria ser assim”, e passasse a dizer: “Ele é assim; portanto, o que é que eu devo fazer?”
Então, como diz o Papa, a nossa misericórdia “reavalia, promove e tira o bem de todas as formas de mal” (ou seja, dos defeitos, das limitações, das más disposições dos outros). É uma verdade comprovada que, quando procuramos compreender uma pessoa, facilmente descobrimos qual é a nossa atitude – a palavra, o silêncio – que mais a poderia ajudar, que poderia fazer-lhe maior bem. Nisso consiste a bondade de que fala São Paulo no texto que estamos a comentar  [1]
Quando cada membro da família se esforça por entender os outros, todos acabam “entendendo-se” cada vez mais. Assim garantem a paz.

(cont.)
________________________
Notas:
(10) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 73;
(11) Encíclica Dives in misericordia, n. 4;
(12) Gustavo Corção, A descoberta do outro, Agir, Rio de Janeiro, 1967, págs. 226-228;
(13) Um Cartuxo, Silêncio com Deus, Aster, Lisboa, 1956, págs. 141- 142;
(14) Pedro-Juan Viladrich, A família “soberana”, em L'Osservatore Romano, 26.08.1994, pág. 5;
(15) cfr. a obra do psiquiatra Enrique Rojas, Remedios para el desamor, Ediciones TH, Madrid, 1990, págs. 228 e segs.;








[1] Sobre a bondade, cfr. Francisco Faus, O homem bom, Quadrante, São Paulo, 1990.

24/06/2014

Temas para meditar 155

Amor de Deus

Desejemos que Jesus seja o despertar do nosso ser. Assim entenderemos melhor o Seu vivo sofrimento, ao mesmo tempo que nos daremos conta que não vislumbramos mais que uma chispa do Seu amor incomensurável. Por isso, pedimos ao Mestre divino e humano que nos conceda a graça de não esquecer que somos o objecto do Seu amor e da Sua dor, que anseia a limpeza das almas e sofre pelas nossas ofensas. Com o nosso comportamento consolá-lo-emos, como nos pediu por meio da súplica que dirigiu aos discípulos.

(javier echevarríaGetsemani, Planeta 3ª ed. pg. 17)

Lançamento de livro - Convite

Rev. Cónego António Ferreira dos Santos
Reitor da Igreja da Lapa
Igreja da Lapa (Porto)
Altar Mor




                                                                                                          

Auxílio dos cristãos

"Auxilium christianorum!", Auxílio dos cristãos!, reza com plena segurança a ladainha loretana. Já experimentaste repetir essa jaculatória nos teus transes difíceis? Se o fizeres com fé, com ternura de filha ou de filho, verificarás a eficácia da intercessão da tua Mãe Santa Maria, que te levará à vitória. (Sulco, 180)

É a hora de recorreres à tua Mãe bendita do Céu, para que te acolha nos seus braços e te consiga do seu Filho um olhar de misericórdia. E procura depois fazer propósitos concretos: corta de uma vez, ainda que custe, esse pormenor que estorva e que é bem conhecido de Deus e de ti. A soberba, a sensualidade, a falta de sentido sobrenatural aliar-se-ão para te sussurrarem: isso? Mas se se trata de uma circunstância tonta, insignificante! Tu responde, sem dialogar mais com a tentação: entregar-me-ei também nessa exigência divina! E não te faltará razão: o amor demonstra-se especialmente em coisas pequenas. Normalmente, os sacrifícios que o Senhor nos pede, os mais árduos, são minúsculos, mas tão contínuos e valiosos como o bater do coração.


Quantas mães conheceste como protagonistas de um acto heróico, extraordinário? Poucas, muito poucas. E contudo, mães heróicas, verdadeiramente heróicas, que não aparecem como figuras de nada espectacular, que nunca serão notícia – como se diz – tu e eu conhecemos muitas: vivem sacrificando-se a toda a hora, renunciando com alegria aos seus gostos e passatempos pessoais, ao seu tempo, às suas possibilidades de afirmação ou de êxito, para encher de felicidade os dias dos seus filhos. (Amigos de Deus, 134)

Pequena agenda do cristão


TeRÇa-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)




Propósito:
Aplicação no trabalho.

