Mostrar mensagens com a etiqueta AMA - Comentários ao Evangelho Mc 4 1-20. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta AMA - Comentários ao Evangelho Mc 4 1-20. Mostrar todas as mensagens

27/01/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


 Tempo Comum
Semana III

Evangelho: Mc 4, 1-20

1 Começou de novo a ensinar à beira-mar; e juntou-se à Sua volta tão grande multidão que teve de subir para uma barca e sentar-Se dentro dela, no mar, enquanto toda a multidão estava em terra na margem. 2 E ensinava-lhes muitas coisas por meio de parábolas. Dizia-lhes segundo o Seu modo de ensinar: 3 «Ouvi: Eis que o semeador saiu a semear. 4 E ao semear, uma parte da semente caiu ao longo do caminho, e vieram as aves do céu e comeram-na.5 Outra parte caiu entre pedregulhos, onde tinha pouca terra, e logo nasceu, por não ter profundidade a terra; 6 mas, quando saiu o sol, foi queimada pelo calor e, como não tinha raiz, secou. 7 Outra parte caiu entre espinhos; e os espinhos cresceram e sufocaram-na e não deu fruto. 8 Outra caiu em terra boa; e deu fruto que vingou e cresceu, e um grão deu trinta, outro, sessenta e outro cem». 9 E acrescentava: «Quem tem ouvidos para ouvir, oiça». 10 Quando Se encontrou só, os doze, que estavam com Ele, interrogaram-n'O sobre a parábola. 11 Disse-lhes: «A vós é concedido conhecer o mistério do reino de Deus; porém, aos que são de fora, tudo se lhes propõe em parábolas, 12 para que, olhando não vejam, e ouvindo não entendam; não aconteça que se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados». 13 E acrescentou: «Não entendeis esta parábola? Então como entendereis todas as outras? 14 O que o semeador semeia é a palavra. 15 Uns encontram-se ao longo do caminho onde ela é semeada; mas logo que a ouvem vem Satanás tirar a palavra semeada neles. 16 Outros recebem a semente em terreno pedregoso; ouvem a palavra, logo a recebem com alegria, 17 mas não têm raízes em si mesmos, são inconstantes; depois, levantando-se a tribulação ou a perseguição por causa da palavra, sucumbem imediatamente. 18 Outros recebem a semente entre espinhos; ouvem a palavra, 19 mas os cuidados mundanos, a sedução das riquezas e as outras paixões, entrando, afogam a palavra, e ela fica infrutuosa. 20 Aqueles que recebem a semente em terra boa, são os que ouvem a palavra, recebem-na, e dão fruto, um a trinta, outro a sessenta, e outro a cem por um».

Comentário:

O Senhor, por vezes, é algo enigmático no Seu discurso. Pelo menos assim nos parece a nós como, por exemolo, no versículo  11 deste trecho de São Marcos:

Disse-lhes: «A vós é concedido conhecer o mistério do reino de Deus; porém, aos que são de fora, tudo se lhes propõe em parábolas, 12 para que, olhando não vejam, e ouvindo não entendam; não aconteça que se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados».

Se atendermos bem compreenderemos o que Jesus Cristo quer dizer com estas palavras:
Em primeiro lugar destaca o privilégio dos filhos de Israel como povo escolhido por Deus para ser o primeiro a receber o Seu Reino, cumprindo as promessas feitas ao longo dos tempos tal como nos revelam os Profetas;
Em segundo lugar porque deseja que a conversão seja um acto interior fruto de um amadurecimento na Fé nele como Filho Unigénito de Deus e Salvador de todos os homens e não algo fortuito nascido de um entusiasmo ocasional sem raízes profundas.

Porque a conversão é algo pessoal; já Fé pertence a Deus concedê-la como dom e graça inteiramente gratuitos.

(ama, comentário sobre Mc 4, 1-20, Malta, 2015.01.28)

Leitura espiritual



Vida cristã
Paixão pela verdade

«Amou a verdade de maneira desinteressada. Procurou-a onde se pudesse manifestar, destacando ao máximo a sua universalidade. O Magistério da Igreja viu e apreciou nele a paixão pela verdade; o seu pensamento, ao manter-se sempre no horizonte da verdade universal, objectiva e transcendente, alcançou quotas que a inteligência humana jamais poderia ter pensado» [i].

Estas palavras de João Paulo II referem-se a São Tomás de Aquino, e constituem um elogio significativo a um grande santo, ao mesmo tempo que mostram quanto a Igreja valoriza o dom da inteligência.

Segundo S. João Paulo II – usando uma expressão do B. Paulo VI –, «com razão se pode chamar ao Aquinate “o Apóstolo da Verdade”. Precisamente porque a buscava sem reservas, soube reconhecer no seu realismo a objetividade da verdade. A sua filosofia é verdadeiramente a filosofia do ser, e não do simples parecer» [ii].

