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17/08/2016

Evangelho e comentário


Tempo Comum

Santa Beatriz da Silva [i]

Evangelho: Mt 20, 1-16

1 «O Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que, ao romper da manhã, saiu a contratar operários para a sua vinha. 2 Tendo ajustado com os operários um denário por dia, mandou-os para a sua vinha. 3 Tendo saído cerca da terceira hora, viu outros, que estavam na praça ociosos, 4 e disse-lhes: “Ide vós também para a minha vinha, e dar-vos-ei o que for justo”. 5 Eles foram. Saiu outra vez cerca da hora sexta e da nona, e fez o mesmo. 6 Cerca da undécima, saiu, e encontrou outros que estavam sem fazer nada, e disse-lhes: “Porque estais aqui todo o dia sem trabalhar?”. 7 Eles responderam: “Porque ninguém nos contratou”. Ele disse-lhes: “Ide vós também para a minha vinha”. 8 «No fim da tarde, o senhor da vinha disse ao seu feitor: “Chama os operários e paga-lhes o salário, começando pelos últimos até aos primeiros”. 9 Tendo chegado os que tinham ido à hora undécima, recebeu cada qual um denário. 10 Chegando também os primeiros, julgaram que haviam de receber mais; porém, também eles receberam um denário cada um. 11 Mas, ao receberem, murmuravam contra o pai de família, 12 dizendo: “Estes últimos trabalharam somente uma hora, e os igualaste connosco, que suportamos o peso do dia e o calor”. 13 Porém, ele, respondendo a um deles, disse: “Amigo, eu não te faço injustiça. Não ajustaste comigo um denário? 14 Toma o que é teu, e vai-te. Eu quero dar também a este último tanto como a ti. 15 Ou não me é lícito fazer dos meus bens o que quero? Porventura o teu olho é mau porque eu sou bom?”. 16 Assim os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos».

Comentário:

Ao ler este trecho de São Mateus sentimos alguma revolta contra o comportamento dos que se queixam de ter recebido o mesmo que os trabalhadores que chegaram por último.
Mas, se atentarmos bem, não será este comportamento que algumas vezes nós próprios temos?

Olhamos para os outros e julgamo-nos com “mais direitos” que eles seja porque – como neste caso – trabalhámos mais, seja porque nos consideramos mais competentes, enfim… por tantas razões que não são razões nenhumas.

Façamos o que temos de fazer o melhor que possamos e saibamos e receberemos a paga ajustada e, ao mesmo tempo, alegremo-nos porque a outros foi dada a mesma oportunidade que a nós.

(AMA, comentário sobre Mt 20, 1-16, 19.08.2015)





[i] Nota Histórica
Filha de pais portugueses, nasceu em Ceuta (África Setentrional) por volta de 1426. Ainda jovem, veio para Campo Maior (Portugal) e daqui passou à corte de Castela em 1447 como dama de honor da Infanta D. Isabel de Portugal. Para se poder dedicar a uma vida cristã mais perfeita, retirou se da corte para um mosteiro de Toledo, onde permaneceu mais de 30 anos. Em 1484 fundou o Instituto que mais tarde tomou o título da Imaculada Conceição de Nossa Senhora (Concepcionistas) e que foi aprovado pelo papa Inocêncio VIII em 1489. Pouco depois de fazer profissão religiosa, faleceu com fama de santidade. Foi canonizada por Paulo VI a 3 de Outubro de 1976.

19/08/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual


Tempo comum XX Semana


Evangelho: Mt 20, 1-16

1 «O Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que, ao romper da manhã, saiu a contratar operários para a sua vinha. 2 Tendo ajustado com os operários um denário por dia, mandou-os para a sua vinha. 3 Tendo saído cerca da terceira hora, viu outros, que estavam na praça ociosos, 4 e disse-lhes: “Ide vós também para a minha vinha, e dar-vos-ei o que for justo”. 5 Eles foram. Saiu outra vez cerca da hora sexta e da nona, e fez o mesmo. 6 Cerca da undécima, saiu, e encontrou outros que estavam sem fazer nada, e disse-lhes: “Porque estais aqui todo o dia sem trabalhar?”. 7 Eles responderam: “Porque ninguém nos contratou”. Ele disse-lhes: “Ide vós também para a minha vinha”. 8 «No fim da tarde, o senhor da vinha disse ao seu feitor: “Chama os operários e paga-lhes o salário, começando pelos últimos até aos primeiros”. 9 Tendo chegado os que tinham ido à hora undécima, recebeu cada qual um denário. 10 Chegando também os primeiros, julgaram que haviam de receber mais; porém, também eles receberam um denário cada um. 11 Mas, ao receberem, murmuravam contra o pai de família, 12 dizendo: “Estes últimos trabalharam somente uma hora, e os igualaste connosco, que suportamos o peso do dia e o calor”. 13 Porém, ele, respondendo a um deles, disse: “Amigo, eu não te faço injustiça. Não ajustaste comigo um denário? 14 Toma o que é teu, e vai-te. Eu quero dar também a este último tanto como a ti. 15 Ou não me é lícito fazer dos meus bens o que quero? Porventura o teu olho é mau porque eu sou bom?”. 16 Assim os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos».

Comentário:

A qualquer momento durante a sua vida o homem pode ser convocado por Deus para algo. Ele numa deixará de o fazer e compete ao homem não desperdiçar essa oportunidade nem com a falsa desculpa que é demasiado tarde porque, para Deus, não há tempo nem passado nem futuro, apenas presente.

(ama, comentário sobre Mt 20 1-16 Monte Real, Convento, 2014.09.21)

  
Leitura espiritual



CRISTO QUE PASSA

14
          
Sentido divino do caminhar terreno de Jesus

Ao falar diante do presépio sempre procurei ver Cristo Nosso Senhor desta maneira, envolto em paninhos sobre a palha da manjedoura, e, enquanto ainda menino e não diz nada, vê-Lo já como doutor, como mestre.
Preciso de considerá-Lo assim, porque tenho de aprender d'Ele.
E para aprender d'Ele é necessário conhecer a sua vida: ler o Santo Evangelho, meditar no sentido divino do caminho terreno de Jesus.

Na verdade, temos de reproduzir na nossa, a vida de Cristo, conhecendo Cristo à força de ler a Sagrada Escritura e de a meditar, à força de fazer oração, como agora estamos fazendo diante do presépio.
É preciso entender as lições que nos dá Jesus já desde menino, desde recém-nascido, desde que os seus olhos se abriram para esta bendita terra dos homens.

