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28/01/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


 Tempo Comum
Semana III

São Tomás de Aquino – Doutor da Igreja

Evangelho: Mc 4, 21-25

21 Dizia-lhes mais: «Porventura traz-se a lâmpada para se pôr debaixo do alqueire ou debaixo da cama? Não é para ser posta sobre o candelabro? 22 Porque não há coisa alguma escondida que não venha a ser manifesta, nem que seja feita para estar oculta, mas para vir a público. 23 Se alguém tem ouvidos para ouvir, oiça». 24 Dizia-lhes mais: «Atendei ao que ouvis. Com a medida com que medirdes vos medirão a vós, e ainda se vos acrescentará. 25 Porque ao que tem, dar-se-lhe-á ainda mais e ao que não tem, ainda o que tem lhe será tirado».

Comentário:

Ao considerarmos este trecho de São Marcos voltamos sempre à mesma reflexão:

‘Sou cristão! Sou Filho de Deus! Sou – devo ser – o reflexo da Sua luz que ilumina o mundo!

Como poderei fazê-lo se “ficar em casa”, não contactar os outros, enfim… se não fizer apostolado?

Convençamo-nos que ser apóstolo não é mais que reflectir nos outros a Luz que recebemos de Cristo.

(ama, comentário sobre Mc 4, 21-25, Malta, 2015.01.29)


Leitura espiritual



Vida cristã

Protagonistas da nossa vida

«Peço-vos para serdes construtores do mundo, que trabalheis por um mundo melhor. Queridos jovens, por favor, não fiqueis a olhar a vida “da varanda", metei-vos nela, Jesus não ficou na varanda, mergulhou… “Não olheis a vida da varanda", mergulhai nela como fez Jesus» [i].

Face a estas palavras do Papa Francisco aos jovens, surgem imediatamente algumas perguntas, que o próprio Romano Pontífice formulava a seguir:
«Começamos? Por onde? Por ti e por mim! Cada um, de novo em silêncio, interrogue-se: se devo começar por mim, por onde principio? Abra cada um o seu coração, para que Jesus lhe diga por onde começar.» [ii].

Para sermos protagonistas dos acontecimentos do mundo é indispensável começar por ser protagonistas da nossa própria vida.


Livres e condicionados


Este protagonismo implica reconhecer que se bem que as circunstâncias familiares ou sociais influem no nosso caráter, não o determinam de um modo absoluto.
O mesmo se pode dizer dos instintos mais elementares que provêm da constituição corporal e também da herança genética: marcam algumas tendências, mas podem-se moldar e orientar com o exercício de uma vontade que segue a razão bem formada.

A nossa personalidade forja-se na medida em que tomamos decisões livremente, já que as acções humanas não se dirigem unicamente a mudar o nosso ambiente, mas também influem no nosso modo de ser.
Ainda que por vezes aconteça de uma maneira não muito consciente, a repetição de actos faz com que adquiramos determinados costumes ou adotemos uma postura diante da realidade.
Por isso, quando explicamos a razão das nossas reações espontâneas, mais do que dizer "eu sou assim", muitas vezes teríamos que admitir: "eu fiz-me assim".

Temos condicionamentos que muitas vezes são difíceis de controlar, como a qualidade das relações familiares, o ambiente social em que se cresce, uma doença que nos limita nalgum sentido, etc.
Frequentemente, não é possível ignorá-los ou remediá-los, mas pode-se, sim, mudar a atitude com que se enfrentam, sobretudo se tivermos consciência de que nada escapa aos cuidados providentes de Deus:

É necessário repetir uma e outra vez que Jesus não se dirigiu a um grupo de privilegiados, mas que veio revelar-nos o amor universal de Deus. Todos os homens são amados de Deus, de todos eles espera amor [iii].

Em qualquer circunstância, mesmo com grandes limitações, podemos dar a Deus e ao próximo obras de amor, por mais pequenas que pareçam; quem sabe quanto vale um sorriso no meio da tribulação, o oferecimento ao Senhor da dor em união com a Cruz, a aceitação paciente das contrariedades?
Nada pode superar um amor sem limites, mais forte que a dor, que a solidão, que o abandono, que a traição, que a calúnia, que o sofrimento físico e moral, que a própria morte.


Artífices da própria vida


Descobrir os talentos pessoais – virtudes, capacidades, jeitos, agradecê-los e retirar-lhes o partido possível é tarefa da nossa liberdade. Mas temos que recordar que aquilo que mais estrutura a personalidade cristã são os dons de Deus, que incidem no mais íntimo do nosso ser.
Entre eles encontra-se, de modo eminente, o presente imenso da filiação divina, recebido com o Batismo.
Graças a esta, o Pai vê em nós a imagem – ainda que imperfeita, pois somos criaturas limitadas – de Jesus Cristo, que se torna cada vez mais clara com o sacramento da Confirmação, o perdão transformador da Penitência e, especialmente, a comunhão com o seu Corpo e o seu Sangue.

