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02/07/2016

Evangelho e comentário


Tempo Comum

Evangelho: Mt 9, 14-17

14 Então foram ter com Ele os discípulos de João e disseram-Lhe: «Qual é a razão por que nós e os fariseus jejuamos e os Teus discípulos não jejuam?». 15 Jesus respondeu-lhes: «Porventura podem estar tristes os companheiros do esposo, enquanto o esposo está com eles? Mas virão dias em que lhes será tirado o esposo e então eles jejuarão. 16 Ninguém deita um remendo de pano novo em vestido velho, porque este remendo levaria consigo uma parte do vestido e ficava pior o rasgão. 17 Nem se deita vinho novo em odres velhos; doutro modo rebentam os odres, derrama-se o vinho e perdem-se os odres. Mas deita-se o vinho novo em odres novos; e assim ambas as coisas se conservam».

Comentário:

Esta questão do jejum aparece como central nas práticas dos judeus no Antigo Testamento.
Aliás como muitas outras práticas do tempo que, de certo modo, eram impostas ao povo como obrigações estritas a observar.

O Senhor há-de denunciar tal critério sobretudo quando diz que Deus quer misericórdia e não sacrifícios.

Devem estes ser abolidos pelos cristãos?

De modo nenhum!
Deve é haver um são critério na sua prática com ausência de escrúpulos e obrigações.

Em suma, o sacrifício, a mortificação, o jejum devem ser praticados por amor e com sentido de reparação.

(ama, comentário sobre Mt 9, 14-17, 2016.02.12)








12/02/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual



Cinzas



Evangelho: Mt 9, 14-15

14 Então foram ter com Ele os discípulos de João e disseram-Lhe: «Qual é a razão por que nós e os fariseus jejuamos e os Teus discípulos não jejuam?». 15 Jesus respondeu-lhes: «Porventura podem estar tristes os companheiros do esposo, enquanto o esposo está com eles? Mas virão dias em que lhes será tirado o esposo e então eles jejuarão.

Comentário:

Jejuar é uma prática muito aconselhada por todos os directores espirituais como uma salutar medida para fortalecer a temperança.

Esta virtude fundamental para o cristão, não se resume ao jejum mas a toda a forma de viver e comportar-se, não apenas consigo próprio mas, sobretudo, com os outros. 

(ama, comentário sobre Mt 9, 14-17, 2015.07.04)


Leitura espiritual

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Ano Santo da Misericórdia

É eterna a Sua misericórdia

«O Espírito do Senhor repousou sobre Mim; pelo que Me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres; Me enviou para anunciar a redenção aos cativos e a recuperação da vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos e a pregar um ano de graça da parte do Senhor» [i]. O Senhor volta pela primeira vez a Nazaré durante a Sua vida pública e levanta-Se para ler na sinagoga. Entregam-lhe o livro de Isaías e proclama esta passagem, que se refere a Ele próprio. Depois senta-Se e, perante o assombro de todos, começou a dizer-lhes: «hoje cumpriu-se este passo da Escritura que acabais de ouvir» [ii].

Têm ali, à frente dos seus olhos, Aquele que vem de Deus, e é o próprio Deus, que vem tirar o pecado do mundo [iii]. Mas os conterrâneos do Senhor não estão ainda preparados para O acolher, e adotam uma atitude hostil, lançam-no fora da cidade para o precipitarem do cume do monte, como se se tratasse de um falso profeta. Então Jesus, relata o Evangelho, numa reviravolta misteriosa, «passando pelo meio deles, retirou-se» [iv]. Jesus segue o Seu caminho porque nada pode deter o coração de Deus.

A liberdade que só Deus pode dar

Ao convocar um jubileu, a Igreja sabe-se portadora desse impulso irrefreável do Senhor: a salvação é hoje. «Utinam hodie vocem eius audiatis: nolite obdurare corda vestra, Oxalá escuteis hoje a Sua voz! Não endureçais o vosso coração [v]. No Antigo Testamento, uma prefiguração da salvação de Deus é precisamente o ano jubilar, que ocorria cada 50 anos. Ao cumprir-se «sete semanas de anos» [vi] - sete vezes sete anos – iniciava-se um ano no qual os escravos eram libertados e cada um regressava à sua propriedade e à sua família [vii], porque os homens não pertencem a ninguém, senão a Deus [viii]. Se uma palavra tivesse que resumir o que significava um jubileu para o Povo de Israel, poderia ser “liberdade” [ix].

