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28/05/2012

O NOSSO MAL É SONO


O nosso mal é sono. Chega-se a casa tarde; tarde se janta; tarde se arruma a cozinha; tarde se liga a tv; tarde se resmunga sobre os assuntos da família; tarde se acorda no sofá; tarde se deita...e cedo se levanta. Que vida é esta?  Um disparate pegado.

Com sono tudo se faz, excepto pensar. Excepto sorrir. Excepto prever.
Excepto planear. Excepto ter gosto no trabalho, na família e no convívio com os colegas;  e muito menos com os chefes. Excepto sonhar
acordado, sobretudo com o fim de semana...em que novamente a gente se deitará tarde.

É verdade que mesmo assim, somos capazes de nos metermos no trabalho até às orelhas, até porque, se não, despedem-nos ou
desclassificam-nos, ou falimos. Mas que não nos incomodem com mais nada! Estamos fartos!

Depois, não há quem entenda esta mulher, quem ature este marido, quem compreenda estas crianças, quem suporte estes sogros, quem tenha pachorra para os eternos problemas daquele irmão ou do sócio...

E ainda por cima esta crise! e estes engarrafamentos...

Não é o nosso único mal, o sono, mas é um dos mais insidiosos e que nos passa mais despercebido.

P. Hugo de Azevedo

19/04/2012

A LÍNGUA


«Porque estais a olhar para o céu?», perguntaram os Anjos. «Esse Jesus que vistes subindo ao céu, do céu virá…» (Act 1, 11) Começavam as saudades dos discípulos, mas também certamente o desejo de ir ter com Ele quanto antes. Quando subiriam eles até ao Pai? Quando deixariam os perigos desta vida revolta e chegariam, purificados, à presença eterna de Deus? A que provas haviam ainda de sujeitar-se até ouvirem o que ouvia no fundo da alma Inácio de Antioquia: «Vem ao Pai!»

Quantas vezes, ao longo dos anos de estudo, em vésperas de exame, teremos sonhado com a passagem automática, sem a angústia de submeter-nos às perguntas imprevisíveis do mestre ou do júri académico! Se mal preparados, rogando boa sorte aos nossos santos; se bem preparados, temendo a má disposição dos examinadores ou algum deslize da nossa parte… A só perspectiva de repetir a cadeira, para passar de ano ou obter melhor nota, pode tornar-se um pesadelo.

O que será então aproximar-nos do exame final desta vida, com tantas lacunas na consciência, e sabendo que daremos estreita conta de tudo o que Deus nos confiou para sua glória e para a eterna felicidade nossa e dos nossos irmãos! Como lançaremos mão da sua infinita misericórdia, da confissão contrita das nossas faltas, das indulgências que a Santa Madre Igreja nos proporciona, da intercessão de Maria Santíssima!...

Façamo-lo desde já, mas reparemos que o Evangelho nos revela um segredo capaz de nos tranquilizar, uma espécie de «passagem administrativa»: «Não julgueis, e não sereis julgados»! (Mt 7,1) Não só seremos salvos, mas nem sequer examinados! Teremos muitas fraquezas no nosso currículo, mas o Senhor passá-los-á por alto – prometeu-o! – com essa breve condição: não julgarmos ninguém.

É inevitável julgarmos as suas acções e as suas ideias, pois é impossível suspendermos dentro de nós a distinção entre o bem e o mal, a verdade e o erro. Mas o homem é o seu coração, as suas intenções, um mistério que só Deus conhece e só Ele julga. Só Ele sabe o que há no coração do homem. Mas é tão frequente a nossa insensatez, que, não só julgamos, mas criticamos, acusamos e condenamos o próximo, que chegamos ao ponto de ver más intenções nos mais nobres comportamentos: «pensa mal, e acertarás»…

«A língua é um fogo, um mundo de iniquidade!» (Tgo 3, 6), bem avisava S. Tiago. «Se alguém não peca pela palavra, este é um homem perfeito» (Tgo 3, 2). Não nos esqueçamos de que quem julga os outros, não só terá de sujeitar-se ao julgamento, mas «expõe-se a um juízo mais severo» (Tgo 3, 1).