Partindo destes dons recebidos da mão de Deus, cada pessoa, queira ou não, é autor da sua existência.
Com palavras de São João Paulo II, «confia-se a cada homem a tarefa de ser artífice da própria vida; de certo modo, deve fazer dela uma obra de arte, uma obra-prima» [iv].

Somos donos dos nossos actos – o Senhor, desde o princípio, criou o homem e deixou-lhe nas mãos o seu próprio arbítrio [v]; somos nós, se quisermos, que levamos as rédeas das nossas vidas no meio das tormentas e dificuldades.

Somos livres!
Esta descoberta experimenta-se com algo de incerteza; para onde levarei a minha vida?
Mas sobretudo com alegria:

Deus, ao criar-nos, correu o risco e a aventura da nossa liberdade. Quis uma história que seja uma história verdadeira, feita de decisões autênticas e não uma ficção nem um jogo [vi].

Nesta aventura não estamos sós; contamos, em primeiro lugar, com a ajuda do próprio Deus, que nos propõe uma missão e também com a colaboração dos outros, familiares, amigos, até de pessoas que coincidem casualmente connosco nalgum momento da existência.
O protagonismo na própria vida não implica negar que para muitos aspetos somos dependentes e se consideramos que esta dependência é recíproca, então também poderíamos dizer que somos interdependentes.
A liberdade, portanto, não se basta a si própria; ficaria vazia se não a empregássemos para nos comprometermos em coisas grandes, magnânimas.
Como veremos, a liberdade é para a entrega ou, dito de outro modo, só tem lugar uma liberdade entregue.


Um caminho para recorrer


S. Josemaria costumava recordar um cartaz que encontrou em Burjasot (Valência), pouco tempo depois do fim da guerra civil espanhola, com uma frase que não poucas vezes citou na sua pregação:

"Cada caminhante siga o seu caminho"

Cada alma vive a sua própria vocação de um modo pessoal, com os seus próprios acentos:

Pode andar-se pela direita, pela esquerda, em zig-zag, caminhando com os pés, a cavalo.
Há cem mil maneiras de andar pelo caminho divino [vii].

Cada pessoa é o autor principal da sua história de santidade, cada uma tem o seu selo distintivo, na configuração de qualquer faceta da sua existência e da sua personalidade, evitando o mero "deixar-se levar" pelos acontecimentos.

Livremente — como filhos, insisto, não como escravos — seguimos o caminho que o Senhor assinalou para cada um de nós. Saboreamos esta facilidade de movimentos como um presente de Deus [viii].

Esta liberdade – soberania humana – vai pela mão da responsabilidade, do saber que somos "feitura de Deus":
Um sonho divino que se torna realidade na medida em que experimentamos o amor sem condições, que pede a nossa resposta.
O amor de Deus afirma a nossa liberdade e eleva-a a níveis insuspeitados com a Sua graça.
Cada pessoa nota a necessidade de se abrir a alguém mais, de partilhar a existência, de dar e de receber amor.
Cada pessoa nota a necessidade de se abrir a alguém mais, de partilhar a existência, de dar e de receber amor.


Caminhar acompanhados


Dentro dos planos divinos, a vida está feita para se partilhar; o Senhor conta com a ajuda mútua que prestam os seres humanos uns aos outros.
Verificamo-lo, de facto, todos os dias; tantas vezes nem sequer somos capazes de cobrir as necessidades mais básicas e perentórias de maneira individual.
Ninguém pode ser completamente autónomo.
Num nível mais profundo, cada pessoa nota essa necessidade de se abrir a alguém mais, de compartilhar a existência, de dar e de receber amor.


«Ninguém vive só. Ninguém peca sozinho. Ninguém se salva sozinho. Na minha vida entra continuamente a dos outros, no que penso, digo, naquilo em que me ocupo ou faço. E vice-versa, a minha vida entra na vida dos outros, tanto no bem como no mal» [ix].


Esta abertura natural para os outros chega à sua máxima expressão nos planos redentores do Senhor.
Quando recitamos o Símbolo dos Apóstolos, confessamos que cremos na comunhão dos santos, comunhão que é o âmago da Igreja.
Por isso, na vida espiritual, é também indispensável aprender a contar com a ajuda dos outros, que estão implicados de um ou de outro modo na nossa relação com Deus; recebemos a fé através dos ensinamentos dos nossos pais e catequistas; participamos dos sacramentos que celebra um ministro da Igreja; recorremos ao conselho espiritual de outro irmão na fé, que também reza por nós; etc.

