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22/10/2016

Evangelho e comentário


Tempo Comum

Evangelho: Lc 13, 1-9

1 Neste mesmo tempo chegaram alguns a dar-Lhe a notícia de certos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com o dos sacrifícios deles. 2 Jesus respondeu-lhes: «Vós julgais que aqueles galileus eram maiores pecadores que todos os outros galileus, por terem sofrido tal sorte? 3 Não, Eu vo-lo digo; mas, se não fizerdes penitência, todos perecereis do mesmo modo. 4 Assim como também aqueles dezoito homens sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou; julgais que eles também foram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? 5 Não, Eu vo-lo digo; mas, se não fizerdes penitência, todos perecereis do mesmo modo». 6 Dizia também esta parábola: «Um homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi buscar fruto e não o encontrou. 7 Então disse ao vinhateiro: Eis que há três anos venho buscar fruto a esta figueira e não o encontro; corta-a; para que está ela inutilmente a ocupar terreno? 8 Ele, porém, respondeu-lhe: Senhor, deixa-a ainda este ano, enquanto eu a cavo em volta e lhe deito estrume; 9 se com isto der fruto, bem está; senão, cortá-la-ás depois».

Comentário:

Ouve-se com frequência comentar a propósito de algo mau, catastrófico: “foi castigo de Deus "!
Esta era a forma de pensar dos judeus do tempo de Jesus Cristo, Deus era inflexível, autoritário, castigador.

Jesus Cristo veio mudar - ou propor mudar - este conceito e de uma forma radical: Deus criador e Senhor de quanto existe é Amor!

Por isso mesmo não castiga ninguém antes espera com infinita paciência que o prevaricador caia em si, se arrependa e regresse ao Seu convívio.

Permite, isso ė verdade, que aconteçam o que chamamos "desgraças" que vitimam e condicionam a vida humana como, por exemplo, a doença grave, os terramotos, inundações etc.

Mas de tudo isso retira sempre um bem que não cabe agora enumerar mas que é tão evidente que só não vê quem não quer.


(ama, comentário sobre Lc 13, 1-9, 216.02.28)








28/02/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Quaresma
Semana III

Evangelho: Lc 13, 1-9

1 Neste mesmo tempo chegaram alguns a dar-Lhe a notícia de certos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com o dos sacrifícios deles. 2 Jesus respondeu-lhes: «Vós julgais que aqueles galileus eram maiores pecadores que todos os outros galileus, por terem sofrido tal sorte? 3 Não, Eu vo-lo digo; mas, se não fizerdes penitência, todos perecereis do mesmo modo. 4 Assim como também aqueles dezoito homens sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou; julgais que eles também foram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? 5 Não, Eu vo-lo digo; mas, se não fizerdes penitência, todos perecereis do mesmo modo». 6 Dizia também esta parábola: «Um homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi buscar fruto e não o encontrou. 7 Então disse ao vinhateiro: Eis que há três anos venho buscar fruto a esta figueira e não o encontro; corta-a; para que está ela inutilmente a ocupar terreno? 8 Ele, porém, respondeu-lhe: Senhor, deixa-a ainda este ano, enquanto eu a cavo em volta e lhe deito estrume; 9 se com isto der fruto, bem está; senão, cortá-la-ás depois».

Comentário:

O Senhor nunca desiste de nós.
Uma e outra vez procura-nos em busca de frutos e se não encontra o que legitimamente espera dá-nos nova oportunidade.

Ele criou o homem para que viva dando frutos que são o resultado do amor a Deus e aos outros e do cumprimento da Sua Vontade.

(ama, comentário sobre Lc 13, 1-9 2015.10.24)


Leitura espiritual



COMPÊNDIO
DA DOUTRINA SOCIAL
DA IGREJA


PRIMEIRA PARTE



CAPÍTULO I

O DESÍGNIO DE AMOR DE DEUS
A TODA A HUMANIDADE



III. A PESSOA HUMANA NO DESÍGNIO DE AMOR DE DEUS


d) Transcendência da salvação e autonomia das realidades terrestres


48 A pessoa humana não pode e não deve ser instrumentalizada por estruturas sociais, económicas e políticas, pois todo homem tem a liberdade de orientar-se para o seu fim último.
Por outro lado, toda a realização cultural, social, económica e política, em que se actuam historicamente a sociabilidade da pessoa e a sua actividade transformadora do universo, deve sempre ser considerada também no seu aspecto de realidade relativa e provisória, porque «a figura desse mundo passa!» (1 Cor 7, 31).

Trata-se de uma relatividade escatológica, no sentido de que o homem e o mundo vão ao encontro do fim, que é o cumprimento do seu destino em Deus; e de uma relatividade teológica, enquanto o dom de Deus, mediante o qual se cumprirá o destino definitivo da humanidade e da criação, supera infinitamente as possibilidades e as expectativas do homem.
Qualquer visão totalitária da sociedade e do Estado e qualquer ideologia puramente intramundana do progresso são contrárias à verdade integral da pessoa humana e ao desígnio de Deus na história.


IV. DESÍGNIO DE DEUS E MISSÃO DA IGREJA


a) A Igreja, sinal e tutela da transcendência da pessoa humana


49 A Igreja, comunidade daqueles que são convocados pelo Cristo Ressuscitado e se põem no seu seguimento, é o «sinal e a salvaguarda da dignidade da pessoa humana» [54].
Ela «é em Cristo como que sacra to ou sinal, e também instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» [55].

A missão da Igreja é a de anunciar e comunicar a salvação realizada em Jesus Cristo, que Ele chama «Reino de Deus» (Mc 1, 15), ou seja, a comunhão com Deus e entre os homens. O fim da salvação, o Reino de Deus, abraça todos os homens e se realizará plenamente além da história, em Deus. A Igreja recebeu «a missão de anunciar e estabelecer em todas as gentes o Reino de Cristo e de Deus, e constitui ela própria na terra o germe e o início deste Reino» [56].