Louvar a finura filosófica e teológica de um santo também supõe enaltecer uma determinada atitude perante a verdade: o amor, a paixão, a sua busca, abertura e reconhecimento.


Parte da missão da Igreja consiste em acender e expandir, no ânimo dos cristãos e de todos os homens, o impulso e a tensão para a verdade.
Este foi um objectivo constante do magistério de S. João Paulo II – exemplos claros são as Encíclicas Fides et Ratio e Veritatis Splendor – e também é a atitude de Bento XVI, uma vez que, desde os primeiros dias do seu pontificado, animou todos os homens a não se deixarem levar pela mentalidade relativista, que não é senão um modo de renunciar à busca das verdades que dão sentido à vida, com a consequente restrição do horizonte vital.

O relativismo – que o Papa Bento XVI identificou, há alguns anos, como «o problema central da fé cristã» [iii] – é uma atitude perante a vida, que facilmente se entranha na cultura, impregnando as relações sociais entre os homens.
Não é tanto um sistema filosófico ou um organismo doutrinal, mas um estilo de pensar em que se evita falar de verdadeiro e falso, pois não se reconhece uma instância de validade objetiva aos juízos que façam referência a realidades que transcendem o que cada um pode ver e tocar: Deus, a alma e inclusivamente a mais íntima meta do amor.


Além disso, esta atitude comporta um modo de agir que manifesta uma perplexidade de fundo perante a realidade: como não posso conhecer nada de forma definitiva, também não posso tomar decisões que levem consigo uma entrega indiscutível e para sempre. Tudo pode mudar, tudo é provisório.

Segundo esta posição, aquilo que podemos conhecer e afirmar sobre as realidades divinas e o que se refere ao sentido da vida e do mundo é, no fundo, tão imperfeito e tão relativo que as nossas palavras não têm qualquer conteúdo de verdade.

Nesta perspetiva, qualquer tentativa de escapar ao método de cálculo e controlo das ciências experimentais – única fonte autorizada de saber – resulta ilusório ou é simplesmente declarado como um regresso ao conhecimento pré-científico ou como uma revitalização de antigas mitologias.


VERDADE E LIBERDADE


O relativismo procura, assim, impor uma atitude existencial: se não posso chegar a nenhuma conclusão certa, ao menos tratemos de estabelecer um caminho – um método – que me permita alcançar a maior quantidade de felicidade possível neste nosso pobre mundo. Uma felicidade que, em virtude da própria dinâmica dos factos – contingentes e finitos –, será fragmentária e limitada.

Neste contexto, é lógico que o mais importante é evadir o problema da verdade:
Na cultura actual qualquer opinião é aceite, desde que não se apresente com pretensões de universalidade, como uma explicação – tendencialmente – completa sobre Deus e o mundo.

Assim, as verdades religiosas ficam à mercê da preferência do momento ou do gosto, reduzidas a questões opináveis – talvez privilegiadas para alguns, dentro do supermercado de crenças e de pressupostos que se cozinham e se servem no oceano do sobrenatural – e carentes de racionalidade, precisamente porque não podem ser validadas segundo os critérios da ciência experimental.

Deste modo, o relativismo converte-se na justificação vital, não teórica, para conduzir uma existência vivível num mundo privado de consistência.

Qual é a melhor garantia para que todos os homens possam manter uma convivência pacífica senão um mundo sem verdade?


Em muitas das nossas sociedades, uma ideia débil de razão tem-se levantado como pressuposto necessário da democracia e da convivência: numa sociedade multi-cultural, multi-étnica e multi-religiosa defender a existência de verdades leva ao conflito e à violência, pois quem estiver convencido de tais verdades será suspeito de querer impor – de modo fundamentalista, dizem – algo que não passa de mera opinião.


Curiosamente, porém, ocorre o contrário.
A falta de sensibilidade para a verdade, para a busca de respostas sobre a realidade das coisas e para o sentido da própria vida, leva consigo a deformação – quando não a corrupção – da ideia e da experiência da liberdade.

Não surpreende observar que a consolidação social e legal dos modos de vida congruentes com o relativismo sempre se fundamente num pressuposto “direito de conquista” por parte da liberdade.

Certamente, a liberdade política foi uma das grandes conquistas da Idade Moderna.
E, no entanto, a liberdade no homem não é um absoluto.
Pelo contrário, encontra-se ligada, em primeiro lugar, à natureza humana.

Se for desconectada da razão e da totalidade do homem, de modo que seja concebida como um “poder desejar tudo” e “poder pôr em prática tudo o que se deseja”, tem-se, no final das contas, que «o desejo próprio é a única norma das nossas ações» [iv].