Saber que caminhamos acompanhados na vida cristã enche-nos de alegria e tranquilidade, sem que diminua o nosso próprio empenho por alcançar a santidade.
Ainda que muitas vezes nos deixemos levar pela mão, o nosso papel não se limita a isso.

São Josemaria, ao referir-se à vida espiritual, manifestava que o conselho não elimina a responsabilidade pessoal. E concluía: a direção espiritual deve tender para formar pessoas de critério [x].


Por isso, não queremos que nos supram nas resoluções que tomamos, nem deixar de pôr esforço nas tarefas que fizemos próprias.

Ao mesmo tempo que reconhecemos a ajuda indispensável dos outros, temos que ter consciência de que, na vida espiritual é o Senhor quem atua através deles para nos transmitir a Sua luz e força.
Isto dá-nos segurança para continuar a caminhar para a santidade quando, por um ou outro motivo, faltam aquelas pessoas que tinham um papel importante na nossa vida cristã.
Neste sentido, também gozamos de uma profunda liberdade de espírito em relação às pessoas que Deus pôs ao nosso lado, a quem amamos através do coração de Cristo e cujo apoio agradecemos profundamente.


Livres para amar sem condições


Os cristãos sabem que a plenitude pessoal chega como fruto da livre e total disponibilidade aos desejos do Amor de um Deus Criador, Redentor e Santificador.
Os dons que recebemos atingem o seu máximo rendimento ao abrir-nos à graça de Deus, como confirma a experiência de tantos santos e santas.
Ao deixar que o Senhor se metesse nas suas vidas, souberam pôr-se amorosamente ao seu serviço, como Santa Maria que, no momento da Anunciação pronuncia a resposta firme: fiat! —faça-se em mim segundo a tua palavra! — o fruto da melhor liberdade:

A de se decidir por Deus [xi].

Quando uma pessoa se decide por Deus, empenha os seus sonhos e energias naquilo que mais vale a pena.
Apercebe-se do sentido último da liberdade, que não está simplesmente em poder escolher uma coisa ou outra, mas em poder dispor da vida para algo grande, aceitando compromissos definitivos.
Dedicar as próprias qualidades a seguir a Cristo, ainda que por vezes implique recusar outras opções, traz a felicidade, o cem por um [xii] na terra e a vida eterna [xiii].

Reflete também um alto grau de maturidade interior, pois só quem tem uma personalidade com convicções é capaz de se comprometer de uma maneira total.

Livremente, sem coação alguma, porque me apetece, decido-me por Deus [xiv].


Abandonar passado, presente e futuro no Senhor


A alma que opta por Deus move-se com uma paz interior que supera qualquer tribulação.

Sei em quem acreditei [xv]: são palavras que expressam a confiança de São Paulo no meio das dificuldades por ser fiel à sua vocação de apóstolo das gentes.

Quem põe o Senhor por fundamento, goza de uma segurança inquebrantável e isto permite-lhe doar-se também aos outros, vivendo o celibato por motivos apostólicos ou no matrimónio ou em tantos outros caminhos que pode tomar a existência cristã.
É uma entrega que abarca presente, passado e futuro, como rezava São Josemaria:

Senhor, meu Deus: nas tuas mãos abandono o passado, o presente e o futuro, o pequeno e o grande, o pouco e o muito, o temporal e o eterno [xvi].


Ninguém pode alterar o passado.
No entanto, o Senhor toma a história de cada um, perdoa no sacramento da Reconciliação os pecados que possam ter existido e reintegra harmoniosamente esses acontecimentos na vida dos seus filhos. Tudo é para bem [xvii]: mesmo os erros que cometemos, se sabemos recorrer à misericórdia divina e, com a graça de Deus, procuramos viver no presente mais pendentes d'Ele.
Assim se está também em condições de ver confiadamente o futuro, pois sabemos que está nas mãos de um Pai que nos ama; quem está nas mãos de Deus, cai e levanta-se sempre nas mãos de Deus!

Decidir-se por Deus é aceitar o seu convite para que escrevamos a nossa biografia com Ele.
Reconhecendo humildemente a liberdade como um dom, empregamo-la em cumprir, em companhia de tantas outras pessoas, a missão que o Senhor nos confia.

E experimentamos com alegria que os seus planos superam as nossas previsões, como dizia São Josemaria a um jovem:

Deixa-te levar pela graça!
Deixa que o teu coração voe! (...).
Faz a tua pequena novela: uma novela de sacrifícios e de heroísmos.
Com a graça de Deus, ficarás aquém. [xviii].

j. r. garcía-morato

(Revisão da versão portuguesa por ama?





