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09/03/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Quaresma

Semana IV

Evangelho: Jo 5, 17-30

17 Mas Jesus respondeu-lhes: «Meu Pai não cessa de trabalhar, e Eu trabalho também». 18 Por isso, os judeus procuravam com maior ardor matá-l'O, porque não somente violava o sábado, mas também dizia que Deus era Seu Pai, fazendo-Se igual a Deus. Jesus respondeu e disse-lhes: 19 «Em verdade, em verdade vos digo: O Filho não pode por Si mesmo fazer coisa alguma, mas somente o que vir fazer ao Pai; porque tudo o que fizer o Pai o faz igualmente o Filho. 20 Porque o Pai ama o Filho e mostra-Lhe tudo o que faz; e Lhe mostrará maiores obras do que estas, até ao ponto de vós ficardes admirados. 21 Porque assim como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, assim também o Filho dá vida àqueles que quer. 22 O Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho o poder de julgar 23 a fim de que todos honrem o Filho como honram o Pai. Quem não honra o Filho não honra o Pai que O enviou. 24 Em verdade, em verdade vos digo que quem ouve a Minha palavra e crê n'Aquele que Me enviou tem a vida eterna e não incorre na sentença de condenação, mas passou da morte para a vida. 25 Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão. 26 Com efeito, assim como o Pai tem a vida em Si mesmo, assim deu ao Filho ter vida em Si mesmo; 27 e deu-Lhe o poder de julgar, porque é o Filho do Homem. 28 Não vos admireis disso, porque virá tempo em que todos os que se encontram nos sepulcros ouvirão a Sua voz, 29 e os que tiverem feito obras boas sairão para a ressurreição da vida, mas os que tiverem feito obras más sairão ressuscitados para a condenação. 30 Não posso por Mim mesmo fazer coisa alguma. Julgo segundo o que ouço, e o Meu juízo é justo, porque não busco a Minha vontade, mas a d'Aquele que Me enviou.

Comentário:
Há uma “segurança” de que dispomos para nos salvarmos:

«Quem ouve a Minha palavra e crê n'Aquele que Me enviou tem a vida eterna e não incorre na sentença de condenação». [i]

Ouvir e acreditar é essa a “segurança” que se fala.

Segundo as palavras do próprio Jesus Cristo bastará para evitar a condenação eterna mas, nós, devemos querer mais, desejar ir mais longe que evitar a condenação; o objectivo é fazer parte dos escolhidos para participar da vida eterna contemplando a Face de Deus para todo o sempre.

Assim, o que precisamos fazer é pôr em obra aquilo em que acreditamos e que o próprio Senhor nos ensinou.

Ou seja cumprir em tudo a Sua Vontade.

(ama, comentário sobre Jo 5, 17-30, 2015.03.24)



Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO - CONFISSÕES

LIVRO TERCEIRO

CAPÍTULO IX

Pecados e imperfeições

Mas, entre tantas maldades, crimes e iniquidades, estão os pecados dos que progridem, pecados que os homens de bom juízo vituperam, segundo a regra da perfeição, e louvam pela esperança de frutos futuros, como o verde é promissor das colheitas.

Há outras acções semelhantes a acções maldosas ou a delitos, e que não são pecados, porque nem te ofendem a ti, Senhor, nosso Deus, nem tampouco à sociedade humana; como por exemplo quando procuramos coisas convenientes para o uso da vida e às circunstâncias, sem que se saiba se essa busca é cobiça, ou quando castigamos a alguém como desejo de que se corrija, fazendo uso do poder ordinário, e não se sabe se o fazemos por vontade de mortificar.

Por isso, muitas acções que parecem condenáveis aos homens, são aprovadas pelo teu testemunho; e muitas, louvadas pelos homens, são condenadas pelo teu testemunho, porque muitas vezes as aparências do acto diferem das intenções do seu autor, assim como circunstâncias ocultas do tempo.

Mas quando ordenas, algo insólito e imprevisto, mesmo que o tenhas proibido uma vez, mesmo que escondas por algum tempo as razões do teu mandamento, mesmo que seja contra as convenções de alguns homens da sociedade, quem pode duvidar de que se há de obedecer, sendo que só é justa a sociedade humana que te obedece? Felizes dos que sabem o que tu ordenaste, porque os que te servem fazem tudo o que mandas, ou porque assim o exige o tempo presente, ou para preparar o futuro.