Todos percebemos que não nos movemos simplesmente pelos nossos desejos.
A própria realidade é orientadora e sugere-nos motivos de actuação. Ninguém compra um frasco de geleia só por causa do design do recipiente.
Uma boa dona de casa pergunta, informa-se, lê as características indicadas no rótulo… e depois escolhe.
E nessa escolha – o exemplo é banal, mas indicativo – dão-se razões: a percentagem de fruta, a sua qualidade, a procedência, se se trata de agricultura “biológica”, se tem açúcar ou não, etc.
A liberdade não é uma potência sem restrições, tem os seus limites: está ligada ao bem integral do homem, isto é, à sua verdade.

Na verdade, parece que, sob a acusação de fundamentalismo que é feita a muitos cristãos que querem ser coerentes com a sua fé, dissimula-se o autêntico fundamentalismo:

O da debilidade das convicções, muito mais perigoso por se ocultar por trás da máscara da tolerância.


Em todo caso, argumentando de forma positiva, seria preciso esclarecer que aquela acusação confunde dois planos:

O das convicções pessoais acerca da verdade e o da sua realização no campo político.

Estar persuadido da verdade não implica necessariamente procurar impô-la aos outros.
Portanto, perante a acusação de despotismo – mais ou menos implícita – dirigida àquele que defende o valor da verdade como um bem ao qual a pessoa não pode renunciar, é preciso dizer que o despotismo não é produzido pelo reconhecimento de verdades universais e absolutas, mas pela falta de respeito pela liberdade.

A estima pelas ideias contrárias e, sobretudo, pelas pessoas que as pronunciam, não nasce da debilidade das crenças pessoais, nem da disposição a pôr em dúvida qualquer convicção.
O que acontece, na verdade, é o contrário: para que exista uma autêntica atitude de respeito para com todos, são necessárias algumas verdades universalmente aceites, “não negociáveis”, começando pelo reconhecimento da dignidade de cada ser humano, pressuposto para respeitar a sua liberdade.

Quanto mais fortemente estivermos convencidos daquela verdade – que para os cristãos nos parece tão óbvia, ao compreender que todos os homens são filhos do mesmo Pai –, maior será a possibilidade de se garantir o respeito por todos, inclusive por aqueles que não compartilham esse princípio.

De facto, se não se admitir a universalidade dos direitos humanos, nem a validade objectiva que os sustenta – a dignidade de cada pessoa –, tão pouco se poderá exigir a sua aplicação a todos os cidadãos, nem se poderá limitar, portanto, a arbitrariedade no exercício do poder, ficando a própria democracia indefesa perante os abusos que dela se fizerem.

O problema do relativismo encontra-se no âmago do próprio homem, que, por mais que deseje usufruir de uma autonomia sem vínculos nem limites, sempre desejará conhecer o sentido de sua vida, anseio que está em íntima correspondência com a pergunta sobre Deus e sobre a salvação.


O Senhor proclamou que não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus [v].

O desejo natural de saber e a fome da palavra divina são inextinguíveis, e ninguém poderá fazê-los desaparecer da vida humana: assim será a palavra que sai de minha boca: não voltará a mim de mãos vazias, mas fará o que Eu quero e realizará a missão que lhe confiei [vi].


TORNAR AMÁVEL A VERDADE


A verdade é amável por si mesma.
No entanto, às vezes podemos defendê-la de maneira um pouco antipática.
É certo é que algumas verdades incomodam a quem as escuta, e que uma vida coerente não é um caminho fácil para ninguém.
Mas isto não faz com que a verdade não tenha, por si mesma, uma força de atracção, que temos de procurar não esconder.

Para mostrar o esplendor da verdade convém, em primeiro lugar, fazer o esforço por procurá-la, por conhecê-la e por contemplá-la, também com o estudo e com a formação. Se realmente se ama a verdade, é mais fácil expressá-la com dom de línguas e fazê-la visível com a vida.

Parte do serviço à verdade consiste em tentar compreender as diferentes situações, com o fim de encontrar os canais apropriados para transmitir o seu atractivo e convidar os outros a procurá-la.

Às vezes, é mais fácil empregar um tom negativo do que tentar conhecer os interlocutores para procurar o melhor modo de explicar as coisas; mas, certamente, é muito menos eficaz.

Mostrar a amabilidade da verdade é uma tarefa muito apropriada para os cristãos, porque sabemos que amor e verdade se identificam.

A Encíclica Deus caritas est do Papa Bento XVI é uma resposta ao desafio que ele mesmo propôs nos dias prévios à sua eleição e noutros escritos anteriores, nos quais – como dissemos – caracterizou o relativismo como “o problema central para a fé”.


Se o relativismo é uma atitude que se esquiva do encontro com a verdade, por medo a perder a liberdade e a felicidade, não será a caridade a que pode reconciliar verdade, liberdade e felicidade?
«A verdade e o amor são idênticos. Esta proposição – compreendida em toda a sua profundidade – é a suprema garantia da tolerância; de uma relação com a verdade cuja única arma é ela mesma e que, por sê-lo, é o amor» [vii].