[i] Francisco, Discurso, 27-VII-2013.
[ii] Ibidem.
[iii] S. Josemaria, Cristo que passa, n. 110.
[iv] São João Paulo II, Carta aos artistas, 4-IV-1999, n. 2.
[v] Sir15,14.
[vi] S. Josemaria, "Las riquezas de la fe". Artigo publicado no ABC, 2-XI-1969.
[vii] S. Josemaria, Carta 2-II-1945, n. 19.
[viii] S. Josemaria, Amigos de Deus, n. 35.
[ix] Bento XVI, Enc. Spe salvi, 30-XI-2007, n. 48.
[x] S. Josemaria, Temas Actuais do Cristianismo, n. 93.
[xi] S. Josemaria, Amigos de Deus, n. 25.
[xii] Mt 19,29.
[xiii] Mt 19,29.
[xiv] S. Josemaria, Amigos de Deus, n. 35.
[xv] 2 Tim 1,12.
[xvi] S. Josemaria, Via Sacra, VII, n. 3.
[xvii] Cfr. Ro 8,28.
[xviii] S. Josemaria, Notas de uma tertúlia, 29-VI-1974 (AGP, biblioteca, P04, p. 45).

29/01/2015

Ev. diário L. Esp. (Temas actuais do cristianismo)

Tempo Comum III Semana

Evangelho: Mc 4 21-25

21 Dizia-lhes mais: «Porventura traz-se a lâmpada para se pôr debaixo do alqueire ou debaixo da cama? Não é para ser posta sobre o candelabro? 22 Porque não há coisa alguma escondida que não venha a ser manifesta, nem que seja feita para estar oculta, mas para vir a público. 23 Se alguém tem ouvidos para ouvir, oiça». 24 Dizia-lhes mais: «Atendei ao que ouvis. Com a medida com que medirdes vos medirão a vós, e ainda se vos acrescentará. 25 Porque ao que tem, dar-se-lhe-á ainda mais e ao que não tem, ainda o que tem lhe será tirado».

Comentário

Na sua pregação, Jesus Cristo repete muitas vezes, de forma semelhante, esta frase:

«Se alguém tem ouvidos para ouvir, oiça».

É um aviso sério a ter muito em conta por todos os homens, sobretudo pelos cristãos.
A Palavra que ouvimos é Palavra de vida eterna, tem a ver com a nossa salvação, por isso é de suma importância entender o que ouvimos mas, principalmente, ouvir de forma a pôr em prática o que nos é dito.

Se não… seremos uns sujeitos passivos, desatentos e a quem tanto faz ou pouco importa o que lhe é dito.

Será uma pena e um desperdício com resultados nefastos e, talvez, decisivos para a nossa própria felicidade.

(ama, comentário sobre Mc 4, 21-25, 2014.01.30)


Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá

Temas actuais do cristianismo [i]

68             
Talvez possa pensar-se que, até agora, o Opus Dei se viu favorecido pelo entusiasmo dos primeiros sócios, embora sejam já vários milhares. Existe alguma medida que garanta a continuidade da Obra, contra o risco, conatural a todas as instituições, de um possível arrefecimento do fervor e do impulso iniciais?

A Obra não se baseia no entusiasmo, mas na fé. Os anos do princípio - longos anos - foram muito duros, e só se viam dificuldades. O Opus Dei foi avante, pela graça divina e pela oração e pelo sacrifício dos primeiros, sem meios humanos. Só havia juventude, bom humor e o desejo de fazer a vontade de Deus.

Desde o princípio, a arma do Opus Dei foi sempre a oração, a vida entregue, a renúncia silenciosa a tudo o que é egoísmo, para servir as almas. Como lhe dizia antes, ao Opus Dei vem-se receber um espírito que leva precisamente a dar tudo, enquanto se continua trabalhando profissionalmente por amor a Deus e às criaturas por Ele.

A garantia de que não se dê um arrefecimento é que os meus filhos nunca percam este espírito. Sei que as obras humanas se desgastam com o tempo; mas isto não acontece com as obras divinas, a não ser que os homens as rebaixem. Só quando se perde o impulso divino é que vem a corrupção, a decadência. No nosso caso, vê-se claramente a Providência do Senhor, que, em tão pouco tempo - quarenta anos - faz que seja recebida e praticada esta específica vocação divina entre cidadãos correntes iguais aos outros, de tão diversas nações.