Liberdade, não está esta palavra, hoje mais do que nunca, na boca de todos? E, no entanto, muitas vezes esquecemos que a liberdade, no seu sentido mais profundo, provém de Deus. Com a Sua paixão salvadora e a Sua ressurreição, Ele liberta-nos da pior escravidão, o pecado. «Graças ao coração misericordioso do nosso Deus, que das alturas nos visita como sol nascente, para iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte e dirigir os nossos passos no caminho da paz.» [x].

A fonte da verdadeira liberdade está na misericórdia de Deus. Para uma lógica meramente mundana, esta afirmação pareceria uma ingenuidade; admitir-se-ia talvez que um pouco de misericórdia poderia estar bem para dulcificar as relações, mas só depois de ter resolvido muitas outras coisas mais urgentes. Pelo contrário, pôr a misericórdia em primeiro lugar, «humanamente falando é de loucos, mas “o que é loucura em Deus é mais sábio que os homens; e o que é fraqueza em Deus é mais forte que os homens” [xi]» [xii]. O mundo necessita dela para sair de tantas espirais de ressentimento, de inveja, de frustração; precisam dela as famílias, a sociedade.

«Fraqueza em Deus»: com o sim do Senhor a fazer-se homem, a ser pregado na Cruz, e a ser recebido nas entranhas da terra, surge no mundo um novo gérmen de liberdade que já não morre mais. A ressurreição gloriosa de Cristo prolonga, através dos séculos, o «ano de graça do Senhor» [xiii]. Mas com o trigo cresce, até ao fim do mundo, a cizânia [xiv]; junto aos sinais da autêntica libertação, aparecem constantemente na história os da escravidão. Satanás tenta crivar-nos como o trigo, mas o Senhor rogou por Pedro, para que a sua fé não desfalecesse. E ele confirma-nos na nossa fé [xv]. A um mundo que suspira pela liberdade sem a conseguir encontrar, a Igreja oferece-lhe incansavelmente a misericórdia do Senhor, que traz consigo «a liberdade dos filhos de Deus» [xvi].

Percorrendo todo um itinerário espiritual da Igreja

«No meio das luzes e sombras que aparecem no caminhar dos cristãos, nunca faltaram as intervenções da indulgência divina; por meio do Espírito Santo que habita na Igreja e com a presença real de Cristo na Eucaristia, além da intercessão sempre atual da Santíssima Virgem, revelam-se-nos as torrentes de misericórdia que se vertem constantemente sobre o mundo» [xvii]. Em 2002, São João Paulo II - que tinha dedicado a sua segunda encíclica, Dives in misericordia, ao amor de Deus Pai pelos homens - proclamou o segundo domingo de Páscoa como domingo da divina misericórdia, seguindo uma sugestão de Santa Maria Faustina Kowalska, canonizada por ele próprio. «É preciso transmitir ao mundo este fogo de misericórdia. Na misericórdia de Deus o mundo encontrará a paz» [xviii].

Bento XVI fez-se muitas vezes eco desta urgência do seu predecessor. «Como a irmã Faustina, João Paulo II fez-se, por sua vez, apóstolo da Misericórdia divina. A tarde do inolvidável sábado, dia 2 de Abril de 2005, quando fechou os olhos para este mundo, era precisamente a véspera do segundo domingo de Páscoa e muitos notaram a singular coincidência, que unia em si a dimensão mariana - era o primeiro sábado do mês - e a da Misericórdia divina. Com efeito, o seu longo e multiforme pontificado tem aqui o seu núcleo central; toda a sua missão ao serviço da verdade sobre Deus e sobre o homem e da paz no mundo se resume neste anúncio» [xix]. Também na Prelatura se verificou essa providencial coincidência, pela mão de Nossa Senhora, Mater misericordiae, decorrem juntos o final do Ano Mariano da família e o início do Jubileu da misericórdia.