Jesus, crescendo e vivendo como um de nós, revela-nos que a existência humana, a vida corrente e ordinária, tem um sentido divino.
Por muito que tenhamos pensado nestas verdades, devemos encher-nos sempre de admiração ao pensar nos trinta anos de obscuridade que constituem a maior parte da passagem de Jesus entre os seus irmãos, os homens.
Anos de sombra, mas, para nós, claros como a luz do Sol.
Mais: resplendor que ilumina os nossos dias e lhes dá uma autêntica projecção, pois somos cristãos correntes, com uma vida vulgar, igual à de tantos milhões de pessoas nos mais diversos lugares do Mundo.

Assim viveu Jesus seis lustros: era filius fabris, o filho do carpinteiro. Virão depois os três anos de vida pública, com o clamor das multidões.
E as pessoas surpreendem-se: Quem é este?
Onde aprendeu tantas coisas?
Pois a sua vida tinha sido a vida comum do povo da sua terra.
Era o faber, filius Mariae, o carpinteiro, filho de Maria.
E era Deus; e estava a realizar a redenção do género humano; e estava a atrair a si todas as coisas.

15
           
Como em relação a qualquer outro aspecto da sua vida, nunca deveríamos contemplar esses anos ocultos de Jesus sem nos sentirmos afectados, sem os reconhecermos como aquilo que são: chamamentos que o Senhor nos dirige para sairmos do nosso egoísmo, do nosso comodismo.
O Senhor conhece as nossas limitações, o nosso individualismo e a nossa ambição: a dificuldade em nos conhecermos a nós mesmos e de nos entregarmos aos outros.
Sabe o que é não encontrar amor e verificar que mesmo aqueles que dizem segui-Lo o fazem só a meias.
Recordai as cenas tremendas que os evangelistas nos descrevem e em que vemos os apóstolos ainda cheios de aspirações temporais e de projectos exclusivamente humanos.
Mas Jesus escolheu-os, mantém-nos juntos de Si e confia-lhes a missão que recebeu do Pai.

Também a nós nos chama e nos pergunta como a Tiago e João: Potestis bibere calicem quem ego bibiturus sum?; estais dispostos a beber o cálice (este cálice da completa entrega ao cumprimento da vontade do Pai) que eu vou beber?
"Possumus"!
Sim, estamos dispostos! - é a resposta de João e Tiago...
Vós e eu, estamos dispostos seriamente a cumprir, em tudo, a vontade do nosso Pai, Deus?
Demos ao Senhor o nosso coração inteiro ou continuamos apegados a nós mesmos, aos nossos interesses, à nossa comodidade, ao nosso amor-próprio?
Há em nós alguma coisa que não corresponda à nossa condição de cristãos e que nos impeça de nos purificarmos?
Hoje apresenta-se-nos a ocasião de rectificar.

É necessário que nos convençamos de que Jesus nos dirige pessoalmente estas perguntas.
É Ele que as faz, não eu.
Eu não me atreveria a fazê-las a mim próprio.
Eu vou continuando a minha oração em voz alta e vós, cada um de vós, por dentro, está confessando ao Senhor: Senhor, que pouco valho!
Que cobarde tenho sido tantas vezes!
Quantos erros!
Nesta ocasião e naquela... nisto e naquilo...
E podemos exclamar também: ainda bem, Senhor, que me tens sustentado com a tua mão, porque eu sinto-me capaz de todas as infâmias...
Não me largues, não me deixes; trata-me sempre como um menino. Que eu seja forte, valente, íntegro.
Mas ajuda-me, como a uma criatura inexperiente.
Leva-me pela tua mão, Senhor, e faz com que tua Mãe esteja também a meu lado e me proteja.
E assim, possumus!, poderemos, seremos capazes de ter-Te por modelo!

Não é presunção afirmar possumus!
Jesus Cristo ensina-nos este caminho divino e pede-nos que o apreendamos porque Ele o tornou humano e acessível à nossa fraqueza.
Por isso se rebaixou tanto: Este foi o motivo porque se abateu, tomando a forma de servo aquele Senhor que, como Deus, era igual ao Pai; mas abateu-se na majestade e na potência; não na bondade e na misericórdia.

A bondade de Deus quer tornar-nos fácil o caminho.
Não rejeitemos o convite de Jesus; não Lhe digamos que não; não nos façamos surdos ao seu chamamento; pois não existem desculpas, não temos nenhum motivo para continuar a pensar que não podemos.
Ele ensinou-nos com o seu exemplo.
Portanto, peço-vos encarecidamente, meus irmãos, que não permitais que se vos tenha mostrado em vão exemplo tão precioso, mas que vos conformeis com Ele e vos renoveis no espírito da vossa alma.

16 
          
Passou pela terra fazendo o bem

Vedes como é necessário conhecer Jesus, observar amorosamente a sua vida?
Muitas vezes fui à procura da definição da biografia de Jesus na Sagrada Escritura.
Encontrei-a lendo aquela que o Espírito Santo faz em duas palavras: pertransiit benefaciendo.
Todos os dias de Jesus Cristo na terra, desde o seu nascimento até à morte, pertransiit benefaciendo, foram preenchidos fazendo o bem. Como, noutro lugar, a Escritura também diz: bene omnia fecit, fez tudo bem, terminou bem todas as coisas, não fez senão o bem.

E tu?
E eu?
Lancemos um olhar para ver se temos alguma coisa que emendar. Eu, sim, encontro em mim muito que fazer.
Como me vejo incapaz, só por mim, de fazer o bem e, como o próprio Jesus nos disse que sem Ele nada podemos, vamos tu e eu implorar ao Senhor a sua assistência, por meio de sua Mãe, neste colóquio íntimo, próprio das almas que amam a Deus.
Não acrescento mais nada, porque é cada um de vós que tem de falar, segundo a sua particular necessidade.
Por dentro, e sem ruído de palavras, neste mesmo momento em que vos dou estes conselhos, aplico esta doutrina à minha própria miséria.

17 
          
Pertransiit benefaciendo...
Que fez Jesus para derramar tanto bem, e só bem, por onde quer que passou?
Os Santos Evangelhos transmitiram-nos outra biografia de Jesus, resumida em três palavras latinas, que nos dá a resposta: erat subditus illis, obedecia.
Hoje, que o ambiente está cheio de desobediência, de murmuração, de desunião, havemos de estimar especialmente a obediência.

Sou muito amigo da liberdade e precisamente por isso amo tanto essa virtude cristã.
Devemos sentir-nos filhos de Deus e viver com o empenho de cumprir a vontade do nosso Pai, de realizar tudo segundo o querer de Deus, porque nos dá na gana, que é a razão mais sobrenatural.

