27/05/2017

Leitura espiritual

A CIDADE DE DEUS 2

Vol. 2

LIVRO XIV

CAPÍTULO XVI

Do mal do libido, cujo nome, embora convenha a muitos vícios, está, todavia, reservado, em sentido próprio, aos movimentos da paixão obscena.

Embora haja desejos (libido, pl. libidines) de muitas coisas, todavia, quando se fala de libido, sem se acrescentar de que coisa é «desejo», pensa-se quase sempre na excitação das regiões pudendas do corpo. Este desejo apodera-se não só do corpo todo, exterior e interiormente, mas agita também o homem todo, unindo e misturando as paixões da alma e as apetências carnais para esta volúpia, a maior de todas entre os prazeres do corpo; e isto de tal forma que, no momento de chegar à sua plenitude, como que se aniquila a agudeza e a consciência do pensamento. Qual é o amigo da sabedoria e das santas alegrias que, praticando a vida conjugal, mas em conformidade com o conselho do Apóstolo:

Sabendo possuir o seu corpo na santidade e no respeito, não na paixão do desejo como entre os gentios que não conhecem a Deus,[i]

qual é este amigo da sabedoria que não preferiria, se pudesse, gerar filhos sem este «libido», de modo que, mesmo na função de os gerar, os órgãos, criados para essa função, permanecessem submetidos ao espírito, como submetidos ao espírito estão os outros órgãos nas suas respectivas funções e movidos por um sinal da vontade e não pelo ardor da volúpia? Mas nem mesmo os que se entregam a esta volúpia se sentem excitados quando querem, quer na união conjugal quer nas impurezas da devassidão. Às vezes esta emoção é inoportuna, surge sem ser solicitada; outras vezes abandona o que arde em desejo: a alma arde em desejo e o corpo fica gelado. Assim — coisa estranha! — não é só à vontade de gerar que a paixão se recusa a obedecer, mas à própria paixão de gozar. E embora, na maior parte das vezes, se oponha ao espírito que a refreia, vezes há em que se divide contra si própria agitando a alma sem agitar o corpo.

CAPÍTULO XVII

Da nudez que os primeiros homens, após o pecado, consideraram torpe e vergonhosa.

É com razão que se sente vergonha principalmente desta paixão. E também com razão que se chamam «vergonhosas» as regiões ou órgãos que esta paixão excita ou não, por assim dizer, segundo as suas leis e não precisamente como nós quereríamos. Não fora assim antes do pecado:

Estavam nus e não se sentiam embaraçados.[ii]

Não é que a nudez lhes passasse desapercebida — é que a nudez não era ainda vergonhosa; é que a paixão ainda não agitava os seus membros sem seu consentimento e a desobediência da carne de certo modo ainda não prestava testemunho contra a desobediência do homem para a rebater. Mas não foram criados cegos como julga um vulgar ignorante. Adão viu os animais; pôs-lhes nomes. E lê-se acerca da mulher:

A mulher viu que o fruto era bom para comer e agradava aos olhos para ver.[iii]

Os seus olhos estavam, portanto, abertos. Mas não estavam abertos para isso, isto é, não estavam atentos para conhecerem o que neles cobria a veste da graça quando ignoravam a resistência dos seus membros à vontade. Uma vez perdida esta graça, para castigar esta desobediência com pena correspondente, surgiu nos movimentos do corpo certa impudente novidade que tornou indecente a nudez, os tornou a ela atentos e os encheu de confusão Foi por isso que, após a evidente transgressão do mandamento de Deus, foi a este respeito escrito:

Abriram-se os olhos de ambos, apercebendo-se de que estavam nus e coseram folhas de figueira e fizeram para si umas tangas (campestria).[iv]

«Abriram -se os olhos de ambos», diz-se, não para verem, pois já antes viam, mas para discernirem entre o bem que tinham perdido e o mal em que tinham caído. Por isso é que a própria árvore destinada a comunicar-lhes esse discernimento, se, apesar da proibição, comessem do seu fruto, tomou daí o seu nome: chamou-se a árvore da ciência do bem e do mal. Realmente, a dolorosa experiência da doença torna mais sensível o encanto da saúde.

«Aperceberam -se de que estavam nus», isto é, despidos dessa graça que os impedia de terem vergonha da sua nudez quando neles nenhum a lei de pecado se opunha ao espírito. Desta forma aprenderam o que felizmente ignorariam se, crendo em Deus e obedecendo-lhe, não cometessem o que os coagiu a experimentar os efeitos nocivos da infidelidade e da desobediência. Por isso, confundidos ao verem a desobediência da carne como testemunho do castigo da sua desobediência, coseram folhas de figueira e para si fizeram umas campestria, isto é, succintoria (faixas) com o escrevem certos tradutores. (Campestria é uma palavra latina cuja origem procede do facto de os jovens cobrirem as regiões pudendas quando se exercitavam no Campo de Marte. Por isso o povo chamava campestrati — cobertos com tanga — aos que assim se tapavam). E assim, o que a paixão (libido) excitava contra vontade em punição da sua própria desobediência, tapava-o envergonhado odor. Daí que todos os povos, desta estirpe originários, têm tão arreigada tendência para cobrirem as suas vergonhas que alguns bárbaros nem nos banhos desnudam essas artes do corpo e lavam-se com vestuário próprio. Nas sombrias solidões da índia alguns homens que filosofam nus (daí o nome de gimnosofistas) trazem, no entanto, nessas regiões uma cobertura que não usam nas outras partes.


(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] I Tessal., I V, 4 - 5.
[ii] Gén., II, 25.
[iii] Gén., III, 6.
[iv] Gen., III, 7.

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