O Papa Bento XVI, nos pontos iniciais de sua primeira Encíclica, propõe uma questão que descreve a atitude defensiva de muitas pessoas perante a verdade, neste caso perante algumas verdades morais afirmadas pela Igreja:

«a Igreja – perguntam-se –, com os seus preceitos e proibições, por acaso não converte em amargo o que há de mais formoso na vida? Não põe, talvez, cartazes de proibição precisamente onde a alegria, predisposta em nós pelo Criador, nos oferece uma felicidade que nos faz saborear algo do divino?» [viii].

Tornar amável a verdade consiste, precisamente, em mostrar que se encontra maior felicidade vivendo na verdade do que procurando contorná-la.
Quando te lançares ao apostolado, convence-te de que se trata sempre de fazer felizes, muito felizes, as pessoas: a Verdade é inseparável da autêntica alegria [ix].

Tornar amável a verdade é uma boa definição do apostolado, no qual se unem amor e verdade.
Uma verdade crua e sem caridade tornar-se-á antipática e, inclusive, inalcançável, porque as verdades decisivas para a existência «não se conseguem só por via racional, mas também mediante o abandono confiado noutras pessoas, que podem garantir a certeza e a autenticidade da própria verdade» [x].


Nós, os cristãos, servimos a verdade sobretudo quando a acompanhamos e a envolvemos com a caridade de Cristo, com a santidade de vida, que supõe, entre outras coisas, saber acolher todas as pessoas.

S. Josemaria amava a verdade e a liberdade, por isso ensinava que a verdade não se impõe, mas que se oferece:

Sentes-te depositário do bem e da verdade absoluta e, portanto, investido de um título pessoal ou de um direito a desarraigar o mal a todo o custo?
– Por esse caminho não consertarás nada: só por Amor e com amor!, recordando que o Amor te perdoou e te perdoa tanto [xi].


O ambiente em que se aprende a amar a verdade não é um ambiente de confronto entre vencedores e vencidos.
A amizade, a alegria, o afecto e a atitude de serviço convencem, movem, iluminam, preparam o espírito para romper os muros do relativismo que fecham a inteligência à consideração da verdade.

«A melhor defesa de Deus e do homem consiste precisamente no amor» [xii].

O ambiente que devolve a confiança de encontrar a verdade, e que prepara para a receber e amar, é o da coerência de vida.

Também entre pessoas que não conheceram Cristo, não faltaram testemunhas apaixonadas e coerentes da verdade.
Pensemos nos testemunhos que chegaram de Sócrates, um dos grandes exploradores da verdade, que S. João Paulo II cita na Encíclica Fides et Ratio: as suas palavras – mas, sobretudo, a sua atitude de coerência até a morte – marcaram o pensamento filosófico desde há mais de dois mil anos [xiii].


Com muito mais razão os cristãos podem testemunhar a Verdade, não só com a inteligência – cultivada com a leitura, com o estudo e com a reflexão –, mas também através das virtudes que reflectem Cristo, verdade feita vida.

O ambiente da sociedade […] precisa de uma nova forma de viver e de propagar a verdade eterna do Evangelho: nas próprias entranhas da sociedade, do mundo, os filhos de Deus hão-de brilhar pelas suas virtudes como lanternas na escuridão – «quase lucernae lucentes in caliginoso loco» [xiv].


Cristo ensinou-nos a Verdade sobre Deus morrendo na Cruz.
Os santos tornaram crível que Deus é amor, entregando a vida por amor a Deus e pelos outros.

A Igreja não cessa de se empenhar nesta tarefa de iluminar o mundo e de o tirar das trevas de uma vida sem verdade e sem sentido.

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] S. João Pablo II, Enc. Fides et ratio, n. 44.
[ii] S. João Pablo II, Enc. Fides et ratio, n. 44. Cfr. B. Pablo VI, Carta apost. Lumen Ecclesiae, 20-XI-1974, n. 8.
[iii] J. Ratzinger, Fé – Verdade – Tolerância, O Cristianismo e as Grandes Religiões do Mundo, UCEditora, 2006.
[iv] J. Ratzinger, Fé – Verdade – Tolerância, O Cristianismo e as Grandes Religiões do Mundo, UCEditora, 2006.
[v] Mt 4, 4.
[vi] Is 55, 11.
[vii] J. Ratzinger, Fé – Verdade – Tolerância, O Cristianismo e as Grandes Religiões do Mundo, UCEditora, 2006.
[viii] Bento XVI, Enc. Deus caritas est, n. 3.
[ix] S. Josemaria, Sulco, n. 185.
[x] S. João Pablo II, Enc. Fides et ratio, n. 33.
[xi] S. Josemaria, Sulco, n. 824
[xii] Bento XVI, Enc. Deus caritas est, n. 31.
[xiii] Cfr. S. João Pablo II, Enc. Fides et ratio, n. 26.
[xiv] S. Josemaria, Sulco, n. 318.