O espírito do Opus Dei, que tenho procurado praticar e ensinar desde há mais de trinta e cinco anos, fez-me compreender e amar a liberdade pessoal.
Quando Deus Nosso Senhor concede a sua graça aos homens, quando os chama com uma vocação específica, é como se lhes estendesse a mão, uma mão paternal, cheia de fortaleza, repleta sobretudo de amor, porque nos busca um a um, como filhas e filhos seus, e porque conhece a nossa debilidade.
O Senhor espera que façamos o esforço de agarrar a sua mão, essa mão que Ele nos estende. Deus pede-nos um esforço, prova da nossa liberdade.
E para conseguirmos isso, temos de ser humildes, temos de sentir-nos filhos pequenos e amar a bendita obediência com que respondemos à bendita paternidade de Deus.

Convém deixar o Senhor meter-se nas nossas vidas e entrar confiadamente sem encontrar obstáculos nem recantos obscuros. Nós, os homens, tendemos a defender-nos, a apegar-nos ao nosso egoísmo.
Sempre tentamos ser reis, ainda que seja do reino da nossa miséria. Entendei através desta consideração por que motivo temos necessidade de recorrer a Jesus: para que Ele nos torne verdadeiramente livres e, dessa forma, possamos servir a Deus e a todos os homens.
Só assim perceberemos a verdade daquelas palavras de S. Paulo: Agora, porém, livres do pecado e feitos servos de Deus, tendes por fruto a santificação e por fim a vida eterna.
Porque o salário do pecado é a morte, ao passo que o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Nosso Senhor Jesus Cristo.

Estejamos precavidos, portanto, visto que a nossa tendência para o egoísmo não morre e a tentação pode insinuar-se de muitas maneiras.
Deus exige que, ao obedecer, ponhamos em exercício a fé, porque a sua vontade não se manifesta com aparato ruidoso; às vezes o Senhor sugere o seu querer como que em voz baixa, lá no fundo da consciência; e é necessário escutar atentamente para distinguir essa voz e ser-Lhe fiel.

Muitas vezes fala-nos através doutros homens e pode acontecer que, à vista dos defeitos dessas pessoas ou pensando que não estão bem informadas ou que talvez não tenham entendido todos os dados do problema, surja uma espécie de convite a não obedecermos.

Tudo isso pode ter um significado divino, porque Deus não nos impõe uma obediência cega, mas uma obediência inteligente, e temos de sentir a responsabilidade de ajudar os outros com a luz do nosso entendimento.
Mas sejamos sinceros connosco próprios: examinemos em cada caso se o que nos move é o amor à verdade ou o egoísmo e o apego ao nosso próprio juízo.
Quando as nossas ideias nos separam dos outros, quando nos levam a quebrar a comunhão, a unidade com os nossos irmãos, é sinal certo que não estamos a actuar segundo o espírito de Deus.

Não o esqueçamos: para obedecer, repito, é preciso humildade. Vejamos de novo o exemplo de Cristo.
Jesus obedece, e obedece a José e a Maria. Deus veio à Terra para obedecer, e para obedecer às criaturas.
São duas criaturas perfeitíssimas - Santa Maria, Nossa Mãe; mais do que Ela só Deus; e aquele varão castíssimo, José.
Mas criaturas.
E Jesus, que é Deus, obedecia-lhes!
Temos de amar a Deus, para amar assim a sua vontade, e ter desejos de responder aos chamamentos que nos dirige através das obrigações da nossa vida corrente: nos deveres de estado, na profissão, no trabalho, na família, no convívio social, no nosso próprio sofrimento e no sofrimento dos outros homens, na amizade, no empenho de realizar o que é bom e justo...


(cont)

21/09/2014

Evang., Coment. Leit. Espiritual (Sermão do Espírito Santo)

Tempo comum XXV Semana

São Mateus – Apóstolo e Evangelista

Evangelho: Mt 20, 1-16

1 «O Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que, ao romper da manhã, saiu a contratar operários para a sua vinha. 2 Tendo ajustado com os operários um denário por dia, mandou-os para a sua vinha. 3 Tendo saído cerca da terceira hora, viu outros, que estavam na praça ociosos, 4 e disse-lhes: “Ide vós também para a minha vinha, e dar-vos-ei o que for justo”. 5 Eles foram. Saiu outra vez cerca da hora sexta e da nona, e fez o mesmo. 6 Cerca da undécima, saiu, e encontrou outros que estavam sem fazer nada, e disse-lhes: “Porque estais aqui todo o dia sem trabalhar?”. 7 Eles responderam: “Porque ninguém nos contratou”. Ele disse-lhes: “Ide vós também para a minha vinha”. 8 «No fim da tarde, o senhor da vinha disse ao seu feitor: “Chama os operários e paga-lhes o salário, começando pelos últimos até aos primeiros”. 9 Tendo chegado os que tinham ido à hora undécima, recebeu cada qual um denário. 10 Chegando também os primeiros, julgaram que haviam de receber mais; porém, também eles receberam um denário cada um. 11 Mas, ao receberem, murmuravam contra o pai de família, 12 dizendo: “Estes últimos trabalharam somente uma hora, e os igualaste connosco, que suportamos o peso do dia e o calor”. 13 Porém, ele, respondendo a um deles, disse: “Amigo, eu não te faço injustiça. Não ajustaste comigo um denário? 14 Toma o que é teu, e vai-te. Eu quero dar também a este último tanto como a ti. 15 Ou não me é lícito fazer dos meus bens o que quero? Porventura o teu olho é mau porque eu sou bom?”. 16 Assim os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos».

Comentário:

Este trecho do Evangelho de São Mateus poderia ter um título: “A verdadeira Justiça”.
Cumprir o que se convencionou – o compromisso – é elementar e definitivo e não cabem tergiversações.

Ou se cumpre ou não e, se se cumpre não há lugar a qualquer crítica ou frustração.

(ama, comentário sobre Mt 20 1-16, 2014.05.30)

Leitura espiritual


Documentos do Magistério

Sermão do Espírito Santo
Padre António Vieira

V

Está dito e está provado. Mas que se tira ou colhe daqui? Parecerá porventura aos ouvintes que esta doutrina é só para os pregadores da fé, para os religiosos, para os missionários, para os pastores e ministros da Igreja? Assim será noutras terras: nestas nossas é para todos. Nas outras terras uns são ministros do Evangelho, e outros não; nas conquistas de Portugal todos são ministros do Evangelho.

Assim o disse Santo Agostinho pregando na África, que também é uma das nossas conquistas.

