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08/04/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Páscoa

Evangelho: Jo 6, 1-15

1 Depois disto, passou Jesus ao outro lado do mar da Galileia, isto é, de Tiberíades. 2 Seguia-O uma grande multidão porque via os milagres que fazia em favor dos doentes. 3 Jesus subiu a um monte e sentou-Se ali com os Seus discípulos. 4 Ora a Páscoa, a festa dos judeus, estava próxima. 5 Jesus, então, tendo levantado os olhos e visto que vinha ter com Ele uma grande multidão, disse a Filipe: «Onde compraremos pão para dar de comer a esta gente?». 6 Dizia isto para o experimentar, porque sabia o que havia de fazer. 7 Filipe respondeu-Lhe: «Duzentos denários de pão não bastam para que cada um receba um pequeno bocado». 8 Um de Seus discípulos, André, irmão de Simão Pedro, disse-Lhe: 9 «Está aqui um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixes, mas que é isso para tanta gente?». 10 Jesus, porém, disse: «Mandai sentar essa gente». Havia naquele lugar muita relva. Sentaram-se, pois; os homens em número de cerca de cinco mil. 11 Tomou, então, Jesus os pães e, tendo dado graças, distribuiu-os entre os que estavam sentados; e igualmente distribuiu os peixes, tanto quanto quiseram. 12 Estando saciados, disse aos Seus discípulos: «Recolhei os pedaços que sobraram para que nada se perca». 13 Eles os recolheram, e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada, que sobraram aos que tinham comido. 14 Vendo então aqueles homens o milagre que Jesus fizera, diziam: «Este é verdadeiramente o profeta que deve vir ao mundo». 15 Jesus, sabendo que O viriam arrebatar para O fazerem rei, retirou-Se de novo, Ele só, para o monte.

Comentário:

Como comentar este trecho do Evangelho escrito por quem o presenciou?

Falar da magnanimidade do Senhor ao distribuir alimento a quem dele precisava de forma tão abundante que sobraram doze cestos cheios?

Talvez… porque me espanta este detalhe já que não entendo porque é que Jesus quis que sobrasse tanto alimento.

Como exemplo da Sua misericórdia que não se fica pelo estritamente necessário mas vai muito mais além?

Sim… sem dúvida, para nos ensinar a não sermos mesquinhos, escrupulosos quando se trata de fazer o bem aos outros.

(ama, Comentário sobre Jo 6, 1-15, 2015.07.26)


Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO – CONFISSÕES

LIVRO DÉCIMO

CAPÍTULO I

Finalidade do livro

Ó Deus, faz que eu te conheça, meu conhecedor, que eu te conheça como de ti sou conhecido. Virtude da minha alma, penetra-a, assemelha-a a ti, para que a tenhas e possuas sem mancha nem ruga.

Esta é a esperança com que falo, e nesta esperança me alegro, quando gozo de sã alegria. Tudo o mais desta vida, tanto menos se há-de chorar quanto mais o choramos, e tanto mais teríamos que chorar quanto menos o choramos.

Mas tu amaste a verdade, porque quem a pratica alcança a luz. Eu desejo praticá-la no meu coração, diante de ti, por esta minha confissão, e diante de muitas testemunhas pelos meus escritos.

CAPÍTULO II

O que é confessar a Deus

E, para ti, Senhor, que conheces o abismo da consciência humana, que poderia haver de oculto em mim, ainda que não to quisesse confessar?

Poderia apenas esconder-te de mim, e nunca esconder-me de ti. Agora que os meus gemidos dão testemunho do desagrado que sinto por mim, tu iluminas-me e agradas-me, e és amado e desejado a ponto de eu me envergonhar de mim. Renuncio a mim para te escolher, e não quero agradar-te a ti ou a mim senão por teu amor.

Portanto, assim como sou, Senhor, tu me conheces. Já te disse com que escopo me vou confessando a ti. Faço esta confissão não com palavras e vozes do corpo, mas com as palavras da alma e o brado da inteligência, que os teus ouvidos conhecem. Quando sou mau, confessar-me ai é o mesmo que desprezar-me a mim próprio; quando sou bom, é apenas nada atribuir a mim mesmo.