«O rosto de Deus – dizia o Papa Francisco no seu primeiro Angelus - é o de um pai misericordioso, que sempre tem paciência» [xx]. A decisão com que o Santo Padre fala da misericórdia remete também para a sua própria vocação. Torna-se mais eloquente agora o seu lema episcopal, «miserando atque eligendo», que manteve ao ser eleito para a sede de Pedro; são palavras que aludem à vocação de Mateus: Jesus olhou-o com muita misericórdia e escolheu-o para Ele.

«Do coração da Trindade, da intimidade mais profunda do mistério de Deus, brota e corre sem parar o grande rio da misericórdia» [xxi]. A decisão do Papa de convocar um Jubileu da Misericórdia abarca, afinal, todo um itinerário espiritual da Igreja, um impulso do Espírito Santo para o tempo presente. No dia seguinte a abrir a Porta Santa em São Pedro, o Papa explicava-o assim: «A Igreja necessita deste momento extraordinário. Na nossa época de profundas mudanças, a Igreja é chamada a oferecer a sua contribuição peculiar, tornando visíveis os sinais da presença e da proximidade de Deus. E o Jubileu é um tempo favorável para todos nós, para que contemplando a Divina Misericórdia, que supera todo o limite humano e resplandece sobre a obscuridade do pecado, cheguemos a ser testemunhas mais convencidas e eficazes» [xxii].

A porta da misericórdia

«Dai graças ao Senhor porque é Ele é bom, porque é eterna a Sua misericórdia» [xxiii]. No rito de abertura da Porta Santa na Basílica de São Pedro cantou-se o salmo 117 (118), que abre e termina com este mesmo verso. E com o motivo da misericórdia conflui o da porta: «abri-me as portas da justiça: entrarei e darei graças ao Senhor. Esta é a porta do Senhor, os justos entrarão por ela» [xxiv].

Dum ponto de vista pragmático, uma porta é, afinal de contas, um simples lugar de passagem, que une e distingue dois ambientes. A porta não parece ter, em si mesma, mais importância. Importantes, são, em todo o caso, os ambientes; mas não a porta. E, no entanto, o Ano santo convida a que nos detenhamos neste motivo, a vê-lo como um símbolo da nossa vida, da nossa peregrinação na terra; a considerar o que implica atravessar esse umbral de esperança, numa expressão querida de São João Paulo II.

Na Escritura, a porta tem um grande valor simbólico: desde a entrada da tenda de Abraão, em que está sentado o Patriarca quando recebe a visita de Yahvé [xxv], passando pela porta da tenda do Encontro, onde Moisés falava cara a cara com Deus [xxvi], até às portas da cidade na grande visão de Ezequiel [xxvii]. Todas estas referências convergem no momento do evangelho de João em que o Senhor se apresenta, Ele próprio, como «a porta das ovelhas» [xxviii].

A Porta Santa recorda-nos, de um modo mais vivo, de onde vem a salvação: do redil de Deus, do espaço de Deus, para onde Ele nos convida a entrar. «Como o soldado que está de guarda, assim temos que estar nós à porta de Deus Nosso Senhor: e isso é oração. Ou como se deita o cachorrinho aos pés do seu dono» [xxix]. A salvação não vem do que nós podemos fazer, mas do que Deus faz por nós. «Fora da misericórdia de Deus não existe outra fonte de esperança para o homem» [xxx].

Sucede que, por vezes, os homens pensam que na realidade não há porta que abrir para os nossos problemas, mesmo aqueles de caráter mais pequeno. Aspiramos, simplesmente, a sobreviver mais mal do que bem aos nossos medos e dificuldades. Preferimos talvez não lhes pôr nomes, preferimos não pensar demasiado neles... Porque, embora estejamos mal, não acreditamos que Deus possa pôr remédio a essas coisas. Com as obras, mais do que com as palavras, dizemos-Lhe muitas vezes: «Eu não vou viver sempre. Deixa-me, pois os meus dias são apenas um sopro» [xxxi]. E, no entanto, Deus «faz-se encontradiço com os que o não procuram» [xxxii] e convida-nos a abrir uma porta de esperança. O Jubileu é «um Ano Santo para sentir intensamente dentro de nós a alegria de ter sido encontrados por Jesus, que, como Bom Pastor, veio procurar-nos porque estávamos perdidos» [xxxiii].