50 A Igreja põe-se concretamente ao serviço do Reino de Deus, antes de mais nada, anunciando e comunicando o Evangelho da salvação e constituindo novas comunidades cristãs. Ela, ademais, «serve o Reino, difundindo pelo mundo os “valores evangélicos”, que são a expressão do Reino, e ajudam os homens a acolher o desígnio de Deus. É verdade que a realidade incipiente do Reino se pode encontrar também fora dos confins da Igreja, em toda a humanidade na medida em que ela viva os “valores evangélicos” e se abra à acção do Espírito que sopra onde e como quer (cf. Jo 3, 8); mas é preciso acrescentar, logo a seguir, que esta dimensão temporal do Reino está incompleta, enquanto não se ordenar ao Reino de Cristo, presente na Igreja, em constante tensão para a plenitude escatológica» [57].
 Donde deriva, em particular, que a Igreja não se confunde com a comunidade política e nem está ligada a nenhum sistema político [58].

A comunidade política e a Igreja, no próprio campo, são efectivamente independentes e autónomas uma em relação à outra, e estão ambas, embora a diferentes títulos, «ao serviço da vocação pessoal e social dos mesmos homens» [59].

Pode, antes, afirmar-se que a distinção entre religião e política e o princípio da liberdade religiosa constituem uma aquisição específica do cristianismo, de grande relevo no plano histórico e cultural.

51 À identidade e à missão da Igreja no mundo, segundo o projecto de Deus realizado em Cristo, corresponde «uma finalidade salvífica e escatológica, que só pode ser plenamente alcançada no século futuro» [60].

Justamente por isso, a Igreja oferece um contributo original e insubstituível à comunidade humana com a solicitude que a impele a tornar mais humana a família dos homens e a sua história, e a pôr-se como baluarte contra qualquer tentação totalitarista, indicando ao homem a sua vocação integral e definitiva [61].

Com a pregação do Evangelho, a graça dos sacramentos e a experiência da comunhão fraterna, a Igreja sana e eleva a dignidade da pessoa humana, «firmando a coesão da sociedade e dando à actividade diária dos homens um sentido e um significado mais profundos» [62].

No plano das dinâmicas históricas concretas, não se pode compreender o advento do Reino de Deus na perspectiva de uma organização social, económica e política definida e definitiva.
Ele é antes testemunhado pelo progresso de uma sociabilidade humana que é para os homens fermento de realização integral, de justiça e de solidariedade, na abertura ao Transcendente como termo referencial para a própria definitiva e plena realização pessoal.

b) Igreja, Reino de Deus e renovação das relações sociais

52 Deus, em Cristo, não redime somente a pessoa individual, mas também as relações sociais entre os homens. Como ensina o apóstolo Paulo, a vida em Cristo faz vir à tona de modo pleno e novo a identidade e a sociabilidade da pessoa humana, com as suas concretas consequências no plano histórico e social: «Todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo. Todos vós que fostes baptizados em Cristo, vos revestistes de Cristo. Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus» (Gal 3, 26-28).
Nesta perspectiva, as comunidade eclesiais, convocadas pela mensagem de Jesus Cristo e reunidas no Espírito Santo ao redor do Ressuscitado (cf. Mt 18, 20; 28, 19-20; Lc 24, 46-49), se propõem como lugar de comunhão, de testemunho e de missão e como fermento de redenção e de transformação das relações sociais.

A pregação do Evangelho de Jesus induz os discípulos a antecipar o futuro renovando as relações recíprocas.

53 A transformação social que responde às exigências do Reino de Deus não está estabelecida nas suas determinações concretas uma vez por todas. Trata-se antes de uma tarefa confiada à comunidade cristã, que a deve elaborar e realizar através da reflexão e da praxe inspiradas no Evangelho.

É o próprio Espírito do Senhor que conduz o povo de Deus e, concomitantemente, preenche o universo [63], inspirando, de tempos em tempos, soluções novas e actuais à criatividade responsável dos homens [64], à comunidade dos cristãos inserida nos dinamismos do mundo e da história e, por isso mesmo, aberta ao diálogo com todas as pessoas de boa vontade, na procura comum dos germes de verdade e de liberdade disseminados no vasto campo da humanidade [65].

A dinâmica de uma tal renovação deve estar ancorada nos princípios imutáveis da lei natural, impressa por Deus Criador na Sua criatura (cf. Rm 2, 14-15) e iluminada escatologicamente mediante Jesus Cristo.

54 Jesus Cristo revela-nos que «Deus é amor» (1 Jo 4, 8) e ensina-nos que «a lei fundamental da perfeição humana, e portanto da transformação do mundo, é o mandamento novo do amor. Destarte, aos que creem no amor divino dá-lhes a certeza de que abrir o caminho do amor a todos os homens e instaurar a fraternidade universal não são coisas vãs» [66].

Esta lei è chamada a tornar-se a medida e a norma última de todas as dinâmicas nas quais se desdobram as relações humanas.
Em síntese, é o próprio mistério de Deus, o Amor trinitário, que funda o significado e o valor da pessoa, da sociabilidade e do agir do homem no mundo, na medida em que foi revelado e participado à humanidade, por meio de Cristo, no Seu Espírito.

