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06/04/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Páscoa

Evangelho: Jo 3, 16-21

16 «Porque Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu Seu Filho Unigénito, para que todo aquele que crê n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. 17 Porque Deus não enviou Seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. 18 Quem n'Ele acredita, não é condenado, mas quem não acredita, já está condenado, porque não acredita no nome do Filho Unigénito de Deus. 19 A condenação é por isto: A luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. 20 Porque todo aquele que faz o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de que não sejam reprovadas as suas obras; 21 mas aquele que procede segundo a verdade, chega-se para a luz, a fim de que seja manifesto que as suas obras são feitas segundo Deus».

Comentário:

Deve ser tão triste viver sem luz!
E perigoso!
E, talvez, mortal!
Deve ser triste, porque sem luz, não vemos por onde vamos e não podemos ser vistos.
Ficamos assim, erráticos e sozinhos.
Deve ser perigoso porque muito dificilmente podemos evitar obstáculos perigosos ou precipícios mortais.
Deve ser mortal porque sem luz ficamos nas trevas e, nas trevas não há vida!

(ama, comentário sobre Jo 3, 16-21, 2012.03.18)


Leitura espiritual


SANTO AGOSTINHO – CONFISSÕES

LIVRO NONO

CAPÍTULO X

O êxtase de Óstia

Estando já próximo o dia em que teria de partir desta vida – que tu, Senhor, conhecias, e nós ignorávamos – sucedeu, creio, por disposição dos teus ocultos desígnios – que nos encontrássemos sós, eu e ela, apoiados numa janela que dava para o jardim interior da casa em que morávamos. Era em Óstia, sobre a foz do Tibre, onde, longe da multidão, depois do cansaço de uma longa viagem, recobrávamos forças para a travessia do mar.

Ali, sozinhos, conversávamos com grande doçura, esquecendo o passado, ocupados apenas no futuro, indagávamos juntos, na presença da Verdade, que és tu, qual seria a vida eterna dos santos, que nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração do homem pode conceber. Abríamos ansiosos os lábios do nosso coração ao jorro celeste da tua fonte – da fonte da vida que está em ti – para que, banhados por ela, pudéssemos de algum modo meditar sobre coisa tão transcendente.

A nossa conversa chegou à conclusão que nenhum prazer dos sentidos carnais, por maior que seja, e por mais brilhante e maior que seja a luz material que o cerca, não parece digno de ser comparado à felicidade daquela vida em ti. Elevando o nosso sentimento para mais alto, mais ardentemente em direcção ao próprio Ser, percorremos uma a uma todas as coisas corporais, até o próprio céu, de onde o sol, a luz e as estrelas iluminam a terra.

E subimos ainda mais em espírito, meditando, celebrando e admirando as tuas obras, e chegamos até o íntimo das nossas almas. E fomos além delas, para alcançar a região da abundância inesgotável, onde apascentas eternamente Israel com o alimento da verdade, lá onde a vida é a própria Sabedoria, por quem foram criadas todas as coisas, as que já existem e as vindouras, sem que ela própria se crie a si mesma, pois existe agora como antes existiu e como sempre existirá. Antes, nela não há nem passado, nem futuro: ela apenas é, porque é eterna; mas ter sido ou haver de ser não é próprio do ser eterno.

E enquanto assim falávamos dessa Sabedoria e por ela suspirávamos, chegamos a tocá-la momentaneamente com supremo ímpeto do nosso coração; e, suspirando, deixando ali atadas as primícias do nosso espírito, e voltamos ao ruído vazio dos nossos lábios, onde nasce e morre a palavra humana, em nada semelhante ao teu Verbo, Senhor nosso, que subsiste em si sem envelhecer, renovando todas as coisas!