O que mais agrada a Deus

Estamos, pois, diante de um momento especial para experimentar a força libertadora da misericórdia divina, que perdoa os nossos pecados e nos abre aos outros homens: «Este Jubileu, em resumo, é um momento privilegiado para que a Igreja aprenda a escolher unicamente “o que agrada mais a Deus”. E, o que é que “agrada mais a Deus”? Perdoar aos seus filhos, ter misericórdia com eles, a fim de que eles possam, por sua vez, perdoar aos irmãos, resplandecendo como tochas da misericórdia de Deus no mundo. Isto é o que mais agrada a Deus» [xxxiv].

A reconciliação com Deus - que recebemos na Confissão, sacramento que está colocado no centro do Ano jubilar [xxxv] - abre uma porta para deixar entrar na nossa vida aqueles que nos rodeiam. Porque a misericórdia de Deus não é um simples manto que tapa as nossas misérias, sem que na realidade nada mude na nossa vida. Pelo contrário, a sua misericórdia transforma-nos radicalmente, faz-nos homens e mulheres misericordiosos como o Pai [xxxvi]: somo-lo quando perdoamos a quem nos tinha ofendido, realizamos, talvez com esforço, alguma obra de caridade, damos a conhecer a mensagem salvadora do Evangelho a quem vive longe do Senhor. Aproximar-se da misericórdia de Deus implica necessariamente converter-se em instrumentos da Sua compaixão para com aqueles que nos rodeiam: «O coração do Senhor é coração de misericórdia, que se compadece dos homens e se aproxima deles. A nossa entrega, ao serviço das almas, é uma manifestação dessa misericórdia do Senhor, não só para connosco, mas para com toda a humanidade» [xxxvii].

carlos ayxelà






[i] Is 61, 1-2 (cfr. Lc 4, 16).
[ii] Lc 4, 21.
[iii] Cfr. Jo 1, 29.
[iv] Lc 4, 30.
[v] Sal 95, 7-8.
[vi] Lv 25, 8.
[vii] Cfr. Lv 25, 10.39ss.
[viii] Cfr. Lv 25, 55.
[ix] Cfr. Lv 25, 10.
[x] Lc 1, 78-79.
[xi] 1 Cor 1, 25
[xii] Francisco, Audiência, 9-XII-2015.
[xiii] Lc 4, 16.
[xiv] Cfr. Mt 13, 24-30.
[xv] Cfr. Lc 22, 31.
[xvi] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 297. Cfr. Ga 5, 1.
[xvii] Javier Echevarría, Carta pastoral, 4-XI-2015, n. 4.
[xviii] São João Paulo II, Homilia, 17-VIII-2002.
[xix] Bento XVI, Angelus, 30-III-2008.
[xx] Francisco, Angelus, 17-III-2013.
[xxi] Francisco, Bula Misericordiæ Vultus, n. 25.
[xxii] Francisco, Audiência, 9-XII-15.
[xxiii] Sl 117 (118), 1.29.
[xxiv] Sl 117 (118), 19-20.
[xxv] Cfr. Gn 18, 1.
[xxvi] Cfr. Nm 12, 5.
[xxvii] Cfr. Ez 48, 31.
[xxviii] Jo 10, 7
[xxix] São Josemaria, Forja, 73
[xxx] São João Paulo II, Homilia, 17-VIII-2002.
[xxxi] Job 7, 16.
[xxxii] São Josemaria, Amar a Igreja, n. 39.
[xxxiii] Francisco, Homilia, 11-IV-2005.
[xxxiv] Francisco, Audiência, 9-XII-2015.
[xxxv] Cfr. Francisco, Bula Misericordiæ Vultus, n. 17.
[xxxvi] Cfr. Lc, 6, 36.
[xxxvii] São Josemaría, Carta 24-III-1930, n. 1.