Senhor, ajuda-me a fazer o que devo, quando devo, empenhando-me em fazê-lo bem feito para to poder oferecer.

Lembrar-me:
Os que estão sem trabalho.

Senhor, lembra-te de tantos e tantas que procuram trabalho e não o encontram, provê às suas necessidades, dá-lhes esperança e confiança.

Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?




Tratado da lei 33

Questão 98: Da lei antiga.

Em seguida devemos tratar da lei antiga. E, primeiro, da lei em si mesma. Segundo, dos seus preceitos.

Na primeira questão discutem-se seis artigos:

Art. 1 — Se a lei antiga era boa.
Art. 2 — Se a lei antiga procedia de Deus.
Art. 3 — Se a lei antiga foi dada pelos anjos, ou imediatamente por Deus.
Art. 4 — Se a lei antiga devia ter sido dada só ao povo judeu.
Art. 5 — Se todos os homens estavam obrigados a observar a lei antiga.
Art. 6 — Se a lei antiga foi dada, no tempo conveniente, a Moisés.

Art. 1 — Se a lei antiga era boa.

(Art. seq., ad 1, 2; Ad Rom., cap. VII, lect. II, III; Ad Galat., cap. III, lect. VII, VIII; I Tim., cap. I, lect. II).

O primeiro discute-se assim. — Parece que a lei antiga não era boa.

1. — Pois, diz a Escritura (Ez 20, 25): Eu lhes dei uns preceitos não bons, e umas ordenanças nas quais eles não acharam a vida. Ora, uma lei não é considerada boa senão pela bondade dos preceitos que contém. Logo, a lei antiga não era boa.

2. Demais. — Pela sua bondade é que a lei é útil para o bem público, como diz Isidoro. Ora, a lei antiga não era salutar, mas antes, mortífera e nociva. Pois, diz o Apóstolo (Rm 7, 8): Sem a lei o pecado estava morto. E eu nalgum tempo vivia sem lei; mas quando veio o mandamento reviveu o pecado; e eu sou morto. E ainda (Rm 5, 20): Sobreveio a lei para que abundasse o pecado. Logo, a lei antiga não era boa.

3. Demais. — Pela sua bondade é que a lei é de observância possível, quanto à natureza e quanto ao costume humano. Ora, tal não era a lei antiga, conforme diz Pedro (At 15, 10): Porque tentais pôr um jugo sobre as cervizes dos discípulos, que nem nossos pais nem nós pudemos suportar. Logo, parece que a lei antiga não era boa.

Mas, em contrário, diz o Apóstolo (Rm 7, 12): Assim que, a lei é na verdade santa, e o mandamento é santo, e justo, e bom.

Sem nenhuma dúvida, a lei antiga era boa. Pois, assim como se manifesta verdadeira uma doutrina, por estar de acordo com a razão; assim, mostra ser boa uma lei, por estar de acordo com a razão recta. Ora, a lei antiga estava de acordo com a razão, pois reprimia a concupiscência, que lhe é contrária, como o prova aquele mandamento (Ex 20, 17): Não cobiçaras os bens do teu próximo. E também proibia todos os pecados contrários à razão. Donde é manifesto, que era boa. E esta é a razão do Apóstolo, quando diz (Rm 7, 22): Eu deleito-me na lei de Deus, segundo o homem interior; e ainda (Rm 7, 16): consinto com a lei, tendo-a por boa.

Devemos porém notar que a bondade tem diversos graus, como diz Dionísio. Assim há uma bondade perfeita e outra, imperfeita. A perfeita relativamente aos meios consiste em ser um meio tal, que por si mesmo é conducente ao fim. A imperfeita consiste em praticarmos algum acto para a consecução do fim, mas não bastante a atingi-lo. Assim, o remédio perfeitamente bom cura-nos; o imperfeito ajuda, mas não pode curar.

