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23/12/2015

Evangelho, comentário, L. espiritual



Tempo de Advento


Evangelho: Lc 1, 57-66

57 Completou-se para Isabel o tempo de dar à luz e deu à luz um filho. 58 Os seus vizinhos e parentes ouviram falar da graça que o Senhor lhe tinha feito e congratulavam-se com ela. 59 Aconteceu que, ao oitavo dia, foram circuncidar o menino e chamavam-lhe Zacarias, do nome do pai. 60 Interveio, porém, sua mãe e disse: «Não; mas será chamado João». 61 Disseram-lhe: «Ninguém há na tua família que tenha este nome». 62 E perguntavam por acenos ao pai como queria que se chamasse. 63 Ele, pedindo uma tabuinha, escreveu assim: «O seu nome é João». Todos ficaram admirados.64 E logo se abriu a sua boca, soltou-se a língua e falava bendizendo a Deus. 65 O temor se apoderou de todos os seus vizinhos, e divulgaram-se todas estas maravilhas por todas as montanhas da Judeia. 66 Todos os que as ouviram as ponderavam no seu coração, dizendo: «Quem virá a ser este menino?». Porque a mão do Senhor estava com ele.

Comentário:

A Igreja celebra o Nascimento de São João Baptista.

As Memórias dos Santos são normalmente celebradas no dies natalis, isto é, no dia em que partiram para o Reino de Deus na eternidade.

Mas neste caso é diferente porque quando João Baptista nasce já era Santo.

Foi santificado no ventre de sua Mãe, pelo próprio Jesus Cristo.

(ama, comentário sobre Lc 1, 57-66, 80, 2015.06.24)


Leitura espiritual


Eucaristia

A Presença Real de Cristo na Eucaristia - Parte IV


A Presença Real de Cristo na Eucaristia

- "Cristo apresentou ao Pai, de uma única vez para sempre, o sacrifício de Si mesmo [i] e não em cada Missa, como faz novamente o sacerdote ao apresentar ao Pai um novo sacrifício de Cristo" [ii].

- "Cristo não foi imolado uma única vez em Si mesmo? No entanto, quanto ao Sacramento (da Eucaristia) - que se imola pelos povos não só em todas as solenidades da Páscoa, mas também todos os dias - não mente aquele que responde, caso lhe seja perguntado, que 'há imolação'" [iii].

TRADIÇÃO APOSTÓLICA

Este é um documento de enorme importância para o conhecimento da liturgia celebrada na Igreja dos primeiros séculos. A obra é datada do início do século III [iv].
Junto com a Didaché, são os documentos mais importantes sobre a organização da Igreja primitiva.

Tratando da celebração da Ceia do Senhor, o documento distingue entre "pão bento" (em grego, "eulogia") e "pão eucarístico" (em grego, "eukaristia"), e insiste no cuidado que se deve ter para com este último [v].

- "Cada um tome cuidado para que nenhum infiel prove a Eucaristia, nem algum rato ou outro animal; porque é o corpo de Cristo, que deve ser comido pelos fiéis e não deve ser menosprezado" [vi].

Há uma expressão na Tradição que pode, a primeira vista, parecer (nas traduções) apoiar a opinião simbolista:

- "(O Bispo) dará graças sobre o pão para (que seja) o símbolo do corpo de Cristo; e sobre o cálice de vinho misturado para (que seja) a imagem do sangue que foi derramado por todos os que creram Nele".

A palavra grega original que se encontra sob as palavras "símbolo" e "imagem" no texto acima - trata-se de uma mesma palavra para ambos os casos - é "antítipo" [vii].
A questão é saber o que este termo significa propriamente.