CAPÍTULO X

Ridicularias dos maniqueus

Desconhecendo eu essas verdades, ria-me de teus santos e profetas. Mas, que fazia eu quando me ria deles, senão dar motivo para que te risses de mim? Deixei-me cair insensivelmente, aos poucos, em tais extravagâncias, a ponto de acreditar que o figo, quando colhido, chora lágrimas de leite junto com a mãe figueira, e que se um “santo” da seita comesse o tal figo, colhido não por seu delito, mas de outrem, misturando-o em suas entranhas, gemendo e arrotando enquanto rezava, exalaria anjos e até mesmo partículas de Deus, partículas essas do verdadeiro Deus que ficariam cativas para sempre naquele fruto se não fossem libertadas pelos dentes e pelo estômago do “santo eleito”!

Também acreditei, pobre de mim, que se devia ter mais misericórdia com os frutos da terra que com os homens para os quais foram criados. Pois, se algum faminto, que não fosse maniqueísta me pedisse de comer, parecia-me que atendê-lo era como merecer, por aquele bocado, a pena de morte.

CAPÍTULO XI

O sonho de Mónica

Mas estendeste a tua mão do alto, e arrancaste a minha alma deste abismo de trevas, enquanto a minha mãe, tua fiel serva, me chorava diante de ti muito mais do que as outras mães costumam chorar sobre o cadáver dos filhos, pois via a morte da minha alma com a fé e o espírito que havia recebido de ti. E tu a escutaste, Senhor, tu a ouviste e não desprezaste suas lágrimas que, brotando copiosas, regavam o solo debaixo dos seus olhos por onde fazia sua oração; sim, tu a escutaste, Senhor. Com efeito, donde podia vir aquele sonho, com que a consolaste, ao ponto de me admitir na sua companhia e mesa, facto que me havia negado porque aborrecia e detestava as blasfémias do meu erro?

Nesse sonho viu-se de pé sobre uma régua de madeira; e um jovem resplandecente, alegre e risonho que vinha ao seu encontro, triste e amarga. Este lhe perguntou a causa da sua tristeza e lágrimas diárias, não por curiosidade, como sói acontecer, mas para instruí-la; e respondendo-lhe ela que chorava a minha perdição, mandou-lhe, para sua tranquilidade, que prestasse atenção e visse por onde ela estava também estaria eu. Apenas olhou, viu-me junto de si, de pé sobre a mesma régua.

De onde veio este sonho, senão dos ouvidos que tinhas atentos ao seu coração, ó Deus bom e omnipotente, que cuidas de cada um de nós como se não tivesses outro para cuidar, zelando de todos como de cada um!

E como explicar o que se segue? Contou-me minha mãe esta visão, e querendo eu persuadi-la de que significava o contrário, e que não devia desesperar de ser algum dia o que eu era, isto é, maniqueísta, ela, sem nenhuma hesitação, respondeu-me: “Não; não me foi dito: onde ele está ali estarás tu, mas onde tu estás ali estará ele também”.

Confesso, Senhor, e muitas vezes disse que, pelo que me recordo, me abalou mais esta tua resposta pela solicitude da minha mãe, imperturbável diante de explicação falsa e ardilosa, e por ter visto o que se devia ver – e que eu certamente não veria sem que ela o dissesse – que o mesmo sonho com o qual anunciaste a esta piedosa mulher com tanta antecedência, a fim de consolá-la na sua aflição presente, uma alegria que só havia de se realizar muito tempo depois.

Seguiram-se, efectivamente, quase nove anos, durante os quais continuei a revolver-me naquele abismo de lodo e trevas de erro, afundando-me tanto mais quanto mais esforços fazia para me libertar. Entretanto, aquela piedosa viúva, casta e sóbria como as que tu amas, já um pouco mais alegre com a esperança, porém, não menos solícita nas suas lágrimas e gemidos, não cessava de chorar por mim na tua presença em todas as horas das suas orações; e as suas preces eram aceites a teus olhos, mas deixava-me ainda revolver-me e envolver-me naquela escuridão.