28/01/2015

Ev. diário L. Esp. (Temas actuais do cristianismo)

Tempo Comum III Semana

São Tomás de Aquino – Doutor da Igreja

Evangelho: Mc 4 1-20

1 Começou de novo a ensinar à beira-mar; e juntou-se à Sua volta tão grande multidão que teve de subir para uma barca e sentar-Se dentro dela, no mar, enquanto toda a multidão estava em terra na margem. 2 E ensinava-lhes muitas coisas por meio de parábolas. Dizia-lhes segundo o Seu modo de ensinar: 3 «Ouvi: Eis que o semeador saiu a semear. 4 E ao semear, uma parte da semente caiu ao longo do caminho, e vieram as aves do céu e comeram-na.5 Outra parte caiu entre pedregulhos, onde tinha pouca terra, e logo nasceu, por não ter profundidade a terra; 6 mas, quando saiu o sol, foi queimada pelo calor e, como não tinha raiz, secou. 7 Outra parte caiu entre espinhos; e os espinhos cresceram e sufocaram-na e não deu fruto. 8 Outra caiu em terra boa; e deu fruto que vingou e cresceu, e um grão deu trinta, outro, sessenta e outro cem». 9 E acrescentava: «Quem tem ouvidos para ouvir, oiça». 10 Quando Se encontrou só, os doze, que estavam com Ele, interrogaram-n'O sobre a parábola. 11 Disse-lhes: «A vós é concedido conhecer o mistério do reino de Deus; porém, aos que são de fora, tudo se lhes propõe em parábolas, 12 para que, olhando não vejam, e ouvindo não entendam; não aconteça que se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados». 13 E acrescentou: «Não entendeis esta parábola? Então como entendereis todas as outras? 14 O que o semeador semeia é a palavra. 15 Uns encontram-se ao longo do caminho onde ela é semeada; mas logo que a ouvem vem Satanás tirar a palavra semeada neles. 16 Outros recebem a semente em terreno pedregoso; ouvem a palavra, logo a recebem com alegria, 17 mas não têm raízes em si mesmos, são inconstantes; depois, levantando-se a tribulação ou a perseguição por causa da palavra, sucumbem imediatamente. 18 Outros recebem a semente entre espinhos; ouvem a palavra, 19 mas os cuidados mundanos, a sedução das riquezas e as outras paixões, entrando, afogam a palavra, e ela fica infrutuosa. 20 Aqueles que recebem a semente em terra boa, são os que ouvem a palavra, recebem-na, e dão fruto, um a trinta, outro a sessenta, e outro a cem por um».

Comentário

O êxito apostólico – por assim dizer – depende em grande parte de nós próprios, é certo, mas está intimamente ligado àquels a quem nos dirigimos e às disposições que possam ter no momento.

De facto, temos de ter em atenção que “as condições” para sementeira podem variar devido às circunstâncias particulares que cada um vive, donde, seja absolutamente necessário um critério esclarecido, uma visão correcta para escolher o momento, a ocasião mais apropriada.

Ajudar-nos-á, sem dúvida, pedir ajuda aos Espírito Santo, talvez utiizando a famosa composição de São Tomás de Aquino:

«Oh! Espírito Santo, Amor do Pai e do Filho: Inspira-me sempre o que devo pensar, o que devo dizer, como devo dizer.
O que devo calar, o que devo escrever, como devo fazer, ara obter a Vossa Glória, o bem das almas e a minha própria santificação.»

(ama, comentário sobre Mc 4, 1-20, 2014.01.29)


Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá

Temas actuais do cristianismo [i]

58             

O Opus Dei ocupa um papel de primeiro plano no processo moderno de evolução do laicado; por isso gostaríamos de lhe perguntar, antes de mais nada, quais são, na sua opinião, as características mais notáveis deste processo.

Sempre pensei que a característica fundamental do processo de evolução do laicado é a consciencialização da dignidade da vocação cristã. A chamada de Deus, o carácter baptismal e a graça, fazem com que cada cristão possa e deva encarnar plenamente a fé. Cada cristão deve ser alter Christus, ipse Christus, presente entre os homens. O Santo Padre disse-o de maneira inequívoca: “É necessário voltar a dar toda a importância ao facto de ter recebido o sagrado baptismo, quer dizer, de ter sido enxertado, mediante esse sacramento, no Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja. (...) Ser cristão, ter recebido o baptismo, não deve ser considerado como coisa indiferente e sem valor, antes deve marcar profunda e ditosamente a consciência de todos os baptizados” (Encíclica Ecclesiam Suam, parte 1).