55 A transformação do mundo se apresenta como uma instância fundamental também do nosso tempo.
A esta exigência o Magistério social da Igreja entende oferecer as respostas que os sinais dos tempos invocam, indicando primeiramente no amor recíproco entre os homens, sob o olhar de Deus, o instrumento mais potente de mudança, no plano pessoal assim como no social.
O amor recíproco, com efeito, na participação no amor infinito de Deus é o autêntico fim, histórico e transcendente, da humanidade. Portanto, «ainda que haja que distinguir cuidadosamente progresso terreno e crescimento do Reino de Cristo, contudo este progresso tem muita importância para o Reino de Deus, na medida em que pode contribuir para uma melhor organização da sociedade humana» [67].

(cont)

Notas:
________________
[54] CONCÍLIO VATICANO II, const. past. Gaudium et Spes, n.º 76, AAS 58, 1966, p. 1099. [55] CONCÍLIO VATICANO II, const. dogm. Lumen Gentium, n.º 1, AAS 57, 1965, p. 5.
[56] CONCÍLIO VATICANO II, const. dogm. Lumen Gentium, n.º 5, AAS 57, 1965, p. 8.
[57] JOÃO PAULO II, carta encícl. Redemptoris Missio, n.º 20, AAS 83, 1991, p. 267.
[58] Cf. CONCÍLIO VATICANO II, const. past. Gaudium et Spes, n.º 76, AAS 58, 1966, p. 1099; Catecismo da Igreja Católica, n.º 2245.
[59] CONCÍLIO VATICANO II, const. past. Gaudium et Spes, n.º 76, AAS 58, 1966, p. 1099.
[60] CONCÍLIO VATICANO II, const. past. Gaudium et Spes, n.º 40, AAS 58, 1966, p. 1058. [61] Cf. Catecismo da Igreja Católica, n.º 2244.
[62] CONCÍLIO VATICANO II, const. past. Gaudium et Spes, n.º 40, AAS 58, 1966, p. 1058.
[63] Cf. CONCÍLIO VATICANO II, const. past. Gaudium et Spes, n.º 11, AAS 58, 1966, p. 1033.
[64] Cf. PAULO VI, carta apost. Octogesima Adveniens, n.º 37, AAS 63, 1971, p. 426-427.
[65] Cf. JOÃO PAULO II, carta encícl. Redemptor Hominis, n.º 11, AAS 71, 1979, p. 276: «Os Padres da Igreja viam justamente nas diversas religiões como que outros tantos reflexos de uma única verdade, como que “germes do Verbo”, os quais testemunham que, embora por caminhos diferentes, está voltada para a mesma direcção a mais profunda aspiração do espírito humano».
[66] CONCÍLIO VATICANO II, const. past. Gaudium et Spes, n.º 38, AAS 58, 1966, p. 1055-1056.
[67] CONCÍLIO VATICANO II, const. past. Gaudium et Spes, n.º 39, AAS 58, 1966, p. 1057.

24/10/2015

Evangelho, comentário, L. espiritual


Tempo comum XXIX Semana


Evangelho: Lc 13, 1-9

1 Neste mesmo tempo chegaram alguns a dar-Lhe a notícia de certos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com o dos sacrifícios deles. 2 Jesus respondeu-lhes: «Vós julgais que aqueles galileus eram maiores pecadores que todos os outros galileus, por terem sofrido tal sorte? 3 Não, Eu vo-lo digo; mas, se não fizerdes penitência, todos perecereis do mesmo modo. 4 Assim como também aqueles dezoito homens sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou; julgais que eles também foram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? 5 Não, Eu vo-lo digo; mas, se não fizerdes penitência, todos perecereis do mesmo modo». 6 Dizia também esta parábola: «Um homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi buscar fruto e não o encontrou. 7 Então disse ao vinhateiro: Eis que há três anos venho buscar fruto a esta figueira e não o encontro; corta-a; para que está ela inutilmente a ocupar terreno? 8 Ele, porém, respondeu-lhe: Senhor, deixa-a ainda este ano, enquanto eu a cavo em volta e lhe deito estrume; 9 se com isto der fruto, bem está; senão, cortá-la-ás depois».

Comentário:

Na verdade, Deus, nunca desiste de nós. Mesmo quando não encontra o fruto que legitimamente poderia esperar que déssemos. Frutos de boas obras, de caridade de amor de Deus. Quando permanecemos impassíveis perante o próximo que tem necessidades; quando o centro da nossa vida somos nós próprios… Deus continua à nossa espera. Vai enviando mensagens ao nosso coração, inspirações à nossa alma, pessoas que nos chamam a atenção, nos acarinham e guiam pelo caminho certo.
O Senhor é aquele vinhateiro que não quer dar por concluída a tarefa que se impôs.
A figueira foi plantada para dar figos, nós fomos criados para louvar a Deus.

(ama, comentário sobre Lc 13,1-9, 2010-02-08)


Leitura espiritual

São Josemaria Escrivá



Temas actuais do cristianismo

60 (cont)

O Opus Dei tem como missão específica e exclusiva a difusão desta mensagem - que é uma mensagem evangélica - entre todas as pessoas que vivem e trabalham no mundo, em qualquer ambiente ou profissão.
E àqueles que entendem este ideal de santidade a Obra proporciona os meios espirituais e a formação doutrinal, ascética e apostólica, necessários para o realizar na própria vida.

Os sócios do Opus Dei não actuam em grupo; actuam individualmente, com liberdade e responsabilidade pessoais.
Por isso, o Opus Dei não é uma organização fechada, ou que de algum modo reúna os seus sócios para os isolar dos outros homens. As actividades corporativas, que são as únicas que a Obra dirige, estão abertas a toda a espécie de pessoas, sem discriminação de espécie alguma: nem social, nem cultural, nem religiosa.
E os sócios, precisamente porque devem santificar-se no mundo, colaboram sempre com todas as pessoas com quem estão em relação pelo seu trabalho e pela sua participação na vida cívica.