Porque tu, Senhor, abençoas o justo, mas antes tornas justo o pecador.

Assim, meu Deus, a confissão que faço na tua presença, é e não é silenciosa; a boca cala-se, mas meu coração clama. Tudo o que digo aos homens de verdadeiro já tinhas ouvido de mim, e nem ouves nada de mim que antes não me tivesses dito.

CAPÍTULO III

Porque se confessar aos homens?

Que tenho eu que ver com os homens, para que me ouçam as confissões, como se eles pudessem curar as minhas enfermidades? São curiosos para conhecer a vida alheia, mas indolentes para corrigir a própria! Por que desejam ouvir de mim quem sou, quando não se importam em saber de ti o que são? E como podem saber, ao me ouvirem falar de mim mesmo, se lhes digo a verdade, uma vez que homem algum sabe o que se passa no outro, senão o espírito do homem, que nele, habita? Mas, se te ouvissem a ti falar deles, não poderiam dizer: “O Senhor mente”. E o que é ouvir-te falar de si, senão conhecerem-se a si mesmos? E quem, conhecendo-se a si mesmo, pode dizer “é falso”, sem mentir?

A caridade crê em tudo – pelo menos entre corações que ela unifica em si pelos seus laços – por isso também eu, Senhor, me confesso a ti para que me ouçam os homens. A eles não posso provar que falo a verdade; mas crêem-me aqueles cujos ouvidos a caridade abre para mim.

Mas tu, Médico da minha alma, faz-me ver claramente a utilidade do meu propósito. As confissões dos meus pecados passados – que já perdoaste e esqueceste, para me fazer feliz em ti, transformando a minha alma com a tua fé e o teu sacramento – levam o coração dos que as leem e ouvem a não dormir no desespero dizendo: “Não posso”. Mas despertem para o amor pela tua misericórdia e para a doçura da tua graça, que fortalece o fraco e este se dá conta da sua debilidade.

Os bons, por sua vez, agradam-se em ouvir os pecados passados daqueles que já não sofrem. Agrada-lhes, não por serem pecados, mas porque o foram, e agora já não o são.

Mas, Senhor meu – a quem todos os dias se confessa a minha consciência, agora mais confiante com a esperança na tua misericórdia que na sua inocência – que proveito haverá em confessar aos homens, na tua presença, neste livro, não o que fui, mas o que sou agora? Sobre a confissão do passado, e dos seus eventuais proveitos, já falei acima.

Há muitos porém, quer me conheçam, quer não, que desejam saber quem sou agora, neste momento em que escrevo as Confissões. Já ouviram de mim ou de outros alguma coisa a meu respeito, mas o seu ouvido não ouve o meu coração, onde eu sou o que sou. Querem, certamente, saber por confissão minha o que sou no íntimo, lá onde não podem penetrar com a vista, com o ouvido, ou com a mente. Estão dispostos a acreditar em mim. Mas poderão igualmente estar certos de me conhecer? A caridade, que os torna bons, diz-lhes que eu não minto quando confesso tais coisas de mim. É ela que os faz acreditarem em mim.

CAPÍTULO IV

O fruto das confissões

Mas, com que propósito desejam ouvir-me? Desejarão talvez congratular-me comigo, ouvindo quanto me aproximei de ti pela tua graça, e orar por mim, ao ouvir quanto me retardou o peso das minhas culpas? A estes mostrarei quem sou; já não é pequeno fruto, Senhor meu Deus, que muitos te deem graças por mim, e que muitos te roguem por mim. Possa o coração dos meus irmãos amar em mim o que ensinas a amar, e, deplorar em mim o que ensinas a aborrecer! Mas que brotem tais sentimentos numa alma irmã, e não em almas estranhas, ou nesses filhos espúrios, cuja boca fala vaidade, e cuja direita é a direita da iniquidade, que o faça uma alma fraterna que se alegra por mim quando me aprova, e quando me reprova se aflige por mim, porque quer me aprove, quer não, me ama.