59             
Isto traz consigo uma visão mais profunda da Igreja, como comunidade formada por todos os fiéis, de modo que todos somos solidários duma mesma missão, que cada um deve realizar segundo as suas circunstâncias pessoais. Os leigos, graças aos impulsos do Espírito Santo, são cada vez mais conscientes de serem Igreja, de possuírem uma missão específica, sublime e necessária, uma vez que foi querida por Deus. E sabem que essa missão depende da sua própria condição de cristãos, não necessariamente de um mandato da Hierarquia, embora seja evidente que deverão realizá-la em união com a Hierarquia eclesiástica e segundo os ensinamentos do Magistério: sem união com o Corpo episcopal e com a sua cabeça, o Romano Pontífice, não pode haver, para um católico, união com Cristo.

O modo de os leigos contribuírem para a santidade e para o apostolado da Igreja consiste na acção livre e responsável no seio das estruturas temporais, aí levando o fermento da mensagem cristã. O testemunho de vida cristã, a palavra que ilumina em nome de Deus e a acção responsável, para servir os outros, contribuindo para a resolução de problemas comuns, são outras tantas manifestações dessa presença através da qual o cristão corrente cumpre a sua missão divina.

Há muitos anos, desde a própria data da fundação do Opus Dei, que medito e tenho feito meditar umas palavras de Cristo que nos relata S. João: et ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum (Jn. 12, 32). Cristo, morrendo na Cruz, atrai a Si a criação inteira, e, em seu nome, os cristãos, trabalhando no meio do mundo, hão-de reconciliar todas as coisas com Deus, colocando Cristo no cume de todas as actividades humanas.

Gostaria de acrescentar que, juntamente com esta consciencialização dos leigos, se está a produzir um desenvolvimento análogo da sensibilidade dos pastores: eles reparam no que tem de específico a vocação laical, que deve ser promovida e favorecida mediante uma pastoral que leve a descobrir no meio do Povo de Deus o carisma da santidade e do apostolado, nas infinitas e diversíssimas formas nas quais Deus o concede.

Esta nova pastoral é muito exigente mas, em minha opinião, absolutamente necessária. Requer o dom sobrenatural do discernimento de espíritos, a sensibilidade para as coisas de Deus, a humildade de não impor as próprias preferências e de servir o que Deus promove nas almas. Numa palavra: o amor à legítima liberdade dos filhos de Deus, que encontram Cristo e são feitos portadores de Cristo, percorrendo caminhos muito diversos entre si, mas todos igualmente divinos.

Um dos maiores perigos que hoje ameaçam a Igreja poderia ser precisamente o de não reconhecer essas exigências divinas da liberdade cristã e, deixando-se levar por falsas razões de eficácia, pretender impor uma uniformidade aos cristãos. Na raiz dessa atitude há algo não apenas legítimo, como, até, louvável: o desejo de que a Igreja dê um testemunho tal, que comova o mundo moderno. Todavia, receio bem que o caminho seja errado e leve, por um lado, a comprometer a Hierarquia em questões temporais, caindo num clericalismo diferente mas tão nefasto como o dos séculos passados; e, por outro, a isolar os leigos, os cristãos correntes, do mundo em que vivem, para os converter em porta-vozes de decisões ou ideias concebidas fora desse mundo.

Parece-me que a nós, sacerdotes, se nos pede a humildade de aprender a não estar na moda, de sermos realmente servos dos servos de Deus - lembrando-nos daquela exclamação do Baptista: illum oportet crescere, me autem mínui (Jn. 3, 30), convém que Cristo cresça e que eu diminua - para que os cristãos correntes, os leigos, tornem Cristo presente em todos os ambientes da sociedade. A missão de dar doutrina, de ajudar a penetrar nas exigências pessoais e sociais do Evangelho, de levar a discernir os sinais dos tempos é e será sempre uma das funções fundamentais do sacerdote. Mas todo o TRABALHO sacerdotal deve ser realizado dentro do maior respeito pela legítima liberdade das consciências: cada homem deve responder livremente a Deus. Quanto ao resto, todos os católicos, além dessa ajuda do sacerdote, têm também luzes próprias que recebem de Deus, graça de estado para levar a cabo a missão específica que, como homens e como cristãos, receberam.

Quem pensa que, para que a voz de Cristo se faça ouvir no mundo de hoje, é necessário que o clero fale ou se faça sempre presente, ainda não compreendeu bem a dignidade da vocação divina de todos e de cada um dos fiéis cristãos.

60             
Nestas circunstâncias, qual a função que o Opus Dei desempenhou e desempenha? Que relações de colaboração mantêm os sócios com outras organizações que trabalham neste campo?

Não me pertence a mim fazer um juízo histórico sobre o que, pela graça de Deus, o Opus Dei tem feito. Devo apenas afirmar que a finalidade a que o Opus Dei aspira é favorecer a procura da santidade e o exercício do apostolado por parte dos cristãos que vivem no meio do mundo, qualquer que seja o seu estado ou condição.