04/07/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual




Tempo comum XIII Semana

Santa Isabel de Portugal

Evangelho: Mt 9, 14-17

14 Então foram ter com Ele os discípulos de João e disseram-Lhe: «Qual é a razão por que nós e os fariseus jejuamos e os Teus discípulos não jejuam?». 15 Jesus respondeu-lhes: «Porventura podem estar tristes os companheiros do esposo, enquanto o esposo está com eles? Mas virão dias em que lhes será tirado o esposo e então eles jejuarão. 16 Ninguém deita um remendo de pano novo em vestido velho, porque este remendo levaria consigo uma parte do vestido e ficava pior o rasgão. 17 Nem se deita vinho novo em odres velhos; doutro modo rebentam os odres, derrama-se o vinho e perdem-se os odres. Mas deita-se o vinho novo em odres novos; e assim ambas as coisas se conservam».

Comentário:

É de notar que Jesus Cristo não quer associar o jejum à tristeza.

De facto os cristãos podem e devem jejuar mas como filhos de Deus, jamais poderão estar tristes.

(ama, comentário sobre Mt 9 14-15, Carvide, 2015.02.20



Leitura espiritual



São Josemaria Escrivá

Amigos de Deus

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Se a simples presença de uma pessoa de categoria, digna de consideração, é suficiente para que se comportem melhor aqueles que estão à sua volta, como é que a presença de Deus, constante, sentida em todos os recantos, conhecida pelas nossas potências e amada gratamente, não nos torna sempre melhores em todas as nossas palavras, acções e sentimentos?
Se, efectivamente, a realidade que consiste em Deus nos ver estivesse bem gravada nas nossas consciências e se nos apercebêssemos de que todo o nosso trabalho, sem qualquer excepção, se desenvolve na sua presença - porque nada escapa ao seu olhar - com que cuidado terminaríamos as coisas ou como seriam diferentes as nossas reacções!
Ora, este é o segredo da santidade que prego há tantos anos: Deus chamou-nos a todos para que o imitemos; e a vós e a mim para que, vivendo no meio do mundo - sendo homens da rua - saibamos pôr Cristo Nosso Senhor no cume de todas as actividades humanas honestas.

Deveis agora compreender ainda melhor que, se algum de vós não amasse o trabalho que lhe corresponde, se não se sentisse autenticamente comprometido em santificar uma das nobres ocupações terrenas, se carecesse de uma vocação profissional, nunca chegaria a penetrar na essência sobrenatural da doutrina que expõe este sacerdote, porque lhe faltaria, precisamente, uma condição indispensável: a de ser um trabalhador.

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Aviso-vos, sem qualquer presunção da minha parte, que noto rapidamente se estas minhas palavras caem em saco roto ou passam ao lado daquele que me ouve.
Deixai que vos abra o meu coração, para que me ajudeis a dar graças a Deus. Quando, em 1928, vi o que o Senhor queria de mim, comecei imediatamente o trabalho. Naqueles anos - obrigado, meu Deus, porque houve muito que sofrer e muito que amar! - alguns tomaram-me por louco.
Outros, alardeando compreensão, chamavam-me sonhador, mas sonhador de sonhos impossíveis.
Apesar dos pesares e da minha própria miséria, continuei sem desanimar.
Como aquilo não era meu, foi-se abrindo caminho no meio das dificuldades e hoje é uma realidade estendida por toda a terra, de polo a polo, que parece muito natural à maioria das pessoas, porque o Senhor se encarregou de a fazer reconhecer como coisa sua.

Dizia-vos que, mal troco duas palavras com alguém, descubro logo se ele me compreende ou não.
Não me acontece como à galinha que está a chocar a ninhada e sob a qual mão estranha coloca um ovo de pata.
Passam-se os dias e só quando os pintainhos partem a casca e vê passarinhar aquela espécie de bocadinho de lã, descobre através do seu andar desajeitado - pata aqui, pata acolá - que esse não é um dos seus e que jamais aprenderá a piar, por mais que se empenhe. Nunca maltratei ninguém que me tenha voltado as costas, nem sequer quando me pagaram com insolência os meus desejos de ajudar.
Por isso, pelo ano de 1939, chamou-me a atenção um letreiro que encontrei num edifício, onde me encontrava a dar um retiro a universitários.
Dizia assim: Cada caminhante siga o seu caminho.
Era um conselho digno de ser aproveitado.

