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22/01/2020

THALITA KUM 78


THALITA KUM 78 

(Cfr. Lc 8, 49-56)


Jesus não se importa que as pessoas O sigam, embora saiba que alguns o fazem só por curiosidade.

Pelo contrário, o Senhor sabe que perante os Seus milagres muitos desses “curiosos” serão movidos a segui-Lo, a partir de determinado momento, pela confiança que inspira e a fé que desperta nos seus corações ansiosos.

Como quando alguém entra numa Igreja com o mero intuito de ver as obras de arte, eventualmente tirar fotografias e, depois, num ímpeto, se ajoelha ante o sacrário, numa oração que, nem por ser breve, deixa de ser um tributo à Sua Presença Eucarística.

Também muitos vão a Fátima movidos pela curiosidade, “para ver como é”, como se fosse mais uma excursão a um local famoso e, depois, talvez tocados pelas demonstrações de fé das gentes anónimas, humildes ou não, discretas ou aparatosas, serenas ou intensamente demonstradas, voltam para suas casas com o secreto desejo de voltar, um dia, para, com mais vagar, se deterem aos pés da Virgem.


AMA, reflexões sobre o Evangelho, 2006)

20/01/2020

THALITA KUM 76


THALITA KUM 76 

(Cfr. Lc 8, 49-56)


Saudade

Parece que só a língua portuguesa tem esta palavra única para significar a vontade, o desejo de voltar a viver algo que se viveu num passado, rever uma pessoa que está afastada, enfim, sentir a falta de algo ou alguém que naturalmente guardamos na memória como algo bom de que gostámos.

Noutros idiomas para exprimir este sentimento tem de usar-se uma frase composta. Realmente, em português as coisas são mais simples. E exactamente por ser simples, descrever o sentimento que representa pode ser complexo e difícil.
Por isso mesmo quase sempre se usa a palavra sem acrescentar nada mais porque ela já diz tudo quanto precisamos para descrever um estado de alma.

A saudade pode ser algo condicionante e esmagador sendo necessário exercer um controlo sério para que não tome demasiado vulto ou atinja níveis emocionais que terão sempre uma consequência: o mergulhar na tristeza, desesperança, abandono.
Depois, se não se actua a tempo, vem a auto-comiseração, o sentir-se o centro e único protagonista digno de toda a atenção, carinho, solidariedade.
Tende-se assim, em plano perigosamente inclinado, para o amor-próprio e, finalmente o orgulho.
Não se conclui que a saudade seja um defeito, de modo nenhum, mas pode converter um sentimento nobre numa sujeição pessoal torpe e sem mérito.
É aqui principalmente que se deve redobrar a atenção de forma a impedir a que esse sentimento atinja proporções grandes demais para o equilíbrio emocional da pessoa.

Disse antes que tal pode levar a um excessivo ensimesmamento que naturalmente conduzirá à solidão, ao sofrimento íntimo, que tenderá também a tornar-se um hábito e, pior, converter-se em desculpa para fugir ao comportamento normal, convívio com os outros, afectando virtudes importantes como a paciência, o bom humor, a alegria, a disponibilidade para servir, ser útil, a atenção aos outros, a diligência no trabalho.

A pessoa dominada pela saudade torna-se de trato difícil, maçadora, exigente, centralizadora das atenções dos outros.

De alguma forma tem sempre uma "desculpa" para não fazer o que deve quando deve.
Adia para um futuro qualquer em que "se sinta melhor" o que deveria fazer no momento e, quase sempre, parece-lhe que esta é uma justificação que todos devem aceitar e compreender.


AMA, reflexões sobre o Evangelho, 2006)