É a esses que me revelarei. Que eles respirem diante das minhas boas acções, e suspirem à vista dos meus pecados. As obras boas são as tuas obras e os teus dons; as más são os meus pecados objecto dos teus juízos.

Respirem pelo bem e suspirem pelo mal, e que subam à tua presença hinos e lágrimas desses corações fraternos, que são os teus turíbulos.

E tu, Senhor, que te alegras com a fragrância do teu santo templo, tem piedade de mim, segundo a tua grande misericórdia por causa do teu nome, e tu, que jamais abandonas uma obra começada, aperfeiçoa em mim o que há de incompleto.

Este poderá ser o fruto das minhas confissões, não do que fui, mas do que sou. Farei a minha confissão não apenas a ti, com íntima alegria mesclada de temor, e com secreta tristeza mesclada de esperança, mas também para os homens, que compartilham a minha alegria e da minha mortalidade, meus concidadãos e peregrinos como eu, quer os que me precederam, como os que me seguem ou me acompanham no caminho da vida. Estes são teus servos, meus irmãos, que tu quiseste fossem filhos teus e meus senhores, e a quem me mandaste servir se quisesse viver contigo e de ti.

Mas este preceito teria sido de pouco valor para mim, se o teu Verbo o tivesse proferido apenas com palavras, e não tivesse mostrado o caminho com a obra. Eis que eu o imito pela acção e pelas palavras, e o faço à sombra das tuas asas, o perigo seria grande demais, se a minha alma aí não se abrigasse, e se a minha fraqueza não te fosse conhecida.
Sou como uma criança, mas o meu Pai vive sempre, e é meu tutor idóneo; ele é a um tempo o que me gerou e o que me protege. Tu és todo o meu bem, tu, omnipotente, que estás comigo mesmo antes de eu estar contigo.

Revelarei pois, a estes, a quem me mandas servir, não como fui, mas como já sou agora, e como ainda não sou. Mas não quero julgar-me a mim mesmo. Assim é que peço para ser ouvido.

(Revisão de versão portuguesa por ama)


26/07/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual



Tempo comum XVII Semana

São Joaquim e Santa Ana – Pais de Nossa Senhora

Evangelho: Jo 6, 1-15

1 Depois disto, passou Jesus ao outro lado do mar da Galileia, isto é, de Tiberíades. 2 Seguia-O uma grande multidão porque via os milagres que fazia em favor dos doentes. 3 Jesus subiu a um monte e sentou-Se ali com os Seus discípulos. 4 Ora a Páscoa, a festa dos judeus, estava próxima. 5 Jesus, então, tendo levantado os olhos e visto que vinha ter com Ele uma grande multidão, disse a Filipe: «Onde compraremos pão para dar de comer a esta gente?». 6 Dizia isto para o experimentar, porque sabia o que havia de fazer. 7 Filipe respondeu-Lhe: «Duzentos denários de pão não bastam para que cada um receba um pequeno bocado». 8 Um de Seus discípulos, André, irmão de Simão Pedro, disse-Lhe: 9 «Está aqui um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixes, mas que é isso para tanta gente?». 10 Jesus, porém, disse: «Mandai sentar essa gente». Havia naquele lugar muita relva. Sentaram-se, pois; os homens em número de cerca de cinco mil. 11 Tomou, então, Jesus os pães e, tendo dado graças, distribuiu-os entre os que estavam sentados; e igualmente distribuiu os peixes, tanto quanto quiseram. 12 Estando saciados, disse aos Seus discípulos: «Recolhei os pedaços que sobraram para que nada se perca». 13 Eles os recolheram, e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada, que sobraram aos que tinham comido. 14 Vendo então aqueles homens o milagre que Jesus fizera, diziam: «Este é verdadeiramente o profeta que deve vir ao mundo». 15 Jesus, sabendo que O viriam arrebatar para O fazerem rei, retirou-Se de novo, Ele só, para o monte.

Comentário:

Mais uma vez fica bem evidente a intimidade entre Jesus Cristo e o Evangelista.