"Tipo" designava, na língua helénica, o mesmo que o molde que modela uma imagem (sentido principal) ou a própria imagem já modelada (sentido secundário).
Uma diferenciação posterior passou a ser usada para estes casos, apontando "tipo" para o molde e "antítipo" para a imagem; deste modo, o "antítipo" é algo que em sua própria razão de ser possui um carácter de referência essencial ao molde de onde procede.
Para São Paulo, todos os acontecimentos do Antigo Testamento são "tipo" dos acontecimentos do Novo [viii]; daí que, obviamente, o Novo Testamento é "antítipo" do Antigo.
Com efeito, resta natural enxergar na Eucaristia um "antítipo" da morte de Cristo, que Ele mesmo ordenou comemorar nela.
No texto acima citado, o pão e o vinho são chamados "antítipos" (imagem, semelhança) do corpo e do sangue de Cristo, porque esses elementos visíveis adquiriram, após a consagração, uma relação essencial com o corpo e o sangue de Cristo, que neles Ele Se nos dá realmente.
Por outras palavras: os elementos eucarísticos são "antítipos" do corpo e do sangue de Cristo não em si mesmos - pois não o são de maneira nenhuma - mas enquanto foram feitos, sacramentalmente, o corpo e o sangue de Cristo.
Longe de negar o realismo da presença real, essa expressão a supõe como fundamento da própria relação que afirma.
Dava-se deste modo uma primeira resposta ao problema da persistência sensível do pão e do vinho apesar da transformação invisível que pela consagração se operou neles.
Com a nova e real presença do corpo e do sangue de Cristo, os elementos do pão e do vinho adquiriram um novo sentido do sinal visível de uma nova realidade invisível, que é o corpo e o sangue do Senhor [ix].

Existem outros monumentos litúrgicos em que a mesma expressão aparece. Cito alguns:

- "Te damos graças também, Pai nosso, pelo sangue precioso de Jesus Cristo derramado por nós, e pelo precioso corpo, cujos 'antítipos' realizamos por Ele nos ter ordenado proclamar a Sua morte" [x].

- "Em lugar do sacrifício de animais, temos o (sacrifício) espiritual, incruento e místico, que é celebrado pelos 'antítipos' do corpo e do sangue do Senhor em memória da sua morte" [xi].

- "A imagem e semelhança do corpo e sangue de Cristo se realizam na celebração dos mistérios" [xii].

- "Aceita, Pai, estes dons (o pão e o vinho consagrados na Eucaristia) para a glória do teu Cristo e envia sobre este sacrifício o teu Santo Espírito, testemunha dos sofrimentos do Senhor Jesus, para que Ele mostre que este pão é o corpo de Cristo e este cálice é o sangue de Cristo, de tal modo que os que dele participam se fortaleçam para a santidade, alcancem a remissão dos seus pecados, sejam afastados do maligno e dos seus enganos, possam se encher do Santo Espírito, possam ser dignos do teu Cristo e possam obter a vida eterna, vida que cresce na reconciliação dos que fizeste partícipes" [xiii].

O sentido destes textos supõe a mudança que sofrem o pão e o vinho na consagração.
Por ela, o que era pão e vinho são agora o corpo e o sangue do Senhor; contudo, ao permanecer igual em seu aspecto visível de pão e vinho, recebem uma nova relação com o corpo e o sangue de Cristo ali realmente presentes e é isso o que expressam os textos com palavras como "figura", "imagem", "semelhança", "antítipo": para os olhos naturais, continuam sendo vistos pão e vinho; estes são uma "imagem" do corpo e sangue de Cristo, porque sobre eles foi pronunciada a "eucaristia" e já não são apenas pão e vinho [xiv].

São João Damasceno (séc. VIII) entendeu o problema de modo diverso e oferecia esta solução:

- "Se alguns chamaram o pão e o vinho de figuras ("antítipos") do corpo e do sangue do Senhor - como disse Basílio, o Portador de Deus (Teóforo) - os chamaram assim não após a consagração, mas antes da consagração, dando este nome à oblação em si" [xv].

Isto indica que a fé da Igreja universal era unânime em dar para a presença do corpo e do sangue do Senhor na Eucaristia um valor real e não meramente simbólico.

Finalmente note-se que os adversários da presença real nem sequer poderiam usar em suas homilias as expressões aqui citadas - que poderiam parecer indicar uma interpretação "simbólica" para o nosso tema - já que as mesmas incluem o conceito de "sacrifício" eucarístico, ou o de "celebração dos mistérios", que jamais são aplicáveis aos cultos que giram em torno da pregação (como os cultos protestantes), sem a existência de um altar e do sacrifício eucarístico. 

ORÍGENES

Nascido em 185, em Alexandria, de família cristã.
O seu pai foi martirizado durante a perseguição de Septimio Severo. Conheceu Hipólito de Roma.
Excelente pregador e catequista.
Morreu em Cesareia, por volta do ano 253, em virtude dos maus tratos provocados pelos perseguidores da Fé.
As suas obras foram abundantes.
Algumas das suas doutrinas ultrapassaram as da Igreja, mas tratam-se de especulações pessoais sobre os mistérios, coisa que o próprio Orígenes se encarregou de assinalar.
O seu desejo de interpretar os textos bíblicos com excesso de alegoria e simbolismo costuma provocar confusão em mais de um de seus ensinamentos.
Apesar de tudo, é considerado como um dos melhores teólogos da Antiguidade.