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Perdoai-me esta divagação e, embora não nos tenhamos afastado do tema, voltemos ao seu fio condutor.
Convencei-vos de que a vocação profissional é parte essencial e inseparável da nossa condição de cristãos.
O Senhor quer que sejais santos no lugar onde estais e no trabalho que haveis escolhido pelas razões que vos aprouveram: pela minha parte, todos me parecem bons e nobres - desde que não se oponham à lei divina - e capazes de ser elevados ao plano sobrenatural, isto é, enxertados nessa corrente de Amor que define a vida de um filho de Deus.


Não posso deixar de ficar um pouco desassossegado quando alguma pessoa, ao falar da sua profissão, põe cara de vítima, afirma que lhe absorve não sei quantas horas por dia e, na realidade, não desenvolve sequer metade do trabalho de muitos dos seus companheiros que, ao fim e ao cabo, talvez só se esforcem por critérios egoístas ou, pelo menos, meramente humanos.
Todos nós, que estamos aqui, mantendo um diálogo pessoal com Jesus, desempenhamos alguma ocupação bem precisa: de médico, de advogado, de economista...
Pensai um pouco nos vossos colegas que sobressaem pelo seu prestígio profissional, pela sua honradez e pelo seu serviço abnegado.
Não dedicam muitas horas do dia - e até da noite - a essa tarefa? Não teremos algo a aprender deles?

Enquanto falo, também vou examinando a minha conduta e confesso-vos que, ao pôr essa pergunta a mim mesmo, sinto um pouco de vergonha e o desejo imediato de pedir perdão a Deus, pensando na minha resposta tão débil, tão afastada da missão que Deus nos confiou no mundo.
Cristo - escreve um Padre da Igreja - escolheu--nos para que fôssemos como lâmpadas; para que nos convertêssemos em mestres dos demais; para que actuássemos como fermento; para que vivêssemos como anjos entre os homens, como adultos entre crianças, como espirituais entre gente somente racional; para que fôssemos semente; para que produzíssemos fruto.
Não seria necessário abrir a boca, se a nossa vida resplandecesse desta maneira. Sobrariam as palavras, se mostrássemos as obras. Não haveria um só pagão, se nós fôssemos verdadeiramente cristãos.

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Valor exemplar da vida profissional

Temos de evitar o erro de considerar que o apostolado se reduz ao testemunho de algumas práticas piedosas.
Tu e eu somos cristãos, mas, ao mesmo tempo e sem solução de continuidade, cidadãos e trabalhadores, com obrigações bem nítidas que temos de cumprir exemplarmente, se deveras queremos santificar-nos.

É Jesus Cristo que nos estimula: Vós sois a luz do mundo.
Não se pode ocultar uma cidade situada sobre um monte.
Nem se acende uma candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim sobre o candelabro, e assim alumia quantos estão em casa.
Brilhe do mesmo modo a vossa luz diante dos homens, a fim de que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai que está nos céus.

Seja qual for, o trabalho profissional converte-se numa luz que ilumina os vossos colegas e amigos.
Por isso, costumo repetir aos que se incorporam no Opus Dei, e a minha afirmação vale também para todos aqueles que me ouvis: que me importa que me digam que fulano de tal é um bom filho meu - um bom cristão - mas um mau sapateiro?!
Se não se esforçar por aprender bem o seu ofício, ou por executar o seu trabalho com esmero, não poderá santificá-lo nem oferecê-lo ao Senhor.

Ora, a santificação do trabalho ordinário constitui como que o fundamento da verdadeira espiritualidade para aqueles que, como nós, estão decididos a viver na intimidade de Deus, imersos nas realidades temporais.