A Obra nasceu para contribuir para que esses cristãos, inseridos no tecido da sociedade civil - com a sua família, os seus amigos, o seu trabalho profissional, as suas aspirações nobres - compreendam que a sua vida, tal como é, pode ser ocasião de um encontro com Cristo: quer dizer, que é um caminho de santidade e de apostolado. Cristo está presente em qualquer actividade humana honesta: a vida de um cristão corrente - que talvez a alguns pareça vulgar e mesquinha - pode e deve ser uma vida santa e santificante.

Por outras palavras: para seguir Cristo, para servir a Igreja, para ajudar os outros homens a reconhecerem o seu destino eterno, não é indispensável abandonar o mundo ou afastar-se dele, nem sequer é preciso dedicar-se a uma actividade eclesiástica; a condição necessária e suficiente é cumprir a missão que Deus encomendou a cada um, no lugar e no ambiente queridos pela sua Providência.

E como a maior parte dos cristãos recebe de Deus a missão de santificar o mundo a partir de dentro, permanecendo no meio das estruturas temporais, o Opus Dei dedica-se a fazer-lhes descobrir essa missão divina, mostrando-lhes que a vocação humana - a vocação profissional, familiar e social - não se opõe à vocação sobrenatural: antes pelo contrário, forma parte integrante dela.

O Opus Dei tem como missão específica e exclusiva a difusão desta mensagem - que é uma mensagem evangélica - entre todas as pessoas que vivem e trabalham no mundo, em qualquer ambiente ou profissão. E àqueles que entendem este ideal de santidade a Obra proporciona os meios espirituais e a formação doutrinal, ascética e apostólica, necessários para o realizar na própria vida.

Os sócios do Opus Dei não actuam em grupo; actuam individualmente, com liberdade e responsabilidade pessoais. Por isso, o Opus Dei não é uma organização fechada, ou que de algum modo reúna os seus sócios para os isolar dos outros homens. As actividades corporativas, que são as únicas que a Obra dirige, estão abertas a toda a espécie de pessoas, sem discriminação de espécie alguma: nem social, nem cultural, nem religiosa. E os sócios, precisamente porque devem santificar-se no mundo, colaboram sempre com todas as pessoas com quem estão em relação pelo seu trabalho e pela sua participação na vida cívica.

61             
Faz parte essencial do espírito cristão não só viver em união com a Hierarquia ordinária - o Romano Pontífice e o Episcopado - como também sentir a unidade com os outros irmãos na fé. Há muito tempo que penso que um dos maiores males da Igreja nestes tempos é o desconhecimento que muitos católicos têm do que fazem e pensam os católicos de outros países ou de outros ambientes sociais. É necessário actualizar essa fraternidade que os primeiros cristãos viviam tão profundamente. Assim nos sentiremos unidos, amando ao mesmo tempo a variedade das vocações pessoais, evitando-se não poucos juízos injustos e ofensivos, que determinados pequenos grupos propagam - em nome do catolicismo - contra os seus irmãos na fé, que na realidade actuam rectamente e com sacrifício, dadas as circunstâncias particulares do seu país.

É importante que cada um procure ser fiel à sua vocação divina, de tal maneira que não deixe de trazer à Igreja aquilo que leva consigo o carisma recebido de Deus. O que é próprio dos sócios do Opus Dei - cristãos correntes - é santificar o mundo a partir de dentro, participando nas mais diversas actividades humanas. Como o facto de pertencerem à Obra não altera em nada a sua posição no mundo, colaboram, da maneira adequada em cada caso, nas celebrações religiosas colectivas, na vida paroquial, etc. Também neste sentido são cidadãos correntes, que querem ser bons católicos.

Todavia, os sócios do Opus Dei não se costumam dedicar, geralmente, a trabalhar em actividades confessionais. Só em casos excepcionais, quando a Hierarquia expressamente o pede, algum membro da Obra colabora em actividades eclesiásticas. Nessa atitude não há qualquer desejo de se singularizar, e menos ainda de desconsideração pelas actividades confessionais, mas tão somente a decisão de se ocupar do que é próprio da vocação para o Opus Dei. Há já muitos religiosos e clérigos, e também muitos leigos cheios de zelo, que levam para a frente essas actividades, dedicando-lhes os seus melhores esforços.

O que é próprio dos sócios da Obra, a tarefa a que se sabem chamados por Deus, é outra. Dentro da chamada universal à santidade, o sócio do Opus Dei recebe, além disso, uma chamada especial para se dedicar, livre e responsavelmente, a procurar a santidade e a fazer o apostolado no meio do mundo, comprometendo-se a viver um espírito específico e a receber, ao longo de toda a sua vida, uma formação peculiar. Se descurassem o seu trabalho no mundo, para se ocuparem das actividades eclesiásticas, tornariam ineficazes os dons divinos recebidos, e pelo entusiasmo de uma eficácia pastoral imediata, causariam um real dano à Igreja: porque não haveria tantos cristãos dedicados a santificarem-se em todas as profissões e ofícios da sociedade civil, no campo imenso do trabalho secular.