Neste trecho, por exemplo, São João refere: «Dizia isto para o experimentar, porque sabia o que havia de fazer».

Tal não quer dizer que soubesse o que Jesus iria fazer mas sim que tinha absoluta confiança no Mestre e a certeza de que faria algo para solucionar o problema que se levantava: dar de comer a tanta gente.

(ama, comentário sobre Jo 6, 1-15, 2015.04.17)




Leitura espiritual



São Josemaria Escrivá

Amigos de Deus

184 
       
Amor humano e castidade

Para manter intimidade com o meu Senhor, já vo-lo contei muita vez, utilizei também - não me importo que se saiba - as canções populares que se referem, quase sempre, ao amor.
Delicio-me a ouvi-las!
O Senhor escolheu-me a mim e a alguns de vós para que fôssemos totalmente seus e transformássemos em divino o amor nobre das cantigas humanas.
É o que o Espírito Santo faz no Cântico dos Cânticos.
É o que fizeram os místicos de todos os tempos.

Escutai estes versos da Santa de Ávila:

Se quereis que esteja descansado
Quero, por amor, descansar;
Se me mandais trabalhar,
Quero morrer trabalhando.
Dizei: onde, como e quando?
Dizei, dizei, doce Amor:
Como quereis de mim dispor?

Ou aquela canção de S. João da Cruz que começa de um modo encantador:

Sofrendo, só, um pequeno pastor,
Alheio ao prazer, sem contentamento,
Na sua pastora tem o pensamento
E o peito sangra-lhe em penas de amor.


Quando é limpo, o amor humano merece-me um imenso respeito, uma enorme veneração.
Não haveríamos nós de estimar o carinho nobre e santo dos nossos pais, ao qual devemos uma grande parte da nossa amizade com Deus?
Eu abençoo esse amor com as duas mãos e sempre que me perguntaram porquê com as duas mãos, respondi imediatamente: porque não tenho quatro!

Bendito seja o amor humano! Mas a mim, o Senhor pediu-me mais. A própria teologia católica o afirma: entregar-se exclusivamente a Jesus, por amor do Reino dos Céus e, por Jesus, a todos os homens, é mais sublime do que o amor matrimonial.
Isto não tira que o matrimónio seja um sacramento e sacramentum magnum.

Seja como for, cada um deve esforçar-se por viver delicadamente a castidade, no seu lugar respectivo e com a vocação que Deus lhe infundiu na alma - solteiro, casado, viúvo, sacerdote.
A razão é que a castidade é virtude para todos e a todos exige luta, delicadeza, esmero, rijeza, essa finura que só se compreende, quando nos colocamos junto do Coração apaixonado de Cristo na Cruz. Não vos preocupeis se a tentação vos espreita: uma coisa é sentir, outra é consentir.
A tentação pode afastar-se facilmente com a ajuda de Deus.
O que não convém, de modo algum, é dialogar com ela.

185
        
Meios para vencer

Vejamos com que recursos é que, nós, cristãos, podemos contar para vencer nesta luta por guardar a castidade, não como anjos, mas como mulheres e homens sãos, fortes, normais!
Venero os anjos com toda a minha alma e une-me uma grande devoção a esse exército de Deus, mas não gosto de os comparar connosco, porque a sua natureza é diferente e qualquer equiparação seria uma desordem.

Generalizou-se em muitos ambientes um clima de sensualidade que, ajudado pela confusão doutrinal, leva muita gente a justificar ou, pelo menos, a mostrar a tolerância mais indiferente para com todo o género de costumes licenciosos.

Devemos ser o mais limpos possível em relação ao corpo, mas sem medo, porque o sexo, é algo santo e nobre - participação no poder criador de Deus-, foi feito para o matrimónio.
Assim, limpos e sem medo, dareis com a vossa conduta o testemunho da viabilidade e da formosura da santa pureza.

Antes de mais, empenhemo-nos em afinar a consciência, aprofundando o que for preciso, até ficarmos com a segurança de termos adquirido uma boa formação, distinguindo bem entre consciência delicada, que é uma graça de Deus, e consciência escrupulosa que é outra coisa.