Ora, como sabemos um é o fim da lei humana, e outro, o da divina. O fim da lei humana é a tranquilidade temporal da cidade. E esse fim a lei consegue-o coibindo os actos exteriores, excluindo os males capazes, de perturbar a paz civil. Ao passo que a lei divina visa levar o homem ao fim da felicidade eterna, fim que todo pecado impede; e não só por actos externos, como também por internos. Portanto, o bastante à perfeição da lei humana, que é proibir os pecados e cominar a pena, não o é à perfeição da lei divina, que há de tornar o homem totalmente capaz de participar da felicidade eterna. Ora, isto não pode ser senão por graça do Espírito Santo, pela qual se difunde a caridade nos nossos corações, que cumpre a lei; pois, a graça de Deus é a vida eterna, como diz o Apóstolo (Rm 5, 5). Mas, esta graça a lei antiga não a podia conferir, pois isso estava reservado a Cristo. Porque, como diz João, a lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade foi trazida por Jesus Cristo. Donde vem, que a lei antiga era, por certo boa, mas imperfeita, conforme (Heb 7, 19): a lei nenhuma coisa levou à perfeição.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — No lugar citado o Senhor fala dos preceitos cerimoniais, chamados não bons por não conferirem a graça, que purifica os homens do pecado, embora por eles os homens se mostrassem pecadores. Por isso assinaladamente diz: e umas ordenanças nas quais eles não achavam a vida, i. é, pelas quais não podem obter a vida da graça. E depois acrescenta: E permiti que eles se manchassem nos seus dons, i. é, mostrei-os manchados, quando para expiação dos seus pecados ofereciam lodo o que rompe o claustro materno.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Diz-se que a lei matava, não certamente efectiva, mas, ocasionalmente, por causa da sua imperfeição, por não conferir a graça, pela qual os homens pudessem cumprir o que ela mandava e evitar o que proibia. E assim, essa ocasião não era dada, mas tomada pelos homens. E por isso o Apóstolo diz, no mesmo lugar (Rm 5, 11): o pecado, tomando ocasião do mandamento, me enganou, e me matou pelo mesmo mandamento. E por esta razão diz: sobreveio a lei para que abundasse o pecado; onde se deve considerar a expressão — para que — não consecutiva, mas causalmente, i. é, porque os homens, tomando ocasião da lei, pecaram mais intensamente. Quer por ser o pecado mais grave, depois da proibição da lei; quer ainda porque a concupiscência aumentasse, pois, maior é a nossa concupiscência quando se trata do proibido.

RESPOSTA À TERCEIRA. — O jugo da lei não podia ser suportado sem a graça coadjuvante, que a lei não dava. Pois, diz o Apóstolo (Rm 9, 16): querer e correr nos preceitos de Deus não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus usar da sua misericórdia. Donde o dizer a Escritura (Sl 118, 32): Corri pelo caminho dos teus mandamentos, quando dilataste o meu coração, i. é, pelo dom, da graça e da caridade.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, comentário e leitura espiritual (A paz na familia 5)


Tempo comum Semana XII

Nascimento de São João Baptista

Evangelho: Lc 1, 57-66. 80

7 Completou-se para Isabel o tempo de dar à luz e deu à luz um filho. 58 Os seus vizinhos e parentes ouviram falar da graça que o Senhor lhe tinha feito e congratulavam-se com ela. 59 Aconteceu que, ao oitavo dia, foram circuncidar o menino e chamavam-lhe Zacarias, do nome do pai. 60 Interveio, porém, sua mãe e disse: «Não; mas será chamado João». 61 Disseram-lhe: «Ninguém há na tua família que tenha este nome». 62 E perguntavam por acenos ao pai como queria que se chamasse. 63 Ele, pedindo uma tabuinha, escreveu assim: «O seu nome é João». Todos ficaram admirados.64 E logo se abriu a sua boca, soltou-se a língua e falava bendizendo a Deus. 65 O temor se apoderou de todos os seus vizinhos, e divulgaram-se todas estas maravilhas por todas as montanhas da Judeia. 66 Todos os que as ouviram as ponderavam no seu coração, dizendo: «Quem virá a ser este menino?». Porque a mão do Senhor estava com ele.
80 Ora o menino crescia e se fortificava no espírito. E habitou nos desertos até ao dia da sua manifestação a Israel.