61
                  
Faz parte essencial do espírito cristão não só viver em união com a Hierarquia ordinária - o Romano Pontífice e o Episcopado - como também sentir a unidade com os outros irmãos na fé.
Há muito tempo que penso que um dos maiores males da Igreja nestes tempos é o desconhecimento que muitos católicos têm do que fazem e pensam os católicos de outros países ou de outros ambientes sociais.
É necessário actualizar essa fraternidade que os primeiros cristãos viviam tão profundamente.
Assim nos sentiremos unidos, amando ao mesmo tempo a variedade das vocações pessoais, evitando-se não poucos juízos injustos e ofensivos, que determinados pequenos grupos propagam - em nome do catolicismo - contra os seus irmãos na fé, que na realidade actuam rectamente e com sacrifício, dadas as circunstâncias particulares do seu país.

É importante que cada um procure ser fiel à sua vocação divina, de tal maneira que não deixe de trazer à Igreja aquilo que leva consigo o carisma recebido de Deus.
O que é próprio dos sócios do Opus Dei - cristãos correntes - é santificar o mundo a partir de dentro, participando nas mais diversas actividades humanas.
Como o facto de pertencerem à Obra não altera em nada a sua posição no mundo, colaboram, da maneira adequada em cada caso, nas celebrações religiosas colectivas, na vida paroquial, etc.
Também neste sentido são cidadãos correntes, que querem ser bons católicos.

Todavia, os sócios do Opus Dei não se costumam dedicar, geralmente, a trabalhar em actividades confessionais.
Só em casos excepcionais, quando a Hierarquia expressamente o pede, algum membro da Obra colabora em actividades eclesiásticas. Nessa atitude não há qualquer desejo de se singularizar, e menos ainda de desconsideração pelas actividades confessionais, mas tão somente a decisão de se ocupar do que é próprio da vocação para o Opus Dei.
Há já muitos religiosos e clérigos, e também muitos leigos cheios de zelo, que levam para a frente essas actividades, dedicando-lhes os seus melhores esforços.

O que é próprio dos sócios da Obra, a tarefa a que se sabem chamados por Deus, é outra.
Dentro da chamada universal à santidade, o sócio do Opus Dei recebe, além disso, uma chamada especial para se dedicar, livre e responsavelmente, a procurar a santidade e a fazer o apostolado no meio do mundo, comprometendo-se a viver um espírito específico e a receber, ao longo de toda a sua vida, uma formação peculiar.
Se descurassem o seu trabalho no mundo, para se ocuparem das actividades eclesiásticas, tornariam ineficazes os dons divinos recebidos, e pelo entusiasmo de uma eficácia pastoral imediata, causariam um real dano à Igreja: porque não haveria tantos cristãos dedicados a santificarem-se em todas as profissões e ofícios da sociedade civil, no campo imenso do trabalho secular.

Além disso, a exigente necessidade da contínua formação profissional e da formação religiosa, juntamente com o tempo dedicado pessoalmente à piedade, à oração e ao cumprimento sacrificado dos deveres de estado, consome toda a vida: não há horas livres.

62
                  
pergunta:

Sabemos que pertencem ao Opus Dei homens e mulheres de todas as condições sociais, solteiros ou casados.
Qual é, pois, o elemento comum que caracteriza a vocação para a Obra?
Que compromissos assume cada sócio para realizar os fins do Opus Dei?

resposta:

Vou dizer-lho em poucas palavras: procurar a santidade no meio do mundo, no meio da rua.
Quem recebe de Deus a vocação específica para o Opus Dei sabe e vive que deve alcançar a santidade no seu próprio estado, no exercício do seu trabalho, manual ou intelectual.
Disse sabe e vive, porque não se trata de aceitar um simples postulado teórico, mas de o realizar dia a dia, na vida ordinária.

Querer alcançar a santidade - apesar dos erros e das misérias pessoais, que durarão enquanto vivermos - significa esforçar-se, com a graça de Deus, por viver a caridade, plenitude da lei e vínculo da perfeição.
A caridade não é algo de abstracto; quer dizer entrega real e total ao serviço de Deus e de todos os homens: desse Deus que nos fala no silêncio da oração e no rumor do mundo; desses homens, cuja existência se cruza com a nossa.

Vivendo a caridade - o Amor -, vivem-se todas as virtudes humanas e sobrenaturais do cristão, que formam uma unidade e que não se podem reduzir a enumerações exaustivas.
A caridade exige que se viva a justiça, a solidariedade, a responsabilidade familiar e social, a pobreza, a alegria, a castidade, a amizade...

Vê-se imediatamente que a prática destas virtudes conduz ao apostolado.
Mais, é já apostolado.
Porque, ao procurar viver assim, no meio do trabalho diário, a conduta cristã torna-se bom exemplo, testemunho, ajuda concreta e eficaz: aprende-se a seguir as pisadas de Cristo, que coepit facere et docere [i], que começou a fazer e a ensinar, unindo ao exemplo a palavra.
Por isso, chamei a este trabalho, há já quarenta anos, apostolado de amizade e confidência.

Todos os sócios do Opus Dei têm este mesmo afã de santidade e de apostolado.
Por isso, na Obra não há graus ou categorias de membros.
O que há é uma multiplicidade de situações pessoais - a situação que cada um tem no mundo - a que se adapta a mesma e única vocação específica e divina: a chamada a entregar-se, a empenhar-se pessoalmente, livremente e responsavelmente, no cumprimento da vontade de Deus manifestada para cada um de nós.

Como pode ver, o fenómeno pastoral do Opus Dei é algo que nasce de baixo, quer dizer, da vida corrente do cristão que vive e trabalha junto dos outros homens.
Não está na linha de uma mundanização - dessacralização - da vida monástica ou religiosa: não é o último estádio de aproximação dos religiosos ao mundo.