CAPÍTULO XII

Uma profecia

Nessa mesma ocasião deste à minha mãe outra resposta, de que ainda me lembro – pois passo em silêncio muitas circunstâncias, pela pressa que tenho de chegar àquelas que te devo confessar com mais urgência, ou porque não as recordo – deste-lhe outra resposta por meio de um teu bispo, educado na tua Igreja e exercitado nas tuas Escrituras. Como ela pedisse que se dignasse falar comigo, para refutar meus erros e desenganar-me das minhas más doutrinas e ensinar-me as boas – pois assim fazia com quantos julgava idóneos – ele negou-se com muita prudência, como pude verificar depois; respondeu-lhe que eu estava incapacitado para receber qualquer ensinamento, por estar enfatuado com a novidade da heresia maniqueísta, e por haver criado embaraço a muitos ignorantes com algumas questões fáceis, como ela mesma lhe relatara.

“Deixe-o – disse – e unicamente ore por ele ao Senhor! Ele mesmo, lendo os livros dos hereges, descobrirá o erro e reconhecerá a sua grande impiedade”. – Ao mesmo tempo contou-lhe que, quando criança, a sua mãe, seduzida pelo erro, entregara-o aos maniqueus, chegando não só a ler, mas a copiar quase todas as suas obras; e que ele mesmo, sem necessidade de que ninguém o contestasse ou convencesse, chegara a perceber a falácia daquela doutrina, abandonando-a enfim.

Depois de assim falar, a minha mãe não se aquietava, instando com maiores rogos e mais copiosas lágrimas para que me visitasse, para discutir comigo sobre o tal assunto. O bispo, já com certo enfado da sua insistência, disse-lhe: “Vai-te em paz, mulher, e continua a viver assim, que não é possível que pereça o filho de tantas lágrimas” – palavras que ela recebeu como vindas do céu, segundo me recordava muitas vezes em seus colóquios comigo.

LIVRO QUATRO

CAPÍTULO I

Dos dezanove aos vinte e oito anos

Durante esse período de nove anos – dos dezanove até os vinte e oito anos – fui seduzido e sedutor, enganado e enganador, conforme as minhas muitas paixões; publicamente, com aquelas doutrinas que se chamam liberais; ocultamente, com o falso nome de religião, mostrando-me aqui soberbo, ali supersticioso, e em toda parte vaidoso. Ora perseguindo a aura da glória popular até os aplausos do teatro, os certames poéticos, os torneios de coroas de palha, as bagatelas de espectáculos e a intemperança da luxúria; ora, desejando muito purificar-me dessas imundícies, levando alimento aos chamados “eleitos” e “santos”, para que na oficina do seu estômago fabricasse anjos e deuses que me libertassem. Tais coisas eu seguia e praticava com meus  os amigos, iludidos comigo e por mim.

Riam-se de mim os arrogantes, e os que ainda não foram prostrados e salutarmente esmagados por ti, meu Deus; mas eu, pelo contrário, hei-de confessar diante de ti as minhas torpezas para teu louvor. Permite-me, te suplico, e concede-me que me lembre fielmente dos desvios passados do meu erro, e que eu te sacrifique uma vítima de louvor.

De facto, sem ti, que sou eu para mim mesmo senão um guia que conduz ao abismo? Ou que sou eu, quando tudo me corre bem, senão uma criança que suga o leite, e que se alimenta de ti, alimento incorruptível? E que é o homem, seja ele quem for, se é homem?
Riam-se de nós os fortes e poderosos, que nós, débeis e pobres, confessaremos o teu santo nome.

(cont)

(Revisão de versão portuguesa por ama)




[i] Cfr Jo 5, 24

18/03/2015

Evangelho, coment. Leit. espiritual (Evangelli Gaudium)