Comentário:


Sendo João da mesma idade de Jesus Cristo – apenas com seis meses de diferença – verificamos que passou os primeiros trinta anos da sua vida «habitando os desertos».


Tal como Aquele cujo caminho vem preparar, a preparação do que lhe está cometido necessita de um longo tempo de recolhimento.


Ao contrário, Jesus Cristo, vive esses mesmos trinta anos no seio da família, actuando como qualquer jovem e, depois, homem vulgar e corrente na pequena sociedade da Sua terra de origem.


Poderíamos então dizer que, João, é alguém muito especial que escolhe viver afastado da sociedade, num retiro voluntário. O que o espera é de tal forma grande e extraordinário que não pode deixar de ser assim e, acresce, que não quer que durante esse tempo, as pessoas acorram a ele porque o seu papel é de absoluta discrição e anonimato.


(ama, comentário sobre, Lc 1, 57-66, Carvide, 2013.12.23)


Leitura espiritual



Temas


A PAZ NA FAMÍLIA
…/5

SITUAÇÃO OU VOCAÇÃO

É inútil tentar resolver essa “incapacidade de fazer família” com panos quentes:
assessoramento psiquiátrico (fora de casos patológicos), aprendizado das dez “técnicas” de convívio feliz publicadas – com a costumeira superficialidade – pelas revistas do coração.

A solução, a única solução, está em algo de muito mais profundo. Não há, em muitos rapazes e moças, capacidade de “fazer família”, porque se perdeu a noção do que “é a família”. Não há capacidade de criar amor familiar, porque se perdeu a noção do verdadeiro amor. Não há capacidade de conseguir, no lar, um clima de bondade, paciência, serenidade, alegria, caridade e paz, porque todos esses valores positivos são virtudes ou fruto das virtudes e, hoje, a maioria das pessoas, em vez de aprenderem virtudes, passam os anos a aprender interesses e conveniências. Entram, assim, nas lutas da vida como um combatente moralmente desarmado.

Que é, afinal, a família?

Hoje, mais do que nunca, é preciso fazer ressoar, com a força de uma verdade jubilosa e de um apelo premente, que o casamento e a família não são uma situação, nem uma solução, mas uma vocação e uma missão.

Uma situação. Uma solução. É assim que muitos dos que ainda concedem algum papel ao casamento e à família costumam considerá-los. “Eu – pensam eles – situo-me profissionalmente, situo-me familiarmente, e tento manter nos dois campos, enquanto for conveniente para mim, a situação que, no momento, vejo como a solução mais conveniente”.

A família não é isso. É algo muito maior. Para compreendê-la, escutemos uma das vozes que têm proclamado com maior clareza o sentido divino, cristão, do casamento e da família. Refiro-me ao Bem-aventurado Josemaría Escrivá. Contemplando ele, sob o foco luminoso da fé, o sentido da existência humana, dizia: “Para que estamos no mundo?
Para amar a Deus com todo o nosso coração e com toda a nossa alma, e para estender esse amor a todas as criaturas [...]. Deus não deixa nenhuma alma abandonada a um destino cego; para todas tem um desígnio, a todas chama com uma vocação pessoalíssima, intransferível”.

Também “o matrimónio é caminho divino, é vocação” 7.

Esta afirmação categórica – “o matrimónio é vocação” – feita por Mons. Escrivá já desde os começos dos anos trinta, surpreendia e desconcertava, de início, os seus ouvintes.

Depois, quando penetravam nessa verdade e lhe descobriam as consequências, deslumbrava-os e rasgava-lhes empolgantes horizontes de vida.