No caso de Orígenes, deve levar-se em conta o seu sistema interpretativo, para não retirar as expressões eucarísticas do seu contexto natural.
Para compreender o pensamento sacramental de Orígenes, é necessário considerar três factos:

a) A sua concepção tipológica (as instituições do Antigo Testamento são figuras das realidades invisíveis do Novo).
b) A sua preferência em insistir mais na pregação do que na liturgia.
c) O interesse que, por influxo platónico, têm para ele os sinais visíveis do culto como sinais das realidades sobrenaturais.

Tendo isto em vista, Orígenes jamais nega a realidade da Eucaristia e se é verdade que por essa concepção e preferência ele está inclinado a minimizá-la, o seu testemunho - por isso mesmo - tem um valor muito maior [xvi].
Não se trata de uma antinomia entre realismo e simbolismo; afirma-se um simbolismo ulterior ao que previamente se admite como uma realidade.
Há em Orígenes um perfeito paralelismo entre a realidade da Eucaristia e seu ulterior simbolismo em ordem a outras realidades, por um lado, e o sentido literal da Escritura e seu sentido tipológico, por outro.
Ele não nega o sentido literal e nem o realismo eucarístico; estes dois são a base necessária para o simbolismo e a tipologia [xvii].

Há em Orígenes muitos textos em que alude à celebração eucarística; insiste especialmente nas disposições para se receber o corpo do Senhor. Indubitavelmente, ele entende esse corpo do Senhor no sentido literal:

- "Se sobes com Ele para celebrar a Páscoa, te dará o cálice do Novo Testamento e também o pão da bênção; conceder-te-á Seu próprio corpo e Seu próprio sangue" [xviii].

- "Antes, como um enigma, o maná era um alimento; agora, realmente, a carne do Verbo de Deus é o verdadeiro alimento, como Ele diz: 'Minha carne é verdadeira comida e o Meu sangue é verdadeira bebida" [xix].

Porém, esse corpo e sangue do Senhor, que são algo real na Eucaristia, são ao mesmo tempo símbolo de algo diferente, que pode também ser chamado, em sentido espiritual, de corpo e sangue do Senhor.
Por isso, Orígenes chama o corpo de Cristo na Eucaristia de "corpo típico e simbólico"; não porque não seja real, mas porque também é um sinal, um símbolo.

Em outro lugar, Orígenes exorta:

- "Vós que assistis habitualmente os divinos mistérios sabeis como, quando recebeis o corpo do Senhor, o guardais com cuidado e veneração, para que não caia nenhuma só partícula e não desapareça algo do dom consagrado.
Porque se por negligência cai alguma coisa, credes ser réus - e com razão [xx].
Porém, se dedicais tanto cuidado para conservar o corpo - e tens razão em fazê-lo - como podereis pensar que é algo menos ímpio descuidar da Palavra de Deus?" [xxi].

Em outro ponto, comenta Números 23,24, onde se lê: "Não dormirá até que coma a sua presa e beba do sangue dos feridos". O próprio tom da frase - diz Orígenes - faz abandonar a letra (do texto) e buscar a alegoria:

- "Que nos digam: que povo é esse que tem o costume de beber sangue? Isso foi o que, também no Evangelho, os judeus que seguiam o Senhor, ao ouvi-Lo, se escandalizaram (...) Porém, o povo cristão escuta e segue Aquele que diz: 'Se não comerdes a Minha carne e não beberdes o Meu sangue, não tereis vida em vós, porque a Minha carne é verdadeiramente comida e Meu sangue é verdadeiramente bebida'".

E continua e conclui o alexandrino:

- "Verdadeiramente Quem dizia isto foi ferido por nossos pecados, como disse Isaías (...) Porém, é dito que bebemos o sangue de Cristo não apenas no rito dos Sacramentos, como também quando recebemos as palavras de Cristo, em que se encontram a Vida" [xxii].

Com efeito, Orígenes passa do real - que claramente afirma - para um sentido mais místico nas passagens que comenta [xxiii].

DIONÍSIO DE ALEXANDRIA

Discípulo de Orígenes.
Chefe da escola catequética de Alexandria em 231; Bispo de Alexandria em 248.
Morreu em 265. Dele restaram duas cartas inteiras e vários fragmentos citados por outros autores.