O fim do Opus Dei, repito uma vez mais, é a santidade de cada um dos seus sócios, homens e mulheres, que continuam no lugar que ocupavam no mundo. Se alguém não vem ao Opus Dei para ser santo, apesar de todos os pesares - quer dizer, apesar das misérias próprias, dos erros pessoais - ir-se-á embora imediatamente. Penso que a santidade atrai a santidade, e peço a Deus que no Opus Dei nunca falte essa convicção profunda, esta vida de fé. Como vê, não confiamos exclusivamente em garantias humanas ou jurídicas. As obras que Deus inspira movem-se ao ritmo da graça. A minha única receita é esta: ser santos, querer ser santos, com santidade pessoal.

69             
Por que é que e que há sacerdotes numa instituição acentuadamente laical, como o Opus Dei? Todos os membros do Opus Dei podem chegar a ser sacerdotes, ou só aqueles que são escolhidos pelos directores?

A vocação para o Opus Dei pode recebê-la qualquer pessoa, que queira santificar-se no próprio estado: seja solteiro, casado ou viúvo; seja leigo ou clérigo.

Por isso ao Opus Dei associam-se também sacerdotes diocesanos, que continuam a ser diocesanos como antes, porquanto a Obra ajuda-os a tender para a perfeição cristã própria do seu estado, mediante a santificação do seu trabalho normal, que é precisamente o ministério sacerdotal ao serviço do seu bispo, da sua diocese e de toda a Igreja. Também no caso deles a vinculação ao Opus Dei não modifica em nada a sua condição: continuam plenamente dedicados às tarefas que lhes confia o respectivo Ordinário e aos outros apostolados e actividades que devem realizar, sem que nunca a Obra interfira nessas actividades; e santificam-se praticando o mais perfeitamente possível as virtudes próprias de um sacerdote.

Além desses sacerdotes, que se incorporam ao Opus Dei depois de terem recebido ordens sacras, há na Obra outros sacerdotes seculares que recebem o sacramento da Ordem depois de pertencerem ao Opus Dei, ao qual, portanto, se vincularam quando eram leigos, cristãos correntes. Trata-se de número muito restrito em comparação com o total de sócios - não chegam a dois por cento - e dedicam-se a servir os fins apostólicos do Opus Dei com o ministério sacerdotal, renunciando mais ou menos, segundo os casos, ao exercício da profissão civil que tinham. São, com efeito, membros de profissões liberais ou trabalhadores, chamados ao sacerdócio depois de terem adquirido uma habilitação profissional e de terem trabalhado durante anos na sua ocupação própria: médico, engenheiro, mecânico, camponês, professor, jornalista, etc. Fazem, além disso, com a máxima profundidade e sem pressas, o estudo das disciplinas eclesiásticas até obterem o doutoramento. E isso sem perder a mentalidade característica do ambiente da sua profissão civil; de modo que, quando recebem as sagradas ordens, são médicos-sacerdotes, advogados-sacerdotes, operários-sacerdotes, etc.

A sua presença é necessária para o apostolado do Opus Dei. Este apostolado realizam-no fundamentalmente os leigos, como já disse. Cada sócio procura ser apóstolo no seu próprio ambiente de trabalho, aproximando as almas de Cristo mediante o exemplo e a palavra, isto é, através do diálogo. Mas, no apostolado, ao conduzir as almas pelos caminhos da vida cristã, chega-se ao muro sacramental. A função santificadora do leigo tem necessidade da função santificadora do sacerdote, que administra o sacramento da penitência, celebra a Eucaristia e proclama a Palavra de Deus em nome da Igreja. E, como o apostolado do Opus Dei pressupõe uma espiritualidade específica, é necessário que o sacerdote dê também um testemunho vivo desse espírito peculiar.

Além desse serviço aos outros sócios da Obra, esses sacerdotes podem prestar, e de facto prestam, um serviço a muitas outras almas. O zelo sacerdotal, que informa as suas vidas, deve levá-los a não permitir que ninguém passe ao seu lado sem receber algum reflexo da luz de Cristo. Mais ainda, o espírito do Opus Dei, que nada sabe de grupitos nem de distinções, impele-os a sentirem-se íntima e eficazmente unidos aos seus irmãos, os outros sacerdotes seculares; sentem-se e são de facto sacerdotes diocesanos em todas as dioceses em que trabalham e às quais procuram servir com empenho e eficácia.