Explicava o santo aquela sentença de Cristo: Ubi sum ego, illic et minister meus erit (Jo. 12,26), em que o Senhor promete que, onde ele está, estarão também seus ministros. E convertendo-se o grande doutor para o povo, disse desta maneira: Cum auditis, fratres, Dominum dicentem illic et minister meus erit, nolite tantummodo bonos episcopos et clericos cogitare; etiam vos pro modulo vestro ministrate Christo: Quando ouvis os prémios que Cristo promete a seus ministros, não cuideis que só os bispos e os clérigos são ministros seus: também vós, por vosso modo, não só podeis, mas deveis ser ministros de Cristo. E por que modo será ministro de Cristo um homem leigo, sem letras, sem ordens e sem grau algum na Igreja? O mesmo santo o vai dizendo: Bene vivendo: vivendo bem, e dando bom exemplo; Eleemosynas faciendo: fazendo esmolas, e exercitando as outras obras de caridade; Nomem doctrinamque ejus, quibus potuerit, praedicando: e pregando o nome de Cristo, e ensinando a sua fé e doutrina a todos aqueles a quem puder; Unusquisque paterfamilias pro Christo et pro vita aeterna suos omnes admoneat, doceat, hortetur, corripiat, impendat benevolentiam, exerceat disciplinam: Cada um dos pais de famílias em sua casa, por amor de Cristo e por amor da vida eterna, ensine a todos os seus o que devem saber, encaminhe-os, exorte-os, repreenda-os, castigue-os, tire-os das más ocasiões, e já com amor, já com rigor, zele, procure e faça diligência por que vivam conforme a lei de Cristo.

Este tal pai de famílias, que será? Ouvi, cristãos, para consolação vossa o que conclui Agostinho: Ita in domo sua ecclesiasticum et quodammodo episcopale implebit officium, ministrans Christo, ut in aeternum sit cum ipso: Por este modo um pai de famílias, um homem leigo fará em sua casa não só ofício eclesiástico, mas ofício episcopal, e não só será qualquer ministro de Cristo, senão o maior de todos os ministros, quais são os bispos, servindo e ministrando nesta vida a Cristo, para reinar eternamente com eles: Ministrans Christo, ut in aeternum sit cum ipso. Isto dizia Santo Agostinho aos seus povos da África, e o pudera dizer com muito maior razão aos nossos da América.

Oh! se o divino Espírito, que hoje desceu sobre os apóstolos, descera eficazmente com um raio de sua divina luz sobre todos os moradores deste Estado, para que dentro e fora de suas casas acudiram às obrigações que devem à fé que professam, como é certo que ficariam todos neste dia não só verdadeiros ministros mas apóstolos de Cristo? Que coisa é ser apóstolo? Ser apóstolo não é outra coisa senão ensinar a fé e trazer almas a Cristo; e nesta conquista ninguém há que o não possa, e, ainda, que o não deva fazer. Primeiramente nesta missão do Rio das Almazonas, que amanhã parte — e que Deus seja servido levar e trazer tão carregada de despojos do céu, como esperamos, e com tanto remédio para a terra, como se deseja — que português vai de escolta, que não vá fazendo ofício de apóstolo? Não só são apóstolos os missionários, senão também os soldados e capitães, porque todos vão buscar gentio e trazê-los ao lume da fé e ao grêmio da Igreja. A Igreja formou-se do lado de Cristo, seu esposo, como Eva se formou do lado de Adão. E formou-se quando do lado de Cristo na cruz saiu sangue e água: Exivit sanguis et aqua (Jo. 19, 34).O sangue significava o preço da Redenção, e a água, a água do Batismo. E saiu o sangue junto com a água, porque a virtude que tem a água é recebida do sangue. Mas, pergunto agora, este lado de Cristo, donde se saiu e se formou a Igreja, quem o abriu? Abriu-o um soldado com uma lança, diz o texto: Unus militum lancea latus ejus aperuit (ibid). Pois também os soldados concorrem para a formação da Igreja? Sim, porque muitas vezes é necessário que os soldados com suas armas abram e franqueiem a porta, para que por essa porta aberta e franqueada se comunique o sangue da Redenção e a água do Batismo: Et continuo exivit sanguis et aqua. E quando a fé se prega debaixo das armas e à sombra delas, tão apóstolos são os que pregam como os que defendem, porque uns e outros cooperam à salvação das almas.

E se eu agora dissesse que nesta conquista, assim como os homens fazem ofício de apóstolos na campanha, assim o podem fazer as mulheres em suas casas? Diria o que já disseram grandes autores: eles na campanha trazendo almas para a Igreja, fazem ofício de apóstolos; e elas em suas casas, doutrinando seus escravos e escravas, fazem ofícios de apóstolas. Não é o nome nem a gramática minha; é do doutíssimo Salmeirão, o qual chamou às Marias: Apostolorum apostolas: Apóstolas dos apóstolos. E por quê? Porque lhes anunciaram o mistério da Ressurreição de Cristo. Pois, se aquelas mulheres, que anunciaram a homens, já cristãos e discípulos de Cristo, um só mistério, merecem nome de apóstolas, aquelas que anunciam e ensinam a seus escravos gentios e rudes todos os mistérios da salvação, quanto mais merecem este nome? Põe-se uma de vós a ensinar por amor de Deus ao seu tapuia e à sua tapuia o Creio-em-Deus-Padre, e que lhe ensina? Ensina-lhe o mistério altíssimo da Santíssima Trindade, o mistério da Encarnação, o da Morte, o da Ressurreição, o da Ascensão de Cristo, o da vinda do Espírito Santo, o do Juízo, o da Vida Eterna, e todos os que cremos e professamos os cristãos. Vede se merece nome de apóstola uma mestra destas?

Não há dúvida que homens e mulheres todos são capazes deste altíssimo nome e deste divino ou diviníssimo exercício. Faz duas parábolas Cristo no Evangelho, uma de um pastor que perdeu uma ovelha, e a foi buscar e trazer dos matos aos ombros, outra de uma mulher que perdeu uma dracma, ou moeda de prata, e acendeu uma candeia para a buscar, e a buscou e achou em sua casa. Esta ovelha e esta moeda perdidas e achadas, são as almas desencaminhadas e erradas que se convertem e encaminham a Deus; quem buscou e achou a ovelha na primeira parábola, e quem buscou e achou a moeda na segunda, são os ministros evangélicos, que trazem e reduzem a Deus estas almas. Pois, se em uma e outra parábola significam estas duas pessoas os ministros evangélicos que trazem almas a Deus, por que na primeira introduziu Cristo um homem, que é o pastor, e na segunda uma mulher, que é a que acendeu a candeia? Para nos ensinar Cristo que assim homens como mulheres todos podem salvar almas: os homens no campo com o cajado, e as mulheres em casa com a candeia; os homens no campo, entrando pelos matos com as armas, e as mulheres em casa, alumiando e ensinando a doutrina.