E dizíamos: Suponhamos que se calasse o tumulto da carne, as imagens da terra, da água, do ar e até dos céus; e que a própria alma se calasse, e se elevasse sobre si mesma não pensando mais em si; se calassem os sonhos e revelações imaginarias e, por fim, se calasse por completo toda a língua, todo o sinal, e tudo o que é fugaz – uma vez que todas as coisas dizem a quem sabe ouvi-las: Não fizemos a nós mesmas; fez-nos o que permanece eternamente – se, dito isto, todas se calassem, atentas ao seu Criador; e se só ele falasse, não pelas suas obras, mas por si mesmo, de modo que ouvíssemos a sua palavra, não por uma língua material, nem pela voz de um anjo, nem pelo ruído do trovão, nem por parábolas enigmáticas, mas o ouvíssemos a ele mesmo, a quem amamos nas suas criaturas, mas sem o intermédio delas, como agora acabamos de experimentar, atingindo num relance a eterna Sabedoria, que permanece imutável sobre toda realidade, e supondo que essa visão se prolongasse, que todas as outras visões cessassem, e unicamente esta arrebatasse a alma do seu contemplador, e a absorvesse e abismasse em íntimas delícias, de modo que a vida eterna seja semelhante a este momento de intuição que nos fez suspirar, não seria isto a realização do entrar no gozo do teu Senhor? Mas quando se dará isto? Por acaso quando todos ressuscitarmos? Mas então não seremos todos transformados?

Tais coisas dizíamos, embora não deste modo, nem com estas palavras. Mas tu sabes, Senhor, que naquele dia, à medida que falávamos dessas coisas, quanto nos parecia vil este mundo, com todos os seus deleites – disse-me minha mãe: “Filho, quanto a mim, já nada me atrai nesta vida. Não sei o que faço ainda aqui, nem por que ainda estou aqui, se já se desvaneceram para mim todas as esperanças do mundo. Uma só coisa me fazia desejar viver um pouco mais, e era ver-te católico antes de morrer. Deus concedeu-me esta graça superabundantemente, pois te vejo desprezar a felicidade terrena para servi-lo. Que faço, pois, aqui?”

CAPÍTULO XI

A morte de Mónica

Não me lembro bem o que respondi a tais palavras. Mas cerca de cinco dias mais tarde, ou pouco mais, caiu de cama, com febre. Durante a doença, teve um dia um desmaio, ficando por pouco tempo sem sentidos e sem reconhecer os presentes. Acudimos de imediato, e logo voltou a si. Vendo-nos a seu lado, a mim e a meu irmão (chamava-se Navígio, e era o mais velho dos irmãos), perguntou-nos, como quem procura algo: “Onde estava eu?” – Depois, vendo-nos atónitos de tristeza, disse-nos: “Sepultareis aqui a vossa mãe” – Eu calava-me, retendo as lágrimas, mas meu irmão disse umas palavras em que desejava vê-la morrer na pátria e não em terras distantes. Ao ouvi-lo, minha mãe repreendeu-o com o olhar, e aflita por ter pensado em tais coisas; depois, olhando para mim, disse: “Vê o que ele diz” – E depois para ambos: “Sepultem este corpo em qualquer lugar, e não se preocupem mais com ele. Peço apenas que se lembrem de mim diante do altar do Senhor, onde quer que estejam”. E tendo-nos exposto o seu pensamento com as palavras que pôde, calou-se; a sua moléstia agravou-se e as suas dores aumentaram.

Mas eu, ó Deus invisível, meditando nos dons que infundes no coração dos teus fiéis, e nas admiráveis colheitas que deles brotam, alegrava-me e dava-te graças. Lembrava-me do grande cuidado que sempre demonstrara acerca da sua sepultura, adquirida e preparada junto ao corpo do marido. Tendo vivido com ele na maior concórdia, assim também queria – visão própria da alma humana incapaz das coisas divinas – ter a felicidade de que os homens recordassem que, depois da sua viagem para além-mar, lhe fora concedida a graça de a mesma terra cobrir o pó de ambos os cônjuges.

Quando esta vaidade havia deixado de existir no seu coração, pela plenitude da tua bondade, eu não o sabia, mas alegrava-me com admiração ao ouvi-la falar assim. No entanto, naquela conversa à janela quando me disse: “Que faço eu aqui?” – já estava patente que não mais desejava morrer na pátria.

Soube também depois que em Óstia, estando eu ausente, falou certo dia com alguns amigos meus, com maternal confiança, sobre o desprezo desta vida e o benefício da morte. Eles, maravilhados com a coragem dessa mulher – dádiva tua – perguntaram-lhe se não temia deixar o corpo tão longe da pátria. “Nada está longe para Deus – disse ela – nem preciso temer que ele ignore, no fim dos tempos, o lugar onde me ressuscitará”.

Por fim, nove dias após cair enferma, aos cinquenta e seis anos de idade e aos trinta e três da minha, aquela alma santa e piedosa libertou-se do corpo.