Cuidai com esmero da castidade e também das virtudes que a acompanham e a salvaguardam: a modéstia e o pudor.
Não olheis com ligeireza as normas, tão eficazes, que nos ajudam a conservarmo-nos dignos do olhar de Deus: a guarda atenta dos sentidos e do coração; a valentia de ser cobarde para fugir das tentações; a frequência dos sacramentos, especialmente da Confissão sacramental; a sinceridade total na direcção espiritual pessoal; a dor, a contrição e a reparação depois das faltas.
E tudo isto ungido com uma terna devoção a Nossa Senhora, de modo que ela nos obtenha de Deus o dom de uma vida limpa e santa.

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Se, por desgraça, se cai, é preciso levantar-se imediatamente. Com a ajuda de Deus, que não nos faltará se usarmos os meios adequados, chegaremos, o mais depressa possível, ao arrependimento, à sinceridade humilde, à reparação, para que a derrota momentânea redunde numa grande vitória de Jesus Cristo.

Habituai-vos também a travar a luta longe das muralhas principais da fortaleza.
Não podemos andar a fazer equilíbrios nas fronteiras do mal; temos de evitar com firmeza o voluntário in causa.
Temos de afastar a mais pequena falta de amor, temos de fomentar as ânsias de apostolado cristão, contínuo e fecundo, que necessita da santa pureza como alicerce, sendo esta, aliás, um dos seus frutos mais característicos.
Devemos, além disso, encher o tempo com trabalho intenso e responsável, procurando a presença de Deus, porque nunca nos podemos esquecer que fomos comprados por alto preço e que somos templos do Espírito Santo.

Que outros conselhos vos hei-de eu sugerir, senão os que sempre foram utilizados pelos cristãos que pretendiam, de verdade, seguir Cristo?
Trata-se, afinal, dos mesmos que empregaram os primeiros a escutarem o apelo de Jesus: o encontro assíduo com o Senhor na Eucaristia, a invocação filial da Santíssima Virgem, a humildade, a temperança, a mortificação dos sentidos - porque não convém olhar o que não é lícito desejar, advertia S. Gregório Magno - e a penitência.

Dir-me-eis que, ao fim e ao cabo, tudo isto é uma síntese da vida cristã.
Na verdade, não seria correcto separar a pureza, que é amor, da essência da nossa fé, que é a caridade, ou seja, um renovado apaixonar-se por Deus que nos criou, nos redimiu e que nos estende continuamente a sua mão, ainda que muitas vezes não nos apercebamos disso.
Deus não nos pode abandonar.
Sião dizia: Yavé abandonou-me e o Senhor esqueceu-se de mim. Pode a mulher esquecer-se do fruto do seu ventre, não se compadecer do fruto das suas entranhas?
Pois, ainda que ela se esquecesse,
Eu não te esqueceria.
Não vos causam estas palavras uma enorme alegria?

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Digo frequentemente que são três as coisas que nos dão alegria na terra e nos alcançam a felicidade eterna do Céu: a fidelidade firme, dedicada, alegre e indiscutida à fé, à vocação que cada um recebeu e à pureza.
Quem ficar agarrado às silvas do caminho - isto é, à sensualidade, à soberba...-, há-de ficar por sua própria vontade; se não rectificar, será um desgraçado, porque virou as costas ao Amor de Cristo.


Volto a afirmar que todos temos misérias.
Isso, porém, não é razão para nos afastarmos do Amor de Deus.
É, sim, estímulo para nos acolhermos a esse Amor, para nos acolhermos à protecção da bondade divina, como os antigos guerreiros se metiam dentro da sua armadura.
Esse ecce ego, quia vocasti me, conta comigo porque me chamaste, é a nossa defesa.
Não devemos fugir de Deus quando descobrimos as nossas fraquezas, mas devemos combatê-las, precisamente porque Deus confia em nós.