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Lutai contra essa excessiva compreensão que cada um tem para consigo mesmo: sede exigentes para vós próprios.
Às vezes, pensamos demasiadamente na saúde e no descanso, que aliás não deve faltar, precisamente porque é preciso voltar ao trabalho com forças renovadas.
Esse descanso, porém, escrevi-o há já tantos anos, não é não fazer nada, mas distrairmo-nos em actividades que exigem menos esforço.

Noutras ocasiões, com falsas desculpas, somos excessivamente comodistas, esquecemo-nos da bendita responsabilidade que pesa sobre os nossos ombros, conformamo-nos com fazer o que é minimamente indispensável e deixamo-nos arrastar por razões sem razão para nada fazermos, enquanto Satanás e os seus amigos não tiram férias.
Ouve e medita com atenção o que S. Paulo escrevia aos cristãos que eram escravos; instava-os a obedecerem aos seus amos: não os sirvais como quem trabalha somente porque é visto e para agradar aos homens, mas como servos de Cristo que fazem a vontade de Deus com todo o coração e servi-os com amor, sabendo que servis ao Senhor e não a homens.
Que bom conselho para que o sigamos tu e eu!

Peçamos luz a Jesus Cristo Nosso Senhor e roguemos-lhe que nos ajude a descobrir, a cada instante, o sentido divino que transforma a nossa vocação profissional no gonzo sobre o qual assenta e gira a nossa chamada à santidade.
Verificareis no Evangelho que Jesus era conhecido como faber, filius Mariæ, o trabalhador, o filho de Maria.
Também nós, com orgulho santo, temos de demonstrar com factos que somos trabalhadores, homens e mulheres de trabalho!

Porque havemos de nos comportar sempre como enviados de Deus, devemos ter bem presente que não o servimos com lealdade quando abandonamos a nossa tarefa, quando não compartilhamos com os outros o empenho e a abnegação no cumprimento dos compromissos profissionais ou quando nos possam classificar como inconstantes, inconvenientes, frívolos, desordenados, preguiçosos e inúteis...
Na verdade, quem descuida essas obrigações aparentemente menos importantes, só com dificuldade vencerá nas da vida interior que, certamente, são mais custosas.

Quem é fiel nas coisas pequenas, é fiel também nas grandes; e quem é injusto nas pequenas coisas, é injusto também nas grandes.

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Não estou a falar de ideais imaginários.
Atenho-me a uma realidade muito concreta, de capital importância, capaz de modificar o ambiente mais pagão e mais hostil às exigências divinas, como aconteceu na primeira época da era da nossa salvação. Saboreai estas palavras de um autor anónimo desses tempos, o qual resume assim a grandeza da nossa vocação: os cristãos são para o mundo o que a alma é para o corpo.
Vivem no mundo, mas não são mundanos, tal como a alma está no corpo, mas não é corpórea.
Habitam em todos os povoados, como a alma está em todas as partes do corpo.
Agem mediante a sua vida interior sem se fazerem notar, como a alma mediante a sua essência...
Vivem como peregrinos entre coisas perecedoiras, na esperança da incorruptibilidade dos céus, como a alma imortal vive agora numa tenda mortal.
Multiplicam-se dia-a-dia sob o peso das perseguições, como a alma se aformoseia pela mortificação...

E não é lícito aos cristãos abandonarem a sua missão no mundo, como não é permitido à alma separar-se voluntariamente do corpo.

Por esta razão, enganar-nos-íamos no caminho, se não déssemos importância às ocupações temporais.
Também aí vos espera o Senhor.
Podeis ter a certeza de que nós, homens, nos havemos de aproximar de Deus através das circunstâncias da vida corrente, ordenadas ou permitidas pela Providência na sua sabedoria infinita.
Não atingiremos esse fim, se não nos esforçarmos por terminar bem a nossa tarefa; se não perseverarmos no afã pelo trabalho começado com empenho humano e sobrenatural; se não desempenharmos bem o nosso ofício como o melhor e, se é possível - e penso que, se tu verdadeiramente quiseres, assim será - melhor do que o melhor, porque usaremos todos os meios terrenos honrados e os espirituais que forem necessários para oferecer a Nosso Senhor um trabalho primoroso, acabado como uma peça de filigrana, perfeito.

(cont)