“Há quase quarenta anos – dizia o Bem-aventurado, em 1968 – que venho pregando o sentido vocacional do matrimónio. Que olhos cheios de luz vi mais de uma vez quando – julgando eles e elas incompatíveis na sua vida a entrega a Deus e um amor humano nobre e limpo – me ouviam dizer que o matrimónio é um caminho divino na terra!”

Se o matrimónio é uma vocação, quer dizer que é uma chamada de Deus para “algo”, ou seja, que é um apelo divino para o cumprimento de uma missão. Ilustrando essa verdade, na mesma ocasião, o Beato Josemaría continuava a dizer: “O matrimónio existe para que aqueles que o contraem se santifiquem nele e santifiquem através dele: para isso os cônjuges têm uma graça especial, conferida pelo sacramento instituído por Jesus Cristo.

Quem é chamado ao estado matrimonial encontra nesse estado – com a graça de Deus – tudo o que necessita para ser santo, para se identificar cada dia mais com Jesus Cristo e para levar ao Senhor as pessoas com quem convive.

“Por isso penso sempre com esperança e com carinho nos lares cristãos, em todas as famílias que brotaram do Sacramento do Matrimónio, que são testemunhos luminosos desse grande mistério divino – Sacramentum magnum! (Ef 5, 32), sacramento grande – da união e do amor entre Cristo e a sua Igreja. Devemos trabalhar para que essas células cristãs da sociedade nasçam e se desenvolvam com ânsia de santidade [...]. Os esposos cristãos devem ter consciência de que são chamados a santificar-se santificando, de que são chamados a ser apóstolos, e de que o seu primeiro apostolado está no lar. Devem compreender a obra sobrenatural que supõe a fundação de uma família, a educação dos filhos, a irradiação cristã na sociedade. Desta consciência da própria missão dependem, em grande parte, a eficácia e o êxito da sua vida: a sua felicidade” 8.

VOCAÇÃO DIVINA, VOCAÇÃO DE AMOR

“Compreender a obra sobrenatural que supõe a fundação de uma família”, ter “consciência da própria missão”.

Para muitas moças e rapazes, frases como as que acabamos de ler devem parecer-lhes belas palavras ou sonhos irreais. E, no entanto, desses ideais sobre o casamento e a família, que eles ainda não entendem, “dependem, em grande parte, a eficácia e o êxito da sua vida: a sua felicidade”.

O casamento e a família, como qualquer outra vocação, significam para um cristão um chamamento pessoal de Cristo, um apelo para segui-Lo.

Se alguém quiser vir após mim – diz Jesus Cristo –, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me (Mt 16, 24). Estamos nos antípodas do utilitarismo egoísta. Em vez de dizer:
“Procure-se a si mesmo, realize-se a si mesmo”, diz-nos: “Não pense em si, doe-se generosamente”.

Esse apelo à renúncia e ao esquecimento próprio não é, absolutamente, uma tristonha anulação da personalidade, nem um abafamento da alegria de viver. É exatamente o contrário: as palavras de Cristo estão a mostrar-nos o rosto do amor. E o amor é a seiva vivificante da família.

Será preciso lembrar que o amor cristão se formula assim: Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei (Jo 13, 34)? Será que há alguma dúvida sobre como Ele, Cristo, nos amou? Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos (Jo 15, 13).

Com Cristo, um amor inédito entrou no mundo, um amor que o mundo pagão desconhecia totalmente. Era um amor à medida do Amor de Deus, que os cristãos designaram com uma palavra nova: “agápe”, em grego; “caritas” – caridade –, em latim. Era um amor à imagem e semelhança do amor de Cristo.