Numa carta ao Papa, em que explica o porquê de não reiterar o baptismo dos hereges, diz:

- "É precisamente isto o que não me atrevi a fazer, dizendo (a um ancião que me insistia para que lhe renovasse o baptismo), que lhe bastava a comunhão (eucarística) em que era admitido há tanto tempo.
Quem participou da Eucaristia e pronunciou o 'Amém' com os demais, tendo se aproximado do altar e estendido as suas mãos para receber o alimento sagrado, e o tendo recebido e participado do corpo e sangue de Nosso Senhor, a esse eu não me atreveria a refazê-lo desde o início (administrando-lhe novamente o batismo)" [xxiv].

(cont)

p. juan carlos sack

Revisão da versão portuguesa por ama.





[i] Hebreus 9:24-28
[ii] Guillermo Hernández Agüero, evangélico
[iii] Santo Agostinho, Bispo, século IV
[iv] 215, aproximadamente
[v] O "pão bento" é conservado nas celebrações do Rito Bizantino, mas não nas do Rito Romano.
[vi] Espero que esta afirmação da Igreja dos primeiros séculos aplaque o medo de Hernández Agüero, que propõe: "Pensemos agora: se por acaso um rato, por descuido, vier a comer uma hóstia consagrada, falando no bom sentido, poderíamos dizer então que 'comeu Deus'?" Fiquemos apenas com a parte em que o rato não come o pão eucarístico, porque é o Corpo de Cristo e deve ser tratado como tal. Porém, o argumento do "rato comendo Deus" não parece ter debilitado a fé da Igreja primitiva na presença real.
[vii] Neste antigo documento ocorre em outras passagens o uso da palavra "antítipo": o pão do ágape, segundo a Tradição, "é uma 'eulogia', não uma Eucaristia, 'antítipo' do corpo do Senhor" (distinção mais do que importante para não confundir o ágape fraterno com a Eucaristia propriamente dita); e também: "Recebeste o cálice em nome de Deus como o 'antítipo' do sangue de Cristo".
[viii] Romanos 5,14; 1Coríntios 10,6
[ix] O tema foi estudado detalhadamente por A. Wilmart, em seu artigo "Transfigurare", Bulletin d’Ancienne Littérature et d’Archeologie Chrétiennes 1 (1911), pp. 285-288.
[x] Constituições Apostólicas 7,25,4
[xi] Constituições Apostólicas 6,23,5
[xii] Gelásio, Tractatus de Duabus Naturis Adv. Eutychen et Nestorium 14
[xiii] Constituições Apostólicas 8,12,22
[xiv] Não se deve esquecer que a Teologia, isto é, a reflexão sobre os mistérios da fé, vai se desenvolvendo de maneira gradual: a Igreja recebe o mistério e reflete sobre ele, guiada pelo Espírito, sem eliminar os elementos que transcendem sua capacidade intelectiva - os mistérios propriamente ditos - ainda que busque obter deles um conhecimento e uma compreensão cada vez maiores. Neste processo secular, a Teologia avança também na expressão das verdades que recebeu e que transmite de geração a geração, atormentada precisamente por expressões que davam margem à dúvida ou confusão, ou somente imperfeitas em demasia. Assim ocorreu com todos os dogmas da Igreja, não apenas com a Eucaristia; pense-se, por exemplo, na evolução das expressões acerca da humanidade e divindade do Senhor: só com o passar dos séculos e após disputas que muitas vezes se tornaram violentas, a Igreja foi capaz de expressar o mistério de uma maneira mais perfeita, coisa que não exclui uma melhor expressão no futuro. Quando o Concílio Niceno-Constantinopolitano abordou a pessoa divina de Jesus e suas naturezas divina e humana, estava expressando com autoridade o que por séculos foi motivo de debates e lutas de não pequena monta, visto que as Escrituras pareciam dar razão para as duas partes em questão manter posições contrárias; e na pregação do mistério da Encarnação, aqui e acolá soavam expressões que a Igreja, iluminada pelo Espírito da Verdade, foi discernindo, esclarecendo e definindo.
[xv] Da Fé Ortodoxa 4,13
[xvi] Estes pensamentos não são ideias minhas. Podem consultar-se os melhores estudiosos de Orígenes e os Padres do seu tempo; p.ex.: H. U. von Balthasar, “Le Mysterion de Origène”, in: Recherches de Science Religieuse 26 (1936), pp. 513-562; 27 (1937), pp. 38-68; H. de Lubac, "Histoire et Esprit. L’intelligence de l’Écriture d’après Origène" (Paris 1950), pp. 355-358; H. Crouzel, “Origène et la structure du sacrement”, in: Bulletin de Littérature Ecclésiastique 63 (1962), pp. 81-104 ; L. Lies, "Wort und Eucharistie bei Origenes" [Innsbrucker theologishe Studien, 1] (Innsbruck-Wien-München 1978), pp. 97-148 ; J. Daniélou, "Origène" (Paris 1948), p. 74. Todos estes autores são as autoridades mais importantes no estudo de Orígenes em nosso tempo.
[xvii] Sobre a antiga concepção de "símbolo" que não nega a realidade mas a afirma, projetando-a para uma outra realidade superior, veja-se A. von Harnack, "Lehrbuch der Dogmengeschichte", t. 1 (Tübingen 1909), p. 476.
[xviii] Sobre Jeremias, Homilia 19,13
[xix] Sobre Números, Homilia 7,2
[xx] Neste espírito, a Igreja sempre protegeu os sagrados elementos eucarísticos contra toda espécie de profanação, maltrato ou roubo. Daniel Sapia, webmaster do Site batista "Conoceréis la Verdad", quer desacreditar este interesse da Igreja, quando cita ironicamente a preocupação de Mons. Estanislao Karlic, então presidente da Conferência Episcopal Argentina, quando tomou conhecimento do roubo cometido contra uma senhora que levava consigo a eucaristia para um doente. Comentou o webmaster batista: "O Redentor da humanidade era carregado 'na carteira da mulher...'".
[xxi] Sobre Êxodo, Homilia 13,3
[xxii] Sobre Números, Homilia 16,9
[xxiii] Esta última citação de Orígenes confirma o que sugerimos anteriormente: a fé na presença real de Jesus na Eucaristia não exclui um discurso mais amplo, simbólico, que podemos encontrar nos Padres (e também em pregadores católicos atuais); o texto citado, p.ex., nunca poderia ser pronunciado por um "evangélico", pois ele não poderia dizer: "bebemos o sangue de Cristo no rito dos Sacramentos", enquanto um católico poderia, sem nenhum problema, pronunciar a frase inteira: "bebemos o sangue de Cristo não apenas no rito dos Sacramentos, como também quando recebemos as palavras de Cristo".
[xxiv] Carta ao Papa Sisto II; cf. Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica 7,9,4