Vede como estava isto profetizado pelo profeta Joel, no mesmo capítulo segundo, que foi o que hoje declarou S. Pedro ao povo de Jerusalém; Sed et super servos meos, et ancillas in diebus illis effundam spiritum meum, et prophetabunt (Jl. 2,29); Naqueles dias — diz Deus — derramarei o meu Espírito sobre os meus servos e sobre as minhas servas, e todos pregarão. — Notai; não diz Deus que derramará o seu Espírito só sobre os servos, senão sobre os servos e sobre as servas: Super servos meos, et super ancillas: porque não só os homens, senão os homens e também as mulheres podem e devem, e hão de pregar, e dilatar a fé, cada um conforme seu estado: Et prophetabunt. Por isso hoje, com grande mistério, no Cenáculo de Jerusalém, onde desceu o Espírito Santo, não só se acharam homens, senão mulheres: Hiomnes erant perseverantes unanimiter in oratione cum mulieribus [1].

Estavam homens e estavam mulheres no Cenáculo, porque a homens e a mulheres vinha o Espírito Santo fazer mestres e mestras da doutrina do céu, e ensiná-los para que a ensinassem: Ille vos docebit.

VI

Suposto pois que não só aos eclesiásticos, senão também aos seculares, não só aos homens, senão também às mulheres pertence, ou de caridade ou de justiça, ou de ambas estas obrigações, ensinar a fé e a lei de Cristo aos gentios e novos cristãos naturais destas terras em que vivemos, cada um conforme seu estado, não haja, de hoje em diante, com a graça do Espírito Santo, quem se não faça discípulo deste divino e soberano Mestre, para o poder ser ao menos dos seus escravos. Os que sabeis a língua, tereis maior facilidade; os que a não sabeis, tereis maior merecimento. E uns e outros, ou por nós mesmos — que sempre será o melhor — ou por outrem, vos deveis aplicar a este tão cristão e tão devido exercício, com tal diligência e cuidado, que nenhum falte com o pasto necessário da doutrina às poucas ou muitas ovelhinhas de Cristo que o Senhor lhes tiver encomendadas, pois todos nesta conquista sois pastores ou guardadores deste grande pastor. Muitos o fazem assim com grande zelo, cristandade e edificação; mas é bem que o façam todos.

E ninguém se escuse — como escusam alguns — com a rudeza da gente, e com dizer, como acima dizíamos, que são pedras, que são troncos, que são brutos animais, porque, ainda que verdadeiramente alguns o sejam ou o pareçam, a indústria e a graça tudo vence, e de brutos, e de troncos, e de pedras os fará homens. Dizei-me, qual é mais poderosa, a graça ou a natureza? A graça, ou a arte? Pois o que faz a arte e a natureza, por que havemos de desconfiar que o faça a graça de Deus, acompanhada da vossa indústria? Concedo-vos que esse índio bárbaro e rude seja uma pedra: vede o que faz em uma pedra a arte. Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe, e, depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão, e começa a formar um homem, primeiro membro a membro, e depois feição por feição, até a mais miúda: ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos; aqui desprega, ali arruga, acolá recama, e fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar. O mesmo será cá, se a vossa indústria não faltar à graça divina. É uma pedra, como dizeis, esse índio rude? Pois, trabalhai e continuai com ele — que nada se faz sem trabalho e perseverança — aplicai o cinzel um dia e outro dia, dai uma martelada e outra martelada, e vós vereis como dessa pedra tosca e informe fazeis não só um homem, senão um cristão, e pode ser que um santo.

Não é menos que promessa e profecia do maior de todos os profetas; Potens est Deus de lapidibus istis suscitare filios Abrahae (Lc. 3,8): Poderoso é Deus a fazer destas pedras filhos de Abraão. — Abraão é o pai de todos os que têm fé; e dizer o Batista que Deus faria de pedras filhos de Abraão foi certificar e profetizar que de gentios idólatras, bárbaros e duros como pedras, por meio da doutrina do Evangelho havia Deus de fazer não só homens, senão fiéis, e cristãos, e santos. Santo Ambrósio: Quid aliud quam lapides habebantur; qui lapidibus serviebant, similes utique his qui fecerant eos?

Prophetatur igitur saxo, sit gentilium fides infundenda pectoribus, et futuros per fidem Abrahae filios oraculo pollicetur Assim o profetizou o Batista, e assim como ele foi o profeta deste milagre, vós sereis o instrumento dele. Ensinai e doutrina estas pedras, e fareis de pedras não estátuas de homens, senão verdadeiros homens e verdadeiros filhos de Abraão por meio da fé verdadeira. O que se faz nas pedras, mais facilmente se pode fazer nos troncos, onde é menor a resistência e a bruteza.

Só para fazer de animais homens não tem poder nem habilidade a arte; mas a natureza sim, e é maravilha que por ordinário o não parece. Vede-a. Fostes à caça por esses bosques e campinas, matastes o veado, a anta, o porco montês; matou o vosso escravo o camaleão, o lagarto, o crocodilo; como ele com os seus praceiros, comestes vós com os vossos amigos. E que se seguiu? Dali a oito horas, ou menos — se com menos se contentar Galeno — a anta, o veado, o porco montês, o camaleão, o lagarto, o crocodilo, todos estão convertidos em homens: já é carne de homem o que pouco antes era carne de feras. Pois se isto pode fazer a natureza por força do calor natural, por que o não fará a graça muito mais eficazmente por força do calor e fogo do Espírito Santo? Se a natureza, naturalmente, pode converter animais feros em homens, a graça, sobrenaturalmente, por que não fará esta conversão? O mesmo Espírito autor da graça o mostrou assim, e o ensinou a S. Pedro. Estava S. Pedro em oração na cidade de Jope; eis que vê abrir-se o céu, e descer um como grande lençol — assim lhe chama o texto — suspendido por quatro pontas, e no fundo dele uma multidão confusa de feras, de serpentes, de aves de rapina e de todos os outros animais silvestres, bravos, asquerosos e peçonhentos, que na lei velha se chamavam imundos. Três vezes na mesma hora viu S. Pedro esta representação, cada vez mais suspenso e duvidoso do que poderia significar, e três vezes ouviu juntamente uma voz que lhe dizia: Surge Petre, occide et manduca (At. 10,13): Eia, Pedro, matai e comei. — As palavras não declaravam o enigma, antes o escureciam mais, porque lhe parecia a S. Pedro impossível que Deus, que tinha vedado aqueles animais, lhos mandasse comer. Batem à porta neste mesmo ponto, e era um recado ou embaixada de um senhor gentio, chamado Cornélio, capitão dos presídios romanos de Cesaréia, o qual se mandava oferecer a S. Pedro, para que o instruísse na fé, e o batizasse. Este gentio, como diz Santo Ambrósio, foi o primeiro que pediu e recebeu a fé de Cristo, e por este efeito, e pela declaração de um anjo, entendeu então S. Pedro o que significava a visão. Entendeu que aquele lençol tão grande era o mundo; que as quatro pontas por onde se suspendia eram as quatro partes dele; que os animais feros, imundos e reprovados na lei, eram as diversas nações de gentios, bárbaras e indómitas, que até então estavam fora do conhecimento e obediência de Deus, e que o mesmo Senhor queria que viessem a ela. Até aqui o texto e a inteligência dele.