(Revisão de versão portuguesa por ama)


15/04/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão)


Semana II da Páscoa

Evangelho: Jo 3 16-21

16 «Porque Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu Seu Filho Unigénito, para que todo aquele que crê n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. 17 Porque Deus não enviou Seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. 18 Quem n'Ele acredita, não é condenado, mas quem não acredita, já está condenado, porque não acredita no nome do Filho Unigénito de Deus. 19 A condenação é por isto: A luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. 20 Porque todo aquele que faz o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de que não sejam reprovadas as suas obras; 21 mas aquele que procede segundo a verdade, chega-se para a luz, a fim de que seja manifesto que as suas obras são feitas segundo Deus».

Comentário:

Está bem clara a razão da condenação eterna.

Não é Deus que condena mas sim o próprio homem que se auto-exclui da salvação e, Deus que é absolutamente justo não violenta a liberdade do homem e aceita as suas decisões mesmo que sejam impeditivas da sua felicidade eterna.

(ama, comentário sobre Jo 3, 16-21, 2014.04.30)

Leitura espiritual

a beleza de ser cristão

PRIMEIRA PARTE

O QUE É SER CRISTÃO?

I.            Relações que Deus estabelece com o homem.

O Catecismo da Igreja Católica apresenta assim todo o plano de Deus com o homem, plano que leva consigo as relações que vamos estudar ao longo das páginas deste livro.

«Deus, infinitamente Perfeito e Bem-aventurado em si mesmo, num desígnio de pura bondade criou livremente o homem para que tenha parte na sua vida bem-aventurada.
Por isso, em todo o tempo e em todo o lugar, está perto do homem. Chama-o e ajuda-o a procurá-lo, a conhecê-lo e a amá-lo com todas as suas forças. Convoca todos os homens, que o pecado dispersou, à unidade da sua família, a Igreja Fá-lo mediante o seu Filho, que enviou como Redentor e Salvador ao chegar a plenitude dos tempos. Nele e por Ele, chama os homens a ser, no Espírito Santo, seus filhos de adopção e, portanto, os herdeiros da sua vida bem-aventurada» [i]

Todos os planos de Deus com os homens têm origem e manifestam-se no Amor de Deus.

«Nisto se manifestou o amor que Deus nos tem; em que Deus enviou ao mundo o seu único Filho para que vivamos por meio dele. Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados»[ii].

«Ele amou-nos primeiro». Esta afirmação de São João indica-nos a ordem das relações entre Deus e os homens. Deus toma sempre a iniciativa.

São Paulo, consciente de que Deus ama o homem total, adianta-se à afirmação do Concilio Vaticano II acerca do homem, «única criatura na terra que Deus amou por si mesma»[iii].
Com efeito, São Paulo entende que esse amor de Deus afecta o homem em todos os planos da sua existência: vida natural, vida humana, vida espiritual-sobrenatural, e assim o confirma aos atenienses, ao recordar-lhes que Deus «não se encontra longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos»[iv].

Antes de continuar, é preciso que nos convençamos do seguinte. Só podemos vislumbrar alguma verdade, alguma ideia sobre Deus partindo da iniciativa do próprio Deus, que se nos manifesta em toda a criação. «Porque desde a criação do mundo, o invisível de Deus, o seu poder eterno e a sua divindade são conhecidos mediante as suas obras».[v]

Desde a criação do homem, a partir do hoje e agora da sua existência, é possível chegar a Deus, se Deus já não está de algum modo no próprio «ser» do homem e na sua própria existência.

Por outras palavras, Deus não é «inventável». O homem é capaz de «descobrir» Deus; é absolutamente incapaz de «o inventar», de «o criar».

Von Baltasar exprime esta realidade com estas palavras: «Desde que o homem vive na terra, existe o espírito, e com ele, o saber e a «ciência» e, portanto, a cultura e a técnica: o primeiro machado de pedra, o primeiro fogo e o primeiro sepulcro testemunham-no. Por mais atrás que possa voltar a tradição humana (e, quanto mais atrás, com maior pureza), o homem foi sempre um ser religioso, consciente de estear sob o poder divino, que tem de reconhecer e honrar, e de quem há-de esperar a salvação» [vi].