Aquele que recebe a vocação para o Opus Dei adquire uma nova visão das coisas que tem à sua volta: luzes novas nas suas relações sociais, na sua profissão, nas suas preocupações, nas suas tristezas e nas suas alegrias; mas nem por um momento deixa de viver no meio de tudo isso.
E não se pode de modo algum falar de adaptação ao mundo, ou à sociedade moderna: ninguém se adapta àquilo que tem como próprio; naquilo que se tem como próprio está-se.
A vocação recebida é igual à que surgia na alma daqueles pescadores, camponeses, comerciantes ou soldados que, sentados ao pé de Jesus Cristo na Galileia, O ouviam dizer: sede perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito [ii].

Repito que esta perfeição - que os sócios do Opus Dei procuram - é a perfeição própria do cristão, sem mais: quer dizer, aquela a que são chamados todos os cristãos e que implica viver integralmente as exigências da fé.
Não nos interessa a perfeição evangélica, que se considera própria dos religiosos e de algumas instituições assimiladas aos religiosos; e ainda menos nos interessa a chamada vida de perfeição evangélica, que se refere canonicamente ao estado religioso.

O caminho da vocação religiosa parece-me bendito e necessário na Igreja, e quem não o estimasse não teria o espírito da Obra.
Mas esse caminho não é o meu nem o dos sócios do Opus Dei.
Pode-se dizer que, ao virem ao Opus Dei, todos e cada um dos seus sócios o fizeram com a condição explícita de não mudar de estado.
A nossa característica específica é santificar o próprio estado no mundo, e procurar que cada um dos sócios se santifique no lugar do seu encontro com Cristo: este é o compromisso que cada sócio assume para realizar os fins do Opus Dei.

Entrevista realizada por Enrico Zuppi e António Fugardi, publicada em L'Osservatore della Domenica (Cidade do Vaticano) nos dias 19 e 26 de Maio e 2 de Junho de 1968

(cont)






[i] (Act. 1, 1)
[ii] (Mt. 5, 48)

25/10/2014

Evangelho diário, coment., leit. espiritual (História de uma alma)

Tempo comum XXIX Semana

Evangelho: Lc 13 1-9

1 Neste mesmo tempo chegaram alguns a dar-Lhe a notícia de certos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com o dos sacrifícios deles. 2 Jesus respondeu-lhes: «Vós julgais que aqueles galileus eram maiores pecadores que todos os outros galileus, por terem sofrido tal sorte? 3 Não, Eu vo-lo digo; mas, se não fizerdes penitência, todos perecereis do mesmo modo. 4 Assim como também aqueles dezoito homens sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou; julgais que eles também foram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? 5 Não, Eu vo-lo digo; mas, se não fizerdes penitência, todos perecereis do mesmo modo». 6 Dizia também esta parábola: «Um homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi buscar fruto e não o encontrou. 7 Então disse ao vinhateiro: Eis que há três anos venho buscar fruto a esta figueira e não o encontro; corta-a; para que está ela inutilmente a ocupar terreno? 8 Ele, porém, respondeu-lhe: Senhor, deixa-a ainda este ano, enquanto eu a cavo em volta e lhe deito estrume; 9 se com isto der fruto, bem está; senão, cortá-la-ás depois».

Comentário:

O Dono da vinha, que é o Senhor de quanto existe, tem todo o direito a colher os frutos do que plantou.
Quando não os encontra chama quem pôs à frente da sua propriedade para que lhe dê contas do que se passa.
A Santa Igreja tem, como missão principal, levar os seus filhos, os homens, a dar frutos e, para tal, serve-se dos meios que o próprio Senhor pôs à sua disposição.
O apostolado que não se detém nunca perante qualquer dificuldade, tenta uma e outra vez cumprir a sua tarefa de levar todos a Cristo. Leve o tempo que levar!
Com a Doutrina, os Sacramentos envida todos os esforços para cumprir o mandato divino.

(ama, comentário sobre Lc 13, 1-9, 2013.10.26)


Leitura espiritual


 HISTÓRIA DE UMA ALMA


Santa Teresinha do Menino Jesus

Manuscrito "A" - Parte I

…/2

Eu gostava muito de minha querida madrinha. Sem deixar perceber, prestava muita atenção em tudo que se fazia e se dizia ao meu redor. Tenho a impressão de que julgava as coisas como agora. Escutava atentamente o que Maria ensinava a Celina, para fazer como ela. Depois de sua saída da Visitação, para receber licença para entrar em seu quarto durante as aulas que Celina lhe dava, comportava-me muito bem e fazia tudo que ela mandava. Por isso, me enchiam de presentes que, apesar do pouco valor, muito me alegravam.

Eu tinha muito orgulho de minhas duas irmãs maiores, mas meu ideal de criança era Paulina... Quando comecei a falar e mamãe me perguntava: "Em quem estás pensando?", a resposta era sempre a mesma: "Em Paulina...!" Outras vezes, passava meu dedinho na vidraça e dizia: "Estou escrevendo: Paulina!..."

Frequentemente ouvia dizer que Paulina seria religiosa, e, então, sem saber o que significava isso, pensava: Eu também serei religiosa. Esta é uma de minhas primeiras recordações e, desde então, nunca mudei de intenção... Fostes vós, querida Madre, a pessoa que Jesus escolheu para me fazer noiva dele; não estavas na ocasião perto de mim, mas já se havia formado um laço entre nossas almas... Éreis meu ideal, eu queria parecer-me convosco, e foi o vosso exemplo que me atraiu, desde os dois anos de idade, ao Esposo das virgens. Quantos doces pensamentos quisera confiar-vos! Mas preciso prosseguir a história da florzinha, com sua história completa e geral, pois se eu quisesse falar detalhadamente de suas relações com "Paulina", teria que abandonar todo o restante...!