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Como é que conseguiremos superar estas coisas mesquinhas? Insisto neste ponto, porque ele se reveste de importância capital: com humildade e sinceridade na direcção espiritual e no sacramento da Penitência.
Ide aos que vos dirigem espiritualmente, com o coração aberto.
Não o fecheis porque, se se mete o demónio mudo pelo meio, depois é difícil lançá-lo fora.

Perdoai-me a insistência, mas julgo imprescindível que fique gravado a fogo nas vossas inteligências que a humildade e a sua consequência imediata a sinceridade, se ligam com os outros meios de luta e fundamentam a eficácia da vitória.
Se a tentação de esconder alguma coisa se infiltra na alma, deita tudo a perder; se, pelo contrário, é vencida imediatamente, tudo corre bem, somos felizes e a vida caminha rectamente.
Sejamos sempre selvaticamente sinceros, embora com modos prudentemente educados.

Quero dizer-vos com toda a clareza que me preocupa muito mais a soberba do que o coração e a carne.
Sede humildes!
Sempre que estiverdes convencidos de que tendes toda a razão, é porque não tendes nenhuma.
Ide à direcção espiritual com a alma aberta.
Não a fecheis, porque então intromete-se o demónio mudo e é muito difícil expulsá-lo.


Lembrai-vos do pobre endemoninhado que os discípulos não conseguiram libertar.
Só o Senhor o pôde fazer com oração e jejum. Naquela altura o Mestre realizou três milagres.
O primeiro foi fazê-lo ouvir, porque quando o demónio mudo nos domina, a alma fica surda; o segundo foi fazê-lo falar; e o terceiro foi expulsar o diabo.

(cont)




17/04/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão)


Semana II da Páscoa


Evangelho: Jo 6 1-15

1 Depois disto, passou Jesus ao outro lado do mar da Galileia, isto é, de Tiberíades. 2 Seguia-O uma grande multidão porque via os milagres que fazia em favor dos doentes. 3 Jesus subiu a um monte e sentou-Se ali com os Seus discípulos. 4 Ora a Páscoa, a festa dos judeus, estava próxima. 5 Jesus, então, tendo levantado os olhos e visto que vinha ter com Ele uma grande multidão, disse a Filipe: «Onde compraremos pão para dar de comer a esta gente?». 6 Dizia isto para o experimentar, porque sabia o que havia de fazer. 7 Filipe respondeu-Lhe: «Duzentos denários de pão não bastam para que cada um receba um pequeno bocado». 8 Um de Seus discípulos, André, irmão de Simão Pedro, disse-Lhe: 9 «Está aqui um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixes, mas que é isso para tanta gente?». 10 Jesus, porém, disse: «Mandai sentar essa gente». Havia naquele lugar muita relva. Sentaram-se, pois; os homens em número de cerca de cinco mil. 11 Tomou, então, Jesus os pães e, tendo dado graças, distribuiu-os entre os que estavam sentados; e igualmente distribuiu os peixes, tanto quanto quiseram. 12 Estando saciados, disse aos Seus discípulos: «Recolhei os pedaços que sobraram para que nada se perca». 13 Eles os recolheram, e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada, que sobraram aos que tinham comido. 14 Vendo então aqueles homens o milagre que Jesus fizera, diziam: «Este é verdadeiramente o profeta que deve vir ao mundo». 15 Jesus, sabendo que O viriam arrebatar para O fazerem rei, retirou-Se de novo, Ele só, para o monte.

Comentário:

Os Evangelhos relatam dois milagres semelhantes: a multiplicação de pães e peixes para alimentar as multidões que seguiam o Senhor.

Jesus Cristo começa a Sua vida pública exactamente com um milagre do mesmo tipo. Em Caná converte uma enorme quantidade de água em vinho de excelente qualidade.

São feitos grandiosos podendo mesmo apelidar-se de espectaculares. Terão sido os únicos? Estamos em crer que não.

O Coração misericordioso do Senhor, vibrando e sentindo sobremaneira as necessidades dos homens não deixa de acorrer de modo a satisfazê-las e, sempre, com uma largueza e generosidade que não pode deixar de comover-nos.