23/12/2014

Ev. Coment. L. esp. (Amigos de Deus)

Advento IV Semana

Evangelho: Lc 1 57-66

57 Completou-se para Isabel o tempo de dar à luz e deu à luz um filho. 58 Os seus vizinhos e parentes ouviram falar da graça que o Senhor lhe tinha feito e congratulavam-se com ela. 59 Aconteceu que, ao oitavo dia, foram circuncidar o menino e chamavam-lhe Zacarias, do nome do pai. 60 Interveio, porém, sua mãe e disse: «Não; mas será chamado João». 61 Disseram-lhe: «Ninguém há na tua família que tenha este nome». 62 E perguntavam por acenos ao pai como queria que se chamasse. 63 Ele, pedindo uma tabuinha, escreveu assim: «O seu nome é João». Todos ficaram admirados.64 E logo se abriu a sua boca, soltou-se a língua e falava bendizendo a Deus. 65 O temor se apoderou de todos os seus vizinhos, e divulgaram-se todas estas maravilhas por todas as montanhas da Judeia. 66 Todos os que as ouviram as ponderavam no seu coração, dizendo: «Quem virá a ser este menino?». Porque a mão do Senhor estava com ele.

Comentário:

O maior dos profetas no Antigo Testamento e o menor no Reino dos Céus! Assim o apelidou Jesus.

De facto o Reino de Deus só estará  definitivamente instalado na terra depois da Ressurreição de Cristo, muito depois da morte de João.
Este primo direito do Senhor talvez tenha sido o “primeiro dos últimos” - que o Senhor refere na Sua pregação.

Seja como for a figura deste homem é incontornável já que está intimamente ligada à história da salvação da humanidade.

(ama, comentário sobre Lc 1, 57-66. 80, 2014.06.24)
 

Leitura espiritual 


São Josemaria Escrivá

Amigos de Deus 151 a 158

151         
Os paus pintados de vermelho

Ficaram bem gravados na minha cabeça de menino aqueles sinais que, nas montanhas da minha terra, colocavam nas bermas dos caminhos. Chamaram-me a atenção uns paus altos, geralmente pintados de vermelho. Explicaram-me então que, quando a neve cai e cobre os caminhos, sementeiras e pastos, bosques, rochedos e barrancos, essas estacas saltam à vista como pontos de referência seguros. E assim toda a gente sabe sempre por onde vai o caminho.