Minha querida Leoninha também tinha um lugar importante no meu coração. Amava-me muito. Quando toda a família saía para passear, à tarde, ela cuidava de mim... Parece-me ainda ouvir suas agradáveis cantigas para embalar meu sono... Procurava sempre me agradar e eu sofreria muito se lhe desse algum desgosto. Lembro-me muito bem de sua primeira comunhão, especialmente do momento em que me pôs no colo para entrarmos na casa paroquial. Achei tão bonito ser carregada por uma irmã maior, toda vestida de branco como eu...! À noite, colocaram-me para dormir cedo, pois eu era muito pequena para ficar para o jantar festivo; mas ainda vejo papai trazendo, no momento da sobremesa, pedaços do bolo para sua rainhazinha.

No dia seguinte, ou alguns dias depois, fomos com mamãe à casa da coleguinha de Leônia. No dia seguinte, ou poucos dias depois, fomos com mamãe à casa da companheirinha de Leônia. Acredito que foi naquele dia que nossa boa mamãezinha nos levou atrás de uma parede para nos dar vinho depois do jantar (que nos servira a pobre senhora Dagorau), pois não queria desagradar à boa mulher e tampouco queria que nos faltasse algo... Como é delicado o coração de uma mãe! Sabe manifestar sua ternura com mil cuidados antecipados nos quais ninguém pensaria...!

Agora, resta-me falar da minha querida Celina, a companheirinha de minha infância, mas as recordações são tantas, que não sei quais escolherei. Vou extrair algumas passagens das cartas que mamãe vos mandava para a Visitação, mas não copiarei tudo, porque me alongaria demais.

No dia 10 de julho de 1873 (ano de meu nascimento), eis o que vos dizia: «A ama trouxe Teresinha na quinta-feira. Passou rindo o tempo todo. Foi a Celininha de quem mais gostou. Ria às gargalhadas com ela. Parece que já quer brincar e não demorará a fazê-lo. Fica em pé sobre as perninhas duras como estacas. Creio que em breve começará a andar e terá bom carácter. Parece muito inteligente e tem um aspecto de predestinada..."

Mas foi sobretudo depois de desmamada que demonstrei meu afeto por minha querida Celininha. Nós nos compreendíamos muito bem; só que eu era muito mais esperta e menos ingênua que ela. Mesmo sendo três anos e meio mais nova, parecíamos ter a mesma idade. Eis o trecho de uma carta de mamãe, no qual vereis o quanto Celina era boa e eu má:
«Minha Celininha é totalmente inclinada à virtude. É uma inclinação arraigada em seu íntimo. Tem alma pura e repugnância ao pecado. Quanto ao pequeno furão ainda não sabemos como será. É tão pequeno e atrapalhado! Tem inteligência superior à de Celina, mas é menos doce e, sobretudo, de uma teimosia quase indomável. Quando diz "não", nada a faz ceder; ainda que a colocássemos o dia todo no porão, ainda preferiria passar a noite aí a ter que dizer "sim".
"Porém, tem um coração de ouro, é muito carinhosa e muito franca, é estranho vê-la correr atrás de mim para confessar algo - Mamãe, empurrei Celina uma vez, bati nela uma vez, mas não vou fazer mais - (é assim em tudo o que faz). Quinta-feira à noite, fomos dar um passeio nos arredores da estação ferroviária. Quis a todo custo entrar na sala de espera para ir buscar Paulina. Corria à nossa frente com uma alegria contagiante. Porém, quando percebeu que era preciso voltar para casa sem embarcar para ir buscar Paulina, chorou durante todo o percurso".

Esse último trecho da carta me faz lembrar a felicidade que sentia vendo-vos voltar da Visitação, vós, querida Madre, me pegáveis no colo e Maria carregava Celina. Então, fazia -vos mil carícias e inclinava-me para trás, a fim de admirar vossa grande trança... e me dáveis um tablete de chocolate que tínheis guardado durante três meses, imagineis que relíquia era para mim!...

Lembro-me também da viagem que fiz a Le Mans. Era a primeira vez que viajava de trem. Que alegria ver-me viajando sozinha com mamãe!... Porém, não sei mais por quê, pus-me a chorar e essa pobre mamãe só pôde apresentar à minha tia de Le Mans uma feiurinha rubra pelas lágrimas vertidas a caminho... Não conservei lembrança alguma do parlatório, só do momento em que minha tia me entregou um ratinho branco e uma cestinha de papel bristol cheia de bombons sobre os quais havia dois bonitos anéis de açúcar bem do tamanho do meu dedo; logo gritei: "Que bom! tem um anel para Celina". Mas que tristeza! Peguei minha cestinha pela alça, dei a outra mão a mamãe e partimos. Depois de alguns passos, olhei minha cestinha e vi que meus bombons estavam quase todos esparramados pela rua, como as pedras do pequeno polegar... Olhei com mais atenção e constatei que um dos preciosos anéis sofrera a sorte fatal dos bombons... Não tinha mais nada para dar a Celina!... nesse momento, minha dor explode, peço para voltar, mamãe não parece me dar atenção. Era demais. Aos gritos seguiram-se minhas lágrimas... Não conseguia compreender como ela não compartilhava da minha tristeza e isso aumentava muito a minha dor...

Agora volto às cartas nas quais mamãe vos fala de Celina e de mim. É o melhor meio de que disponho para revelar-vos meu carácter. Eis um trecho no qual meus defeitos despontam com intenso brilho.