Mas se aqueles animais significavam as nações dos gentios, e estas nações queria Deus que S. Pedro as ensinasse e convertesse, como lhe manda que as mate e que as coma? Por isso mesmo: porque o modo de converter feras em homens, é matando-as e comendo-as, e não há coisa mais parecida ao ensinar e doutrinar que o matar e o comer. Para uma fera se converter em homem há de deixar de ser o que era e começar a ser o que não era, e tudo isto se faz matando-a e comendo-a: matando-a, deixa de ser o que era, porque, morta, já não é fera; comendo-a, começa a ser o que não era, porque, comida, já é homem. E porque Deus queria que S. Pedro convertesse em homens, e homens fiéis, todas aquelas feras que lhe mostrava, por isso a voz do céu lhe dizia que as matasse e as comesse; Occide et manduca — querendo-lhe dizer que as ensinasse e doutrinasse, porque o ensinar e doutrinar havia de fazer nelas os mesmos efeitos que o matar e o comer. Ouvi a S. Gregório Papa: Primo pastori dicitur macta et manduca quod mactatur quippe a vita occiditur; id vero quod comeditur in comedentis corpore commutatur: macta ergo, et manduca, dicitur id est, a peccato eos qui vivunt interfice, et a se ipsis illos in tua membra convertere.

Querendo Deus que S. Pedro ensinasse a fé àqueles gentios, diz-lhe que os mate e que os coma, porque o que se mata deixa de ser o que é, e o que se come converte-se na substância e nos membros de quem o come. E ambos estes efeitos haviam de obrar a doutrina de S. Pedro naqueles gentios feros e bárbaros. Primeiro haviam de morrer, porque haviam de deixar de ser gentios; e logo haviam de ser comidos e convertidos em membros de S. Pedro, porque haviam de ficar cristãos e membros da Igreja, de que São Pedro é a cabeça. De maneira que, assim como a natureza faz de feras homens, matando e comendo, assim também a graça faz de feras homens, doutrinando e ensinando. Ensinastes o gentio bárbaro e rude, e que cuidais que faz aquela doutrina? Mata nele a fereza, e introduz a humanidade; mata a ignorância, e introduz o conhecimento; mata a bruteza, e introduz a razão; mata a infidelidade, e introduz a fé; e deste modo, por uma conversão admirável, o que era fera fica homem, o que era gentio fica cristão, o que era despojo do pecado fica membro de Cristo e de S. Pedro; Occide et manduca. E como a graça do Espírito Santo, por meio da doutrina da fé, melhor que a arte e melhor que a natureza, de pedras e de animais sabe fazer homens, ainda que os destas conquistas fossem verdadeiramente, ou tão irracionais como os brutos, ou tão insensíveis como as pedras, não era bastante dificuldade esta, nem para desculpar o descuido, nem para tirar a obrigação de os ensinar: Ille vos docebit.

(cont)







[1] Todos estes perseveraram unanimemente em oração com as mulheres (At. 1,14).

20/08/2014

Evang.; Coment.; Leit. Esp. (Magistério - Ratzinguer)

Tempo comum XX Semana

Evangelho: Mt 20, 1-16

1 «O Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que, ao romper da manhã, saiu a contratar operários para a sua vinha. 2 Tendo ajustado com os operários um denário por dia, mandou-os para a sua vinha. 3 Tendo saído cerca da terceira hora, viu outros, que estavam na praça ociosos, 4 e disse-lhes: “Ide vós também para a minha vinha, e dar-vos-ei o que for justo”. 5 Eles foram. Saiu outra vez cerca da hora sexta e da nona, e fez o mesmo. 6 Cerca da undécima, saiu, e encontrou outros que estavam sem fazer nada, e disse-lhes: “Porque estais aqui todo o dia sem trabalhar?”. 7 Eles responderam: “Porque ninguém nos contratou”. Ele disse-lhes: “Ide vós também para a minha vinha”. 8 «No fim da tarde, o senhor da vinha disse ao seu feitor: “Chama os operários e paga-lhes o salário, começando pelos últimos até aos primeiros”. 9 Tendo chegado os que tinham ido à hora undécima, recebeu cada qual um denário. 10 Chegando também os primeiros, julgaram que haviam de receber mais; porém, também eles receberam um denário cada um. 11 Mas, ao receberem, murmuravam contra o pai de família, 12 dizendo: “Estes últimos trabalharam somente uma hora, e os igualaste connosco, que suportamos o peso do dia e o calor”. 13 Porém, ele, respondendo a um deles, disse: “Amigo, eu não te faço injustiça. Não ajustaste comigo um denário? 14 Toma o que é teu, e vai-te. Eu quero dar também a este último tanto como a ti. 15 Ou não me é lícito fazer dos meus bens o que quero? Porventura o teu olho é mau porque eu sou bom?”. 16 Assim os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos».

Comentário:

Uma das ilacções que podemos tirar deste trecho do Evangelho de São Mateus é a aparente indiferença pelos trabalhadores já contratados pelos outros que – deveriam sabê-lo - apareciam na praça em busca de trabalho.

Além de uma manifestação de indiferença e egoísmo é, sobretudo, uma manifesta falta de solidariedade para com os outros.

«ninguém nos contratou»! Não houve uma pessoa, sequer um companheiro de trabalho, ninguém lhes chamou a atenção que havia alguém disposto a contratá-los, a dar-lhes trabalho!

Trabalhar no Reino de Deus – a Sua vinha – é obter a garantia de uma paga justa, condigna, e, até, extraordinária porque, para o Senhor, nunca é tarde demais mesmo que seja ao fim da tarde, no ocaso da vida.