Na vida interior acontece uma coisa parecida. Há primaveras e verões, mas também chegam os invernos, dias sem sol e noites órfãs de lua. Não podemos permitir que a intimidade com Jesus Cristo dependa do nosso estado de espírito ou das mudanças do nosso carácter. Essas atitudes são sinal de egoísmo, de comodismo e, evidentemente, não se coadunam com o amor.

Por isso, nos momentos de nevão e de borrasca, algumas práticas de piedade sólidas, nada sentimentais, bem arreigadas e ajustadas às circunstâncias próprias de cada um, serão como os tais paus pintados de vermelho, que continuam a marcar-nos o rumo, até que o Senhor decida que brilhe de novo o sol, se derreta o gelo e o coração volte a vibrar, inflamado com um fogo que, na realidade, nunca esteve apagado - foi apenas um rescaldo oculto pela cinza de uma temporada de provação, de menos empenho ou de reduzido sacrifício.

152         
Não oculto que, ao longo destes anos, houve quem viesse ter comigo e me dissesse, compungido pela dor: Padre, não sei o que se passa comigo, sinto--me cansado e frio; a minha piedade, que dantes era tão segura e simples, parece-me uma comédia... Pois aos que passam por essa situação e a todos vós respondo: uma comédia? Magnífico! O Senhor está a brincar connosco como um pai com os filhos.

Lê-se na Escritura: Iudens in orbe terrarum, que Ele brinca em toda a superfície da terra. Mas Deus não nos abandona, porque imediatamente acrescenta: deliciæ meæ esse cum filiis hominum, a minha delícia é estar com os filhos dos homens. O Senhor brinca connosco. E quando nos parecer que estamos a representar uma comédia, por nos sentirmos gelados e apáticos, quando estivermos aborrecidos e sem vontade de fazer nada, quando nos custar cumprir o nosso dever e alcançar as metas espirituais que nos tínhamos proposto, é altura de pensar que Deus brinca connosco e espera então que saibamos representar a nossa comédia com galhardia.

Não me importo de vos contar que, em algumas ocasiões, o Senhor me concedeu muitas graças, mas que geralmente vou a contrapelo. Prossigo o meu plano de vida, não porque me agrade, mas porque devo fazê-lo por Amor. Mas, Padre, pode-se representar uma comédia diante de Deus? Não será uma hipocrisia? Não te inquietes, pois chegou para ti o momento de entrares numa comédia humana que tem um espectador divino. Persevera, pois o Pai, o Filho e o Espírito Santo assistem a essa tua comédia. Faz tudo por amor de Deus, para lhe agradar, mesmo que te custe.

Que bonito é ser jogral de Deus! Como é belo representar essa comédia por Amor, com sacrifício, sem nenhuma satisfação pessoal, para agradar ao nosso Pai Deus, que brinca connosco! Põe-te diante do Senhor e diz-lhe confiadamente: não me apetece nada fazer isto, mas oferecê-lo-ei por Ti. E ocupa-te a sério desse trabalho, ainda que penses que é uma comédia. Abençoada comédia! Garanto-te que não se trata de hipocrisia, porque os hipócritas, para os seus fingimentos, necessitam de público. Pelo contrário, os espectadores desta nossa comédia, deixa-me repetir-to, são o Pai, o Filho e o Espírito Santo; a Virgem Santíssima, S. José e todos os Anjos e Santos do Céu. Na nossa vida interior não há outro espectáculo senão esse: é Cristo que passa quasi in occulto, ocultamente.

153         
Iubilate Deo. Exsultate Deo adiutori nostro. Louvai a Deus. Exultai de alegria no Senhor, nossa única ajuda. Jesus, quem não compreende isto, não conhece nada de amores, nem de pecados, nem mesmo de misérias! Eu sou um pobre homem e entendo de pecados, de amores e de misérias. Sabeis o que é elevar-se até ao coração de Deus? Compreendeis o que é uma alma pôr-se diante do Senhor, abrir-lhe o coração e contar-lhe as suas queixas? Eu queixo-me, por exemplo, quando leva para junto d'Ele gente nova, que ainda o poderia servir e amar muitos anos na terra, porque não consigo compreender isso. Mas são gemidos de confiança, pois sei que, se me afastasse dos braços de Deus, logo a seguir tropeçaria. Por isso, acrescento imediatamente, devagar, enquanto aceito os desígnios do Céu: faça-se, cumpra-se, seja louvada e eternamente glorificada a justíssima e amabilíssima Vontade de Deus sobre todas as coisas. Amen. Amen.