Tempo de Quaresma IV Semana

São Cirilo de Jerusalém – Doutor da Igreja

Evangelho: Jo 5 17-30

17 Mas Jesus respondeu-lhes: «Meu Pai não cessa de trabalhar, e Eu trabalho também». 18 Por isso, os judeus procuravam com maior ardor matá-l'O, porque não somente violava o sábado, mas também dizia que Deus era Seu Pai, fazendo-Se igual a Deus. Jesus respondeu e disse-lhes: 19 «Em verdade, em verdade vos digo: O Filho não pode por Si mesmo fazer coisa alguma, mas somente o que vir fazer ao Pai; porque tudo o que fizer o Pai o faz igualmente o Filho. 20 Porque o Pai ama o Filho e mostra-Lhe tudo o que faz; e Lhe mostrará maiores obras do que estas, até ao ponto de vós ficardes admirados. 21 Porque assim como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, assim também o Filho dá vida àqueles que quer. 22 O Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho o poder de julgar 23 a fim de que todos honrem o Filho como honram o Pai. Quem não honra o Filho não honra o Pai que O enviou. 24 Em verdade, em verdade vos digo que quem ouve a Minha palavra e crê n'Aquele que Me enviou tem a vida eterna e não incorre na sentença de condenação, mas passou da morte para a vida. 25 Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão. 26 Com efeito, assim como o Pai tem a vida em Si mesmo, assim deu ao Filho ter vida em Si mesmo; 27 e deu-Lhe o poder de julgar, porque é o Filho do Homem. 28 Não vos admireis disso, porque virá tempo em que todos os que se encontram nos sepulcros ouvirão a Sua voz, 29 e os que tiverem feito obras boas sairão para a ressurreição da vida, mas os que tiverem feito obras más sairão ressuscitados para a condenação. 30 Não posso por Mim mesmo fazer coisa alguma. Julgo segundo o que ouço, e o Meu juízo é justo, porque não busco a Minha vontade, mas a d'Aquele que Me enviou.

Comentário:

Quando se trata de julgar as obras praticadas pelos homens Jesus Cristo declara a Sua impossibilidade de «por Si mesmo fazer coisa alguma» e tal declaração – extraordinária – revela bem a Justiça suprema de Deus.

Esta Justiça tem que ver com a liberdade humana que Ele nunca ultrapassa mesmo que – digamo-lo com palavras humanas – o Seu Amor Infinito o desejasse fazer para salvar o homem de si mesmo.

Como já se disse inúmeras vezes, na verdade não é o Senhor que condena ou justifica mas sim o próprio homem.

(ama, comentário sobre Jo 5, 17-30, 2015.03.06)

Leitura espiritual


EXORTAÇÃO APOSTÓLICA EVANGELII GAUDIUM
DO SANTO PADRE FRANCISCO AO EPISCOPADO, AO CLERO ÀS PESSOAS CONSAGRADAS E AOS FIÉIS LEIGOS SOBRE O ANÚNCIO DO EVANGELHO NO MUNDO ACTUAL

192. Mas queremos ainda mais, o nosso sonho voa mais alto.
Não se fala apenas de garantir a comida ou um decoroso «sustento» para todos, mas «prosperidade e civilização em seus múltiplos aspectos».[i]
Isto engloba educação, acesso aos cuidados de saúde e especialmente trabalho, porque, no trabalho livre, criativo, participativo e solidário, o ser humano exprime e engrandece a dignidade da sua vida.

O salário justo permite o acesso adequado aos outros bens que estão destinados ao uso comum.
Fidelidade ao Evangelho, para não correr em vão.

193. Este imperativo de ouvir o clamor dos pobres faz-se carne em nós, quando no mais íntimo de nós mesmos nos comovemos à vista do sofrimento alheio.

Voltemos a ler alguns ensinamentos da Palavra de Deus sobre a misericórdia, para que ressoem vigorosamente na vida da Igreja.
O Evangelho proclama: «Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia»[ii].
O Apóstolo São Tiago ensina que a misericórdia para com os outros permite-nos sair triunfantes no juízo divino: «Falai e procedei como pessoas que hão-de ser julgadas segundo a lei da liberdade. Porque, quem não pratica a misericórdia, será julgado sem misericórdia. Mas a misericórdia não teme o julgamento»[iii].
Neste texto, São Tiago aparece-nos como herdeiro do que tinha de mais rico a espiritualidade judaica do pós-exílio, a qual atribuía um especial valor salvífico à misericórdia: «Redime o teu pecado pela justiça, e as tuas iniquidades, pela piedade para com os infelizes; talvez isto consiga prolongar a tua prosperidade»[iv].

Nesta mesma perspectiva, a literatura sapiencial fala da esmola como exercício concreto da misericórdia para com os necessitados: «A esmola livra da morte e limpa de todo o pecado»[v].

E de forma ainda mais sensível se exprime Ben-Sirá: «A água apaga o fogo ardente, e a esmola expia o pecado»[vi].

Encontramos a mesma síntese no Novo Testamento: «Mantende entre vós uma intensa caridade, porque o amor cobre a multidão dos pecados»[vii].