O que fizemos desse amor?
No mundo de hoje, é preciso reaprendê-lo; é urgente – para todos, mas especialmente para os jovens – redescobrir a beleza inefável do Amor com maiúscula, que vem de Deus (1 Jo 44, 7). A nossa alma tem uma necessidade vital de experimentar o deslumbramento feliz de São João, quando exclamava: Nisto conhecemos o amor: em que Jesus deu a sua vida por nós, e também nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos (1 Jo 3, 16). Desse João Apóstolo que, com quase cem anos de idade, acrescentava, extasiado: Nós conhecemos o amor de Deus e acreditamos nele!... Se Deus nos amou assim, também nós nos devemos amar-nos uns aos outros (1 Jo 4, 11.16).

Não duvidemos: é aí, e somente aí, nas profundezas do amor cristão, que finca as suas raízes a paz familiar.

A SABEDORIA DE SÃO TOMÁS

Antes de terminar esta panorâmica – “a família em perspectiva” –, talvez valha a pena acrescentar ainda, como complemento útil, umas breves reflexões. São considerações que procedem de boa fonte, de São Tomás de Aquino.

Na sua Suma Teológica, a certa altura, o santo doutor, na esteira de Aristóteles, formula várias perguntas sobre o amor e – como se estivesse a dizer a coisa mais óbvia do mundo – escreve que há dois tipos de amor:
Um é o que chama amor de concupiscência (que não significa só o amor sexual, pois a palavra latina concupiscentia designa os desejos em geral). Dá-se esse amor quando “em vez de querer o bem de quem amamos, queremos que ele seja um bem para nós, como quando dizemos que amamos o vinho ou um cavalo...” São Tomás parece brincar, mas fala com a maior seriedade. Não sei se o que vou dizer não será rude demais, mas creio que o amante egoísta, descrito nas páginas anteriores, encara a esposa – ou o marido, ou os filhos, ou os pais – com a mesma mentalidade com que degusta um vinho ou experimenta o trote de um cavalo.

O outro tipo de amor – acrescenta São Tomás – é o que se chama amor de amizade.

“Não é – diz – um amor qualquer, mas o amor que possui a benevolência, isto é, o amor que existe quando amamos alguém de tal maneira que queremos o seu bem” 9.

Pronto. Poucas palavras para enormes verdades. Há um amor que busca só o bem e o interesse próprios. Há outro amor que busca e trabalha pelo bem da pessoa amada. Este último – amor de amizade –, vivificado pela capacidade de querer que nos infunde o Espírito Santo (cf. Rom 5, 5), é o amor cristão. E é só com esse tipo de amor que se faz, de verdade, família e nela se consegue a paz.

Enquanto escrevo estas últimas linhas, vem-me ao pensamento – e comove-me novamente – a lembrança de um casal amigo, excelentes pessoas, unidas e fiéis após longos anos de convívio. Com uma lucidez plácida e simples, o marido, bom cristão, dizia-me:
“O senhor sabe? Depois de tantos anos, cheguei à conclusão de que o amor entre marido e mulher só é amor mesmo quando os dois se tornam amigos, quando são dois bons amigos.
O verdadeiro amor é amizade”.

E, com isto, finalizamos a nossa digressão sobre a “família em perspectiva”.

As considerações gerais que acabamos de fazer serão o ponto de partida para as que faremos a seguir comentando atitudes e gestos concretos que, brotando do amor, podem construir a paz familiar.

(CONT.)

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Notas:
(7) Josemaría Escrivá, Questões atuais do cristianismo, 3a. ed., Quadrante, São Paulo, 1986, n. 106;
(8) ibid., n. 91; ver também, do mesmo autor, a homilia O Matrimónio, vocação cristã, em É Cristo que passa, 2a. ed., Quadrante, São Paulo, 1975, ns. 22-30;
(9) São Tomás de Aquino, Suma teológica, II-II, q. XXIII, art. 1, concl.;





23/06/2014

Temas para meditar 154

Sacerdote


O perfeito cristão leva sempre consigo a serenidade e a alegria. Serenidade, porque se sente na presença de Deus; alegria, porque se vê rodeado dos seus dons. Um cristão assim é de verdade um personagem real, um sacerdote santo de Deus.


(S. clemente de alexandriaStromata VII, nr. 9 451)