"Eis que Celina brinca com a pequena de jogar cubos, brigam de vez em quando. Celina cede para ter uma pérola na sua coroa. Vejo-me obrigada a corrigir esse pobre bebé, que fica terrivelmente furioso quando as coisas não andam como ela quer e rola por terra como uma desesperada, acreditando que tudo está perdido. Há momentos em que é mais forte que ela, fica sufocada. É uma criança muito agitada, porém muito mimosa e muito inteligente, lembra-se de tudo".

Estais vendo, Madre, como eu estava longe de ser uma menina sem defeitos! nem se podia dizer de mim "Que era boazinha quando dormia", pois de noite era ainda mais agitada que de dia, mandava para os ares todas as cobertas e (embora dormindo) dava cabeçadas na madeira da minha caminha; a dor me despertava e então dizia: "Mãe, bati-me!..." Essa pobre mãe era obrigada a levantar-se e constatava que, realmente, tinha galos na testa, que eu me batera. Cobria-me e voltava a deitar-se, mas depois de algum tempo eu recomeçava a me bater. Tanto que foram obrigados a me amarrar na minha cama. Todas as noites Celininha vinha amarrar as numerosas cordas destinadas a impedir o duendezinho de se chocar e acordar mamãe. Esta medida deu bom resultado e passei a ficar boazinha enquanto dormia...-
Havia ainda outro defeito que tinha (quando acordada) e do qual mamãe não fala em suas cartas. Era um grande amor-próprio. Disso vos darei apenas dois exemplos a fim de não alongar demais minha narração. – Mamãe disse-me um dia: - "Minha Teresinha, se te prontificares a beijar o chão, dar-te-ei um cinco centavos". Para mim cinco centavos eram uma verdadeira fortuna. Para o ganhar, não me era necessário diminuir minha altura, pois meu pequeno porte não constituía grande distância entre mim e o chão. Minha altivez, no entanto, se revoltou com a ideia de "beijar o chão". Mantendo-me bem empertigada, digo à mamãe: - "Oh! não, minha mãezinha, prefiro ficar sem os cinco centavos..."
De outra feita tínhamos de ir até Grogny à casa da Sra. Monnier. Mamãe falou à Maria me pusesse o lindo vestido tido azul celeste, com guarnição de rendas, mas não me deixasse com os braços nus, para não se queimarem ao sol. Deixei que me vestissem com aquela displicência que deveria ser própria de crianças com a minha idade; mas, interiormente, pensava que teria ficado muito mais graciosa com meus bracinhos nus.

Com uma índole como a minha, se fosse criada por pais carentes de virtude, ou até se fosse como Celina mimada por Luísa, ter-me-ia tornado bem maldosa e talvez me tivesse perdido... Mas Jesus olhava pela sua esposinha. Quis que tudo redundasse para o bem dela. Seus próprios defeitos, refreados a tempo, serviram-lhe para crescer na perfeição... Tendo amor-próprio e também amor do bem, tão logo comecei a pensar com sisudez (o que fiz desde pequenina) bastava dizerem-me que alguma cousa não ficava bem, para que não precisasse ouvi-lo dizer duas vezes... Nas cartas de Mamãe vejo, com satisfação, que na medida que ia ficando maior lhe proporcionava mais consolo. Não tendo em redor de mim senão bons exemplos, era natural que os quisesse seguir. Veja-se o que ela escrevia em 1876: - "A própria Teresa que por vezes quer pôr-se a marcar suas práticas religiosas"... É uma criança encantadora, sutil como a sombra, muito vivaz, mas seu coração é sensível. Celina e ela querem-se muito, bastam as duas para se entreterem. Todos os dias, depois de terem almoçado, Celina vai buscar seu galinho, pega ao mesmo tempo a galinha para Teresa. Por mim não o consigo, mas ela é tão ágil que lhe deita a mão no primeiro bote. Depois cão as duas com as aves sentar-se no canto da lareira e assim se distraem por muito tempo. (Foi Rosinha que me fizera presente da galinha e do galo. Eu tinha dado o galo à Celina). Outro dia Celina deitara comigo. Teresa deitara na cama de Celina no segundo andar. Tinha instado com Luísa. a trouxesse para baixo, a fim de lhe porem o vestido. Luísa sobe para a buscar, encontra a cama vazia. Teresa tinha ouvido Celina e descera com ela. Luísa lhe diz: "- Não queres, pois, descer para te vestires?" - "Oh! não, pobre de minha Luísa, somos como as duas franguinhas, não podemos separar-nos!" Enquanto assim diziam, abraçavam-se e aconchegavam-se uma a outra... Depois, à noite, Luísa, Celina e Leônia foram ao círculo católico e deixaram a pobre Teresa, que bem compreendia ser muito pequena para ir junto. Dizia: - "Se pelo menos quisessem deitar-me na cama de Celina!"... Mas, não, não o quiseram... Nada falou e sozinha ficou com sua lamparina. Um quarto de hora depois dormia a sono solto..."

Outro dia Mamãe ainda escreveu: "Celina e Teresa são inseparáveis. Não é possível pôr os olhos em duas crianças que se queiram tanto uma a outra. Quando Maria vem buscar Celina para a lição, a coitada da Teresa se desfaz em pranto. Ai! que acontecerá com ela, sua amiguinha vai deixá-la... Maria fica com dó, leva-a também e a pobre pequerrucha permanece sentada numa cadeira duas ou três horas. Dão-lhe pérolas para enfiar ou um retalho para coser. Tem receio de mexer-se e, de vez em quando solta fortes suspiros. Quando a agulha se desenfia, tenta enfiá-la de novo. É interessante observá-la como não o pode conseguir e não quer dar trabalho a Maria. Sem demora, a gente vê duas grossas lágrimas correrem-lhe pelas faces... Maria não tarda em consolá-la, torna a enfiar a agulha, e o pobre anjinho sorri através de suas lágrimas..."