Quero fazer notar, porque é uma realidade muito importante, que esses sócios leigos do Opus Dei que recebem a ordenação sacerdotal, não mudam de vocação. Quando abraçam o sacerdócio, respondendo livremente ao convite dos directores da Obra, não o fazem com a ideia de que assim se unem mais a Deus ou tendem mais eficazmente para a santidade: sabem perfeitamente que a vocação laical é plena e completa em si mesma, que a sua dedicação a Deus no Opus Dei era desde o primeiro momento um caminho claro para alcançar a perfeição cristã. A ordenação sacerdotal não é, por isso, de modo algum, uma espécie de coroamento da vocação para o Opus Dei: é uma chamada que se faz a alguns, para servir de um modo novo os outros. Por outro lado, na Obra não há duas espécies de sócios, os clérigos e os leigos; todos são e se sentem iguais e todos vivem o mesmo espírito: a santificação no seu próprio estado. [*]

[*] Mons. Escrivá de Balaguer fala nesta resposta de dois modos pelos quais os sacerdotes seculares podem pertencer ao Opus Dei:

a)     os sacerdotes que provêm dos membros leigos do Opus Dei, que são chamados às Ordens Sagradas pelo Prelado e que se incardinam na Prelatura, constituindo o seu presbitério. Dedicam-se fundamentalmente, ainda que não exclusivamente, à assistência pastoral dos fiéis incorporados no Opus Dei e, com estes, levam a cabo o apostolado específico de difundir, em todos os ambientes da sociedade, uma profunda tomada de consciência do chamamento universal à santidade e ao apostolado (Cfr. Apresentação);

b)     os sacerdotes seculares já incardinados numa diocese podem também participar da vida espiritual do Opus Dei, como assinala Mons. Escrivá de Balaguer no início desta resposta. Para isso, podem associar-se à Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, que está intrinsecamente unida à Prelatura e da qual é Presidente Geral o Prelado do Opus Dei, Cfr. o texto da Apresentação, pág. 11 onde se dá uma explicação sucinta desta Associação Sacerdotal, em termos jurídicos precisos que Mons. Escrivá de Balaguer ainda não podia utilizar ao conceder esta entrevista.

70             
Tem falado com frequência do trabalho. Poderia dizer que lugar ocupa o trabalho profissional na espiritualidade do Opus Dei?

A vocação para o Opus Dei não altera nem modifica de modo algum a condição, o estado de vida, de quem a recebe. E como a condição humana é o trabalho, a vocação sobrenatural para a santidade e para o apostolado, segundo o espírito do Opus Dei, confirma a vocação humana para o trabalho. A imensa maioria dos sócios da Obra são leigos, cristãos correntes: a sua condição é a de quem tem uma profissão, um ofício, uma ocupação, com frequência absorvente, com a qual ganha a vida, mantém a família, contribui para o bem comum, desenvolve a sua personalidade.

A vocação para o Opus Dei vem confirmar tudo isso, até ao ponto de que um dos sinais essenciais dessa vocação é precisamente viver no mundo e realizar aí um trabalho - contando, volto a dizer, com as próprias imperfeições pessoais - da maneira mais perfeita possível, tanto do ponto de vista humano, como do ponto de vista sobrenatural. Quer dizer, um trabalho que contribua eficazmente para a edificação da cidade terrena - e que seja, por isso, feito com competência e com espírito de servir - e para a consagração do mundo, e que, portanto, seja santificador e santificado.

Os que querem viver com perfeição a sua fé e praticar o apostolado segundo o espírito do Opus Dei, devem santificar-se com a profissão, santificar a profissão e santificar os outros com a profissão. Vivendo assim, sem se distinguirem dos outros cidadãos iguais a eles, que com eles trabalham, esforçam-se por se identificar com Cristo, imitando os seus trinta anos de trabalho na oficina de Nazaré.

Porque essa tarefa habitual é, não só o âmbito em que se devem santificar, como também a própria matéria da sua santidade: no meio das incidências do dia a dia descobrem a mão de Deus, e encontram estímulo para a sua vida de oração. A própria actividade profissional põe-nos em contacto com outras pessoas - parentes, amigos, colegas - e com os grandes problemas que afectam a sua sociedade ou o mundo inteiro e oferece-lhes assim a ocasião de viverem a entrega ao serviço dos outros, que é essencial aos cristãos. Assim, devem esforçar-se por dar um verdadeiro e autêntico testemunho de Cristo, para que todos aprendam a conhecer e a amar o Senhor, a descobrir que a vida normal no mundo, o trabalho de todos os dias, pode ser um encontro com Deus.

Por outras palavras: a santidade e o apostolado constituem uma só coisa com a vida dos sócios da Obra, e por isso o trabalho é o alicerce da sua vida espiritual. A sua entrega a Deus enxerta-se no trabalho que faziam antes de virem para a Obra e que continuam a fazer depois.

