26/06/2018

Tratado das virtudes


Questão 64: Do meio-termo das virtudes.

Art. 2 — Se o meio-termo da virtude moral é o meio-termo da razão ou o da coisa. [1]

O segundo discute-se assim. — Parece que o meio-termo da virtude moral não é o meio-termo da razão, mas o da coisa.

1. — Pois, o bem da virtude moral consiste em ser um meio-termo. Ora, o bem, como se disse [2], existe nas próprias coisas. Logo, o meio-termo da virtude moral é o da própria realidade.

2. Demais. — A razão é uma faculdade apreensiva. Ora, a virtude moral não consiste no meio-termo das apreensões, mas antes, no das obras e das paixões. Logo, o meio-termo da virtude moral não é o racional mas, o real.

3. Demais. — O meio-termo de urna proporção aritmética ou geométrica é o da realidade. Ora, tal é o meio-termo da justiça, corno se disse [3]. Logo, o meio-termo da virtude moral não é o racional, mas o real.

Mas, em contrário, diz o Filósofo, que a virtude moral consiste num meio-termo relativo a nós, conforme a razão o determina [4].


O meio-termo racional pode ser entendido em duplo sentido. — Num primeiro sentido, consiste no próprio acto da razão, este sendo como reduzido a um termo médio. E assim, como a virtude moral não aperfeiçoa o acto da razão, mas o da virtude apetitiva, o meio-termo da virtude moral não é o da razão. — Noutro sentido, pode chamar-se meio-termo da razão, aquilo que ela estabelece numa determinada matéria. E assim, todo meio-termo da virtude moral é meio-termo da razão, porque, como já dissemos [5], a virtude moral consiste num meio-termo por conformidade com a razão recta.

Umas vezes porém sucede que o meio-termo da razão é também o real; e então necessariamente o meio-termo da virtude moral é o mesmo da realidade; e tal é o caso da justiça. Outras vezes contudo o meio-termo da razão não é o da realidade, mas é relativo a nós, e tal é o caso de todas as outras virtudes morais. E isso porque a justiça versa sobre os actos relativos a coisas exteriores, e cuja rectidão deve ser estabelecida absolutamente e em si mesma considerada, como já dissemos [6]. E portanto, o meio-termo racional da justiça coincide com o da causa, a saber enquanto ela dá a cada um o que lhe é devido, nem mais nem menos. Ao passo que as demais virtudes morais versam sobre as paixões internas, cuja rectidão não pode ser estabelecida do mesmo modo, porque as paixões humanas se manifestam de modos diversos. Donde é necessário que a rectidão da razão, no concernente às paixões, seja estabelecida por uma relação connosco, que somos afectados pelas paixões.

E daqui se deduzem as RESPOSTAS ÀS OBJECÇÕES
— Pois, as duas primeiras fundam-se no meio-termo da razão existente no próprio acto desta.
— E a terceira funda-se no meio-termo da justiça.

Revisão da versão portuguesa por AMA



[1] (IIª-IIªe, q. 58. a. 10; III Sent., dist. XXXIII, q. 1, a. 3. qª 2; De Virtut., q. 1, a.13).
[2] VI Metaph. (lect. IV).
[3] V Ethic., lect. V, VII.
[4] Q. 64, a. 1.
[5] II Ethic., lect. VII.
[6] Q. 60, a. 2.