Não nos alheemos dos outros, quem quer que seja, jovem ou de mais idade, todos são dignos de ser chamados e, o Senhor, quer que, a todos, chegue o Seu convite.

(AMA, comentário, sobre Mt 20, 1-16, 2013.08.21)

Leitura espiritual




Magistério

cardeal joseph ratzinger

Algumas perguntas pessoais

…/12

Caminhos para Deus.

Quantos caminhos há para Deus?

Tantos quantas as pessoas. Porque até dentro da mesma fé o caminho de cada um é muito pessoal. Nós temos a palavra de Cristo: "Eu sou o Caminho". Neste sentido há, no fim das contas, um só caminho, e cada um que está a caminho de Deus está também, de alguma maneira, a caminho de Jesus Cristo. Isto não significa que, consciente e deliberadamente, todos os caminhos sejam idênticos, mas, pelo contrário, que o caminho é realmente tão grande que se torna, em cada um, o seu caminho pessoal [i].


Laicismo


Direitos humanos, dignidade.

Um primeiro elemento é o caráter incondicional com que a dignidade humana e os direitos humanos devem apresentar-se, como valores que precedem toda a jurisdição estatal. Estes direitos fundamentais não são criados pelo legislador nem são concedidos aos cidadãos, "mas existem por direito próprio e sempre devem ser respeitados pelo legislador, a quem são entregues como valores de ordem superior" [ii].
Esta validade da dignidade humana prévia a qualquer actuação ou decisão política remete-nos ao Criador: só Ele pode estabelecer valores que se fundam na essência do homem e que são intangíveis. Que existam valores não manipuláveis por ninguém é a garantia verdadeira e própria da nossa liberdade e da grandeza humana; a fé cristã vê nisto o mistério do Criador e da condição de imagem de Deus que Ele conferiu ao homem.

Ora bem, hoje em dia quase ninguém negará diretamente a preeminência da dignidade humana e dos direitos humanos fundamentais em face de toda a decisão política; são ainda demasiado recentes os horrores do nazismo e da sua teoria racista. Mas no âmbito concreto do assim chamado progresso da Medicina, há ameaças muito reais para estes valores: quer pensemos na clonagem, ou na conservação de fetos humanos para a pesquisa e na doação de órgãos, ou ainda em todo o âmbito da manipulação genética, a lenta erosão da dignidade humana que nos ameaça aqui não pode ser desconhecida por ninguém. Acrescentam-se a isso, de maneira crescente, o tráfico de pessoas humanas, as novas formas de escravidão, o comércio de órgãos humanos para transplantes.
Sempre se aduzem finalidades boas para justificar o injustificável [iii].

Laicismo.

O laicismo já não é o elemento de neutralidade que abre espaços de liberdade para todos. Começa a transformar-se numa ideologia imposta através da política, e não concede espaço público à visão católica e cristã, que corre o risco de transformar-se em algo puramente privado e, no fundo, mutilado. [...]
Neste sentido, existe uma luta; devemos defender a liberdade religiosa contra a imposição de uma ideologia que se apresenta como se fosse a única voz da racionalidade, quando apenas é expressão de um "certo" racionalismo [iv].

Laicidade.

A laicidade justa é a liberdade de religião. O Estado não impõe uma religião, mas deixa espaço livre às religiões, que por sua vez têm responsabilidades perante a sociedade civil. Assim permite que essas religiões sejam factores na construção da vida social [v].

Reino de Deus e reino de César.

Esta distinção entre o reino de Deus e o de César está na origem do conceito de liberdade que se desenvolveu na Europa, no Ocidente.

Implica que a religião oferece ao homem uma visão para a vida inteira, não apenas para a vida espiritual. Mas a instituição religiosa não é totalitária, antes encontra-se limitada pelo Estado. E o Estado não pode pretender controlar tudo, porque por sua vez está limitado pela liberdade religiosa. O Estado não é tudo, e a Igreja, neste mundo, não é tudo. Entendida neste sentido, a laicidade é profundamente cristã.
A hostilidade dos nazis para com o cristianismo, especialmente para com o catolicismo, fundava-se na ideia de que o Estado é tudo.

Mas se laicismo significa que na vida pública não há lugar para Deus, então estamos diante de um grave erro. As instituições políticas e as instituições religiosas têm âmbitos que lhes são próprios. Os valores fundamentais da fé, porém, devem manifestar-se publicamente, não por meio da força institucional da Igreja, e sim por meio da força da sua verdade interior. Quando o laicismo pretende excluir a religião, comete uma mutilação do ser humano [vi].


As novas ideologias


As três grandes correntes ideológicas actuais.

Em primeiro lugar, [mencionemos] a ideia básica da teologia da libertação, que, no fundo, teve eco em quase todos os continentes. [Antes de mais nada,] é preciso ressalvar que pode ser interpretada num sentido positivo. A ideia fundamental é que o cristianismo também tem de ter efeito na existência terrena do homem: tem de lhe dar a liberdade de consciência, mas também tem de procurar fazer valer os direitos sociais do homem. Mas quando essa ideia é aproveitada num sentido unilateral, procura, em geral, ver no cristianismo o instrumento de uma transformação política do mundo.
A partir desse ponto, tomou forma a ideia de que todas as religiões seriam apenas instrumentos para a defesa da liberdade, da paz e da preservação da Criação; teriam, pois, de justificar-se através de um sucesso político e de um objetivo político.
Essa temática varia segundo as situações políticas, mas atravessa os continentes.
Hoje, enraizou-se fortemente na Ásia, mas também na África. Penetrou até no mundo islâmico, onde também há tentativas de interpretar o Corão no sentido da teologia da libertação; são marginais, mas nos movimentos terroristas islâmicos a ideia de que o Islão deveria realmente ser um movimento de libertação - por exemplo, contra Israel - teve um papel fundamental.

Entretanto, a ideia de libertação - se pudermos chamar liberdade ao denominador fundamental da espiritualidade moderna e do nosso século - também se fundiu fortemente com a ideologia feminista. A mulher é considerada o ser oprimido por excelência: por essa razão, a libertação da mulher seria o núcleo de toda a actividade libertadora. Aqui ultrapassou-se, por assim dizer, a teologia da libertação política mediante outra antropológica.
Não se pensa apenas na libertação dos vínculos próprios do papel da mulher, mas na libertação da condição biológica do ser humano. Distingue-se então o fenómeno biológico da sexualidade das suas expressões históricas, às quais se chama "género", mas a revolução que se quer provocar contra toda a forma histórica da sexualidade conduz a uma revolução que também é contra as condições biológicas: já não pode haver dados naturais; o homem deve poder moldar-se arbitrariamente, deve ser livre de todos os condicionalismos do seu ser; ele próprio se tornaria o que quer, e só desse modo seria realmente "livre" e estaria libertado.
Por trás disso encontramos uma revolta do homem contra os limites que o seu ser biológico envolve.
Trata-se, em última análise, de uma revolta contra a própria condição de criatura.
O homem deveria ser o criador de si mesmo - uma nova edição, moderna, da velha tentativa de ser Deus, de ser como Deus.