(ama, comentário sobre Jo 6, 1-15, 2014.05.02)

Leitura espiritual


a beleza de ser cristão

PRIMEIRA PARTE

O QUE É SER CRISTÃO?

I.            Relações que Deus estabelece com o homem.

…/3

Um esclarecimento. A afirmação “do nada” há-de entender-se no seu verdadeiro sentido, ou seja:

Toda a existência da criatura é obra de Deus, que dá vida, na sua totalidade, a seres que não tinham um entidade anterior certa “no nada”; mas que, simplesmente, não eram, não existiam. E, portanto, o “nada”, simplesmente, «não é”.

Só podemos fazer este juízo na nossa inteligência; não tem nenhuma correspondência com uma realidade externa a nós. Portanto “o nada” só pode contrapor-se ao “ser” no nosso pensamento e nem sequer como conceito de um objecto, mas como uma “ideia” fruto da operação intelectual de esvaziar conceptualmente a noção de “ser”.

Neste processo não temos de esquecer que, ao “esvaziar a noção de ser” se desvanece, não se converte em “ideia do nada”.

O falar «do nada” tem simplesmente, portanto, a função de abrir a porta do entendimento humano para compreender a possibilidade da não existência do que é “já e agora“.

Deus criou por amor e em plena liberdade.

Com palavras do Catecismo: «Cremos que Deus criou o mundo segundo a sua sabedoria».[i]

O mundo não é produto de uma necessidade qualquer, de um destino cego ou do azar: «Cremos que procede da vontade livre de Deus que quis fazer participar as criaturas do seu ser, da sua sabedoria e da sua bondade»[ii].

E, acrescentamos, da “sua liberdade”.

A criação é um dom de Deus e um dom que ele impõe, certamente por amor, e ao mesmo tempo por obrigação: o homem não manifestou previamente Deus o seu desejo de existir.

Nenhum ser humano gozou do mínimo “direito de nascer” ou “desejo de nascer”, antes de ter sido concebido.

 Criada por amor e em liberdade, Deus não abandona a criação a uma sorte desconhecida.

«Viu Deus quanto tinha feito, e eis que estava muito bem».[iii]

Na criação está fechado e como que escondido, o tesouro inesgotável do coração de Deus, da beleza de todas as suas obras.

«Os Céus contam a glória de Deus, /a obra das suas mãos anuncia o firmamento;/ o dia comunica ao dia a sua mensagem, / e a noite á noite transmite a notícia».[iv]

O próprio Deus sustém a vida da criação:

«Realizada a criação, Deus não abandona a si mesma a sua criatura. Não só lhe dá o ser e o existir, como a mantém em todo o instante no ser; dá-lhe o obrar e leva-a ao seu termo.
Reconhecer esta dependência completa do Criador é fonte de sabedoria e liberdade, de gozo e de confiança».[v]

A ciência alcançou um certo grau de conhecimento sobre como o mundo está feito, como a criação está constituída, ainda que sempre será bastante mais o que resta ao homem conhecer, que o que, em qualquer momento da sua história, consiga desentranhar do mistério do mundo e dos homens que o rodeiam.

A ciência abandonou, todavia, e logicamente, qualquer possibilidade de descobrir a razão que explique porque existe o que existe. Einstein acertou ao confessar que a sua preocupação era “descobrir a mente de Deus ao criar e que tudo o resto eram minúcias”.

Por amor – que não é desejo nem necessidade das criaturas; antes doação de vida -, em liberdade.
Deus cria o mundo e o homem.
Deus é Amor e em Amor nos cria. E, precisamente porque nos ama, criou o homem à sua «imagem e semelhança”, como mais adiante veremos.

Qualquer outro intento de explicação da nossa origem é ineficaz e inútil.

Talvez nalgum momento do nosso viver nos moleste ser amados e queridos por Deus e até por uma pessoa; preferiríamos que se esquecessem de nós e nos deixassem sozinhos no nosso mundo, fechados na nossa própria imaginação.