Além disso, a exigente necessidade da contínua formação profissional e da formação religiosa, juntamente com o tempo dedicado pessoalmente à piedade, à oração e ao cumprimento sacrificado dos deveres de estado, consome toda a vida: não há horas livres.

62             
Sabemos que pertencem ao Opus Dei homens e mulheres de todas as condições sociais, solteiros ou casados. Qual é, pois, o elemento comum que caracteriza a vocação para a Obra? Que compromissos assume cada sócio para realizar os fins do Opus Dei?

Vou dizer-lho em poucas palavras: procurar a santidade no meio do mundo, no meio da rua. Quem recebe de Deus a vocação específica para o Opus Dei sabe e vive que deve alcançar a santidade no seu próprio estado, no exercício do seu trabalho, manual ou intelectual. Disse sabe e vive, porque não se trata de aceitar um simples postulado teórico, mas de o realizar dia a dia, na vida ordinária.

Querer alcançar a santidade - apesar dos erros e das misérias pessoais, que durarão enquanto vivermos - significa esforçar-se, com a graça de Deus, por viver a caridade, plenitude da lei e vínculo da perfeição. A caridade não é algo de abstracto; quer dizer entrega real e total ao serviço de Deus e de todos os homens: desse Deus que nos fala no silêncio da oração e no rumor do mundo; desses homens, cuja existência se cruza com a nossa.

Vivendo a caridade - o Amor -, vivem-se todas as virtudes humanas e sobrenaturais do cristão, que formam uma unidade e que não se podem reduzir a enumerações exaustivas. A caridade exige que se viva a justiça, a solidariedade, a responsabilidade familiar e social, a pobreza, a alegria, a castidade, a amizade...

Vê-se imediatamente que a prática destas virtudes conduz ao apostolado. Mais, é já apostolado. Porque, ao procurar viver assim, no meio do trabalho diário, a conduta cristã torna-se bom exemplo, testemunho, ajuda concreta e eficaz: aprende-se a seguir as pisadas de Cristo, que coepit facere et docere (Act. 1, 1), que começou a fazer e a ensinar, unindo ao exemplo a palavra. Por isso, chamei a este trabalho, há já quarenta anos, apostolado de amizade e confidência.

Todos os sócios do Opus Dei têm este mesmo afã de santidade e de apostolado. Por isso, na Obra não há graus ou categorias de membros. O que há é uma multiplicidade de situações pessoais - a situação que cada um tem no mundo - a que se adapta a mesma e única vocação específica e divina: a chamada a entregar-se, a empenhar-se pessoalmente, livremente e responsavelmente, no cumprimento da vontade de Deus manifestada para cada um de nós.

Como pode ver, o fenómeno pastoral do Opus Dei é algo que nasce de baixo, quer dizer, da vida corrente do cristão que vive e trabalha junto dos outros homens. Não está na linha de uma mundanização - dessacralização - da vida monástica ou religiosa: não é o último estádio de aproximação dos religiosos ao mundo.

Aquele que recebe a vocação para o Opus Dei adquire uma nova visão das coisas que tem à sua volta: luzes novas nas suas relações sociais, na sua profissão, nas suas preocupações, nas suas tristezas e nas suas alegrias; mas nem por um momento deixa de viver no meio de tudo isso. E não se pode de modo algum falar de adaptação ao mundo, ou à sociedade moderna: ninguém se adapta àquilo que tem como próprio; naquilo que se tem como próprio está-se. A vocação recebida é igual à que surgia na alma daqueles pescadores, camponeses, comerciantes ou soldados que, sentados ao pé de Jesus Cristo na Galileia, O ouviam dizer: sede perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito (Mt. 5, 48).

Repito que esta perfeição - que os sócios do Opus Dei procuram - é a perfeição própria do cristão, sem mais: quer dizer, aquela a que são chamados todos os cristãos e que implica viver integralmente as exigências da fé. Não nos interessa a perfeição evangélica, que se considera própria dos religiosos e de algumas instituições assimiladas aos religiosos; e ainda menos nos interessa a chamada vida de perfeição evangélica, que se refere canonicamente ao estado religioso.

O caminho da vocação religiosa parece-me bendito e necessário na Igreja, e quem não o estimasse não teria o espírito da Obra. Mas esse caminho não é o meu nem o dos sócios do Opus Dei. Pode-se dizer que, ao virem ao Opus Dei, todos e cada um dos seus sócios o fizeram com a condição explícita de não mudar de estado. A nossa característica específica é santificar o próprio estado no mundo, e procurar que cada um dos sócios se santifique no lugar do seu encontro com Cristo: este é o compromisso que cada sócio assume para realizar os fins do Opus Dei.

(cont)








[i] Entrevista realizada por Enrico Zuppi e António Fugardi, publicada em L'Osservatore della Domenica (Cidade do Vaticano) nos dias 19 e 26 de Maio e 2 de Junho de 1968