Esta verdade permeou profundamente a mentalidade dos Padres da Igreja, tendo exercido uma resistência profética como alternativa cultural face ao individualismo hedonista pagão.
Recordemos apenas um exemplo: «Tal como, em perigo de incêndio, correríamos a buscar água para o apagar (...), o mesmo deveríamos fazer quando nos turvamos porque, da nossa palha, irrompeu a chama do pecado; assim, quando se nos proporciona a ocasião de uma obra cheia de misericórdia, alegremo-nos por ela como se fosse uma fonte que nos é oferecida e na qual podemos extinguir o incêndio».[viii]

194. É uma mensagem tão clara, tão directa, tão simples e eloquente que nenhuma hermenêutica eclesial tem o direito de relativizar.

A reflexão da Igreja sobre estes textos não deveria ofuscar nem enfraquecer o seu sentido exortativo, mas antes ajudar a assumi-los com coragem e ardor.

Para quê complicar o que é tão simples?

As elaborações conceptuais hão-de favorecer o contacto com a realidade que pretendem explicar, e não afastar-nos dela.
Isto vale sobretudo para as exortações bíblicas que convidam, com tanta determinação, ao amor fraterno, ao serviço humilde e generoso, à justiça, à misericórdia para com o pobre.
Jesus ensinou-nos este caminho de reconhecimento do outro, com as suas palavras e com os seus gestos.

Para quê ofuscar o que é tão claro?

Não nos preocupemos só com não cair em erros doutrinais, mas também com ser fiéis a este caminho luminoso de vida e sabedoria. Porque «é frequente dirigir aos defensores da “ortodoxia” a acusação de passividade, de indulgência ou de cumplicidade culpáveis frente a situações intoleráveis de injustiça e de regimes políticos que mantêm estas situações»[ix].
195. Quando São Paulo foi ter com os Apóstolos a Jerusalém para discernir «se estava a correr ou tinha corrido em vão»[x], o critériochave de autenticidade que lhe indicaram foi que não se esquecesse dos pobres[xi].
Este critério, importante para que as comunidades paulinas não se deixassem arrastar pelo estilo de vida individualista dos pagãos, tem uma grande actualidade no contexto actual em que tende a desenvolver-se um novo paganismo individualista.
Nem sempre conseguimos manifestar adequadamente a própria beleza do Evangelho, mas há um sinal que nunca deve faltar: a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e lança fora.

196. Às vezes somos duros de coração e de mente, esquecemo-nos, entretemo-nos, extasiamo-nos com as imensas possibilidades de consumo e de distracção que esta sociedade oferece.
Gera-se assim uma espécie de alienação que nos afecta a todos, pois «alienada é a sociedade que, nas suas formas de organização social, de produção e de consumo, torna mais difícil a realização deste dom e a constituição dessa solidariedade inter-humana».[xii]

O lugar privilegiado dos pobres no povo de Deus

197. No coração de Deus, os pobres ocupam lugar preferencial, tanto que até Ele mesmo «Se fez pobre»[xiii].

Todo o caminho da nossa redenção está assinalado pelos pobres.

Esta salvação veio a nós, através do «sim» duma jovem humilde, duma pequena povoação perdida na periferia dum grande império.
O Salvador nasceu num presépio, entre animais, como sucedia com os filhos dos mais pobres; foi apresentado no Templo, juntamente com dois pombinhos, a oferta de quem não podia permitir-se pagar um cordeiro [xiv] cresceu num lar de simples trabalhadores, e trabalhou com suas mãos para ganhar o pão.
Quando começou a anunciar o Reino, seguiam-No multidões de deserdados, pondo assim em evidência o que Ele mesmo dissera: «O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres»[xv].

A quantos sentiam o peso do sofrimento, acabrunhados pela pobreza, assegurou que Deus os tinha no âmago do seu coração: «Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus»[xvi]; e com eles Se identificou: «Tive fome e destes-Me de comer», ensinando que a misericórdia para com eles é a chave do Céu[xvii].

198. Para a Igreja, a opção pelos pobres é mais uma categoria teológica que cultural, sociológica, política ou filosófica.

Deus «manifesta a sua misericórdia antes de mais» a eles.[xviii]
Esta preferência divina tem consequências na vida de fé de todos os cristãos, chamados a possuírem «os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus»[xix].

