13/06/2019

Leitura espiritual


CARTA ENCÍCLICA

HAURIETIS AQUAS

DO SUMO PONTÍFICE PAPA PIO XII
AOS VENERÁVEIS IRMÃOS PATRIARCAS, PRIMAZES,
ARCEBISPOS E BISPOS E OUTROS ORDINÁRIOS DO LUGAR
EM PAZ E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE O CULTO DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS



IV
NASCIMENTO E DESENVOLVIMENTO PROGRESSIVO
DO CULTO AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS


1)   Albores do culto ao sagrado coração na devoção às chagas sacrossantas da paixão


46. À vossa consideração, veneráveis irmãos, e à do povo cristão quisemos expor em suas linhas gerais a íntima natureza e as perenes riquezas do culto ao Coração Sacratíssimo de Jesus, atendo-nos à doutrina da revelação divina como à sua fonte primária.

Estamos persuadidos de que estas nossas reflexões, ditadas pelo próprio ensinamento do Evangelho, mostraram claramente como, em substância, este culto não é outra coisa senão o culto ao amor divino e humano do Verbo encarnado, e também o culto àquele amor com que o Pai e o Espírito Santo amam os homens pecadores.

Porque, como observa o Doutor angélico, a caridade das três Pessoas divinas é o princípio da redenção humana nisto que inundando copiosamente a vontade humana de Jesus Cristo e o seu coração adorável, com a mesma caridade o induziu a derramar o seu sangue para nos resgatar da servidão do pecado:

[1]

"Com um baptismo tenho de ser baptizado, e como me sinto oprimido enquanto ele não se cumpre!"[2].


47. Aliás, é persuasão nossa que o culto tributado ao amor de Deus e de Jesus Cristo para com o género humano, através do símbolo augusto do coração transfixado do Redentor, nunca esteve completamente ausente da piedade dos fiéis, embora a sua manifestação clara e a sua admirável difusão em toda a Igreja se haja realizado em tempos não muito distantes de nós, sobretudo depois que o próprio Senhor revelou este divino mistério a alguns de seus filhos após havê-los cumulado com abundância de dons sobrenaturais, e os elegeu para seus mensageiros e arautos.


48. De facto, sempre houve almas especialmente consagradas a Deus que, inspirando-se nos exemplos da excelsa Mãe de Deus, dos apóstolos e de insignes padres da Igreja, tributaram culto de adoração, de acção de graças e de amor à humanidade santíssima de Cristo, e de modo especial às feridas abertas no Seu corpo pelos tormentos da paixão salvadora.


49. Aliás, como não reconhecer nas próprias palavras:

"Senhor meu e Deus meu"[3], pronunciadas pelo apóstolo Tomé e reveladoras da sua súbita transformação de incrédulo em fiel, uma clara profissão de fé, de adoração e de amor, que da humanidade chagada do Salvador se elevava até a majestade da Pessoa divina?


50. Mas, ainda que o coração ferido do Redentor tenha sempre levado os homens a venerarem o Seu infinito amor a tempos sempre tiveram valor as palavras do profeta Zacarias que o evangelista João aplicou a Jesus crucificado:

"Verão a quem traspassaram"[4], todavia cumpre reconhecer que só gradualmente esse coração chegou a ser objecto de culto especial, como imagem do amor humano e divino do Verbo encarnado.


2)Princípio e progresso do culto ao Sagrado Coração na Idade Média e nos séculos seguintes


51. Querendo agora indicar somente as etapas gloriosas percorridas por este culto na história da piedade cristã, mister é recordar, antes de tudo, os nomes de alguns daqueles que bem podem ser considerados os porta-estandartes desta devoção, a qual, em forma privada e de modo gradual, se foi difundindo cada vez mais nos institutos religiosos.

Assim, por exemplo, distinguiram-se por haver estabelecido e promovido cada vez mais este culto ao Coração Sacratíssimo de Jesus:
São Boaventura, Santo Alberto Magno, Santa Gertrudes, Santa Catarina de Sena, Beato Henrique Suso, São Pedro Canísio e São Francisco de Sales.

A São João Eudes deve-se o primeiro ofício litúrgico em honra do Sagrado Coração de Jesus, cuja festa se celebrou pela primeira vez, com o beneplácito de muitos bispos de França, a 20 de Outubro de 1672.

Mas entre todos os promotores desta excelsa devoção merece lugar especial Santa Margarida Maria Alacoque, que, com a ajuda do seu director espiritual, o Beato Cláudio de la Colombière, e com o seu ardente zelo, conseguiu, não sem admiração dos féis, que este culto adquirisse um grande desenvolvimento e, revestido das características do amor e da reparação, se distinguisse das demais formas da piedade cristã.[5]


52. Basta essa evocação daquela época em que se propagou o culto do coração de Jesus para nos convencermos plenamente de que o seu admirável desenvolvimento se deve principalmente ao facto de se achar ele em tudo conforme com a índole da religião cristã, que é religião de amor. Por conseguinte, não se pode dizer nem que este culto deve a sua origem a revelações privadas, nem que apareceu de improviso na Igreja, mas sim que brotou espontaneamente da fé viva, da piedade fervorosa de almas prediletas para com a pessoa adorável do Redentor e para com aquelas suas gloriosas feridas, testemunhos do Seu amor imenso que intimamente comovem os corações. Evidente é, portanto, que as revelações com que foi favorecida Santa Margarida Maria não acrescentaram nada de novo à doutrina católica. A importância delas consiste em que – ao mostrar o Senhor o seu coração sacratíssimo – de modo extraordinário e singular quis atrair a consideração dos homens para a contemplação e a veneração do amor misericordioso de Deus para com o género humano. De fato, mediante manifestação tão excepcional, Jesus Cristo expressamente e repetidas vezes indicou o seu coração como símbolo com que estimular os homens ao conhecimento e à estima do seu amor; e ao mesmo tempo constituiu-o sinal e penhor de misericórdia e de graça para as necessidades da Igreja nos tempos modernos.


PIO PP. XII.


(Revisão da versão portuguesa por AMA)

Notas:



[1] Cf. Summa theol., III, q. 48, a. 5; ed. Leon., t. XI,1903, p. 467.
[2] Lc 12,50
[3] Jo 20,28
[4] Jo 19,37; cf. Zc 12,10
[5] Cf. Carta enc. Miserentissimus Redemptor: AAS 20(1928), pp.167-168.

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