Lembra-me, com efeito, que não podia ficar sem Celina. Preferia sair da refeição antes de terminar a sobremesa, do que não lhe ir atrás, tão logo se levantasse. Virava-me em minha cadeira alta, a pedir que me descessem, e depois íamos brincar juntas. Íamos às vezes com a pequena "prefeita", o que muito me agradava por causa do parque e de todos os lindos brinquedos que ela nos mostrava, mas era mais na intenção de contentar Celina que ia para lá, preferindo quedar-me em nosso pequeno jardim a esgaravatar os muros, pois extraíamos todas as faiscantes palhetinhas que ali se achavam e íamos em seguida vendê-las ao Papai que no-las comprava com toda a seriedade.

No domingo, sendo muito pequena para frequentar os ofícios religiosos, Mamãe ficava para tomar conta de mim. Comportava-me bem e só andava na ponta dos pés durante o tempo da missa. Logo, porém, que visse a porta abrir-se, era sem igual a explosão de alegria. Precipitava-me ao encontro de minha linda irmãzinha que estava então "enfeitada como um oratório"... e dizia-lhe: "Oh! minha Celininha, dá-me depressa pão bento!" Algumas vezes não o tinha, porque havia chegado atrasada... Que fazer então? Era-me impossível ficar sem ele. Nisso consistia "a minha missa"... Encontrou-se um meio com muita rapidez. - "Se não tens pão bento, pois então benze-o!" Dito e feito. Celina toma uma cadeira, abre o armário da parede, pega o pão, corta um bocado, sobre o qual, muito compenetrada, recita uma Ave-Maria, e apresenta-mo em seguida. E eu, depois de [ter] feito com ele o sinal da Cruz, como-o com grande devoção, achando-lhe, absolutamente, o gosto de pão bento...

De vez em quando fazíamos juntas conferências espirituais: Aqui está um exemplo que tiro das cartas de Mamãe: - "Nossas queridas pequenas Celina e Teresa são anjos abençoados, naturezas angélicas em miniatura. Teresa constitui a alegria, a felicidade de Maria e sua glória; é incrível como se orgulha disso. Verdade é que tem saídas bem singulares para sua idade. De longe ultrapassa Celina, que tem o dobro da idade dela. Dizia Celina outro dia: - "Como pode Deus caber em hóstia tão pequena?" Falou a pequena: "Não é tanto de admirar, uma vez que Deus é todo-poderoso". - "Que quer dizer Todo-poderoso?" - "É fazer tudo o que Ele quer!."

Um dia, julgando-se muito crescida para brincar com boneca, Leónia veio procurar-nos a nós duas com uma cesta cheia de vestidos e de lindos retalhos para fazer outros; por cima estava colocada sua boneca. - "Tomai lá, minhas irmãzinhas, diz-nos ela, escolhei, dou-vos tudo isto". Celina estendeu a mão e tomou um pacotinho de alamares que lhe agradava. Após um instante de reflexão, estendi a mão por minha vez e declarei: - "Escolho tudo!" e apoderei-me da cesta sem outra formalidade. As testemunhas da cena acharam o caso muito justo, a própria Celina nem pensou em reclamar. (Aliás; brinquedos não lhe faltavam, seu padrinho cumulava-a de presentes e Luísa descobria meios de arrumar-lhe tudo quanto desejasse).

Este pequeno episódio de minha infância é o apanhado de toda a minha vida. Mais tarde, quando se me tornou evidente o que era perfeição, compreendi que para se tornar santa era preciso sofrer muito, ir sempre atrás do mais perfeito e esquecer-se a si mesmo. Compreendi que na perfeição havia muitos graus e que cada alma era livre no responder às solicitações de Nosso Senhor, no fazer muito ou pouco por Ele, numa palavra, no escolher entre os sacrifícios que exige. Então, como nos dias de minha primeira infância, exclamei: "Meu Deus, escolho tudo". Não quero ser santa pela metade. Não me faz medo sofrer por vós, a única cousa que me dá receio é a de ficar com minha vontade. Tomai-a vós, pois "escolho tudo" o que vós quiserdes!. . . "

É forçoso que pare, pois não devo ainda falar-vos de minha juventude, mas da estouvadinha aos quatro anos de idade. Lembro-me de um sonho que devo ter tido por volta dessa idade e que me calou profundamente na imaginação. Sonhei uma noite que saía a passear sozinha pelo jardim. Chegando ao pé dos degraus que precisava subir para ali chegar, estaquei tomada de pavor. Diante de mim, rente ao caramanchão, havia uma barrica de cal e sobre a barrica dançavam, com espantosa agilidade, dois medonhos diabinhos, não obstante os ferros de engomar que tinham nos pés. De chofre lançaram sobre mim seus olhares chamejantes, mas ao mesmo instante, parecendo muito mais assustados do que eu, precipitaram-se da barrica abaixo e foram esconder-se na rouparia que ficava defronte. Ao vê-los tão pouco valorosos, quis saber o que iriam fazer e acerquei-me da janela. Lá estavam os míseros diabinhos a correr por sobre as mesas, não sabendo o que fazer para se esquivarem do meu olhar. De vez em quando chegavam até a janela, e olhavam com um ar inquieto, se eu ainda estava lá e como sempre me avistassem, começavam a correr de novo como desatinados. - Sem dúvida, este sonho nada tem de extraordinário, acredito, no entanto, que o Bom Deus permitiu que guarde sua lembrança, a fim de me provar que uma alma em estado de graça nada deve temer dos demónios, que são uns poltrões, capazes de fugir diante do olhar de uma criança...

(cont.)