O facto de que o homem possa pensar em Deus é uma manifestação que Deus está presente na sua capacidade de conhecer, que está nele. Descobre, se assim podemos dizer, que já houve alguma relação de Deus com o homem.
O homem não pode pensar em nenhum «mais além» dele, se antes esse «mais além» não se tornou de alguma forma presente na sua inteligência.
E Deus, não como conceito ou como pressuposto para resolver a incapacidade humana. Sem Deus, o homem nem sequer descobriria em si próprio alguma incapacidade, pela simples razão de que a sua inteligência – no caso de realmente a ter – nunca lhe abriria horizontes mais para além do seu olhar.
Sem Deus, o homem jamais conheceria a angústia nem os seus horizontes se abririam até ao infinito e, muito menos, viveria o gozo, o amor.
Não é estranho tenham afirmado que o simples facto de o homem ser capaz de amar, de dar-se a si próprio, é um claro sinal da existência de Deus.

 Perguntamo-nos agora: Quais são essas relações que Deus quis estabelecer com o homem?

Dando por adquirido o conhecimento dos planos de Deus ao criar o mundo, que estão manifestados na Revelação e na Sagrada Escritura, podemos estabelecer de forma sistemática, e com a esperança que nos sirvam de guia, de referência e até o fio condutor ao longo do desenrolar de toda a exposição, as três realidades básicas que relacionam pessoalmente o homem com Deus, Uno e Trino; e a Deus com o homem; que nos foram reveladas em toda a sua plenitude e em toda a sua realidade, por Jesus Cristo Nosso Senhor.

Estas três relações, a que também poderíamos chamar as «obras de Deus no homem», são:

Relação com Deus Pai: a Criação. Relação com Deus Filho: a Redenção. Relação com Deus Espírito Santo, a Santificação. Ou seja, Deus trino relaciona-se e vincula-se com o homem, como Criador, como Redentor, como Santificador, na unidade de Deus Uno.

Um brevíssimo esquema do que supõe e comporta cada um destes vínculos poderia ser o seguinte, sem esquecer que a criação é obra comum das Santíssima Trindade.

Criação

- Relação de Deus Pai com o homem e, ao mesmo tempo, do homem com Deus Pai.
- Deus criou o mundo por amor.
-E criou o homem, à sua imagem e semelhança, para que o conheça, o ame, o sirva nesta vida e o goze depois eternamente no céu.
-Na criação, Deus fez o homem livre, elevou-o à ordem sobrenatural e deu-lhe a capacidade de ser seu filho.
- A reacção do primeiro homem: o pecado.

Redenção

- Relação de Deus Filho feito homem com o homem; do homem com Deus Filho feito homem.
- Cristo encarna, por amor ao homem, para libertar o homem do pecado; para o tornar partícipe da natureza divina; para lhe manifestar o amor de Deus Pai e para lhe servir de exemplo de vida. « Deus faz-se homem, para que o homem se faça Deus».
- A Graça. Viver em Cristo, por Cristo, com Cristo. Os Sacramentos. Filhos de Deus em Cristo: a filiação divina.

Santificação

- Relação de Deus Espírito Santo com o homem e do homem com Deus Espirito Santo. Deus vive no homem; o homem vive «em». Deus quer viver «com o homem», para que o homem viva «com Deus.
- O Espírito Santo torna possível que o homem possa viver «participando da natureza divina». O Espirito Santo é Deus «com» o homem.
- É a vida da graça – a «nova criatura» em Cristo -, que se manifesta no homem na Fé, na Esperança, na Caridade, configuradas pela acção dos Dons do Espirito Santo.
- Esta vida da graça transita por uns caminhos: os Mandamentos da Lei de Deus, vividos com a novidade de Cristo: o espírito das Bem-aventuranças.
- A vida da graça, vivida na Fé, na Esperança na Caridade, e seguindo os Mandamentos com o espírito das Bem-aventuranças, germina na conversão definitiva do homem – criatura, filho de Deus, santo – que fica expressa na presença dos frutos dons Espirito Santo no actuar humano.

(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)






[i] Catecismo n. 1.
[ii] 1 Jo 4, 10
[iii] Gaudium et spes, n. 24
[iv] Act 17, 28
[v] Rm 1, 20
[vi] hans urs von balathasar, El problema de Dio en el hombre actual, Guadarrama, Madrid 1960, I, I. p. 63.