Quando, nos primeiros anos da minha actividade pastoral, comecei a pregar estas coisas, algumas pessoas não me compreenderam, outras escandalizaram-se: estavam habituadas a ouvir falar do mundo sempre em sentido pejorativo. O Senhor tinha-me feito compreender, e eu procurava fazê-lo compreender aos outros, que o mundo é bom, porque as obras de Deus são sempre perfeitas, e que somos nós os homens que, pelo pecado, fazemos o mundo mau.

Dizia então, e continuo a dizer agora, que temos de amar o mundo, porque no mundo encontramos a Deus, porque nos factos e acontecimentos do mundo Deus Se nos manifesta e revela.

O mal e o bem misturam-se na história humana e por isso o cristão deve saber discernir; mas nunca esse discernimento o deve levar a negar a bondade das obras de Deus, antes, pelo contrário, a reconhecer o divino que se manifesta no humano, inclusivamente por trás das nossas fraquezas. Um bom lema para a vida cristã pode encontrar-se naquelas palavras do Apóstolo: todas as coisas são vossas, e vós de Cristo, e Cristo de Deus (1 Cor. 3, 22-23), para realizar assim os desígnios desse Deus que quer salvar o mundo.

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Poderia fornecer-me alguns dados sobre a expansão da Obra durante estes quarenta anos de vida? Quais são as actividades apostólicas mais importantes?

Antes de mais, devo dizer que agradeço muito a Deus Nosso Senhor ter-me permitido ver a Obra, apenas quarenta anos depois da sua fundação, estendida por todo o mundo. Quando nasceu em 1928, em Espanha, já nasceu romana, o que para mim quer dizer católica, universal. E o seu primeiro impulso foi, como era inevitável, a expansão por todos os países.

Ao pensar nestes anos decorridos, vêm-me à memória muitos acontecimentos que me enchem de alegria: porque, à mistura com as dificuldades e as penas, que de certo modo são o sal da vida, recordam-me a eficácia da graça de Deus e a entrega - sacrificada e alegre - de tantos homens e mulheres que têm sabido ser fiéis. Porque quero deixar bem claro que o apostolado essencial do Opus Dei é o que cada sócio realiza individualmente no lugar em que trabalha, com a sua família, entre os seus amigos. Uma actividade que não chama a atenção, que não é fácil traduzir em estatísticas, mais que produz frutos de santidade em milhares de almas, que vão seguindo a Cristo, silenciosa e eficazmente, no meio da actividade profissional de todos os dias.

Sobre este tema não é possível dizer muito mais. Poderia contar-lhe a vida exemplar de muitas pessoas, mas isso desnaturalizaria a formosura humana e divina dessa actividade, na medida em que lhe tirava intimidade. Reduzi-la a números e estatísticas seria ainda pior, porque equivaleria a querer catalogar em vão os frutos da graça nas almas.

Posso falar-lhe das actividades apostólicas que os sócios da Obra dirigem em muitos países. Actividades com fins espirituais e apostólicos, nas quais se procura trabalhar com esmero e com perfeição também humana e nas quais colaboram muitas outras pessoas que não são do Opus Dei, mas que compreendem o valor sobrenatural desse trabalho, ou que apreciam o seu valor humano, como é o caso de tantos não cristãos que nos ajudam eficazmente. Trata-se sempre de actividades laicais e seculares, promovidas por cidadãos correntes no exercício dos seus direitos cívicos normais, de acordo com as leis de cada pais executadas sempre com critério profissional. Quer dizer, são tarefas que não aspiram a nenhum tipo de privilégio ou tratamento de favor.

Com certeza que conhece uma das actividades deste tipo que se desenvolve em Roma: o centro Elis, que se dedica à qualificação profissional e à formação integral de operários, mediante escolas, actividades desportivas e culturais, bibliotecas, etc. É uma actividade que responde às necessidades de Roma e às circunstâncias particulares do ambiente humano em que surgiu, o bairro do Tiburtino. Obras semelhantes se levam a cabo em Chicago, Madrid, México, e em muitos outros lugares.

Outro exemplo poderia ser o Strathmore College of Arts and Science, de Nairobi. Trata-se de um college pré-universitário, por onde têm passado centenas de estudantes do Quénia, do Uganda e da Tanzânia. Através dele, alguns queniatas do Opus Dei, juntamente com os outros seus concidadãos, têm realizado um profundo labor docente e social; foi o primeiro centro da East Africa que realizou a integração racial completa, e com a sua actividade contribuiu muito para a africanização da cultura. Coisas semelhantes se podem dizer do Kianda College também de Nairobi, que está a realizar uma tarefa de primeiro plano na formação da nova mulher africana.