Não é fácil, de facto, cumprir a condição da nossa «passagem administrativa», a não ser que vejamos sempre o próximo com o olhar de Cristo, com bons olhos, com amor. O amor não é cego; pelo contrário, só com amor se podem conhecer os outros. Por mais defeitos que tenham, «pensa bem, e acertarás»: veremos neles uma profunda (e às vezes desesperada) aspiração ao bem; veremos neles irmãos, que nos fazem falta; veremos neles o próprio Cristo, que Se identificou até com os que estão, pelos seus crimes, na prisão. Quanto mais havemos de respeitar a imensa maioria de gente honrada que nos rodeia na família, no trabalho, na igreja, ou por essas ruas fora!

Vale a pena cortar a nossa língua venenosa. Vale a pena cortar cerce a murmuração, a crítica impiedosa; vale a pena despir-nos dessa atitude superior de juízes do mundo, ainda que nos chamem ingénuos ou disserem que estamos a exagerar a gravidade de um vício tão comum, pois «qualquer palavra inútil que tiverem proferido os homens», diz Cristo, «darão conta dela no dia do juízo», e que há de mais inútil do que acusar e condenar quem não está presente? «Porque pelas suas palavras (o homem) será justificado ou condenado» (Mt 12, 36-37). Vale a pena repudiar a maledicência, essa peste mais estendida, nefasta e cruel do que a luxúria vergonhosa. A promessa é grandiosa: não seremos julgados.

Hugo de Azevedo

Fonte: celebração litúrgica nº 3 2011/12, www.cliturgica.org

14/12/2011

A POESIA DO NATAL

Porque será que nos apetece cantar ao Menino? E à sua Mãe bendita? E a S. José? E ouvir na alma o coro celestial dos Anjos? E pedir aos pastores que nos acompanhem com os seus vilancetes populares? Por uma razão muito simples e sublime: porque não nos aproximamos do tremendo Sinai, mas «do monte Sião, da Cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste, de muitos milhares de Anjos em reunião festiva, de uma assembleia de primogénitos inscritos no Céu, de Deus, Juiz do universo, dos espíritos dos justos que atingiram a perfeição – e de Jesus, Mediador da Nova Aliança!»

É a nossa festa com Deus: finalmente juntos, depois de tão longa e dolorosa história! Ainda teremos de ver crescer o Menino, escutá-Lo e segui-Lo pelos caminhos da Palestina, até ao Calvário, para O vermos novamente e ouvi-Lo dizer-nos que é nosso Amigo e nunca mais se há-de separar de nós. E secarão de vez as nossas lágrimas. Como não havemos de cantar?

Poesia é a nossa expressão possível do mistério, mas este Mistério é tão belo e feliz, que só pode dar lugar a canções de uma leveza infantil, de roda e romaria campestre, de coração a bailar.

É nesta ocasião que melhor entendemos que o canto é um direito humano; mais do que uma arte de privilegiados. E é um direito, porque é um dever universal de gratidão e de felicidade. Quem não se alegra pelo Natal não merecia ser homem. Pois não se fez Homem Deus? Podia ser maior a nossa sorte?

Na igreja, cuidado, porque Sua Divina Majestade espera as nossas homenagens no altar e no sacrário. Nada de faltas de respeito. Mas lá fora e cá por dentro, cantemos à desgarrada como bem nos apetecer.

E podemos ter a certeza de que Nossa Senhora nos sorrirá, S. José se unirá às nossas vozes. Infantilidades? O primeiro Infante é Ele. E se nos entra o receio de ser humanos demais, lembremo-nos de que Deus nos criou à sua imagem, e portanto é humaníssimo, tão humano que não teve pejo em fazer-se Um de nós.

Hugo de Azevedo


Fonte:Celebração Litúrgica, Dezembro/Janeiro 2011/2012