Inspirada por tal preferência, a Igreja fez uma opção pelos pobres, entendida como uma «forma especial de primado na prática da caridade cristã, testemunhada por toda a Tradição da Igreja».[xx]

Como ensinava Bento XVI, esta opção «está implícita na fé cristológica naquele Deus que Se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua pobreza».[xxi]
Por isso, desejo uma Igreja pobre para os pobres.
Estes têm muito para nos ensinar.
Além de participar do sensus fidei, nas suas próprias dores conhecem Cristo sofredor.
É necessário que todos nos deixemos evangelizar por eles.
A nova evangelização é um convite a reconhecer a força salvífica das suas vidas, e a colocá-los no centro do caminho da Igreja.
Somos chamados a descobrir Cristo neles: não só a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas, mas também a ser seus amigos, a escutá-los, a compreendê-los e a acolher a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles.

199. O nosso compromisso não consiste exclusivamente em acções ou em programas de promoção e assistência; aquilo que o Espírito põe em movimento não é um excesso de activismo, mas primariamente uma atenção prestada ao outro «considerando-o como um só consigo mesmo».[xxii]
Esta atenção amiga é o início duma verdadeira preocupação pela sua pessoa e, a partir dela, desejo procurar efectivamente o seu bem.
Isto implica apreciar o pobre na sua bondade própria, com o seu modo de ser, com a sua cultura, com a sua forma de viver a fé.
O amor autêntico é sempre contemplativo, permitindo- -nos servir o outro não por necessidade ou vaidade, mas porque ele é belo, independentemente da sua aparência: «Do amor, pelo qual uma pessoa é agradável a outra, depende que lhe dê algo de graça».[xxiii]
Quando amado, o pobre «é estimado como de alto valor»,[xxiv] e isto diferencia a autêntica opção pelos pobres de qualquer ideologia, de qualquer tentativa de utilizar os pobres ao serviço de interesses pessoais ou políticos.
Unicamente a partir desta proximidade real e cordial é que podemos acompanhá-los adequadamente no seu caminho de libertação.
Só isto tornará possível que «os pobres se sintam, em cada comunidade cristã, como “em casa”.

«Não seria, este estilo, a maior e mais eficaz apresentação da boa nova do Reino?»[xxv]

Sem a opção preferencial pelos pobres, «o anúncio do Evangelho – e este anúncio é a primeira caridade – corre o risco de não ser compreendido ou de afogar-se naquele mar de palavras que a actual sociedade da comunicação diariamente nos apresenta».[xxvi]

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] João XXIII, Carta enc. Mater et magistra (15 de Maio de 1961), 3: AAS 53 (1961), 402.
[ii] Mt 5, 7
[iii] 2, 12-13
[iv] Dn 4, 24
[v] Tb 12, 9
[vi] 3, 30
[vii] 1 Pd 4, 8
[viii] 160 Santo Agostinho, De catechizandis rudibus, I, XIV, 22: PL 40, 327
[ix] CONGR. PARA A DOUTRINA DA FÉ, Instr. Libertatis nuntius (6 de agosto de 1984), XI, 18: AAS 76
(1984), 907-908.
[x] Gal 2, 2
[xi] cf. Gal 2, 10
[xii] João Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 41: AAS 83 (1991), 844-845.
[xiii] 2 Cor 8, 9
[xiv] cf. Lc 2, 24; Lv 5, 7
[xv] Lc 4, 18
[xvi] Lc 6, 20
[xvii] cf. Mt 25, 34-40
[xviii] João Paulo II, Homilia durante a Santa Missa pela evangelização dos povos (Santo Domingo, 11 de Outubro de 1984), 5: AAS 77 (1985) 358.
[xix] (Fl 2, 5
[xx] João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 42: AAS 80 (1988), 572.
[xxi] Discurso na Sessão inaugural da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe (13 de Maio de 2007), 3: AAS 99 (2007), 450.
[xxii] São Tomás de Aquino, Summa theologiae II-II, q. 27, a. 2.
[xxiii] Ibid., I-II, q. 110, a. 1..
[xxiv] João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte (6 de Janeiro de 2001), 50: AAS 93 (2001), 303
[xxv] Ibid., I-II, q. 26, a. 3.
[xxvi] Ibid., 50: o. c., 303.