Este é o modo de proceder que nos ensina o Evangelho, a habilidade mais santa e a fonte de eficácia no apostolado; este é o manancial do nosso amor e da nossa paz de filhos de Deus, a via pela qual podemos transmitir aos homens carinho e serenidade. Só assim conseguiremos acabar os nossos dias no Amor, tendo santificado o nosso trabalho, procurando aí a felicidade escondida das coisas de Deus. Conduzir-nos-emos com a santa desvergonha das crianças e rejeitaremos a vergonha - a hipocrisia - dos adultos, que receiam voltar para o Pai, depois do fracasso de uma queda.

Termino com a saudação do Senhor que se lê hoje no Santo Evangelho: pax vobis! A paz seja convosco... E encheram-se de alegria os discípulos, ao ver o Senhor, esse Senhor que nos acompanha até ao Pai.

154         
Aqui estamos, consummati in unum, em unidade de petição e de intenções, dispostos a começar este tempo de conversa com o Senhor com renovado desejo de sermos instrumentos eficazes nas suas mãos. Diante de Jesus Sacramentado - como gosto de fazer um acto de fé explícita na presença real do Senhor na Eucaristia! - fomentai nos vossos corações o desejo de transmitir, pela vossa oração, um impulso fortíssimo que chegue a todos os lugares da terra, até ao último recanto do planeta, onde houver alguém gastando a sua existência ao serviço de Deus e das almas. Com efeito, graças à inefável realidade da Comunhão dos Santos, somos solidários - cooperadores, diz S. João - na tarefa de difundir a verdade e a paz do Senhor.

É lógico que pensemos no nosso modo de imitar o Mestre; que nos detenhamos a reflectir sobre isso, para aprendermos directamente da vida do Senhor algumas das virtudes que devem resplandecer na nossa conduta, se aspiramos deveras a estender o reinado de Cristo.

155         
A prudência, virtude necessária

Na passagem do Evangelho de S. Mateus da missa de hoje, lemos: tunc abeuntes pharisæi, consilium inierunt ut caperent eum in sermone, reuniram-se os fariseus a fim de combinarem entre si como poderiam apanhar Jesus nas suas palavras. Não esqueçais que este sistema, próprio dos hipócritas, continua a ser táctica corrente no nosso tempo. Julgo que a erva má dos fariseus nunca se extinguirá do mundo; tem gozado sempre de uma prodigiosa fecundidade. Talvez o Senhor permita que ela cresça para nos tornar prudentes, a nós, seus filhos, porque a virtude da prudência é imprescindível para quem quer que tenha de dar critério, de fortalecer, de corrigir, de animar, de alentar os outros. Aliás, qualquer cristão deve actuar em relação aos que o rodeiam precisamente assim, como apóstolo, aproveitando as circunstâncias do seu trabalho quotidiano.

Levanto neste momento o coração a Deus e peço, por mediação da Virgem Santíssima - que está na Igreja, mas sobre a Igreja: entre Cristo e a Igreja, para proteger, reinar e ser Mãe dos homens, como o é de Jesus, Senhor Nosso-; peço que conceda a prudência a todos nós, mas especialmente àqueles que, metidos na torrente circulatória da sociedade, desejam trabalhar por Deus. Realmente, convém-nos aprender a ser prudentes.

156         
Continua o episódio evangélico: e enviaram discípulos seus (dos fariseus) juntamente com alguns herodianos, que lhe disseram: Mestre.... vede com que intenção retorcida lhe chamam Mestre; fingem-se admiradores e amigos, dão-lhe um tratamento reservado à autoridade de quem se espera receber ensinamentos. Magister, scimus quia verax es, sabemos que és verdadeiro... Que astúcia tão infame! Já vistes maior duplicidade? Andai por este mundo com cuidado. Não sejais desconfiados; mas deveis sentir sobre os vossos ombros - recordando a imagem do Bom Pastor que aparece nas catacumbas - o peso dessa ovelha, que não é uma alma apenas, mas a Igreja inteira, a Humanidade inteira.