Somos livres de nos comportarmos assim, é certo; o nosso comportamento, sem embargo, não seria outra coisa que querer negar a realidade que se nos impõe por si mesma.

Aceite esta resposta à primeira pergunta, como havemos de responder à segunda?

Para quê Deus criou o mundo?

Em textos clássicos da doutrina cristã podemos ler que Deus criou o homem:

“Para que o conheça, o ame e o sirva nesta vida; e goze dele para sempre na vida eterna”.

E em textos actuais é-nos recordado:
«De todas as criaturas visíveis, só o homem é capaz de conhecer e amar o seu Criador;[vi] só ele está chamado a participar, pelo conhecimento e o amor, na vida de Deus.
Para este fim foi criado e esta é a razão fundamental da sua dignidade»[vii].

Ou seja, sendo Deus amor, quis tornar o homem do seu ser, partícipe da sua vida; estabeleceu com ele uma série de relações vinculativas que já sintetizamos em três palavras: Criação, Redenção e Santificação.
Vínculos nos quais enraíza a razão mais alta da dignidade humana que «consiste da vocação do homem à união com Deus.
Desde o seu próprio nascimento, e no seu ser criatura, o homem é convidado ao diálogo com Deus.
Existe pura e simplesmente pelo amor de Deus, que o criou, e pelo amor de Deus, que o conserva. E só se pode dizer que vive na plenitude da verdade quando livremente reconhece esse amor e se confia por inteiro ao seu Criador».[viii]

Um esclarecimento prévio.
Desde o primeiro instante da sua criação, o homem é “capaz de Deus”.

Na narração bíblica a relação de Deus com Adão e Eva expressa de maneira simples e ao mesmo tempo inefável a capacidade do homem de se aproximar de Deus e a proximidade de Deus com o homem.

O homem esteve “ante Deus” na sua própria origem.

Adiantando a consideração que temos de fazer sobre a passagem da criatura a pessoa, recolhemos aqui estas afirmações do Catecismo sobre esta dualidade:
«A pessoa humana, criada à imagem de Deus, é um ser ao mesmo tempo corporal e espiritual. O relato bíblico expressa esta realidade com uma linguagem simbólica quando afirma que ‘Deus formou o homem com pó da terra e insuflou nas suas narinas o alento da vida e tornou o homem um ser vivo. Portanto, o homem na sua totalidade é querido por Deus».[ix]

E, pouco mais adiante, aclara:
«Por vezes costuma distinguir-se entre alma e espírito. Assim, São Paulo roga para o nosso «ser inteiro, o espírito, a alma e o corpo», seja conservado sem mancha até à vinda do Senhor: A Igreja ensina que «esta distinção não introduz uma dualidade na alma. ‘Espírito’ significa que o homem está ordenado desde a sua criação ao seu fim sobrenatural, e que a sua alma é capaz de ser elevada gratuitamente à comunhão dom Deus».[x]

Ou seja, e para a finalidade que aqui contemplamos e que nos interessa sublinhar; o homem desde a sua criação, em toda a sua história, sempre foi e viveu natural, espiritual e sobrenaturalmente, na unidade da sua pessoa, do seu «eu”.

Conceptualmente, podem distinguir-se e separar as noções de natural-espiritual e sobrenatural.
Na vida do homem, todavia, não existe distinção nem divisão. O ser e o actuar do homem é sempre, e ao mesmo tempo, natural-espiritual e sobrenatural.

Em concreto: o homem não foi criado “naturalmente” num princípio, como animal; e elevado depois, num segundo instante, “sobrenaturalmente”, a ser «imagem, semelhança e filho de Deus».
Desde o princípio, o homem foi criado na sua plenitude humana, «filho de Deus», e á sua «imagem e semelhança».

(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)




[i] cfr. Sb 9, 9
[ii] Catecismo n. 295
[iii] Gn 1, 31
[iv] Sal 19, 2-3
[v] Catecismo, n. 301
[vi] Gaudium et spes, 12, 3
[vii] Catecismo, n. 356
[viii] Gaudium et spes, 19
[ix] Catecismo n. 362
[x] Catecismo n. 367