O terceiro fenómeno que se observa em todo o mundo - sobretudo num mundo cada vez mais uniformizado - é a busca de uma identidade cultural própria, expressa no termo "inculturação".
Na América Latina, a redescoberta das culturas perdidas é agora, depois de a onda marxista ter diminuído, uma nova corrente forte.
A theoíogia india quer voltar a despertar a cultura e a religião pré-colombianas e libertar-se, por assim dizer, da penetração excessiva de elementos europeus que lhe foi imposta. As ligações directas com o feminismo são interessantes.
Saliente-se o culto da "Mãe-terra" e, em geral, do elemento feminino em Deus, o que acentua as tendências do feminismo americano-europeu, que já não quer apenas fazer afirmações antropológicas, mas reformar o conceito de Deus. Ter-se-ia projectado em Deus a estrutura patriarcal e, assim, fixado a opressão da mulher a partir do conceito de Deus.
O elemento cósmico (Mãe-terra, etc.) dessa renovação das antigas religiões conflui depois com as tendências da New Age, que visa uma fusão de todas as religiões e uma nova unidade do homem e do cosmos [vii].

Fundamentalismo.

O fundamentalismo, de acordo com o seu sentido originário, é uma corrente surgida no protestantismo norte-americano do século XIX, que se pronunciou contra o evolucionismo e a crítica bíblica, e que, junto com a defesa da absoluta infalibilidade da Escritura, tentou proporcionar um sólido fundamento cristão contra os dois. Sem dúvida, há analogias com esta posição noutros universos espirituais, mas se a analogia for convertida em identidade, incorre-se numa simplificação errónea.

Dessa fórmula, extraiu-se uma chave demasiado simplificada através da qual se pretende dividir o mundo em duas metades, uma boa e a outra má. A linha do pretenso fundamentalismo estende-se então desde o âmbito protestante e católico até ao islâmico e marxista.
A diferença de conteúdos já não conta para nada.
Fundamentalista seria sempre aquele que tem convicções firmes, e por isso actuaria como factor criador de conflitos e inimigo do progresso. Boa seria, pelo contrário, a dúvida, a luta contra antigas convicções, e com isso seriam bons todos os movimentos modernos não-dogmáticos ou anti-dogmáticos.
Mas, como é evidente, se se parte de um esquema classificativo puramente formal, não se pode interpretar realmente o mundo [viii].

Ateísmo prático.

Pela leitura de diversos documentos do Magistério, parece inferir-se que, do ponto de vista pastoral, uma das principais preocupações da Igreja com relação ao homem contemporâneo é o ateísmo. Trata-se, hoje, mais de um ateísmo prático que de um ateísmo ideológico?

A raiz de todos os problemas pastorais é, sem dúvida, a perda da capacidade de perceber a verdade, que avança lado a lado com a cegueira perante a realidade de Deus. Vale a pena sublinhar como interagem aqui o orgulho e a falsa humildade.
Em primeiro lugar vem o orgulho, que incita o homem a emular o próprio Deus, a considerar-se capaz de entender sozinho, os problemas do mundo e de reconstruí-lo. Na mesma medida, surge a falsa modéstia, que sustenta a ideia de que é inteiramente impossível que Deus se preocupe com os homens e chegue até a falar-lhes. O ser humano já não se atreve a aceitar que é capaz de conhecer a verdade: parece-lhe uma presunção, e pensa que deve conformar-se com agir.

Em consequência, a Sagrada Escritura torna-se muda para ele: já não lhe diz o que é verdade, mas apenas o informa sobre o que tempos e homens passados pensavam que fosse verdadeiro. Com isso, muda também a imagem da Igreja: ela deixa de ser a transparência do Eterno e passa a ser apenas uma espécie de liga em prol da moral e do melhoramento das coisas terrenas; a medida do seu valor estaria no seu êxito terreno.

Infiltram-se aqui, necessariamente, o ateísmo prático e o ideológico, juntamente com uma certa conveniência. Primeiro, procede-se apenas como se Deus não existisse; mas depois é preciso justificar essa posição, explicando o primado da práxis [da ação].

Daqui para a ideologia, é um passo curto [ix].

Marxismo.

Em última análise, a doutrina da salvação marxista, nas suas numerosas versões articuladas de diferentes maneiras, nasceu com a pretensão de ser uma visão única e científica do mundo, acompanhada de uma motivação ética capaz de conduzir a humanidade rumo ao futuro. Assim se explica a sua difícil despedida, mesmo depois do trauma de 1989. Basta pensar em como foi discreta a discussão sobre os horrores dos "gulags" comunistas, e em como foi pouco escutada a voz de Alexander Solzhenitsin: disto não se fala. O silêncio foi imposto por uma espécie de pudor.
Mesmo o sanguinário regime de Pol Pot só é mencionado de vez em quando, de passagem. Mas ficou o desengano, juntamente com uma profunda confusão: hoje, já ninguém acredita nas grandes promessas morais [das ideologias].

O marxismo concebia-se a si mesmo nestes termos: uma corrente que desejava a justiça para todos, o advento da paz, a abolição das injustificadas relações de predomínio do homem sobre o homem, etc. Para alcançar esses nobres objetivos, pensou que seria necessário renunciar aos princípios éticos e que se podia usar o terror como instrumento do bem. No momento em que todos puderam ver, ainda que apenas de fora na superfície, as ruínas provocadas na humanidade por essa ideia, as pessoas preferiram refugiar-se na vida pragmática e professar publicamente o desprezo pela ética [x].

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





Notas:
[i] O sal da terra, págs. 27-28
[ii] Anteprojeto para a Constituição Europeia, 2004
[iii] Fundamentos espirituales de Europa
[iv] El laicismo está poniendo en peligro la libertad religiosa
[v] Ibid
[vi] L’abolition de l’homme
[vii] O sal da terra, págs. 107-109
[viii] "El fundamentalismo islâmico", em Una mirada a Europa, Rialp, Madrid, 1993
[ix] Entrevista a Jaime Antúnez Aldunate
[x] Introducción ai cristianismo