Ao mesmo tempo que aceitais com brio esta responsabilidade, haveis de ser audazes e haveis de ser prudentes para defender e proclamar os direitos de Deus. E então, pela integridade do vosso comportamento, muitos vos considerarão e vos chamarão mestres, sem vós o pretenderdes, pois não procuramos a glória terrena. Mas não estranheis se, entre tantos que se aproximam de vós, se infiltrarem alguns que só pretendem adular-vos. Gravai nas vossas almas o que me tendes ouvido repetidas vezes: nem as calúnias, nem as murmurações, nem os respeitos humanos, nem o que dirão, nem muito menos os louvores hipócritas nos hão-de impedir jamais de cumprir o nosso dever.

157         
Lembrais-vos da parábola do bom Samaritano? Ficou aquele homem caído no caminho, maltratado pelos ladrões que lhe roubaram tudo, até ao último centavo. Passam por aquele lugar um sacerdote da Antiga Lei e pouco depois um levita; ambos seguem o seu caminho sem se preocuparem. Mas um Samaritano, que ia de viagem, chegou perto dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximando-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele em tudo. Reparai que o Senhor não refere este exemplo só para uso de algumas almas, pois logo acrescenta, respondendo ao que lhe tinha feito a pergunta - a cada um de nós -: Vai, e faz tu o mesmo.

Portanto, quando nos apercebemos de que na nossa vida ou na dos outros alguma coisa corre mal, alguma coisa precisa do auxílio espiritual e humano, que nós, filhos de Deus, podemos e devemos prestar, uma clara manifestação de prudência consistirá em dar-lhe remédio oportuno, a fundo, com caridade e com fortaleza, com sinceridade. Não valem as inibições. É errado pensar que com omissões ou adiamentos se resolvem os problemas.

Sempre que a situação o requeira, a prudência exige que se aplique o remédio totalmente e sem paliativos, depois de pôr a chaga a descoberto.

Ao notar os menores sintomas do mal, sede simples, verazes, quer sejais vós a curar os outros, quer sejais vós a receber essa assistência. Nesses casos, deve-se permitir à pessoa que está em condições de curar em nome de Deus que aperte de longe a zona infectada e depois de mais perto, até sair todo o pus, de modo que o foco da infecção acabe por ficar bem limpo. Em primeiro lugar, temos que proceder assim connosco mesmos e com quem, por motivos de justiça ou caridade, temos obrigação de ajudar. Rezo nesse sentido especialmente pelos pais e por quem se dedica a tarefas de formação e de ensino.

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Os respeitos humanos

Que nenhuma razão hipócrita vos detenha; aplicai o remédio próprio; mas fazei-o com mãos maternais, com a infinita delicadeza das nossas mães, quando nos curavam as feridas, grandes ou pequenas, provocadas pelas nossas brincadeiras e pelas nossas quedas da infância. Se é preciso esperar umas horas, espera-se; nunca mais tempo do que o imprescindível, pois outra atitude seria comodismo, cobardia, coisa bem diferente da prudência. Rejeitai, todos vós, principalmente os que tendes o encargo de formar outras pessoas, o medo de desinfectar a ferida.

É possível que alguém sussurre arteiramente ao ouvido dos que devem curar e não se decidem ou não querem enfrentar-se com a sua missão: Mestre, sabemos que és verdadeiro. Não tolereis o elogio irónico. Os que não se esforçam por levar a cabo a sua tarefa com diligência nem são mestres, pois não ensinam o caminho autêntico, nem são verdadeiros, pois com a sua falsa prudência consideram exageradas ou desprezam as normas claras - mil vezes comprovadas pela recta conduta, pela idade, pela ciência do bom governo, pelo conhecimento da fraqueza humana e pelo amor a cada ovelha - que nos levam a falar, a intervir, a mostrar interesse.

Os falsos mestres são dominados pelo medo de apurar a verdade. Aflige-os a simples ideia - que constitui uma obrigação - de recorrer ao antídoto doloroso em determinadas circunstâncias. Em tal atitude - convencei-vos disso - não há prudência, nem piedade, nem sensatez; o que essa atitude reflecte é pusilanimidade, falta de responsabilidade, insensatez e pouca inteligência. Esses são os mesmos que depois, perante o desastre, dominados pelo pânico, pretendem atalhar o mal quando já é tarde. Não se lembram de que a virtude da prudência exige recolher e transmitir a tempo o conselho sereno da maturidade, da experiência antiga, do olhar límpido, da língua sem travas.

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