Posso referir-me também, ainda a título de exemplo, a outra actividade: a Universidade de Navarra. Desde a sua fundação, em 1952, desenvolveu-se até contar agora 18 faculdades, escolas e institutos, nos quais prosseguem estudos mais de seis mil alunos. Contra o que escreveram recentemente alguns jornais, devo dizer que a Universidade de Navarra não tem sido mantida por subsídios estatais. O Estado espanhol não custeia de modo nenhum os gastos de manutenção; apenas contribuiu com alguns subsídios para a criação de novos postos escolares. A Universidade de Navarra mantém-se graças à ajuda de pessoas e associações privadas. O sistema de ensino e de vida universitária, inspirado no critério da responsabilidade pessoal e da solidariedade entre todos os que ali trabalham, mostrou-se eficaz, constituindo uma experiência muito positiva na actual situação da universidade no Mundo.

Poderia falar-lhe de actividades de outro tipo nos Estados Unidos, no Japão, na Argentina, na Austrália, nas Filipinas, na Inglaterra, em França, etc. Mas não é necessário. Bastará dizer que o Opus Dei actualmente está espalhado pelos cinco continentes e que a ele pertencem pessoas de mais de 70 nacionalidades, e das mais diversas raças e condições.

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Para terminar: está satisfeito, depois destes quarenta anos de actividade? As experiências destes últimos anos, as modificações sociais, o Concílio Vaticano lI, etc. sugeriram-lhe algumas alterações de estrutura?

Satisfeito? Não posso deixar de o estar, quando vejo que, apesar das minhas misérias pessoais, o Senhor fez em torno desta Obra de Deus tantas coisas maravilhosas. Para um homem que vive da fé, a sua vida será sempre a história das misericórdias de Deus. Em alguns momentos, essa história talvez seja difícil de ler, porque tudo pode parecer inútil e até um fracasso; outras vezes, o Senhor deixa ver copiosos os frutos e então é natural que o coração transborde em acção de graças.

Uma das minhas maiores alegrias foi precisamente ver como o Concílio Vaticano II proclamou com grande clareza a vocação divina do laicado. Sem jactância alguma, devo dizer que, pelo que se refere ao nosso espírito, o Concílio não significou um convite a mudar, antes, pelo contrário, confirmou o que - pela graça de Deus - vínhamos vivendo e ensinando há muitos anos. A principal característica do Opus Dei não são determinadas técnicas ou métodos de apostolado, nem umas estruturas determinadas; é um espírito que leva precisamente a santificar o trabalho de cada dia.

Erros e misérias pessoais, repito, todos os temos. E todos devemos examinar-nos seriamente na presença de Deus e confrontar a nossa própria vida com o que o Senhor nos exige. Mas sem esquecer o mais importante: si scires donum Dei!... (Jn. 4, 10), se conhecesses o dom de Deus!, disse Jesus à Samaritana. E São Paulo acrescenta: levamos esse tesouro em vasos de barro, para que se reconheça, que a excelência do poder é de Deus e não nossa (11 Cor. 4, 7).

A humildade, o exame cristão, começa por reconhecer o dom de Deus. É algo bem diferente de encolher-se diante do curso que tomam os acontecimentos, da sensação de inferioridade ou de desalento perante a história. Na vida pessoal, e às vezes também na vida das associações ou das instituições, pode haver coisas a mudar, inclusivamente muitas; mas a atitude com que o cristão deve enfrentar esses problemas há-de ser, antes de mais, a de se admirar diante da magnitude das obras de Deus, comparadas com a pequenez humana.

O aggiornamento deve fazer-se, antes de mais na vida pessoal, para a pôr de acordo com essa velha novidade do Evangelho. Estar em dia significa identificar-se com Cristo, que não é um personagem que passou: Cristo vive e viverá sempre: ontem, hoje e pelos séculos (Heb. 13, 8).

Quanto ao Opus Dei considerado em conjunto, bem pode afirmar-se, sem nenhuma espécie de arrogância, com agradecimento â bondade de Deus, que nunca terá problemas de adaptação ao mundo: nunca se encontrará na necessidade de se pôr em dia. Deus Nosso Senhor pôs em dia a Obra de uma vez para sempre, dando-lhe essas características peculiares, laicais; e jamais terá necessidade de se adaptar ao mundo, porque todos os seus sócios são do mundo; não terá de ir atrás do progresso humano, porque são todos os sócios da Obra, juntamente com os demais homens que vivem no mundo, que fazem esse progresso com o seu TRABALHO quotidiano.


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[i] Entrevista realizada por Enrico Zuppi e António Fugardi, publicada em L'Osservatore della Domenica (Cidade do Vaticano) nos dias 19 e 26 de Maio e 2 de Junho de 1968